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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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que, se tanto 
vale uma coisa quanto a outra, ficamos então paralisados. Por exemplo, ao definir 
a política monetária, o que o Banco Central vai fazer? Os juros têm que subir? 
Não sei, há teorias que dizem para aumentar, e há teorias que dizem para reduzir. 
Nessa perspectiva, eu poderia fazer um cara ou coroa e escolher qualquer uma (se 
a moeda ficar em pé, mantemos a taxa!). 
O problema é que, quando estamos discutindo a questão do pluralismo, es-
tamos confundindo questões do nível coletivo com questões do nível individual. 
O que quero dizer é o seguinte: uma coisa é que eu seja pluralista, ou seja, 
que eu julgue que a pluralidade seja boa, que valorize que existam pessoas diferentes, 
pensando coisas diferentes, e propondo coisas diferentes, tentando chegar a algum 
conhecimento coletivo. Mas no nível individual não posso defender coisas que 
percebo como contraditórias, porque preciso fazer escolhas justificadas. A dife-
rença está em que no nível individual eu tenho que tomar posições, mas isso não 
quer dizer que no nível coletivo eu tenha que impô-las. Devo ser pluralista no 
nível da comunidade sem que isso me transforme num esquizofrênico.
Como é que eu escolho, então? Quero introduzir aqui o conceito de ponto 
de entrada; ele significa que, em face de certa questão, eu escolho uma pers-
pectiva, mas isso é diferente de dizer que por eu escolher essa posição, ela seja 
a verdade, ela esteja certa. Ou seja, a partir de certos valores, certos princípios, 
eu considero que alguma determinada coisa é salutar. É importante que, para se 
chegar a essa conclusão, eu participe, eu debata, eu me informe. Quanto mais 
informado, melhor será minha escolha, mais justificada. Se não houver debate, 
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os motivos da minha escolha podem ser os mesmos, mas as justificativas são mais 
fracas. Esse exercício do debate e do convencimento é essencial.
Isto, no fundo, sugere estender para o debate científico os mesmos princípios 
que recomendamos na política, isto é, a democracia. Mas alguém poderia dizer 
que ciência não é a mesma coisa que política; na democracia todo mundo pode 
opinar, mas pode todo mundo opinar na ciência também?
Não vejo isso como muito problemático. Acho que ninguém que passou 
aqui no concurso do Ipea vai querer opinar sobre como se faz um transplante de 
fígado. Quando você não tem competência para o assunto, a comunidade não te 
ouve. Nem é arriscado dar voz a quem não é competente, como nesse caso, porque 
sua voz nem mesmo é ouvida.
Essencialmente, portanto, a ideia de pluralismo é vantajosa, porque a ciência 
que fica limitada a uma única voz pode até acertar em diversas ocasiões, mas nunca 
vai ter ninguém que diga quando ela está errada. 
Mas também devemos lembrar que uma coisa fundamental é que não podemos 
adotar um pluralismo estratégico. Isto significaria que, hoje que sou minoria, sou 
pluralista, mas amanhã, se sou maioria, adeus. A ideia é que o pluralismo seja 
realmente uma postura, que você acredita ser a melhor que exista.
Como fica então nosso papel como especialistas? Nunca chegaremos à ver-
dade, é certo. Poderemos prover posições informadas. Poderemos também fazer 
perguntas importantes, mas não daremos respostas únicas. Um exemplo: muitas 
vezes se ouve a discussão sobre se é melhor protecionismo ou livre comércio para 
promover o desenvolvimento ou a industrialização de um país. Já vi muitos ar-
gumentos inteligentes, de pessoas de vários países, defendendo uma posição ou 
outra. Eu não posso dar uma saída. Posso falar sobre minha posição, mas não 
que tais pessoas estão inequivocamente certas ou erradas. Além disso, a própria 
pergunta pode ser questionada. Afinal, podemos nos perguntar: quanto de prote-
cionismo e quanto de livre comércio isso requer? Os Estados Unidos praticaram 
protecionismo no século XIX. Mas será que por isso o protecionismo é bom hoje 
para Guiné-Bissau? Peguei esse exemplo apenas para dizer que é difícil chegar a 
respostas únicas ou fáceis em relação a perguntas como essas. 
Qual o conceito de verdade que podemos almejar? A verdade será o acordo a 
que chegamos em algum momento. Esse é o conceito de verdade a que podemos 
chegar, a verdade como consenso. A retórica, ou seja, o estudo da argumentação, 
nesse sentido, deve ser considerada como meio fundamental para promover o 
conhecimento. Se o conhecimento se produz através do debate, a disciplina que 
estuda o debate deve ter algum destaque.
62 Complexidade e Desenvolvimento
Pode haver métodos específicos para se chegar ao resultado de uma certa 
questão. Mas não há um único método geral para se chegar à verdade além do 
engajamento no debate. 
Só pode existir, portanto, uma metarregra, que é aquela que diz como se 
deve fazer os debates. Esses debates devem respeitar a ética do discurso, cujas 
características já foram ressaltadas por alguns autores: não minta, preste atenção, 
não engane, coopere, não grite, deixe os outros falarem, explique-se quando so-
licitado, não recorra à violência e à conspiração para ajudar suas ideias. A única 
metarregra é que você tem que jogar limpo no debate.
Além disso, podemos chegar a um consenso, mas nem todos os consensos 
são aceitáveis. Por que não? Por exemplo, o consenso imposto pela maioria sobre a 
minoria ou, ao contrário, de uma minoria sobre a maioria, está quebrando a ética 
do discurso, pois você calou os outros.
Portanto, uma comunidade científica que não tenha o padrão ético de ouvir 
as vozes dos dissidentes pode avançar, mas vai ter mais dificuldades, sobretudo 
porque não terá a crítica, não saberá quando está errada.
Nesse ponto, gostaria de voltar à economia. Como está a situação atual da 
economia, que é um campo de conhecimento plural? Hoje temos um mainstream, 
que também tem seus choques internos. No entanto, há certos consensos que per-
mitem a existência desse mesmo mainstream, apesar das polêmicas, por exemplo, 
entre neoclássicos e neokeynesianos. Por outro lado, há diferentes heterodoxias, 
com diferentes olhares, e que mantêm divergências importantes.
O mainstream se modificou em várias questões. Quais são elas? Uma delas 
é a incorporação de discussões que antes eram exclusivas de escolas heterodoxas. 
Não é a única mudança, mas é uma das mudanças importantes. Alguns desses 
exemplos são as instituições, assim como os limites da racionalidade, que eram 
assuntos só enfatizados pelos heterodoxos no passado. Do mesmo modo, o tema 
dos rendimentos crescentes, que no passado era tabu, agora é aceito por todo 
mundo no mainstream.
Contudo, o mainstream continua ainda intolerante na questão da formalização 
da ciência. Esse é o ponto que une o mainstream. Os trabalhos não formalizados 
continuam sendo vistos como insuficientes. Mas isso se mostra particularmente 
complicado à medida que o trabalho interdisciplinar é visto como algo positivo.
Do ponto de vista da heterodoxia, quais são os problemas? Um deles é o 
pluralismo estratégico. O segundo é que há uma visão de que só se conseguiria 
superar o mainstream quando se conseguisse chegar a um paradigma da hetero-
doxia. Hoje, no entanto, penso que essa ideia de uma batalha de paradigmas é 
um sonho impossível, e algo que não é muito bom. Pensar que se vai constituir o 
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grande paradigma heterodoxo que se oponha ao grande paradigma ortodoxo não 
é nem possível nem desejável.
Destaco, para finalizar, que há cada vez mais forte um movimento em favor 
do pluralismo, que coloca o debate mais no centro, e que leva alguns ortodoxos a 
repensarem suas posições.
A conclusão a que podemos chegar, no fim da palestra, é que o pluralismo é 
vantajoso como princípio, que é necessário, e que, portanto, deve ser ativamente 
promovido. Deve haver uma preocupação de criar espaços para pessoas que pensam 
diferente de você.
Concluindo,