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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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do saber e campos do 
conhecimento. E hoje dá ensejo a novas experiências nos campos do conhecimento, 
menos ciumentas e exclusivas. Porém, tendo unidade focal e ponto de partida. É apro-
fundando a disciplina – eu sublinho isso – que se chega ao multi, ao inter e ao trans. 
Ninguém está falando de contradisciplina ou antidisciplina. 
Tentarei agora preparar já o fim de minha preleção. Até o momento falei 
sobre teoria. Gostaria de falar agora um pouco sobre metodologia, ligada ao pro-
blema da busca de novas ferramentas intelectuais e padrões de inteligibilidade, 
um terreno mais epistemológico. Antes falei sobre o panorama do saber, agora 
vou me restringir ao exemplo da ciência. 
55Complexidade e pluralismo metodológico
A ciência tradicional é marcada pela busca de regularidades. Mas quais são 
as características dessa busca? Há a ideia de uma ordem profunda das coisas, suas 
leis, associação da causa e da lei dos fenômenos, uma grande atenção ao quantum 
e à medida das coisas; também uma propensão a classificações e taxonomias; a 
tentativa de estabelecer inter-relações funcionais, múltiplas relações variadas, e 
probabilidades estatísticas. Tudo isso ensejando tanto a busca das leis, quanto a 
ordenação das coisas. Essa é a via da ciência tradicional.
Isso gerou o que chamamos de racionalidade instrumental – outro nome 
que damos à razão taxonômica e calculadora. Os feitos foram extraordinários, e 
não vim aqui para falar mal disso. No seio dessa racionalidade, temos a fusão da 
matemática com a experiência, o que foi importantíssimo. Essa fusão gera uma 
experiência tecnificada, o laboratório, a experiência medida com instrumentos de 
precisão, e experimentos, algo mais sofisticado que a experiência. Essa racionali-
dade que trabalha com experimentos faz uso da lógica bipolar ou bivalente, com 
duas ideias, a polaridade verdadeiro–falso; lida também com formas objetivadas, 
as representações são formas objetivadas das coisas, o que gera uma ciência ob-
jetivante, que leva à elisão do sujeito. Como contraparte da autonomização da 
ciência, a filosofia é deixada de lado, e a ética também fica de fora. Nós temos 
uma ciência aética, e axiologicamente neutra. Lembremos que estou falando da 
ciência tradicional.
Qual é a via da ciência atual? Eu diria que é ao mesmo tempo igual e dife-
rente. Por um lado é a mesma coisa, o que está em jogo é a busca de regularidades. 
Mas a estratégia é diferente. Há uma abertura para novas experiências do real e 
outros usos da razão. O exemplo são as chamadas qualidades secundárias, as sen-
sações. Antes, o estudo das sensações ficava de fora da ciência. Galileu e Descartes 
entendiam que era assim. Essas eram qualidades secundárias porque a ciência 
cuidava das primárias, da qualidade das coisas. 
As secundárias, as do sujeito, ficavam de fora. Hoje as qualidades secundárias 
estão dentro do esquadro da ciência, como objeto, por exemplo, das neurociências. 
E há uma problematização grande em torno disso. A ciência hoje cuida das qua-
lidades secundárias, da experiência, e mesmo da consciência, do jeito que lhes 
é próprio, numa linguagem conceitual e objetivante. A diferença agora é que as 
ciências reconhecem que há outras dimensões das experiências, ligadas à busca do 
sentido e a sua intensificação ou adensamento, que ficarão com a filosofia, com a 
arte, com a psicologia clínica, e mesmo com a religião, com suas abordagens perti-
nentes, legítimas e complementares. Ou seja, uma atitude de abertura intelectual.
Com isso surgem novos objetos, estados caóticos, sistemas hipercomplexos, 
conjuntos fuzzy, novos métodos, matemáticas empíricas, ecologias, fractais, lógicas 
não bivalentes, mas polivalentes e, então, a formatação de uma nova racionalidade. 
56 Complexidade e Desenvolvimento
Como se chamará essa racionalidade? A antiga é a razão instrumental. Mas qual 
é a nova? 
Nesse tópico, os autores hesitam. Pode ser chamada de razão hermenêutica 
por Gadamer, razão compreensiva, por Max Weber, razão crítica pelos frankfur-
tianos, dialética, pelos hegelianos e marxistas, e por aí vai.
Pode-se chamar também de ciências reflexivas, que aparece na polêmica de 
Gadamer com Habermas. Esse ideia aparece também no subtítulo dos livros de 
Morin sobre método, e é caracterizada por uma grande interface com a filosofia, 
pelo recentramento da ética, como pode ser lido em vários livros de Morin. O 
autor, aliás, é um dentre vários que podem ser citados. 
Portanto, no cenário atual temos a convivência da via tradicional, que é o 
mainstream, que é a ortodoxia, com a busca de novas experiências e novos usos 
da razão por obras de outsiders. Junto com essa coexistência temos a diversidade 
de métodos e perspectivas, e o grande desafio é promover e propor a religação dos 
saberes, a contrapelo da divisão disciplinar.
Tentarei agora concluir minha participação. Primeiro, gostaria de deixar um 
testemunho pessoal. Como venho enfrentando esse desafio, que não é meu, mas 
de todos nós? O desafio é muito grande e não é fácil nem trivial lidar com isso. Tenho 
que levar em consideração o meu lugar de origem, assim como você tem que 
levar em consideração o seu lugar de origem. E meu lugar de origem é a filosofia; 
minha área de especialidade é a epistemologia geral e das ciências humanas; faço 
filosofia da tecnologia, além de trabalhar com ética e metafísica.
Ao longo do tempo pude calcular experiências disciplinares e multidisciplinares, 
assim como desconfortos e paradoxos. Sou consultor do CNPq, da Coordenação de 
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), e outras agências, onde 
geralmente fico em situações muito desconfortáveis porque sou obrigado a adotar 
condutas disciplinares. No campo do ensino a situação é muito rígida. Já na 
pesquisa é melhor, é mais plástica. Nos meus livros, papers e conferências posso 
adotar uma atitude mais condizente com a formação inter e transdisciplinar. Nessa 
linha, em meus artigos e livros sobre epistemologia, tecnologia e ética, posso ex-
plorar melhor essas interfaces. 
No plano institucional o que acontece? Como coordenador do Programa de 
Pós-Graduação em Filosofia, tenho que adotar uma atitude disciplinar, mesmo 
porque os programas são disciplinares. Na Capes e no CNPq também. No Insti-
tuto de Estudos Transdisciplinares Avançados (IEAT), minha postura é transdis-
ciplinar. E no Núcleo de Pensamento Contemporâneo que acabei de fundar, cuja 
base é interdisciplinar, lá adotarei uma atitude condizente.
57Complexidade e pluralismo metodológico
Nessas minhas experiências qual é a minha estratégia? Minha es-
tratégia é aprofundar minhas especialidades. Como minha base é a fi-
losofia, como já dito, procuro explorar esse campo. E no processo de 
aprofundamento, explorar as interfaces da filosofia com outros campos dis-
ciplinares: ciência e biotecnologias no meu caso. O objetivo é promover 
a dilatação do campo da experiência e a expansão da esfera da racionalidade. 
Qual é o caminho a ser seguido? Intuitivamente, eu diria, de dentro para fora, 
expansão, que é o mais seguro, e não de fora para dentro, por incorporação ou 
anexação, que é mais perigoso e também mais frágil. Isso leva a uma vaguidão que 
chamo de holismo difuso. Portanto, essa é minha estratégia.
Muito Obrigado.
Ramón gaRcía FeRnánDez – Primeiramente gostaria de agradecer o convite feito 
pelo Ipea e sua direção para participar dessa discussão sobre os desafios metodo-
lógicos e a complexidade no mundo científico. Vou me ater aqui mais especifi-
camente ao campo da economia. De toda forma, o que foi falado pelo professor 
Ivan Domingues sobre a inter, multi e transdisciplinaridade é algo que sempre 
chamou minha atenção. Lembro de que quando faltava uma semana para fazer 
o vestibular ainda estava na dúvida se prestava para economia, filosofia, história 
ou ciências sociais. E até hoje não me decidi. Dessa