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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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ou mais 
ou menos competitivas.
Dois pressupostos que adotamos nessa abordagem dizem respeito: primeiro, 
à diferença de alocação de recursos entre as empresas e à ideia tipicamente penro-
siana de que o que importa para a empresa é o seu crescimento a longo prazo, e 
não a maximização de seus lucros, que é a variável principal de todas as decisões 
estratégicas da empresa. Não é uma decisão de maximização de curto prazo que 
move as decisões. Essa é uma coisa que particularmente nos interessa.
O segundo pressuposto diz respeito ao conceito de regime tecnológico, que é 
também muito útil, porque aqui nesse conceito está a ideia de oportunidade, de 
cumulatividade, de probabilidade. Nesse sentido, o conhecimento relevante da 
empresa, por essas propriedades que mencionamos, é interessante para uma pes-
quisa que está centrada na questão setorial.
Não vou entrar em detalhes sobre as características da inovação, sobre a 
questão da certeza, da ideia de trajetória e regressibilidade das decisões, mas é um 
tema schumpeteriano e faz um diálogo direto com a questão da Penrose.
Por fim, nosso objetivo é fazer uma ponte entre a pesquisa e a política indus-
trial em curso no país. Essa é a ideia que motiva as pesquisas. O que buscamos é 
mapear os sistemas setoriais de inovação. Baseados naquele aporte teórico, consi-
deramos que os sistemas setoriais de inovação são fundamentais para a política in-
dustrial brasileira. Obviamente, vários setores não têm ainda um sistema setorial 
de inovação. Alguns estão no início desse processo, e outros simplesmente estão 
fora dele. A ideia de sistema é orgânica, de articulação em cadeias e redes, e esses 
120 Complexidade e Desenvolvimento
elementos estão ausentes em muitos setores. O nosso parâmetro é a ideia genérica 
de sistema setorial de inovação como um elemento de referência.
A proposição de políticas estará baseada no ponto de vista e nos pressupos-
tos teóricos adotados pela pesquisa. É importante considerar a eficiência de o 
processo de inovação tecnológica operar de uma forma orgânica e sistêmica, o que 
daria um empuxo muito forte para os setores, como a articulação entre empresas, 
porque elas poderiam operar como cadeias e redes de forma mais integrada, e não 
apenas na relação de insumo e produto. As políticas, portanto, seriam pensadas 
a partir dessa ausência, na pressuposição de que uma relação mais sinérgica do 
ponto de vista dos agregados setoriais seria muito importante levando em conta 
a competitividade setorial.
Partimos então para a pretensão de definir lideranças de empresas do ponto 
de vista empírico. Trabalhamos com dois critérios: liderança, que é a diferenciação 
de um produto e líderes em custo, levando em consideração que se uma empresa 
tem liderança em diferenciação e custo, ela é exportadora. Então, entrou como 
um dado que ela tem que ser exportadora. Há uma série de detalhes técnicos que 
não poderá ser exposta aqui, mas a ideia geral foi essa. Foi daí que partimos para 
definir a tipologia de empresas líderes.
Criamos também a categoria de empresas seguidoras. Grande parte dessas 
empresas também é exportadora, só que não tem liderança do ponto de vista tec-
nológico. A ideia de liderança, claro, é totalmente ligada à ideia de liderança em 
tecnologia. Existem empresas seguidoras que são robustas, e o fato de não terem 
o custo de serem pioneiras na inovação pode ter vantagem quanto à performance. 
Não excluímos essa questão do nosso horizonte. E o resultado final mostra que 
existem seguidoras muito importantes, algumas com mais peso no comércio ex-
terior do que as líderes.
Eu vou parar por aqui, deixando claro que trabalhamos nessa linha, e o 
trabalho ainda está em curso. Estamos abertos a novas sugestões, críticas, coisas 
muito importantes quando lidamos com pesquisas um pouco diferentes.
Muito obrigado.
maRco cRocco – Antes de começar, gostaria de agradecer ao Ipea pelo convite. É 
uma honra estar aqui falando para a nova turma que hoje ingressa na instituição. 
Minha estratégia começa com a apresentação de alguns fatos sobre a temática que 
nos foi colocada, falar um pouco sobre a discussão teórica e histórica e, por fim, 
volto a alguns fatos empíricos. O trabalho que apresento aqui foi baseado em 
algumas pesquisas anteriores.
121Estrutura tecnoprodutiva avançada e regionalmente integrada
Primeiro vamos aos fatos. O que eu direi aqui não é novidade, mas só pelo 
título do tema que nos foi proposto é possível imaginar que há um problema 
com a articulação regional, caso contrário o assunto não estaria em voga.
Em 1991, existiam apenas 32 microrregiões com mais de 40 mil postos de 
trabalho. Essas regiões basicamente estavam localizadas em São Paulo, Rio de 
Janeiro, Belo Horizonte, ou seja, região Sudeste e Sul. Há pontos em Manaus, 
Belém, Fortaleza. Mas acho que não há em Recife. Ou seja, é uma estrutura pro-
dutiva extremamente concentrada no espaço. Dez anos depois, no ano 2000, esse 
quadro praticamente não muda. Observa-se que antes existiam 32 microrregiões 
com mais de 40 mil postos de trabalho e dez anos depois existiam apenas 35. 
Isso mostra um problema. Se essa estrutura é concentrada eu apostaria que 
ela não é articulada. E esse é um fato em relação à estrutura industrial brasileira: 
ela é extremamente concentrada. Do ponto de vista da economia regional isso é 
um problema e, gostaria de enfatizar, é um problema de política industrial. Além 
disso, o mais importante, pode ser um problema para a estratégia de crescimento 
do país. E é esse problema que iremos explorar aqui. Quando analisamos os dados 
das empresas exportadoras e inovadoras, vemos que a concentração é ainda maior. 
Portanto, todos esses dados nos colocam questões sobre como desconcentrar essa 
estrutura.
Se vamos falar sobre tecnologia avançada, é importante levar em consideração 
dados sobre pós-graduação. Os dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de 
Pessoal de Nível Superior (Capes) mostram uma concentração espacial dos cursos 
de mestrado e doutorado na região Sudeste e Sul do país. Esse é o quadro e esses 
são os fatos.
Se esse é o quadro, se de fato temos de pensar em estruturas produtivas tec-
nológicas avançadas e regionalmente articuladas, isso implica dizer que temos de 
discutir política industrial e tecnológica do ponto de vista regional. O pressuposto 
básico dessa intervenção é que acreditamos em política industrial e tecnológica.
Antes de entrar nessa discussão, tentarei justificar a necessidade de se pensar 
política industrial, ou seja, por que regionalizar essa política? Para isso, temos de 
pensar em três dimensões: uma dimensão macroeconômica, uma dimensão terri-
torial, e uma dimensão microeconômica.
A dimensão macroeconômica é mais direta. Uma estrutura industrial regio-
nalizada e articulada é importante para a construção e a criação de um mercado 
de massas, o que não é contraditório com uma inserção internacional competitiva. 
A construção de um mercado de massas não é uma alternativa ou contradição 
com uma inserção internacional competitiva, pois ao contribuir para a criação 
de um mercado de massas, ele se torna o elemento central para a construção 
122 Complexidade e Desenvolvimento
de economias de escala e escopo, tão necessárias para as vantagens comparativas 
dinâmicas, base de sustentação de longo prazo da competitividade internacional 
de um país. Regionalizar a política industrial, tê-la como um elemento auxiliar 
no combate à desigualdade regional de renda, e criando um mercado de massas, 
é fundamental.
Além disso, ainda do ponto de vista da dimensão macroeconômica, regiona-
lizar significa aproveitar as potencialidades decorrentes da diversidade. A diversi-
dade possui muitas dimensões: o Brasil é diverso, e essa diversidade não precisa ser 
vista como um problema necessariamente; ela pode ser vista também como um 
ativo, tanto do ponto