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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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Paulo.Emílio.Buarque.Ferreira,.e.submetidas.aos.seus.autores.para.revisão.e.validação.
132 Complexidade e Desenvolvimento
Vou falar aqui de algumas características do urbano na periferia do capita-
lismo. É preciso enfatizar as especificidades do Brasil como integrante da periferia 
capitalista em que pese a euforia dos que alardeiam sua condição atual de player 
internacional. E estou cada vez mais comprometida com a chamada “escola de 
formação nacional”, integrada por autores como Caio Prado, Celso Furtado, Sér-
gio Buarque de Holanda, Roberto Schwarz, Florestan Fernandes, Francisco de 
Oliveira, um time de intelectuais brilhantes, intérpretes da sociedade brasileira, 
que tem sido ignorado nesses tempos de pós-modernismo e neoliberalismo. Can-
sei, nos meus 40 anos de vida acadêmica, de ver colegas elaborando teses sobre a 
realidade urbana da Europa ou dos Estados Unidos e querendo aplicá-las ao Brasil 
sem se dar conta de que nossas cidades são profundamente, socialmente, cultu-
ralmente, politicamente, ambientalmente, espacialmente diferentes daquelas. São 
as “ideias-fora-do-lugar”, como diria o Roberto Schwarz. O prestígio das ideias 
que vêm de fora resulta numa fonte sem fim de modismos na área do urbanismo.
Creio que devemos nos concentrar naquilo que os estudiosos da sociedade 
brasileira sempre colocaram, os aspectos essenciais de uma dependência subordina-
da. Pois nas várias fases do capitalismo, que vivemos como colônia ou como nação, 
raramente o engate não foi passivo e subordinado, na conexão com o poder exterior. 
Vivemos uma acumulação travada, como lembrou Celso Furtado, com aspectos de 
irracionalidade até mesmo em relação à lógica capitalista dos países centrais como 
lembrou por sua vez Florestan Fernandes. O universo urbano em tal sociedade 
também apresenta especificidades. Penso que é um tema fundamental para o Ipea.
Há então alguns temas importantes que devemos ter em mente quando 
falamos do caso do Brasil. O primeiro deles é o passado escravista e o desprestígio 
do trabalho. Isso está na alma do brasileiro. Em segundo lugar temos o patri-
monialismo como chave explicativa, a privatização da esfera pública e o poder 
político, econômico e social ligado à detenção de patrimônio. Em terceiro lugar, a 
“industrialização com baixos salários”, numa época em que o Brasil cresceu mui-
to. Como já tivemos a oportunidade de ouvir, o Brasil cresceu mais de 7% num 
período de 40 anos (1940 a 1980). Mas manteve a grande desigualdade social 
legada por aquilo que Caio Prado e Celso Furtado já haviam identificado como 
exportação da riqueza excedente, que se combina com uma incrível indústria 
produtora de artigos de luxo. O próprio Marcio Pochmann divulgou que 40% 
das famílias mais ricas do Brasil estão no município de São Paulo. Diante desse 
quadro a gente pode perguntar então qual é a chance de fazermos um projeto de 
moradia social dentro do município de São Paulo? Só para exemplificar, ontem 
fiquei sabendo que a Tiffany’s, uma grande joalheria internacional, tem duas lojas 
no Brasil, e que é o único caso fora da Europa e dos Estados Unidos. 
Outros temas importantes são o assalariamento incompleto, o controle in-
completo sobre o solo, a informalidade nas relações de trabalho e na produção das 
133Infraestrutura econômica, social e urbana
cidades. Em síntese, somos o resultado de uma mistura do pós-moderno combi-
nado com o pré-moderno. Tudo isso constitui um caso exemplar de moderniza-
ção conservadora, termo cunhado pela economista Maria da Conceição Tavares. 
E o que significa esse padrão de industrialização combinada com baixos salá-
rios? Significa que há uma classe com mão de obra tão barata que ela própria tem 
que cuidar da sua reprodução urbana. É ela que ocupa o solo, frequentemente de 
maneira ilegal, e constrói suas casas, fora das relações capitalistas, porque o salá-
rio não cobre os custos da moradia enquanto mercadoria originária do mercado 
privado. A reprodução dessa força de trabalho que contribui com o processo de 
acumulação não consegue se reproduzir dentro do mercado capitalista e nem é 
amparada pelas políticas públicas. 
A globalização tem entre suas características a expansão da produção (mo-
bilidade do capital) e também do consumo, rumo a novos mercados. A cultura 
da publicidade cria necessidades sociais. Sobre a descrita base urbana precária e 
pré-moderna o mercado se lança com seus inacreditáveis gadgets eletrônicos. Essa 
situação gera um consumo conspícuo sem direitos básicos. 
O que eu quero dizer com isso? Quero dizer que pessoas priorizam o celular 
– que não deixa de ser algo importante – em vez do esgoto, da água tratada, da mo-
radia digna e segura. E isso é preocupante quando notamos o padrão de consumo 
nas favelas. Semanas atrás, por exemplo, foi noticiado que empresas que no mundo 
inteiro apresentam resultados negativos, no Brasil estão apresentando resultados 
positivos por conta desse padrão de consumo do mercado interno brasileiro. Um 
dos casos conhecidos é o de uma multinacional de alimentos, que tem uma linha de 
produtos específica para moradores de favelas. E não é a única empresa que adota 
esse tipo de estratégia específica para moradores de favelas que, no Brasil, consti-
tuem um número maior do que a população de muitos países da Europa.
Há, portanto, a marca de um consumo conspícuo, sem direitos básicos de 
saneamento, água, educação, saúde e até de banheiro. O banheiro, aliás, é um dos 
equipamentos mais precários nas moradias de favela. E o banheiro é um exemplo 
interessante para ilustrar nossa inserção subalterna. Moradores de favela podem 
comprar aparelho de som de última geração, computadores com tela plana. A 
pessoa vai à loja, compra e pluga. E de repente tem acesso a uma tecnologia avan-
çada. Isso não acontece no caso do banheiro. Para se ter um banheiro é preciso 
um pedreiro, um encanador e um eletricista. No Brasil, e isso é o que caracteriza 
nossa dependência subordinada, não fabricamos kits hidráulicos nem elétricos 
para que as pessoas com menos recursos possam instalar um banheiro a um custo 
mais baixo. Isso não acontece porque não é visto como prioridade. Não faz parte 
dos produtos oferecidos pela indústria de materiais de construção.
134 Complexidade e Desenvolvimento
Outra característica do nosso capitalismo periférico é o mercado travado. 
Embora os dados tenham que ser atualizados para o salário mínimo de hoje, e de 
acordo com os novos números do déficit habitacional, podemos dizer que o mer-
cado residencial privado produz para uma classe que ganha 10 salários mínimos 
ou mais, enquanto o déficit habitacional atinge sobretudo os que ganham até 3 
salários mínimos. Esse mercado dos produtos de luxo cria verdadeiras ilhas de 
primeiro mundo no Brasil. A cidade fashion, a cidade oficial, a cidade do merca-
do, a cidade legal, o urbanismo importado, e inúmeros planos para essa parte da 
cidade, o que significa cidadania para alguns, direitos para alguns. De outro lado 
está a cidade invisível, as periferias violentas e sem leis. A representação real da 
cidade fornece um quadro contraditório e tenso que, entretanto, é disfarçado por 
uma representação ideológica que toma a parte pelo todo. 
Há um estudo que diz que os lançamentos na Barra, no Rio de Janeiro, 
atingem em média as famílias com renda de 25 salários mínimos. É, por isso, um 
mercado muito excludente. Há aí então uma predeterminação da produção da 
cidade, uma predeterminação pré-moderna.
Aqui cabe um parêntese, a retomada do investimento em habitação mostra 
alguma ampliação do mercado em direção à classe média (que foi incluída mais 
tarde no pacote do programa habitacional Minha Casa Minha Vida) com um pe-
queno impacto sobre a baixa renda, onde se concentra o déficit. Esse movimento, 
entretanto, não nos permite vislumbrar uma mudança no padrão de urbanização 
já que a base fundiária,