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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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buscar ter um orçamento equilibrado, mas não por uma questão moral, como se 
fosse pecado gastar mais do que se arrecada, mas simplesmente porque para se ter 
potência para gastar quando for necessário é preciso ter um orçamento equilibrado. 
Quem tem um orçamento completamente desequilibrado é fraco na hora de en-
frentar uma crise como essa. Nós estamos muito bem em termos fiscais, estamos 
com um déficit nominal de 2,3%, o que é muito bom. Podemos ainda aumentar 
esse déficit, já chegamos a quase zero uma vez. Agora, equilíbrio fiscal não se 
alcança como resultado de política de gastos, pelo contrário, o orçamento, os 
resultados de superávit ou déficit, se o orçamento é equilibrado, não tem relação 
com cortar gastos, mas sim com o vigor da economia. Qualquer economia que 
se torna vigorosa, robusta, e tem saúde, tende ao equilíbrio fiscal, simplesmente 
porque em qualquer economia os mecanismos de arrecadação são muito mais 
eficazes, mais velozes que os mecanismos de gasto. A economia brasileira rapi-
damente reduziu o seu déficit com o crescimento, e rapidamente vai aumentar o 
seu déficit em fases de desaceleração. Então, equilíbrio fiscal é o espelho do vigor 
econômico, e não o contrário, como a imprensa costuma dizer e alguns colegas 
costumam incentivar. São argumentos ideológicos que sustentam essa ideia. Se 
111Macroeconomia para o desenvolvimento
haverá déficit ou superávit é um problema de crescimento econômico, o problema 
não é quanto à possibilidade de que iremos crescer se tivermos um orçamento 
equilibrado. Eu diria, exatamente, o contrário: se crescermos, não teremos déficit, 
teremos equilíbrio. Busco o equilíbrio como meta, porque, na verdade, busco o 
vigor econômico, e com a economia dando ao governo um orçamento equilibrado, 
no momento em que houver a tendência para uma desaceleração do ritmo de 
crescimento da economia, o governo terá orçamento equilibrado e capacidade de 
realizar gastos. O governo que está estrangulado não pode usar política fiscal, go-
verno estrangulado nunca poderá ser um governo keynesiano. O keynesianismo 
não tem relação com a defesa de desequilíbrio do orçamento, e sim com política 
de gastos, e políticas anticíclicas quando necessárias, e política anti-inflacionária, 
quando a inflação for de demanda. 
Acho que para aumentar a potência da política fiscal, temos de pensar em 
algo, em que os macroeconomistas têm pensado muito pouco, quanto à partici-
pação dos salários ou dos rendimentos do trabalho no PIB. Quanto maior essa 
participação, maior é a propensão média a consumir da sociedade e, portanto, 
maior é a potência da política fiscal. Nisso os macroeconomistas têm refletido 
muito pouco, mas é importante pensar na distribuição funcional da renda, ou 
seja, quanto mais salários, mais ganhos de autônomos no PIB e, por definição ou 
hipótese, a propensão média a consumir será maior. O multiplicador será maior, 
e a cada gasto do governo, aumentará o seu impacto sobre a economia. Nós temos 
de pensar em políticas de recuperação dos salários no PIB, e segundo dados do 
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2005 e 2006 já houve 
recuperação. Tivemos uma queda grande quanto a essa participação dos salários 
no PIB de 1994 a 2004, e em 2005 e 2006 já houve recuperação. É possível que o 
crescimento econômico tenha proporcionado recuperação ainda maior nos anos 
de 2007 e 2008, o que dá mais potência à política fiscal. 
Por último, sobre a política cambial, concordo com Fernando Ferrari quando 
diz que devemos ter uma taxa de câmbio mais competitiva para produtos ma-
nufaturados, ou então isso acabará distorcendo toda a produção da economia 
brasileira. Acho que um instrumento importante, que os asiáticos usam para não 
valorizar o seu câmbio, por incrível que pareça, é a taxa de juros, eles têm uma 
taxa de juros semelhante à americana. Então, uma forma de proteger o câmbio é 
ter uma taxa de juros baixa. Eu acho que nós devemos pensar, também, nesta fun-
damentação para se ter uma taxa de câmbio baixa, em que ainda se pode ter um 
câmbio competitivo. Com uma taxa de juros alta, vai haver sempre pressão para 
a valorização cambial. E isso é explícito, embora não se diga mas se perceba pelos 
relatórios, por exemplo, do Banco da Coreia ou da Malásia, que uma das formas 
para se proteger o câmbio é com juros baixos, o que reduz a atratividade de capital 
externo. Esse câmbio é, portanto, decisivo, porque, como disse anteriormente, o 
112 Complexidade e Desenvolvimento
câmbio de R$ 1,60 fez com que a nossa produtividade aumentasse porque houve 
importação de bens de capital. O preço de bens de capital em dólares é impor-
tante, obviamente, para o empresário, mas bens de capital são comprados com 
financiamento de longo prazo. Eu diria que há algo, também, muito importante 
para os empresários, que é a estabilidade do câmbio. Ainda que seja um câmbio 
mais desvalorizado, porém estável, que permita ao empresário fazer contas. Essa 
estabilidade do câmbio desvalorizado pode compensar a instabilidade atual com 
tendência de valorização. Eu prefiro a primeira opção: dar para os empresários um 
câmbio desvalorizado, mas com estabilidade na qual ele possa fazer contas de fi-
nanciamento para importação de bens de capital. Embora, eu não descarte e acho 
que nós não devemos nunca descartar, conforme já foi dito pelo Fernando, a ideia 
de controle de capital, ainda mais agora. Controle de capital é fundamental neste 
momento, principalmente, sobre a entrada, apesar de toda a série de discussões 
que exista a respeito de entrada, de saída, residente, não residente, administrativo, 
de mercado, e outros cortes possíveis. Agora, o nosso problema é de entrada, e 
é um momento de fazer. Não adianta fazer quando a economia já estiver lá na 
frente se recuperando, quando já tiver entrado tudo o que tinha para entrar, nessa 
hora não adianta pensar em controle de capital. Então, acho que o câmbio é preço 
estratégico nessa história, e que nós devemos pensar em controlar, tal como o 
BCB controla o outro preço importante que são os juros. 
Obrigado. 
CAPÍTULO.7
ESTRUTURA TECNOPRODUTIVA AVANÇADA 
E REGIONALMENTE INTEGRADA1
Mauro.Borges
Marco.Crocco
mauRo BoRges – Gostaria primeiramente de agradecer ao Instituto de Pesquisa 
Econômica Aplicada (Ipea) pelo convite. É um prazer estar aqui, e ter a oportu-
nidade de discutir o trabalho que desenvolvo. Alguns desses trabalhos, aliás, estão 
sendo realizados em parceria com o Ipea.
Apesar de trabalhar há muito tempo com desenvolvimento regional, resolvi 
sair um pouco desse tema hoje. O que vou falar terá mais relação com desenvolvi-
mento setorial. Essa mudança se justifica porque esse tema tem a ver com pesquisas 
que o Ipea está fazendo. Dessa forma, no intuito de aprofundar esse diálogo entre 
nós, achei que seria mais interessante apresentar as linhas de pesquisas com as 
quais já estamos trabalhando conjuntamente.
Para começar, vamos tentar recuperar um conceito existente na literatura 
sobre organização industrial, discutido no Brasil amplamente desde o início das 
pesquisas empíricas sobre o tema, coordenadas pela Maria da Conceição Tavares, 
que é o conceito de liderança na indústria. Claro que esse conceito tem uma tra-
jetória internacional também muito importante, e sobre o qual temos refletido 
junto com o Ipea. 
É importante ressaltar que há um antecedente já antigo de trabalho conjun-
to entre o Ipea e o Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Ce-
deplar). A temática central é a relação entre indústria e inovação tecnológica, 
desenvolvimento econômico e políticas públicas. Esse é o núcleo temático das 
pesquisas que já estamos fazendo há mais de cinco anos. 
1..Este.capítulo.reúne.aulas.proferidas.pelos.professores.Mauro.Borges.e.Marco.Crocco.durante.o.curso.de.Ambien-
tação.dos.novos.técnicos.de.Planejamento.e.Pesquisa.do.Ipea,.em.julho.de.2009..Os.textos.a.seguir.foram.transcritos.