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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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avançada e regionalmente integrada
Muitos outros países adotaram esse modelo, inclusive o Brasil, com a Superinten-
dência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e outros tipos de experiência.
Qual a avaliação desse período? Obviamente há muitos aspectos favoráveis 
e desfavoráveis, eu não vou fazer um juízo de valor. Eu acho que favorável, mas 
vamos aqui listar alguns argumentos.
Na maioria dos países onde essa política foi implementada houve redução de 
desigualdades regionais de forma clara e marcante. Na França, esse foi um período 
conhecido pelo crescimento com desconcentração. E, de fato, o crescimento de 
Paris se estabilizou. Houve uma estagnação da conurbação urbana na cidade de 
Paris. Além disso, a França expandiu o que foi chamado de metrópole de equilíbrio, 
uma distribuição da atividade mais equilibrada no espaço. Na Itália existem dados 
que mostram uma redução pela metade da diferença do Produto Interno Bruto 
(PIB) per capita entre a região Norte e a região Sul. E no Reino Unido houve a 
criação de 300 mil postos de trabalho devido a esse tipo de política.
Os argumentos desfavoráveis são os seguintes. Primeiro, a competência exclu-
siva do Estado para a condução das políticas levou a certo grau de paternalismo e 
diversas formas de assistencialismo, o que poderia ter explicado vários dos casos de 
insucesso. Nem todas as experiências foram bem-sucedidas. Segundo, nas políticas 
de tipo top down, onde se vai a uma determinada região e se instala um determinado 
tipo de indústria, nem sempre se consegue enraizar os mecanismos de crescimento. 
Isso ocorre provavelmente porque foi estabelecida uma pequena vinculação com as 
capacitações locais. Ou seja, a partir de cima instala-se uma atividade econômica, 
e ela vira uma catedral no deserto, estabelecendo pouquíssimas relações. E se essa 
indústria é retirada dali ou privatizada, sem subsídio, essa empresa não consegue 
mais se sustentar nessa região, e nesse local ela se torna inviável.
As avaliações apresentadas até aqui foram aquelas feitas até a década de 1970. 
Na década de 1980, com a crise do Estado keynesiano, sobre a qual não entrei 
em maiores detalhes, inicia-se uma nova modalidade de políticas de crescimento, 
para responder à crise do modelo anterior. E nela se destacam a menor atuação 
do Estado, permitida apenas para corrigir falhas de mercado; o desenvolvimento 
local endógeno, que virou a pérola desse período; a ênfase na competitividade, 
não no crescimento nem na redução da disparidade regional. A ênfase passa a ser 
a competitividade, e a ênfase passa a ser mensurada principalmente pela inserção 
internacional, como elemento central de desenvolvimento. 
Esse aspecto da política combina-se aqui com diversas concepções: o papel 
do conhecimento, da inovação, da geração e absorção de externalidades no pro-
cesso de desenvolvimento econômico etc. A partir daí foram enfatizados os ele-
mentos facilitadores dos processos de aprendizagem-desenvolvimento. É a partir 
daí que surgem as ideias de não desenvolvimento industrial, tudo é local, ligação 
126 Complexidade e Desenvolvimento
com o desenvolvimento das potencialidades do local. Surgem também os conceitos 
de sistemas locais ou regionais de inovação, cidades científicas, incubadoras de 
empresas, parques tecnológicos, circuitos industriais, clusters (de vários tipos).
Antes de falar sobre as consequências desse segundo enfoque, queria destacar 
dois aspectos centrais dessa perspectiva. Primeiro, o entendimento de que a geração 
de conhecimento seria suficiente para o surgimento e a difusão de externalidades 
de conhecimento no espaço. E isso levaria à convergência entre países e regiões. 
Esses argumentos foram muito caros às novas teorias do desenvolvimento, que 
pleitearam a ideia de convergência de renda. Em segundo lugar, o conceito de 
desenvolvimento local endógeno.
Vou discutir um pouco mais detalhadamente esse tema porque faltava o 
conceito de região nesses dois enfoques. Externalidade e região são conceitos muito 
pouco trabalhados nessa discussão. E apesar dessas teorias falarem muito de loca-
lidade, isso não quer dizer que incorporaram a discussão sobre região. No Brasil 
e no mundo discute-se cluster, seja o do Vale do Silício ou o Arranjo Produtivo 
Local (APL) de Santa Rita do Sapucaí como se fossem a mesma coisa. Como se 
fosse a mesma coisa em Caruaru ou na África, tudo é considerado cluster, APL, 
tudo é desenvolvimento. Contudo, os espaços são completamente diferentes. E 
vou tentar introduzir essa discussão aqui, justamente para mostrar como esses 
conceitos podem ter impactos distintos quando discutimos variáreis importantes 
na política industrial.
Quando se discute externalidade, especialmente de conhecimento, é im-
portante pensar na geografia. A externalidade de conhecimento não flutua no 
espaço. Todos falam nas externalidades, vários autores usam o conceito, que é 
correto, mas falam de algo que foi gerado em um local qualquer e que se desloca 
ou expande para outro. Gero um fenômeno aqui e a externalidade parece que voa. 
Mas as externalidades, de fato, não flutuam, e isso ocorre devido a dois fatores: a 
centralidade e a dimensão geográfica da transmissão do conhecimento, e a relação 
entre centralidade, conhecimento, capacitação e capacidade de absorção. Já res-
salto, adiantando um pouco a conclusão, que essa discussão de externalidades tem 
a ver com outra, a de construção de centralidades.
A questão das centralidades e a dimensão geográfica do conhecimento são, 
na verdade, bastante simples. Centralidade é a capacidade de uma região de ofe-
recer serviços cada vez mais sofisticados. O fato de uma região prover serviços 
sofisticados como serviços bancários, consultorias técnicas, serviços hospitalares 
sofisticados faz com que o entorno não possa ter esse serviço, pois ali não haverá 
escala suficiente para reproduzir os serviços. Por que os serviços de engenharia 
estão localizados em Brasília e não em Taguatinga? Ou outra cidade? Não existe 
127Estrutura tecnoprodutiva avançada e regionalmente integrada
lá porque existe aqui, porque Brasília é o ponto de concentração e escala para esse 
tipo de serviço. Isso faz com que esses serviços mais sofisticados se concentrem em 
determinadas regiões. E quanto mais eles se concentram, mais difícil é para que 
outras regiões tenham esse tipo de serviço. Se você combina isso com a discussão 
de Jacobs sobre a diversidade urbana, haverá um diálogo direto entre a diversidade 
urbana e a construção dessa centralidade.
Portanto, essa centralidade é fundamental, principalmente os transbordamentos 
de conhecimento, devido a duas características: a demanda de conhecimento e a 
existência de intermediários de conhecimento. O que quero dizer com isso?
Vamos lá. Demanda de conhecimento: para que o transbordamento de co-
nhecimento se torne uma realidade é necessária a existência de formas econômicas 
que a utilizem no processo produtivo. Ou seja, se pesquiso, crio conhecimento e 
quero que esse conhecimento transborde, é preciso que alguém o utilize. A exter-
nalidade só existe se alguém se aproveita dela. Se ninguém a aproveita é apenas 
um transbordamento que está por aí. Externalidade só passará a existir se houver 
alguém que incorpore esse conhecimento no processo produtivo.
Nesse sentido, é possível assumir que em áreas com estruturas produtivas 
diversificadas como a Jane Jacobs já salientou, devido à elevada centralidade, a 
oportunidade para a geração de novo conhecimento é maior que nas regiões com 
menor centralidade. Então, o transbordamento, se aproveitado e transformado 
em externalidade, gerará maior demanda por conhecimento justamente em regiões 
onde há maior centralidade.
Espaços geográficos sem centralidade não terão demandas por conhecimento 
para que aquela externalidade chegue ali e, por consequência, o efeito que um 
spin over possa