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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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de política econômica, mas o Brasil não se 
transforma em um grande desastre. Então, essa é uma questão que nós deveríamos 
pensar. Nós temos a taxa de câmbio no lugar errado, temos a taxa de juros no 
lugar errado, temos uma política fiscal contracionista, mas o Brasil não dá numa 
Argentina, não dá num Equador, o Brasil não desaba. Então, eu acho que deve-
ríamos relativizar e pensar em outros argumentos que podem ser levantados, que 
expliquem a estabilidade social e econômica brasileira que não estão, como podemos 
ver nos últimos tempos, ancorados exclusivamente em posições de câmbio, juros 
e política fiscal. Esse é um questionamento. 
Acho que a economia brasileira entrou em outra rota de crescimento, a 
partir de 2006. A partir de então não há nenhum stop, mas na verdade go, go, go, 
vamos dizer assim. Realmente, a partir do quarto trimestre de 2008, a economia 
muda, mas não só a economia brasileira, todas mudam, inclusive a chinesa, que é 
considerada um exemplo do ponto de vista fiscal, monetário e da regulação. Apesar 
disso, vinha com uma taxa de crescimento de 10% e caiu para 6%, a Índia, que 
vinha com uma taxa de 8,5% também caiu para 6%. Então, nós desabamos, mas 
outros desabaram também com grande magnitude. Eu diria que o tropeço que 
tivemos é do tamanho do tropeço chinês, ou proporcional ao chinês: eles cresciam 
a 10% e estão crescendo a 7%, nós estávamos crescendo a uma média, nos últi-
mos três anos, de 4,5% e passamos a 0%. Então, tomamos um tombo tal qual 
106 Complexidade e Desenvolvimento
as economias que estão mais organizadas, do ponto de vista macroeconômico, 
também o tomaram. Na mesma magnitude. 
No Brasil há algo que sustenta a macroeconomia que não é a política macro-
econômica. Acho que é, basicamente, o que foi estabelecido na Constituição de 
1988, onde o salário mínimo (SM) tem um papel preponderante, via distribuição 
de benefícios pela previdência social. Acho que isso explica, em grande parte, o 
nosso sucesso a partir de 2004, quando o SM, de fato, assume uma trajetória 
mais acentuada de crescimento e onde o consumo passa, inicialmente, a puxar o 
crescimento do PIB, estimulando, posteriormente, decisões de investimento. De 
fato, a política do segundo mandato do governo Lula é diferente do primeiro, tem 
diferença na política cambial, tem diferença na política monetária, tem diferença 
na política fiscal. 
A previdência social distribui, por mês, dois terços dos seus benefícios (são 
cerca de 20 milhões de benefícios) no valor de 1 SM. O crédito no Brasil saiu, 
nesse período, da faixa de 20% para mais de 40%, e a produtividade aumentou 
significativamente a partir de 2004; diria que, por um lado, extremamente nega-
tivo, foi a importação de bens de capital, com esse câmbio que nós detestamos, 
mas que possibilitou muita importação de bens de capital e o aumento da produ-
tividade e dos rendimentos em geral. O SM aumentou muito, mas os demais ren-
dimentos também aumentaram, e isso é resultado do aumento de produtividade 
que é, por sua vez, resultado dessa infeliz taxa de câmbio que nós temos. 
Essa é a minha visão sobre como a economia brasileira tem se comportado 
nos últimos tempos. Acho que, de fato, a política macroeconômica brasileira pre-
cisa mudar e nós pensamos que existe outra arquitetura que dá mais estabilidade, 
não garante tudo, garante uma parte. Precisamos ter uma arquitetura de seguri-
dade social, associada a uma arquitetura macroeconômica, que dê estabilidade 
social e que abra espaço para um projeto de desenvolvimento. Eu diria que a 
China estaria quase isenta dessa crise se tivesse essa outra perna que acabei de 
mencionar: um sistema de seguridade social. E ela só tem macroeconomia, então, 
foi atingida. O Brasil não tem macroeconomia, mas tem, apesar de muito criti-
cada, muita seguridade social, o que segura esses trancos, essas crises que, agora, 
não têm nada a ver com a gente porque essa foi uma crise que veio de fora para 
dentro, e é a seguridade social que segura o tranco dessas crises nesses momentos. 
Então, precisamos ter duas pernas, a perna da arquitetura social de seguridade, 
seguro-desemprego e benefícios sociais, e precisamos ter a perna da segurança 
macroeconômica. 
Então, vou mencionar algumas concordâncias e discordâncias com meu 
amigo Fernando.
107Macroeconomia para o desenvolvimento
Sobre o controle da inflação. A inflação brasileira, de fato, nunca foi uma 
inflação de demanda nesses últimos tempos. Ela sempre foi uma inflação pelo 
lado dos custos. Mas não podemos ter a ilusão de que qualquer política de restri-
ção – seja monetária ou fiscal (no caso brasileiro, nós utilizamos a monetária) –, 
qualquer política contracionista, independentemente da causa da inflação, se de 
custos ou de demanda, é controlada por uma restrição de política macroeconô-
mica. Se temos um choque energético, e ali tem um custo que vai ser passado aos 
preços, nós podemos fazer uma política de restrição monetária, de restrição da 
demanda, que isso não vai impedir os empresários de repassarem seus custos, que 
estão aumentados, para os preços. O que acontecerá é que vai contrair a mar-
gem, ainda que a inflação seja de custos. Uma política de restrição monetária, não 
importa a causa, sempre controla a inflação. Assim como uma política fiscal tem 
o mesmo efeito. Eu diria que o BCB tem tido sucesso em controlar a inflação por 
um instrumento que tem pouca inteligência e muitos custos. Pouca inteligência 
porque ele não estabelece um outro objetivo, tal como o faz o Federal Reserve 
(Fed). No Fed o mandato de direção não é para controlar a inflação, porque se eu 
tenho como restrição, enquanto gestor de política monetária, somente controlar 
a inflação e tenho um instrumento chamado taxa de juros, não importa qual é a 
causa da inflação que eu elevo, elevo, elevo os juros sem limite, porque a inflação, 
em algum momento, vai ser controlada. O problema é que nós temos que ques-
tionar o custo desse controle. O regime de metas, no caso brasileiro, tem especi-
ficamente este problema, de estabelecer um objetivo único com um instrumento 
único, e não dar nenhuma restrição à utilização deste instrumento. Este instru-
mento foi a 13,75% mas ele podia estar em 26%, podia estar em 45%, como já 
esteve nos últimos tempos. Ao cabo, vai se controlar. Então acho que inflação 
deve ser tratada de uma outra forma, deve ser tratada como um conjunto de preços 
que podem ser controlados. O BCB controla um preço, tem um preço que o 
BCB sabe controlar muito bem, chama-se taxa de juros, a taxa SELIC, aquilo que 
o BCB estabelece aqui é uma meta, ele vai lá para a mesa e opera todos os dias. E 
por que ele consegue controlar esse preço? Porque ele tem estoque suficiente de 
títulos e de reais, então qualquer preço é controlável. A taxa de juros é um preço 
e o BCB controla este preço. Se ele tiver uma quantidade sem fim de dólares e de 
reais, ele controla a taxa de câmbio. Podemos até pensar em outros mecanismos 
que à frente serão mencionados. Mas ele controla a taxa de câmbio. Inflação pode 
ser controlada. Inflação é um conjunto de preços que podem ser controlados de 
acordo com a causa, inclusive no ano passado o governo fez isto. O mundo inteiro 
sofreu dois choques de inflação, inflação do preço de petróleo e inflação de ali-
mentos. No caso do Brasil, utilizou-se um instrumento extremamente inteligente e 
útil, e descartou-se a taxa de juros para este fim. O preço do petróleo foi a R$ 140, 
o governo, então, reduziu a Contribuição de Intervenção no Domínio Econô-
mico (Cide), agora o preço do petróleo caiu para R$ 40, e o que o governo fez? 
108 Complexidade e Desenvolvimento
Aumentou a Cide, assim, o preço na bomba continua o mesmo. Então, existem 
instrumentos para controlar causas da inflação com custos sociais muito menores 
que a taxa de juros. A gente tem que variar. O câmbio pode ser controlado,