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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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de óleo combustível e até de carvão 
mineral, e energia nuclear. Isso, do ponto de vista do óleo combustível e de carvão, 
é ir na contramão da história, não faz o menor sentido praticar este tipo de coisa. 
Quanto à energética nuclear, o plano que existe é inadequado para um país como 
o Brasil, onde o potencial hidroelétrico não aproveitado é gigantesco (60%), um 
dos maiores do mundo, o potencial eólico e solar, também, é gigantesco. O eólico 
já é bastante competitivo mundialmente, nós não temos uma boa arquitetura para 
premiar o desenvolvimento da energia eólica como matriz elétrica e energética. 
A energia solar-fotovoltaica ainda não é competitiva, porém cada vez mais vai se 
tornando fundamental, e depois temos toda a eletricidade derivada da biomassa. 
O problema é que fizemos um plano de expansão elétrica que vai na contramão 
da transição para uma economia de baixo carbono. Ou seja, mesmo estando muito 
bem em eletricidade, nosso futuro está no caminho errado, nós não seremos con-
siderados terríveis pecadores por não termos pecado muito no passado, afinal a 
nossa realidade é assentada sobre as hidroelétricas, portanto, se passarmos de uma 
taxa de 85% para 80%, ou 78% ainda será uma taxa altíssima comparada a outros 
países. Mas isso acontecer no Brasil é ruim, em função do seu potencial que é 
outro, então por que adotar a energia nuclear no Brasil? Apenas para manter a 
inércia de todo um complexo ineficiente que foi criado há quase 30 anos? E, junto 
a essa, há uma série de outras perguntas que podemos fazer. Terminar Angra 3 é 
uma coisa, construir mais uma ou duas, para manter um acompanhamento do 
ciclo tecnológico, ótimo, eu acho até saudável. Mas querer construir mais cinco 
ou oito usinas nucleares, a partir de 2030, me parece muito irracional. 
Do ponto de vista geral do uso da energia, uma questão importante é a 
margem para o aumento da eficiência sistêmica, algo que também tivemos um 
processo extraordinário e que não valorizamos o suficiente. O apagão de 2001 
provocou um aumento de 20% de eficiência energética sistêmica na economia 
brasileira, mas isso é reversível, ou seja, aconteceu, mas se não criarmos estímulos, 
se não criarmos uma estrutura regulatória que estimule e puna a sociedade, ou 
talvez as duas coisas, podemos perder. Todas as sociedades do mundo têm uma 
margem extraordinária de aumento de eficiência sistêmica energética, esse é um dos 
grandes fatores para a possibilidade de se fazer uma transição para uma economia 
93Inserção internacional e sustentabilidade ambiental
de baixo carbono, e nós temos isso e não estamos planejando e dando importân-
cia suficiente à questão. 
Para vocês, como técnicos, é muito importante que tenham internalizado e 
pensado a fundo quanto a esse padrão de aumento de eficiência sistêmica em todos 
os usos da eletricidade e, também, da própria energia para produção industrial. 
No transporte, a grande questão está colocada na superação do gargalo de 
infraestrutura e, paradoxalmente, nós temos uma loucura: estamos aumentando 
a quantidade de carros com uma malha rodoviária e ferroviária totalmente estran-
guladas e cada vez mais ineficientes, aumenta-se tanto a intensidade do carbono e 
assim como o desconforto e a poluição. Nesse sentido, o paradoxal é o seguinte: nós 
precisamos de uma combinação para construir uma infraestrutura ferroviária urba-
na e interurbana que estimule o transporte coletivo, essa é uma questão decisiva. 
Precisamos mudar o parâmetro atual de que o transporte coletivo é para 
pobre, digamos assim, e para a classe média o transporte é só de carro. Na área da 
Amazônia, o que é decisivo, e é algo que está todo dia na mídia, é mudar a cor-
relação de forças, as coalizões. O que se tem hoje? A população pobre é cúmplice 
do processo de desmatamento que, em grande medida, é ilegal. Então, o nosso 
problema não é a lei, o nosso problema é um problema de law enforcement, de es-
tado de direito pleno, ou seja, que a lei se cumpra. Nós temos uma extraordinária 
legislação nacional quanto à emissão de carbono na Amazônia e no Brasil; nossa 
emissão per capita é de 5 toneladas por habitante por causa da Amazônia, porque 
senão poderia ser de 2 toneladas por habitante, e dessa emissão da Amazônia o 
que se gera de PIB é mínimo. 
Ou seja, essa é a grande diferença entre desativar uma termoelétrica na China 
que implica queda do PIB e aumento do desemprego, e reduzir o desmatamento na 
Amazônia, em que não há queda do PIB, somente punição para setores muito 
pequenos da sociedade, inclusive porque uma das coisas mais irracionais exis-
tentes hoje na Amazônia é a pecuária. Agora, isso é, sim, muito difícil de fazer, 
porque você não pode simplesmente reprimir a população pobre, que está aliada e 
apoiando a ilegalidade, pois ela vive disso. Então, é preciso criar todo um sistema 
que premie. Um dos exemplos que foi criado recentemente, mas ainda muito 
incipiente, é o Bolsa Floresta no Estado do Amazonas. Essa é a grande questão, 
não se tem que mudar a lei, mas sim implementá-la, ou seja, que haja mais órgãos 
federais, mais justiça federal, mais Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos 
Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e outros na Amazônia, e também que a 
população pobre da Amazônia, de desmatadores, de agentes que transgridem, 
passem a apoiadores da lei. Sem isso, é muito difícil avançarmos mais do que 
avançamos na redução do desmatamento na Amazônia. E o custo é baixo, muito 
baixo quando comparado ao custo de reduzir emissões em outros países. Esse é 
94 Complexidade e Desenvolvimento
mais ou menos o quadro: o Brasil é um país que tem uma situação muito favo-
rável no que tange à transição para uma economia de baixo carbono, e, quando 
digo isso, não é ufanismo, é realmente consistente, mas não está garantido que 
iremos nos aproveitar desse potencial. 
Se a humanidade cooperar no século XXI e conseguirmos realizar essa tran-
sição – que, como disse, não está garantida, pois pode aumentar a competitividade 
e acontecer toda uma degradação civilizatória –, o Brasil estará numa posição 
muito favorável, pois tem uma matriz energética hidroelétrica, tem um potencial 
solar e eólico gigantesco, tem a experiência e o programa de etanol mais desen-
volvido do mundo. 
Agora, quanto aos estudos de vulnerabilidade de adaptação à mudança cli-
mática, nós estamos muito mal, e isso é algo muito importante quanto à combi-
natória dos recursos naturais. Os estudos de adaptação à mudança climática são 
fundamentais porque a mudança climática já é irreversível, então, dentro desse 
contexto, há três medidas: a primeira é investir fortemente em estudos de vulne-
rabilidade. Nós temos uma área onde avançamos muito no estudo de vulnerabi-
lidade de colheitas, de produtos agrícolas à mudança climática, um estudo feito 
pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com um mapea-
mento, e como se deslocam as diversas produções, que é muito bom, mas em 
outras áreas, como de vulnerabilidade humana, nós não temos nada. 
A segunda é algo simples: é reforçar e investir no desenvolvimento das es-
truturas da defesa civil. Nós não temos uma cultura de defesa civil, pois ainda 
não tivemos necessidade, somos um país sem terremotos, sem vulcões, e tudo 
isso parece um privilégio, mas se torna uma vulnerabilidade porque no extremo 
climático nós sofreremos, como todos. Uma coisa decisiva para readaptar-se é ter 
uma forte cultura de defesa civil. Ou seja, treinamento da população em todos 
os lugares, principalmente, nas encostas dos rios, treinamento para precipitações 
intensas etc., ter uma boa defesa civil muda muito o nível de sofrimento humano 
e o custo material dos fenômenos climáticos extremos.
A terceira tem a ver com os estudos de mudança de padrões de licencia-
mento, que incorporam o ritmo climático. Por exemplo, as hidroelétricas do rio 
Madeira foram planejadas