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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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o 
câmbio é uma das causas da inflação e pode ser também controlado ou por uma 
quantidade enorme de reservas ou com outros instrumentos, instrumentos de 
controle amigáveis, como estabelecer tributos para o movimento de capitais, ou 
controles administrativos, simplesmente proibindo determinados fluxos finan-
ceiros. Agora estamos passando por um momento em que o câmbio começa a 
derreter de novo, porque os capitais estão entrando para a bolsa e para títulos 
públicos. Que tal estabelecer um imposto sobre a entrada de capitais? Assim, não 
se está quebrando nenhum contrato, simplesmente estabelecendo um imposto, 
quem quiser paga o preço, quem não quiser não paga. Isto só reduz a atratividade 
do país, mantém a nossa taxa de câmbio mais estável, e não precisamos desses ca-
pitais, para a dívida interna, nós temos nossos recursos. Quanto à bolsa, ninguém 
vai dizer que os recursos que estão entrando estão financiando a emissão primária 
para investimento de empresa; o que está acontecendo é a valorização de ativos, 
somente isso e mais nada. Então, é possível manter o câmbio estável, eu diria até 
que outros preços devem ser mantidos estáveis.
O choque de alimento do ano passado, por exemplo. Apesar de o BCB ter 
elevado a taxa de juros, o que o governo fez foi ampliar o crédito agrícola, então, 
ampliamos a oferta de alimentos. Essa é uma forma de se combater a inflação, ali 
onde havia um desequilíbrio entre oferta e demanda de alimentos. Eu diria o se-
guinte: é preciso manter a inflação sob controle, mas é preciso que se olhe a causa 
da inflação e se combata cada causa em particular. O que esse regime de metas 
para a inflação tem de problema é que ele possui um instrumento para qualquer 
causa, que é: se o preço do petróleo vai a R$ 140, ou o preço de alimentos vai ao 
pico, no mercado internacional, o BCB, aqui, eleva a taxa de juros. Dá resultado? 
Dá, porque os preços que são influenciados pela taxa de juros ficam comprimidos, e 
o que nós conseguimos aqui no Brasil é: manter a inflação sob controle, mantendo-se 
o desequilíbrio de preços relativos. Os preços que são atingidos pela taxa de juros 
ficam extremamente comprimidos, e os outros continuam onde estão. Os preços 
dos alimentos, por exemplo, continuaram seu caminho, não olharam para a taxa 
de juros, se esta foi elevada ou não, mas outros preços foram comprimidos. Esse 
regime distorce – exatamente por ficarem os preços relativos desequilibrados – o 
vetor de preços relativos, que fica desequilibrado. 
O que aconteceu no período anterior? No período anterior nossa inflação 
era multiplicada basicamente por preços administrados, que não têm nenhuma 
sensibilidade à taxa de juros, mas a nossa inflação ficava sob controle. Por quê? 
Os preços de mercado, preços livres, sofriam pressão da taxa de juros e a inflação 
ficava sob controle. A inflação ficava sob controle, mas os preços relativos ficavam 
109Macroeconomia para o desenvolvimento
desequilibrados. À época eu dava até um exemplo quanto ao preço de um aparelho ce-
lular que iria à zero, que é o preço de mercado, o preço livre, mas a tarifa administrada 
estava na lua; esta é, exatamente, a distorção entre preço relativo, administrado e 
livre. Acho que é preciso ser mais inteligente no controle da inflação e entender 
que taxa de juros controla, sim, mas tem um custo muito elevado. E quais são 
as medidas para montar uma arquitetura de controle da inflação? São inúmeras, 
um país tem de ter um conjunto enorme, os países que são bem-sucedidos no 
controle da inflação, como a Nova Zelândia, que nunca teve inflação. A Nova 
Zelândia nunca teve inflação porque tem um conjunto de instrumentos que 
mantém a estabilidade dos preços nesse país, e ninguém por lá desmontou todos 
os instrumentos para somente utilizar a taxa de juros. O que se fez foi colocar 
no alto o regime de metas de inflação e isto se transformou em exemplo para o 
mundo inteiro. Foi o primeiro país, em 1989, a utilizar esse regime. Isso já existia 
na teoria, mas foi o primeiro país a aplicar, e todos acharam muito bom, só que 
a manutenção dos preços na Nova Zelândia não tem nada a ver com o regime de 
metas de inflação, aliás, em nenhum país dos anos 1990. O que houve foi uma 
queda, um movimento deflacionário, um movimento de desinflação, melhor di-
zendo, um movimento de queda de inflação em diversos países, sejam países em 
desenvolvimento ou desenvolvidos. Isto aconteceu independentemente de terem 
ou não regime de metas, aconteceu em todos os países. Nos anos 1990 a inflação 
desinflou; logo, não há relação com este regime. 
Sobre a política fiscal, temos que pensar em um orçamento que esteja dividido 
em duas partes. Uma parte de gastos correntes, que seja estável, que não fizesse 
parte dessa política anticíclica keynesiana, porque gastos correntes, em tese, são 
para atender necessidades básicas de funcionamento do Estado e da sociedade, 
portanto, não devem oscilar, não devem ser maiores ou menores de acordo com o 
ciclo econômico. Isso diz respeito à estabilidade de vida que se deseja dar ao cidadão, 
assim gastos correntes devem ser estáveis. Mas deveríamos ter, no orçamento, 
uma parte de gastos de capital, que pudesse ser utilizada para acelerar a economia 
ou para desacelerá-la.
E quando a inflação fosse de demanda (o que eu adoraria que nós tivéssemos, 
até comemoraria esse dia, porque, então, estaríamos com pleno emprego!) tudo 
o que fosse produzido seria vendido, seria realmente uma inflação para ser com-
batida com restrição fiscal. Acho que devemos utilizar o orçamento fiscal para 
reduzir o ritmo das obras públicas, dos gastos públicos em capital. Creio que um 
orçamento de capital é o orçamento que deve ser utilizado para a estabilidade na 
taxa de crescimento do produto e do emprego. Gasto corrente deve permanecer 
onde está, a fim de atender às necessidades da sociedade e de funcionamento do 
Estado. Mas para isso seria necessário montar uma estrutura que não estivesse liga-
da somente a economistas e cientistas sociais, mas a uma estrutura que envolvesse, 
110 Complexidade e Desenvolvimento
inclusive, engenheiros, porque obras públicas não podem ser decididas de um dia 
para o outro, há de se ter um projeto na gaveta, organizado. É preciso ter uma 
articulação entre a engenharia e as ciências sociais para utilizar o orçamento de 
capital de forma anticíclica, sabendo o momento de desacelerar ou de acelerar. E 
quando se trata de engenharia não se pode parar uma obra, o que se pode fazer 
é desacelerar a obra, assim como também não é possível construir uma ponte de 
um dia para o outro. 
Assim, é preciso ter um orçamento de capital para ser um instrumento de 
política anticíclica, mas não tenho a menor dúvida de que a relação entre a dívida 
e o PIB deve ficar estável, não se faz política fiscal somente olhando para a variável 
real. Deve-se olhar para esta variável, que é simbólica para credores da dívida pú-
blica. E aqui eu não estou me importando com o nível da relação dívida/PIB, nós 
agora estamos em pouco mais de 30%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) 
nos sugeriu, nas suas condicionalidades, que fosse abaixo de 50%, nós já atingi-
mos isso há muito tempo. Por outro lado, existem países que têm 15%, outros 
que têm 150%, e países que têm 70%, e nós estamos em torno de 38%, agora. 
Isso não faz nenhuma diferença. Faz diferença a trajetória dessa relação entre dívida 
e PIB. Se ela se torna explosiva em um curto período, isto sim, é grave, e quanto 
a isto devemos nos preocupar. A administração da dívida pública, que está dentro 
da administração fiscal, é algo que deve ser olhado com bastante rigor. Política 
fiscal não deve ser uma política de déficit, como não deve ser uma política voltada 
só para variáveis reais, mas sim variáveis reais e administração da dívida pública. 
Eu diria, também, apesar de chocar alguns keynesianos, que nós devemos, sim,