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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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que conferem distinção. O Estatuto das Cidades não está 
sendo aplicado, e os planos diretores estão agora em regressão. Chegamos a um 
ponto impressionante de privatização da cidade como mostra o exemplo de São 
Paulo: foi aprovada uma lei que privatizou a desapropriação de imóveis. Não sei 
como isso é possível constitucionalmente, mas a Câmara Legislativa de São Paulo 
já votou e aprovou. 
Para finalizar, após mencionar esses aspectos gerais, eu gostaria de chamar 
atenção para duas chaves explicativas para o entendimento da ocupação territorial 
no Brasil. 
A primeira chave é a terra. Vocês podem perceber a revolução que o capi-
tal promoveu no território brasileiro nas últimas décadas, principalmente com o 
agronegócio, que tem um profundo impacto nos processos demográficos, eco-
nômicos e de ocupação do território. Tânia Bacelar, por exemplo, mostra que há 
uma modificação significativa nos índices de produção industrial, nas taxas de 
crescimento urbano. Além disso, há uma relação entre a circulação do capital no 
território e a apropriação privada da terra pública. Se na década de 1950, estáva-
mos com a fronteira agrícola na Bahia, na década de 1960, com Brasília, viemos 
para o planalto central e hoje já alcançamos o arco do desmatamento da Amazô-
nia. E embora a apropriação privada da terra pública nunca tenha precisado de 
ajuda no Brasil, com a edição de uma medida provisória pelo governo federal, 
regularizou-se a ocupação grileira com o ingênuo argumento de que será melhor 
para o desenvolvimento e mais fácil para controlar o desmatamento. E assim, 
apesar dos mais de 150 anos de fraude cartorária em registro de propriedades que 
está na base da formação do latifúndio no Brasil, o MST ainda é criminalizado, e 
cada vez mais, na atual conjuntura.
A segunda chave de explicação para entendermos a ocupação territorial do 
Brasil é o padrão de aplicação das leis, que diz muito sobre a manutenção das 
desigualdades e privilégios. 
Eu me inspiro muito no Roberto Schwarz (e ele no Brecht) para lembrar 
que no Brasil urbano a exceção é mais regra que exceção e a regra é mais exceção 
que regra. Quando pensamos no uso do solo urbano notamos que há tal magnitu-
138 Complexidade e Desenvolvimento
de na ilegalidade que podemos dizer que planos diretores, leis de zoneamento, leis 
de parcelamento do solo, códigos de obras, entre outras, são leis que não atendem 
a maior parte dos domicílios urbanos.
É com essa realidade, e não com a de Boston, nem com a de Nova York, nem 
com a de Paris que temos de lidar, embora sejam nesses lugares que geralmente 
muitos de nós vamos para estudar, pagos com bolsas públicas. E nós temos ainda 
uma tensão na aplicação da lei, sobre a qual não posso me deter muito aqui, mas 
que nos leva à questão de como aplicar a lei no aparelho de Estado, considerando 
a gigantesca ilegalidade que já foi mencionada. Mas o que acho bastante caracte-
rístico de nossa formação nacional é que temos leis avançadas, como nossas leis 
ambientais e urbanísticas. O Estatuto da Cidade, por exemplo, é festejado no 
mundo inteiro. É considerado uma das leis mais avançadas do mundo, e isso não 
é retórica, é de fato uma das leis mais avançadas. Ele restringe e limita o direito 
de propriedade individual. Mas o Estatuto não é aplicado! Um aluno, em uma 
aula que eu dava, argumentou que a lei tinha só 7 anos. Eu disse que era verdade, 
é pouco tempo para uma lei que, se aplicada, contrariaria a história do Brasil. De 
qualquer forma, ela foi mais festejada que aplicada.
Por outro lado, o direito à habitação é um direito absoluto porque se admite 
a invasão de terra como um processo absolutamente regular. Vocês acham que 
estou falando alguma barbaridade? Bem, se não fosse por isso não teríamos 2 
milhões de pessoas morando em áreas de proteção de mananciais em São Paulo. 
Também não teríamos 50% dos domicílios em condição de ilegalidade no Rio 
de Janeiro. Portanto, o direito à moradia é respeitado. Você invade uma área e 
constrói. Já o direito à cidade não. 
Esse gigantesco processo de ocupação ilegal do solo não é dirigido por ne-
nhuma organização subversiva de esquerda, e sim pela necessidade. Pois as pessoas 
não evaporam depois da jornada de trabalho.
O impacto dessa ocupação ilegal se dá, sobretudo, em áreas ambientalmente 
frágeis. Beiras de córregos, rios, áreas de proteção de mananciais, dunas, mangues, 
matas, encostas. A invasão é regra, mas só em determinadas localizações. No Bra-
sil, é a lei de mercado e não a norma jurídica que determina onde a lei se aplica e 
onde a invasão é consentida. 
Qual é, então, minha conclusão, ao olhar para as cidades brasileiras? Alguns 
números poderão lhes convencer do que vou falar. Oficialmente, o Rio de Janeiro 
tem de 20% a 25% da população vivendo em favelas. Não é só domicílio ilegal ou 
irregular, que estes chegam a 50%. São favelas, territórios invadidos. Porto Alegre 
e Belo Horizonte também estão em torno de 20% e o município de São Paulo em 
torno de 12%. Salvador tem mais de 30%, Recife mais de 40%, Fortaleza 34%, 
São Luís e Belém têm algo em torno de 50%. 
139Infraestrutura econômica, social e urbana
Portanto, conclui-se o seguinte: que a aplicação das leis se dá de acordo com 
as circunstâncias, o que é uma tradição histórica em nosso país; a ilegalidade é 
admitida, e não só para os pobres. Por exemplo, o loteamento fechado é ilegal 
(legal seria o condomínio fechado). Os loteamentos são regidos pela Lei nº 6.766, 
de 1979, e ela inclui ruas, que são públicas, e espaços institucionais e verdes, que 
são públicos. E esses espaços – públicos – estão sendo murados e privatizados nos 
arredores de todas as cidades brasileiras. Minha experiência mostra que é comum 
encontrar juízes, promotores e até ministros do judiciário nos loteamentos fecha-
dos. A ilegalidade parece não ser dada pela burla à lei, mas ganha um sentido de 
acordo com as circunstâncias, o que envolve classe social e mercado. 
Há, portanto, algo importante que vocês devem entender: não há falta de 
plano nem de leis. Plano é o que não falta às cidades desse país. E leis também 
não faltam. Não são essas as causas da imensa ilegalidade, nem do gigantesco 
processo de depredação ambiental, que está jogando os pobres para as áreas am-
bientalmente frágeis.
Por que considero importante falar isso? Para que vocês não se iludam com 
a ideia de que basta um plano ou uma lei para resolver qualquer dos problemas 
que o país enfrenta. Não se iludam. E isso vou cobrar. Vou lembrar a todos vocês 
que me ouviram. E se não acreditam agora no que falo deem-me ao menos o 
benefício da dúvida.
Obrigada.
luIz césaR QueIRoz RIBeIRo – Gostaria de expressar meu contentamento por 
participar desse momento tão importante do Ipea, especialmente estando ao lado 
de figuras de liderança sobre a questão urbana, como Ermínia Maricato. E minha 
fala hoje será justamente sobre esse tema, e mais particularmente sobre o papel 
das metrópoles para o desenvolvimento.
 Como professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ve-
nho desenvolvendo um trabalho dentro de um projeto chamado Observatório das 
Metrópoles. E o que vou falar aqui tem muito a ver com esse projeto e a reflexão 
que temos elaborado em torno do desafio metropolitano do desenvolvimento na-
cional. Serei sintético, mas tentarei deixar uma mensagem clara sobre esse tema. 
Esse trabalho tem me levado a pensar muito e a me empenhar numa tarefa 
intelectual e política. Devo muito disso à Ermínia Maricato por seu trabalho 
como Secretária Executiva do MCidades. Qual é essa tarefa? Creio que devemos 
desagregar a questão urbana no Brasil. E o que isso significa? Em primeiro lugar, 
significa mostrar que essa questão não pode ser exclusivamente discutida a partir 
140 Complexidade e Desenvolvimento
da problemática social, que é candente, forte e extremamente importante