A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
282 pág.
IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

Pré-visualização | Página 19 de 50

direi uma última coisa que pode até ser exagero, mas que para 
mim é muito importante. Penso sinceramente que tanto as escolas de graduação 
e pós-graduação quanto as instituições de pesquisa que não promovem o pluralismo, 
sejam elas ortodoxas ou heterodoxas, apresentam mais um caráter de igrejas, de-
fendendo dogmas ou promovendo heresias, do que sendo promotoras da ciência. 
Isso acontece em qualquer escola. Acho, por exemplo, que um curso que só en-
sina a visão da sua turma, sem abrir espaço para as divergências, está formando 
pessoas de uma maneira errada, mais com cara de padres do que de cientistas.
Muito obrigado.
CAPÍTULO.4
NOVAS AGENDAS PARA AS CIÊNCIAS SOCIAIS NO BRASIL1
Maria.Alice.Rezende.de.Carvalho
Leila.Christina.Dias
maRIa alIce RezenDe De caRvalho – Boa tarde. Agradeço o convite para par-
ticipar do curso de Ambientação dos novos técnicos de Planejamento e Pesquisa 
– na verdade, os mais novos intelectuais do Estado brasileiro. Penso que é muito 
importante a incorporação de cientistas sociais à vida institucional do Ipea e foi 
com satisfação que me dispus a conversar, como presidente da Associação Nacional 
de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), sobre os desafios 
postos pelo tema do desenvolvimento à reflexão social no Brasil. 
Foi-me pedido que organizasse uma breve exposição, levando em conta três 
tópicos principais: i) o diagnóstico da Anpocs sobre os temas prioritários em um 
contexto de desenvolvimento; ii) a relação entre pesquisa acadêmica e política 
pública; e, finalmente, iii) a perspectiva das ciências sociais em relação a um novo 
ciclo de desenvolvimento nacional. Dividi, portanto, minha exposição em três 
momentos, a fim de, em primeiro lugar, esclarecer sobre as características e os 
limites do associativismo científico e, especificamente, da Anpocs. A esse esclare-
cimento de natureza, digamos, “metodológica”, seguem-se, então, os dois outros 
tópicos, mais reflexivos: o primeiro, quanto à relação das ciências sociais com o 
tema das políticas públicas e o segundo, quanto ao planejamento do desenvolvi-
mento brasileiro neste recém-iniciado século XXI.
Passo, então, rapidamente, para a apresentação da Anpocs, afirmando, de 
pronto, que sua cultura institucional é geneticamente comprometida com a ciência 
social universitária. A Anpocs tem a idade da institucionalização dos programas 
de pós-graduação em ciências sociais no Brasil e ao longo de seus quase 40 anos 
de existência contribuiu para que esse campo acadêmico e, por tabela, o próprio 
1..Este.capítulo.reúne.aulas.proferidas.pelas.professoras.Maria.Alice.Rezende.de.Carvalho.e.Leila.Christina.Dias.du-
rante.o.curso.de.Ambientação.dos.novos.técnicos.de.Planejamento.e.Pesquisa.do.Ipea,.em.julho.de.2009..Os.textos.a.
seguir..foram.transcritos.por.Carlos.Henrique.R..de.Siqueira.e.Natália.Orlandi.Silveira.e.submetidos.aos.autores.para.
revisão.e.validação.
66 Complexidade e Desenvolvimento
sistema nacional de ensino e pesquisa se robustecessem e se afirmassem nacional 
e internacionalmente. A intervenção pública da entidade, portanto, tem sido, 
até aqui, limitada a uma esfera de atuação concernente às questões da nossa ins-
titucionalização, como, por exemplo, o desenho de políticas públicas de ciência, 
definições estratégicas quanto à alocação de recurso para pesquisa, metas para 
formação de doutores nas diferentes áreas do conhecimento etc. É claro que, em 
momentos mais dramáticos da vida nacional, a Anpocs se pronunciou como ator 
público, em defesa da liberdade e da garantia do Estado democrático de direito. 
E que em todos os seus Encontros Anuais confere destaque a questões da agenda 
política. Mas não se pode dizer que a entidade se caracterize por uma agenda de 
intervenção nesse plano. Para isso seria necessário que ela tivesse mecanismos de 
consulta muito eficientes, capazes de extrair o pensamento majoritário de seus 
associados a cada momento, os quais, diga-se de passagem, são programas de pós-
graduação e não indivíduos – o que torna ainda mais complexo o processo de 
aferição da “opinião da Anpocs” relativamente a qualquer tema. 
No âmbito do associativismo intelectual, talvez a Sociedade Brasileira para 
o Progresso da Ciência (SBPC) seja a entidade que mais tenha desenvolvido uma 
cultura de intervenção. Ela é composta por cientistas que a buscam exatamente 
por conhecerem sua história, sua tradição. Com a Anpocs se passa algo distinto – 
não é o cientista social que se associa, ele é parte de um coletivo, de um programa 
de pós-graduação que decidiu integrá-la. Isso faz toda a diferença. Os represen-
tantes que votam nas assembleias da Anpocs, por exemplo, são representantes 
dos interesses de seus programas, não têm mandato para votar em algo distinto. 
Enfim, essa longa digressão sobre o habitus institucional da Anpocs é uma intro-
dução à nossa conversa, pois, ao se dedicar à organização da agenda das ciências 
sociais, a Anpocs se manteve ao largo de definições como as que me foram soli-
citadas, relativas aos temas que deveriam compor prioritariamente uma agenda 
desenvolvimentista. A entidade, como disse, tem outra história, outro pacto de 
fundação. O esforço era, então, e ainda é, o de relevar o sistema nacional de 
ensino e pesquisa, trazer para a entidade representantes de todos os programas, 
discutir formas de avaliação das nossas atividades, de comunicação interpares, 
enfim, de alavancar um conjunto de práticas requeridas para a institucionalização 
do campo das ciências sociais. 
Sem pretender estender muito esse tópico, mas mobilizando rudimentos da 
sociologia da ciência, penso que a Anpocs contribuiu para a institucionalização da 
comunidade de cientistas sociais brasileiros ao articular crenças e normas próprias, 
estabelecer um sistema de mérito e de controle sobre reputações. Isso é o que 
ocorre, por exemplo, em nossos Encontros Anuais, momento em que centenas 
de trabalhos se expõem à apreciação de pares. Tal procedimento foi decisivo no 
contexto inaugural dos cursos de pós-graduação em ciências sociais no país e é 
67Novas agendas para as ciências sociais no Brasil
relevante ainda hoje, quando se observa fortíssima expansão nacional dessa área 
do conhecimento. A Anpocs, junto com as agências de fomento – Coordenação 
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Conselho Nacional 
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) –, mas de modo distinto, 
tem favorecido a socialização na área. São mais de 90 programas e centros de pes-
quisa associados – e, diante desse quadro, cabe perguntar se a Anpocs continuará 
crescendo fiel à sua origem ou se a sua vitalidade, nas próximas décadas, exigirá 
eventuais mudanças de rota. 
Penso – e não sou a única – que a simples reprodução do modo como a 
Anpocs tem operado até aqui, isto é, mediante a realização de Encontros Anuais, 
está em vias de esgotamento. Em primeiro lugar, pelo crescente custo desse tipo 
de evento, em um contexto em que o associativismo científico se adensa, e outras 
entidades similares – Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Sociedade 
Brasileira de Sociologia (SBS), Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) 
– têm também pleiteado recursos para eventos de igual natureza. Ao lado disso, 
as pressões exercidas por patrocinadores ou apoiadores – Financiadora de Estudos 
e Projetos (FINEP), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social 
(BNDES), Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) etc. – são no sentido 
de que a Anpocs formule um projeto de que possam ser parceiros e que não se 
esgote na realização de um único evento. A festa das ciências sociais, em outubro, 
deveria ser apenas um momento – e nem mesmo o mais importante – de uma 
cadeia de atividades desenvolvidas durante todo o ano, o que, hoje, como se sabe, 
não acontece. Há, é claro, a produção de duas revistas, a principal delas a