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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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motivo do travamento do mercado privado, como vere-
mos adiante, se manteve intacta. Mas vamos deixar o detalhamento desse assunto 
para outra hora e voltar para nosso roteiro sobre a cidade periférica.
Para exemplificar, eu trouxe apenas para discutir algumas imagens, já que 
há muitos doutores aqui que conhecem bem a realidade do país. Quando pe-
gamos o mapa do município de São Paulo, vemos algumas manchas, que são os 
loteamentos clandestinos. A cidade formal e legal é essa outra parte, onde as leis 
(zoneamento, código de obras, parcelamento do solo etc.) se aplicam. O plano 
diretor aí se aplica, é a cidade do mercado. 
Vocês podem perceber por aqui que as principais favelas estão em áreas de 
proteção de mananciais. Portanto, predomina a lógica de contrariar justamente 
aquilo que é menos adequado à ocupação. Há uma lógica que determina uma 
oposição entre a moradia dos mais pobres e as áreas ambientalmente frágeis. E 
isso não se dá pela falta de leis nem de planos, mas por um padrão fundiário e 
imobiliário estruturalmente excludente. 
No mapa do Rio de Janeiro nota-se que as favelas se concentram na zona 
norte e os loteamentos irregulares na zona oeste. As favelas da zona sul são ab-
soluta minoria, aqui também se nota o padrão segregador de nossas metrópoles.
135Infraestrutura econômica, social e urbana
Se examinamos o mapa de Curitiba, ele mostra como uma mentira é cons-
truída. Para matizar um pouco o que falei, eu diria que Curitiba é a cidade onde 
o planejamento proposto foi, o mais possível, fato implementado. Mas para isso 
a segregação é mais acentuada. O que é preciso observar nesse mapa, e que nos 
leva a uma conclusão muito importante, é que a maior parte das favelas está na 
extrema periferia, também em área ambientalmente frágil. Há uma lógica entre o 
planejamento de Curitiba, a formalização da ocupação do solo e a localização das 
favelas. E isso me faz pensar que uma das marcas da sociedade brasileira é remeter 
os pobres à condição de ilegalidade em relação à terra para manter sua dependên-
cia e subordinação. Isso já rendeu muita conversa.
Relembro então a matriz obrigatória de leitura para o entendimento do que 
é a realidade brasileira. Freyre, com todas as ressalvas que já fizeram Buarque de 
Hollanda, Faoro, Celso Furtado, Schwarz, Tavares, Wanderley Guilherme, Flo-
restan Fernandes, Francisco de Oliveira.
Por último, para destacar nossa diferença em relação às cidades do capitalismo 
central, olhem, por exemplo, esta imagem de uma cidade holandesa. Quando con-
sultamos os mapas do Google Earth o que vemos é um absoluto controle do uso 
e da ocupação do solo e não apenas porque a Holanda é um país que está abaixo 
do nível do mar. Atividades rurais estão coladas a atividades urbanas ou industriais 
organizadas como livros numa prateleira. E transformar essa área rural em ocupação 
urbana não é brincadeira não. Tem muita discussão, muita audiência pública. A 
preocupação com o equilíbrio ambiental e urbano está acima do direito de proprie-
dade individual não só na lei, como é nosso caso, mas também na prática. 
Mas nossa história é muito diferente da deles, e nossa realidade também.
E qual seria então o futuro das nossas cidades a partir da influência da glo-
balização neoliberal no espaço urbano? Para começar, eu diria que considero a 
conjuntura atual desfavorável para a construção de cidades mais justas. O que não 
significa que a gente não tenha que se preparar para enfrentar a próxima onda. E 
vamos tentar entender um pouco mais sobre isso.
Tivemos movimentos sociais fortes a partir do fim da ditadura. Tivemos 
também muitas conquistas, sem dúvida alguma. Contudo, atualmente esses mo-
vimentos caracterizam-se por uma postura política pragmática, e também de pou-
co confronto, excetuando-se o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).
Temos então muito avanço, muita diversidade, muita fragmentação, e nenhum 
confronto. Os movimentos sociais estão voltados para seus próprios umbigos no mo-
mento. O que quero dizer com isso, e sou militante há algumas décadas, é que, para 
usar uma frase do Paulo Arantes, “nunca a esfera política do Brasil esteve tão cheia 
de acontecimentos, mobilizações, reuniões etc.” Certa vez eu quis conversar com um 
136 Complexidade e Desenvolvimento
líder dos moradores de rua em São Paulo, que me mostrou que sua agenda estava 
cheia e que naquela semana não tinha tempo para conversarmos. O mesmo aconteceu 
com um estagiário do laboratório onde trabalho na Universidade de São Paulo (USP). 
Todos estão muito ocupados com uma grande quantidade de eventos.
Por outro lado, nos últimos anos tivemos muitos avanços significativos no 
que se refere ao quadro institucional sobre o urbano. Em 1988 tivemos a edição 
de dois capítulos na Constituição Federal. Em 2001 foi aprovado o Estatuto da 
Cidade. Em 2003 foi criado o MCidades. Claro, criar um ministério não é neces-
sariamente um avanço. Só que sua criação foi uma reivindicação do movimento 
social, e por isso é importante.
Entre 2004 e 2006 tivemos conferências nacionais sobre as cidades. Tivemos 
algo inédito no MCidades, como o Programa Nacional de Regularização Fundi-
ária. Foi criado o Conselho Nacional das Cidades, foi aprovada uma Lei Federal 
sobre Consórcios Públicos em 2005, uma Lei Federal instituiu o marco regulatório 
do saneamento em 2007, após 13 anos nos quais a política de saneamento ficou no 
limbo, porque havia uma queda de braço em torno de sua privatização. Tivemos 
ainda a Campanha Nacional do Plano Diretor Participativo, em 2005, a Lei Fede-
ral do Fundo Nacional de Habitação, aprovada também em 2005. Em 2007 foi 
lançado o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) com investimentos sig-
nificativos em habitação (em especial urbanização de favelas) e saneamento, depois 
de mais de 20 anos de uma forma errática de investimento na área. Agora está aí o 
programa Minha Casa, Minha Vida. Tudo isso é significativo? Sim.
E apesar de tudo isso, nunca nossa esfera política esteve tão vazia, sem luta 
social. E luta social não é o que vocês podem fazer no Ipea, e sim o que os mo-
vimentos podem, e fora do governo, de preferência. E com autonomia também.
Para terminar gostaria de mostrar, refletir sobre a imagem do elegarça.2 Eu 
não acho que o Estado brasileiro seja um elefante, não tenho essa visão neoliberal. 
Eu acho que uma parte do Estado brasileiro é um elefante, e no conjunto é muito 
desequilibrado. As áreas que o operam têm pés de garça, são frágeis, têm pouca 
força, poucos funcionários, pouco equipamento. Os fiscais que fazem controle 
urbanístico têm salário baixo, carência de equipamentos e há muita corrupção. As 
assistentes sociais que lidam com os dramas sociais, os grupos de defesa civil que li-
dam com emergências e catástrofes, aqueles que fazem a manutenção urbana, ficam 
em segundo plano. Agora, onde estão os grandes salários? Estão ali em cima, no 
pessoal que não opera, no pessoal que está relacionado àquilo que o Sérgio Buarque 
chama de “uma tradição livresca”. (“Não somos homens de ação, somos homens de 
palavras”.) Uma tradição que é própria da formação nacional. Portanto, há muito 
2..A.imagem.retrata.um.animal.híbrido.com.corpo.de.elefante.e.patas.de.garça..(Nota.dos.editores.)
137Infraestrutura econômica, social e urbana
discurso, muito plano, muita lei. Mas quando há qualquer problema, ao invés de 
corrigir e valorizar a operação, a solução é tornar a lei mais rígida. Só que não a 
aplicamos. São esses pés fracos, o operacional, que estão complicando.
Enfim, se há tantos avanços institucionais e se nós temos nos movimentos 
sociais urbanos um raro exemplo de luta pelo direito à cidade, o que aconteceu, 
já que as cidades pioraram? Eu diria que leis e planos não bastam, já que as leis 
são aplicadas de acordo com as circunstâncias, como veremos adiante, e os planos 
implementados são os