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Economia Regional e Urbana aplicada ao Brasil_IPEA

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APLs e, ainda, reforça o argumento central 
desta seção: a generalização do conceito e a banalização da política. Enfim, 
aglomerações produtivas podem ser criadas ou devemos apoiar as existentes? Nesse 
ambiente de políticas produtivas para a baixa renda, há as experiências de economia 
solidária (CARLEIAL e PAULISTA, 2006), especialmente aquelas voltadas para 
cooperativas populares. Como será, então, a articulação entre a economia solidária 
e os APLs de baixa renda? Como articular práticas assistencialistas e estímulos à 
produção? Qual o papel do microcrédito nesse cenário?
Registre-se aqui que nossa crítica decorre de uma generalização da aplicação 
de um conceito a toda e qualquer aglomeração produtiva, gerando uma banalização 
da política e desgastando elementos e instrumentos de ação que poderiam ser 
melhor aproveitados. Essa prática parece sugerir que a política para APLs seria 
uma solução mais fácil para o desenvolvimento com inclusão social. No entanto, 
as exigências do desenvolvimento são bem mais complexas. 
O Brasil é um país diverso e, certamente, comporta algumas possibilidades 
de atuação da política pública que o levem a atingir o seu pleno desenvolvimento 
econômico e social. Entretanto, parece ser necessário que as políticas dialoguem 
entre si e que se explicitem as possibilidades e os limites de cada uma delas. 
Essa ponderação é ainda mais relevante no momento em que o país recebe 
importantes investimentos, cuja territorialidade contempla as regiões mais 
empobrecidas, como as regiões Norte e Nordeste. Esses investimentos podem ainda 
ser completados e, assim, alterarem de forma significativa as estruturas produtivas 
regionais, as quais podem passar a acolher atividades de mais alto conteúdo 
tecnológico, mais competitivas e com maiores chances de inserção internacional. 
Nesse sentido, não se pode considerar pertinente buscar transformar essas regiões 
em “canteiros” de APLs.25
24. Discurso de abertura apresentado sob a forma de mensagem gravada aos participantes do seminário Análise das 
Políticas de APLs no Brasil, realizado de 18 a 21 de maio de 2010, na sede do BNDES, no Rio de Janeiro. 
25. Neste artigo, tomo emprestado essa expressão, usada informalmente pela economista Tânia Bacelar.
Economia regional e urbana132
Outro alerta é quanto à visão de que os APLs são uma boa solução para as 
dificuldades das pequenas e médias empresas. Uma firma de porte pequeno tem 
diferentes necessidades e possibilidades se essa firma for ou não fornecedora de uma 
grande empresa ou sua subcontratada em comparação a uma pequena firma isolada. 
É relevante lembrar que, nas pistas fornecidas pela discussão dos sistemas 
regionais de inovação, a atuação da política pública para favorecer a interação entre 
os agentes envolvidos deve se fazer sobre o tecido produtivo de uma dada região, 
incorporando empresas de diferentes portes, ou seja, grandes, médias e pequenas. 
Como se sabe, a dinâmica capitalista é comandada por grandes empresas, 
entretanto, em alguns casos, essa dinâmica também beneficia as pequenas e médias 
empresas, dependendo da natureza do relacionamento estabelecido entre elas. 
Assim, dada a argumentação desenvolvida nesta seção, considera-se que, para 
enfrentar o desafio colocado pela necessária construção de sistemas regionais de 
inovação que contribuam decisivamente para o desenvolvimento socioeconômico 
das diferentes regiões, pouco adianta minimizar as dificuldades e criar facilidades 
para a ação da política pública. A política precisa ter estratégias e instrumentos à 
altura do desafio.
6 CoNSidErAÇõES FiNAiS
A análise neoschumpeteriana da inovação é rica em ensinamentos para o de-
senvolvimento regional. Esse é um processo social que envolve várias instân-
cias e não apenas a firma. A base produtiva que existe no país, região ou 
território é o ponto de partida.
Mesmo que consideremos a firma como o locus preferencial para a concreti-
zação da inovação e de sua consequente transformação em produto, processo, for-
mato organizacional etc., isso só se torna possível em razão de um longo processo 
que lhe antecede. A pesquisa básica e a pesquisa aplicada dependem não somente 
de pesquisadores, mas também de: i) um conjunto de técnicos bem formados que 
auxiliem no processo; ii) cursos técnicos, de nível profissional e médio, que pos-
suem grande relevância no processo; iii) órgãos governamentais, que estimulam 
e(ou) financiam a inovação; iv) o nível da pesquisa desenvolvida pelas universida-
des e laboratórios; e v) a relação que cada firma possui com parceiros, os processos 
de aprendizados implementados, a qualificação de seus trabalhadores e gerentes, 
a ação da política pública macroeconômica e setorial etc. 
Assim, a história de cada país, de cada região ou território interessa para 
pensar a inovação; contam também a ambiência e as instituições, no seu sentido 
mais amplo, e finalmente, a sinergia e as interações que existem ou que podem vir 
a existir, se estimuladas. 
A contribuição Neosschumpeteriana e o desenvolvimento regional 133
A ampliação da base produtiva industrial brasileira que está ocorrendo, 
a partir dos investimentos em curso hoje no país, bem como a expansão das 
universidades federais e dos institutos tecnológicos criam as condições para o 
início da construção articulada dos sistemas nacional e regionais de inovação. 
Tais construções só são possíveis no longo prazo, uma vez que as interações 
necessárias para a consecução do desenvolvimento e da inovação demandam 
aprendizado, tempo de maturação e eficácia da política pública. No caso brasileiro, 
exige-se também a incorporação das especificidades da nossa estrutura produtiva, 
dominada por empresas estrangeiras que inovam apenas nos seus países de origem, 
contribuindo para uma baixa capacidade inovativa no conjunto da indústria. 
Exige-se também a incorporação das especificidades do subdesenvolvimento, que 
gera uma heterogeneidade produtiva e contribui para um padrão de distribuição 
de renda concentrado. Ou seja, a política pública precisa incorporar essa realidade 
e construir institucionalidades que quebrem esse círculo vicioso impeditivo da 
expansão de práticas inovativas. 
O país vive um momento muito especial, retratado na retomada do cres-
cimento econômico, na ampliação dos investimentos e da ampliação do nosso 
mercado interno. Destacam-se setores produtivos, tais como o petróleo e gás, a 
extrativa mineral e a metal-mecânica, cujos investimentos se fazem também fora do 
eixo Rio de Janeiro-São Paulo, favorecendo o desenvolvimento regional brasileiro.
Considere-se o exemplo apenas da cadeia do petróleo e gás. Recentemente, o 
chefe de acompanhamento econômico do BNDES, Fernando Puga, afirmou que 
o total de investimentos no país, entre 2010 e 2013, deve atingir R$ 2,9 trilhões, 
valor próximo ao PIB brasileiro. Deste total, R$ 1,3 trilhão será aplicado na 
indústria de transformação, no setor de petróleo e gás e em obras de infraestrutura, 
com destaque para a energia; tais investimentos têm a capacidade de ampliar a taxa 
de investimentos em relação ao PIB para 22% em 2013. 26
Ainda segundo o BNDES, só o setor de petróleo e gás vai liderar os 
investimentos no país, e, em 2014, deverá ser responsável por 14% da formação 
bruta de capital fixo, quando, em 2000, essa participação não ultrapassava os 6%. 
Adicionalmente, até 2020, a produção de petróleo no país deverá dobrar.
Nos planos da Petrobras, além da Refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca, no 
porto de Suape, em Pernambuco, serão construídas uma refinaria no Ceará e outra 
em Bacabeiras, no Maranhão. Como é sabido, a cadeia produtiva do petróleo 
e gás, envolvendo prospecção, exploração e distribuição, já vem estimulando a 
produção de navios-sonda, petroleiros, plataformas e embarcações de apoio e, 
portanto, reativando a indústria naval brasileira. Mas esses investimentos