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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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ter no encadeamento de uma relação industrial é menor. Nesse 
sentido, as externalidades serão, principalmente, absorvidas em locais de maior 
centralidade. Portanto, a demanda por conhecimento está ligada diretamente à 
questão da centralidade.
Vamos explorar agora a externalidade em relação aos intermediários de co-
nhecimento (conduits of knowledge transfer). O conhecimento e a externalidade 
precisam ser repassados. Eles não se transmitem no ar. Se ele não faz isso, como 
então será transmitido? A literatura mostra vários meios de transmissão de conhe-
cimento, sejam os formais ou informais. Esses intermediários de conhecimento 
estão associados ao grau de centralidade de uma região específica. É possível argu-
mentar que quanto maior a centralidade de uma região mais fáceis são a emergência 
e a transmissão das externalidades de conhecimento. Isso vai fazer com que a 
existência de hierarquias de centralidades implique processos desiguais de geração 
e difusão de centralidades e conhecimentos. Com isso estou tentando explicar por 
128 Complexidade e Desenvolvimento
que os centros de ciência e tecnologia no país se localizam em São Paulo basica-
mente. Isso explica por que a Fiat monta uma planta em Belo Horizonte, mas a 
unidade de P&D dela está em São Paulo, e não em Betim. Por que a Grandene 
transfere sua fábrica para Sobral, mas a unidade de P&D continuou lá em São 
Leopoldo. Por que existe uma transmissão de conhecimento na região, e se ele sair 
dali não vai mais aproveitar essas externalidades.
O que estou dizendo, dessa maneira, é que do ponto de vista da articulação 
e da capacidade de uma política que queira aproveitar as externalidades geradas 
pelas unidades de P&D, você precisa pensar isso do ponto de vista da estrutura 
espacial do país.
A capacidade de absorção do conhecimento vai depender também do modo 
como ele é divulgado. Eu estou tratando, basicamente, de conhecimento tácito, 
que é tão importante na discussão da economia da ciência e tecnologia. Na ver-
dade, como o conhecimento tácito não é expresso formalmente, sua transmissão 
é baseada no compartilhamento de valores culturais, códigos informais, rotinas 
ou, em outras palavras, no compartilhamento de instituições no sentido amplo. 
Essas instituições culturais ou não, formais ou informais, são geograficamente lo-
calizadas também. Estão tentando, no Brasil inteiro, construir clusters de todas as 
formas, só que elas não se reproduzem. Por exemplo, a característica cooperação, 
que é essencial para explicar o sucesso da Terceira Itália, está ligada a fatores cul-
turais fortemente relacionados àquela localidade, como a luta contra os nazistas, 
a herança comunista naquela região. Se você pensar no Vale do Silício encontrará 
outros fatores culturais. E isso não se transporta no espaço. Essa é a grande difi-
culdade na reprodução de experiência de clusters.
Podemos assumir que o espaço em países desenvolvidos é mais uniforme, 
mais homogêneo, de forma que sua hierarquia urbana é menos fragmentada. Se isso 
é verdade, podemos afirmar que o espaço em países desenvolvidos possui as condições 
necessárias para o surgimento das externalidades derivadas de conhecimento e para 
sua propagação e absorção. Essa homogeneidade, no entanto, não é encontrada 
em países periféricos. Nesses países, a construção da centralidade está constrangida 
tanto pela dimensão da renda quanto por sua concentração no território.
Pode-se dizer que quanto melhor for a distribuição regional da renda, mais 
fácil é conseguir a emergência de outras centralidades urbanas, e a difusão de todas 
essas externalidades de conhecimento. Mais fácil será, também, montar uma es-
trutura industrial articulada.
Na periferia, ao invés de existir metrópoles de equilíbrio como na França, 
nosso processo de desenvolvimento levou à criação de um grande número de 
129Estrutura tecnoprodutiva avançada e regionalmente integrada
núcleos urbanos incompletos, que não ofertam vários tipos de serviços, ou essa 
oferta é muito fragmentada, além de poucas aglomerações urbanas.
Passando rapidamente pela questão do desenvolvimento regional endógeno, 
gostaria apenas de tentar deixar claro o limite dessa teoria. Não é possível fazer uma 
política industrial ou de desenvolvimento baseada na percepção de que o local se 
garante. O local não é capaz de enfrentar forças que estão acima de suas capacida-
des. Como o local vai enfrentar a atual crise financeira? Não conseguirá sozinho. 
Portanto, existem regras ou fatores que afetam a dimensão regional que estão 
além da escala local, elas estão na escala regional ou nacional.
O local também tem atores. Não é pelo fato de que tudo é da localidade, 
que todo mundo se conhece, que uma ALP vai dar certo. A difusão do paradigma 
do “local” foi grande porque tanto a esquerda quanto a direita gostaram. Para a 
direita, o local significa a negação do Estado; para a esquerda, significa o empo-
deramento da localidade. Isso explica, em boa parte, o sucesso que essa discussão 
teve. Porque ela servia aos dois lados.
Mas essa é uma visão romântica das coisas. Existem atores nos locais. Os 
APLs estão sendo fortemente capturados por interesses locais, não necessariamente 
o interesse da maioria.
Isso tudo faz com que uma série de políticas baseadas na horizontalidade 
se dissemine. Uma política industrial horizontal é aquela que diz, por exemplo, 
vamos desenvolver a educação, ou mesmo uma política de negação da política 
industrial. E, nesse sentido, a horizontalidade é uma prática que reduz o combate 
à desigualdade regional. Então, nesse período de políticas horizontais, pode haver 
uma política que reduziu a diferença entre países, mas gerando aumento da desi-
gualdade regional, e há muitos estudos mostrando que nesse modelo liberalizante 
ela, de fato, aumenta.
Obrigado.
CAPÍTULO.8
INFRAESTRUTURA ECONÔMICA, SOCIAL E URBANA1
Ermínia.Maricato
Luiz.César.Queiroz.Ribeiro
Joseph.Barat
eRmínIa maRIcato – Primeiramente, gostaria de parabenizá-los. Vocês estão in-
gressando no Ipea em um novo momento. Poucos anos atrás o mantra pregando 
“o corte dos gastos públicos”, repetido à exaustão na mídia escrita, falada e tele-
visada, era também o bordão do Ipea. Hoje, felizmente, o Ipea está a serviço da 
sociedade brasileira, produzindo informações fidedignas e esclarecedoras, que nos 
ajudam a entender nossa realidade. 
Para os objetivos desse curso, pensei em fazer uma exposição teórica sobre nos-
so processo de urbanização na periferia do capitalismo. O futuro de nossas cidades 
frente ao novo cenário institucional além de questões específicas, como o Estatuto 
da Cidade, serão abordados para exemplificar alguns argumentos colocados. 
Antes de mais nada, gostaria de sugerir que ouvissem a Tânia Bacelar, uma 
pessoa muito mais otimista que eu, e muito bem informada. E como uma otimis-
ta bem informada é um caso raro, nós precisamos prestigiá-la. Ela é uma figura 
fundamental porque está muito atualizada sobre os principais dados da grande 
mudança territorial pela qual o Brasil vem passando. Em consultoria para o Mi-
nistério das Cidades (MCidades), quando eu ainda me encontrava lá na Secretaria 
Executiva, ela fez um estudo inédito, que serviu de base para o Plano Nacional 
de Habitação, infelizmente não implementado. Outros bons planos surgiram nos 
últimos anos, especialmente no início do governo Lula, mas o peso da política 
arcaica, presente secularmente no Estado e na sociedade brasileira, barram as ten-
tativas, mais uma vez, de se fazer planejamento, ou investimento com racionali-
dade, visando à justiça social. 
1..Este.capítulo.reúne.aulas.proferidas.pela.professora.Ermínia.Maricato,.e.pelos.professores.Luiz.César.Queiroz.Ribeiro.
e.Joseph.Barat.durante.o.curso.de.ambientação.dos.novos.técnicos.de.Planejamento.e.Pesquisa.do.Ipea,.em.julho.de.
2009..As.aulas.foram.transcritas.por.Carlos.Henrique.R..de.Siqueira.e.Natália.Orlandi.Silveira,.com.edição.de.texto.de.