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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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diferentes. Uma delas é a conhecida via do sistema de ensino de agrupar as 
disciplinas em departamentos e unidades mais amplas, como faculdades e escolas. 
Esse é o caminho profissional das universidades que, ao tentar combinar o ensino 
generalizante com a pesquisa especializada, são levadas a instalar, junto com as 
disciplinas, verdadeiros cartórios.
52 Complexidade e Desenvolvimento
Outra via é o fomento de pesquisas que façam interface com várias áreas 
do conhecimento em vista de objetivos comuns, como a solução de problemas 
técnico-científicos, e a produção de artefatos tecnológicos.
Outra é o incentivo, na esteira dos programas de pesquisa, de abordagens 
inter, multi e, mais recentemente, transdisciplinares. Dando ensejo à criação de 
escolas de altos estudos, laboratórios de pesquisas, e institutos de estudos avan-
çados, como os Institutos de Estudos Avançados (IEAs) de Princeton e da Uni-
versidade de São Paulo (USP), que têm uma proposta interdisciplinar, além do 
IEA da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que tem uma proposta 
transdisciplinar.
Na mesma linha, Edgar Morin propôs recentemente, após uma longa e pa-
ciente defesa da causa da religação dos saberes, algo como um dízimo de transdis-
ciplinaridade, de 10%, a que as universidades e os centros de pesquisas deveriam 
se dedicar. Voltarei a Morin, mais à frente.
Gostaria de acrescentar outros traços do panorama atual do conhecimento, 
para completar o quadro, avançar nos meus argumentos e chegar até o ponto que 
concerne ao Ipea.
Até agora, enfatizei um único ponto, a inflação do conhecimento, que é im-
portante, mas não o único: número de publicações, livros, papers e a dificuldade 
notória de acompanhar o que se passa em sua área de especialidade e, pior ainda, 
no conjunto do sistema dos saberes. Dito isso, gostaria de falar um pouco sobre 
as consequências, chamando a atenção para outros pontos associados à inflação 
do conhecimento. 
A primeira consequência é a perda da visão do todo; ninguém mais consegue 
visualizar o todo, em razão da ultraespacialização e da ultrafragmentação do saber. 
A segunda é a impressão da falta de relevância e a perda de densidade em razão da 
expansão horizontal e vertical do conhecimento, resultando na multiplicação de 
áreas e subdisciplinas em que imperam o conhecimento do detalhe, o especialista 
do pormenor, gerando o paradoxo de Bertrand Russell, o indivíduo que sabe tudo 
de nada, como nos casos dos especialistas das libélulas do cerrado, ou da borbo-
leta azul da Mata Atlântica. 
A terceira consequência, o duplo fim e o ocaso do intelectual generalista que 
sabia de tudo um pouco, e fornecia a grande suma do saber, como Descartes e Kant, 
e do perito, do expert, o especialista, que hoje não consegue mais dar conta do que 
acontece no interior do seu campo de especialidade, como mostrado antes.
Desde o início da Era Moderna, o sistema do saber havia decretado o fim do 
generalista e do sábio de horizontes largos, erudito, artista, cientista, pensador e 
filósofo, quando o expert passou a ocupar o seu lugar; agora é o especialista, que 
53Complexidade e pluralismo metodológico
tudo sabia de seu pedaço, inquieto, que se vê com os dias contados. Trata-se de 
algo virtual, mas sua consumação é certa e mera questão de tempo. E certamente 
não muito tempo, podemos dizer.
Há outros traços do saber contemporâneo que gostaria de salientar. Até 
agora falei apenas do panorama. Alguns desses traços entram em choque com a 
proliferação e a fragmentação do conhecimento, alimentando uma visão menos 
unidimensional e, ao mesmo tempo, mais complexa do estado de coisas. Esses 
traços são de duas ordens pouco conhecidas do público leigo, mas reais e atuais.
Por um lado, no plano mais teórico, acima das disciplinas e especialidades, 
nós temos a busca da unificação do saber em teorias abrangentes e ciências pi-
loto e paradigmáticas. Esse foi o caso da física, com seu paradigma fisicalista ou 
newtoniano que, em diferentes momentos, deram ensejo a vários projetos redu-
cionistas de unificação do saber, tomando a física como disciplina piloto, e tendo 
como objetivo maior reduzir as disciplinas à mecânica. Inclusive disciplinas das 
ciências humanas.
Por outro lado, à medida que a ciência nova e o paradigma newtoniano foram 
se expandindo e se estendendo a novos domínios do real, vimos a emergência de 
zonas de instabilidade e refratárias à redução. É o caso da física einsteiniana e da 
física quântica, bem como, numa escala e profundidade maiores ainda, da bio-
logia. Foi então, no rastro desse estado de coisas, marcadas por duas tendências 
díspares e impossíveis de harmonizar, que estudiosos de várias áreas da física, da 
biologia e das ciências humanas passaram a falar de mudança de paradigma e novas 
abordagens do real, menos reducionistas e simplificadoras, e mais condizentes 
com a situação do conhecimento, da experiência e da pesquisa.
Sem poder aprofundar o exame dessa nova situação, caracterizada pela co-
existência e conflito entre as duas visões do conhecimento e da ciência que estão 
em choque, dando lugar a práticas e atitudes não só diferentes, mas discrepantes, 
vou me limitar a apresentar e resumir as tendências e as características daquilo 
que, por comodidade, estou chamando de panorama do conhecimento atual.
Primeiro, um elemento importante é a mudança de paradigma. Mas qual é 
a mudança? É a passagem da física à biologia como ciência piloto, como ciência 
paradigmática. Na segunda metade do século XX, a ciência paradigmática é a 
biologia. Sem dúvida é ela que comanda e deverá comandar toda a cena do co-
nhecimento durante todo o século XXI, com certeza.
Temos também, envolvendo ainda a mudança do paradigma, a passagem do 
reducionismo ao holismo – palavra perigosa essa que leva a alguns tipos de misti-
cismo, como o de Capra – mas que pode ter alguma utilidade ao reter a ideia de 
todo ou totalidade, de acordo com a etimologia grega. Um dos exemplos que se 
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encaixam nesse novo paradigma é a teoria dos sistemas, cujo primeiro grande ex-
poente foi Karl Ludwig von Bertalanffy, e a ciência da complexidade, cujo grande 
expoente é Edgar Morin. Não sou moriniano de carteirinha, estou apenas dando 
exemplos aceitos por muitos.
Um ponto que eu destacaria seria a ideia de diversidade metodológica, a 
renúncia a uma metodologia. O que funciona é o conjunto de parâmetros e al-
goritmos que deverá ser flexionado e recalibrado ao se passar de um campo de 
estudos para outro. 
Outro item que acusa a mudança de paradigma é o favorecimento de expe-
riências multi, inter e transdisciplinares. A multidisciplinaridade é caracterizada 
pela justaposição de múltiplas disciplinas; a inter, pela interação das disciplinas; e 
a trans, pela fusão de disciplinas.
Eu já tratei desse tema em outros trabalhos, inclusive discutindo iniciativas 
como o Projeto Apolo, Manhattan, o Instituto Pasteur, a Escola de Sagres, 
o programa de inteligência artificial do Massachusetts Institute of Technology 
(MIT) etc. são exemplos que demonstram esse tipo de experiência multi, inter e 
transdisciplinar.
Outro traço que sinaliza a busca de novas experiências são as chamadas ciências 
híbridas: bioquímica, biofísica, bioinformática; bioética, biodireito, sociobiologia, 
sociolinguística, etnomusicologia, etnobotânica, muitas ciências híbridas.
Outra característica é a tentativa de aproximação da ciência com a tec-
nologia, a arte e a filosofia. Esse esforço marca muitas experiências no saber 
contemporâneo.
A base, no entanto, segue sendo a disciplina. Disciplina é uma palavra suspeita. 
Ela surgiu no fim da Idade Média, com uma acepção moral, designando em francês 
uma espécie de chicote, usado em castigo a indivíduos para discipliná-los e enquadrá-
los. Mas depois foi metaforizado, passando a designar áreas