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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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bastante frequentado pelos cientistas sociais. E de 
duas formas principais: i) a América do Sul volta a ser privilegiada nos trabalhos 
da área, e ii) os países lusófonos – por iniciativa do Ministério da Ciência e Tecno-
logia (MCT) – passam também a constituir uma frente de interesse para os cien-
tistas sociais. Interesse, aliás, que além dos recursos aportados pelo MCT, conta 
agora com uma espécie de contrapartida do Estado português para a consecução 
de pesquisas de interesse mútuo. Em suma, desigualdade, violência e presença 
internacional do Brasil são as áreas que têm tido maior destaque, contempo-
raneamente. De qualquer modo, talvez estejamos vivendo uma diminuição da 
fragmentação temática que caracterizou as décadas de 1980 e 1990. Pois, mesmo 
quando tópicas, as pesquisas, hoje, buscam inscrever-se no âmbito de uma grande 
problemática – movimento que pode estar referido à política estatal de “raciona-
lização” da atividade científica, que, entre outras características, tem estimulado 
a concentração de pesquisadores em poucas redes de pesquisa. Chamo, portanto, 
a atenção para o fato de que a Anpocs, que já tem operado como mediadora 
entre a ciência social brasileira e a sociedade (ainda que o faça em grau muito 
acanhado e, principalmente, pouco reflexivo), deverá ampliar esse movimento, 
inclusive buscando alianças junto a outras agências que, como ela, têm a missão 
de esclarecer o debate público brasileiro. É isso que dará uma nova justificação à 
Anpocs: sua abertura para a sociedade, para seus temas e para outras instituições 
que tenham também esse objetivo. O grande desafio, porém, consiste em viver 
essa fricção com as demandas sociais e com as diretrizes estatais e, ao mesmo tempo, 
garantir a autonomia das agendas de pesquisa. Afinal, à ampliação do aporte de 
recursos públicos para a pesquisa tem correspondido uma verticalização do em-
preendimento científico, que cada vez mais alinha do vértice ministerial até o 
bolsista de iniciação científica. Se não devemos mais permanecer “de costas” para 
a sociedade, por outro lado não temos conseguido fugir desse abraço organizativo 
e modelador do nosso campo que as agências estatais têm esboçado. 
Por fim, a última questão: planejamento para o desenvolvimento. Serei 
muitíssimo breve. As concepções dominantes de planejamento social costumam 
operar com grandes lentes. E a escolha de indicadores como renda, por exemplo, 
facilita essa prática. Há, contudo, ativos sociais que podem alterar, crucialmente, 
a vida de uma comunidade. Entre segmentos populacionais mais pobres, como 
sabemos, a figura da avó traduz a possibilidade de resolução de alguns problemas 
centrais à trajetória escolar de crianças e jovens. A vizinhança é outro ativo social, 
como, aliás, é fartamente reconhecido na literatura internacional. Somente a ên-
fase em grandes escalas pode explicar o fato de o planejador brasileiro não operar 
71Novas agendas para as ciências sociais no Brasil
com o tema da vizinhança e não produzir políticas públicas para a construção 
social de vizinhos. Na França, por exemplo, discute-se a ideia de “justiça de vi-
zinhança”, mas se pode pensar também em atividades complementares à vida 
escolar que tenham a participação da vizinhança e em uma série de outros itens. 
Quero dizer que a escala da vizinhança não pode ser ignorada pelo planejador, 
e, nessa escala, a expertise dos cientistas sociais pode ajudar. Em suma, cientistas 
sociais e planejadores apenas iniciamos uma conversa. Conversa política, bem 
entendido, das mais importantes, que pode resultar no fortalecimento dos elos 
entre ciência e democracia. Essa é a aposta da Anpocs. 
Muito obrigada. 
leIla chRIstIna DIas – Em primeiro lugar, gostaria de agradecer o convite do 
Ipea para participar desta reunião, e dizer que sou tão novata quanto vocês. Assumi 
a presidência da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planeja-
mento Urbano e Regional (Anpur) há pouco mais de um mês. Necessariamente 
o que eu trarei hoje tem menos relação com a experiência de presidente de uma 
entidade como a Anpur, e mais com as sucessivas participações em diferentes 
reuniões dessa associação nos últimos 15 anos, e com o trabalho realizado nos 
últimos 18 meses – organização do nosso XIII Encontro Nacional, realizado em 
Florianópolis. Esse trabalho rendeu um retrato muito claro do campo em que a 
Anpur se insere, sendo também – como a Anpocs – uma associação de programas 
de pós-graduação e centros de pesquisa, e não de associados individuais. A or-
ganização desse encontro forneceu grande parte do material que vou apresentar, 
mas também falarei a partir da minha própria formação como geógrafa. Às vezes 
eu brinco com o fato de que, ao contrário de alguns colegas com múltiplas for-
mações, eu fiz graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado em geografia em 
diferentes instituições, mas sempre na perspectiva da geografia. Esta fala é baseada 
nessa minha posição dentro de uma instituição pluridisciplinar, mas com uma 
formação disciplinar.
Dividi a apresentação em duas partes: primeiramente, apresentarei, de forma 
breve, a Anpur, por acreditar que não seja do conhecimento de todos; e na segunda 
parte, apresento três problemáticas que, do meu ponto de vista, emergiram clara-
mente no último encontro da associação. 
A Anpur foi fundada em 1983 por cinco programas universitários, todos na 
área de Planejamento Urbano e Regional: o antigo PUR, hoje IPPUR (Instituto 
de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional) da Universidade Federal do Rio 
de Janeiro (UFRJ), a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de 
São Paulo (FAU/USP), o Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano 
e Regional (Propur) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o 
72 Complexidade e Desenvolvimento
Programa de Mestrado em Desenvolvimento Urbano (MDU), da Universidade 
Federal de Pernambuco (UFPE), e o Programa de Planejamento Urbano da Uni-
versidade de Brasília (UnB). Fui consultar os anais do primeiro encontro, onde 
está claramente anunciado que sua fundação no início dos anos 1980 resultou da 
mobilização de um conjunto de instituições, professores e pesquisadores, a partir 
do reconhecimento de que havia um campo de pesquisa nessa área de planeja-
mento urbano e regional, e também habitacional, e de que era preciso avaliar a 
natureza e a qualidade dessa produção. Em outras palavras, era necessário avaliar 
essa produção científica, identificando suas motivações, seus fundamentos con-
ceituais e metodológicos, as condições humanas e materiais para sua realização, 
além de seus processos de divulgação e apropriação social. 
É interessante notar que no primeiro encontro, organizado em 1986 na 
cidade de Nova Friburgo, uma questão bastante debatida foi o dilema que en-
frentava a associação: fundada estritamente por programas da área do planeja-
mento, questionava-se até que ponto ela se manteria fechada nesse campo ou iria 
se abrir para outras instituições que trabalhassem na escala dos estudos urbanos e 
regionais. Essa última posição foi a vencedora. Progressivamente, programas na área 
de geografia, ciência política, direito, economia, arquitetura e urbanismo e outros 
se filiaram à Associação. 
A Anpur constitui hoje uma entidade jurídica de direito privado, que con-
grega aproximadamente 55 programas universitários. No CNPq essa área de Pla-
nejamento Regional Urbano está dentro do grande campo de Ciências Sociais 
Aplicadas, assim como na Capes. A variação é somente em relação aos seus vizinhos. 
Assim, no CNPq estamos ao lado da arquitetura, da geografia e do turismo en-
quanto na Capes estamos ao lado do direito e de outras disciplinas. 
Ela é uma associação pluridisciplinar que objetiva incentivar o estudo, o 
ensino e a pesquisa, divulgar informações e trocar experiências e principalmente 
promover encontros científicos, permitindo