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IPEA_ Dialogos p o Desenvolvimento_ v3

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outros investimentos. Ele pode promover 
desenvolvimento regional, pode ter impactos sobre o meio ambiente etc. Dessa 
forma, planejar infraestruturas hoje requer pensar nessas interações. Pavimentar 
uma estrada atravessando a Amazônia, por exemplo, é um risco altíssimo de de-
151Infraestrutura econômica, social e urbana
predação ambiental e a história brasileira, desde os tempos coloniais, é uma his-
tória predadora. Sob esse tópico é preciso considerar que as concepções mudam a 
partir do ciclo de desenvolvimento no qual se inserem. As concepções e as ações 
mudam ao longo do tempo. 
Hoje, como as coisas se dão? Muitos segmentos das infraestruturas foram 
privatizados por meio das concessões. Apenas como parênteses, cabe dizer que 
usamos a palavra privatização de forma errônea. Na verdade, trata-se de patrimô-
nios públicos concedidos para exploração privada por determinado período de 
tempo, e que depois retornam às mãos do poder concedente. Assim, quando se 
fala em privatização ligada às infraestruturas, o conceito é esse.
As concessionárias podem ser públicas ou privadas. Temos hoje uma con-
cepção mais clara sobre o que é um concessionário, o que é o poder concedente, 
ou o que é o agente regulador. Não importa se a empresa que presta serviço seja 
privada ou pública. Mas elas são controladas por agências reguladoras. Essas agên-
cias constituem uma inovação, e uma inovação necessária a partir do momento 
em que se opta pelo caminho das concessões. Se o poder público concede a explo-
ração de um determinado serviço público, ele precisa ter instrumentos de fiscali-
zação, controle e monitoração da qualidade do serviço que está sendo prestado. E 
esse é o papel de uma agência reguladora: ela regula contratos de concessão. Ela 
não formula políticas públicas, não faz planejamento. É uma agência criada para 
controlar e fiscalizar contratos de concessão. Ela pode, eventualmente, auxiliar o 
governo a planejar, mas não é sua função, e sim da administração direta. 
Nós temos hoje então o surgimento de novos atores que não havia no pas-
sado, como as entidades de defesa do consumidor, as organizações não governa-
mentais (ONGs) (o chamado Terceiro Setor), as agências de promoção do desen-
volvimento (que podem ser privadas, inclusive). Todo esse conjunto de inovações 
gera novas necessidades em termos de planejamento. E quando falamos de pla-
nejamento, estamos falando de estudos, pesquisas, projetos, enfim do trabalho 
prévio necessário para se chegar ao planejamento propriamente. E principalmen-
te hoje, o diálogo que tem que existir entre aqueles que planejam e esses novos 
atores, que estão presentes. 
Anos atrás, uma empresa pública poderia não cumprir suas obrigações para 
com o consumidor, que tinha medo de recorrer contra uma empresa estatal, porque 
achava inútil tentar enfrentar o poder do Estado. Com o Código de Defesa do Con-
sumidor e com as concessões, o panorama mudou completamente. O maior núme-
ro de reclamações junto às entidades de defesa do consumidor é contra as empresas 
telefônicas, de distribuição de energia, coisas que não aconteciam anteriormente.
A qualidade do serviço piorou? Provavelmente não. Embora em alguns casos 
realmente possa não ser satisfatória, mas é a consciência que o consumidor cria 
152 Complexidade e Desenvolvimento
com o fato de que está lidando com outros atores. Existe uma agência reguladora 
a quem ele pode reclamar, existe um órgão de defesa do consumidor a quem ele 
pode recorrer. Da mesma forma que o Ministério Público (MP), as ONGs pas-
sam também a querer fazer parte desse processo de maior presença da sociedade, 
que de forma geral passa a ser mais consciente sobre suas necessidades e direitos.
A questão que fica sem resposta ou ainda mal respondida é a seguinte: qual é 
o papel do Estado? Que Estado queremos e que papel ele vai ter neste novo ciclo da 
nossa história? Isso nós ainda não sabemos, as coisas ainda estão muito indefinidas.
Surge uma crise internacional e dizem: “Estão vendo? Essa liberdade exces-
siva do mercado, olha no que deu. Precisamos de um Estado mais forte.” Mas 
se fortalecemos muito o Estado, criamos um obstáculo ao livre desenvolvimento 
do mercado e, mais adiante, teremos outro tipo de problema, que é o superdi-
mensionamento do Estado. O risco é o da volta a um passado que deixou marcas 
profundas de descontrole, desperdício, ineficiência e corrupção. 
Então, qual é o ponto de equilíbrio? É com esse assunto que também temos 
que começar a nos preocupar. Qual é o direcionamento do Estado? Quais serão 
suas funções? E o que ele fará em relação à indução do desenvolvimento? 
Se voltarmos de novo àquele retrospecto histórico que fizemos há pouco, 
podemos dizer que o ideal não é o Estado totalmente liberal de fins do século 
XIX, que deixava as coisas acontecerem sem nenhum tipo de intervenção, mas 
também não é o Estado intervencionista a ponto de criar reservas de mercado, 
de desestimular a competição, de impedir que o país se abra para o exterior. O 
Estado deve ser algo diferente desses dois modelos, mais afinado com o contexto 
atual da globalização, de competitividade muito acirrada, de uma nova lógica de 
cadeias produtivas internacionalizadas. 
Durante esses últimos 20 anos, termos como “desenvolvimento”, “longo 
prazo”, “estratégia”, “avaliação social de projetos” foram praticamente banidos dos 
discursos oficiais. Por quê? Porque o que prevalecia eram políticas de curto prazo. 
A tarefa era conter ameaças de hiperinflação, estabilizar a moeda, olhar para o or-
çamento do próximo ano, sem a percepção do longo prazo. Hoje, no entanto, as 
coisas começam a mudar. Começamos a ter a sensação que o país pode ter poten-
cial de crescimento, e que esse crescimento pode ser sustentável no longo prazo.
Agora, no entanto, esses termos têm outra conotação. Não é desenvolvimento 
a qualquer custo. Há um preço social e ambiental a ser pago, e sabemos disso. O 
desenvolvimento hoje tem que ser econômica, social e ambientalmente sustentável.
Há outro aspecto importante deste debate, que, por certo, tocará diretamen-
te a vocês que estão entrando no Ipea agora. Durante muito tempo os núcleos de 
excelência e de inteligência do Estado foram desmantelados. Perdeu-se a tradição 
153Infraestrutura econômica, social e urbana
de pensar a longo prazo e em planejamento. Alguns poucos núcleos sobraram, 
com altos e baixos, idas e vindas, mas que, de qualquer maneira, permaneceram, 
e vocês têm a missão agora de voltar ao trabalho de pesquisa para as necessidades 
de desenvolvimento do país. 
Nós temos uma série de questões que começam a merecer preocupação. Em 
primeiro lugar, o desperdício é um fator persistente na economia brasileira. E é 
impressionante como não se pensa nem se estuda mais aprofundadamente isso. 
O desperdício se evidencia tanto no domínio físico como no dos recursos finan-
ceiros. Há uma perda muito grande de bens e serviços já produzidos sem atender 
à necessidade de consumidores e empresas. Por exemplo, no ciclo manejo, emba-
lagem, transporte, armazenagem e distribuição de bens oriundos da agricultura, 
o coeficiente de perda é enorme; na transmissão, distribuição e consumo de ener-
gia elétrica a perda é muito grande também; na distribuição de água nas regiões 
urbanas há grandes desperdícios; na atividade agrícola o coeficiente pode atingir 
até metade da produção do campo. Então, isso tudo está ligado à capacidade das 
infraestruturas de logística, transporte, energia, telecomunicações, de atenderem 
a necessidade da população e de reduzir todo esse desperdício. 
Nos serviços de energia elétrica e distribuição de água, o investimento por 
unidade de serviço prestado necessário à redução de perdas é muito menor que 
o investimento em instalações novas para gerar eletricidade ou a captação ou o 
tratamento de água dessas unidades que estão sendo desperdiçadas.