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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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forma, na verdade tento me 
localizar numa área comum entre essas disciplinas.
Meu ponto fundamental aqui é discutir pluralismo econômico. Tentarei dis-
cutir os conceitos de pluralidade e pluralismo, e como fica a verdade em relação 
ao pluralismo na economia. Depois sairei um pouco da reflexão meta da economia 
para falar da situação atual do campo.
O que incomoda frequentemente na discussão sobre o pluralismo é que muitos 
o entendem como um convite ao vale-tudo. Acho que esse é o primeiro incô-
modo em relação ao pluralismo. Contudo, a maior parte das pessoas concorda que 
vivemos num mundo que opera independentemente dos nossos desejos, no qual 
as pessoas também têm respostas pouco ambíguas para a maioria das coisas. Do 
mesmo modo, elas também reconhecem como fatos certos fenômenos da física, por 
exemplo. Ou seja, de forma geral, as pessoas concordam sobre aspectos da realidade.
Uma questão conceitual que precede essa discussão é que temos de separar 
o que é pluralismo de pluralidade. Pluralidade é uma situação na qual existem 
diversos elementos. É algo puramente descritivo. Pode-se ter uma pluralidade de 
significados, verdades ou valores. Simplesmente se constata, por exemplo, que 
existem diversas religiões.
58 Complexidade e Desenvolvimento
Pluralismo, por sua vez, é um conceito normativo e valorativo; ele afirma 
que é desejável e legítimo que exista pluralidade. 
Temos então duas maneiras diferentes de ver a questão. A pluralidade que 
constata a existência de diferenças, e o pluralismo, que destaca que é desejável e 
legítimo que haja diferença. Na pluralidade existem múltiplas posições sobre várias 
questões, enquanto o pluralismo acha desejável que existam as diversas posições.
A realidade é única, mas nós a acessamos através de nossos sentidos, portan-
to, sempre interpretamos a realidade. Dessa forma, diferentes pessoas podem in-
terpretar a realidade de diferentes maneiras; podem pensar que diferenças ocorrem 
e existem; e podem agrupar as coisas de maneiras diferentes. Temos aqui então 
uma primeira pluralidade. Há um único mundo, mas diferentes interpretações 
sobre esse mundo. 
Além disso, mesmo que as pessoas vejam as mesmas coisas, podem teorizá-las de 
maneira diferente. Mesmo que não tenhamos dúvida de que isto é uma cadeira, 
podemos organizar nosso conhecimento de maneira diferente, ou seja, podemos 
ter pluralidade de teorias, o que representa uma segunda pluralidade.
Mas mesmo que cheguemos à mesma posição teórica, podemos nos per-
guntar sobre os diferentes caminhos que nos levam ao conhecimento; portanto, 
podemos ter também uma terceira pluralidade, nesse caso a de método. 
Nessa breve reflexão temos então as bases necessárias para poder constatar a 
existência de pluralidade, e por consequência sobre a possibilidade de pluralismo, 
quanto à verdade, à teoria e ao método. A pergunta agora é se isso é bom ou ruim. 
Vale a pena o pluralismo ou não?
Antes de discutir isso, gostaria de mencionar um ponto que deveria ficar 
como pano de fundo. Geralmente utilizamos o termo a ciência, mas em 99% dos 
casos seria mais útil pensar em as ciências. Devemos lembrar que nossas discussões 
sobre metodologia, especialmente na economia, consistem em pegar a última pu-
blicação da filosofia da ciência e tentar aplicá-la à economia quando, na realidade, 
a coisa é mais complicada, porque as ciências têm características diferentes. Existe 
uma diferenciação entre elas que aprendi no colegial, mas acho que continua 
valendo. Há uma divisão entre ciências formais e ciências factuais, e outra entre 
ciências naturais e ciências sociais. 
Embora essa discussão tenha sua história na perspectiva das ciências na-
turais, é nas ciências sociais que ela é central, pois fica muito mais complicado 
teorizar sobre como os homens vão agir, do que fazer isso nas ciências naturais, 
nas quais seu objeto não tem vontades. As ciências sociais são objetivas, mas são 
construídas por seres humanos; nelas, os sistemas são abertos. 
59Complexidade e pluralismo metodológico
Por isso tudo, enfatizo aqui que meu interesse nesta palestra não é pelas ciências 
em geral, mas pela economia. Pode haver algumas inferências válidas para outras 
áreas, mas estou restrito às ciências sociais, e à economia em particular.
Voltando a nossa questão, podemos nos perguntar: por que na economia 
existe uma diversidade de visões? Eu poderia elencar várias razões que justificam a 
existência de pluralidade e de diferentes visões. Algumas delas são sociais, e existem 
no nível da comunidade de pesquisadores.
A primeira coisa que destaco (e há uma certa dose de ceticismo nisso) é 
que sabemos que nunca podemos ter certeza de que uma teoria é verdadeira, 
mas também que, ao contrário do que pensava Popper, é muito difícil falsificá-la 
porque nunca sabemos se quando a testamos estamos testando ela mesma ou suas 
hipóteses auxiliares. Esse, aliás, é um bom problema, pois nos permitiria dizer 
que, ao termos diferentes visões, nunca temos certeza se conseguimos demonstrar 
ou não certa coisa.
Outra ideia compartilhada por muitos autores é que os fatos vêm carregados 
de muita teoria. Quando você interpreta uma realidade, a própria observação já 
vem carregada de conteúdos teóricos. 
Também é importante lembrar aqui a ideia da complexidade do mundo, e 
por isso surge a impossibilidade de construir representações abrangentes. E, além 
de o mundo ser complexo, nosso cérebro não é ferramenta suficiente para dar 
conta dele. Portanto, só podemos fazer representações parciais desse mundo.
Essas características que listei pertencem ao conhecimento em geral. Mas 
cada um dos pesquisadores tem suas perspectivas específicas. Estamos situados 
num certo local e tempo, e cada um de nós tem sua origem social; além disso 
trazemos nossas próprias experiências e temos nossas motivações particulares ao 
encaminhar um assunto. E tanto o conhecimento pessoal quanto o coletivo têm 
uma certa trajetória histórica. 
Por todos esses motivos, aparentemente, temos boas razões para dizer que 
há mesmo pluralidade nas ciências sociais em geral. Temos limitações cognitivas, 
o mundo é complexo, temos origens e interesses diferentes, temos histórias dife-
rentes. Essa é uma boa série de motivos para pensar que deve mesmo haver uma 
pluralidade. Estamos aqui apenas constatando. A pergunta que vem em seguida 
é: temos que combater essa pluralidade ou conviver com ela? 
Na economia, em particular, essa é uma constatação: há diferentes visões, 
portanto, há pluralidade teórica e metodológica. E sabemos disso porque há es-
colhas que podem ser feitas nesse campo. Mas a pergunta permanece: isso é bom 
ou ruim? Devemos defender o pluralismo?
60 Complexidade e Desenvolvimento
Esse é talvez o ponto discutível, mas se realmente o conhecimento tem as 
características que descrevemos acima, se tudo isso é verdade, é sensato dizer que é 
difícil ter a verdade absoluta. A gente pode até esbarrar nela, mas não tem certeza 
de que vai chegar lá.
A existência de uma pluralidade de visões parece uma coisa salutar. Por quê? 
Porque se nosso conhecimento é incompleto, sempre aprendemos mais ouvindo 
outras perspectivas. Alguém pode ter percebido algo que não vimos. Mesmo ou-
vindo a besteira que o outro pode falar, tentando convencê-lo de que ele está 
errado somos levados a nos esforçar e nos sofisticar para convencê-lo de que ele 
está errado. No mínimo, o pluralismo já vale a pena por isso.
Mas qual seria o risco do pluralismo? Essa é uma coisa já conhecida, mas 
vale a pena insistir. Primeiro, temos o fantasma do relativismo. Se dissermos que 
o pluralismo é um vale-tudo, então tanto faz medicina ou feitiçaria. Nos Estados 
Unidos, por exemplo, existe a grande polêmica do criacionismo. Se somos plura-
listas, o que fazemos com o criacionismo?
Ao mesmo tempo, decorre disso outro fantasma, que é pensar