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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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setores industriais. A indústria brasileira é muito ampla, pelo tamanho 
do país, e é muito diversa e heterogênea. E essa é uma realidade que enfrentamos 
para fazer esse tipo de pesquisa.
Outra questão sobre o contexto é que o mercado é enorme. O mercado 
doméstico é muito importante para o desenvolvimento industrial. O tema das 
exportações é muito relevante, mas pensar a indústria num mercado doméstico 
extremamente grande como o do Brasil é realmente um esforço muito particular.
Estamos operando com um universo de 80 mil firmas industriais, com mais 
de dez pessoas ocupadas. São 6 milhões de trabalhadores e essas firmas gastam em 
torno de US$ 3 bilhões em pesquisa e desenvolvimento (P&D), ou seja, algo em 
torno de R$ 6 bilhões. Esse número é bastante consistente com várias fontes que 
checamos ao longo do tempo.
117Estrutura tecnoprodutiva avançada e regionalmente integrada
Os indicadores de inovação estão muito distantes dos países desenvolvidos, 
como seria de se esperar. E também se distanciam de alguns países em desen-
volvimento como Coreia e Taiwan, como também já é sabido. Mas o fato é que 
estamos bastante aquém pensando numa questão fundamental que é o catch up 
da indústria brasileira. Os dados indicam que estamos ainda bastante defasados.
Outro dado da PINTEC diz que 30% das empresas brasileiras são con-
sideradas inovadoras. Há uma série de erros nesse dado. Ela segue um manual 
de ordem, como todos sabemos, mas essa pergunta é intrinsecamente frouxa. É 
impossível fazer uma primeira pergunta que consiga separar o joio do trigo, ou 
seja, dizer o que é inovador e o que não é. O percentual de 30% parece bastante 
razoável, mas na Argentina esse percentual é maior. Ou seja, por esses indícios 
você começa a desconfiar da pergunta por motivos óbvios. Assim, a partir dessa 
referência é preciso ter muito cuidado ao se trabalhar com ela.
No caso da União Europeia (UE), esse percentual sobe para 50%. Entre 
30% no Brasil e 50% na Europa, era de se esperar um número menor para o 
Brasil se a resposta fosse rigorosamente idêntica lá e aqui. Mas esses números são 
apenas para que tenhamos uma referência.
Cerca de 5 mil a 7 mil empresas brasileiras, dependendo do critério que se 
use, realizavam gastos em P&D. Esse dado depende da frequência, da intensi-
dade e outras variáveis. Em 2003 essas empresas investiram em média 0,6% de 
seu faturamento em P&D. Mas esse número é meio mágico, a cada PINTEC ele 
varia. Comparando, por exemplo, com Alemanha e França a diferença ainda é 
bastante grande. 
Um dado importante é que 2,8% das empresas brasileiras fizeram alguma 
inovação de produto para o mercado em 2003. Queria explicar um detalhe dessa 
pesquisa. Primeiro, ela pergunta se a empresa é inovadora, depois se essa inovação 
foi relevante para a empresa mas já existia para o mercado, ou se a inovação 
era novidade para o mercado. Ou seja, duas coisas completamente diferentes. 
A empresa pode, por exemplo, estar trazendo um novo bem de capital de uma 
geração atual, porque ele tinha um maquinário antigo. Mas, do ponto de vista 
do mercado, aquela geração do bem de capital já está em operação em outra em-
presa. Então esse é um caso de inovação para a firma, mas não para o mercado. 
Quando você pergunta se a inovação é para o mercado já há um filtro maior, que 
pode ser aplicado àquele percentual de 30% das empresas que são consideradas 
inovadoras.
Outro dado interessante é que 177 empresas brasileiras inovam para o mer-
cado internacional. Essas empresas sim, do ponto de vista do mercado, fazem 
inovação. Essas empresas são uma categoria especial, são empresas top.
118 Complexidade e Desenvolvimento
Sobre a questão da heterogeneidade das empresas brasileiras, acho que todas 
as publicações do Ipea já falaram muito sobre isso, e essas pesquisas corroboram, 
de uma forma geral, algo que a literatura já vem apontando desde os anos 1970.
Um aspecto ainda pouco trabalhado sobre isso seria uma atenção especial à 
heterogeneidade do ponto de vista intrassetorial. Esse tipo de análise intrasseto-
rial, dentro de cada setor da indústria, só seria possível com análise de microdados. 
E as bases de dados que montamos, assim como a abordagem que propomos, per-
mite que isso aconteça. Esse tipo de trabalho parte de algumas perguntas: até que 
ponto a heterogeneidade e a capacidade tecnológica das empresas se manifestam 
no nível dos setores industriais? Qual o nível de diferenciação dentro dos setores?
Nós trabalhamos, por exemplo, com indústrias bastante tradicionais, como 
madeireiras. Nesse setor de madeiras, no entanto, descobrimos que o negócio de 
uma empresa top é manejo de floresta. Não é mais apenas tirar madeira. Há nesse 
setor grandes gerenciadores de florestas renováveis, e algumas dessas empresas 
atuam em nichos de mercado extremamente lucrativos. Ou seja, olhando pela 
média, o setor de madeiras é um setor tradicional, mas há diversidade. Há traba-
lhos com biotecnologia, e outros elementos que colocam certas empresas numa 
situação de fronteira. É outro tipo de empresa que no dado agregado é colocada 
junto com as empresas mais tradicionais, que estão desmatando as florestas. Esse 
tipo de diferenciação foi possível com a abordagem com a qual trabalhamos.
Eu queria agora passar rapidamente por alguns aspectos teóricos. A ideia aqui 
é penrosiana. Estamos trabalhando com empresa, e o que estamos privilegiando 
é o acúmulo de recursos, tangíveis e intangíveis que a empresa domina. Esse é o 
resumo da abordagem. Ela parte daí. Claro que há um forte diálogo com as coisas 
neoschumpeterianas, porque a Penrose, mesmo sem o saber, era schumpeteriana. 
Os textos e mesmo a principal obra dela são institucionalistas, numa abordagem 
claramente schumpeteriana. A ideia de base, sobre a especialização tecnológica, da 
firma como um acervo de recursos, principalmente intangíveis, argumentos sobre 
conhecimento tácito, tudo isso foi trabalhado por neoschumpeterianos.
Não há nenhuma novidade do ponto de vista teórico. Eu particularmente 
gosto de coisas velhas, se forem de boa qualidade. É preciso separar a boa da má 
teoria. E eu acho que no caso da nossa pesquisa estamos usando uma boa teoria. 
É uma visão baseada em recursos, sobre a qual há uma enorme tradição que eu 
não vou nem tentar tratar aqui, pois são coisas muito conhecidas.
O que nos interessa na pesquisa está nessas três perguntas: quais os recursos 
mais relevantes que a empresa domina? É desejável desenvolver novas competên-
cias nas áreas de domínio tecnológico das empresas? E, por fim, como ampliar 
as competências das empresas? São perguntas como essas que orientam nossas 
pesquisas do ponto de vista empírico.
119Estrutura tecnoprodutiva avançada e regionalmente integrada
Nós conseguimos estudar retrospectivamente as empresas com microdados, 
individualizadas. E conseguimos, com algum tipo de modelagem, trabalhar pros-
pectivamente algumas questões sobre a ampliação das competências das empresas.
Duas generalizações empíricas importantes nas nossas pesquisas são: primeiro, 
que há diferenças sistemáticas entre firmas, considerando como elas controlam 
os recursos necessários para que implementem suas estratégicas específicas. Essas 
diferenças sistemáticas são possíveis de detectar através dos microdados, e definir 
perfis bastante específicos, mesmo dentro do mesmo setor, com competências 
muito diferentes. Além da questão teórica que conhecemos, conseguimos chegar 
a algum nível de detalhe com esse tipo de análise, que antes as pesquisas empíricas 
no Brasil não alcançavam.
Outra generalização é que a diferença entre as empresas em termos de acervos 
tangíveis e intangíveis tem muita estabilidade. Dados com os quais trabalhamos 
em série histórica apresentam muita estabilidade. É impressionante como há es-
tabilidade em suas posições relativas e nas características que as tornam