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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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sem avaliação do ritmo climático, para vocês verem 
como estamos atrasados. 
E eu concluo por aqui, muito obrigado. 
CAPÍTULO.6
MACROECONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO1
Fernando.Ferrari.Filho
João.Sicsú
FeRnanDo FeRRaRI FIlho – Inicialmente eu queria agradecer o convite do Ins-
tituto Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) para participar desta discussão com 
vocês. Vou procurar mostrar que a macroeconomia não é uma questão resolvida, 
como alguns teóricos do mainstream, no passado, sinalizavam; mais especifica-
mente, me reporto a um encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação em 
Economia (ANPEC), em 1994, em Florianópolis, em que Robert Lucas Jr. disse, 
categoricamente, que a macroeconomia era um solved problem, ou seja, não havia 
mais questões controversas na teoria macroeconômica. Ironicamente, desde 1994 
várias crises financeiras e cambiais se manifestaram na economia mundial, sendo 
que a mais recente, a crise financeira norte-americana, originada no mercado sub-
prime em 2007, acabou afetando o lado real da economia mundial, gerando, em 
2009, uma recessão sem precedentes desde a Grande Depressão. Pretendo argu-
mentar que macroeconomia não é um solved problem, principalmente pelo fato 
de que, na Ciência Econômica, há espaço para diversas “tribos” de economistas 
e, portanto, não existe um pensamento monolítico acerca dos fenômenos macro-
econômicos. Este que vos fala, assim como o João Sicsú, é um economista hete-
rodoxo, de formação pós-keynesiana. Então, a discussão sobre “macroeconomia 
para o pleno emprego” que vou apresentar para vocês é uma versão alicerçada na 
macroeconomia pós-keynesiana que entende que os problemas macroeconômicos 
não estão resolvidos e que a macroeconomia real, não necessariamente, é uma 
macroeconomia de pleno emprego. Dito de outra forma, a macroeconomia pós-
keynesiana apresenta mecanismos para mitigar os problemas advindos de crises 
de demanda efetiva e de desemprego, de instabilidades cambial-financeiras etc. 
Essa é a ideia que pretendo apresentar ao longo de minha exposição.
1..Este.capítulo.reúne.aulas.proferidas.pelos.professores.Fernando.Ferrari.Filho.e.João.Sicsú.durante.o.curso.de.Ambien-
tação.dos.novos.técnicos.de.Planejamento.e.Pesquisa.do.Ipea,.em.julho.de.2009..Os.textos.a.seguir.foram.transcritos.por.
Carlos.Henrique.R..de.Siqueira.e.Natália.Orlandi.Silveira,.e.submetidos.aos.seus.autores.para.revisão.e.validação.
96 Complexidade e Desenvolvimento
Inicio com uma citação do capítulo 24, último capítulo da The General Theory 
of Employment, Interest and Money (TG) de John Maynard Keynes.2 Segundo 
Keynes, economias capitalistas, ou economias monetárias, apresentam dois pro-
blemas crônicos que são difíceis de serem solucionados: por um lado, tanto a 
renda quanto a riqueza são pessimamente distribuídas; por outro, o sistema eco-
nômico, regularmente, não assegura as condições de pleno emprego – ou seja, 
o desemprego é recorrente. Então, apesar de nosso seminário ser sobre “macro-
economia do pleno emprego”, em uma perspectiva pós-keynesiana economias 
capitalistas ou monetárias são inerentemente instáveis e, assim sendo, situações 
de concentração da renda e da riqueza e de desemprego acabam prevalecendo. 
Para compreender a dinâmica das economias monetárias, primeiro apre-
sentarei, muito sucintamente, os fundamentos das teorias de Keynes e dos pós-
keynesianos, para mostrar por que a macroeconomia real não necessariamente é 
a macroeconomia do pleno emprego. Segundo, pretendo apresentar uma Agenda 
Econômica para a estabilidade macroeconômica de economias emergentes, para o 
Brasil em especial, que diz respeito a um conjunto de medidas de natureza fiscal, 
monetária e cambial. Por fim, procurarei mostrar, muito brevemente, que nos 
últimos anos – mais especificamente, a partir do segundo mandato de Lula da 
Silva – alguns pontos dessa agenda estão sendo articulados. 
Vamos ao primeiro ponto, qual seja, a dinâmica econômica segundo Keynes 
e os pós-keynesianos. 
Muito rapidamente, quais são os principais fundamentos da teoria pós-
keynesiana? Primeiro, a economia é um processo histórico, isto é, a ideia básica 
é que as tomadas de decisões dos agentes têm como referência um passado co-
nhecido, que não tende a se repetir, e um futuro que é completamente incerto. 
Dessa maneira, diante de um contexto em que o passado não se repete e de re-
crudescimento das incertezas sobre o futuro, os agentes não tomam decisões de 
gastos, pois não conseguem precificar os ativos, não conseguem estimar a renda 
futura etc. Assim, entre tomadas de decisões arriscadas no presente que podem 
ser equivocadas e terem custos ou tomadas de decisões conservadoras, os agentes 
preferem as segundas. Em suma, no tempo histórico, as tomadas de decisões equi-
vocadas e os custos inerentes a elas são irreversíveis. 
Segunda questão: a expectativa dos agentes, por exemplo, a expectativa que 
nós temos em relação ao preço das ações dentro de 30 dias, ou da inflação ao final 
de 60 dias, e assim por diante, é condicionada pela incerteza. Ou seja, formação de 
expectativa não é condicionada a um comportamento de eventos pretéritos 
conhecidos, ou de eventos supostamente antecipados, mas sim condicionada, 
2..KEYNES,.J..M..The general theory of employment, interest and money..Prometheus.Books,.1997.
97Macroeconomia para o desenvolvimento
fundamentalmente, à incerteza. Por quê? Porque, apesar de termos informações 
passadas e intuições, o que nos auxilia na tomada de decisão, tais informações e in-
tuições não nos asseguram que os eventos, por exemplo, econômico, político e social, 
ocorrerão conforme o que esperávamos quando de nossas decisões. Em suma, expec-
tativas não são determinadas por riscos probabilísticos, mas, sim, por incertezas.
Terceiro ponto: moeda é uma “instituição”, sem dúvida a mais importante 
da dinâmica de economias monetárias, com prêmio elevado e que representa o elo 
entre o presente e o futuro. Mas por que ela é essencial? No capítulo 17 da TG, 
Keynes mostra que moeda apresenta algumas peculiaridades que a diferenciam 
dos demais ativos. Essas peculiaridades são: primeiro, a elasticidade de produção 
dela é muito baixa; segundo, a elasticidade de substituição é próxima de zero; e 
terceiro, o seu prêmio de liquidez é elevado. Assim sendo, devido às suas peculia-
ridades e diante de um contexto de incerteza sobre o que ocorrerá na economia 
no futuro, as tomadas de decisões dos agentes direcionam-se para a demanda por 
moeda (preferência pela liquidez). Ademais, tais peculiaridades fazem com que 
moeda expresse as relações contratuais das economias monetárias. 
A quarta questão é que, por ter as referidas peculiaridades, moeda não é tão-
somente numerário. Ao contrário dos (neo) clássicos, que entendem que moeda 
é um numerário (“véu monetário”), ou seja, é neutra, em economias monetárias 
moeda não é neutra e a essência da atividade econômica é a acumulação de riqueza 
monetária. Assim, moeda nunca é neutra. Em outras palavras, posições conser-
vadoras dos agentes em busca de preferência pela liquidez acabam postergando 
tomadas de decisões sobre produção, consumo, demanda efetiva etc.
Quinta questão: instituições importam. E o que são as instituições? É um 
Estado indutor e capaz, por exemplo, de articular políticas públicas e sociais con-
tracíclicas. É um banco central que sinaliza taxas de juros para estabilizar os preços 
e, principalmente, para afetar as decisões de gastos de consumo e investimento dos 
agentes. São autoridades econômicas (AE) que sinalizam a estabilidade da taxa de 
câmbio para dinamizar os contratos cambiais e equilibrar o balanço de pagamentos, 
entre outras. São regras claras e transparentes sobre a dinâmica da atividade produ-
tiva. Enfim, instituições, públicas ou privadas, importam para a funcionalidade das 
economias monetárias. Instituições são importantes para