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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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–, os 
professores Geraldo Magela Costa e Maria Lúcia Refinetti Martins leram aproxi-
madamente 150 trabalhos que versaram sobre princípios e modelos conflitantes 
nos caminhos do desenvolvimento econômico e na ocupação do território; os 
processos e efeitos da violência urbana; as relações de conflito que se desenvolvem 
em torno da conservação, da reprodução ou do controle dos espaços estabelecidos 
versus as lutas para transformação do espaço ou para produções de novas formas 
de territorialidade; estudos sobre novos protagonistas e conflitos no uso e na gestão 
dos territórios em relação a múltiplos processos (riscos ambientais, mudanças 
climáticas, reconhecimento e demarcação de territórios tradicionais e tantos outros). 
O que nós vimos é que muitas vezes as ideias de território, região e espaço são 
usadas como sinônimos, e a única referência dada é o sentido de localização e 
de extensão – desse território ou região. Observamos muitas vezes a ausência da 
compreensão de um sentido próprio, da etimologia do conceito de território, ou 
seja, o lugar na terra com o sentido de apropriação, de controle – uma fração do 
espaço apropriada a partir de relações de poder. A ausência dessa dimensão do 
poder, de controle e apropriação oculta os processos políticos. E se essas relações 
não forem, adequadamente, reconhecidas, podem comprometer e, muitas vezes, 
inviabilizar algumas das políticas federais.
Para finalizar, gostaria de dizer que não sei se atingi o objetivo de apresentar 
a Anpur. Mas o fato é que essa breve apresentação também me ajudou a organizar 
algumas ideias e levantar novas questões. 
Muito obrigada. 
CAPÍTULO.5
INSERÇÃO INTERNACIONAL E SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL1
Reinaldo.Gonçalves
Eduardo.Viola
ReInalDo gonçalves – O que trago aqui para vocês tem a ver com a agenda de 
trabalho do atual programa de pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Apli-
cada (Ipea) na área de Economia Internacional. E, para isso, espero contribuir mais 
do ponto de vista conceitual e analítico do que do ponto de vista da interpretação 
factual. O que eu quero é, simplesmente, chamar a atenção para conceitos essenciais 
que serviriam como conceitos estruturais de análise nessa área e que são, na mi-
nha avaliação, pilares para o programa de pesquisa do Ipea. 
O documento do Ipea de diretrizes estratégicas para o futuro trabalha com 
o conceito de inserção soberana. Este conceito chama a atenção para dois substan-
tivos fundamentais: autonomia e independência. Então, o que o Ipea faz nesse 
programa é recuperar um conceito muito caro àqueles que pensam a inserção 
internacional de uma forma proativa e não de forma passiva, ou seja, aqueles que 
se distanciam de um olhar mais liberal, que têm em suas agendas diretrizes estra-
tégicas como a liberalização, desregulamentação, privatização, dominação finan-
ceira, ausência de planejamento etc. Quando se tem uma agenda desse gênero, 
um conceito como o de inserção soberana perde o sentido.
Mas quando o Ipea chama a atenção para esse conceito como estrutural 
para os seus trabalhos, seja de pesquisa ou de intervenção nas políticas públicas, 
está recuperando um conceito antigo que tem a ver com a questão do poder. 
A soberania nada mais é que o poder que é próprio do Estado Nacional. No 
fundo é aquele conceito weberiano clássico em que poder é a probabilidade de se 
realizar a própria vontade independentemente da vontade alheia. Quando você 
transporta isso para o âmbito do Estado-nação, a soberania é a probabilidade de 
1.. Este. capítulo. reúne.aulas. proferidas.pelos.professores.Reinaldo.Gonçalves. e. Eduardo.Viola.durante.o. curso.de.
Ambientação.dos.novos.técnicos.de.Planejamento.e.Pesquisa.do.Ipea,.em.julho.de.2009..Os.textos.a.seguir.foram.
transcritos.por.Carlos.Henrique.R..de.Siqueira.e.Natália.Orlandi.Silveira,.e.submetidos.aos.seus.autores.para.revisão.
e.validação.
78 Complexidade e Desenvolvimento
o Estado-nação realizar a sua própria vontade independentemente da vontade de 
outros Estados-nações; esse é o conceito de soberania. No documento do Ipea, 
esse conceito é trazido com essa ideia de autonomia de políticas, para realizar o 
que o governo achar que devem ser as políticas públicas. 
A ideia fundamental é a rejeição dessa inserção passiva ou subordinada no 
cenário internacional, que tem sido uma marca da economia brasileira, diga-se de 
passagem, uma marca que persiste desde 1990. Esse modelo é o que se chama de 
modelo liberal periférico; um modelo liberal que conta com duas peculiaridades 
dramáticas para o Brasil: a vulnerabilidade externa e a dominação financeira. Ou 
seja, é um modelo liberal de terceira classe. Esse modelo continua predominante no 
Brasil de hoje, e não há nenhum indicador de que mude num horizonte previsível 
de curto e médio prazo. Com esse conceito, presente no documento do Ipea, você 
vê mapeada uma série de temas que são tratados no contexto do programa de trabalho 
da instituição, desde a questão do investimento externo direto até a da integração 
regional – tema também relevante mas que tem “andado para trás”, tem havido 
um retrocesso, o Brasil vem se integrando menos na esfera comercial com os países 
do Mercado Comum do Sul (Mercosul), basicamente pela própria vulnerabilidade 
externa dos países (por exemplo, nível cambial e volatilidade) e por divergências de 
estratégias de desenvolvimento de longo prazo entre países da América do Sul. 
Na América Latina temos três grandes tipos de estratégias de desenvolvi-
mento. Há o grupo de países com foco antiliberal ou de orientação socialista, 
composto por Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina; tem o grupo do liberalismo 
livre-cambista representado por Uruguai, Chile, Peru e o México; e, no meio, 
você tem o modelo liberal periférico, caso do Brasil, da Colômbia e do Paraguai. 
Então, essa divergência de modelos tem levado ao retrocesso do Mercosul e da 
integração sul-americana, e a evidência é conclusiva nesse sentido. 
Retornando, temos então vários temas importantes a tratar, como as questões 
do petróleo, do padrão de comércio, da internacionalização da produção, das 
negociações multilaterais etc. Assim, a gente observa uma série de temas que são 
relevantes nas esferas das relações internacionais, a saber, monetária e financeira, co-
mercial, produtiva e tecnológica. Temos que trabalhar o tema da inserção interna-
cional, portanto, dentro dessas grandes esferas, e todos esses temas que citei fazem 
parte de uma delas. A percepção que tenho é que a esfera monetária e financeira 
foi deslocada para a macroeconomia, e aqui devemos ficar atentos porque a lógica 
dos macroeconomistas é diferente. Quem chega à estabilização macroeconômica 
via economia internacional olha de forma diferente dos macroeconomistas, que 
têm um viés mais de curto prazo. E nós chegamos através da economia interna-
cional, o que nos dá uma visão mais abrangente do que a dos macroeconomistas 
stricto sensu. Geralmente, acoplamos uma visão de longo prazo, mais estruturante, 
79Inserção internacional e sustentabilidade ambiental
ou seja, estabilização com crescimento econômico, redução da vulnerabilidade 
externa e mudanças estruturais. Quem chega a partir da macroeconomia, quem 
quer que seja, keynesiano ou pós-keynesiano, tem uma visão mais curto-prazista, 
ele perde a relação entre a dinâmica de desenvolvimento e a macroeconomia. 
Então, uma coisa para a qual o Ipea deve atentar é este deslocamento das questões 
financeiras internacionais para a área de macroeconomia. Corre o risco de se perder 
o conteúdo de desenvolvimento por causa, justamente, desse viés de curto prazo 
dos macroeconomistas, independentemente da vertente. 
Duas questões que considero fundamentais, nesse tipo de agenda que trata 
da inserção soberana nas esferas financeira, produtiva, comercial e tecnológica, 
são referentes a dois conceitos: um, o de