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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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na con-
figuração da questão urbana no caso brasileiro.
Essa maneira de discutir a questão urbana nos tem levado a enxergá-la de 
maneira dissociada do ponto de vista econômico, do desenvolvimento nacional. 
Evidentemente, ficamos apenas com aquilo que é possível. Muitas das decisões 
que afetam o urbano são tomadas de forma institucional, definindo os fatores 
e elementos que orientam e determinam a dinâmica econômica nacional. Do 
Banco Central (BC) ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social 
(BNDES), do Ministério do Planejamento (MP) ao Ministério da Fazenda (MF) 
etc. Temos que mostrar que há um nexo hoje muito significativo para ser elabo-
rado e identificado entre a questão urbana e os desafios do desenvolvimento. E já 
temos evidências fortes nesse sentido.
Penso que qualquer projeto de desenvolvimento nacional, que não seja me-
ramente um crescimento econômico espasmódico em função dos ciclos que não 
comandamos, mas que seja um desenvolvimento que alavanque o processo de 
construção do nosso Estado-nação, passa por resolver o problema da questão ur-
bana, especialmente o das grandes cidades brasileiras. 
A primeira razão dessa afirmação é uma razão teórica. Durante certo tempo, 
em função de uma leitura apressada sobre as pressões provocadas pela globaliza-
ção e pela reestruturação socioprodutiva, fomos levados a pensar que o desenvol-
vimento econômico podia prescindir das grandes cidades. E que bastava distritos 
industriais muito bem planejados para ser possível alavancar o desenvolvimento.
O que as pesquisas internacionais mostram é que o papel econômico das 
grandes cidades continua a ser da maior relevância. E os países que têm conse-
guido apresentar um desenvolvimento sustentado, devem muito disso ao papel 
produtivo das grandes cidades. 
Para não deixar no vazio essa afirmação, eu citaria os trabalhos de um ge-
ógrafo econômico bastante conhecido, Pierre Veltz, que tem mostrado como os 
países que não abriram mão de um planejamento das suas cidades, e de manter 
regulações sobre elas, são países que conheceram um desenvolvimento econômico 
sustentado. E estamos agora vivendo a contraface dessa história. Os países que co-
locaram suas cidades sob a sanha da acumulação financeira estão sofrendo muito 
mais com a crise.
Hoje temos uma série de pesquisas e informações que nos mostram a im-
portância econômica das grandes cidades. O que significa dizer que um grande 
projeto de desenvolvimento nacional implica aproveitar o potencial do nosso sis-
tema urbano que, apesar de uma série de desequilíbrios, contém elementos extre-
mamente importantes em termos econômicos.
141Infraestrutura econômica, social e urbana
Mas há uma segunda razão importante. Eu diria que vivemos hoje um mo-
mento crucial de poder afirmar que está sendo buscado, como modelo de desen-
volvimento, algo que possa combinar de maneira efetiva, e não fortuita ou casual 
como aconteceu recentemente, desenvolvimento econômico e diminuição signi-
ficativa das desigualdades sociais. Isso vem acontecendo no Brasil. É isso inegável 
como mostram os dados de todos os economistas das mais diferentes colorações 
políticas. Só que isso é mais o resultado do acaso do que propriamente do plane-
jamento, que tenha uma ação coordenadora do Estado.
Podemos agora afirmar a perspectiva do planejamento. Por quê? Porque creio 
que o cenário internacional nos favorece e ao mesmo tempo acho que a dinâmica 
econômica dos últimos anos alavancou de maneira significativa o mercado interno.
Acontece que há um problema: a questão urbana é hoje um dos limitadores 
para se reduzir a desigualdade social brasileira. Então estamos num segundo pro-
blema, que não é só teórico. É um problema da natureza da questão urbana no 
Brasil e de como se conectaram mecanismos de produção da desigualdade social, 
por elementos mais macroeconômicos e macrossociais, relacionados com meca-
nismos da estrutura urbana que construímos.
Apenas para exemplificar, retorno a uma menção feita pela Ermínia. É verdade 
que o nosso mercado imobiliário é altamente especulativo, especializado em cons-
truir um artefato de luxo. Milton Vargas, um engenheiro que estudou a organização 
técnica das grandes empresas de construção civil do país, observou que, não obstan-
te todos os booms imobiliários que vivemos desde a década de 1970, essa indústria 
ainda mantém um padrão organizacional e técnico bastante atrasado, parecido mais 
com uma manufatura do que propriamente com uma indústria.
A razão disso não tem a ver com nenhum atavismo dos nossos empresários 
em se modernizarem. Isso tem a ver com o urbano, com a natureza das nossas 
cidades, com nossa desigualdade. Porque o que é vendido no mercado imobiliário 
é uma escassez de urbanidade, de condições de vida. O que tem a ver com o pa-
drão de desigualdade das nossas grandes cidades e que tenta se reproduzir seja pela 
precariedade em termos de serviços, seja pela informalidade das cidades.
Na última reunião da Latin American Studies Association (Lasa) no Rio de 
Janeiro, tive a oportunidade de conversar com alguns colegas argentinos e chile-
nos. Eles não entendiam por que o mercado não chegava às favelas e as incorpora-
va às cidades, já que elas dão acesso a paisagens magníficas, e seriam muito baratas 
para o mercado imobiliário. O que eles não consideraram, porém, é que isso im-
plicaria fazer a classe média aceitar um padrão de propriedade completamente ad 
hoc, válido apenas para aqueles que estão conformados naquele território que re-
conhece o direito de propriedade. Isso é uma expressão, uma faceta dessa escassez 
142 Complexidade e Desenvolvimento
urbana que limita aquilo que é passível de ser utilizado pelo mercado imobiliário 
para fins de moradia. 
O resultado é uma indústria imobiliária que vive de rendas de monopólio, 
dos lucros de corporação. Não vive dos lucros da construção civil. Ou vive dos lu-
cros das políticas públicas, quando elas existem, em nome da falta de habitações, 
promovendo ações que beneficiam a indústria imobiliária. Aí sim há um pequeno 
surto de modernização, mas não chega a transformar o padrão de organização da 
atividade produtiva do mercado imobiliário. 
Em certa medida, o que estou fazendo é mais o uso de uma figura de lin-
guagem, mais que de um argumento. Embora isso já tenha sido trabalhado teo-
ricamente e empiricamente. Ou seja, o modo como explicamos o alto preço dos 
imóveis nas cidades brasileiras por conta de uma escassez urbana transformada na 
venda de excepcionalidades em termos de condições de habitação. Isso implica 
pensar o quanto poderíamos induzir o desenvolvimento imobiliário muito mais 
incorporador, se pudéssemos ter uma cidade mais homogeneamente ocupada, 
mais homogeneamente definida em termos de condições de vida. 
Há outro elemento importante a ser colocado no tema do urbano como 
fundamental para o desenvolvimento nacional. É que sem resolvê-lo não podere-
mos ter um desenvolvimento que consiga combinar crescimento econômico com 
incorporação ao mercado de parcelas da população que historicamente têm uma 
posição marginal. Mas não fica apenas nisso. Mais adiante gostaria de ilustrar a 
relação entre a desigualdade social e as cidades brasileiras.
Creio que nosso desafio é desagregar a questão urbana, e tentar pensá-la nos 
marcos de um projeto de desenvolvimento nacional. Essa é a melhor maneira de en-
frentarmos os resquícios de uma certa visão liberal que dissociou totalmente a ques-
tão social da questão econômica. Como se fosse possível resolvermos o problema 
social apenas com políticas compensatórias, focalizadas, que transferem renda, mas 
não incorporam a população. Aqui não vai nenhuma crítica específica ao Programa 
Bolsa Família (PBF), mesmo porque parte da diminuição da desigualdade no Brasil 
tem a ver com o efeito dessa política. Estou querendo pensar nisso no sentido de 
uma dinâmica