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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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a troca de informações entre os in-
tegrantes das instituições associadas. Desde 1999, a Associação publica a Revista 
Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais (RBEUR). No campo das relações in-
terinstitucionais, a Anpur é associada à SBPC e mantém também relações com 
outras entidades nacionais e internacionais. Ela organiza, com regularidade, ati-
vidades no interior das reuniões da SBPC, participa de várias entidades nacionais 
e internacionais, tem assento no Conselho das Cidades (Ministério das Cidades), 
inclusive em seus comitês técnicos, e no conselho gestor do Fundo Nacional de 
Habitação de Interesse Social (FNHIS). 
A Anpur promove – nos anos pares – Seminários de Avaliação do Ensino e 
da Pesquisa em Estudos Urbanos e Regionais, trazendo novas experiências meto-
dológicas à tona, momento de avaliar o que vem sendo pesquisado e como vem 
73Novas agendas para as ciências sociais no Brasil
sendo pesquisado nos diferentes programas. Nos anos ímpares promove grandes en-
contros nacionais. O último aconteceu em Florianópolis com o título Planejamento 
e Gestão do Território – Escalas, Conflitos e Incertezas. A ideia era problematizar 
essas temáticas no âmbito do planejamento e na gestão do território. Seus grandes 
encontros têm uma estrutura com conferências, sessões temáticas, mesas-redondas 
e algo que eu considero muito rico, que são as sessões livres. Essas sessões são auto-
organizadas, propostas por grupos de pesquisadores que atuam em diferentes insti-
tuições; no momento do encontro vemos emergir, na verdade, aquelas discussões de 
temáticas que mobilizam as redes mais estruturadas de pesquisadores.
Para fins desta apresentação, busquei raciocinar em termos de temas priori-
tários, e acabei enunciando três principais problemáticas que emergiram no último 
encontro da Anpur. As questões da violência e da desigualdade, expostas por 
Maria Alice Rezende, são fundamentais no campo, mas a partir da organização 
do material produzido nas sessões livres, procurarei abordar aqui o que vem sendo 
discutido e debatido de forma não consensual e referente a questões ainda sem 
respostas.
A primeira problemática é a que denomino “Entre a concepção e a im-
plementação de políticas urbanas: tensões e desafios”. A seguir, serão expostos 
trechos de três apresentações das já mencionadas sessões livres. O primeiro trecho 
foi extraído da sessão livre organizada por Raquel Rolnik, professora da FAU/
USP, que teve um importante papel no Ministério das Cidades, e hoje é relatora 
da Organização das Nações Unidas (ONU): 
(...) avaliações preliminares do processo de elaboração de planos diretores parti-
cipativos no Brasil revelam as tensões e contradições entre elementos de inovação 
introduzidos por atores sociais envolvidos com a questão da reforma urbana. E 
apesar da herança de um planejamento urbano excludente e tecnocrático, estrutu-
rada através de um zoneamento correspondente aos mercados imobiliários de média 
e alta renda. 
Uma segunda sessão livre – proposta pela professora Fernanda Furtado da 
Universidade Federal Fluminense (UFF) – reuniu um grupo de pesquisadores, 
discutindo “(...) a distância que vem sendo observada entre as formulações mais 
genéricas de políticas voltadas para gestão social da valorização da terra e a sua 
implementação através da aplicação de um conjunto de novos instrumentos pre-
sentes no Estatuto das Cidades”, ou seja, apontando a distância entre um e outro. 
No último caso, em sessão proposta por Nabil Bonduki, também professor na 
FAU/USP, afirmava-se que: 
(...) embora o planejamento habitacional não tenha nenhuma tradição no país, ao 
contrário dos planos diretores, um número significativo de entes federais deverá ela-
borar planos de habitação, sem que exista ainda clareza sobre o que são esses planos, 
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para o que servem e qual a metodologia que devem empregar, e como se articulam 
os outros instrumentos de planejamento urbano, como o próprio plano diretor, 
planos de saneamento das leis de uso e ocupação fundiária. 
Esses temas discutidos no âmbito do XIII Encontro Nacional da Anpur 
chamam a atenção para alguns pontos que parecem importantes nesse diálogo 
entre as associações científicas e o Ipea. Primeiro, eu penso que essas três passagens 
destacam o que o geógrafo Milton Santos chamava de rugosidades, ou seja, o peso 
das heranças do espaço construído. O que foi exposto nessas sessões livres chama 
também a atenção para a distância que se observa entre a concepção mais geral 
dos planos e das políticas e sua implementação. Aponta, ainda, para a sempre 
necessária discussão metodológica no âmbito dos planos e das políticas e para 
a transversalidade, ou seja, para a maneira como os diferentes planos ou modos 
de planejar se articulam uns aos outros, trazendo a ideia de um espaço, também, 
relacional. E chama a atenção, também, para a questão da variação das políticas 
públicas, e para as diferentes possibilidades e escalas de avaliação – do nível das 
políticas mais amplas para o nível de projetos específicos. Por exemplo, da ideia 
de reforma urbana à implementação de projetos na cidade. Repetidas vezes o 
Encontro da Anpur revelou, através de diferentes falas, a necessidade de avaliar 
processos de implementação de projetos, pessoas envolvidas, recursos, qualidade, 
efetividade na realização etc. Na medida em que avaliações no nível macro das 
políticas públicas muitas vezes parecem não dar conta dos processos de imple-
mentação de projetos. 
Uma segunda problemática eu denominei “Formulação e implementação de 
políticas públicas em um país de dimensão continental e com grande diversidade 
econômica, cultural, social, territorial e ambiental”. Como são pensadas as escalas 
de análise e as escalas de ação política? Esse debate sobre a natureza das escalas 
apareceu no XIII Encontro em diferentes momentos, com debates sobre o papel 
e o significado das escalas de governo, das escalas de ação política, das escalas de 
gestão participativa (espaços institucionalizados de participação), da escala dos 
movimentos sociais ou da emergência de novas escalas espaciais. Embora a escala 
seja um conceito muito importante para a Geografia e para outras ciências humanas, 
há certo consenso de que ela foi largamente utilizada como ideia para impor 
uma ordem organizacional ao mundo, ou seja, foi ligada a uma vertente teórica 
que pensa os níveis escalares como parte de uma matriz de escala que preexiste 
para ordenar processos da vida social. Uma outra vertente teórica pressupõe que 
as escalas são socialmente produzidas através de processos de luta e de compro-
misso. Nessa perspectiva, as escalas seriam ativamente criadas através da prática 
dos atores sociais, e não representariam, simplesmente, o quadro explicativo para 
entender o mundo à nossa volta. Nas palavras do geógrafo Neil Smith, “(...) a es-
cala é uma resolução geográfica de processos sociais contraditórios de competição 
75Novas agendas para as ciências sociais no Brasil
e cooperação”. A produção e a reprodução contínua da escala expressam tanto 
a disputa social quanto a geográfica para estabelecer fronteiras entre diferentes 
lugares, localizações e sítios de experiência. A questão da escala é central hoje no 
discurso político, leigo e acadêmico, e considerá-la na perspectiva desse constru-
tivismo social constitui um avanço na discussão do debate de políticas públicas e 
planejamento. Eu considero importante trazer para a agenda de pesquisa e para a 
agenda da política uma reflexão sobre as escalas insurgentes, aquelas que aparecem 
fora da matriz onde se encaixam os processos da vida social.
A terceira e última problemática é a da “Gestão territorial: consensos, dis-
sensos ou justaposição negociada de interesses conflitantes”. No âmbito da sessão 
temática 2 – “Gestão do território: práticas e possibilidades da política”