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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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autossustentável que consiga alavancar o desenvolvimento nacional. 
Portanto, desagregar a questão urbana me parece muito importante. Nesse 
sentido, fiquei bastante contente em saber do concurso do Ipea, da entrada de 
novos pesquisadores da área, e de saber que essa questão está em vias de entrar 
em cena e ocupar um espaço importante nas pesquisas sobre a questão nacional.
Aliás, essa mesa é promissora. Se conseguimos colocar numa mesma discus-
são engenheiros, urbanistas, economistas e sociólogos teríamos uma maneira de ir 
construindo um leque de questões e uma agenda muito mais promissora.
143Infraestrutura econômica, social e urbana
Outra razão tem a ver com o papel econômico das cidades brasileiras. Esta-
mos vivendo uma fase de algo que chamei em artigo recente de “mito da festa do 
interior”. Esse mito tem tentando mostrar que nosso interior é pujante, que vai 
resolver o problema das grandes cidades, e que espontaneamente estamos descen-
tralizando e desconcentrando nossa economia, resolvendo assim os gargalos dos 
problemas acumulados nas grandes cidades.
Isso é uma absoluta falácia. Convido todos a lerem esse artigo, dando suges-
tões e fazendo críticas. Mas o fato é que os dados não mostram isso. É uma falácia 
geográfica, porque usam alguns conceitos como “cidade média”, como se fossem 
autodemonstráveis. E muitas vezes se identifica Campinas, por exemplo, como 
cidade média, quando na verdade é um polo econômico de extrema importância. 
E ao mesmo tempo não se percebe que muitos desses dados refletem mais uma 
desconcentração estatística do que efetivamente uma desconcentração produtiva. 
O que temos é uma rede urbana muito complexa, onde há grandes aglomerados 
urbanos, com potencial urbano bastante promissor.
No Brasil existem 37 grandes aglomerados urbanos envolvendo não apenas 
as regiões metropolitanas, mas cidades que, embora não tenham uma institucio-
nalidade de região metropolitana, têm uma capacidade de polarização no territó-
rio nacional, seja em escala regional ou nacional. Esses 37 aglomerados urbanos 
concentram 45% da população brasileira e 61% da renda nacional. Entre eles 
há 15 metrópoles que têm características de concentrar as funções próprias das 
metrópoles de hoje na nova economia, que são menos a função de produção e 
mais as funções de coordenação, comando e articulação dos fluxos econômicos. 
Significa dizer que temos uma rede urbana que, apesar de ser ainda muito 
desigual em relação aos países fronteiriços, podemos dizer que é bastante comple-
xa e bastante promissora. 
Concentrados nesses 15 aglomerados temos ainda 62% da capacidade tec-
nológica do país, medida pela quantidade de artigos científicos publicados, pa-
tentes registradas, população com mais de 20 anos de estudos e valor bruto da 
transformação industrial que inova tanto em termos de produtos quanto em ter-
mos de processos. Além de tudo, também temos 55% do valor de transformação 
industrial das empresas que exportam, uma função certamente importante para a 
geração de recursos para o desenvolvimento. 
Trouxe esses números para ilustrar que, se temos um sistema urbano que ainda 
não consegue articular de maneira completa o território nacional, deixando vazios 
como na Amazônia, temos um sistema urbano que está longe de ser desprezível: é 
extremamente diversificado e contém uma acumulação de forças produtivas muito 
importantes para o desenvolvimento nacional.
144 Complexidade e Desenvolvimento
Então, esse é o terceiro elemento importante que reafirma a necessidade de 
pensarmos a questão urbana para elaborar qualquer projeto de desenvolvimento 
nacional. Em contraposição a isso, temos uma total ausência de governabilida-
de dos grandes aglomerados urbanos. São territórios extremamente densos, com 
grande diversificação interna, completamente à deriva de qualquer ação gover-
namental que consiga dar rumo ao desenvolvimento desses territórios. As razões 
são várias, e acho importante citar algumas porque ilumina a importância que as 
pesquisas do Ipea podem ter sobre esse assunto.
A primeira razão é que nosso sistema político se alimenta do hiperlocalis-
mo, portanto, não tem capacidade de gerar agregação de interesses na escala me-
tropolitana que junte forças nas esferas de representação da sociedade brasileira 
em torno de um projeto nacional de desenvolvimento que contemple as grandes 
metrópoles. Há agora o Estatuto da Metrópole sendo discutido, muito mais em 
função do protagonismo de um deputado, e que certamente não vai agregar inte-
resses locais. Para que tenham uma ideia do grau de localismo do sistema político 
brasileiro, na 53a Legislatura (2007-2011), 47% dos deputados têm votos con-
centrados em até três municípios. Se não bastassem os números que poderíamos 
dar, caberia ainda lembrar do processo decisório no orçamento. Um senador da 
República, que deveria estar discutindo questões nacionais, vira despachante dos 
interesses locais, a tal ponto que, no Rio de Janeiro, um senador se interessou em 
urbanizar uma favela. Certamente isso constitui uma estratégia de alavancagem 
de sua candidatura. Isso exemplifica bem o grau de localismo de que falei. Temos 
então um vazio e uma dinâmica política muito pouco favorável para o protago-
nismo na esfera institucional em torno da questão metropolitana. 
Outro lado dessa história é a consequência da Constituição de 1988 ao 
atribuir aos governos estaduais a função que cabia aos órgãos metropolitanos. 
Quero ver São Paulo constituir um órgão metropolitano em torno dos 30 e tantos 
municípios que seja de fato capaz de governar esse território, sendo, portanto, 
um poder competitivo ao governo do estado. Até que o atual governo do esta-
do está tentando costurar algumas coisas, fazer articulações nessa direção. Mas é 
absolutamente impensável que na dinâmica política isso venha a acontecer, pois 
significaria criar um órgão que competiria nessa política com o poder estadual. 
E esse não é só um problema de São Paulo, é do Rio de Janeiro também. Já em 
Belo Horizonte coisas interessantes estão acontecendo. Mas fico em dúvidas sobre 
se esse ensaio de governança metropolitana em Belo Horizonte tem a ver com 
questões conjunturais. 
Temos, portanto, um problema político bastante complicado para aprovei-
tar esse ativo que é a configuração de nossas redes urbanas. Sabemos que ela é 
complexa e diversificada, e que concentra a grande massa da produção nacional, 
145Infraestrutura econômica, social e urbana
mas ao mesmo tempo concentra também o coração da nossa questão social, limi-
tando a possibilidade de aproveitamento desse ativo. 
Por isso, o trabalho de pesquisa e investimento intelectual para mostrar esses 
nexos parece ser extremamente importante agora. Acho que diante de um blo-
queio político, um argumento cognitivo pode ter importância na geração de uma 
agenda de discussão, que abra janelas para a resolução desse impasse. Ou seja, 
quem é que vai falar sobre a questão metropolitana no país. Acho que deveriam 
ser órgãos como o Ipea, como a universidade, e outros que tenham um certo pro-
tagonismo a partir de uma lógica que não seja política.
Para terminar, gostaria de deixar uma última informação a respeito da rela-
ção entre a questão social e a urbana e os limites da diminuição da desigualdade 
na sociedade brasileira. Fizemos dois estudos em 17 regiões metropolitanas para 
responder a seguinte pergunta: até que ponto os processos de segmentação do 
território, criando bolsões de pobreza, impactam negativamente o mercado de 
trabalho – tanto no acesso a postos de emprego melhor remunerados, quanto 
do ponto de vista de acesso ao próprio emprego, quanto do ponto de vista de 
transformar o emprego em remuneração adequada à qualificação do trabalhador? 
Verificamos que não é desprezível a explicação das desigualdades em termos de 
acesso aos postos de trabalho, estar ou não