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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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Revista 
Brasileira de Ciências Sociais (RBCS) é referência para todos os cientistas sociais 
do país. Mas esse é um trabalho plenamente rotinizado, que depende de um corpo 
editorial autônomo e que atende a especificações do editorialismo científico, e 
não as do associativismo. Por isso, a operação de edição das revistas, conquanto 
atravesse o ano todo, não é contabilizada por mim como uma prática associativa 
permanente. 
Além dos altos custos, outra razão para que a Anpocs repense sua missão 
leva em conta o fato de que, no mundo inteiro, as agências de produção de co-
nhecimento social não se resumem à universidade. No Brasil, elas se multiplicam 
no âmbito do Estado e da sociedade civil. O Instituto de Pesquisa Econômica 
Aplicada (Ipea) é exemplo disso – uma instituição que originalmente não tinha 
essa competência específica e que começa a buscá-la. O mesmo ocorre com orga-
nizações não governamentais (ONGs) e departamentos de pesquisa de empresas 
estatais ou privadas. É evidente que o manejo das ciências sociais, nesses casos, é 
uma experiência intelectual distinta, sob muitos aspectos, daquela empreendida 
nos centros universitários. E a Anpocs não tem a pretensão de dirigir ou mesmo 
organizar a pluralidade de atores envolvidos nesse processo. O que não significa 
68 Complexidade e Desenvolvimento
desconhecê-los. Penso, por isso, que o caminho mais interessante seria buscar 
um diálogo que institucionalizasse progressivamente certos espaços de encontro 
entre a academia e esses outros institutos – mediação, evidentemente, que a Anpocs 
poderia realizar. Aliás, vários pesquisadores de diferentes áreas das ciências sociais 
costumam desenvolver, como parte das suas atividades, cursos ou outros procedi-
mentos de contato e aproximação com seus respectivos objetos de pesquisa. Por 
que a Anpocs não poderia também exercer esse papel de inscrição das ciências 
sociais na vida brasileira, mediante a realização de cursos, exposições etc. em escolas, 
sindicatos, corporações? Se, porém, não for esse o rumo, a pergunta persistirá: o 
que fazer com o enorme patrimônio organizacional que construímos ao longo de todos 
esses anos e que, hoje, se destina exclusivamente à organização do nosso Encontro Anual? 
A reflexão sobre essa questão é urgente. 
Hoje, mesmo uma demanda simples, como a do levantamento dos temas 
mais frequentes observados nos últimos dez anos de Encontros Anuais da Anpocs, 
não seria facilmente atendida. A Anpocs não possui esse material organizado, isto 
é, há a conservação dos documentos, o registro do que se realizou a cada ano, mas 
não há pensamento agregado a esse material, não há o tratamento analítico desse 
registro. Assim, para que fossem conhecidas e divulgadas as tendências intelectuais 
presentes entre os cientistas sociais brasileiros na década de 1980 seria necessário 
desenhar esse projeto e realizá-lo com base no material existente em nossos arquivos. 
Eis aí, por exemplo, uma das atividades obrigatórias a uma entidade que estou 
chamando de “autorreflexiva”, interessada na sua própria trajetória e destino. Esse 
tipo de informação não apenas deveria existir como deveria estar disponível a 
quem tivesse interesse, abrindo um largo caminho de comunicação entre a ciência 
social representada pela Anpocs e a sociedade. 
Passo, então, à segunda questão, referente à relação entre ciências sociais e 
políticas públicas. Já adianto que minha intervenção nesse plano é basicamente 
impressionista, embora cautelosa. Recorri aos inventários quantitativos produzidos 
nos últimos Encontros da Anpocs, a uma entrevista do professor Marcelo Ridenti 
ao jornal Le Monde Diplomatique, logo após encerrado seu mandato como secretário 
executivo da Anpocs (2008), e a entrevistas com cientistas sociais que integram a 
coletânea Conversa com Sociólogos Brasileiros, organizada por Elide Rugai Bastos, 
Fernando Abrucio, Maria Rita Loureiro e José Marcio Rego, de 2006. Esse material 
foi bastante útil na composição do argumento que exponho a seguir:
Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que todas as questões relevantes do 
nosso tempo são tratadas nos grupos de trabalhos (GTs) da Anpocs. A compe-
tição é intensa, pois cerca de 2.000 a 2.500 propostas de apresentação de textos 
são enviadas anualmente, e nossa capacidade de acolhimento de trabalhos gira 
em torno de 40% desse número. Nos últimos cinco anos, a Anpocs estimulou 
69Novas agendas para as ciências sociais no Brasil
essa dimensão participativa. Saltamos de congressos com cerca de 1.500 inscritos, 
em 2005, para 2.500 participantes, em 2009, que apresentaram mais de mil tra-
balhos no encontro daquele ano, sob a forma de intervenções em GTs, mesas-
redondas, simpósios especiais, fóruns de debates e assim por diante. Trata-se de 
um volume de produção científica impressionante, com enorme diversidade de 
temas e com o selo de qualidade que a competição confere. Segundo inventário 
realizado pelo professor Marcelo Ridenti, o eixo temático mais visitado é o da de-
sigualdade, desdobrado em investigações muito variadas, como a que contempla 
a desigualdade de classe, gênero, raça e de acesso aos chamados bens de cidadania. 
Ademais, muitas das discussões abrigadas sob o guarda-chuva da Sociologia Ur-
bana dedicam-se a temas similares. Acredito, inclusive, que análises sobre outras 
dimensões da cidade, sobre a cidade como pólis, como comunidade política, vêm 
perdendo prestígio entre os cientistas sociais. Decididamente, a cidade tem sido 
reserva temática para a abordagem sociológica da desigualdade – o que parece tra-
duzir a preocupação dos cientistas sociais com a produção de diagnósticos sobre 
o problema, de modo a subsidiar o desenho, a implementação e a avaliação de 
políticas públicas. 
A preocupação dos cientistas sociais com esse eixo temático vai de par com a 
da sociedade e tem reflexo nas políticas de ciência, que passam a destinar um vo-
lume maior de recursos para pesquisas na área, produzindo, como consequência, 
a especialização de novos pesquisadores e a institucionalização de novos grupos de 
pesquisa. Isso é o que tem ocorrido, por exemplo, com o eixo temático violência/
segurança pública, eixo que, tal como o da desigualdade, assumiu posição proe-
minente no quadro das ciências sociais brasileiras. Esforços para a constituição 
dessa agenda foram despendidos pela Secretaria Nacional de Segurança Pública 
(SENASP) que, com a mediação da Anpocs, promoveu, há oito anos, uma bateria 
de concursos públicos sobre diferentes aspectos da questão. A Anpocs, naquela 
ocasião, foi convocada exatamente para organizar bancas examinadoras desses 
projetos concorrentes. Mais recentemente, o Programa Nacional de Segurança 
Pública com Cidadania (Pronasci), do Ministério da Justiça, que visa associar 
políticas públicas de segurança com políticas sociais, também não dispensou pes-
quisadores do trabalho de formular e desenvolver ações nesse âmbito. 
Na verdade, se atentarmos para a organização do Programa de Apoio a Núcleos 
de Excelência (Pronex) ou para os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia 
(INCTs), verificaremos que, no âmbito das ciências sociais, o compromisso do Es-
tado brasileiro de induzir pesquisas de ponta, realizadas por lideranças científicas, 
tem priorizado, claramente, a questão da violência e das políticas públicas de se-
gurança. Há, hoje, salvo engano, cerca de seis ou sete INCTs da grande área de 
humanidades, dos quais três se dedicam à questão. Os efeitos, em pouco tempo, 
são óbvios, pois o montante de recursos é tão grande que coloca a pesquisa em 
70 Complexidade e Desenvolvimento
outro patamar, muito menos artesanal e com muito maior capacidade de atração de 
jovens cientistas sociais, que começam a profissão associados a um grande projeto. 
Internacionalização, relações internacionais, globalização e trocas culturais 
constituem outro eixo temático