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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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de um “ambiente institucional” favorável às 
tomadas de decisão de gastos dos agentes. Sempre que os agentes, por total incer-
teza acerca do futuro, encontrarem-se em dúvida sobre a melhor decisão, gastar 
ou preferir liquidez, o Estado, através de suas políticas e ações econômicas, tem 
de sinalizar a eles o melhor caminho a seguir, que não é, necessariamente, a prefe-
rência pela liquidez, mas, sim, a decisão de gastos em investimento e consumo. 
Essa é a ideia de “socialização do investimento” expressa no referido capítulo. Para 
aqueles que nunca leram a obra de Keynes e, portanto, são neófitos em teoria 
keynesiana – apesar de se sentirem com “autoridade” para falar sobre teoria key-
nesiana –, a expressão acaba induzindo ao argumento ideológico de que Keynes 
era favorável ao socialismo. Argumento completamente equivocado. A ideia de 
“socialização do investimento”, pelo menos na minha percepção, está relacionada 
ao fato de que as políticas econômicas intervencionistas devem sinalizar, mais 
uma vez, um “ambiente institucional” favorável à tomada de decisões de gastos 
dos agentes, fundamentais para expandir a demanda efetiva. Esse “ambiente ins-
titucional” sinalizado pelo Estado tem como objetivo mitigar, o máximo possível, 
as incertezas inerentes às tomadas de decisão de gastos dos agentes.
Quanto a Minsky, como sabemos, ele propõe o Big Government e o Big 
Bank, sendo que ambos devem ser articulados e fazer parte da funcionalidade das 
economias monetárias. A ideia de um Estado interventor e articulador de políticas 
públicas e sociais, de políticas macroeconômicas etc. é essencial para expandir 
a demanda efetiva, reduzir as diferenças sociais e impulsionar os investimentos 
privados, entre outros. O Big Government não deve ser chamado meramente para 
remediar as crises, mas sim para prevenir as crises. Por sua vez, a ideia de um banco 
101Macroeconomia para o desenvolvimento
central ativo diz respeito não somente às funções básicas de um banco central 
que, entre outras, são a regulação e o monitoramento do sistema financeiro – 
mas, principalmente, à sua ação para prover liquidez e juros baixos sempre que o 
sistema financeiro contrai-se. Ademais, o papel do Big Bank, em épocas de crise 
financeira, é evitar risco sistêmico, atuando, assim, como prestamista de última 
instância. Em suma, tanto o Big Government quanto o Big Bank devem assegurar 
as condições para a estabilidade macroeconômica.
Indo nessa direção, eu entendo que uma Agenda Econômica para a estabi-
lidade macroeconômica de economias em desenvolvimento ou emergentes deve 
contemplar as referidas ideias de Keynes e Minsky. Para tanto, meu objetivo é 
apresentar uma Agenda Econômica, alicerçada em Keynes e Minsky, que possa 
assegurar a estabilidade macroeconômica de países emergentes, mais especifica-
mente a economia brasileira. Do meu ponto de vista, economias emergentes têm 
algumas particularidades comuns: não têm moedas conversíveis, recorrentemente 
apresentam problemas de balanço de pagamentos, a inflação é sempre um “fan-
tasma” e têm dificuldades para crescer sustentavelmente, com inclusão social e 
distribuição de renda. No Brasil, não é diferente. Apesar de desde 1994 termos 
inflação sob controle, o país não consegue crescer de forma robusta e sustentável, 
bem como tem apresentado recorrentes situações de desequilíbrios de balanço de 
pagamentos em transações correntes – nesse particular, não é demais ressaltar que, 
desde o Plano Real, nós somente não tivemos problemas de balanço de pagamen-
tos em transações correntes entre 2004 e 2007. Portanto, falta de crescimento 
pujante e sustentável, bem como equilíbrio intertemporal de balanço de paga-
mentos são dois problemas crônicos do Brasil. Um terceiro problema é a natureza 
fiscal. Os desequilíbrios fiscais, decorrentes em grande parte do fluxo de rolagem 
da dívida pública, acabam impedindo que as políticas fiscais sejam mais ativas 
tanto para expandir os investimentos públicos quanto para ampliar os programas 
sociais. O quarto problema é que há muitos anos a política fiscal subordina-se ao 
regime de dominância monetária: toda vez que a inflação ameaça ultrapassar o 
alvo da taxa de inflação, qual seja, 4,5%, o Banco Central do Brasil (BCB) eleva 
a taxa Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (SELIC), comprometendo 
o equilíbrio fiscal e afetando a atividade produtiva. Esses problemas acabam con-
vergindo para uma questão maior: crescimento pífio e desemprego elevado. Para 
se ter uma ideia, entre 1995 e 2008, o país cresceu, em média, cerca de 2,9% ao 
ano, sendo que o crescimento econômico ocorreu à la stop-and-go. 
Diante de tais problemas, o que fazer para que a economia brasileira tenha es-
tabilidade macroeconômica (inflação baixa e sob controle, crescimento econômico 
sustentável e inclusão social e equilíbrio intertemporal de balanço de pagamentos)? 
Equacionar a questão externa, priorizar metas de crescimento ao invés de metas de 
inflação e operacionalizar políticas fiscal e monetária contracíclicas são fundamentais.
102 Complexidade e Desenvolvimento
Vamos a elas. Primeiro, é necessário eliminar nossa restrição externa. Em 
outras palavras, não podemos mais crescer dependendo de “poupança externa”. O 
modelo pós-keynesiano de crescimento com restrição de balanço de pagamentos 
de Thirlwall nos mostra que a taxa de crescimento econômico sustentável deve 
ser compatível com a taxa de crescimento das exportações, pois, assim, o balanço 
de pagamentos apresenta uma trajetória de equilíbrio. Para tanto, para eliminar a 
restrição externa são necessárias algumas medidas: incentivos financeiros, creditícios 
e fiscais para as exportações; política industrial; política cambial competitiva; di-
versificação da pauta de exportações; e fortalecimento das relações comerciais e 
financeiras do país com países do Sul – diga-se de passagem, essa questão tem sido 
articulada pelo governo Lula da Silva, pois desde 2003 o governo brasileiro tem 
se preocupado em integrar economicamente a América do Sul, tem diversificado 
seus parceiros comerciais etc. Em relação à diversificação da pauta de exportações 
e à ampliação dos parceiros comerciais do Brasil, é importante mencionar que nos 
anos 2000 deixamos de ser exportadores predominantemente de commodities e 
temos exportado produtos com capital-intensivo, bem como nossas exportações, 
hoje, dependem muito menos dos Estados Unidos do que dependiam no passado 
– até poucos anos atrás as exportações brasileiras para os Estados Unidos eram da 
ordem de 25,0%, ao passo que atualmente elas não excedem 18,0%. Ainda sobre 
os parceiros comerciais brasileiros, dois pontos: primeiro, nossas exportações para 
os países emergentes têm crescido significativamente, em especial para China e 
Argentina; segundo, o fortalecimento das relações comerciais, não somente com 
os países do Mercosul, mas com os países da América do Sul, tem sido relevante e 
estratégico. Nesse particular, o Brasil tem sido importante para a consolidação da 
União das Nações Sul-Americanas (Unasul).
Explorando um pouco mais algumas das medidas mencionadas, a política 
industrial deve ser articulada de forma a dinamizar o volume de comércio, através, 
sobretudo, do aumento da competitividade da estrutura produtiva, de uma polí-
tica que vise à atração de investimento estrangeiro direto (IDE), de uma política 
comercial ativa, em conformidade com as regras da Organização Mundial do Co-
mércio (OMC) – se entrarmos no site da referida instituição, podemos perceber 
que existem várias salvaguardas de política comercial que os países emergentes 
podem adotar quando eles têm, momentaneamente, problemas de balanço de 
pagamentos advindos de choques assimétricos, de uma política tecnológica etc. 
Enfim, o objetivo da política industrial tem de ser o de reestruturar as exportações 
e substituir as importações. Em relação à política