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<p>Jardim de Infância da Caetano de Campos</p><p>PRÁTICAS PEDAGÓGICAS</p><p>DA PROFESSORA</p><p>ALICE MEIRELLES REIS</p><p>1923 – 1935</p><p>Tizuko Morchida Kishimoto</p><p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>Kishimoto, Tizuko Morchida</p><p>Práticas pedagógicas da professora Alice Meirelles Reis 1923</p><p>– 1935. / Tizuko Morchida Kishimoto. -- São Paulo :</p><p>PoloBooks, 2014.</p><p>94 p.</p><p>ISBN: 978-85-65943-61-1</p><p>1. Bibliografia. 2. Educação. I. Título</p><p>CDD 010</p><p>PoloBooks</p><p>Rua Antônio das Chagas, 550 - Chácara Santo Antônio</p><p>04714-000 - São Paulo - SP</p><p>Tel.: (11) 3791-2965 / 3034-0066</p><p>www.poloprinter.com.br</p><p>e-mail: atendimento@poloprinter.com.br</p><p>Copyright© 2014 Tizuko Morchida Kishimoto</p><p>É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem a autorização</p><p>da Autora.</p><p>Produção e Impressão: PoloPrinter</p><p>3 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Índice</p><p>1. Introdução .................................................................................................. 01</p><p>2. Edifício do Jardim de Infância da Caetano de Campos ........................ 06</p><p>3. Professora Alice Meirelles Reis: "Minha primeira classe - 1923” ....... 10</p><p>4. Alice nos primeiros tempos no jardim .................................................... 12</p><p>5. Organização da sala para “exercícios tranquilos” ................................. 20</p><p>6. Interesse da criança ................................................................................... 24</p><p>7. Atividades Individuais e em equipes: jogos ........................................... 26</p><p>8. Marcenaria e trabalhos manuais ............................................................. 32</p><p>9. Atividades práticas cotidianas e exploração dos sentidos ................... 36</p><p>10. Livros ........................................................................................................ 40</p><p>11. Direitos e deveres .................................................................................... 46</p><p>12. Duas pedagogias: Froebel e Dewey ...................................................... 50</p><p>13. Barco a vela para brincar e imaginar ................................................... 56</p><p>14. Lavar roupa e pendurar .......................................................................... 58</p><p>15. Pão de açúcar e bondinho ...................................................................... 62</p><p>16. Brincar com bonecas ............................................................................... 66</p><p>17. Brincadeiras da tradição ......................................................................... 70</p><p>18. Brincadeiras motoras .............................................................................. 74</p><p>19. Plantar, regar, colher e comer................................................................ 76</p><p>20. Vender e comprar ................................................................................... 82</p><p>21. Centro de Interesse dos animais ............................................................ 84</p><p>22. Os animais, as aves e os peixes ............................................................. 88</p><p>23. Alice Meirelles Reis com 90 anos .......................................................... 92</p><p>4A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>1. Introdução</p><p>As fontes de inspiração para este livro surgem com a doação, em</p><p>1982, de um rico acervo fotográfico e escrito de Alice Meirelles Reis, pro-</p><p>fessora do Jardim da Infância da Caetano de Campos. Tizuko Morchida</p><p>Kishimoto, docente e pesquisadora da Faculdade de Educação da Univer-</p><p>sidade de São Paulo, que recebe o acervo, firma o compromisso de criar</p><p>um Museu para acondicioná-lo, o qual foi cumprido em 1999.</p><p>Por ocasião da comemoração dos 80 anos da USP, realiza-se na Fa-</p><p>culdade de Educação da Universidade de São Paulo, no dia 15 de outubro</p><p>de 2014, uma exposição fotográfica e a publicação deste livro, com vistas</p><p>a divulgar as práticas dessa professora. O objetivo destes eventos não tem</p><p>apenas o cunho comemorativo, mas de suscitar reflexões para pensar a</p><p>educação infantil nos tempos atuais.</p><p>As imagens utilizadas neste livro foram retiradas de cinco álbuns de</p><p>fotografias e dois livros datilografados e não publicados que se encontram</p><p>no Museu da Educação e do Brinquedo – MEB:</p><p>1. Álbum de fotografia de Alice Meirelles Reis de 1923 a 1927, com</p><p>capa em tecido aveludado, com flores vermelhas, amarelas e azuis</p><p>em fundo esverdeado, com dimensões de 20 cm x 14 cm, contendo</p><p>20 folhas, separadas com papel de seda, fotos com dimensões de 13</p><p>cm x 17 cm; 11 cm x 17 cm; 9 cm x 14 cm e 6 cm x 8 cm. Contém</p><p>as primeiras experiências da professora.</p><p>2. Álbum de fotografia de Alice Meirelles Reis – 1929, capa marrom</p><p>com figuras de bolhas, em alto relevo, dimensões de 25 cm x 19 cm,</p><p>22 folhas separadas com papel de seda, presas com cordão marrom,</p><p>contendo fotos nas dimensões: 13 cm x 17 cm; 7 cm x 11 cm e 6 cm</p><p>x 8 cm. As fotos menores trazem a identificação das atividades. Na</p><p>5 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>etiqueta consta Casa Stlaze, S.A. Rua Direita, 16, Caixa Postal 104,</p><p>S. Paulo. Traz imagens do período rico de inovações.</p><p>3. Álbum de fotografia de Alice Meirelles Reis – 1934, capa marrom</p><p>claro, com desenho de navio no centro, 28 folhas separadas com</p><p>papel de seda, amarradas com cordão de dois furos. Contém fotos de</p><p>11 cm x 17 cm. Na contracapa há o selo de Cartona C.F.N. nº 108.</p><p>Traz imagens de suas inovações.</p><p>4. Álbum de fotografia de Alice Meirelles Reis – 1933 – 1935, capa</p><p>marrom escuro, texturizada com fios dourados, dimensão de 32 cm</p><p>22 cm, 20 folhas, separadas com papel de seda e fotos de 7 cm x</p><p>11 cm. Há etiqueta da Casa Stlaze, S.A. Rua Direita, 16, Caixa postal</p><p>104, São Paulo. Traz imagens de suas inovações.</p><p>5. Álbum de fotografia de Alice Meirelles Reis – 1935, espiralado, preto</p><p>com nome Snapbook, de 18 cm x 25 cm, indicando a empresa Spi-</p><p>ral Binding Companhy, U.S. Patent nº 1518832-1912025 19855776.</p><p>Other Patents Pending MADE IN U.S.A., com fotos nas dimensões de</p><p>11 cm x 17 cm; 9 cm x 14 cm e 7 cm x 11 cm.</p><p>6. Livro datilografado de Alice Meirelles Reis. Volume 1 contendo</p><p>informações sobre as várias pedagogias da infância e suas meto-</p><p>dologias de ensino divulgados à época, fotos e recortes de livros,</p><p>s/d. (com inúmeras sugestões escritas à mão em papel de seda, por</p><p>Noemy Silveira, professora de Psicologia da Escola Normal – não</p><p>publicado).</p><p>7. Livro datilografado de Alice Meirelles Reis. Volume II, contendo in-</p><p>formações sobre escolas maternais e jardins de infância, ilustrado,</p><p>desenhos de mobiliário, fotos, desenhos das crianças e partituras</p><p>musicais. S/d. (com sugestões escritas à mão por Noemy Silveira,</p><p>professora de Psicologia da Escola Normal – não publicado).</p><p>A publicação do livro contou com apoio financeiro do Pontão de</p><p>Cultura, um projeto do Ministério da Cultura que coordeno e que valoriza</p><p>a cultura do brincar.</p><p>6A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>2. Edifício do Jardim de</p><p>Infância da Caetano de</p><p>Campos</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1933 a 1935 a (11 cm x 17 cm)</p><p>Acervo do MEB</p><p>O edifício da Escola Normal Caetano de Campos projetado pelo</p><p>arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo, situado na Praça da Re-</p><p>pública, inaugurado em 1895 é ampliado com a construção de um anexo,</p><p>em 1897, em que se instala o Jardim de Infância destinado a abrigar a</p><p>pioneira instituição de educação infantil pública no Estado de São Paulo.</p><p>Gabriel Prestes, diretor da Escola Normal Caetano de Campos cria o</p><p>jardim de infância destinado a crianças de 4 a 6 anos, por meio do decreto</p><p>nº 342, de 02 de março de 1896, assinado por Bernardino de Campos, que</p><p>em seu parágrafo único declara:</p><p>“Fica creado um jardim da infância junto a Eschola Normal da</p><p>Capital, como preparo à Eschola Modelo”.</p><p>O jardim de infância, em 1896, funciona inicialmente em salas alu-</p><p>gadas e, em 1897, transfere-se para o novo edifício projetado por Ramos</p><p>de Azevedo construído em local isolado, nos fundos da Escola Normal,</p><p>com</p><p>da educação</p><p>infantil pública em São Paulo, fruto de condições histórico culturais e</p><p>políticas públicas que precisam ser desveladas pelos pesquisadores.</p><p>Patrocinadores</p><p>_GoBack</p><p>grande jardim e locais para brincadeiras.</p><p>O edifício construído no estilo de art déco, na parte interna tem</p><p>ampla galeria destinada às festas, encontros com familiares e solenidades.</p><p>Se a valorização da instituição educativa se mede pelo espaço ocupado,</p><p>7 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>pode-se dizer que à época o jardim de infância é muito valorizado, pois</p><p>ocupa área de 940 m2, amplamente iluminada, com quatro salas e salão</p><p>central, com dimensões de 15 x 16 m, pé-direito duplo e coberto por cú-</p><p>pula octogonal metálica com vidro fosco embutidos em ferros trabalha-</p><p>dos. Do lado externo da cúpula, quatro terraços triangulares com vistas</p><p>para diferentes pontos da cidade complementam as áreas de atividades</p><p>das crianças de quatro a seis anos.</p><p>Na galeria do salão central estão pintados a óleo os retratos dos</p><p>pedagogos que influenciam a educação infantil no início da república:</p><p>Froebel, Pestalozzi, Rousseau e Mme. Carpentier, evidenciando a clare-</p><p>za de orientações pedagógicas que aparecem não apenas nos currículos</p><p>e programações, que podem ser vistos nos dois volumes da Revista do</p><p>Jardim de Infância, publicados em 1896 e 1897, mas também, nas fotos</p><p>desses pedagogos em espaços privilegiados como o salão central. Há mais</p><p>quatro compartimentos destinados aos banheiros, sala de visitas, depósito</p><p>de materiais e gabinetes de trabalho, além de dois pavilhões cobertos para</p><p>recreação das crianças.</p><p>A professora Alice, em suas descrições sobre a estrutura física dos</p><p>jardins de infância (Reis, II volume, s/d), prevê para cada turma: vestiá-</p><p>rio, sala de jogos, sala para exercícios tranquilos, instalações sanitárias e</p><p>lavatórios. A sala de jogos deveria conter: marcenaria, blocos para cons-</p><p>trução, mesa de areia (se não tiver ao ar livre), brinquedos que exigem</p><p>maior espaço e movimento como a casa da boneca. A sala de atividades</p><p>tranquilas deveria prever mesas, cadeiras, biblioteca, vitrola, piano, armá-</p><p>rio com divisão para material individual, armário com cortina de correr</p><p>para os jogos educativos, uma mesa para a professora, quadro negro na</p><p>parede para a escrita e outro quadro, fixado em barra de celotex destina-</p><p>do à “documentação em gravuras” (REIS, II volume, s/d p. 63). Pode-se</p><p>observar pelos registros fotográficos a existência desses espaços e até da</p><p>documentação pedagógica feita pelas crianças em suas investigações.</p><p>O jardim de infância, criado com objetivo de se tornar “escola mo-</p><p>delo”, a ser seguido por outras acaba não se efetivando. Em decorrência</p><p>de políticas públicas sem continuidade foi o único no gênero por muitas</p><p>décadas e seu edifício foi demolido em 1939, para a construção da Aveni-</p><p>da São Luiz. A partir dessa data as crianças perdem a estrutura criada para</p><p>o Jardim de Infância, evidenciando a pouca importância de patrimônios</p><p>históricos e também da educação infantil. Esse fato leva a professora a</p><p>8A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>manifestar sua insatisfação com a situação dessa instituição de educação</p><p>infantil que ao invés de se tornar escola modelo “funciona hoje em salas</p><p>adaptadas na Escola Normal” (REIS, v. II, p. 60). Ao ser transferida para</p><p>uma sala da Escola Normal os agrupamentos perdem a estrutura física</p><p>anterior com salas de jogos e de atividades tranquilas, para cada agrupa-</p><p>mento, áreas cobertas, jardins, sala de visitas para atender pais e comuni-</p><p>dade, depósito de materiais, entre outros.</p><p>Esse processo de desvalorização</p><p>continua com as pré-escolas criadas a</p><p>partir dos anos 30, inicialmente por Lou-</p><p>renço Filho, de salas anexas aos edifí-</p><p>cios das antigas escolas primárias, com</p><p>mesas e carteiras geralmente fixas, des-</p><p>tinadas às crianças maiores e que geram</p><p>insatisfações tanto para crianças como</p><p>para professoras e diretores que as cri-</p><p>ticam como sendo “salas de decepção</p><p>infantil”. Posteriormente, mesmo com a</p><p>implantação de políticas públicas desti-</p><p>nadas à educação infantil, nos finais dos</p><p>anos 1970, os edifícios não atendem a</p><p>especificidade da educação infantil, sen-</p><p>do modelos do ensino fundamental, não</p><p>dispondo de espaços diferenciados para</p><p>as necessidades das crianças pequenas.</p><p>A precariedade do espaço físico e</p><p>do trabalho pedagógico se acentua nos</p><p>tempos atuais com a prática de tercei-</p><p>rizar a educação das crianças pequenas,</p><p>com a política de subsidiar organizações</p><p>diversas para a oferta de edifícios e espa-</p><p>ços para a instalação de novas unidades</p><p>de educação infantil.</p><p>A iniciativa pioneira dos primeiros</p><p>republicanos históricos, na construção</p><p>do edifício pelo arquiteto Ramos de Aze-</p><p>vedo, contendo áreas para o atendimen-</p><p>9 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>to das necessidades das crianças e suas famílias é o que se nota hoje em</p><p>países como Itália, Finlândia, em que arquitetos se responsabilizam jun-</p><p>tamente com pedagogos e responsáveis pela área da saúde para a cons-</p><p>trução, fiscalização e manutenção de tais equipamentos. O edifício do</p><p>jardim de infância foi fotografado por Alice várias vezes e se encontra em</p><p>diferentes álbuns.</p><p>Edifício do Jardim de Infância da Caetano de Campos</p><p>10A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>3. Professora Alice</p><p>Meirelles Reis: “Minha</p><p>primeira classe - 1923”</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1923 -1927 (11 cm x 17 cm) - Acervo do MEB</p><p>Alice Meirelles Reis escreve “minha primeira</p><p>classe – 1923”, no Álbum que contém seus primeiros re-</p><p>gistros fotográficos da turma do jardim de infância da</p><p>Caetano de Campos, do 2º período. O Jardim de Infância</p><p>era dividido, conforme os critérios do sistema froebelia-</p><p>no, em três turmas: crianças de 4 a 5 anos (1º período);</p><p>de 5 a 6 anos (2º período) e 6 anos completos (3º período).</p><p>Na foto encontram-se 35 crianças, de um agru-</p><p>pamento misto, sendo 25 meninas e 10 meninos, que</p><p>devem ter em torno de cinco e seis anos, por serem do</p><p>2º período.</p><p>As crianças não estão uniformizadas, elas usam,</p><p>em sua maioria, vestidos, meias e sapatos, algumas fitas</p><p>no cabelo ou conjuntos de saia e blusa e os meninos</p><p>camisetas, jaquetas, camisa com gravata, shorts ou calça</p><p>comprida, com sapato e meia. Alice, de cabelos pretos e</p><p>vestido escuro senta-se no meio junto com outra profes-</p><p>sora loira de vestido claro e nas laterais encontram-se</p><p>mais duas mulheres. Seriam estagiárias? Ou outras pro-</p><p>fessoras de agrupamentos diferentes?</p><p>Embora sua prática fosse com o agrupamento in-</p><p>fantil do 2º período, ou seja, com crianças de 5 a 6 anos,</p><p>11 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>1ª turma de Alice</p><p>Alice menciona ter feito experiências de acompanhar suas crianças por</p><p>dois anos, (2º e 3º períodos), o que cria muito vínculo com as crianças,</p><p>além de ampliar as suas experiências, como diria John Dewey. Ela relata</p><p>que uma de suas crianças, que mais tarde se torna médico lhe envia flores,</p><p>todos os anos, na data de seu aniversário, ao longo de sua vida, eviden-</p><p>ciando a forte relação entre a professora e suas crianças.</p><p>O álbum referência deste item contém 36 fotos, sendo a característi-</p><p>ca da maioria delas, dramatizações das crianças e agrupamentos infantis</p><p>de Alice do período de 1924 a 1927. Nesse período as turmas eram gran-</p><p>des, com até 40 crianças.</p><p>12A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>4. Alice nos primeiros</p><p>tempos no jardim</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de</p><p>Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1923 a 1927 – Acervo do MEB</p><p>Nos primeiros tempos de sua experiência no Jardim de Infância,</p><p>como aluna, e depois como professora, Alice encontra a pedagogia froe-</p><p>beliana dos dons e ocupações, uma prática reproduzida há 27 anos, desde</p><p>sua implantação em 1896. Conforme a programação do segundo perío-</p><p>do divulgada pela Revista do Jardim de Infância, de 1896, consistia em</p><p>marchas, exercícios de linguagem, música, ginástica, trabalhos manuais,</p><p>ocupações com os dons envolvendo tecelagem, alinhavo, desenhos com</p><p>pausinhos, varetas entre outros. Menciona, em entrevista, que essa pro-</p><p>gramação a leva a pensar na necessidade</p><p>de mudanças, que ocorrerá mais</p><p>tarde, a partir de 1929. No entanto, o registro fotográfico de suas práticas</p><p>já representa nova forma de conceber a prática pedagógica. Ela registra as</p><p>danças, dramatizações de histórias e representações de danças e músicas,</p><p>além de atividades com uso dos dons. Nesse período inicial de sua carreira</p><p>no jardim de infância, com 40 crianças e apenas uma professora fica difí-</p><p>cil iniciar mudanças substantivas.</p><p>O bailado dançado por crianças do 1°, 2º e 3º períodos, sob o título</p><p>“No Paiz dos Moinhos”, data de 27/05/1924. Destacam-se representações</p><p>sobre temas folclóricos, como “holandesas” “espanholas”. O tema “Uma</p><p>Empreza” é homenagem a D. Joaninha, diretora do Jardim da Infância,</p><p>tendo a menina Clara Elisa Constantini no papel da espanholinha, vestida</p><p>com roupas típicas, com brincos, flores na cabeça e no vestido segurando</p><p>um pandeiro.</p><p>13 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>“Clara Elisa Constantini” e “Hespanhola”</p><p>(1924 - 11 cm x 1a7 cm)</p><p>14A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>“Bobby Prirontoni e Maria Augusta Tibiriçá”</p><p>em “Menina e o Lobo” (1923 – 11 cm x 17 cm)</p><p>15 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>16A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>“O</p><p>de</p><p>te</p><p>e</p><p>M</p><p>ar</p><p>in</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>M</p><p>in</p><p>u</p><p>et</p><p>o”</p><p>(1</p><p>92</p><p>3</p><p>–</p><p>11</p><p>c</p><p>m</p><p>x</p><p>1</p><p>7</p><p>cm</p><p>)</p><p>17 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>18A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>A foto de 17/9/1923, retrata a cena da representação “A menina e o</p><p>lobo!”, com a participação das meninas Bobby Prirontoni e Maria Augusta</p><p>Tibiriçá, uma vestida de chapeuzinho vermelho, carregando uma cesta e</p><p>outra vestida de lobo. Outra foto de 27/05/1923 retrata a representação</p><p>da dança “Minueto”, com Odete Freitas e Mariana Colombo fazendo a</p><p>coreografia.</p><p>19 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Nota-se, no início, a prática de registrar fotos com o agrupamen-</p><p>to infantil inteiro. Outras mostram crianças em dramatizações, sempre</p><p>fantasiadas, com pose, identificadas pelo nome. Prevalecem temas come-</p><p>morativos como: índios, histórias do lobo, danças e representações que</p><p>envolvem vestimentas típicas de vários países e tempos distintos. Essa</p><p>parece ser a prática de iniciantes ao fazer registros com imagem, situação</p><p>similar à das professoras dos tempos atuais.</p><p>“H</p><p>ol</p><p>la</p><p>n</p><p>de</p><p>za</p><p>s”</p><p>(1</p><p>92</p><p>4</p><p>–</p><p>9</p><p>cm</p><p>x</p><p>1</p><p>4</p><p>cm</p><p>)</p><p>20A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>5. Organização da</p><p>sala para “exercícios</p><p>tranquilos”</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1929 ( 13 cm x 17 cm) - Acervo do MEB.</p><p>Essa sala é o reflexo das novas alterações do espaço físico efetua-</p><p>das pela professora a partir de 1929, destinada a “exercícios tranquilos”,</p><p>contendo mesas, cadeiras, biblioteca, vitrola, piano, armário com divisão</p><p>para material individual, armário com cortina de correr para jogos educa-</p><p>tivos, uma mesa para a professora, quadro negro na parede e uma barra de</p><p>celotex para os trabalhos das crianças e a documentação em gravuras. A</p><p>organização desse ambiente educativo mostra crianças em atividades di-</p><p>versificadas, que escolhem o que fazer conforme seus interesses, uma prá-</p><p>tica que até hoje não se consegue introduzir na educação infantil, mesmo</p><p>com as Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil indicando a</p><p>brincadeira e as interações como eixos da prática pedagógica.</p><p>A foto indica um agrupamento de 30 crianças. Notam-se crianças</p><p>ocupando-se de atividades diferentes, sentadas ou de pé e com alto nível</p><p>de envolvimento no que fazem. Algumas brincam com blocos no chão,</p><p>outras se ocupam da montagem de puzzles, ou encaixe de peças e outros,</p><p>com diferentes tipos de jogos adaptados e produzidos por Alice. Essa prá-</p><p>tica se inicia em decorrência de visitas às escolas novas no exterior ou de</p><p>leitura de revistas e livros além do incentivo que recebe de personalidades</p><p>da política de educação paulista da época, de expoentes do movimento</p><p>escolanovista, que são também representantes do Movimento dos Pionei-</p><p>ros da Educação Nova de 1932. O apoio de uma política pública de valo-</p><p>rização da educação infantil e de incentivo às mudanças faz Fernando de</p><p>21 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Azevedo autorizar Alice a dispor de salas apenas para seu agrupamento</p><p>infantil, utilizadas pela manhã e que não eram ocupadas a tarde por outro</p><p>agrupamento infantil. Desta forma, a partir de 1929, suas crianças reali-</p><p>zam práticas como a de brincar com blocos grandes, no chão, construindo</p><p>estruturas como barcos, fazendas, sem serem importunadas por outros</p><p>agrupamentos, garantindo a permanência dos mesmos objetos na sala</p><p>para dar continuidade no dia seguinte, entre outras atividades como mar-</p><p>cenaria e brincadeiras imaginárias na sala de jogos. Sem essa autorização</p><p>teria sido impossível dar continuidade às produções das crianças de modo</p><p>a criar maior complexidade e qualidade aos seus projetos.</p><p>Os materiais e jogos produzidos por ela para garantir escolhas que</p><p>atendam aos interesses de 30 crianças passam pelo crivo de Lourenço</p><p>Filho, expoente da escola nova em São Paulo, que lhe oferece uma dire-</p><p>ção segura para suas experiências. Noemy Silveira, também membro dos</p><p>Pioneiros da Escola Nova e docente da Escola Normal orienta a professora</p><p>nas questões da psicologia da educação e a professora de Artes da Escola</p><p>Normal dá suporte à construção de diferentes materiais. Enfim, Alice não</p><p>se isola e cria uma rede de colaboradores para inovar.</p><p>As concepções de educação infantil que regem o jardim de infância,</p><p>segundo a professora podem ser agrupados em quatro aspectos: importân-</p><p>cia da atividade natural da criança e os aspectos psicológicos do seu desen-</p><p>volvimento; o jogo espontâneo e o jogo educativo como meios para educar;</p><p>o ambiente preparado e o interesse da criança ( REIS, s/d, p. 75-77).</p><p>A professora menciona a importância de utilizar a atividade que é</p><p>própria e natural da criança, como correr, brincar, por tais razões justi-</p><p>fica o uso do jogo espontâneo: “Segundo Claparède, essa atividade tem</p><p>por objeto, satisfazer as necessidades do corpo e do espírito”. (REIS, s/d,</p><p>p. 75). Comenta que tais atividades espontâneas surgem em decorrência</p><p>dos interesses e necessidades da criança e seu aproveitamento requer</p><p>o preparo do ambiente para atender suas necessidades. Alice utiliza as</p><p>brincadeiras espontâneas das crianças e os jogos educativos como parte</p><p>de sua pedagogia.</p><p>Tais concepções têm suas origens nas ideias formuladas no início do</p><p>século XX pelo filósofo John Dewey, adotadas por muitos pedagogos do</p><p>movimento escolanovista como Cousinet (trabalho de equipe, livre), De-</p><p>croly (centro de interesse) e Kilpatrick (método de projetos), que influen-</p><p>ciam as práticas de Alice no jardim de infância.</p><p>22A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>As ideias de Dewey sobre a observação da atividade da criança para</p><p>identificar seus interesses e necessidades, a relevância do interesse que</p><p>gera o esforço, as ações colaborativas por meio de uma educação demo-</p><p>crática, a reflexão e a investigação, a experiência vivida pela criança, a</p><p>preparação do ambiente educativo e o jogo como atividade em que tais</p><p>situações podem ser experimentadas aparecem especialmente nas práticas</p><p>de Alice.</p><p>O conceito mais utilizado por ela – interesse da criança -, encon-</p><p>tra-se nos estudos do filósofo John Dewey, na obra Interest and effort in</p><p>education, de forma a evidenciar que apenas o interesse genuíno da crian-</p><p>ça por alguma coisa a leva ao empenho, ao esforço para refletir,</p><p>para buscar soluções para questões que ainda não sabe ou buscar</p><p>informações para suas perguntas, seus temas de investigação, ou</p><p>seja, ampliar conhecimento. Para exemplificar tais pressupostos, o</p><p>filósofo descreve a experiência feita pela professora Miss Pratt, do</p><p>jardim de infância da “Play School” (Escola para brincar) de New</p><p>York City, que leva as crianças ao parque por elas gostarem e sen-</p><p>tirem prazer de observar cães, plantas, flores, borboletas e que tais</p><p>práticas lúdicas,</p><p>além de interessantes e estéticas são importantes</p><p>quando levam a criança a perguntar para saber mais sobre eles,</p><p>ampliando o conhecimento. Portanto, é na atividade cotidiana, do</p><p>gosto pela observação de animais e plantas que as crianças ma-</p><p>nifestam seus interesses. A função da professora é aproveitar tais</p><p>interesses para ampliá-los quando há, de fato, genuíno interesse</p><p>que possibilita a continuidade da experiência vivida pela criança.</p><p>Certamente, no norte da Itália, Malaguzzi também teve suas inspi-</p><p>rações nas fontes deweyanas para levar as crianças a desenvolve-</p><p>rem projetos em currículos que emergem quando elas manifestam</p><p>seus interesses.</p><p>Embora o movimento da escola nova tenha em suas raízes as</p><p>concepções deweyanas, pode-se dizer que Alice chega a tais ideias</p><p>com auxílio de Decroly, um discípulo de Dewey.</p><p>Lourenço Filho menciona na obra A Escola Nova, como Ro-</p><p>ger Cousinet foi importante ao divulgar o trabalho em equipes.</p><p>Essa informação teve impacto no que Alice denomina “arranjos</p><p>da sala”, para subsidiar a organização do espaço para atividades</p><p>em equipes.</p><p>23 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Sala de “exercícios tranquilos”</p><p>O amplo espaço físico da sala impressiona pela diversidade de ma-</p><p>teriais para a mesma quantidade de crianças que se tem hoje na Escola</p><p>Municipal de Educação infantil - EMEI. Com apenas uma professora e 30</p><p>crianças Alice respeita o interesse das crianças que têm, de fato, possibili-</p><p>dades de escolha de atividades no interior desta sala e da outra de jogos,</p><p>sem deixar de lado a parte externa. O uso diário, nos tempos atuais, de uma</p><p>única sala, em geral pequena, por dois ou mais agrupamentos infantis, ao</p><p>longo do dia, cria práticas de descontinuidade, de pouco envolvimento e</p><p>de baixa qualidade.</p><p>24A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>Estante com materiais e brinquedos</p><p>6. Interesse da criança</p><p>Álbum de Fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1929 (7 cm x 11 cm). Acervo do MEB.</p><p>Ao defender o princípio do interesse, valorizado por Dewey e De-</p><p>croly, Alice organiza os espaços e disponibiliza materiais em estante baixa</p><p>com materiais à altura das crianças para que possam escolher. Ela oferece</p><p>opções na sala de jogos, em ambientes organizados como o doméstico</p><p>para brincadeiras simbólicas.</p><p>Na sala ou área destinada aos jogos, Alice propõe uma organiza-</p><p>ção com materiais e jogos disponíveis para uso autônomo das crianças e</p><p>também para brincadeiras como a de casinha.</p><p>25 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Á</p><p>re</p><p>a</p><p>pa</p><p>ra</p><p>b</p><p>ri</p><p>n</p><p>ca</p><p>de</p><p>ir</p><p>as</p><p>si</p><p>m</p><p>bó</p><p>li</p><p>ca</p><p>s</p><p>Nesta imagem nota-se uma parte da sala com estante, contendo</p><p>prateleiras bem baixas, na altura das crianças, com vários brinquedos e</p><p>materiais para livre acesso. Uma delas experimenta encaixar as bonecas</p><p>russas – matrioskas, uma dentro da outra. A outra menina parece entre-</p><p>ter-se com algo que parece ser um carretel de linha tentando enrolar o</p><p>fio. A imagem mostra a autonomia das crianças na exploração dos brin-</p><p>quedos e materiais que ficam disponíveis para seu uso. Onde estão outras</p><p>crianças? Certamente ocupando-se de outros interesses, o que configura a</p><p>clareza da proposta de Alice veiculada em seus escritos e em suas práticas.</p><p>Na figura a direita, duas crianças se ocupam da brincadeira de casi-</p><p>nha, de ocupação de papéis do mundo doméstico, com duas divisões: uma</p><p>para passar roupa e preparar o chá e outra, para tomar chá. A delimitação</p><p>do espaço com divisórias simples dá visibilidade a atividade infantil, mas</p><p>ao mesmo tempo oferece tranquilidade e proteção para preservar a ação</p><p>da criança, um aspecto que até hoje nossas escolas de educação infantil</p><p>não aprenderam a fazer. Nota-se a importância da decoração do ambiente</p><p>para criar o contexto da vida, de lugares que trazem a estética e a cultura</p><p>da época, do tomar o chá junto com os convidados, do relógio decorando</p><p>a parede. Na sala de estar, as bonecas estão sentadas aguardando para</p><p>tomar o chá. Alice preocupa-se com a delimitação do espaço para que as</p><p>crianças tenham intimidade e tranquilidade para desenvolver suas ações</p><p>sem que outros lhes tirem a concentração. Essas imagens podem ser vistas</p><p>também como exemplos de situações que evidenciam a preferência do</p><p>gênero feminino de brincar de casinha com suas bonecas, que prevalece</p><p>até os tempos atuais.</p><p>26A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>7. Atividades Individuais e</p><p>em equipes: jogos</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1929 (7 cm x 11 cm) - Acervo do MEB.</p><p>Ao valorizar os interesses das crianças, conforme aprendera com</p><p>Decroly, Alice oferece atividades individuais e em equipes para as suas 30</p><p>crianças da sala. Quantos materiais ela teve que produzir por conta pró-</p><p>pria para oferecer essa diversidade de opções para suas crianças!</p><p>As fotos indicam um tempo no cotidiano para atividades individu-</p><p>ais e em equipes. Certamente Montessori, com o princípio da atividade</p><p>individual, de escolha da criança, deve ter influenciado essa prática. Da</p><p>mesma forma a veiculação do trabalho em equipe de Roger Cousinet</p><p>dentro do movimento da escola nova tenha dado bases para o trabalho</p><p>em equipes. Inúmeras orientações pedagógicas são veiculadas nessas</p><p>imagens. Há, na primeira foto, meninas que bordam e meninos que</p><p>desenham (abordagem froebeliana); na segunda foto, outras crianças</p><p>parecem ocupar-se com atividades e materiais de encaixe similares aos</p><p>de Montessori, contendo pinos em sequência por tamanho ou outros</p><p>modificados por ela, contendo flores e animais da fauna e flora brasi-</p><p>leira (Decroly). Na terceira foto há uma criança sentada com os olhos</p><p>vendados para descobrir as características dos objetos por meio do tato</p><p>(abordagem montessoriana).</p><p>Certamente outros jogos educativos por ela construídos a partir das</p><p>sugestões divulgadas por Decroly, pelos museus pedagógicos ou didáti-</p><p>cos e pela Associação Brasileira de Educação contribuem para a criação</p><p>de uma variedade de materiais e jogos. Alice menciona em entrevista a</p><p>necessidade de muito material para atender os interesses de cada criança</p><p>e conta com ajuda da professora de Artes da Escola Normal para construí-</p><p>27 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>A</p><p>ti</p><p>vi</p><p>da</p><p>de</p><p>s</p><p>in</p><p>di</p><p>vi</p><p>du</p><p>ai</p><p>s</p><p>-los, da revista francesa Enfance que traz inúmeras sugestões de práticas</p><p>para o jardim de infância.</p><p>As informações contidas nos cinco álbuns fotográficos doados ao</p><p>MEB que abrangem o período de 1923 a 1935 evidenciam que as práticas</p><p>pedagógicas inovadoras ocorrem no período de 1929 até 1935. Duran-</p><p>te o período de inovações, a professora constrói uma pedagogia para o</p><p>jardim da infância, utilizando experiências adquiridas durante visitas ao</p><p>jardim de infância da Universidade de Columbia, de orientação deweyana,</p><p>assim como às instituições infantis da América Latina. Ao ler obras dos</p><p>escolanovistas como Dewey, Decroly, Montessori, entre outros1, conhece</p><p>as experiências desses pedagogos, assina revistas francesas como Enfan-</p><p>ce2·, aprendendo com a experiência dos outros. No entanto, ela recria as</p><p>práticas pedagógicas à sua maneira, fazendo releituras de concepções pe-</p><p>dagógicas para ajustar ao contexto da cultura brasileira, como menciona</p><p>em entrevista e que se pode observar nas imagens fotográficas dos seus</p><p>álbuns e do seu livro (REIS, v. I, s/d. datilografado).</p><p>1 Tais obras foram doadas para a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.</p><p>2 Alguns exemplares antigos dessa revista encontram-se no MEB-Museu da Educação e do Brinquedo e trazem exemplos de práticas</p><p>pedagógicas para a educação infantil.</p><p>28A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>29 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>30A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>Atividades em equipes</p><p>31 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>32A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>8. Marcenaria e trabalhos</p><p>manuais</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1933 – 1935 (11 cm x 17 cm; 7 cm x 11 cm) – Acervo</p><p>do MEB</p><p>Na sala ou área destinada aos jogos as crianças desenham, pin-</p><p>tam, fazem personagens com argila, nas atividades de trabalhos manuais</p><p>e produzem, na marcenaria, com uso da serra, os objetos para seus proje-</p><p>tos. Tais produções podem ser vistas nas exposições feitas pelas crianças,</p><p>que documentam seus projetos que permanecem no interior da sala, com-</p><p>partilhadas também, com pais.</p><p>A primeira imagem mostra duas crianças pintando materiais por</p><p>elas produzidos. Em outra foto, as</p><p>crianças produzem na marcenaria suas</p><p>peças para os projetos. A marcenaria é</p><p>uma importante área para o desenvol-</p><p>vimento de habilidades e da criativida-</p><p>de, valorizados por Dewey e que Alice</p><p>observa em suas visitas no exterior. A</p><p>área da marcenaria ou o que se poderia</p><p>denominar hoje de ateliê, embora im-</p><p>portante para desenvolver habilidades e</p><p>a criatividade, por exigir área apropria-</p><p>da, recursos materiais e equipamentos,</p><p>não se encontra, na rede pública infan-</p><p>til, que pouco investe em sua estrutura</p><p>física e material. Na terceira imagem há</p><p>uma exposição construída pelas crian-</p><p>ças e que fica exposta na sala.</p><p>33 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Marcenaria</p><p>Pintura</p><p>34A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>35 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Exposição</p><p>36A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>9. Atividades práticas</p><p>cotidianas e exploração</p><p>dos sentidos</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1929 (7 cm x 11 cm) - Acervo do MEB.</p><p>Duas imagens indicam atividades para o uso dos sentidos como</p><p>visão e tato, e outras, referem-se às situações da prática cotidiana, que</p><p>seguem pressupostos montessorianos.</p><p>Na primeira foto as crianças estão sentadas e de olhos vendados e</p><p>tentam descobrir pelo tato os objetos que estão a sua frente. Na segun-</p><p>da imagem a menina tem os olhos vendados e tenta adivinhar quem é</p><p>o amigo que está a sua frente pelo tato. Tais brincadeiras de adivinhar</p><p>são importantes hoje para ações de inclusão. Conhecer a dificuldade do</p><p>outro, que é cego, é importante para a valorização das diferenças.</p><p>Nas outras duas fotos, notam-se cenas relativas às atividades da</p><p>vida prática como abotoar o avental da amiga, calçar o sapato e pen-</p><p>tear o cabelo, práticas importantes para o desenvolvimento da autono-</p><p>mia da criança.</p><p>Disponibilizar o tempo para cada criança experimentar e desen-</p><p>volver habilidades para realizar tarefas simples do cotidiano relaciona-</p><p>do ao uso de roupas e calçados requer planejamento de tempos, espa-</p><p>ços e a crença na importância dessas ações como funções educativas</p><p>que não se restringem ao lar, mas também é da instituição educativa.</p><p>Valorizar a autonomia das crianças em um agrupamento com 30 crian-</p><p>ças requer a compreensão de que cada criança é diferente da outra no</p><p>domínio de ações para se vestir e calçar, de que a cooperação entre as</p><p>crianças e o convívio entre elas facilitam o desenvolvimento dessas</p><p>habilidades necessárias ao mundo social.</p><p>37 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>A</p><p>ti</p><p>vi</p><p>da</p><p>de</p><p>s</p><p>en</p><p>so</p><p>ri</p><p>al</p><p>A</p><p>di</p><p>vi</p><p>n</p><p>h</p><p>a</p><p>qu</p><p>em</p><p>é</p><p>?</p><p>38A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>39 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Atividades da vida prática</p><p>Atividades da vida prática</p><p>40A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>10. Livros</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1929 (7 cm x 11 cm) - Acervo do MEB.</p><p>Nos tempos da primeira república havia em algumas escolas os</p><p>gabinetes de leitura, que eram as bibliotecas. No entanto, disponibilizar</p><p>livros dentro da própria sala, para uso livre das crianças, é uma ideia ino-</p><p>C</p><p>ri</p><p>an</p><p>ça</p><p>s</p><p>e</p><p>aq</p><p>u</p><p>ár</p><p>io</p><p>41 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>vadora que leva Alice a compreender que os livros fazem parte da vida</p><p>das crianças e que durante as explorações ou desenvolvimento de projetos</p><p>elas podem se utilizar desses recursos materiais. Nesse sentido, antecipa</p><p>a ideia de que, o livro auxilia a emergência do letramento e favorece a</p><p>aprendizagem no contexto da vida cotidiana, levando as crianças a pes-</p><p>quisarem, contarem histórias ou lerem em qualquer lugar.</p><p>Tais imagens denominadas por Alice como “Exercício livre”, “De-</p><p>senhando e lendo livros”, encontram-se no álbum de 1929 e nota-se a</p><p>criança com liberdade para escolher a atividade segundo seu interesse,</p><p>por tais razões a denomina “exercício livre”, que dá opções, mas com</p><p>orientação.</p><p>A primeira foto inclui diferentes situações como duas crianças se de-</p><p>bruçando sobre um aquário, com alto nível de envolvimento que se pode</p><p>notar pela expressão corporal que evidencia foco, energia e concentração</p><p>no objeto de interesse. Outra se ocupa com alguma coisa na</p><p>mão. Uma dupla lê um livro no chão e mais duas crianças fa-</p><p>zem construções com blocos e encaixes. Essa imagem retrata,</p><p>mais uma vez, a diversidade de ações dentro de um mesmo</p><p>tempo e espaço, evidenciando uma prática voltada aos inte-</p><p>resses das crianças.</p><p>A segunda foto revela o alto nível de concentração de</p><p>quatro crianças que se encontram na sala designada por Alice</p><p>de “exercícios tranquilos”, dentro da qual fica a biblioteca.</p><p>Na terceira foto, um menino folheia, de pé, um livro</p><p>grande, dentro de um espaço que evidencia a movimentação</p><p>das várias crianças em diferentes ações.</p><p>Nas diversas situações focalizadas pelas imagens, o livro</p><p>faz parte da experiência da criança e pode ser consultado em</p><p>qualquer tempo e lugar. Desde ler em silencio na biblioteca, no</p><p>canto organizado com estante de livros, com mesas e cadeiras</p><p>para leitura, até pesquisar um livro junto com um amigo para</p><p>discutir algum tema ou em grupo, na procura de alguma infor-</p><p>mação. Alice soube organizar os tempos, espaços e materiais</p><p>no planejamento cotidiano, proporcionando experiência, en-</p><p>cantamento, criatividade e solução de problemas para atender</p><p>os interesses e necessidades dos pequenos leitores.</p><p>42A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>Área da biblioteca</p><p>43 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>44A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>Menino folheia livro</p><p>45 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>46A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>11. Direitos e deveres</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1929 (7 cm x 11 cm) e 1933-1935 (11 cm x 17 cm) - Acervo do MEB</p><p>A autonomia das crianças ou o direito de escolher o que quer fazer é</p><p>acompanhado de deveres. Depois da atividade livre é importante aprender a</p><p>limpar e guardar.</p><p>As indicações de Alice: “Depois do vaso arranjado, a limpeza da mesa”</p><p>e “Arranjo da classe. Collocando flores no vaso – 1929”. As imagens indicam</p><p>que a limpeza é inerente ao arranjo das flores. Montessori dava as bases para</p><p>essa forma de conduta de responsabilidade e disciplina. Após a realização das</p><p>atividades, as crianças varrem o chão da sala para recolher os papéis picados</p><p>e guardam os blocos de construção que não são utilizados dentro da estante</p><p>com cortinas.</p><p>Enquanto a primeira imagem, de 1929, destaca a recolha dos restos das</p><p>flores após o arranjo do vaso, a segunda foto, de 1935, mostra três crianças</p><p>guardando os blocos de construção no armário, após o término da brincadeira.</p><p>O armário que pode ser fechado por uma cortina de pano xadrez fica na altura</p><p>da criança facilitando o uso independente dos materiais e sua organização. A</p><p>terceira foto, de 1929, destaca a ação de varrer o chão para eliminar os papéis</p><p>recortados e espalhados pelo piso.</p><p>Nos tempos atuais pode-se dizer que se a criança tem o direito ao brin-</p><p>quedo e a brincadeira tem, também, a responsabilidade de limpar e guardar os</p><p>objetos utilizados. As brincadeiras nem sempre são vistas como momentos para</p><p>aprender a organizar um espaço, limpar e guardar objetos utilizados.</p><p>Alice preocupa-se com a ordem e disciplina como menciona em entrevis-</p><p>ta e em seu livro ( REIS, v. I, s./d.). Certamente a manutenção da diversidade</p><p>de opções de atividades só pode se sustentar com a organização de regras de</p><p>conduta de uso do amplo espaço. Sem regras, fica difícil para 30 crianças e</p><p>apenas uma professora</p><p>e as aventuras imaginadas durante</p><p>esse processo. Enfim, a leitura de Jerome Saymour Bruner me possibilita</p><p>dizer que o mundo real dos barcos a vela presente na vida cotidiana dos</p><p>brasileiros, desde a vinda dos portugueses ao Brasil, deve ter propiciado a</p><p>criação de muitos mundos possíveis no imaginário dessas crianças.</p><p>58A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>14. Lavar roupa e</p><p>pendurar</p><p>Álbum de fotografia de Alice Meirelles Reis</p><p>1929 (7 cm x 11 cm) Acervo do MEB.</p><p>A área externa faz parte do projeto pedagógico da professora.</p><p>As crianças organizam brincadeiras simbólicas, amarrando um cordão na</p><p>árvore para ter o varal, preparam uma bacia para colocar água, lavam as</p><p>roupas da boneca e penduram no varal, como faz o adulto naquele tempo.</p><p>O espaço externo é considerado por pesquisadores uma área po-</p><p>tencialmente mais rica que o espaço interno para o desenvolvimento das</p><p>brincadeiras simbólicas, quando se oferece às crianças liberdade de ação,</p><p>tempo e materiais. Normalmente a tradição brasileira associa o espaço</p><p>externo como área para brincadeiras motoras, sem necessidade de recur-</p><p>sos materiais para desencadear temas simbólicos, o que não ocorre com</p><p>Alice que dá suporte material em todas as áreas. As imagens sequenciais</p><p>evidenciam seus saberes sobre a importância dessa ação.</p><p>Na primeira cena as crianças cooperam para organizar o espaço da</p><p>brincadeira, pois construí-lo faz parte do brincar. Se o tema do brincar é</p><p>o de lavar roupa das bonecas, é preciso providenciar o balde com água,</p><p>esticar o fio e amarrar no tronco das árvores. Em seguida lavar, torcer a</p><p>roupa e no final estender no varal. A imitação da vida cotidiana dos afa-</p><p>zeres domésticos de lavar a roupa na área externa, para estender no varal</p><p>é uma das brincadeiras que merece a atenção de Alice que fotografa a</p><p>sequência das ações das meninas.</p><p>O imaginário infantil retratado nesta imagem deriva de situações do</p><p>cotidiano vivido pelas crianças. Se naqueles tempos pode-se ancorar em</p><p>diferentes concepções propostas por Montessori, Dewey, Claparède, Frei-</p><p>net, hoje Vygotsky dá as bases psicológicas e culturais para a compreen-</p><p>59 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Balde com água</p><p>La</p><p>va</p><p>r</p><p>ro</p><p>u</p><p>pa</p><p>60A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>são de que as situações imaginárias, de natureza psicológica, são regradas</p><p>pelo mundo cultural, pois o papel de ser a mãe que lava e pendura as</p><p>roupas no varal é regulado pela experiência vivida pela criança.</p><p>A reprodução ou recriação tem como base as regras provenientes do</p><p>seu mundo doméstico, de como lavar, secar e pendurar a roupa. Hoje cer-</p><p>tamente as crianças poderiam colocar a roupa na máquina de lavar, para</p><p>lavar e até secar. É ainda, componente da situação imaginária o interesse</p><p>61 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Pe</p><p>n</p><p>du</p><p>ra</p><p>r</p><p>ro</p><p>u</p><p>pa</p><p>n</p><p>o</p><p>va</p><p>ra</p><p>l</p><p>em viver situações que ainda não são capazes, a aspiração de ser maior</p><p>do que é na vida real e desempenhar papel de ser a mãe ou outro adulto,</p><p>figuras do mundo social. Desta forma, elas recriam situações dos tempos</p><p>em que se mora em casa, com amplos quintais com varais fixos nos muros</p><p>e nas árvores e adultos lavando e pondo a roupa para secar ao ar livre. É</p><p>o mundo real que propicia as regras para o brincar imaginário oferecendo</p><p>conteúdos simbólicos para mundos possíveis.</p><p>62A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>15. Pão de açúcar e</p><p>bondinho</p><p>Álbum de fotografia do jardim de Infância da Caetano de Campos</p><p>1929 (7 cm x 11 cm). Acervo do MEB.</p><p>O tanque de areia é um espaço propício para a expressão do</p><p>imaginário. As crianças partilham códigos da cultura de seu tempo, cons-</p><p>truindo o bondinho e o pão de açúcar, recriando com a areia molhada,</p><p>a experiência inesquecível do famoso morro do Rio de Janeiro, que</p><p>guarda o formato de um delicioso pão coberto de açúcar.</p><p>A importância do Rio de Janeiro, com suas praias, morros, a</p><p>natureza exuberante, o bondinho e o pão de açúcar, inaugurados em</p><p>1912, traz uma paisagem inconfundível desta cidade. A paisagem</p><p>urbana com maravilhoso equilíbrio entre a mata, o mar e os morros</p><p>ressalta o pão de açúcar, uma alta montanha sem vegetação, de rocha</p><p>de granito com idade superior a 600 milhões de anos. Sua denomina-</p><p>ção pode provir dos tempos da colonização portuguesa, que no auge</p><p>da cultura canavieira, propicia o surgimento da imagem de um deli-</p><p>cioso pão de açúcar ou a de um guardião dessa magnífica paisagem.</p><p>Visitar o Rio de Janeiro e passear no bondinho do pão de açú-</p><p>car certamente é um passeio que muitas crianças do jardim de infân-</p><p>cia, que provém da elite e da classe média, já fizeram, ou poderiam</p><p>ser temas do desejo daquelas que ainda não o conhecem. As crianças</p><p>desse período já não são exclusivamente da aristocracia e incluem</p><p>as da classe média, conforme depoimento oral da professora, em de-</p><p>corrência do empenho dos defensores da escola pública para o povo.</p><p>O Rio de Janeiro, a capital do país naqueles tempos pode re-</p><p>presentar no imaginário infantil, um mundo real, com o maravilhoso</p><p>passeio no bondinho e que desperta, em cada criança inúmeras ver-</p><p>63 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>sões de mundos imaginários. Em um tempo sem televisão para veicular</p><p>as maravilhas do país, talvez fotografias ou relatos do pão de açúcar e do</p><p>bondinho podem ter circulado entre as crianças favorecendo a disponi-</p><p>bilidade de imagens culturais de objetos de desejo para serem recriados.</p><p>Alice registra essa importante representação das crianças, como</p><p>exemplo dos interesses das crianças. Hoje poderíamos identificar a pre-</p><p>sença da cultura de pares como diria o sociólogo da infância William</p><p>Corsaro, de grupo de meninos e meninas que se envolve na construção</p><p>do bondinho do pão de açúcar e produz cultura infantil, que é nesse caso</p><p>lúdica. Criar morros, pendurar o fio e o bondinho são tarefas que deman-</p><p>dam habilidade e envolvimento de crianças que partilham a cultura lúdica</p><p>de seu tempo.</p><p>Mais uma vez é importante frisar a relevância da área externa, do</p><p>tanque de areia, que propicia a expressão do simbolismo infantil, da ri-</p><p>queza da expressão lúdica de meninos e meninas partilhando códigos</p><p>culturais e saberes da cultura infantil.</p><p>Construindo Pão de Açúcar</p><p>64A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>Pão de açúcar e Bondinho</p><p>65 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>66A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>16. Brincar com bonecas</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1929 (7 cm x 11 cm);</p><p>1932-1935 (7 cm x 11 cm);</p><p>( Reis, v. II, s/d/ (10 cm x 8 cm).</p><p>Acervo do MEB</p><p>Embora o brincar com bonecas, a típica brincadeira de “mamãe e</p><p>filhinha” pareça ter existido em todos os tempos e culturas, houve épo-</p><p>ca em que os meninos também o adotam. Poder-se-ia indagar se seriam</p><p>ações preconceituosas sobre o papel da mulher na criação dos filhos?</p><p>Ou seria também a oportunidade de experimentar situações do cotidiano</p><p>como cuidar de crianças como fazem as mães? Ou exercitar de forma in-</p><p>dependente as atividades da vida prática do contexto cotidiano segundo</p><p>Montessori? Qualquer que seja a orientação pedagógica, a construção do</p><p>gênero varia em cada cultura e tempo.</p><p>Nos tempos em que Alice foi professora do Jardim de Infância e</p><p>registra tais brincadeiras (1929), período da primeira república, há, ainda,</p><p>a ideia do brincar com boneca como típico da maternagem, de intuição</p><p>feminina para ser mãe e cuidar dos filhos. Essa concepção se desconstrói</p><p>com o aparecimento do feminismo e dos estudos sobre gênero, a partir</p><p>dos anos 1970, embora até os tempos atuais, muitos profissionais e mães</p><p>continuem acreditando que o brincar de ser mãe seja inato, que faz parte</p><p>da biologia feminina.</p><p>Há três cenas sobre o uso da boneca pelas meninas. Na primeira,</p><p>de 1935, duas meninas seguram orgulhosamente suas filhas, sentadas no</p><p>banco na área externa, uma com uma boneca maior, e a outra, menor. Na</p><p>segunda foto, a menina, muito concentrada, brinca de preparar a comida</p><p>para a boneca</p><p>que está sentada, utilizando uma chaleira, para entornar o</p><p>líquido sobre uma panela no fogão. ( REIS, v. II, s/d.)</p><p>67 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Meninas com bonecas</p><p>Fazendo comida para boneca</p><p>68A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>Na terceira foto, de 1929, encontram-se duas meninas brincando</p><p>de trocar a roupa de suas “filhinhas”, registrada por Alice como “toilette</p><p>diária de Alicinha.” Há uma expressão de envolvimento, de concentração,</p><p>69 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>de prazer nessas ações, que são lúdicas, que implica em sair do mundo real</p><p>para as várias possibilidades que o brincar oferece às crianças na temática</p><p>de “mãe” e “filha”.</p><p>Trocando roupa da boneca</p><p>70A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>17. Brincadeiras da</p><p>tradição</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1933/35 (11 cm x 17 cm); 1929 (6 cm x 8 cm) e</p><p>1935 (7 cm x 11 cm) - Acervo do MEB.</p><p>Brinquedos, brincadeiras e jogos são fartamente exemplificados</p><p>pela documentação pedagógica da professora por meio de fotografias e</p><p>descrições sobre sua prática.</p><p>Na primeira foto de 1933/1935 notam-se várias crianças brincando</p><p>na área externa de soltar barquinhos de papel no tanque de água, um</p><p>brincar enaltecido nas letras das músicas, dos poemas que remetem ao</p><p>prazer de navegar num barquinho de papel e também a alegria e a habili-</p><p>dade de construí-lo para depois brincar. A segunda foto, de 1929 eviden-</p><p>cia meninos tendo preferência pelo brincar de argola enquanto ao fundo</p><p>a menina brinca de passear com a boneca no carrinho. Enquanto adultos</p><p>pensam na importância desta brincadeira de arremessar argolas para de-</p><p>senvolver a percepção visual e motora, as crianças podem experimentar a</p><p>alegria de jogar argolas nas barracas das festas juninas e também na área</p><p>externa do Jardim de Infância.</p><p>A terceira foto de 1935 mostra meninos e meninas que tentam do-</p><p>minar o fluxo contínuo para baixo e para cima do ioiô, um brinquedo</p><p>da tradição muito popular, que no idioma filipino significa “volta aqui”,</p><p>considerado arma e instrumento de caça naquele país, pois o mito divulga</p><p>que os nativos utilizavam duas pedras no lugar dos discos e uma corda</p><p>de até seis metros, para caçar os animais, o que requer muita habilidade.</p><p>A cultura dos tempos atuais, em nome da “segurança” e “saúde”,</p><p>aprisionam as crianças no interior da sala impedindo que elas usem o</p><p>tempo cotidiano para brincar e aprender na área externa, incluindo brin-</p><p>cadeiras na água e explorar os jogos da tradição infantil como o ioiô,</p><p>argolas ou passear com a boneca, ou até em subir em árvores como era</p><p>comum naqueles tempos.</p><p>71 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Brincando com argolas</p><p>Barquinhos de papel</p><p>72A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>Brincando com ioiô</p><p>73 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>74A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>18. Brincadeiras motoras</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1933-1935 (7 cm x 11 cm) – Acervo do MEB</p><p>A livre movimentação das crianças dentro e fora do edifício</p><p>faz parte da prática pedagógica de Alice. As atividades motoras como</p><p>andar e equilibrar nos muros, descer as escadarias, equilibrar-se em es-</p><p>treitas muretas baixas eram vistas pelos adultos como “ginástica”. Mas</p><p>elas poderiam ser compreendidas pelas crianças como desafios para ver</p><p>quem consegue andar sobre o muro sem cair, em gostosas disputas entre</p><p>amigos.</p><p>As três imagens mostram o desafio de utilizar a área externa para</p><p>brincadeiras coletivas, talvez sob o comando de uma criança ou de um</p><p>adulto.</p><p>Na primeira imagem as crianças se agarram às grades do muro alto</p><p>que circunda o jardim de infância para caminhar sobre ele, em fila. Na</p><p>segunda imagem elas descem as escadas do edifício de braços na cintura,</p><p>o que parece mostrar que há uma regra proposta por alguém. Seria da</p><p>criança ou da professora? Na terceira ima-</p><p>gem, em fila as crianças se equilibram no es-</p><p>treito muro baixo que circunda o gramado</p><p>em frente do edifício, de braços abertos pro-</p><p>curando equilibrar-se para não sair de cima</p><p>do estreito muro. Outra regra da brincadeira?</p><p>Quantos desafios na área externa! Hoje</p><p>há interdição de tudo: subir na grama, subir</p><p>em muros, pendurar-se nas grades, subir e</p><p>descer escadas!</p><p>75 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Su</p><p>bi</p><p>r</p><p>n</p><p>o</p><p>m</p><p>u</p><p>ro</p><p>Andar em fila e equilibrar</p><p>Descer escadas</p><p>76A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>19. Plantar, regar, colher e</p><p>comer</p><p>Álbum de fotografia do jardim de infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1929 (7 cm x 11 cm) Acervo do MEB.</p><p>A sequência de imagens possibilita a identificação dos saberes da</p><p>professora e das crianças em um longo projeto que focaliza interesses das</p><p>crianças sobre plantas. Para a professora tais atividades relacionam-se ao</p><p>centro de interesse, uma influência de Ovíde Decroly, e para as crianças, a</p><p>experiência e o prazer de plantar, regar, colher e comer o milho!</p><p>O Centro de Interesse sobre as plantas gera o envolvimento no plan-</p><p>tio do milho e da alface. A professora valoriza a autonomia e os interesses</p><p>das crianças, a partir de leituras de Decroly e utiliza o conceito de “ex-</p><p>periência” de Dewey, para as vivências das crianças nesse longo projeto,</p><p>que é datado, a exemplo do plantio da alface iniciado em julho e colhido</p><p>em agosto de 1927.</p><p>Essa sequência de imagem revela os saberes de uma professora que</p><p>compreende que a aprendizagem se faz no contexto da vida. As imagens</p><p>de crianças que limpam o canteiro, plantam, colhem o milho e depois fa-</p><p>zem a degustação, de forma prazerosa e lúdica, todas com sorriso nos ros-</p><p>tos, resultam da ação intencional da professora, de saberes prévios que a</p><p>leva a não só planejar, executar, mas fotografar as ações das crianças, em</p><p>um longo processo de acompanhamento do crescimento do milho. Nota-</p><p>se também o crescimento de outro processo – a construção de saberes da</p><p>criança -, que ocorre em contextos de educação informal em que se brinca</p><p>e se aprende como diria na atualidade o sociólogo francês Gilles Brougère</p><p>ou que expressam a cultura de pares, na linguagem de William Corsaro.</p><p>A aprendizagem ocorre neste contexto livre, onde as crianças se-</p><p>guem seus interesses e os ampliam quando desejam como diria também</p><p>77 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Preparar a terra, plantar e regar</p><p>Dewey. Não se trata de estudar o crescimento das plantas vendo livros e</p><p>imagens, ou ouvindo a explicação da professora, mas elas aprendem plan-</p><p>tando o milho, observando seu crescimento e ampliando conhecimento.</p><p>Pode-se dizer que o leargning by doing (aprender fazendo) o conceito</p><p>deweyano que remete para o valor da experiência da criança poderia ser</p><p>a base para essa série de imagens fotografadas. Certamente pode-se com-</p><p>plementar com John Dewey, de que a aprendizagem está conectada com a</p><p>vida e com a experiência vivida por cada criança. O filósofo da educação,</p><p>mesmo pouco compreendido naqueles tempos, fornece a base conceitual</p><p>para a professora pensar na importância da criança experimentar situa-</p><p>ções como as da plantação do milho.</p><p>78A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>Colhendo milho</p><p>79 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Milho crescendo</p><p>80A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>81 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Comendo milho</p><p>82A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>20. Vender e comprar</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1929 (7 cm x 11 cm) – Acervo do MEB</p><p>Com sua letra cursiva Alice escreve: “Cálculo. Fazendo troco”,</p><p>para identificar as imagens. A professora percebe outro aspecto do centro</p><p>de interesse, a possibilidade da emergência no letramento matemático.</p><p>São atividades relacionadas à venda de produtos, nas quais se produz</p><p>dinheiro, organizam-se os itens sobre as mesas, compra-se e vende-se e</p><p>aprende-se durante a experiência.</p><p>A aprendizagem da matemática por meio de situações de compra e</p><p>venda é estratégia adotada por Kilpatrick, discípulo de Dewey. Esse pro-</p><p>fessor de matemática, nos primeiros</p><p>tempos do século XX, traz uma nova</p><p>forma de aprender matemática, pela vivência de projetos de compra e</p><p>venda no contexto da vida cotidiana. Como Alice menciona em entrevis-</p><p>ta em 1990, que não compreendeu muito bem Dewey, pode-se imaginar</p><p>que ela enquadra sua prática muito mais próxima às ideias de projetos</p><p>de Decroly, do centro de interesse das plantas, embora tivesse clareza de</p><p>oferecer às crianças a oportunidade para experimentar tais situações no</p><p>cotidiano, que é, também, um conceito deweyano.</p><p>Bem antes da discussão sobre a importância do contexto das práti-</p><p>cas cotidianas para a emergência do letramento matemático, ou mesmo</p><p>da atual etnomatemática, que tratam a ciência matemática no contexto</p><p>da vida, práticas de simular vendas e compras começam a fazer parte das</p><p>atividades da professora do jardim de infância.</p><p>O cálculo matemático se torna fácil nas atividades da vida cotidia-</p><p>na porque é contextualizado, torna-se significativo para as crianças, que</p><p>compreendem as relações estabelecidas entre os números e os objetos</p><p>vendidos e comprados. Assim, a soma, a divisão e a multiplicação, as ope-</p><p>rações matemáticas que são complexas quando se usa abordagens verbais</p><p>83 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Comprar</p><p>V</p><p>en</p><p>de</p><p>r</p><p>ou fórmulas mecânicas para explicar relações de abstração, tornam-se,</p><p>nos projetos de venda de objetos ou verduras e frutas, vivencias simples,</p><p>que oferecem oportunidades para a construção de saberes por meio da</p><p>experiência da vida cotidiana, de compra e venda.</p><p>Quem não se lembra do estudo do menino, que na feira tem nota</p><p>dez porque vende frutas e verduras, recebe dinheiro e faz troco, e na sala</p><p>de aula tem zero, pois as operações matemáticas se tornam incompreensí-</p><p>veis por ocorrer no formato abstrato e fora do contexto? A intuição dessa</p><p>professora já assinala a compreensão da emergência do letramento mate-</p><p>mático, da possibilidade de aprender matemática de modo mais simples,</p><p>por meio de brincadeiras como a de comprar e vender, tão próxima da</p><p>cultura das crianças.</p><p>84A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>21. Centro de Interesse dos</p><p>animais</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1929 (7 cm x 11 cm). Acervo do MEB.</p><p>Alice registra atividades do centro de Interesse dos animais. Foto-</p><p>grafa momentos em que as crianças representam a fazenda com blocos de</p><p>madeira, carrinho de boi, cavalo, casas dos colonos, maquete da fazenda</p><p>com papelão e papéis e também a experiência de fazer requeijão com leite</p><p>da vaca.</p><p>A fazenda certamente faz parte do imaginário das crianças no iní-</p><p>cio do século, pois embora a cidade de São Paulo se urbanize, as fazendas</p><p>continuam muito próximas das vidas dos familiares das crianças.</p><p>A primeira foto traz a representação da fazenda por meio de blocos</p><p>de madeira, que formam as casas dos colonos. No centro há carros de</p><p>bois, cavalos, vacas e outros animais, que são os objetos que dão suporte</p><p>à brincadeira temática de construir a fazenda com animais. Em um dos</p><p>cantos encontram-se baias para cavalos. Essa montagem provavelmente</p><p>continua na sala para dar prosseguimento ao tema do interesse. O grau</p><p>de complexidade para construir uma estrutura contendo várias partes da</p><p>fazenda como: casas dos colonos, espaços para vacas, cavalos, carro de</p><p>boi exemplifica os saberes dessas crianças acerca do conteúdo da fazenda</p><p>para inseri-las nas suas representações simbólicas.</p><p>Outra foto integra o centro de interesse da vaca e do leite com a pro-</p><p>dução do requeijão. Nela se observam crianças sentadas em torno de uma</p><p>mesa com um caldeirão que ferve o leite para a produção do requeijão.</p><p>Poder-se-ia pensar que a correlação entre a vaca e o requeijão, é também</p><p>entre a pecuária e a comercialização.</p><p>85 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Fazenda com animais</p><p>Fazendo requeijão</p><p>86A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>A representação do tema da vaca e da fazenda aparece, também na</p><p>maquete feita com madeira ou cartonado recortado para conter os per-</p><p>sonagens da fazenda elaborados nas atividades de “Trabalhos Manuais”.</p><p>Essa foto aparece com a seguinte identificação: “Trabalhos manuais (cen-</p><p>tro de interesse: vaca e leite) 1929”.</p><p>Valorizar tais modalidades de representações tridimensionais diver-</p><p>ge da prática tradicional de utilizar apenas o desenho, como forma he-</p><p>gemônica. Nas formas tridimensionais tem-se a oportunidade de utilizar</p><p>87 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>vários conhecimentos espaciais, matemáticos, além da habilidade para</p><p>produzir e organizar os personagens na estrutura construída.</p><p>Decroly dá as bases teóricas para o desenvolvimento do centro de</p><p>interesse no estabelecimento de algumas relações, a partir do interesse da</p><p>criança, por exemplo, entre a vaca na fazenda e a produção do requeijão</p><p>vendido nas lojas utilizando trabalhos manuais para a elaboração dos</p><p>personagens e maquetes. Embora tenha inspiração em Decroly, não se</p><p>trata do uso que se faz no ensino primário daquele tempo de estabelecer</p><p>relações sistemáticas do tema com todas as áreas curriculares.</p><p>Maquete com vacas</p><p>88A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>22. Os animais, as aves</p><p>e os peixes</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de</p><p>Alice Meirelles Reis</p><p>1933-1935 (7 cm x 11 cm) - coelho</p><p>1929 (6 cm x 8 cm) - passarinho e peixe</p><p>Coelhos, pássaros na gaiola e peixinhos no aquário apa-</p><p>recem nas imagens registradas por Alice, nas quais se nota como</p><p>as crianças se encantam, com elas brincam, conversam, acariciam</p><p>e sentem a alegria de observar esses pequenos</p><p>seres vivos. Quantas histórias as crianças não</p><p>trazem de seu cotidiano para partilhar com os</p><p>amigos do grupo, uma vez que naquele tempo as</p><p>crianças moram em casas com quintais e prova-</p><p>velmente convivem com animais como cães, ga-</p><p>tos, passarinhos, que potencializa a comunica-</p><p>ção entre elas. Os animais são importantes para</p><p>proporcionar relações afetivas e criar espaços de</p><p>socialização entre as crianças. Em várias cultu-</p><p>ras, os animais, aves e peixes fazem parte do co-</p><p>tidiano escolar das crianças, que se encarregam</p><p>de sua alimentação e limpeza dos espaços de</p><p>circulação desses pequenos seres, dando a opor-</p><p>tunidade para que elas assumam responsabili-</p><p>dades de cuidado com os mesmos. Infelizmente</p><p>em municípios como São Paulo, há proibição de</p><p>animais nas escolas, com argumento de que são</p><p>transmissores de doenças.</p><p>Se</p><p>gu</p><p>ra</p><p>r</p><p>o</p><p>co</p><p>el</p><p>h</p><p>o</p><p>89 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>B</p><p>ri</p><p>n</p><p>ca</p><p>n</p><p>do</p><p>c</p><p>om</p><p>c</p><p>oe</p><p>lh</p><p>o</p><p>90A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>Peixe no aquário</p><p>91 Pr</p><p>át</p><p>ic</p><p>as</p><p>P</p><p>ed</p><p>ag</p><p>óg</p><p>ic</p><p>as</p><p>Passarinho na gaiola</p><p>92A</p><p>lic</p><p>e</p><p>M</p><p>ei</p><p>re</p><p>lle</p><p>s</p><p>Re</p><p>is</p><p>23. Alice Meirelles Reis</p><p>com 90 anos</p><p>(07/08/1900 a 17/10/1993)</p><p>Álbum de fotografia do Jardim de Infância de Alice Meirelles Reis</p><p>1923 a 1927 (assinatura)</p><p>1990 (12 cm x 13xm) – foto durante entrevista no LABRIMP.</p><p>Acervo do MEB</p><p>Em 1990, três anos antes de seu falecimento Alice Meirelles Reis</p><p>visita, a nosso convite, o LABRIMP- Laboratório de Brinquedos e Mate-</p><p>riais Pedagógicos e, na ocasião ela foi fotografada e entrevistada. Desde a</p><p>criação do LABRIMP, em 1984, o museu do brinquedo tem um espaço no</p><p>interior do laboratório para guardar o acervo doado pela professora. Em</p><p>agosto de 1999, com nova denominação - MEB – Museu da Educação e</p><p>do Brinquedo ganha espaço próprio dando destaque ao acervo fotográfico</p><p>da professora. Assim, cumpre-se a promessa feita por Tizuko Morchida</p><p>Kishimoto, em 1982, de criar um museu para acondicionar o rico material.</p><p>A assinatura, que é também a identidade e a marca pessoal da professora,</p><p>encontra-se no Álbum de 1923-1927.</p><p>Para finalizar, algumas indagações: o que teria levado Alice a ser</p><p>a única professora do Jardim de Infância a se envolver no processo de</p><p>mudanças de práticas pedagógicas? Quais seriam as razões dessas mu-</p><p>danças não terem tido o poder de se institucionalizar e alterar o rumo da</p><p>educação infantil? Há muitas contradições nos primórdios</p>da educação 
infantil pública em São Paulo, fruto de condições histórico culturais e 
políticas públicas que precisam ser desveladas pelos pesquisadores. 
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