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conforme decidida na segunda-feira. Não há qualquer descrição analítica do que ocorre durante a semana, precisamente porque isso 
não tem qualquer importância nessa linha de abordagem.
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de coordenação de suas ações suficiente para garantir a consistência e a replicabi-
lidade desse padrão de relacionamento. Nem Smith nem, na verdade, qualquer 
outro autor clássico ou posterior foi realmente capaz de demonstrar essa afirmação, 
que é assumida como pressuposto, em vez de provada como resultado.3 O ideal de 
replicabilidade, de qualquer forma, implicaria a regularidade de comportamentos. 
Para tanto, era necessário identificar leis de comportamento. A existência de regu-
laridades na atividade econômica privada seria sinal de consistência interna, em 
contraposição à existência de regularidades causadas pela ação de algum agente 
externo, como o Estado.
A identificação de leis implica a possibilidade de separação entre relações 
essenciais, que se manifestam regularmente, e acidentais, que não seguem padrões 
estabelecidos. Essa separação é obtida, em ciências naturais, no laboratório, que 
nada mais é que uma construção artificial onde se testam hipóteses sobre o que 
constitui uma relação essencial simplesmente pela eliminação deliberada da 
influência daquilo que se julga acessório. A impossibilidade (ou, pelo menos, a 
limitação) do uso de métodos dessa natureza em ciências sociais levou a economia 
política clássica a adotar uma hipótese heróica: a da neutralidade do curto período. 
A atividade econômica estaria a cada momento obedecendo a forças essenciais e 
a forças acidentais. As primeiras seriam regulares, sistemáticas e exerceriam um 
impacto identificável sobre a atividade. As últimas seriam erráticas, imprevisíveis 
na sua ocorrência e no seu impacto. Assim, a atividade econômica a cada momento 
estaria sujeita a estímulos variados, combinações complexas de forças essenciais e 
acidentais. Os elementos acidentais, porém, não seriam sistemáticos (por definição) 
e, por isso, seu efeito teria duração curta. A observação histórica, nesse sentido, 
permitiria separar o essencial do acidental, observando-se as regularidades que 
marcariam o que é sistemático.
A economia política clássica se apoiou, portanto, numa espécie de neutralidade 
do curto período, no sentido de que o que acontecesse a cada momento seria o 
resultado não apenas de forças sistemáticas, mas também de todos esses choques 
acidentais que têm lugar o tempo todo. No longo período, apenas os elementos 
essenciais ocorreriam com a freqüência necessária para permitir a identificação das 
regularidades que seriam, então, qualificadas de leis.
A perspectiva historicizante do método clássico, naturalmente, se coadunava 
perfeitamente com a própria escolha de objeto dessa corrente. Desde Smith, para 
tomarmos um ponto de partida relativamente arbitrário na literatura, que a preo-
cupação da economia política clássica voltou-se prioritariamente para o processo de 
3. a mão invisível é uma metáfora, não uma prova, da consistência mútua de operações livremente decididas por agentes privados.
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13CRESCIMENto ECoNÔMICo: EStRatÉGIaS E INStItuIÇÕES
acumulação de capital. O foco da investigação de Smith não era propriamente por 
que algumas sociedades são ricas, mas por que elas enriquecem, e isto prosseguiu 
em Ricardo e Marx. A utilização de uma concepção de tempo histórico, portanto, 
na economia política clássica obedeceu a uma dupla demanda: a busca de iden-
tificação de leis através da repetição ao longo do tempo, e a postulação de que as 
leis relevantes eram leis de movimento, isto é, concepções de processos sistemáticos 
característicos das economias baseadas na atividade privada individual.
No que concerne mais diretamente à presente discussão, a principal impli-
cação do que acaba de ser proposto é que na economia política clássica não existe 
nenhuma influência relevante do que ocorre no curto período sobre o que ocorre 
no longo. O curto período, na verdade, é considerado ininteligível, exatamente 
porque não é possível estabelecer causalidades com relações que são acidentais em 
natureza. Isto se estabelecerá, por exemplo, na discussão da relação entre preços 
naturais e de mercado, como em Smith e Ricardo, onde os segundos gravitam em 
torno dos primeiros, sem contudo afetá-los.4
Para usar uma linguagem mais contemporânea, poder-se-ia dizer que o que 
ocorre no longo período depende apenas dos fatores tendenciais, sem qualquer 
influência de elementos conjunturais, cujo impacto seria apenas momentâneo. Na 
verdade, o curto período não é, nem pode ser, sequer objeto de teoria.5
3 MARSHALL E A INVENÇÃO DO TEMPO EM ECONOMIA
A ênfase da economia política clássica nas condições de produção foi sucedida, 
nos primeiros salvos do que viria a ser a revolução neoclássica, pela ênfase na 
formação da demanda por bens e serviços através da análise do comportamento 
de consumidores individuais. Este não é o lugar, naturalmente, para examinar as 
razões e resultados da reação neoclássica. O que importa é que a contraposição 
entre duas proposições radicalmente diferentes (a proposição clássica de que o 
valor das mercadorias depende de suas condições de produção e a proposição 
neoclássica de que o valor das mercadorias depende de sua utilidade, direta ou 
indireta, para consumidores) foi o mote para Marshall criar sua famosa “tesoura”, 
o modelo de oferta e demanda que se tornou segunda natureza para economistas 
modernos. Nesse modelo, oferta e demanda interagem para determinar os preços 
e as quantidades transacionadas de equilíbrio para cada mercadoria.
4. Marx, como sempre, recusa a linguagem naturalizante adotada por Smith e Ricardo, mas propõe basicamente a mesma relação entre 
valor e valor de mercado ou entre preço de produção e preço de mercado.
5. Isto permanece assim em abordagens que se propõem como continuadoras dos métodos clássicos. por exemplo, Eatwell (1977, p. 64), 
um expoente do neoricardianismo, observa que “acreditava-se que preços de mercado fossem influenciados por uma gama de forças 
– como incerteza, quebra de safra e monopólio, entre outras – e que por isso não poderiam ser analisados como resultantes de forças 
sistemáticas, como era o caso dos preços naturais.” ( ênfase minha). 
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Oferta e demanda são essenciais para a determinação de preços, argumentava 
Marshall, do mesmo modo que são necessárias as duas lâminas de uma tesoura 
para cortar um objeto. Ambas as forças estão presentes em todos os momentos, 
mas, e esta percepção está na raiz da inovação dramática introduzida por Marshall 
na teoria econômica, seu impacto sobre a formação de preços não é o mesmo em 
diferentes momentos. A interação entre oferta e demanda é mais complexa do 
que a simples contraposição estática entre duas forças opostas, mas imutáveis. 
Na verdade, propôs Marshall, tanto demanda quanto oferta tendem a mudar, em 
parte endogenamente, mas, e é o que realmente nos importa aqui, também assin-
cronicamente. Foi exatamente para lidar com essa assincronia, isto é, com o fato de 
que condições de produção e demanda variam de forma independente, inclusive 
temporalmente, que Marshall introduziu explicitamente tempo como instrumento 
analítico na teoria econômica.
Em Marshall, reconhecer a temporalidade dos processos econômicos não 
se resume à trivial constatação de que certos comportamentos são datados, ou à 
simples indexação de intervalos arbitrariamente definidos.6 A solução de Marshall 
foi, na verdade, bastante complexa, introduzindo dois conceitos centrais diversos, 
o de prazo e o de período. Estes conceitos seriam depois cruciais na consideração 
da temporalidade dos processos econômicos na teoria de Keynes.7
Em relação ao tema deste capítulo, o que interessa frisar, inicialmente, é 
que a análise de Marshall contrapôs