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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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da interdependência sino-americana quebrou 
quase todos os prognósticos dos teóricos das relações internacionais, então, o 
que é muito interessante é que a grande questão é como a mudança americana é 
persuasiva sobre os chineses.
Os chineses, nos últimos anos, mudaram de uma percepção que considerava a 
questão ambiental como um problema de longo prazo, como se dissessem “o nosso 
problema é crescer economicamente e depois nos prepararmos para a ameaça cli-
mática”. A China é uma sociedade confuciana, então a comunidade científica tem 
muito prestígio, e os climatólogos chineses mostram que a China é um país muito 
vulnerável a mudanças climáticas, por duas razões fundamentais: por um lado, 
quais são as áreas mais vulneráveis genericamente? São as áreas de interposição da 
circulação atmosférica terrestre e oceânica. A China tem um vasto litoral de baixa 
altitude, que são áreas onde mais se dão os fenômenos climáticos mais extremos. 
O problema não é que vai subir demais o nível da água e vai inundar Xangai, por 
exemplo, isso não faz o menor sentido. Nós estamos falando de um dos berços 
da civilização humana, um dos fundamentos para grande parte das sociedades 
que lá se radicavam, hoje sendo uma das áreas mais vulneráveis porque mudaram 
as condições, porque hoje são essas áreas baixas onde se tem a maior formação 
90 Complexidade e Desenvolvimento
de fenômenos climáticos extremos, particularmente, tormentas e precipitações 
– no caso do Oceano Pacífico, por exemplo, os furacões são muito mais severos. 
Essas são as manifestações específicas da mudança climática e foi por isso que os 
chineses mudaram sua percepção, e agora estão preocupados. Já não é mais um 
problema de longo prazo, remoto; agora, é de interesse nacional a China mitigar 
a mudança climática. 
Mas ainda há um segundo ponto: quanto será o custo para os chineses e 
os americanos? Como eles são duríssimos na negociação, o importante é que o 
diálogo chinês e o americano sobre o clima se acelerou extraordinariamente no 
governo Obama. Mas o acordo travado por eles é suficiente? Ainda é um enigma, 
porque pode ainda ser minado, inclusive. Ele estabelece que a redução de emissões 
nos Estados Unidos em 2020 seja de 17% em relação ao ano-base de 2005, en-
quanto o Protocolo de Quioto estabelecia uma redução de 7% para ao ano-base 
de 1990, portanto esse acordo estabelece uma redução de emissões muito limi-
tada, o que faz com que os Estados Unidos nem sequer atinjam o compromisso 
da UE, que é uma redução de 20% em 2020 em relação ao ano-base de 1990. O 
que os cientistas pensam é que essa taxa é pouco, havia de ser 30% ou 40%, o que 
serviria como um exemplo, criaria um constrangimento sobre os países emergentes. 
O que acontece é, então, que os Estados Unidos não fizeram o que deveria ter 
sido feito. O governo reconheceu, e agora, ainda por cima, foi premiado. Então, 
como o Obama reconheceu, os Estados Unidos têm uma colher de chá e vão mais 
lentamente, não se parte mais de 1990, agora o ano-base é 2005. Então, passa-se 
por um problema de legitimidade, não é fácil.
Eu digo tudo isso para mostrar que a grande negociação não é fácil mas, 
ao mesmo tempo, atrai forças para cooperar de forma muito profunda, porque 
as elites de todos os principais países se sentem ameaçadas. A única elite que não 
se sente ameaçada pela mudança climática é a elite russa, por motivos bastante 
complexos, relacionados ao colapso do comunismo, ao lugar da Rússia e sua re-
sistência a temperaturas baixas, enfim.
Então, isso cria uma força para cooperação, algumas coisas interessantes e 
otimistas aconteceram, os pacotes de estímulo que houve no mundo pela crise na 
economia, a partir do último trimestre de 2008, tiveram coisas absolutamente 
surpreendentes. Países como a China, por exemplo, tiveram, ou ao menos pro-
gramaram, 35% do pacote de estímulos associado à transição para uma economia 
de baixo carbono. Se você pensasse pela teoria clássica das relações internacionais, 
deveria ter sido o oposto: frente a uma crise internacional, a China faria um 
estímulo altamente intensivo em carbono, diminuiria os parâmetros das termoe-
létricas para ficar com um custo mais baixo. Mas não, houve um impulso extraor-
dinário em energia solar e eólica, a China já se transformou no principal produtor 
91Inserção internacional e sustentabilidade ambiental
de “solar-fotovoltaica”, mas antes era muito para exportação, agora vai ser tudo 
para o mercado interno. 
A Coreia do Sul tem 65% do seu pacote de investimento direcionado para a 
transição para uma economia de baixo carbono, incluindo projetos que ainda são 
muito caros, mas que eles percebem como decisivos para o futuro. Por exemplo, 
o projeto perto de Seul de energia de marés, que ainda é muito caro comparado 
à energia solar e eólica, mas que está sendo colocado à frente dos demais, sendo 
vanguarda no mundo. Enquanto isso, os nossos pacotes de estímulos foram de-
sastrosos, por exemplo, a redução do IPI que foi feita massivamente para todos 
os carros. O que tinha que ter feito era, pelo menos, ter certa seletividade, que 
a redução do IPI fosse para carros flex com determinado nível de desempenho e 
consumo de gasolina, que tivesse um parâmetro mais preciso, algo que estimulasse 
precisamente a eficiência com uma baixa taxa de carbono dos carros, mas não, 
nós reduzimos o IPI genericamente para todos os carros. Outros países fizeram 
isso, foi o posicionamento de Obama para ajudar Detroit, por exemplo, levando 
a uma transformação do paradigma automobilístico norte-americano, seguindo o 
paradigma da Toyota. Em relação a isso nós estamos mal.
Por fim, eu gostaria de acrescentar, mais especificamente, algo sobre o nosso 
quadro de transição para uma economia de baixo carbono, dividindo em dois se-
tores clássicos: por um lado, a questão da eletricidade, do transporte e da energia 
industrial, e por outro, a questão do desmatamento e do agrobusiness. E por que 
isso é importante para nós? Porque grande parte das emissões globais, aproxima-
damente 75% das emissões dos gases, é de dióxido de carbono gerado pela queima 
de carvão, petróleo e gás natural, nessa ordem, do pior para o melhor. Tem que 
ser considerado, também, o desmatamento, queima de biomassa, como fontes 
de emissão de gases, além de outros dois gases importantes que são o metano e 
o óxido nitroso. Aproximadamente 15% das emissões globais de carbono são de 
metano, e quase 9% de óxido nitroso. E nós utilizamos muito de ambos, porque 
o óxido nitroso é muito importante para o agrobusiness, para os fertilizantes, e o 
metano para a pecuária. Outra parte importante para nós são as hidroelétricas e o 
lixo, por causa do metano. Em outros países, o metano, por exemplo, seria pouco 
relevante.
Do ponto de vista da eletricidade estamos muito bem: entre 83% e 85% da 
nossa eletricidade é hidroelétrica, o que não quer dizer que todas sejam de baixa 
intensidade de carbono. Por exemplo, as hidroelétricas que se fizeram na Amazônia, 
como Tucuruí e Balbina, todas emitem muito metano, foram malfeitas, o que 
não quer dizer que todas as hidroelétricas tenham esse problema, mas aquelas são 
desastrosas. Balbina jamais poderia ter sido feita onde foi, e o terreno de Tucuruí 
deveria ter sido limpo. 
92 Complexidade e Desenvolvimento
Enfim, há diversas coisas que já aprendemos a fazer diferente. A energia 
hidroelétrica é nossa vantagem: somos o terceiro país em consumo de energia hi-
droelétrica do mundo, mas o problema que estamos tendo é no sentido de diver-
sificar a matriz de produção de eletricidade. Isso é algo muito necessário porque, 
caso contrário, ficamos vulneráveis, inclusive a mudanças climáticas que tornam 
erráticos os padrões de precipitação, mudando a altitude dos reservatórios etc.
O problema é que saltamos para um programa de diversificação da matriz 
elétrica que está enfatizando termoelétricas