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Titília e Demonão Paulo Rezzutti

Livro que reúne mensagens de D. Pedro I à marquesa de Santos e análise sobre a vida amorosa na corte imperial. Contém prefácio, edição das cartas (1823–1828), anexos, cronologia, notas, bibliografia e índices.

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Rose Bomfim

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<p>2 4 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 4 12 4 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 4 12 4 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 4 1</p><p>A história não contada</p><p>A vida amorosa na corte imperial:</p><p>mensagens de d. Pedro I à marquesa de Santos</p><p>Paulo Rezzutti</p><p>Copyright © 2011 Paulo Marcelo Rezzutti</p><p>© 2019 Casa da Palavra/LeYa</p><p>Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610, de 19.02.1998.</p><p>É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora e do autor.</p><p>Editor executivo</p><p>Rodrigo de Almeida e Maria Cristina Antonio Jeronimo</p><p>Gerência de produção</p><p>Maria Cristina Antonio Jeronimo</p><p>Revisão</p><p>Alvanísio Damasceno</p><p>Indexação</p><p>Jaciara Lima</p><p>Capa e projeto gráfico</p><p>Victor Burton</p><p>Diagramação</p><p>Filigrana</p><p>Imagens/créditos de capa</p><p>Retrato de D. Pedro I por Benedito Calixto, 1902. Museu Paulista da USP.</p><p>Retrato da Marquesa de Santos – atribuído a Francisco Pero do Amaral. Museu Histórico</p><p>Nacional-Ibram.</p><p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>Angélica Ilacqua CRB-8/7057</p><p>R22t</p><p>Rezzutti, Paulo</p><p>Titília e o Demonão: a vida amorosa na corte imperial: mensagens de d. Pedro I à marquesa</p><p>de Santos / Paulo Rezzutti; prefácio de Maria Celi Chaves Vasconcelos. – São Paulo: LeYa, 2019.</p><p>240 p.: il. (A história não contada)</p><p>Bibliografia</p><p>ISBN 978-85-7734-678-3</p><p>1. Brasil - História - Império, 1822-1889 2. Pedro I, Imperador do Brasil, 1798-1834 - Cor-</p><p>respondência 2. Santos, Domitila de Castro Canto e Melo, Marquesa de, 1797-1867 - Corres-</p><p>pondência I. Título II. Vasconcelos, Maria Celi Chaves</p><p>19-0747 CDD 981</p><p>CDU 94(81)</p><p>Todos os direitos reservados à</p><p>Editora Casa da Palavra</p><p>Avenida Eng. Armando de Arruda Pereira, 2.937</p><p>Bloco B - Cj 302/303 B - Jabaquara</p><p>04309-011 - São Paulo - SP</p><p>www.leya.com.br</p><p>A todos aqueles</p><p>que já tiveram um</p><p>amor impossível.</p><p>Mas outras missivas de mesma origem e destino, das quais noventa e quatro</p><p>caíram do balcão de Chadenat, em Paris, nas unhas de um livreiro alemão,</p><p>dormem felizmente ainda escapas do cautério panfletário que chamuscou as</p><p>outras. Vindas a lume com o mesmo rigor de cópia do gramático e romancista</p><p>que se deu ao trabalho e paciência, faça-se-lhes a caridade de não consertar</p><p>a sintaxe, nem emendar a ortografia e nem cortar os destemperos do assunto</p><p>ou da linguagem. Nada de emendas ou de ortopedismos, e principalmente</p><p>nenhuma supressão. De certos animais tudo se aproveita. Não são mais úteis</p><p>os miolos ou o sangue da rés que os ossos ou o fel. Nos segredos da alma que</p><p>não se resguardou estão as chaves de sua decifração. Decifrar é compreender.</p><p>RANGEL, Alberto. Dom Pedro I e a marquesa de Santos, p. 50.</p><p>Sumário</p><p>Prefácio 11</p><p>Nada é por acaso 17</p><p>Os amantes 23</p><p>Cartas</p><p>Critérios utilizados 61</p><p>1823 65</p><p>1824 73</p><p>1825 87</p><p>1826 117</p><p>1827 133</p><p>1828 165</p><p>Anexos 179</p><p>Cronologia 203</p><p>Notas 207</p><p>Bibliografia 215</p><p>Índice onomástico 221</p><p>Índice de localidades 227</p><p>Índice de imagens 233</p><p>Agradecimentos 237</p><p>1 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O P r E f á c I O 1 11 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O P r E f á c I O 1 11 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O P r E f á c I O 1 1</p><p>Prefácio</p><p>Meu amor [...] amo-a, jamais deixarei de amá-la, ainda que mecê vá para o inferno eu</p><p>haveria vê-la, e pela minha parte achará sempre constância à prova de sombra, assim</p><p>eu achasse da sua. [...] O Demonão1</p><p>Os romances reais, mais especificamente os que contam histórias de reis e suas</p><p>concubinas, têm tido, ao longo dos tempos, imenso apelo popular. São histórias</p><p>que povoam a imaginação de milhares de “súditos”, da antiguidade à contempora-</p><p>neidade, sendo denominados até como “romances do século”, alcunha imputada,</p><p>por exemplo, aos célebres amores entre Wallis Simpson e o rei Eduardo VIII, bem</p><p>como, recentemente, ao furor causado por seu descendente príncipe Charles, ao</p><p>trocar a bela Diana, por Camilla Parker Bowles.2 Mas que talento fez com que mu-</p><p>lheres plebeias nascidas tão longe da riqueza e do luxo dos palácios reais tivessem</p><p>tal poder para envolver homens destinados a governar, a ponto de fazê-los correr</p><p>sérios riscos de colocar tudo a perder por uma paixão?</p><p>Provavelmente, em cada uma delas, para eles, havia um encantamento mági-</p><p>co capaz de elevá-las a um grau de importância e de influência tão grandes, junto</p><p>ao monarca, que deixavam de ser assunto privado, tratado nas conversas de salão</p><p>por toda a corte, e passavam a ser assunto de Estado, descrito em cartas diplomá-</p><p>ticas que cruzavam fronteiras e oceanos. Além disso, os casos amorosos dos reis</p><p>ocupavam boa parte do serviço secreto dos países, seja com agentes infiltrados</p><p>junto às concubinas,3 seja com a interceptação de cartas e outros documentos tro-</p><p>1 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O P r E f á c I O 1 3</p><p>cados entre os amantes, em uma mistura interessante de política, sexo e paixão.</p><p>Contudo, desiludindo e contribuindo com o desespero imaginativo de todas as</p><p>pessoas que possuem alguma latência de voyeurismo, esses papéis dificilmente fo-</p><p>ram preservados, considerando o seu valor para diferentes usos indevidos.</p><p>A obra Titília e o Demonão, de Paulo Rezzutti, para o nosso deleite reeditada,</p><p>traz uma dessas histórias de rei, concubina, amante, sexo e escândalo. Tudo isso</p><p>impregnado em cartas trocadas, roubadas, escondidas, reaparecidas, vendidas,</p><p>descobertas, reunidas, relidas... escritas, originalmente, por um imperador jovial e</p><p>enamorado, que tem nelas o principal elo de comunicação com a amante nos mo-</p><p>mentos em que estão separados. Contém, ainda, para a exacerbação do pensamen-</p><p>to que supera a arte na habilidade de recriação, todos os elementos que podem ser</p><p>acrescidos às histórias que se passam nas proximidades com os trópicos: o cenário</p><p>é o Rio de Janeiro ainda com a arquitetura colonial, sob o sol escaldante e a chu-</p><p>va incessante a cair sobre as águas azuis de uma baía usada com fins medicinais,</p><p>emoldurada por florestas de múltiplos tons de verde e seus habitantes, produtores</p><p>de uma sinfonia natural tocada da manhã à noite. É nesse conjunto difícil de ser</p><p>recuperado apenas pela imaginação que, de forma “brejeira” (muito diferente de</p><p>Leopoldina, a esposa alemã), Domitila de Castro Canto e Melo vai conquistar (e</p><p>arrebatar de paixão) o imperador, após forjar um primeiro encontro com d. Pedro</p><p>I, aproveitando-se do conhecimento que possuía com membros de sua comitiva,</p><p>durante a passagem por São Paulo, quando o monarca “independentizou” o Brasil.</p><p>Luiz Norton,4 ao narrar os acontecimentos que antecederam a separação do</p><p>Brasil de Portugal, tendo a imperatriz Leopoldina como protagonista do que ele</p><p>chama de “Dona Leopoldina e a independência”, atribui à carta da esposa de d. Pe-</p><p>dro I um papel crucial no episódio ocorrido na planície do Ipiranga, que mudou</p><p>para sempre o destino deste país. Segundo esse autor, o imperador, após “libertar</p><p>o Brasil de Portugal”, regressou ao Rio de Janeiro no dia 15 de setembro de 1822</p><p>e, na noite seguinte, foi a um espetáculo de gala com a imperatriz, ocasião em que</p><p>ouviram, em “delirante apoteose”, o Hino da Independência. No entanto, o mo-</p><p>narca já não era o mesmo; havia ocorrido algo durante aquela campanha militar</p><p>que mudaria para sempre não apenas o destino das duas nações, mas a vida pes-</p><p>soal de Pedro e Leopoldina. Ele acabara de conhecer Domitila de Castro Canto e</p><p>Melo, a mulher que, a partir do livro de Paulo Rezzutti Titília e o Demonão, temos</p><p>a oportunidade de ver mais intimamente, ainda que pela pena de seu amante, na</p><p>exemplar demonstração de uma mulher silenciada, como infere Michelle Perrot,5</p><p>revelada por um homem a partir das interpretações de seus pensamentos e de</p><p>suas vontades.</p><p>1 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O P r E f á c I O 1 3</p><p>Benedetta Craveri6 diz que as mulheres, na história, quando tiveram poder,</p><p>não o assumiram em seu próprio nome, mas sempre devido a um vazio ou a uma</p><p>debilidade masculina e, em suas engrenagens, para não serem “trituradas” pelos</p><p>homens, precisaram</p><p>a casa</p><p>apedrejada e seu cunhado Carlos Oliva, casado com sua irmã Ana Cândida, foi</p><p>baleado na rua.</p><p>O vértice mais fraco do triângulo amoroso partia-se. Ainda no Sul, ao sa-</p><p>ber da morte da esposa, d. Pedro escreveu um poema46 lamentando sua perda.</p><p>Em um trecho, diz: “Ela me amava com o maior amor / Eu nela admirava a sua</p><p>honestidade”. Ele tinha certeza que d. Leopoldina o amava, porém ele tinha por</p><p>ela somente admiração. Admirava a mulher que, além de ser mãe de seus filhos,</p><p>4 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 4 5</p><p>havia embarcado com ele na aventura da Independência do Brasil e no liberalismo</p><p>político, apesar de ter sido criada dentro dos rigores do absolutismo austríaco. D.</p><p>Leopoldina era muito mais culta, educada e preparada que d. Pedro. Além de tro-</p><p>car correspondência com naturalistas na Europa e receber visitantes estrangeiros</p><p>que aportavam no Brasil, servira de intérprete ao marido diversas vezes junto aos</p><p>militares alemães que vieram ingressar nas tropas de mercenários estrangeiros.</p><p>Seu importante papel na Independência e junto às cortes europeias no reconheci-</p><p>mento do novo Estado americano é inegável. Esse vértice faria falta ao imperador</p><p>em 1827, durante a desacreditada Guerra da Cisplatina, que se transformava em</p><p>um sorvedouro de dinheiro e almas.</p><p>Em 3 de maio, durante o discurso de abertura da Assembleia, políticos e</p><p>cortesãos notaram a comoção do imperador ao falar sobre a morte da esposa.</p><p>Alguns propagariam a lenda de que no dia 24, durante a comemoração do ani-</p><p>versário de Isabel Maria no Palácio de São Cristóvão, o imperador desapareceu</p><p>subitamente. Domitila, indo procurá-lo, o teria encontrado chorando abraçado a</p><p>um retrato da esposa morta. Boato ou verdade, o barão de Mareschal, em despa-</p><p>cho para Viena, comentaria sobre o arrefecimento da relação dos amantes desde</p><p>o início de junho.47 No dia 16, para surpresa do diplomata, d. Pedro pediu-lhe</p><p>ajuda para que conseguisse, sob as bênçãos do imperador Francisco I, avô de</p><p>seus filhos, uma noiva para ele na Europa. Mareschal preparou um dossiê para</p><p>d. Pedro, listando algumas condições para que a busca de uma nova mãe para as</p><p>crianças pudesse ter sucesso, entre elas o afastamento de Domitila e de sua filha,</p><p>Isabel Maria, da corte. D. Pedro não concordou com esses dois pontos: não vi-</p><p>veria sem a filha por perto e, quanto à marquesa de Santos, ela estava no sétimo</p><p>mês de gestação. Ele recusava-se a colocar a vida dela e da criança que esperava</p><p>em risco.</p><p>No dia 23, mensageiros partiram para Viena levando documentos e cartas</p><p>para Francisco I a fim de que se arranjasse uma nova esposa para d. Pedro. Em</p><p>13 de agosto, Domitila deu à luz Maria Isabel, reconhecida pelo imperador no</p><p>ato de batismo. Uma semana depois, o marquês de Barbacena viajava para a</p><p>Europa, para tratar com Inglaterra, França e Áustria o apoio na questão sucessó-</p><p>ria do trono português. Na bagagem, levava presentes em diamantes e dinheiro</p><p>para a corte austríaca e para a futura noiva do imperador. D. Pedro, sua filha d.</p><p>Maria da Glória e diversos cortesãos foram à Glória, no dia 19, assistir à quei-</p><p>ma de fogos em homenagem a Nossa Senhora da Glória, que havia sido adiada</p><p>devido ao mau tempo. D. Pedro dormiu na casa da irmã de Domitila, Maria</p><p>Benedita, baronesa de Sorocaba, que morava com a família nas proximidades da</p><p>4 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 4 7</p><p>igreja, e, no dia seguinte, partiu com seu administrador, o barão de Sorocaba,</p><p>para a fazenda de Santa Cruz. Três dias depois, o destino de Domitila sofreria</p><p>mais um revés. Voltando de carruagem para casa, durante a noite, Maria Bene-</p><p>dita teve seu veículo alvejado a tiros. Pedindo segredo aos seus criados a respeito</p><p>do ocorrido, despachou um mensageiro a Santa Cruz para informar ao marido</p><p>sobre a tentativa de assassinato. Na carta, a baronesa dizia ter sido vítima de uma</p><p>emboscada, e que um soldado do regimento de São Paulo e um dos irmãos dela</p><p>eram os culpados.</p><p>Ciente do ocorrido, e levado a crer que Domitila, movida pelos ciúmes</p><p>que tinha da irmã, estivesse por trás do crime, d. Pedro, nos rompantes que</p><p>lhe eram peculiares, retornou à corte, e no dia 26 uma torrente de ordens cho-</p><p>veu como flechas, tendo o palacete da marquesa como alvo. Além de demitir</p><p>o intendente da polícia da corte, amigo de Domitila, retirava a recém-nascida</p><p>Maria Isabel e a duquesa de Goiás da mãe, levando-as para morar com ele na</p><p>Quinta da Boa Vista. Seu secretário particular, Francisco Gomes, o Chalaça,</p><p>ordenou que a marquesa de Santos embarcasse para a Europa (anexo 2, p. 183)</p><p>e que seus irmãos a acompanhassem (anexo 3, p. 184). Quem serviu de mensa-</p><p>geiro foi o bispo de São Paulo, que se encontrava na ocasião no Rio de Janeiro.</p><p>Amigo dos Castros do Canto e Melo desde a época em que moravam em São</p><p>Paulo (carta 56, p. 137), ele intercederia junto ao imperador para que Domitila</p><p>pudesse aguardar o término do resguardo de parturiente. Dentro de quarenta</p><p>dias, afirmava, ela partiria.</p><p>Embora não haja, até hoje, surgido prova concreta alguma da participação</p><p>de Domitila e dos irmãos na tentativa de assassinato da baronesa de Sorocaba, d.</p><p>Pedro continuaria expurgando a família para longe do Rio. No começo de setem-</p><p>bro, ordenou o embarque para o Recife do 5º Batalhão de Caçadores de Linha,</p><p>estacionado em São Cristóvão. Esse batalhão, formado em grande parte por mo-</p><p>ços de famílias paulistas, que tinham na marquesa praticamente uma madrinha,</p><p>era comandado pelo tenente Carlos Maria Oliva, cunhado de Domitila. Barrando</p><p>a retaguarda dessa tropa, seguiu um batalhão de mercenários alemães.48 Pedro e</p><p>José, irmãos de Domitila, receberam ordens de sair do Rio de Janeiro e juntar-se</p><p>às tropas na Cisplatina.</p><p>Porém, em algum momento entre o início de setembro e o dia 10, a tormen-</p><p>ta imperial abrandou. No dia 12, Domitila compareceu ao teatro. Ante o mal-es-</p><p>tar gerado entre os cortesãos, sem saber se a cumprimentavam ou não, d. Pedro</p><p>desfez o clima, acenando de seu camarote para ela. O barão de Mareschal, inco-</p><p>modado com tal gesto, aplicou pressão ao governo austríaco para que arranjas-</p><p>4 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 4 7</p><p>sem logo uma noiva para o monarca. Enquanto isso não acontecia, o imperador</p><p>colocava não só a corte como a Europa em estado de choque. No seu aniversário,</p><p>em 12 de outubro, concedeu a João de Castro, irmão mais velho de Domitila, o</p><p>título de visconde de Castro, que pertencera ao pai deles, e nobilitou os outros</p><p>irmãos e diversos parentes com a Ordem do Cruzeiro, alguns como dignitários,</p><p>outros como oficiais. Em conversa com Mareschal, em dezembro, d. Pedro justi-</p><p>ficou as nomeações dos parentes da marquesa como uma forma de indenizá-los</p><p>por terem sido acusados injustamente na tentativa de assassinato da baronesa de</p><p>Sorocaba.49 Realmente algo deve ter desfeito o mal-entendido entre as irmãs, pois</p><p>Maria Benedita teria um lugar reservado para o banquete do quinto aniversário</p><p>da duquesa de Goiás, em 1829, conforme documento que atualmente se encontra</p><p>no Museu Imperial.50</p><p>Essas mercês aos parentes de Domitila iriam custar caro ao imperador.</p><p>Para não piorar a situação, Francisco Gomes da Silva, a mando de d. Pedro, des-</p><p>pachou no início de janeiro de 1828 uma carta51 para o marquês de Barbacena,</p><p>mandando-o mentir se questionado na Europa sobre as nomeações dos Castro</p><p>do Canto e Melo e dos Toledo Ribas. Mas esses escrúpulos de nada adiantariam.</p><p>Antes mesmo do despacho seguinte do diplomata austríaco, d. Pedro recebia,</p><p>pelo embaixador britânico sir Robert Gordon, as primeiras notícias referentes</p><p>aos problemas de se conseguir uma noiva para ele. Jornais europeus começa-</p><p>vam a publicar a respeito de seus amores com a marquesa de Santos, e alguns</p><p>até dariam, mais tarde, a notícia de que eles haviam se casado. Desesperado,</p><p>em novembro, o imperador perguntava diversas vezes sobre a menstruação da</p><p>amante. Tudo o que ele não precisava naquele momento era de mais um bastar-</p><p>do (carta 72,</p><p>p. 155).</p><p>De setembro de 1827 até o retorno do marquês de Barbacena à corte, em</p><p>maio de 1828, o relacionamento entre d. Pedro e Domitila voltou ao ritmo do iní-</p><p>cio, tudo escondido para que ninguém percebesse que eles efetivamente estavam</p><p>juntos outra vez. Ele até mandou-a fazer uma porta (carta 66, p. 148) para que con-</p><p>seguisse entrar na casa dela sem ser visto. A chácara de Domitila, com o acréscimo</p><p>de outros terrenos, acabou fazendo divisa com a Quinta da Boa Vista, e no muro</p><p>que separava as propriedades foi de fato aberta uma passagem. Em outras cartas,</p><p>eles combinavam a respeito de quem iria quando ao teatro para evitar serem vistos</p><p>juntos (carta 76, p. 161). Porém, após se encontrar com Barbacena e ouvir de viva</p><p>voz as notícias a respeito da sua reputação na Europa, transtornando qualquer</p><p>tipo de negociação de casamento, d. Pedro escreveu para Domitila em 13 de maio</p><p>de 182852 informando que ela deveria deixar a corte. Nas cartas seguintes, cobra-</p><p>4 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 4 9</p><p>ria várias vezes esse exílio, afirmando que deveria sair antes de Barbacena partir</p><p>novamente para a Europa, em julho, para que os que fossem no navio pudessem</p><p>divulgar que ela já não se encontrava mais no Rio de Janeiro. Em 23 de maio, d.</p><p>Pedro partiu para a fazenda do irmão de Barbacena, o visconde de Gericinó, que</p><p>ajudaria Domitila nos preparativos de sua viagem. O imperador retornou para a</p><p>corte no dia 25, estrategicamente livrando-se de duas comemorações: o casamen-</p><p>to de Francisca, filha de Domitila, e o aniversário de Isabel Maria, realizados no</p><p>mesmo dia, 24.</p><p>Domitila, muito a contragosto e bastante irritada (anexo 5, p. 185), porém</p><p>embalada pela promessa de rápido retorno que lhe alimentava d. Pedro (carta 95,</p><p>p. 176), partiu da cidade do Rio de Janeiro em 27 de junho. Por conta de uma</p><p>indisposição, hospedou-se por quinze dias na fazenda de Gericinó (anexo 8, p.</p><p>187). Barbacena efetivamente partiu para a Europa no início de julho. Além de</p><p>prosseguir na busca de uma nova noiva para d. Pedro, ele tinha a missão de en-</p><p>tregar a primogênita do imperador, d. Maria da Glória, para ser educada pelo avô</p><p>em Viena, até ter idade para assumir tanto o casamento com o seu tio, d. Miguel,</p><p>como o trono de Portugal.</p><p>Na primeira quinzena de agosto, Domitila chegava a São Paulo. Antônio Ma-</p><p>riano de Azevedo Marques, o “Mestrinho”, advogado paulista, assim deixou regis-</p><p>trado o acontecimento em carta para seu irmão:</p><p>A marquesa chegou na tarde de 15, com pouco acompanhamento, dizem que por</p><p>querer vir a galope, e, por isso, ficaram atrás os do encontro.</p><p>O Carmo e Santa Teresa repicaram ao passar ela por essas igrejas, dizem que</p><p>por pedido do bispo, que foi esperá-la em casa e é quem a hospedou, dizem que</p><p>bem mal acerca dos arranjos a ponto de não ter ela bolinhos para virem com o</p><p>chá, vendo-se na necessidade de dar satisfação às visitas.</p><p>Ela muito tratável, muito queixosa de suas patrícias pela pouca amizade que</p><p>lhe têm mostrado. Veio também a filha e José de Castro, e diz que está mui pren-</p><p>dada... Hoje grande baile do Xico de Castro, em obséquio à irmã.53</p><p>Em 7 de setembro, Domitila, em vestido de corte, aturdindo os matutos</p><p>paulistas com as sua joias, deu um baile em homenagem à Independência do</p><p>Brasil. No mês seguinte, em 25 de outubro, Maria Isabel, a filha de um ano e dois</p><p>meses que havia sido tomada por d. Pedro, morreu de meningite e foi enterra-</p><p>da na igreja de São Francisco Xavier, no Engenho Velho. Farta de seu degredo,</p><p>Domitila escreveu para d. Pedro, comunicando que partiria de volta para o Rio</p><p>4 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 4 9</p><p>de Janeiro em 23 de dezembro (anexo 9, p. 188). Se nessa mensagem a marquesa</p><p>queixava-se da falta de cartas do amante, estas não se fizeram esperar. Foi o início</p><p>de uma correspondência ríspida (carta 96, p. 177), em que o imperador exigia</p><p>ser obedecido, e para isso não poupava nem a mãe de Domitila, que receberia a</p><p>seguinte advertência:</p><p>Uma pessoa que saiu do nada por meu respeito devia, por um reconhecimento</p><p>eterno, fazer o que eu lhe tenho até pedido. [...] seu fim é inteiramente opor-se ao</p><p>meu casamento [...], mas eu lhe declaro, mui expressamente, que, se a marquesa</p><p>se apresentar no Rio sem ordem minha, eu suspendo-lhe as mesadas, a ela e a toda</p><p>aquela pessoa de sua família que influi para este sucesso, bem como a demito de</p><p>dama e privo de entrarem no Paço seus parentes.54</p><p>Aflita, dona Escolástica, respondeu:</p><p>Com a maior mágoa li a carta de V. Majde. que me pôs na mais grande perturba-</p><p>ção por ver o quanto V. Majde. se aflige com o recebimento da carta da Marquesa</p><p>[...]. Não é de supor, Senhor, que ela dê um passo tão inconsiderado [...] por mim</p><p>está prevenida, muito de antemão, para não dar um só passo sem positiva deter-</p><p>minação de V.M.I. [...] Sinto meu senhor, e sinto n’Alma, que uma produção de</p><p>meu desgraçado ventre viesse ao mundo para dar motivos de inquietações a V.</p><p>Majde. (anexo 10, p. 189).</p><p>O Chalaça mostraria ao barão de Mareschal tanto as cartas de Domitila quan-</p><p>to as respostas de d. Pedro, como que para informar ao bisbilhoteiro-mor da corte</p><p>sobre a resolução do monarca em levar uma nova vida e esperar pacientemente</p><p>pela nova esposa.</p><p>Enquanto isso, o marquês de Barbacena chegava a Gibraltar, no começo de</p><p>setembro. Lá ficou sabendo do golpe dado por d. Miguel em Portugal, o que fez</p><p>com que mudasse seus planos. Em vez de entregar d. Maria da Glória para a co-</p><p>missão austríaca que a esperava em Gênova, partiu para a Inglaterra. Desde o ano</p><p>anterior o marquês já desconfiava das intenções da Áustria em conseguir uma</p><p>nova esposa para o soberano brasileiro. Se d. Pedro se casasse novamente e tivesse</p><p>outros filhos homens, no caso da morte do príncipe herdeiro, não seriam as filhas</p><p>de Leopoldina a herdar o trono brasileiro, conforme a Constituição imperial. Com</p><p>a traição do irmão, também d. Pedro passaria a suspeitar do apoio da absolutista</p><p>Áustria nos negócios de Portugal. Assim, escreveu ao sogro, para despistar, infor-</p><p>5 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 1</p><p>mando que os negócios portugueses eram agora mais importantes que os projetos</p><p>de um segundo casamento.</p><p>Barbacena ainda passaria por outros constrangimentos na Europa, mas não</p><p>envolvendo casamento, e sim paternidade. Clemência Saisset e o marido, comer-</p><p>ciantes da rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, embarcaram em dezembro para a</p><p>França às pressas, já que ela estava grávida de um filho de d. Pedro (anexo 17, p.</p><p>199). Esse casal inescrupuloso haveria de tentar sangrar os cofres particulares do</p><p>imperador até as vésperas da morte dele.55</p><p>Diversas minutas encontradas no Arquivo Histórico do Museu Imperial mos-</p><p>tram que d. Pedro, abatido pelas recusas, estava indeciso em continuar buscando</p><p>uma noiva. Após tomar conhecimento do “não” de uma filha do rei da Dinamarca,</p><p>que se somaria a sete outras negativas, inclusive à de uma princesa que nem havia</p><p>sido pedida, d. Pedro autorizou o retorno de Domitila para a corte e, em 20 de abril</p><p>de 1829, partiu para a fazenda de Santa Cruz para esperá-la no caminho. No dia</p><p>29 ela entraria novamente em seu palacete de São Cristóvão. Seu apogeu deu-se no</p><p>dia do aniversário da duquesa de Goiás, duplamente comemorado: d. Pedro ofe-</p><p>receu uma recepção no Palácio de São Cristóvão, Domitila preparou um banquete</p><p>para sessenta pessoas, ao qual o imperador compareceu.</p><p>Enquanto d. Pedro e Domitila reatavam publicamente, na Europa Barbace-</p><p>na continuava com suas negociações para encontrar uma noiva para o impera-</p><p>dor. Em 30 de maio finalmente assinaria o contrato de casamento com Amélia de</p><p>Leuchtenberg, princesa bávara, neta da imperatriz Josefina, primeira esposa de</p><p>Napoleão. No início de julho, chegavam ao Rio de Janeiro as primeiras notícias</p><p>a respeito do noivado e um retrato da bela Amélia, que reunia três das quatro</p><p>qualidades exigidas por d. Pedro para a nova esposa: virtude, cultura e beleza.</p><p>Após tantas recusas de princesas</p><p>de casas reinantes, nascimento, a quarta exigên-</p><p>cia, passara a ser secundário. Com a chegada do contrato de casamento, no dia 24,</p><p>intempestivamente d. Pedro mudou-se para a residência de Botafogo, afastando-se</p><p>da vizinhança de Domitila. Assim iniciava medidas necessárias para o banimento</p><p>definitivo da amante da corte.</p><p>Mas, dessa vez, a marquesa resistiria (anexos 14 e 15, p. 195). Fincou o pé:</p><p>já havia sido exilada uma vez e, depois de se acostumar com a vida na corte, ser</p><p>amada publicamente pelo imperador, ter as filhas reconhecidas por ele, São Paulo</p><p>não mais lhe bastava.</p><p>5 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 1</p><p>9. Gravura representando o pedido de casamento feito pelo marquês de Barbacena em nome</p><p>de d. Pedro I. Da esquerda para a direita: Barbacena, o retrato de Pedro I ao fundo, Augusto</p><p>de Leuchtenberg, irmão da princesa Amélia, Augusta, mãe deles, e Amélia por último.</p><p>10. D. Amélia de Leuchtenberg, imperatriz do Brasil.</p><p>5 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 3</p><p>Pensava conhecer o homem com que tivera relações durante sete anos e a</p><p>quem dera quatro filhos. D. Pedro, porém, estava enfeitiçado pela imagem da</p><p>jovem virgem bávara de dezessete anos, cujo retrato levava consigo,56 e já tinha</p><p>tomado a resolução de se livrar da amante. A luta que se seguiu foi entre titãs. O</p><p>imperador chegou a enviar até o ministro José Clemente Pereira para negociar</p><p>a retirada de Domitila, transformando o fim do relacionamento em negócio de</p><p>Estado. Nem mesmo apelando para a intercessão e o bom senso dos parentes d.</p><p>Pedro conseguiu demovê-la. Por fim, retirou seus criados e escravos da moradia</p><p>da antiga favorita, e a marquesa, no palacete vazio, foi intimada oficialmente pelo</p><p>ajudante de ordens do imperador para que se retirasse da corte em uma semana.</p><p>Em meados de agosto, exaurida, Domitila capitulou. Concordou em vender suas</p><p>propriedades para o imperador e retirar-se com a família para São Paulo (anexo</p><p>16, p. 197). No dia 28, o Diário Fluminense dava conta de sua partida na véspera.</p><p>Seus móveis foram despachados em 6 de setembro para Santos, a bordo do na-</p><p>vio União Feliz, nome irônico para um fim tão amargo. Porém, além da família,</p><p>alguém mais a acompanhava a São Paulo. Domitila esperava o último filho que</p><p>teria de d. Pedro.</p><p>Assim como d. Leopoldina doze anos antes, a princesa Amélia desembarcaria</p><p>no Arsenal da Marinha, no Rio de Janeiro, em 16 de outubro, casando-se com d.</p><p>Pedro no dia seguinte. Vinha acompanhada do irmão, Augusto, futuro genro do</p><p>imperador. A nova esposa trazia consigo, além do enxoval, brinquedos para os</p><p>filhos de d. Leopoldina e uma carta de sua mãe, a duquesa Augusta de Leuchten-</p><p>berg, para d. Pedro, datada de 3 de agosto, onde se lê:</p><p>[...] meu filho, porque ouso, agora, vos dar este doce nome, afastai dela o que lhe</p><p>possa dar a ideia de uma falta passada, a fim de não aterrorizar no futuro esse</p><p>jovem coração, que é a própria pureza.57</p><p>Em novembro, o que poderia “dar a ideia de uma falta passada”, a pequenina</p><p>duquesa de Goiás, com apenas cinco anos, embarcou para a Europa para estudar</p><p>no Sacré Coeur, em Paris. Domitila nunca mais veria essa filha.</p><p>5 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 3</p><p>11. Isabel Maria de Alcântara Brasileira, duquesa de Goiás.</p><p>Isabel Maria casou-se mais tarde, sob o patrocínio de d. Amélia, na nobreza</p><p>alemã, contrariando a vontade de d. Pedro, que era vê-la freira.58 Graças à interces-</p><p>são da ex-imperatriz, a menina conseguiu um bom dote, tendo contribuído para a</p><p>“vaquinha”, além da madrasta, seus meios-irmãos d. Pedro II e d. Maria II, rainha de</p><p>Portugal. O sangue de Domitila corre nas veias desses descendentes bávaros até hoje.</p><p>Em 28 de fevereiro de 1830, nasceu em São Paulo a segunda Maria Isabel de</p><p>Alcântara Brasileira, última filha de d. Pedro e da marquesa. A criança foi batizada</p><p>em 24 de maio de 1831 pelo bispo de São Paulo. Em sua certidão, consta que ela</p><p>foi exposta na casa de sua avó, a viscondessa de Castro, mãe de Domitila. Segundo</p><p>a própria Maria Isabel, já idosa, em carta biográfica a uma amiga, essa decisão foi</p><p>tomada por sua mãe para facilitar um futuro reconhecimento de d. Pedro. Apesar</p><p>de alguns afirmarem que ela não seria filha do imperador, ele assumiu-a em di-</p><p>versas ocasiões (anexo 17, p. 199), entre elas na carta que enviou59 em 1831, já no</p><p>5 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 5</p><p>exílio, pedindo que Domitila mandasse a menina para ser educada na Europa. A</p><p>marquesa diplomaticamente recusou a oferta afirmando que, se a filha fosse, ela,</p><p>como mãe, iria acompanhá-la. Tendo espírito esportivo, d. Pedro deve ter achado</p><p>graça nessa resposta irônica. Se a presença de Domitila na corte, como bem ela ti-</p><p>nha consciência, já havia sido um estorvo para os planos do imperador de casar-se</p><p>novamente, imagine-se o que aconteceria se ela desembarcasse na Europa carre-</p><p>gando mais uma filha dele.</p><p>12. Maria Isabel, condessa de Iguaçu.</p><p>Após a morte de d. Pedro em 1834, d. Amélia, sua viúva, tentará fazer cum-</p><p>prir a vontade do marido lavrada em testamento: “Aquela menina [...] que nasceu</p><p>na cidade de São Paulo, no Império do Brasil, no dia vinte e oito de fevereiro de mil</p><p>oitocentos e trinta, e desejo que esta menina seja chamada à Europa para receber</p><p>igual educação à que se está dando a minha sobredita filha, a duquesa de Goiás.”</p><p>A marquesa recusaria mais uma vez, alegando que, além de a filha não lhe ser</p><p>nenhum fardo, era doente e precisava de seus cuidados. Maria Isabel havia herda-</p><p>do a epilepsia do pai.</p><p>A caçula de d. Pedro e Domitila casou-se com Pedro Caldeira Brant, conde</p><p>de Iguaçu. Nova ironia do destino: Pedro era filho do marquês de Barbacena — o</p><p>“Santo Antônio do Paço de São Cristóvão”, como o apelidou Carlos Maul — que</p><p>5 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 5</p><p>tanto contribuíra para a separação do casal de amantes. Infelizmente, a condessa</p><p>de Iguaçu não teve a mesma sorte da duquesa de Goiás. Não foi feliz no casamento,</p><p>porém deixou marca profunda no coração do jovem poeta Álvares de Azevedo.60</p><p>Domitila, convivendo durante sete anos com o homem mais importante do</p><p>Brasil, aprendeu muito mais do que se vestir e se enfeitar. Com ele conheceu a</p><p>política e a diplomacia. Seu retorno definitivo para São Paulo fez com que a cidade</p><p>rapidamente se dividisse entre “marquesistas” e “antimarquesistas”. Entre os “mar-</p><p>quesistas” estavam seu cunhado, Carlos Oliva, comandante de armas da cidade, e</p><p>o bispo de São Paulo, seu amigo pessoal. Mostrando a têmpera de que era feita, a</p><p>marquesa conquistou justamente um dos líderes dos “antimarquesistas”, o briga-</p><p>deiro Rafael Tobias de Aguiar, rico tropeiro sorocabano e líder do Partido Liberal,</p><p>duas vezes eleito presidente da província de São Paulo, cargo equivalente hoje ao</p><p>de governador do estado. O casal teve seis filhos em um relacionamento que durou</p><p>mais de vinte anos. Juntos desde meados da década de 30 do século XIX, casaram-</p><p>-se somente no final da Revolução Liberal, em 14 de junho de 1842, no oratório</p><p>da casa da mãe de Aguiar, d. Gertrudes, em Sorocaba. Serviu como testemunha o</p><p>senador padre Diogo Antônio Feijó.</p><p>Ao contrário do que se poderia pensar, Tobias de Aguiar não se envergonha-</p><p>va de Domitila. Se esperou os últimos momentos para se casar, foi porque ela é que</p><p>não queria unir-se novamente em matrimônio. As facadas de Felício,61 o primeiro</p><p>marido, ainda deviam doer-lhe. Tobias de Aguiar carregava consigo uma portaria</p><p>assinada pelo bispo de São Paulo,62 com autorização para se casarem em qualquer</p><p>paróquia paulista, dispensadas as formalidades de estilo, mas a marquesa só acei-</p><p>tou oficializar o relacionamento por necessidade. Como esposa, ela poderia seguir</p><p>o brigadeiro na sorte que tivesse. Depois de capturado no Sul, Aguiar foi enviado</p><p>preso para o Rio de Janeiro. Domitila, a antiga favorita imperial, acostumada com</p><p>os faustos do Primeiro Reinado, voltaria à corte por um motivo bem menos gla-</p><p>moroso.</p><p>Por meio de um intermediário, solicitou ao filho de seu amante, o impera-</p><p>dor d. Pedro II, autorização para viver junto com Aguiar na prisão a fim de cuidar</p><p>do marido doente. Mas isso já é um outro livro...</p><p>E assim termina a história de um caso de amor que até hoje ainda causa des-</p><p>conforto e muita curiosidade...</p><p>Mas um instante ainda!</p><p>As cortinas abrem-se. O cenário: o Rio de Janeiro de quase duzentos anos</p><p>atrás. Os personagens: os eternos amantes de São Cristóvão, que são vistos nova-</p><p>mente entre arrulhos amorosos e ataques de ciúmes. Silenciosamente, venha co-</p><p>migo. Vamos espiar!</p><p>5 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 75 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 75 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 7</p><p>5 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 75 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 75 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 7</p><p>Planta da cidade do Rio de Janeiro,</p><p>1820, autor Jacques Arago.</p><p>5 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 95 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 9</p><p>5 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 95 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 5 9</p><p>Cartas</p><p>6 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O C r I T é r I O s u T I L I z A D O s 6 16 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O C r I T é r I O s u T I L I z A D O s 6 16 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O C r I T é r I O s u T I L I z A D O s 6 16 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O C r I T é r I O s u T I L I z A D O s 6 1</p><p>Critérios utilizados</p><p>Quanto à datação</p><p>Diferentemente das cartas trabalhadas por Alberto Rangel, das 94 que descobri-</p><p>mos na Hispanic Society apenas 23 eram datadas. Em vez de apresentar uma edi-</p><p>ção com as missivas organizadas por temas, preferimos o desafio de criar uma</p><p>linha sentimental que se aproximasse o mais possível da cronológica.</p><p>Analisando as cartas datadas que até então haviam sido publicadas, achamos</p><p>alguns padrões: se na despedida d. Pedro chega à monotonia, com o seu “fiel, ami-</p><p>go, amante, desvelado etc.”, o mesmo não acontece com outros elementos, como a</p><p>assinatura (“Demonão”, “Fogo Foguinho”, “Imperador”, “O Imperador” e “Pedro”)</p><p>e principalmente o vocativo (“Titília”, “Meu Amor”, “Meu Bem”, “Querida Filha”,</p><p>“Filha”, “Querida Marquesa”). As formas como d. Pedro chama sua amante e como</p><p>ele assina, somadas a fatos históricos e situações familiares conhecidas menciona-</p><p>das nas cartas, permitiram, na maioria das vezes, identificar o ano e até a quinzena</p><p>do mês em que foram escritas.</p><p>As cartas publicadas na edição da Nova Fronteira também ajudaram a esta-</p><p>belecer o critério adotado para a datação dos vocativos utilizados, assim como as</p><p>“conversas” existentes entre algumas das apresentadas nesta obra e as já publicadas</p><p>anteriormente.</p><p>6 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O C r I T é r I O s u T I L I z A D O s 6 3</p><p>Assim, para fixar as cartas não datadas em espaços de tempo delimitados,</p><p>foram levados em conta os seguintes fatores:</p><p>Vocativos:</p><p>1823: “Nhá Titília”, “Minha Titília”.</p><p>1824 (aproximadamente primeiro semestre a meados do segundo semestre):</p><p>“Meu bem”.</p><p>1824 (aproximadamente segundo semestre) a 1825 (aproximadamente segundo</p><p>semestre): “Meu amor e meu encanto” e “Meu amor”.</p><p>1825 (final do segundo semestre) a 1826: “Meu amor, Minha Titília”, “Meu amor</p><p>do meu coração”.</p><p>1827 (até outubro): “Minha filha” e “Querida amiga do coração”.</p><p>1827 (de outubro a dezembro): “Filha”.</p><p>1827 (dezembro) até 1829: “Querida Marquesa”.</p><p>Algumas vezes, no final de 1827, aparecem cartas em que d. Pedro usou os</p><p>vocativos “Marquesa” ou “Querida Marquesa”. São cartas formais, onde transpare-</p><p>ce a tentativa inútil de iludir a quem o visse escrever. É desse período uma mensa-</p><p>gem em que ele afirma não ter escrito antes, pois o Chalaça, seu secretário, estava</p><p>na mesma sala (carta 58, p. 140).</p><p>Assinaturas:</p><p>De 1822 a 1825: “O Demonão” (aparece em todo o período), “Fogo Fogui-</p><p>nho” (1823), “Imperador” (pontuado ao longo do período, surge com maior fre-</p><p>quência em 1825).</p><p>De 1823 a 1828: “Imperador” ou “O Imperador”, variando a despedida de</p><p>“seu amigo”, “seu amante”, ao mais formal em 1827 e 1828, “seu amo e senhor”.</p><p>Em meados de 1828 e em 1829, ele assina apenas como “Pedro”, do mesmo</p><p>modo como assinaria a abdicação, em 1831.</p><p>6 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O C r I T é r I O s u T I L I z A D O s 6 3</p><p>Quanto à transcrição das cartas</p><p>As grafias das palavras foram atualizadas e, em alguns casos, corrigidas.</p><p>A pontuação foi alterada para melhor compreensão do leitor. Algumas passagens</p><p>inteiras originariamente não continham vírgulas, por exemplo, como nesta carta:</p><p>Francisco Manuel diz que são dentes que já receitou e que se não façam mais</p><p>remédios além dos que ele disse [...]. Que se lhe desse cozimento branco um caldo</p><p>e quando vomitasse alguns goles de água fria [...].</p><p>Na transcrição:</p><p>Francisco Manuel diz que são dentes, que já receitou e que se não façam</p><p>mais remédios além dos que ele disse [...]. Que se lhe desse cozimento branco, um</p><p>caldo, e quando vomitasse, alguns goles de água fria [...].</p><p>O sinal de igual (=) e os sublinhados utilizados por d. Pedro para chamar a</p><p>atenção para algo, foram mantidos. A maneira de o imperador escrever números</p><p>em algarismos, seguindo imediatamente a forma por extenso, foi simplificada. Por</p><p>exemplo: “1 hum”, foi padronizado como “um”.</p><p>Não se alterou a forma das cartas. Manteve-se a paragrafação, os vocábulos</p><p>curiosos, o modo como ele as datava. No caso de palavras utilizadas por d. Pedro</p><p>cujo sentido não seja comum nos dias de hoje, foi feita breve nota explicativa. Para</p><p>facilitar o entendimento de algumas frases, foram inseridas palavras, que se en-</p><p>contram entre colchetes []. E, finalmente, atendendo ao pedido do próprio Alberto</p><p>Rangel, lançado no distante ano de 1916 e direcionado para quem encontrasse</p><p>essas 94 cartas perdidas:</p><p>Nada de emendas ou de ortopedismos, e principalmente nenhuma supressão. De</p><p>certos animais tudo se aproveita. [...] Nos segredos da alma que não se resguardou</p><p>estão as chaves de sua decifração. Decifrar é compreender.1</p><p>6 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 3 6 56 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 3 6 56 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 3 6 5</p><p>1823</p><p>6 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 3 6 7</p><p>Esta noite passei bem, só acordei quando me voltaram por</p><p>causa de algumas dores que ainda tenho nas costelas, contudo</p><p>já da perna estou consideravelmente melhor.</p><p>Tomara eu que os ladrões dos médicos deixassem já de cá</p><p>dormir, para você me vir cá visitar com o Nhô Xico (1) conforme</p><p>lhe mandei dizer, o que por ora não pode ser, em consequência do</p><p>acima exposto.</p><p>Dê-me recados a sua mãe (2) e a seu pai (3) e a seu mano</p><p>Carrollos (4) e a Nhá Cândida (5), agradeça-lhe o cuidado que</p><p>tem em mim. Se precisas [de] alguma coisa deste aleijado, mandes</p><p>dizer que ele fará todas as diligências para desempachar como</p><p>quem é de você seu</p><p>Fogo Foguinho</p><p>(1) O “Nhô Xico” é Francisco de Castro do Canto e Melo, irmão mais novo</p><p>de Domitila. Após acompanhar d. Pedro na viagem do Rio para São Paulo em</p><p>1822 e ter testemunhado a proclamação da Independência, em 7 de setembro,</p><p>tornou-se amigo pessoal do imperador, que chegou a ser padrinho de um de</p><p>seus filhos.</p><p>(2) Escolástica Bonifácia de Toledo Ribas (1765-1859). Natural de São Sebas-</p><p>tião, São Paulo. Está enterrada no mesmo túmulo que a filha, Domitila, no cemi-</p><p>tério da Consolação, em São Paulo. Casou-se em 1784 na Sé de São Paulo com o</p><p>militar João de Castro do Canto e Melo (3) (1740-1826). Natural da ilha Terceira,</p><p>nos Açores. Visconde de Castro em 12/10/1826.</p><p>(4) Carlos Maria Oliva (1791-1847). Militar, chegou ao posto de brigadeiro.</p><p>Em São Paulo, como comandante de armas, em 1830, prendeu os acusados de as-</p><p>sassinarem o jornalista liberal e médico italiano Líbero Badaró. Era casado desde</p><p>1812 com Ana Cândida (1795-1847), irmã de Domitila, a quem d. Pedro chama</p><p>nas cartas de “Nhá Cândida”.</p><p>(5) O imperador foi padrinho de dois de seus filhos, Leopoldina e Pedro.</p><p>Em 30 de junho de 1823, segundo relatório enviado à Assembleia Constituin-</p><p>te em 8 de julho, o cirurgião da Imperial Câmara e assistente de Sua Majestade o</p><p>Imperador, dr. Domingos Ribeiro dos Guimarães Peixoto, relatava:</p><p>1</p><p>6 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 3 6 7</p><p>Vindo Sua Majestade Imperial da sua chácara, denominada Macaco, no dia segun-</p><p>da-feira último de junho, quase pelas 6 horas da tarde, aconteceu que ao chegar à</p><p>ladeira perto do paço de S. Cristóvão, como corresse o selim tanto para a garupa</p><p>do cavalo em que vinha, pela razão de estarem as silhas traseiras mui largas, que</p><p>estas ficaram nas virilhas do animal, que se corcoveava e desabridamente corria,</p><p>Sua Majestade Imperial, receando resvalar juntamente com o selim e ser, em con-</p><p>sequência, maltratado pelos muitos e violentos coices, sobretudo faltando-lhe o</p><p>apoio da crina por se ter esta arrebentado e à qual lançara a mão, tomou a resolu-</p><p>ção de deitar-se abaixo, o que fez para o lado esquerdo.</p><p>Depois de uma queda tão considerada, batendo com as costas em cheio so-</p><p>bre barro duro, não obstante levar de encontro o braço esquerdo, [...] soldados</p><p>do telégrafo, que logo o acudiram e seguraram até que chegou Sua Majestade, a</p><p>Imperatriz, acompanhada de seu criado, que ajudaram Sua Majestade Imperial</p><p>a recolher-se ao paço [...] subiu a escada [...] seguro tão somente a uma bengala,</p><p>como observei, quando o vi [...].</p><p>Na queda, d. Pedro fraturou duas costelas e a clavícula esquerda e contundiu</p><p>o quadril. Nesse relatório, o médico finalizava dizendo que, passados nove dias,</p><p>o monarca encontrava-se recuperado. D. Leopoldina, em carta1 de 9 de julho a</p><p>seu pai, o imperador Francisco I da Áustria, faz eco ao médico, informando que o</p><p>marido estava melhor.</p><p>Em 15 de julho, Plácido Antônio Pereira de Abreu, servidor do paço im-</p><p>perial, recebeu uma carta e uma ameaça: sua vida correria perigo se ele não</p><p>entregasse aquela mensagem para o imperador. Desesperado, não só cumpriu</p><p>sua parte do combinado como, sem saber a quem comunicar, mandou publicar</p><p>no dia seguinte, no Diário do Rio de Janeiro, que fizera a entrega a d. Pedro. A</p><p>mensagem, escrita em alemão, foi traduzida por d. Leopoldina. Infelizmente o</p><p>con teú do não é conhecido até hoje, mas a reação do imperador, sim. Mandou</p><p>chamar José Bonifácio e, enquanto este conversava em uma sala com a impe-</p><p>ratriz, saiu do palácio junto com soldados armados. Foi até a cidade, invadiu a</p><p>sede do Apostolado, uma espécie de confraria paramaçônica criada pelos irmãos</p><p>Andrada, na qual o imperador tinha o título de arconte-rei, encerrou a sessão</p><p>que estava sendo realizada, apreendeu todos os papéis e fechou definitivamente</p><p>a sociedade. Voltando ao Palácio de São Cristóvão, confrontou-se com José Bo-</p><p>nifácio. No dia seguinte o ministro demitiu-se, assim como seu irmão, e a irmã</p><p>deles do posto de dama da imperatriz.</p><p>6 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 3 6 9</p><p>Quiseram os detratores de d. Pedro transformá-lo em marionete, ora com</p><p>José Bonifácio a manipular as cordas, ora com Domitila de Castro. Os próprios</p><p>Andradas ajudaram a criar o mito, alegando, como um dos motivos para sua que-</p><p>da, a influência da amante paulista do imperador. O fiel paladino andradista An-</p><p>tônio Menezes de Vasconcelos Drummond, nas suas Anotações,2 38 anos após o</p><p>episódio, se prestaria a encarnar um velho ditado russo: “Ele mente como uma</p><p>testemunha ocular”. Como se não bastasse afirmar que Domitila estava no quarto</p><p>ao lado quando Bonifácio foi demitido, ainda acusou-a de receber suborno dos</p><p>paulistas para conseguir o perdão dos participantes da “Bernarda de Francisco</p><p>Inácio”. Ciente do fato, e não conseguindo impedir que d. Pedro anistiasse seus</p><p>inimigos políticos, José Bonifácio teria pedido demissão. O curioso da narrativa</p><p>do velho conselheiro Drummond é que ele afirma ter documentos que provariam</p><p>tudo que diz, porém estes teriam desaparecido num incêndio. Mas esse simples de-</p><p>talhe não impediu que centenas de historiadores repetissem suas histórias, muitas</p><p>vezes de segunda ou terceira mão, sem conhecer a fonte, ampliando o mito ao re-</p><p>dor de Domitila. Como alguém chegada há menos de cinco meses de São Paulo, e</p><p>encontrando-se às escondidas com o imperador poderia ter alcançado tal nível de</p><p>influência política e domínio, a ponto de fazer um soberano demitir seu principal</p><p>homem de confiança?</p><p>A primeira carta transcrita nesta edição mostra que Domitila só seria bem-</p><p>-vinda ao Palácio de São Cristóvão acompanhada do irmão, e mesmo assim se não</p><p>houvesse muitas pessoas por perto. Está muito longe da afirmação de Drummond:</p><p>[...] retido no leito, essa mulher foi admitida com inaudito escândalo no seu quar-</p><p>to e começou logo a imperar.</p><p>A inglesa Maria Graham, que, além de Melo Morais, comenta sobre a carta</p><p>entregue a Plácido, acredita ser verdade que o imperador “durante seu isolamento</p><p>em razão do acidente, ficara sem ver Mme. Castro”.3 Seria difícil a estada de Do-</p><p>mitila sem que alguém notasse: Graham informa sobre a fila na frente do palácio</p><p>aguardando por notícias do imperador, e existem relatos das visitas oficiais que d.</p><p>Pedro recebia, como a dos deputados da Assembleia Constituinte. Com tempo e</p><p>disposição, tomou conhecimento do que ocorria no resto do país, sem passar pela</p><p>filtragem do Ministério, o que permitiu ao imperador saber realmente o que ocor-</p><p>rera em São Paulo durante a bernarda e as duras medidas que os Andradas haviam</p><p>tomado contra seus inimigos. Tal hipótese é defendia por alguns historiadores,</p><p>como Octávio Tarquínio de Sousa.</p><p>6 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 3 6 9</p><p>Um fato curioso é o idioma em que a mensagem estaria escrita. Oyenhausen-</p><p>-Gravenburg, o ex-capitão-general de São Paulo, e Daniel Pedro Müller, participan-</p><p>tes da bernarda paulista, eram filhos de alemães servidores da coroa portuguesa.</p><p>Ambos encontravam-se no Rio de Janeiro à época, afastados de São Paulo, en-</p><p>quanto o gabinete dos Andradas realizava uma devassa sobre a revolta ocorrida</p><p>em 1822. Anistiado, Oyenhausen-Gravenburg seria futuramente contemplado</p><p>com o título de visconde de Aracati. Já como marquês, em 1828, ocuparia as pastas</p><p>da Marinha e das Relações Exteriores. Foi um dos articuladores do tratado de paz</p><p>entre o Brasil e a Argentina, dando fim à Guerra da Cisplatina. Müller voltaria para</p><p>São Paulo, onde exerceria novamente suas funções de engenheiro militar, atuando</p><p>na formação de jovens técnicos no recém-criado Gabinete Topográfico.</p><p>Nhá Titília,</p><p>Desejando eu que, quando mecê apareça publicamente, apare-</p><p>ça bem-vestida, e decente: aí lhe mando essa peça de touquinha,</p><p>mais renda, para que as mande fazer em um vestido com guarni-</p><p>ções brancas na última moda, e como mecê o não saberá fazer,</p><p>bom, será bom que Boaventura (1) a leve à casa da modista Ma-</p><p>dame Josefine (2), para que ela lhe tome a medida, e saia uma</p><p>obra boa. Espero que isto faça para se apresentar na Glória ener-</p><p>vando todas que lá aparecerem.</p><p>Para esse dia já terei as ametistas (3) postas em bom adereço</p><p>completo que fica obra digna de quem a dá, e de quem a recebe.</p><p>Aceite os protestos de estima</p><p>Deste seu amante</p><p>O Fogo Foguinho</p><p>(1) Boaventura Delfim Pereira (1788-1829), barão de Sorocaba. Era casado</p><p>com Maria Benedita (1792-1857), irmã mais velha de Domitila.</p><p>(2) Madame Josefine foi uma das mais famosas modistas do Primeiro Reina-</p><p>do. Estabeleceu-se entre 1823 e 1824 na rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. Teria</p><p>criado vestidos para a imperatriz d. Leopoldina e para “todas as senhoras da corte,</p><p>e, portanto, de quantas outras senhoras tinham pais e maridos dispostos a pagar</p><p>2</p><p>7 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 3 7 1</p><p>frequentemente a habilidade e a fama da modista, cuja tesoura de imperial predi-</p><p>leção cortava cara e desapiedadamente”.4</p><p>(3) Trata-se, provavelmente, das 14 grandes ametistas</p><p>que foram utilizadas</p><p>para montar o famoso colar que pertenceu a Domitila e que hoje se encontra no</p><p>Museu Imperial, em Petrópolis.</p><p>13. Colar de ametistas, presente de Pedro I para Domitila de Castro.</p><p>Museu Imperial/IBRAM/MinC, Rio de Janeiro</p><p>A fama de d. Pedro como sovina entra em confronto com esses arranjos. Ves-</p><p>tidos, joias, tudo para que a provinciana paulista por quem se apaixonara não pa-</p><p>recesse inferior a qualquer outra dama no teatro, na igreja ou em eventos públicos.</p><p>Embaixadores estrangeiros registrariam, ao longo do relacionamento entre ambos,</p><p>que ela parecia mais bem vestida que a própria imperatriz em certas ocasiões.</p><p>7 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 3 7 1</p><p>Alguns biógrafos de d. Pedro já notaram que o linguajar usado por ele ao</p><p>escrever para seus filhos não levava muito em consideração as idades deles. Isso</p><p>pode ser observado nas cartas dirigidas ao futuro d. Pedro II. O mesmo ocorre</p><p>quando escreve para Domitila. O imperador chega a utilizar expressões em latim e</p><p>fazer brincadeiras que provavelmente ela só viria a entender algum tempo depois,</p><p>talvez só mesmo em São Paulo, anos após a morte de seu amante, ao relê- las. As</p><p>cartas dela para ele, que são raras, mostram uma pessoa não muito instruída. D.</p><p>Pedro parecia amá-la a ponto de elevá-la, criá-la, ensiná-la.</p><p>7 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 7 37 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 7 37 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 7 3</p><p>1824</p><p>7 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 7 5</p><p>14. Calendário Perpétuo Alegórico dedicado a d. Pedro I.</p><p>7 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 7 5</p><p>Meu bem,</p><p>Assento que será melhor um dia fazerem-se lá (1) as sombrinhas</p><p>para mecês verem, pois aqui lhe é mui dificultoso, com especiali-</p><p>dade hoje que é noite de lua (2) e, portanto, não vai a sege (3), e</p><p>eu irei depois de tudo acabado. Graças a Deus vou bem, e sempre</p><p>pronto para a servir como quem é</p><p>Seu amante</p><p>O Demonão</p><p>(1) D. Pedro invariavelmente usa “lá”, em vez de “aí”, quando se refere à casa</p><p>de Domitila.</p><p>(2) A única explicação que ocorre para esse bilhete seria a possibilidade de</p><p>estarem falando sobre teatros de sombras ao ar livre, o que seria difícil devido à</p><p>luz da lua.</p><p>(3) Carruagem pequena, de um só assento, provida de dois varais, cortina</p><p>de couro na frente, dotada de duas rodas e puxada por dois cavalos. Nas laterais,</p><p>pequenas vigias permitiam ao passageiro ver a paisagem.</p><p>Meu bem,</p><p>Faça-me o favor de enviar pelo portador deste o seu fio de pedras</p><p>brancas e mais os brincos, que é para se arranjar no toucado.</p><p>Seu amante</p><p>Demonão</p><p>3</p><p>4</p><p>7 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 7 7</p><p>Meu bem,</p><p>Desejo saber se passou bem a noite. Eu logo que me deitei fui</p><p>pedra em poço; mas quando me levantei, e agora mesmo, ainda</p><p>estou sentindo alguma coisa.</p><p>Adeus, até à noite,</p><p>Seu amante</p><p>Meu bem,</p><p>Cumprindo com o prometido, e com os deveres não só de aman-</p><p>te, mas até de amigo: lhe dou parte que passei bem; mas sonhei</p><p>alguns sonhos que me mortificaram, todos relativos à nossa cara</p><p>Pátria (1), à qual desejamos sumas venturas.</p><p>À noite lá irei, e o mais cedo que puder, para ter o gosto de</p><p>gozar da sua tão amável companhia, e que até se faz precisa para</p><p>a existência.</p><p>Deste seu desvelado amante</p><p>O Demonão</p><p>(1) A Guerra da Independência, mais aguerrida no Nordeste e no Sul, só</p><p>terminaria no início de 1824, ano em que estourou a Confederação do Equador.</p><p>Além dos problemas internos, era preciso também lutar pelo reconhecimento do</p><p>Império Brasileiro e por um tratado de paz com Portugal, o que só ocorreria no</p><p>segundo semestre de 1825 com a intervenção da Inglaterra, visando à prorroga-</p><p>ção do tratado que lhe concedia benefícios comerciais de que gozava no Brasil</p><p>desde 1810.</p><p>5</p><p>6</p><p>7 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 7 7</p><p>Meu bem e meu tudo,</p><p>Dormi muito bem de noite, assim lhe acontecesse. Aí vão es-</p><p>ses morangos para a nossa ceia, que há de ser mais substan-</p><p>cial, mas muito menos saborosa que a de ontem, comida em</p><p>camarote. Agora vou para o Macaco (1), e à noite lá vou ser o</p><p>Seu Mico. Tenha os puros votos da mais cordial amizade que</p><p>lhe consagra</p><p>Este luxurioso, o seu amante</p><p>O Demonão</p><p>P. S.</p><p>Por mais que me apure para ter graça, nunca chegarei aos cal-</p><p>canhares do desengraçado Francisco Alves (2); mas espero não</p><p>digo bem, mas apesar da sensaboria caí mais em graça do que ele.</p><p>(1) A Imperial Quinta do Macaco, assim como a fazenda Santa Cruz, era</p><p>uma antiga possessão jesuíta que passou a pertencer à coroa e posteriormente à</p><p>família imperial, após a expulsão da Companhia de Jesus pelo marquês de Pom-</p><p>bal no século XVIII. Com a morte de d. Pedro I, a fazenda foi herdada por sua</p><p>viúva, a imperatriz Amélia, que a vendeu para o barão de Drummond, o criador</p><p>do jogo do bicho. Este urbanizou e loteou o local, dando origem ao bairro de</p><p>Santa Isabel.</p><p>(2) Joaquim Francisco Alves Branco Muniz Barreto (Bahia, 1801-85)?</p><p>7</p><p>7 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 7 9</p><p>Meu único bem,</p><p>Sinto infinito que ainda esteja com dores de cabeça, mas espero</p><p>(Deus queira) que mecê fique aliviada desse incômodo, que dos</p><p>incômodos é dos maiores. Mande-me dizer se quer que eu mande</p><p>vir o Peixoto (1), pois bem vê o quanto é necessário atalhar com</p><p>tempo qualquer incômodo, que pode de nada tornar-se funesto</p><p>(o que Deus não permitirá), para que tenha satisfação de a ver</p><p>sempre boa, e gozar da sua tão agradável companhia.</p><p>Este seu desvelado, constante, fiel, verdadeiro e agradecido</p><p>até a morte</p><p>O Demonão</p><p>P. S.</p><p>Farei todas as diligências para ir saber de mecê pessoalmente. O</p><p>mais cedo possível.</p><p>(1) Dr. Domingos Ribeiro dos Guimarães Peixoto (1790-1846), barão de</p><p>Iguaraçu, cirurgião-mor do Império. Médico da família imperial, amigo íntimo de</p><p>d. Pedro. Em 16 de setembro de 1827,1 foi para Paris aperfeiçoar-se em Medicina,</p><p>acompanhando Felício, filho do primeiro casamento de Domitila, que ia continuar</p><p>seus estudos. Como ele realizou alguns dos partos de d. Leopoldina, a preocupa-</p><p>ção com o estado de Domitila faz imaginar que a carta seja do período em que ela</p><p>se encontrava grávida de Isabel Maria, futura duquesa de Goiás.</p><p>8</p><p>7 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 7 9</p><p>15. Carta de d. Pedro I para Domitila de Castro. Rio de Janeiro,</p><p>circa 1824. Hispanic Society of America, Nova York.</p><p>8 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 8 1</p><p>Meu bem,</p><p>Desejo, pelo muito que me interesso pela sua saúde, [que] me</p><p>mande dizer como passou do seu incômodo da cabeça, e junta-</p><p>mente como passou a nossa Belinha (1), que de mecê será in-</p><p>separável até ter idade de aprender, e mecê querer. Eu graças a</p><p>Deus passei menos mal, mas ainda acordei com dores de cabeça</p><p>e nos olhos; acho-me agora melhor. Ontem mesmo fiz amor de</p><p>matrimônio para que hoje, se mecê estiver melhor e com dispo-</p><p>sição, fazer o nosso amor por devoção (2). Aceite, meu benzi-</p><p>nho, meu amor, meu encanto e meu tudo, o coração constante</p><p>Deste seu fiel amante</p><p>O Demonão</p><p>P. S.</p><p>Mande as pulseiras.</p><p>(1) Isabel Maria de Alcântara Brasileira, filha de d. Pedro e Domitila, nasceu</p><p>em 23 de maio de 1824. Foi reconhecida pelo imperador em maio de 1826, quando</p><p>recebeu o título de duquesa de Goiás. Em 23 de outubro de 1842, casou-se com</p><p>Ernesto Fischler, conde de Treuberg e barão de Holzen. Faleceu em Murnau, na</p><p>Baviera, em 3 de novembro de 1898, deixando descendência.</p><p>(2) Já ia longe agosto de 1822, quando eles tiveram a primeira relação sexual,</p><p>e d. Pedro ainda parecia um apaixonado. Impossível acreditar que não fosse. Se d.</p><p>Leopoldina era a mãe oficial, a imperatriz, Domitila era a mulher carnal, a amante.</p><p>A esposa, intelectual, conversava com botânicos, viajantes, naturalistas e sábios</p><p>como José Bonifácio. Domitila, o oposto, receberia pouco antes de sua morte a</p><p>mulher do cônsul da Inglaterra, Isabel Burton, sentada descalça, no chão de terra</p><p>batida de sua cozinha, fumando cachimbo. Com o gênio e a educação de d. Pedro,</p><p>relacionar-se com a paulista</p><p>era mais simples do que com alguém que colecionava</p><p>minerais, estudava conchas, conversava em diversos idiomas e que, de igual para</p><p>igual, tratou com seus parentes europeus como imperatriz da nova pátria logo</p><p>após a Independência, ajudando o marido no possível para que a Europa reconhe-</p><p>cesse o nascente Império brasileiro.</p><p>9</p><p>8 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 8 1</p><p>Meu benzinho,</p><p>Desejarei que me mande notícias suas, e da nossa Belinha. O</p><p>Vicentinho (1) está muito doente, vomitando e obrando imenso.</p><p>Estou com bem cuidado nele, pois o médico não me respondeu se</p><p>ele escapava, só sim que o ia ver, e depois me diria. Peço-lhe, meu</p><p>amor, perdão se ontem a escandalizei (2). Eu, meu bem, jamais</p><p>a desejo escandalizar, antes busco todos os modos de obsequiá-</p><p>-la. Espero, meu bem e meu tudo, que me perdoe, pois está aflito,</p><p>enquanto lhe não perdoar, o coração.</p><p>Deste seu constante e fiel amante que tudo lhe ofertou</p><p>O Demonão</p><p>(1) Em nenhuma outra carta já publicada, ou nestas inéditas, aparece qual-</p><p>quer referência a Vicente ou Vicentinho. Nem ele, nem Domitila, tiveram nenhum</p><p>filho com esse nome. O fato de d. Pedro relacionar-se facilmente e preocupar-se</p><p>com assuntos administrativos de sua casa, com seus criados, colonos e escravos de</p><p>suas propriedades, abre um leque de infinitas possibilidades.</p><p>(2) Escandalizar: “Ofender, causar escândalo com mau exemplo, com pa-</p><p>lavras indecentes, ímpias e ações indecentes”.2 D. Pedro não primava pelos bons</p><p>modos e não se orgulhava por não ter educação. Em carta de 13/12/1827,3 des-</p><p>culpa-se por ser rude com Domitila, afirmando: “[...] a fruta é fina, posto que a</p><p>casca seja grossa”.</p><p>10</p><p>8 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 8 3</p><p>16. Carta de d. Pedro I para Domitila de Castro. Rio de Janeiro,</p><p>circa 1824. Hispanic Society of America, Nova York.</p><p>8 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 8 3</p><p>Meu bem,</p><p>Aí vai o remédio que chegou neste momento da cidade, não me</p><p>esqueço de nada seu. Já se mandou fechar o teatro (1), apreender</p><p>papéis e proceder à devassa do que se sabe para meu esclareci-</p><p>mento. Vai o folheto para José (2) aprender as manobras de cava-</p><p>laria. Hoje já não trabalha o teatro, e estão todos de boca aberta.</p><p>Seu amante,</p><p>fiel e constante</p><p>O Demonão</p><p>(1) Na segunda quinzena de setembro de 1824, Domitila passou por seu</p><p>primeiro vexame público. Tentando assistir a uma apresentação no Teatrinho</p><p>Constitucional São Pedro, foi proibida de entrar sob a alegação de que precisa-</p><p>va de convite. Ao saber do incidente, o imperador retirou-se do local. Em 22 de</p><p>setembro,4 d. Pedro mandou fechar o teatro. Os artistas foram despejados, e seus</p><p>trajes e cenários alimentaram uma grande fogueira. Armitage5 deixou registrado</p><p>que o incidente devia-se à “Nova Castro”, uma referência zombeteira ao romance</p><p>entre d. Pedro I de Portugal e Inês de Castro, que foi rainha depois de morta, su-</p><p>posta antepassada remota de Domitila.</p><p>(2) José de Castro do Canto e Melo, irmão de Domitila, batizado na Sé de São</p><p>Paulo em 17 de outubro de 1787. Militar, chegou ao posto de brigadeiro.</p><p>Meu amor do meu coração,</p><p>Eu estou acabando o Conselho (1), e imediatamente ele acabe,</p><p>remeterei o colarinho pelo qual desejarei que mecê me mande</p><p>fazer duas dúzias, e igualmente remeterei um lenço para mecê</p><p>saber o comprimento que devem ter os novos, que deverão ser em</p><p>número de vinte e quatro.</p><p>Seu amante</p><p>Imperador</p><p>11</p><p>12</p><p>8 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 8 5</p><p>(1) Conselho de Estado. Após a dissolução da Assembleia Constituinte, em</p><p>1823, d. Pedro criou o segundo Conselho de Estado, que teve papel importante na</p><p>elaboração da Constituição Imperial de 1824, a Carta mais duradoura que o Brasil</p><p>já teve. Esse conselho foi extinto em 1834.</p><p>Nunca se soube, até então, que Domitila servia a d. Pedro também como</p><p>costureira.</p><p>Meu amor,</p><p>Remeto as amostras escolhidas, e assinaladas com um alfinete.</p><p>Mande-me notícias suas e da Belinha.</p><p>Seu amante fiel e constante</p><p>O Demonão</p><p>Meu amor,</p><p>Mande-me dizer como passou e mais a nossa Belinha. Remeto</p><p>francamente o seu retrato (1), e espero [que] cumpra a sua pa-</p><p>lavra, entregando-mo à noite. Vai, também, a água para tomar à</p><p>noite, como lhe disse, antes de irmos para o banho, o lenço azul</p><p>para servir de molde para se dobrarem os outros por ele, e, para</p><p>que mecê veja que a não engano, vai o lenço de seda para que</p><p>veja que de todo não é irmão do seu apesar de ser semelhante.</p><p>Aceite o coração e etc.</p><p>Deste seu desvelado, verdadeiro, fiel, constante e agradecido</p><p>amante do coração</p><p>O Demonão</p><p>P. S.</p><p>O lenço, mande-mo quando me responder para o levar à tarde a</p><p>passeio, que será ao Sabino (2).</p><p>13</p><p>14</p><p>8 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 4 8 5</p><p>(1) No retrato de Domitila, que está atualmente no Museu Histórico Nacio-</p><p>nal, ela aparece portando a Ordem de Santa Isabel de Portugal, que só recebeu</p><p>de d. Maria da Glória em 1827. Não é conhecido, até o momento, nenhum outro</p><p>retrato dela do período em que viveu na corte.</p><p>(2) Provável referência ao camarista imperial e escrivão da Fazenda João Sa-</p><p>bino de Melo e Bulhões Castelo Branco.</p><p>Meu amor,</p><p>Mande-me notícias suas, e da nossa Belinha. Remeto as luvas e</p><p>essa doce pera. Aceita o coração</p><p>Deste seu constante e fiel amante</p><p>O Demonão</p><p>Meu amor,</p><p>Mande-me dizer como tem passado a nossa querida Bela, produ-</p><p>to dos nossos sinceros amores.</p><p>Bem sabe o quanto se interessa na saúde dela.</p><p>Este seu fiel, constante, desvelado, agradecido e verdadeiro</p><p>amante</p><p>O Imperador</p><p>15</p><p>16</p><p>8 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 8 78 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 8 78 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 8 7</p><p>1825</p><p>8 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 8 9</p><p>17. Carta de d. Pedro I para Domitila de Castro. Rio de Janeiro,</p><p>circa 1824. Hispanic Society of America, Nova York.</p><p>8 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 8 9</p><p>Meu amor e meu encanto,</p><p>Como me diz que sua Mãe vai para a Glória (1) até domingo, e</p><p>me manda perguntar a minha vontade a seu respeito, digo que me</p><p>parece bem que vá com ela para a Glória, e que volte no domingo</p><p>para domingarmos. Aceite o meu coração que todo para mecê é</p><p>amor, sem confeição (2) alguma. Estes os votos que lhe consagra</p><p>Este seu amante</p><p>O Demonão</p><p>(1) No número 2 da ladeira da Glória, em uma chácara com uma casa asso-</p><p>bradada, em meio a jardins e uma fonte, morava a irmã de Domitila, Maria Bene-</p><p>dita de Castro Canto e Melo.</p><p>(2) Íntegro, sem mistura.</p><p>18. Ladeira da Glória. Ao alto, à direita, a torre da igreja da Glória.</p><p>A irmã de Domitila morava nas proximidades.</p><p>17</p><p>9 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 9 1</p><p>Meu amor,</p><p>Mando o Rath (1) para mecê ir, pois para andar a passo e subir</p><p>não o há melhor.</p><p>Vá nele antes que no seu pois assim lhe pede</p><p>Este seu amante fiel e constante</p><p>O Demonão</p><p>(1) Espécie de charrete.</p><p>Manda-me a cadeirinha (1) que eu te dei pois a quero mos-</p><p>trar, e logo te a entregarei.</p><p>Teu etc.</p><p>(1) As “cadeirinhas” eram um meio de transporte até de famílias remediadas.</p><p>Existiam dois modelos: a serpentina, mais simples, fechada por cortinas em toda</p><p>a volta, ocultando o passageiro, e a cadeirinha de arruar, mais elaborada, com pa-</p><p>redes de madeira, janelas envidraçadas e uma abertura lateral para o passageiro</p><p>entrar e sentar-se. Essa abertura poderia ser fechada com uma cortina ou uma</p><p>portinhola com vigia. Seus varais, traseiros e dianteiros, eram sustentados por es-</p><p>cravos robustos, sobre os ombros no primeiro caso e nas mãos no segundo, como</p><p>uma padiola. Vieira Fazenda conta que os escravos carregadores de cadeirinhas</p><p>eram vendidos como parelhas de cavalos e costumavam ser muito bem tratados</p><p>por seus donos, principalmente os condutores de cadeirinhas de arruar, que não</p><p>raro usavam librés.</p><p>Havia os peritos e certos na andadura, que uma pessoa sentada podia levar</p><p>à mão um copo cheio d’água e esta, apesar do movimento cadenciado, não trans-</p><p>bordaria.1</p><p>18</p><p>19</p><p>9 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5</p><p>9 1</p><p>19. Exemplo de cadeirinha, no caso uma serpentina, em que</p><p>os escravos levam um bebê para ser batizado.</p><p>Ilma. e Exma. Sa. D. Demetília de Castro,</p><p>Tenho a honra, Excelentíssima senhora, de participar-lhe que</p><p>sua Majestade Imperial houve por bem despachar o mano de Va.</p><p>Exa., o senhor Pedro de Castro do Canto e Melo (1), Moço de</p><p>Sua Imperial Câmara.</p><p>Queira Va. Exa. desculpar meu atrevimento de lhe escrever</p><p>posto que me assine de um modo que não posso ser ou deixar de</p><p>ser conhecido de Va. Exa. de quem a ventura de ser</p><p>Seu afetuoso e obrigadíssimo...</p><p>O Anônimo</p><p>P. S.</p><p>Desculpe Va. Exa. a falta do verbo ter na última linha, que não</p><p>insiro depois de escrito a carta para não levar às mãos de V. Exa.</p><p>emendada.</p><p>20</p><p>9 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 9 3</p><p>(1) Pedro de Castro foi feito moço de câmara em 1825.2</p><p>D. Pedro, ao longo de seu reinado, escreveu diversas vezes artigos para a im-</p><p>prensa sob pseudônimos. Mas também parecia se divertir com a amante, como</p><p>prova esta carta, em que o imperador, todo formal, avisa Domitila sobre a nomea-</p><p>ção do irmão. A letra é a prova do crime. Se consegue escrever como um cortesão</p><p>pomposo, não disfarça a caligrafia.</p><p>Meu amor,</p><p>Estimo passasse bem e a nossa Bela. Eu estou quase bom, e pron-</p><p>to para montar a cavalo. Desejo que em consequência de eu estar</p><p>melhor ou bom me mande dizer se quer ir ao Depósito (1), para</p><p>dar ordem para a sege e muda, e para os cavalos que hão de ir.</p><p>Pode mandar dizer que vai pois eu, a mecê não ir ao Depósito,</p><p>vou à Glória a cavalo, e assim não me faz mal, até porque vou ter</p><p>o gosto de estar com mecê.</p><p>Sou de mecê seu fiel, constante, desvelado, agradecido, e</p><p>verdadeiro amante</p><p>O Imperador</p><p>(1) Durante o reinado de d. Pedro foi intensificada a captação de imigrantes</p><p>para o Brasil. Alemães, irlandeses e outros povos começaram a afluir ao Rio de</p><p>Janeiro, trazidos por contratos celebrados com agentes imperiais na Europa. Gus-</p><p>tavo Barroso3 informa que os imigrantes eram acomodados nos edifícios da Ponta</p><p>da Armação, em Niterói, antes de embarcar para o sul do Brasil. Essas edificações,</p><p>conhecidas como Depósito dos Estrangeiros, eram anteriormente utilizadas para a</p><p>pesca baleeira realizada na baía de Guanabara.</p><p>21</p><p>9 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 9 3</p><p>Meu amor,</p><p>Francisco Manuel (1) diz que são dentes, que já receitou e que se</p><p>não façam mais remédios além dos que ele disse, pois, enquanto</p><p>houvessem dentes a sair, havia de padecer. Que se lhe desse co-</p><p>zimento branco (2), um caldo, e quando vomitasse, alguns goles</p><p>de água fria, e que se lhe untassem as gengivas com o que ele</p><p>mandou, e que não tem febre, e que muitos remédios é mantê-la</p><p>que ele lhos aplicaria quando fossem necessários. Graças a Deus</p><p>que está a doença conhecida para sossego seu e deste seu fiel,</p><p>constante, desvelado, agradecido e verdadeiro amante</p><p>O Imperador</p><p>(1) Provável referência a Francisco Manuel de Paula, barão da Saúde, médico</p><p>de d. Pedro.</p><p>(2) Cozimento branco era um remédio manipulado, que poderia ser simples</p><p>ou composto. O simples era usado para diarreia infantil.4 D. Pedro mostra preocu-</p><p>pação com a saúde de sua primeira filha com Domitila, Isabel.</p><p>Meu amor,</p><p>Aí vai a coleira. Se a puder aprontar até amanhã às 10 horas,</p><p>muito bem, quando não, ficará para outra ocasião. A Imperatriz</p><p>já está assistida. Dou-lhe parte para que diga a seu pai que Nhô</p><p>Chico saiu mais antigo (1) que o filho de Francisco Antonio. Até</p><p>à noite, que conversaremos, e nos apalparemos por dentro e por</p><p>fora. Não deixe.</p><p>Este que é seu verdadeiro, constante, fiel e agradecido aman-</p><p>te do coração</p><p>O Demonão</p><p>P. S.</p><p>Vão as luvas também.</p><p>22</p><p>23</p><p>9 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 9 5</p><p>(1) Francisco de Castro do Canto e Melo foi promovido a tenente em 22 de</p><p>janeiro de 1825. Pela menção “diga a seu pai”, a carta é anterior à morte de João de</p><p>Castro, pai de Domitila, falecido em 2 de novembro de 1826. “Saiu mais antigo” diz</p><p>respeito ao critério de desempate por antiguidade usado na promoção da patente.</p><p>Meu amor,</p><p>Remeto esses cravos, posto que do Senhor dos Passos (1), que</p><p>deveriam ser de ferro, contudo são flores e dignas de quem as</p><p>vai possuir, e de seu amante Demonão, que tem o gosto de lhas</p><p>oferecer. É incalculável a disposição física e moral com que estou</p><p>hoje para lhe ir aos cofres.</p><p>P. S.</p><p>Já não me recomendo a Nhá Cândida (2) por causa dos seus</p><p>ciúmes, agora só no velho, velha, e colaça (3), por me parecer</p><p>que assim os não terá.</p><p>(1) A festa do Senhor dos Passos realiza-se na Quaresma (março/abril).</p><p>(2) Ver carta 1, nota 5.</p><p>(3) Pessoa que compartilhou a mesma ama de leite, “irmã de leite”.</p><p>24</p><p>9 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 9 5</p><p>20. Carta de d. Pedro I para Domitila de Castro. Rio de Janeiro,</p><p>circa 1825. Hispanic Society of America, Nova York.</p><p>9 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 9 7</p><p>Meu amor,</p><p>Já esta tarde começam os desavergonhados a saber quem eu sou,</p><p>e quem mecê, e quanto eu a estimo.</p><p>Mandei pôr uma fechadura na porta das tribunas (1) para</p><p>se fechar a porta, que não será aberta venha quem vier enquanto</p><p>mecê não vier, e assim ficam todos sem lugar. Além disso, hei</p><p>de tratar os maridos de bonito modo, e eu lhe prometo que mais</p><p>nada hão de fazer aos amores.</p><p>Deste seu desvelado, constante, fiel, agradecido e verdadeiro</p><p>amante</p><p>O Imperador</p><p>P. S. [na lateral da carta:]</p><p>São 3 horas, vou jantar. Mecê venha para a tribuna às 6 horas</p><p>para que se ponha bem em prática o plano.</p><p>(1) Depois do incidente com Domitila no Teatrinho Constitucional São Pe-</p><p>dro, em setembro do ano anterior, um novo vexame ocorreria durante as come-</p><p>morações da Semana Santa na Capela Imperial (Igreja de Nossa Senhora do Monte</p><p>do Carmo).</p><p>As tribunas de honra da igreja, localizadas próximo do altar, eram destinadas</p><p>à família imperial e seu séquito. D. Pedro havia solicitado que Joaquim Valentim</p><p>Faria de Souza Lobato, porteiro da Câmara Imperial, levasse Domitila para assistir</p><p>missa na tribuna das damas do paço, sem que a isso efetivamente tivesse direito,</p><p>como não tinha de entrar sem convite no teatro em 1824. A reação da baronesa de</p><p>São Salvador dos Campos de Goytacazes, ao ver Domitila sentar-se junto a ela e</p><p>outras damas de honra da imperatriz, foi imediata: como que afrontada, levantou-</p><p>-se e saiu do local, seguida por diversas outras senhoras.</p><p>Ana Francisca Rosa Maciel da Costa, baronesa de Goytacazes, era viúva do</p><p>coronel Brás Carneiro Leão, um português que fez fortuna no comércio brasileiro.</p><p>Ela foi uma das primeiras brasileiras natas agraciadas com um título nobiliárqui-</p><p>co, recebido em 1812, de d. João VI. Teve o título elevado em 1823 por d. Pedro</p><p>I, quando recebeu as Honras de Grandeza, com as quais podia usar a coroa de</p><p>visconde sobre o seu brasão, e seus herdeiros poderiam requerer a continuidade</p><p>25</p><p>9 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 9 7</p><p>do título na família. Os Carneiro Leão eram uma das famílias mais ricas do Rio</p><p>de Janeiro e gostavam de ostentar isso, como apontam Maria Graham e outros es-</p><p>trangeiros, escandalizados com o tamanho e a qualidade das joias que as mulheres</p><p>da família usavam.</p><p>Em 1825, quando a baronesa de Goytacazes resolveu, com seu ato, colocar</p><p>Domitila em seu lugar, já fazia quatro anos que d. João VI e a corte portuguesa</p><p>haviam deixado o Brasil e retornado a Portugal. A verdadeira nobreza da metró-</p><p>pole, hereditária, fruto do feudalismo português, não via com bons olhos essa</p><p>nova nobreza colonial caricata, para a qual o dinheiro assegurava os títulos. Os</p><p>portugueses vingavam-se nos dias de grande gala na corte, quando a nobiliarquia</p><p>ditava as regras, e as antigas famílias e mercês tinham precedência sobre os no-</p><p>vos titulados. “Macaco vê, macaco faz”, e assim aconteceu. A nobreza brasileira</p><p>tratou Domitila como tinha amargamente sido tratada pela nobreza de sangue</p><p>portuguesa. Mas a resposta não se fez esperar. Na segunda-feira, 4 de abril de</p><p>1825, aniversário de d. Maria da Glória, terminada a Páscoa, Domitila</p><p>foi nome-</p><p>ada dama camarista da imperatriz (anexo 1, p. 183). Esse posto conferia o direito</p><p>de acompanhar d. Leopoldina a todos os lugares, sendo-lhe destinado o lugar de</p><p>honra logo após os imperadores em qualquer ocasião pública, isto é, na igreja,</p><p>no teatro e em outros eventos, tendo precedência sobre as outras damas. E, como</p><p>se isso tudo não bastasse, d. Pedro, nesse bilhete, informa que ainda mandou</p><p>colocar uma tranca na porta da tribuna e deu ordens para que ela só fosse aberta</p><p>quando Domitila chegasse.</p><p>Maria Graham5 nos conta que as principais damas da corte se recusaram, a</p><p>princípio, a visitarem Domitila para lhe cumprimentarem pela nomeação: “[…]</p><p>mas em breve fizeram-lhes compreender que a teimosia não resultaria em ne-</p><p>nhum bem à imperatriz, mas, com maior probabilidade, arruinar-lhes-ia as famí-</p><p>lias. Antes, pelo contrário, sei que o preço exigido pelo perdão de uma Casa foi o</p><p>sacrifício de uma linda carruagem nova, havia pouco importada de Londres, e que</p><p>se destinou à cocheira dela.”</p><p>Já havia antes uma Carneiro Leão, nora de Ana Francisca, perdido a vida por</p><p>conta dos ciúmes de Carlota Joaquina. Perder uma carruagem seria o menor dos</p><p>problemas.</p><p>9 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 9 9</p><p>21. Antigo Largo do Palácio, atual Praça XV, com o chafariz em primeiro</p><p>plano, o Paço da Cidade à esquerda e a Capela Imperial ao fundo.</p><p>Meu amor,</p><p>Com aquela confiança que é própria entre amantes, e que entre</p><p>nós existe, lhe ofereço essa Cutia (1), que comprei de propósi-</p><p>to para lha enviar. Mecê me perdoará tanta impertinência; mas</p><p>mande-me na sua carta um abraço, um beijo e um aperto de mão</p><p>para consolar a</p><p>Este seu fiel, constante, desvelado, verdadeiro e agradecido</p><p>amante até a morte</p><p>O Demonão</p><p>P. S.</p><p>Como a nossa Belinha gosta desses bolos, eu lhe peço que de mi-</p><p>nha parte lho ofereça dando-lhe um beijo.</p><p>(1) O cozinheiro nacional, primeiro livro a registrar algumas comidas tipi-</p><p>camente brasileiras, fornece uma receita de bolo de paca e dá diversas receitas</p><p>utilizando carne de cutia. Devido à semelhança das duas, parece provável que se</p><p>fizessem, na época, bolos com esse ingrediente. Cláudio Zannoni informa que o</p><p>bolo de cutia era uma iguaria indígena e dá a receita: “A carne de cutia é socada</p><p>no pilão junto com a farinha de puba e com ela são feitos uns bolos de carne que,</p><p>26</p><p>9 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 9 9</p><p>colocados no tupé, serão distribuídos por cada moça, no fim das festas, às pessoas</p><p>mais queridas ou aos convidados especiais […]”.6</p><p>Meu amor,</p><p>Dou-lhe parte que seu Mano João saiu (1), por proposta do Viei-</p><p>ra (2), que teve ordem Minha para arranjar os oficiais que esta-</p><p>rão às ordens do General Abreu (3), Comandante do Rio Pardo.</p><p>É para mim o prazer maior que tenho o agraciar-lhe algum seu</p><p>parente e mui especialmente como um mano seu.</p><p>Aceita o coração</p><p>Deste seu desvelado, verdadeiro, constante, fiel e agradecido</p><p>amante até a morte</p><p>O Demonão</p><p>(1) João de Castro do Canto e Melo (1786-1853), segundo visconde de Cas-</p><p>tro, em 1827. Militar, chegou à patente de brigadeiro em 1837.</p><p>(2) João Vieira de Carvalho (1781-1847). Barão, conde e marquês de Lages,</p><p>ministro da Guerra.</p><p>(3) José de Abreu Mena Barreto (1821-1826). Barão do Serro Largo, foi go-</p><p>vernador de Armas do Rio Grande do Sul. Morto por fogo amigo durante a batalha</p><p>de Ituzaingó (ou Passo do Rosário), durante a Guerra da Cisplatina.</p><p>O nome do irmão de Domitila foi escolhido em 1825, junto com diversos ou-</p><p>tros, de uma lista enviada pelo governador militar do Rio Grande em 23 de outu-</p><p>bro de 1824. João de Castro foi nomeado nessa ocasião comandante da guarnição</p><p>de Rio Pardo no Rio Grande do Sul.</p><p>27</p><p>1 0 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 0 1</p><p>22. Sir Charles Stuart.</p><p>1 0 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 0 1</p><p>Meu amor,</p><p>O Stuart (1) até agora ainda não veio, não sei se por culpa de</p><p>Luiz José (2) lhe não ter dado meu recado. Agora mandei o sar-</p><p>gento ver se ele vem, e não podendo eu sair sem receber a notícia,</p><p>estimaria que mecê me viesse acompanhar, e depois de falar ao</p><p>homem ou saber que ele não vem, iremos ambos para sua casa.</p><p>Seu amante etc.</p><p>O Imperador</p><p>P. S.</p><p>Estou munido bastante.</p><p>(1) Sir Charles Stuart (1779-1845), diplomata britânico encarregado de me-</p><p>diar o reconhecimento, por Portugal, da Independência do Brasil. Desembarcou</p><p>no Rio de Janeiro na segunda-feira, 18 de julho de 1825. O almirante Graham</p><p>Eden Hamond, que trouxe Stuart ao Brasil, informa em seu diário que, ao desem-</p><p>barcarem, avistaram uma carruagem com uma escolta de guardas. Era d. Pedro,</p><p>dirigindo ele mesmo seu carro, tirado por quatro cavalos. Exibindo sua destreza,</p><p>o imperador respondeu a posição de sentido e o cumprimento dos ingleses sem</p><p>parar a viatura. Após passar por eles, retornou e perguntou se era o embaixador</p><p>Stuart. Diante da confirmação, conversaram por cerca de cinco minutos. Tanto ao</p><p>embaixador quanto ao almirante ficou a impressão de que a atitude intempestiva</p><p>de d. Pedro em aparecer durante o desembarque não foi muito digna de um im-</p><p>perador. Os fleumáticos britânicos esperavam encontrar um governante que fosse</p><p>capaz de refrear sua curiosidade. Em 21 de julho,7 d. Pedro chamou sir Charles</p><p>Stuart para uma reunião, mas ele só apareceu no dia seguinte. É provável que esta</p><p>carta seja dessa data.</p><p>(2) Luís José de Carvalho e Melo (1764-1826), ministro do Estrangeiro</p><p>na época.</p><p>28</p><p>1 0 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 0 3</p><p>Meu amor,</p><p>As razões em contrário à ida do Tomás (1) são as mesmas por</p><p>mim dadas ontem a mecê, e acresce mais que, indo o seu batalhão</p><p>e sendo ele trocado, o seu contrário em São Paulo dirá que isto</p><p>foi feito de propósito para que o Tomás lhe não pague, vista esta</p><p>razão que acresce em contrário deve ir, pois vai o seu corpo, e ele</p><p>que faça um requerimento requerendo meios de conciliação com</p><p>o seu adversário, o que é muito fácil.</p><p>Sinto infinito quando não posso fazer o que mecê pede; mas</p><p>é o que acontece a quem como eu deseja manter a justiça e a dis-</p><p>ciplina militar, que muitas vezes tem de dar golpes em sua alma e</p><p>faltar a quem ama quando lhe pede qualquer coisa.</p><p>Pode dispor de tudo o que for propriedade</p><p>Deste seu desvelado, constante, verdadeiro, fiel, agradecido,</p><p>e todo amante</p><p>O Demonão</p><p>(1) Provável referência ao primeiro cirurgião-mor da Legião das Tropas Li-</p><p>geiras de São Paulo, Tomás Gonçalves Gomide. Quando Domitila foi apunhalada</p><p>por Felício em 1819, esse médico cuidou de seus ferimentos. Ou ainda a Tomás de</p><p>Aquino e Castro, tenente de Caçadores do 1º Batalhão de São Paulo, estacionado</p><p>em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, que, presente à Casa de Ópera de São Paulo</p><p>na noite de 7 de setembro, recitou um poema de sua autoria em homenagem a d.</p><p>Pedro I. Ele também testemunhou a favor de Domitila no processo de divórcio,</p><p>em 1824.</p><p>A consciência da posição que ocupava é explícita nesta frase: mas é o que</p><p>acontece a quem como eu deseja manter a justiça e a disciplina militar. Tanto essa</p><p>carta como a que aparece na sequência comprovam que ele não atendia a todos os</p><p>pedidos da amante.</p><p>29</p><p>1 0 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 0 3</p><p>Meu amor,</p><p>Recebi o requerimento que me mandou. Estimaria muito fazê-lo,</p><p>mas bem vê que se um quer ficar, outro logo adquire o direito de</p><p>ir, e assim não há aquela obediência que é mister que haja entre</p><p>militares, e em um tempo que tudo é fazerem todos o que que-</p><p>rem e lhes apraz. A proposta já está acabada, e arranjados os</p><p>capitães conforme suas capacidades relativas às dos comandan-</p><p>tes dos comandados, e dos empregos que de ordinário se dão às</p><p>companhias em ocasiões de fogo ou de exercício. Alguns que são</p><p>doentes com o Delbeck vão, e D. Antonio (1). Eu sempre estou</p><p>pronto para fazer o que mecê quiser, e portanto decida e ordene-</p><p>-me o que quiser à vista das razões que exponho, e me parecem</p><p>de ponderação, e mostre esta ao seu mano Carlos (2), que ele co-</p><p>nhecerá a razão do exposto. Além disso, como eu mudei capitães</p><p>de um batalhão para o outro, não estou certo no batalhão em que</p><p>ficou o Chagas.</p><p>Fica sempre pronto para a servir em tudo, e por tudo</p><p>Este seu amante fiel, constante, desvelado, verdadeiramente</p><p>agradecido</p><p>O Imperador</p><p>(1) Indivíduos não identificados.</p><p>(2) Vide carta 1, nota 4.</p><p>30</p><p>1 0 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 0 5</p><p>Meu amor,</p><p>Estimo que passasse bem, e melhor um tanto a nossa Belinha.</p><p>Neste momento chego da velha Condessa (1), e como em toda a</p><p>parte nunca de mecê me esqueço, trouxe esses quatro morangos</p><p>que são de planta do Chile, e não trouxe mais nem comi nenhum,</p><p>primeiro porque não haviam mais, e segundo porque lhe traria</p><p>todos por ser meu prazer mimoseá-la. Igualmente trouxe a planta</p><p>deles, a de roseiras de cem-folhas e a de hortênsia, que são para</p><p>a sua chácara, mas enquanto mecê para lá não vai (2) eu as tra-</p><p>tarei para depois irem. Esta tarde vou ao depósito ver os estran-</p><p>geiros, e terei o gosto de a ver à noite às horas que a costumo ver.</p><p>Este seu desvelado, constante e fiel amante</p><p>O Demonão</p><p>(1) D. Pedro refere-se à condessa de Roquefeuil (?-27/9/1835), antiga dama</p><p>de honra de madame Elisabete, irmã de Luís XVI. Mlle. de Roquefeuil fugiu da</p><p>França durante a Revolução, logo depois da prisão de madame Elisabete.8 Na</p><p>companhia de seu sobrinho, o conde Aymer de Gestas, estabeleceu-se em Por-</p><p>tugal, sob proteção da família real, com a qual seguiram os dois para o Brasil em</p><p>1808. Aqui a condessa adquiriu uma vasta propriedade na Tijuca, onde o conde</p><p>de Gestas dedicou-se a aclimatar morangos e enxertar damasqueiros, além do</p><p>cultivo de café e da criação de gado leiteiro. D. Pedro e d. Leopoldina, que eram</p><p>seus amigos, costumavam ir até a propriedade, onde comiam morangos frescos</p><p>com creme batido.9</p><p>(2) Em 7 de dezembro de 1825, o advogado Diogo Soares da Silva de Bi-</p><p>var escreveu10 para o Chalaça, secretário de d. Pedro, dando informações de que</p><p>procedera conforme fora ordenado para a reunião das edificações e cocheiras da</p><p>viscondessa de Santos, título de Domitila até outubro de 1826. A nova casa da</p><p>favorita, para onde iria se mudar após regressar da Bahia, em abril de 1826, já</p><p>estava sendo providenciada meses antes. Nota-se a preocupação de d. Pedro com</p><p>tudo o que dizia respeito a Domitila, como as flores que comporiam o jardim da</p><p>nova residência.</p><p>31</p><p>1 0 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 0 5</p><p>Meu amor,</p><p>Desejo que me mande dizer como passou, assim como também a</p><p>nossa Belinha. Eu aqui estou pronto para ir à festa dos Cavalei-</p><p>ros de Cristo (1), e para a servir naquilo que estiver ao alcance</p><p>Deste seu amante fiel e constante</p><p>O Demonão</p><p>(1) A festa dos Cavaleiros de Cristo realizava-se na Capela Imperial (Igreja de</p><p>Nossa Senhora do Monte do Carmo) em 14 de setembro.</p><p>Meu amor,</p><p>Neste momento chego da cidade de dar audiência (1). Lá foi o</p><p>homem (2); mas creio que teve algum aviso de algum amigo, pois</p><p>falou tão submisso quanto outro dia atrevida e altivamente.</p><p>Remeto as pulseiras e estimarei que estejam a seu gosto, pois</p><p>só assim ficará satisfeito</p><p>Este seu desvelado, constante, fiel, agradecido e verdadeiro</p><p>amigo e amante</p><p>O Imperador</p><p>(1) As audiências e despachos ocorriam no Palácio de São Cristóvão, na</p><p>Quinta da Boa Vista, residência do imperador, aos sábados, e no paço imperial,</p><p>antigo palácio dos vice-reis, localizado na atual praça XV, às terças.</p><p>(2) Provável referência ao ex-marido de Domitila, Felício Pinto Coelho de</p><p>Mendonça. Em carta para o governo austríaco, o barão de Mareschal informava</p><p>em outubro de 182511 sobre um incidente de que teve conhecimento. Felício teria</p><p>enviado para o ex-cunhado, Boaventura Delfim, uma carta falando mal da ex-</p><p>-mulher. D. Pedro tomou conhecimento dela e foi tirar satisfações com Felício,</p><p>acabando por esbofeteá-lo.</p><p>32</p><p>33</p><p>1 0 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 0 7</p><p>Meu amor</p><p>e meu encanto,</p><p>Vou saber em primeiro lugar da sua saúde, e da nossa Belinha.</p><p>Ontem foi tal o sono que nem acabei de rezar, e por isso nada</p><p>arranjei, e deixei para hoje, até porque nós ainda não podía-</p><p>mos hoje...</p><p>Perguntei ao jardineiro pelas violetas, tinham morrido com</p><p>a doença dela, pois não foram tratadas. Disse-lhe que as pulve-</p><p>rizasse aonde as houvesse. Quanto à goiabada, mandei comprá-</p><p>-la para lha ofertar pois bem sabe o quanto lhe desejo adivinhar</p><p>os pensamentos, quanto mais aquilo que eu sei por me ter dito</p><p>que gosta.</p><p>Quanto à Chica (1), o Chalaça (2) não tinha ajustado como</p><p>eu lhe tinha dito. Ordenei-lhe que de novo fosse e ajustasse tudo,</p><p>pois era para coisa que me pertencia tão de perto e que pertencia</p><p>a quem eu tanto estimava que tudo acharia pouco, e que despesas</p><p>feitas em provento da mocidade, e de uma tal menina que eu tan-</p><p>to estimo, não era nada, antes fazia muito prazer ante mais esta</p><p>ocasião de lhe mostrar o meu afeto como quem é e se confessa e</p><p>promete ser para o futuro</p><p>Seu amante fiel e constante</p><p>O Demonão</p><p>P. S.</p><p>Hoje estou muito pachola, sinto não lhe poder ir aos cofres; mas</p><p>amanhã será. Aí vão 50 laranjas das melhores.</p><p>(1) Francisca Pinto Coelho de Mendonça e Castro (1813-1833), filha de Do-</p><p>mitila e Felício, casou-se com seu tio materno, José de Castro do Canto e Melo, em</p><p>1828 (anexo 4, p. 185). Faleceu em São Paulo antes de completar 20 anos.</p><p>Em outubro de 1825, d. Pedro deu ordens a seu secretário Francisco Gomes</p><p>da Silva, apelidado de Chalaça (2), que realizasse em nome de Francisca um depó-</p><p>sito de quatro contos de réis:</p><p>34</p><p>1 0 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 0 7</p><p>para tudo render até ela se casar, ir lá ficando em depósito para que logo que</p><p>complete o total de uma ação ficar com cinco ações e assim progressivamente</p><p>até casar-se.12</p><p>Personagem controvertido de nossa história, Francisco Gomes da Silva</p><p>nasceu em Lisboa em 22 de setembro de 1797 e faleceu na mesma cidade, em 30</p><p>de setembro de 1852. Veio para o Brasil junto com a corte e foi expulso do paço</p><p>em 1819, segundo alguns por se envolver com uma dama de companhia. Foi um</p><p>dos companheiros de d. Pedro na viagem para São Paulo em 1822 e testemunha</p><p>do 7 de setembro. Em 1823, foi nomeado oficial maior da Secretaria dos Negó-</p><p>cios do Império, e em 1825 passou a servir como secretário do Gabinete Parti-</p><p>cular do imperador. Deixou o Brasil em 1830 por questões políticas. Sempre fiel</p><p>a d. Pedro, mesmo após a morte deste continuou servindo a casa de Bragança,</p><p>empregando-se no serviço da imperatriz d. Amélia e de sua filha, a princesa d.</p><p>Maria Amélia.</p><p>Meu amor,</p><p>Soube agora que no banco não se paga aos menores sem procu-</p><p>ração assinada pelo pai ou pela mãe, e assim mecê assine a pro-</p><p>curação que o Chalaça lhe leva, que é a da Chiquinha.</p><p>De carteira, por ora, nada de novo. Aí remeto o modo por</p><p>que deve assinar. Sou com todo o amor de mecê</p><p>Seu fiel, constante, desvelado, verdadeiro e agradecido amante</p><p>O Demonão</p><p>35</p><p>1 0 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 0 9</p><p>Meu amor,</p><p>Quem ama com verdadeiro amor é franco e sincero, e não teme</p><p>desavenças quando fala a verdade.</p><p>Hoje, meu amor, topei o Alferes Lobo com a mulher. As-</p><p>suntei logo que lha devia participar antes que as inzonas (1) e as</p><p>intrigas fervessem contra mim, e ao mesmo tempo protestar-lhe</p><p>novamente minha fidelidade, dar-lhe minha palavra de honra, já</p><p>por mim a mecê dada, que não quero nada de mais ninguém.</p><p>Perdoe se com isto a enfado; mas o meu amor é [rasgado]</p><p>me manda fazer este protesto, ao qual jamais falharei. Aceita o</p><p>coração amoroso</p><p>Deste seu amante, fiel e constante para sempre</p><p>O Demonão</p><p>P. S.</p><p>Como lhe conheço seu gênio ciumento que prova amizade, eu</p><p>lhe peço por todos os santos, pela vida da nossa Isabel, que mecê</p><p>mande indagar se assim me comporto com ela ou com qualquer</p><p>outra, porque estou certo que se os [que] indagarem forem verda-</p><p>deiros, em mim se não achará mentiroso.</p><p>(1) Inzonas: mentiras, o mesmo que intrigas.</p><p>D. Pedro faz uma defesa prévia contra um possível ataque de ciúmes de Do-</p><p>mitila (provavelmente por causa da mulher do mencionado alferes Lobo).</p><p>disfarçar-se, usar de astúcia, criar aliados poderosos, distribuir</p><p>favores, seduzir, corromper, castigar... As cartas para Titília, escritas pelo imperador</p><p>que se nomeava o “Demonão”, denotam todas essas facetas utilizadas com maestria</p><p>para seduzir o soberano, tornando-o capaz de se afirmar completamente entregue</p><p>aos caprichos da amada, retratando um apaixonado correspondente, que chegou ao</p><p>ponto de usar uma luneta para, do seu palácio, controlar a astuta amante.</p><p>Do primeiro encontro, em setembro de 1822, até a última carta reproduzida</p><p>neste livro, em que a marquesa comunica a sua partida “esta madrugada”, no dia 27</p><p>de agosto de 1829, Titília será uma exemplar patronesse das “maîtresses-en-titre”</p><p>no Brasil, título dado a amante oficial dos reis em França, embora já não houvesse</p><p>mais a hegemonia do regime político que as abrigara e nem a irrestrita tolerância</p><p>dos súditos para com a poligamia dos soberanos. Ainda assim, ela foi, como suas</p><p>antecessoras, instalada no palácio – tanto como dama camareira da imperatriz no</p><p>Paço de São Cristóvão, como tendo um palacete próprio nos arredores da Quinta da</p><p>Boa Vista –, teve os filhos legitimados convivendo com os príncipes reais e transitou</p><p>pela corte com plenos direitos de ali estar, inclusive paga pelos cofres do Estado.</p><p>Entre as inúmeras possibilidades de imaginação que este livro nos proporciona,</p><p>um aspecto interessante refere-se ao luxo, às vestimentas e às joias, frequentemente</p><p>citadas nas cartas. Traço comum entre as concubinas era o gosto pelos diamantes,</p><p>muito praticado pelas madames de Pompadour e du Barry,7 cujos epítetos foram</p><p>diversas vezes utilizados para designar a marquesa. Mesmo que nem todos os sobe-</p><p>ranos tenham chegado à extrema ousadia de tornar suas amantes detentoras de altos</p><p>títulos nobiliárquicos, os reis gostavam de expor suas mulheres cintilando desde o</p><p>penteado até os pés. Tiaras, brincos, colares, pulseiras, anéis, tornozeleiras, fivelas,</p><p>botões, seguranças e alfinetes, de brilhantes, de pérolas e de coloridas pedras pre-</p><p>ciosas disputavam com as fitas, as rendas e os brocados a profusão da beleza, que</p><p>fazia de cada encontro um momento que deveria perpetuar o efeito ilusionista sobre</p><p>o príncipe. Ao mais poderoso homem da terra, a mais bela e rica “donzela”! No en-</p><p>tanto, despida, ela superava qualquer outra mortal, aliando a perfeição daquilo que</p><p>Deus e os homens eram capazes de produzir juntos! Com o imperador brasileiro</p><p>não foi diferente; ao contrário, tratou de enfeitar a bela Titília com uma abundância</p><p>de presentes valiosos, como registra nas cartas. São poucas as missivas em que não</p><p>se refere a uma prenda para sua amada, tanto uma goiabada ou cinquenta laranjas,</p><p>quanto um colar de ametistas ou uma pulseira. Inadequada no tempo e no lugar,</p><p>1 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O P r E f á c I O 1 5</p><p>Titília jamais deixou de cintilar, não apenas com magníficas joias, tecidos de cetins,</p><p>tafetás, toquinhas, bordados, plumas, lenços, luvas, leques e sombrinhas, com os</p><p>quais a modista sugerida pelo imperador irá vesti-la desde a sua chegada à corte,</p><p>“para se apresentar na Glória enervando todas que lá aparecerem”,8 mas, também,</p><p>nos olhares e nas bocas de cortesãos e cortesãs que, por certo, pagariam qualquer</p><p>preço para ler essas cartas que você, agora, tem em mãos, caro leitor!</p><p>Certamente era essa ascensão notória que fazia da cama do imperador um</p><p>espaço bastante disputado. Maria Graham9 conta, em suas memórias, que a con-</p><p>dição de “favorita” de d. Pedro I era a aspiração de muitas mulheres que, da mes-</p><p>ma maneira que havia procedido a futura marquesa, cuja nobreza foi conquistada</p><p>entre os lençóis, tentavam se aproximar do monarca utilizando aqueles que ti-</p><p>nham o privilégio de ser recebidos por ele. Para isso, conta a inglesa, ela teria sido</p><p>insistentemente incitada por madame Bonpland, uma francesa, a promover uma</p><p>entrevista dela com o soberano, a fim de resolver várias pendências, mas que, na</p><p>verdade, tinha outro interesse, como concluía: “[…] não pode haver dúvida que o</p><p>intento desta mulher era suplantar Mme. de Castro”. Nesse quesito, as cartas, por</p><p>sua vez, revelam aquilo que se pode imaginar tratando-se de dois personagens</p><p>de gênio reconhecidamente forte: o Demonão utiliza grande parte do seu tinteiro</p><p>para convencer a ciumenta Titília de que está mudado e que ela é a única mulher</p><p>com quem ele faz “amor por devoção”, em contraponto à obrigação do “amor de</p><p>matrimônio”10 relegado à imperatriz.</p><p>Entretanto, ainda que se esforce, por meses, para demonstrar a sua fidelidade</p><p>e, na despedida das cartas, faça questão de registrar que ela é a única “do seu aman-</p><p>te fiel, constante, desvelado, verdadeiramente agradecido”, o teor das explicações</p><p>permanentes denota que a atenta Titília não estava disposta a abrir mão de seus</p><p>privilégios e contava com uma rede de informantes para vigiar as possíveis recaí-</p><p>das do imperador. Entre esclarecimentos, linhas e mais linhas de justificativas, d.</p><p>Pedro aparece para os leitores atuais como um homem atormentado pelos ciúmes</p><p>da mulher amada e, surpreendentemente, com a extrema preocupação de perder o</p><p>seu afeto, caso ela decidisse acreditar em alguma das “intrigas” contadas, a ponto</p><p>de assim encerrar uma de suas cartas: “Este seu fiel, triste e desconsolado amante</p><p>que com lágrimas rega esta carta”.11</p><p>Não se pode esquecer que o mesmo d. Pedro apaixonado, que não via a hora</p><p>de trazer a amada para a corte, não se furtou a ter um caso com a irmã de Domitila</p><p>(nesse ínterim em que ela se deslocava), do qual nasceu uma criança e resultou em</p><p>mais um título de baronato à família. Por sua vez, o próprio imperador também</p><p>protagoniza, nas cartas, diferentes cenas de ciúmes que envolvem desde uma pri-</p><p>1 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O P r E f á c I O 1 5</p><p>ma de Titília, até um anel dado por ela,12 chegando ao extremo de se estabelecerem</p><p>regras para contornar os ciúmes de ambos, descritas em uma das cartas.13</p><p>Nas cartas há ainda muito mais; sobretudo, passagens hilárias que poderiam</p><p>ser escritas por qualquer homem comum dirigindo-se à sua amante, não exis-</p><p>tindo a menor hipótese de se desconfiar que se tratava do imperador do Brasil,</p><p>particularmente quando ele reclama de dores, tem constantes preocupações com a</p><p>saúde, tem pânico de dores de cabeça,14 chama os médicos de ladrões, entre outras</p><p>peripécias que mais se assemelham às de um burguês de seu tempo. Aliás, talvez,</p><p>esteja aí o trunfo de Titília: um enredo familiar no qual d. Pedro era tratado apenas</p><p>como mais um participante, embora protagonista, mas que chamava aos pais dela</p><p>de “velho” e “velha”,15 assim como aos irmãos de “manos”. Era como se aquela fosse</p><p>a sua casa, com a qual ele se preocupava, inclusive com as atividades domésticas,</p><p>enviando gêneros para a ceia, dando permissão para passeios, autorizando o tra-</p><p>tamento dos cavalos etc.</p><p>Além disso, não era, particularmente, durante os dias que a visita ilustre do</p><p>imperador, ao apear do cavalo e cruzar a soleira da porta, transformava-o tão so-</p><p>mente em um próspero burguês, comportando-se deliberadamente como tal. Pelo</p><p>que se depreende das cartas, essa transfiguração ocorria, notadamente, às noites,</p><p>após as 10 horas, que parecem ter sido os principais momentos em que coabitavam</p><p>Titília e o Demonão, juntos, na mesma cama, quando conversavam e se apalpavam</p><p>“por dentro e por fora”,16 consolidando a visão burguesa, muito diferente dos reis e</p><p>rainhas, cada um em seus aposentos palacianos.</p><p>Em que pese o fato de os contemporâneos de Titília e Demonão não terem</p><p>conhecimento do conteúdo das cartas dispostas maravilhosamente como ima-</p><p>gens e transcritas neste livro, o romance entre os amantes era público. A con-</p><p>cubina, que virou favorita, que virou marquesa e a quem, segundo Norton, o</p><p>imperador teria coberto de benesses, com uma “girândola de títulos” que abran-</p><p>geram todos os Castros Cantos e Melos, Toledos Ribas e “até alguns colaterais</p><p>destes”, irritou profundamente a população brasileira. Tal antipatia pela</p><p>Com</p><p>culpa no cartório ou não, a longa lista de amantes, reais ou atribuídas, que o impe-</p><p>rador manteve durante o relacionamento com Titília, é bem conhecida.</p><p>36</p><p>1 0 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 0 9</p><p>Meu amor,</p><p>Eu não fui na casa nem do grande nem do pequeno Boaventura</p><p>(1). Soube do homem porque mandei o Chalaça tirar a certidão</p><p>do livro mestre da guarda de honra. Eu sou incapaz de faltar</p><p>ao que prometo, de deixar de não cumprir minha palavra. Estou</p><p>pronto a corresponder ao que lhe disseram esses desavergonados</p><p>ou desavergonhados, pois nunca me acharás mentiroso. Tenho</p><p>honra, não sou bandalho (2), e só o que digo é que aqui anda mão</p><p>oculta que nos quer separar. Eu sou inacessível a intrigas, amo-a,</p><p>jamais deixarei de amá-la, ainda que mecê vá para o inferno eu</p><p>haveria [de] vê-la, e pela minha parte achará sempre constância</p><p>à prova de sombra, assim [como] eu achasse da sua. Torno a di-</p><p>zer [que] estou pronto a responder, pois jamais haverá quem fale</p><p>mais verdade do que eu, e nunca dirás que é brincadeira uma</p><p>coisa que eu souber para me desculpar como mecê disse, sabendo</p><p>também aonde é e quem é ele esse feliz que é preferido a</p><p>Este seu fiel, triste e desconsolado amante que com lágrimas</p><p>rega esta carta</p><p>O Demonão</p><p>(1) Boaventura Delfim Pereira, cunhado de Domitila. Essa discussão pode</p><p>ter tido uma razão: ciúmes. Logo depois da chegada da família de Domitila ao Rio,</p><p>d. Pedro engravidou a irmã dela, Maria Benedita. O filho deles, Rodrigo, nasceu</p><p>em novembro de 1823, sendo assumido como filho de Boaventura, que começava</p><p>a ganhar cargos e futuramente seria feito nobre com o título de barão de Sorocaba</p><p>em 1826. Foi veador da Casa Imperial, comendador da Ordem de Cristo e supe-</p><p>rintendente e administrador-geral das Fazendas e Quintas Imperiais, desde 21 de</p><p>abril de 1824. Rodrigo Delfim Pereira casou-se com Carolina Bregaro, sobrinha</p><p>de Paulo Emílio Bregaro, patrono dos carteiros brasileiros, que entregou os ofícios</p><p>das Cortes de Lisboa e as cartas de d. Leopoldina e José Bonifácio para d. Pedro</p><p>no dia 7 de setembro, na região do Ipiranga, em São Paulo. Segundo alguns his-</p><p>toriadores, Carolina Bregaro teria sido amante do meio-irmão de seu marido, o</p><p>imperador d. Pedro II.</p><p>(2) Pessoa desprezível, sem dignidade.</p><p>37</p><p>1 1 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 1 1</p><p>Meu amor,</p><p>É próprio do homem de bem, quando conhece o mal que faz,</p><p>pedir perdão, posto que seja qual for a sua hierarquia, porque a</p><p>honra do ofensor e do ofendido assim o pedem. Eu conheço o mal</p><p>que ontem fiz, e como honrado, e seu verdadeiro amigo, lhe peço</p><p>perdão. Se o amor que temos um ao outro é verdadeiro, devemos</p><p>perdoar suspeitas mal fundadas ou, por outra, ciúmes vagos sem</p><p>fundamento. Quem ama de veras não pode deixar de ter estes, e</p><p>para os curar serve o mesmo amor conjuntamente com o juízo.</p><p>Não lhe pareça, meu amor, que esta linguagem é da boca</p><p>para fora ou filha da astúcia ou da velhacaria própria dos falsos</p><p>amantes: mas não é. É filha do meu coração arrependido que todo</p><p>se derrete em amor quando se lembra que de tão longe mecê veio,</p><p>e que tanto tempo ausente se mostrou constante. Estes os votos</p><p>Deste seu amante</p><p>O Demonão</p><p>P. S.</p><p>Apesar de lá estarmos sós, eu sempre lá vou esta noite para lhe</p><p>mostrar em tudo que puder o meu constante amor.</p><p>38</p><p>1 1 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 1 1</p><p>Meu amor,</p><p>A minha vista não é para olhar para as mulheres, e sinto infinito</p><p>ser tão desgraçado que por mais que busque de todas as formas</p><p>agradar-lhe sempre mecê está comigo indisposta. Em uma pala-</p><p>vra, sou o ente mais infeliz que pode haver, pois não tenho hora</p><p>que não seja em aflição, quer por negócios públicos quer por par-</p><p>ticulares. Com as lágrimas nos olhos, me reputo desgraçado e</p><p>tenho a desventura de ser julgado por mecê capaz de todo o mal</p><p>pois julga que falto à minha palavra. Valha-me Deus. Valha-me</p><p>Deus, e compadeça-se.</p><p>Deste seu infeliz amante, mas sempre cada vez mais fiel,</p><p>constante, desvelado e agradecido amante</p><p>O Imperador</p><p>P. S.</p><p>É a alma que fala aos olhos, são duas fontes, e a alegria fugiu de meu</p><p>semblante enquanto esta noite mecê se não compadecer de mim.</p><p>39</p><p>1 1 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 1 3</p><p>23. Carta de d. Pedro I para Domitila de Castro. Rio de Janeiro,</p><p>circa 1825. Hispanic Society of America, Nova York.</p><p>1 1 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 1 3</p><p>Meu amor,</p><p>Remeto essas frutas da Alagoa de Freitas (1) a que chamam =</p><p>Langonas (2). Comem-se, são doces e muito inocentes, não fa-</p><p>zem mal algum. Remeto igualmente as flores que vinham na ban-</p><p>deja que Padre Frei Leandro (3) trouxe, assim como pão de ló</p><p>para a nossa Belinha. Não tendo mais nada que lhe oferecer, lhe</p><p>oferece a sua vida.</p><p>Este seu constante, fiel, desvelado, verdadeiro e muito agra-</p><p>decido amante do coração</p><p>O Imperador</p><p>P. S.</p><p>Esta tarde eu vou ao Arsenal da Marinha, e à noite sairemos no</p><p>carro novo se mecê quiser.</p><p>O mesmo</p><p>(1) Alagoa de Freitas era uma expressão comum na época para designar o</p><p>Jardim Botânico, criado por d. João VI nas imediações da lagoa Rodrigo de Freitas.</p><p>(2) É provável que d. Pedro esteja se referindo a uma fruta asiática chamada</p><p>longan (Euphoria longana), parente da lichia, cuja safra ocorre entre novembro e</p><p>janeiro. Maria Graham, que conheceu o Jardim Botânico em dezembro de 1822,</p><p>refere-se a essa fruta como longona, “espécie de Litchi da China”. Além do fato</p><p>de ambos errarem o nome da fruta, ou terem tido informação errada, chama a</p><p>atenção o fato de d. Pedro ter destacado a palavra “Langona” e terminar a frase</p><p>com “muito inocentes, não fazem mal algum”. Poderia ser uma brincadeira de</p><p>duplo sentido, pois uma palavra bastante semelhante a essa, langonha, significa</p><p>substância gosmenta, esperma. Só quem já comeu a fruta poderá compartilhar</p><p>da brincadeira.</p><p>(3) Frei Leandro do Sacramento, primeiro diretor do Jardim Botânico do Rio</p><p>de Janeiro, de 1824 a 1829. Sendo amigo da imperatriz d. Leopoldina, não seria di-</p><p>fícil imaginar que d. Pedro tivesse desviado para a amante os presentes destinados</p><p>à esposa, assim como anteriormente já havia repassado para Domitila rosas dadas</p><p>a ele pela imperatriz.13</p><p>40</p><p>1 1 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 1 5</p><p>24. Jardim Botânico, Rio de Janeiro.</p><p>Meu amor,</p><p>Minha Titília do meu coração,</p><p>Já cá tenho o caixão em que vêm as guarnições de flores de penas</p><p>(1) da Bahia.</p><p>À noite o levo para que, aberto à sua vista, mecê escolha</p><p>aquelas que lhe agradar. Fique certa do prazer que tenho quando</p><p>lhe faço dar provas do quanto me lembro de mecê, e do quanto a</p><p>estimo. Em mim não há lisonja, é só amor e felicidade. Assim o</p><p>afirma</p><p>Este seu fiel constante desvelado, agradecido e verdadeiro</p><p>amante</p><p>O Imperador</p><p>41</p><p>1 1 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 5 1 1 5</p><p>(1) Segundo o príncipe Maximiliano:</p><p>Em alguns conventos (em Salvador), as freiras fazem lindas flores com as</p><p>penas das aves do país, tão notáveis pela variedade e diversidade de suas cores.</p><p>Elas mostram esses ramos de flores aos estrangeiros que vêm visitar o Convento.14</p><p>Seria tentador colocar essa carta em 1826, após o regresso deles da Bahia, em</p><p>abril, porém a carta seguinte, irmã desta, impede. D. Pedro oferece a Domitila uma</p><p>flor cuja floração não ocorreria no período após o retorno.</p><p>Meu amor, minha Titília,</p><p>Remeto a chave, e profetizo que não se abrirá o caixão; pois o</p><p>defeito é da fechadura.</p><p>Tenho o gosto de lhe ofertar esses ramos de Minhonette (1),</p><p>que serão para mecê cá trazer à tarde quando vier com sua tia.</p><p>Adeus, meu bem, e meu único pensamento até nos vermos, que</p><p>lhe apertará a mão</p><p>Este seu desvelado agradecido, fiel, constante e verdadeiro</p><p>amante do coração</p><p>O Imperador</p><p>(1) Planta de jardim (Reseda odorata), com floração entre novembro e</p><p>fevereiro.</p><p>42</p><p>1 1 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 1 71 1 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 1 71 1 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 1 7</p><p>1826</p><p>1 1 8 T I T Í</p><p>L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 1 9</p><p>Meu amor, minha Titília,</p><p>Fui com efeito à Conceição (1) [e] achei tudo bom. Desci ao Ar-</p><p>senal (2) pela ladeira da Prainha (3) e vi a Corveta (4) bastante</p><p>adiantada. Entrei na Alfândega, dei minhas ordens e ao sair deu-</p><p>-me meio-dia e não pude como lhe havia dito ir ao Trem (5). Não</p><p>podendo pelo verdadeiro e sincero amor que lhe tenho deixar de</p><p>procurar todas as ocasiões de a ver, tentei e fiz caminho para esta</p><p>chácara pela rua das Marrecas (6), aonde eu supunha achá-la,</p><p>e tão grande é minha ventura que tive o gosto de a ver antes da</p><p>tarde. Não assente mecê que o que digo é nem o mais levemente</p><p>ditado pela lisonja ou engano; mas sim pelo coração todo seu, e</p><p>que existe dentro.</p><p>Deste seu fiel, constante, desvelado, agradecido e verdadeiro</p><p>amante</p><p>O Imperador</p><p>P. S.</p><p>Tendo, hoje vai ao pintor (7); pois, não querendo a Imperatriz ir</p><p>ao exercício (8), tem o gosto de estar com mecê à sua vontade.</p><p>O mesmo</p><p>(1) Local onde se encontra a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, ainda</p><p>hoje existente no Morro da Conceição, bairro da Saúde, no Rio de Janeiro, onde</p><p>também ficava o palácio do bispo do Rio de Janeiro.</p><p>43</p><p>1 1 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 1 9</p><p>25. Arsenal da Marinha.</p><p>(2) Arsenal da Marinha. Na época, ficava ao pé do Morro de São Bento, onde</p><p>existiam os estaleiros da Marinha. Nesse local foram realizados os desembarques</p><p>cerimoniais das duas esposas de d. Pedro I, a arquiduquesa Leopoldina e a prince-</p><p>sa Amélia de Leuchtenberg.</p><p>(3) Antiga ladeira da Fortaleza da Conceição, atual ladeira João Homem, no</p><p>morro da Conceição.</p><p>(4) Provável referência à corveta Duquesa de Goiás, incorporada à frota bra-</p><p>sileira em 1826 e naufragada na entrada da barra do Rio Negro em 27 de fevereiro</p><p>de 1827, durante a Guerra da Cisplatina.</p><p>(5) D. Pedro refere-se à Casa do Trem, onde ficava guardado o armamento</p><p>militar (trem de artilharia). O prédio, ainda existente, é hoje ocupado pelo Museu</p><p>Histórico Nacional. A pólvora, estrategicamente, era guardada distante, onde era</p><p>fabricada, no Jardim Botânico.</p><p>(6) Atualmente a rua permanece com o mesmo nome. Próxima do Passeio</p><p>Público, no Rio de Janeiro, ganhou esse apelido devido à fonte que existia no</p><p>local. Luís Gonçalves dos Santos, o padre Perereca, assim a descreve: “É elegante,</p><p>em semicírculo, sua figura, cuja corda fica ao correr da rua dos Barbonos (atual</p><p>Evaristo da Veiga), onde estão dois tanques, para neles beberem as bestas; entre</p><p>os dois tanques há uma escada de pedra com oito degraus; no plano superior</p><p>está outro tanque com cinco marrecas de bronze, que nele lançam água pelos</p><p>bicos; na fachada desta fonte se vê uma grande inscrição lapidar e no alto sobres-</p><p>1 2 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 2 1</p><p>saem as armas reais; perpendiculares aos tanques e escada estão dois balcões de</p><p>ferro, [...] sobre os quais estão duas figuras de metal que representam Narciso</p><p>e a ninfa Eco.”1 As estátuas de bronze são de autoria de Mestre Valentim, e, se-</p><p>gundo Vieira Fazenda,2 o que o padre Perereca descreveu como sendo Narciso</p><p>é na realidade a deusa Diana, e a ninfa, uma náiade. O erro persiste até hoje nas</p><p>placas informativas dessas peças, que se encontram no Jardim Botânico, no Rio</p><p>de Janeiro.</p><p>26. Rua das Marrecas.</p><p>(7) Não existe nenhum retrato conhecido de Domitila nessa época. Porém,</p><p>como o mesmo pintor que a retratou mais tarde, Francisco Pedro do Amaral, tam-</p><p>bém trabalhou na decoração de seu novo palacete em São Cristóvão entre 1826</p><p>e 1827, é bem provável que se trate deste artista. Amaral (1790-1831) foi pintor-</p><p>-chefe e diretor das Decorações da Casa Imperial.</p><p>(8) D. Pedro fazia questão de participar dos exercícios militares que eram</p><p>realizados no Campo da Aclamação, antigo Campo de Santana, atual praça da Re-</p><p>pública, no Rio de Janeiro, e no Campo de São Cristóvão, dependendo do tipo de</p><p>manobras. Também era frequente a presença do imperador nos exercícios milita-</p><p>res executados no Quartel da Praia Vermelha, onde ficava estacionado o Segundo</p><p>Batalhão de Granadeiros, formado por imigrantes e mercenários alemães.3</p><p>1 2 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 2 1</p><p>Meu amor,</p><p>Dou-lhe parte que, havendo amanhã exercício (1), é mister mar-</p><p>car o campo para a marcha, e não me entendendo o Valente (2) o</p><p>modo por que eu o queria marcado, resolvi-me a ir com ele agora</p><p>marcá-lo. Levo a minha filha também, e se a Imperatriz não for</p><p>hei de ver se passo por sua casa para ainda ter o gosto de a ver</p><p>antes da noite. Creia que sou o</p><p>Seu fiel, constante, desvelado, agradecido e verdadeiro amante</p><p>O Imperador</p><p>(1) Exercícios militares. Pela expressão “marcar o campo”, pode se referir a</p><p>manobras militares que eram realizadas no Campo de São Cristóvão, onde hoje se</p><p>encontra o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas.</p><p>(2) General Pereira Valente, ajudante de campo de d. Pedro I.</p><p>27. Manobras militares no Campo de São Cristóvão. No centro à</p><p>direita aparece d. Pedro cercado por sua guarda de honra.</p><p>44</p><p>1 2 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 2 3</p><p>Meu amor,</p><p>Minha Titília,</p><p>Estando o tempo a turvar-se, resolvi não fazer exercício, e nesta</p><p>conformidade já mandei a ordem. Dou-lhe parte para que saiba</p><p>e não se ache enganada esperando que o haja. Vou fazer a barba</p><p>para mecê não ser arranhada à noite por</p><p>Este seu desvelado, agradecido, fiel, constante e verdadeiro</p><p>amante</p><p>O Imperador</p><p>P. S.</p><p>A pena está o diabo pela chuva.</p><p>28. D. Pedro I.</p><p>45</p><p>1 2 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 2 3</p><p>29. D. Pedro II no alto, d. Januária e d. Francisca.</p><p>Meu amor,</p><p>Minha Titília,</p><p>Estimei muito saber pelo Simões que mecê, e a nossa Belinha,</p><p>haviam passado bem. Eu, meu bem, passei incomodado do ou-</p><p>vido com dores constantes e, para coroar a festa, havendo ido</p><p>para a Glória (1) sem chuva, apanhei na volta toda esta maldita</p><p>tormenta que por ora não me aumentou as dores; mas sim o pe-</p><p>sar de a não poder ir ver de dia como desejava, pois bem sabe o</p><p>quanto se interessa por mecê este seu desvelado, fiel, constante,</p><p>agradecido e verdadeiro amante</p><p>O Imperador</p><p>46</p><p>1 2 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 2 5</p><p>(1) A devoção da família a Nossa Senhora da Glória começou com d. João VI.</p><p>Quando nasceu a primeira filha de d. Pedro e d. Leopoldina, d. Maria da Glória, o avô</p><p>dedicou-a à Senhora da Glória, dando-lhe o nome, e levou-a ladeira acima, até o altar,</p><p>rogando proteção. A tradição passou para d. Pedro I, d. Pedro II, chegando até os nos-</p><p>sos dias. Os nomes dos demais filhos de Pedro I, assim como aconteceu com Maria da</p><p>Glória, têm cada um seu significado próprio. D. Paula Mariana foi chamada assim em</p><p>homenagem a São Paulo e Minas Gerais, províncias que cedo juraram fidelidade ao</p><p>príncipe; d. Januária, em homenagem ao Rio de Janeiro; e d. Francisca, devido ao rio</p><p>São Francisco, importante para a unidade nacional, correndo de Minas ao Nordeste.</p><p>30. Ao fundo o outeiro da Glória, visto do Passeio Público.</p><p>Meu amor do meu coração,</p><p>Estimei muito saber que mecê e a nossa querida Bela passaram</p><p>bem. Eu, meu amor, não passei muito bem, pois tive muita tosse</p><p>e de manhã acordei doendo-me a espádua direita sobre a costela</p><p>que quebrei (1), e ainda me continua. O tempo chuvoso, o meu</p><p>incômodo e o despacho me impedem de ir agora pessoalmente</p><p>saber da sua saúde, e abraçá-la com aquele entusiasmo nascido</p><p>de um amor cordial que abrasa o coração seu e</p><p>Deste seu amante, fiel, constante, desvelado, agradecido e</p><p>verdadeiro, e amigo ex corde et anima</p><p>O Imperador</p><p>47</p><p>1 2 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 2 5</p><p>(1) Na queda do cavalo em 30 de junho de 1823. Vide carta 1, p. 66.</p><p>31. Palacete da marquesa de Santos, atual Museu do Primeiro Reinado.</p><p>Meu amor,</p><p>Não é porque desconfie de mecê e aceito a recomendação de vi-</p><p>ver bem pois eu a não mereço, porque vivo. Foi só a querer saber</p><p>que me fez escrever pois já há muito tempo que estava de óculo</p><p>(1) e nada tinha visto, e pela demora já eu desconfiava que fosse</p><p>a Durocher (2) com os vestidos. Que havemos [de] viver bem não</p><p>tem dúvida pela parte desde seu amante etc.</p><p>O Imperador</p><p>(1) Com a mudança de Domitila em abril de 1826 para a chácara de São Cris-</p><p>tóvão, d. Pedro passaria a espioná-la das janelas do palácio da Quinta da Boa Vista,</p><p>onde residia. No Diccionario da lingua portugueza, de Antônio de Moraes e Silva,</p><p>48</p><p>1 2 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 2 7</p><p>encontramos a definição para óculo: “Instrumento composto de um ou mais ca-</p><p>nudos, com lentes, que aumentam os ângulos visuais, exceta a objetiva, e a ocular,</p><p>e que aproximam os objetos”. Enfim, com uma luneta, o nosso imperador ficava,</p><p>literalmente, de olho na amante. Ora reclamaria saber que ela estava em casa e</p><p>que mandara de propósito fechar as janelas para que ele não a visse, ora mandaria</p><p>bilhetes perguntando de quem eram todas as carruagens estacionadas na chácara.</p><p>Os ciúmes que ele sentia por ela eram tão intensos que, mesmo durante a segunda</p><p>tentativa de separação, quando ela partiu para São Paulo, em junho de 1828, o im-</p><p>perador deu ordens para descobrir se ela havia se encontrado com algum homem</p><p>durante esse período, talvez devido à correspondência anônima que havia recebi-</p><p>do (anexos 11 e 12, p. 190). Também em carta de 15/11/18274 existe referência dele</p><p>vasculhando a residência de Domitila com o tal “óculo”.</p><p>(2) Referência a Ana Durocher, modista francesa, dona de loja de tecidos,</p><p>estabelecida na rua dos Ourives, próximo à rua do Ouvidor. Era mãe da famo-</p><p>sa parteira do Segundo Reinado, Maria Durocher. Mais tarde, em 1829, quando</p><p>Isabel Maria, a duquesa de Goiás, foi enviada para Paris, Durocher é quem iria</p><p>providenciar o enxoval da menina.5</p><p>O famoso palacete da marquesa de Santos em São Cristóvão teria diversos</p><p>usos. Serviria de residência a d. Maria da Glória quando esta retornou para o Bra-</p><p>sil, e posteriormente seria comprada pelo barão de Mauá, que faria o inverso de</p><p>d. Pedro: espionaria das suas janelas o palácio de São Cristóvão, para saber se d.</p><p>Pedro II estava em casa. Hoje abriga o Museu do Primeiro Reinado.</p><p>Meu amor,</p><p>minha Titília,</p><p>Se minha voz, movida pela verdade, e inextinguível a que lhe</p><p>consagro, alterando-se um pouco a escandalizou, lhe peço per-</p><p>dão; mas a verdade jamais de mim se separará, e minha boca será</p><p>o órgão por onde ela há de ser enunciada.</p><p>É o que se espera do amigo. Fatal dito foste para mim, que</p><p>tanto me tenho sentido pelo modo e ocasião em que [rasgado]</p><p>dito, e porque tenho caprichado, e o capricho em estimá-la como</p><p>mecê sabe.</p><p>49</p><p>1 2 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 2 7</p><p>O que se espera de amigos como eu é o que eu tenho feito,</p><p>que é estimá-la como à minha mulher, e dizer-lhe sempre a verda-</p><p>de para que seu nome vindo aparecer seja imediatamente elogia-</p><p>do. Isto é o que se espera de amigos, e amigos como eu.</p><p>Meu amor para com mecê é inacabável, pois meu coração</p><p>é seu.</p><p>A lisonja, assim como não mora comigo, não gosto que apa-</p><p>reça junto de mim, por isso desmascaro os lisonjeiros que lhe</p><p>beijam os pés para verem se assim eu os olho melhor, e deixo</p><p>de os conhecer como os conheço de [rasgado] seu Imperador. O</p><p>seu choro e a sua arrenegação procedida de eu dizer a verdade</p><p>me consomem muito por ver o quanto mecê assentia enganada e</p><p>o quanto foi o seu sentimento por tal. Se eu ainda agora visse o</p><p>que acima digo, eu não reputaria o arranjo consigo; mas antes,</p><p>sim, o choro, agradecimento de eu lhe mostrar a verdadeira luz e</p><p>que estava enganada, e a arrenegação, de vergonha de não haver</p><p>conhecido tais lisonjas.</p><p>Quando falei de não virem saber de meus filhos cá em cima</p><p>não foi [para] incomodá-la de preferirem a mecê, e a minha querida</p><p>Bela; mas a falta de polidez como de homem para homem, e a essa</p><p>falta de amor, como de súdito para seu Monarca.</p><p>A minha Glória e Satisfação é que mecê conhece a verdade,</p><p>e quem lha fala segue-a, e os conselhos de quem a estima e esti-</p><p>mará sempre reputando-se</p><p>Seu verdadeiro, fiel, agradecido, constante e desvelado</p><p>amante do fundo do coração que agora morra se assim não é</p><p>Pedro</p><p>P. S.</p><p>Assino-me Pedro para que veja que lhe falo unicamente como</p><p>amigo independente de consideração alguma pública, puramente</p><p>como um particular que ama a sua glória e deseja ver seu nome</p><p>exaltado.</p><p>1 2 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 2 9</p><p>32. Carta de d. Pedro I para Domitila de Castro. Rio de Janeiro,</p><p>circa 1825. Hispanic Society of America, Nova York.</p><p>1 2 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 2 9</p><p>Meu amor, minha Titília,</p><p>Eu já não namoro a ninguém depois que lhe dei minha palavra de</p><p>honra (1), e assim não lhe mereço teus ataques. E quanto a dizer-</p><p>-me que lhe não dei parte de ter ido outro dia a Botafogo tu engana-</p><p>-se, pois à noite eu lhe disse (por tal sinal) que tinha ido com a Im-</p><p>peratriz no carro e a passo. Sinto infinito que depois de tanto tempo</p><p>de prova mecê ache ainda capaz de lhe fazer traições e infidelidades</p><p>Este que se considera e afirma ser seu amante fiel, constan-</p><p>te, desvelado, agradecido e verdadeiro</p><p>O Imperador</p><p>(1) É impossível não nos recordarmos da gravidez de Maria Benedita, irmã</p><p>de Domitila.</p><p>50</p><p>1 3 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 3 1</p><p>Meu amor,</p><p>Minha Titília,</p><p>Sempre solícito em cumprir religiosa e prontamente suas deter-</p><p>minações, tenho o gosto de participar-lhe, primo (1), que já dei</p><p>o seu recado ao Ponçadilha (2) para ele dar a Francisca (3), e</p><p>secundo (1), que Maria Antonia Magalhães (4) mora na Rua da</p><p>Ajuda, bem defronte da Rua de Santo Antônio. É para mim o</p><p>maior gosto (embaixo do que ainda agora fizemos) o empregar-</p><p>-me em desempenhar aquelas comissões de que sou por mecê en-</p><p>carregado, não só porque com isso muito me prezo, e folgo; mas</p><p>até por mais nisto lhe mostrar quem é, e o quanto a deseja obse-</p><p>quiar, e obedecer-lhe às suas Excelentíssimas ordens</p><p>Este seu desvelado, constante, fiel, agradecido e verdadeiro</p><p>amante do coração</p><p>O Imperador</p><p>P. S.</p><p>Não tome a frase da escrita por mangação, antes se persuada do</p><p>que é certo, que é o grande contentamento em que estou por isso.</p><p>(1) Forma latina de “primeiro” e “segundo”.</p><p>(2) Refere-se a um dos irmãos Ponçadilhas, José Manuel Rodrigues e João</p><p>Manuel. O primeiro foi ajudante de campo do futuro marquês de Barbacena du-</p><p>rante a Guerra da Cisplatina, cabendo a ele encontrar-se com d. Pedro em viagem</p><p>para o Rio Grande do Sul, em 1826.</p><p>(3) Francisca, filha do primeiro casamento de Domitila, foi educada no Colé-</p><p>gio de Madame Mallet, na corte. Maria Graham afirma que, em protesto, diversas</p><p>famílias tiraram suas filhas dessa escola.</p><p>(4) Um documento preservado no Arquivo Histórico do Museu Imperial6</p><p>mostra a disposição dos convidados para um banquete oferecido em comemora-</p><p>ção ao aniversário da duquesa de Goiás, realizado no palacete de Domitila, em São</p><p>Cristóvão. Lá aparecem os nomes de Maria Magalhães e de Maria Antônia.</p><p>51</p><p>1 3 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 6 1 3 1</p><p>33. Carta de Domitila de Castro, com resposta de d. Pedro I. Rio</p><p>de Janeiro. Hispanic Society of America, Nova York.</p><p>1 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 3 31 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 3 31 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 3 3</p><p>Filho,</p><p>Eu tinha vontade de ir até aquela chácara do Engenho Velho (1),</p><p>mas queria levar a Duquesa (2) e se for do seu gosto que ela lá</p><p>vá comigo mande ordens para que venha o carro dela (3). Adeus,</p><p>até logo</p><p>Tua Amiga</p><p>E filha Demetília</p><p>[Na mesma carta a resposta de d. Pedro:]</p><p>Nu em pelo respondo. Como tu quiseres, e o que tu quiseres que-</p><p>ro Eu. Creio ser a de tua avó. Eu também lá irei.</p><p>(1) Provável referência à casa da irmã dela, Ana Cândida.</p><p>(2) Isabel Maria, filha de d. Pedro e Domitila, foi feita duquesa de Goiás após</p><p>completar dois anos, em 24 de maio de 1826.</p><p>(3) Em levantamento dos bens de d. Pedro quando de sua partida para Por-</p><p>tugal, em 1831, figuram 67 veículos, entre eles um “carro de cortina pertencente à</p><p>duquesa de Goiás”.7</p><p>Nessa carta, muito mais difícil de transcrever do que qualquer uma de d. Pe-</p><p>dro, podemos ver os problemas que Domitila tinha com a escrita.</p><p>52</p><p>1 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 3 31 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 3 31 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 3 3</p><p>1827</p><p>1 3 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 3 5</p><p>Minha querida filha do meu coração,</p><p>Não podendo eu ter nada que contigo não reparta, eis a razão</p><p>por que te ofereço. É queijo de Pinha (1), que me parece mui</p><p>bom, e dos que agora me vêm de Inglaterra em lugar dos outros</p><p>fedorentos que antes vinham. Estimarei sempre, e cada vez mais,</p><p>ter ocasiões de te patentear a minha lembrança por ti, e o decidi-</p><p>do amor, e inextinguível amizade, que sempre te mostrará ainda</p><p>mesmo no través (2) de todos os perigos.</p><p>Este teu filho amigo, e amante fiel, constante, desvelado,</p><p>agradecido e verdadeiro</p><p>O Imperador</p><p>(1) “Queijo de Chester de 50 quilogramas requer três anos de armazém, antes de</p><p>ir ao mercado; mas também a conta deste grande empate, posto que aliás no fabrico</p><p>nenhuma dificuldade haja, se vende por tão subido preço, que bem vale a pena do es-</p><p>perar. Também se fabricam pequenos; toda a gente os conhece; porque têm um feitio</p><p>de pinha, e até queijos de pinha é o nome que entre nós se lhes costuma geralmente.”1</p><p>(2) O mesmo que por meio de, através.</p><p>Minha querida Filha e Amiga do C., (1)</p><p>Como tenho de mandar o Fernando para a chácara, não quis</p><p>deixar de te agradecer as expressões de amizade com que me tra-</p><p>tas. Não escrevo mais pois já te escrevi hoje pelo teu Paulo (2).</p><p>Adeus, até amanhã às horas da ordem.</p><p>Teu filho, amigo e amante fiel etc.</p><p>O Imperador</p><p>P. S.</p><p>Não repares na letra nem no torto das regras, pois é feita no can-</p><p>to de uma casa que tem só porta, e por ela entra o sol que racha</p><p>e mora aqui o novo Midas = Ponçadilha. (3)</p><p>53</p><p>54</p><p>1 3 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 3 5</p><p>(1) Coração.</p><p>(2) Não identificado. D. Pedro pode se referir a algum amigo, criado ou es-</p><p>cravo de Domitila.</p><p>(3) Refere-se a um dos irmãos Ponçadilha, ou José Manuel Rodrigues, ou a</p><p>João Manuel.</p><p>Minha filha,</p><p>Sinto como mecê sabe o incômodo da nossa querida Bela, que</p><p>logo irei ver, acabe-se o despacho quando for que se acabe. O</p><p>meu filho (1), e seu, deu-me muito cuidado antes de me ir para a</p><p>Glória (mas já está bom). Teve uma dor mui grande, mas eu dei-</p><p>-lhe chá de Marcela (2), fomentei-lhe (3) a barriga com banha,</p><p>pus-lhe um pano quente e deitei-lhe uma mezinha (4) de azeite</p><p>puro, com que obrou e está bom.</p><p>A Maria (5), que foi à Glória, teve lá enjoo de estômago,</p><p>mas foi de não comer com apetite de ir. Dei-lhe um bolo, e vinho,</p><p>e está boa.</p><p>Tudo, meu bem, são desgraças sobre desgraças, e a única</p><p>felicidade que tenho é ser o</p><p>Seu amante fiel, constante, desvelado, agradecido e verda-</p><p>deiro</p><p>Imperador</p><p>P. S.</p><p>Não sendo o coco que veio da Bahia bom, remeto este, que esti-</p><p>marei lhe agrade.</p><p>(1) Pedro de Alcântara, futuro imperador d. Pedro II.</p><p>(2) Macela ou marcela, uma erva brasileira, também conhecida como falsa</p><p>camomila, usada na medicina popular para aliviar cólicas.</p><p>(3) Fomentar: friccionar a pele com um líquido aquecido para fins curativos;</p><p>fazer compressa quente e úmida.</p><p>(4) Líquido medicamentoso aplicado com enema.</p><p>55</p><p>1 3 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 3 7</p><p>(5) Maria da Glória, filha de d. Pedro e d. Leopoldina, nascida no Rio de Ja-</p><p>neiro em 4 de abril de 1819 e falecida em Lisboa a 15 de novembro de 1853. Rainha</p><p>de Portugal.</p><p>Os cuidados e carinhos de d. Pedro como pai são visíveis em vários momen-</p><p>tos, inclusive em cartas para Domitila. As atitudes dele chegavam a impressionar,</p><p>sendo constante a referência, inclusive diplomática, sobre o fato. Quanto ao enig-</p><p>mático “o meu filho, e seu”: o único filho homem que eles tiveram, também cha-</p><p>mado Pedro, nasceu em 7 de dezembro de 1825, cinco dias depois de d. Pedro II, e</p><p>faleceu em 13 de março de 1826, durante a viagem dos imperadores e de Domitila</p><p>à Bahia. Ele sempre ficou aos cuidados dos avós maternos. Logo após a morte de</p><p>Leopoldina (11/12/1826), d. Pedro passou, por algum tempo, a referir-se aos filhos</p><p>dele como também filhos de Domitila.</p><p>34. D. Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade, bispo de São Paulo.</p><p>1 3 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 3 7</p><p>Minha filha</p><p>e querida amada do coração,</p><p>Perdoa o não te [ter] escrito primeiro do que tu me escrevesse.</p><p>Não foi esquecimento, antes desde as 6 e meia, que me levantei</p><p>sem poder dormir, que estou para te escrever, e a minha cabeça</p><p>está ainda tão fora dos eixos com tanto que tenho sofrido como</p><p>sabes que agora mesmo pego na pena para te escrever dizendo-te</p><p>que muito agradeço as uvas, e mais que tudo a tua lembrança que</p><p>me cativa ainda mais, se é possível. Eu já estou morrendo que</p><p>chegue a hora de ver-te com a nossa filha, que estimo passasse</p><p>bem assim como tu. Não só o que é teu, mas o que é meu tu podes</p><p>emprestar e dar. Eu só reparei, e disse ao Oliva (1), se tu terias</p><p>vindo ou o que viria a traquitana (2), nem eu soube que nela tinha</p><p>vindo o Bispo de São Paulo (3), pessoa a quem tu, e tua família,</p><p>são obrigados. Antes pelo contrário, sempre te louvarei aquelas</p><p>que possam mostrar publicamente tua franqueza e generosidade.</p><p>Beijando primeiramente as peras, as deitarei fora como me</p><p>ordenas.</p><p>Tenho o gosto de remeter-te a caixa já com o teu nome escri-</p><p>to, duas calças, uma esteira e uma caixa de flores. O passarinho</p><p>para a nossa Belinha eu reservo para lhe dar em mão própria.</p><p>Já que tu me não mandastes a tina, faze-me o favor de a mandar</p><p>lá estar com água esta noite na casa da janta para se banhar à noite.</p><p>Este teu filho, amigo e amante, fiel, constante, desvelado,</p><p>agradecido e verdadeiro</p><p>O Imperador</p><p>(1) Cunhado de Domitila, que seria despachado para Recife, junto com seu</p><p>batalhão, em 3 de setembro de 1827.</p><p>(2) A traquitana era um veículo de quatro rodas, sendo duas pequenas na</p><p>frente e duas maiores atrás. Podia ser puxada por dois ou quatro cavalos. Era muito</p><p>usada por membros da elite.</p><p>(3) D. Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade (1775-1847). Foi indicado bis-</p><p>po de São Paulo por d. Pedro I em 12 de outubro de 1826, confirmado por breve</p><p>56</p><p>1 3 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 3 9</p><p>papal em julho de 1827 e sagrado em 28 de outubro, no Rio de Janeiro, pelo bispo</p><p>e capelão-mor d. José Caetano de Sousa Coutinho. Retornou a São Paulo em de-</p><p>zembro, fazendo a entrada na capital no dia 23. Assumiu o cargo de presidente da</p><p>Província de São Paulo por três ocasiões. Esse mesmo religioso iria batizar a última</p><p>filha de d. Pedro com Domitila, nascida em São Paulo, em 1830.</p><p>Minha querida filha e minha amiga do coração,</p><p>Manda-me dizer como passaste o resto da noite, e se te não fez</p><p>mal o frio do chão nos pés. Igualmente te peço que me prometas,</p><p>bem como eu te prometi, até, no dia dez (1), que te importas com</p><p>ninguém; não te escandalizes, meu bem, com isto, porque tu tão</p><p>bem me tens feito o mesmo. Tu decerto não terás dúvida, pois o que</p><p>se não tenhas tenção de fazer, não está a prometer. Adeus, minha</p><p>filha, no Teatro (2) nos veremos, e depois terá o gosto de te abraçar</p><p>Este teu filho, amigo e amante fiel, constante, desvelado,</p><p>agradecido e verdadeiro</p><p>O Imperador</p><p>P. S.</p><p>Filha, dá-me uma resposta com que confortes este teu coração</p><p>despedaçado.</p><p>(1) Em carta datada de 14/10/1827,2 d. Pedro também faz referência ao dia 10</p><p>de setembro, quando eles reataram o relacionamento após o atentado à baronesa</p><p>de Sorocaba. Os ciúmes continuavam sendo uma constante.</p><p>(2) Referência ao Imperial Teatro São Pedro de Alcântara, incendiado em</p><p>1824, reinaugurado em março de 1826, ano em que pegou fogo novamente, sen-</p><p>do reaberto em 18 de abril de 1827. Os espetáculos começavam às oito horas da</p><p>noite. Depois de passar por sucessivas reformas e mudanças de nomes, o edifício</p><p>foi demolido no final da década de vinte do século passado e um novo teatro, o</p><p>João Caetano, foi erguido no local.</p><p>Em 1838, esse teatro seria arrendado a Manuel</p><p>Maria Bregaro, pai de Carolina Bregaro, casada com Rodrigo Delfim Pereira, filho</p><p>de d. Pedro com a baronesa de Sorocaba.</p><p>57</p><p>1 3 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 3 9</p><p>35. D. Pedro I e d. Maria da Glória.</p><p>36. A praça que vemos em primeiro plano, conhecida na época como do Rocio, é a atual</p><p>praça Tiradentes, no centro da cidade do Rio de Janeiro. À esquerda o Teatro Imperial, onde</p><p>hoje se encontra o teatro João Caetano, e ao fundo a igreja de São Francisco de Paula.</p><p>1 4 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 4 1</p><p>Minha querida filha e minha amiga do coração,</p><p>Muito hei de estimar o saber que passaste bem o resto da noite.</p><p>Eu às 7 já estava em pé, mas não te escrevi logo porque tu esta-</p><p>vas dormindo, o que fizeste até as nove e meia. É verdade que me</p><p>demorei a escrever-te, mas foi por não o querer fazer defronte do</p><p>Chalaça (1). Nossas filhas estão boas.</p><p>Minha filha, eu não sei com expressões de peça perdão do</p><p>quanto te mortifiquei ontem, mas tu melhor que eu sabes o que</p><p>custa a roer ciúmes em silêncio, e sabes mais que eles fazem de-</p><p>sesperar a ponto que se chega até a desejar matar e morrer. Eu</p><p>tenho-te tanto amor que não sei até que ponto umas vezes me ar-</p><p>rebata de prazer, outras de raiva. Eu conheço minhas esquisitices.</p><p>Que hei de fazer, paciência. Eu, meu bem, não temo de ti nenhu-</p><p>ma infidelidade, mas há circunstâncias, e ocorrências e azares,</p><p>que às vezes fazem perder o juízo, excitar o ciúme, gerar-se a</p><p>raiva, perpetrarem-se loucuras, e até mesmo coisas que só o de-</p><p>sespero pode sugerir. Tudo isto me tem acontecido, e tem (conheço</p><p>que sem razão nem motivo) dilacerado o coração já quase acaba-</p><p>do deste teu filho. Falta (posto que não persiga) uma prova da tua</p><p>parte para me convencer que tu não gostas mais de tua prima que</p><p>de mim (2), e dando-ma tu, eu então poderei ficar dissuadido da</p><p>desconfiança de tu a estimares mais do que a mim, e da suspeita de</p><p>inteligência tua com aquele matuto leãozinho ou sagui loiro, e é a</p><p>prova. Tu hás de mandar-me o anel (3) que tua prima te deu, e eu</p><p>to restituirei à noite. Se me fazes isso eu ficarei mais descansado,</p><p>e poderá gozar mais algum sossego este infeliz, e mais que infeliz</p><p>Teu filho, amigo e amante, fiel, constante, desvelado, agrade-</p><p>cido e SEMPRE VERDADEIRO</p><p>O Imperador</p><p>P. S.</p><p>Manda-me dizer se vais à Ópera, que é Timonella (4), e a dança</p><p>de Janij. Não deixes de ir por causa do bandalho do Bremense</p><p>(5), pois não são estas as provas que eu quero, que são não fazer</p><p>tu caso de um maroto tal que se continuar há de...</p><p>58</p><p>1 4 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 4 1</p><p>Ainda que vá à Ópera ou eu ou tu, eu lá estarei em tua casa o mais</p><p>tardar até as onze horas, pois a ópera é pequena, e a dança não</p><p>a acabarei de ver para estar contigo, e se possível fosse quereria</p><p>acabar com minha vida em menos de uma hora se me confessasse</p><p>de todos os meus pecados para gozar a Glória eterna, pois deste</p><p>mundo só a morte é que dá satisfação em circunstâncias como as</p><p>deste teu desgraçado filho. Sou teu, tu és minha, e peço-te para</p><p>que tu vejas o quanto eu te amo = Que tu me faças todas as infide-</p><p>lidades que eu te fizer =, que então teu coração ficaria descansado</p><p>dentro deste teu peito que está pronto a receber o golpe dado por</p><p>ti. Eu já não sei o que digo, estou a modo de maluco, só quero</p><p>apertar-te esta noite contra meu peito ou decerto acabo ou doido</p><p>ou não sei como. Eu me estranho a mim mesmo, acho-me de tal</p><p>modo com a cabeça abatida que ou não falo, ou falando contigo,</p><p>falo no que não tenho razão alguma. Sou teu, acaba-me com esta</p><p>triste vida, ela é tua, ela é da Pátria (6), ela me atormenta, só sou</p><p>infeliz. À noite direi o que jamais poderei esconder.</p><p>(1) Em setembro de 1827, após um estremecimento, o casal fez as pazes e</p><p>reatou o romance, porém, como d. Pedro já estava tentando arrumar uma nova</p><p>esposa na Europa, era importante ser discreto.</p><p>(2) Não é a primeira referência de um ataque de ciúmes dado por d. Pedro</p><p>a respeito dessa prima. Em outra carta de setembro de 1827,3 o monarca refere-</p><p>-se a Josefa, uma das primas-irmãs de Domitila, da família Santana Lopes. Ela e</p><p>as irmãs solteiras moravam na época na corte, junto com seus pais. A mãe delas,</p><p>Engrácia, era irmã de Escolástica, mãe de Domitila. O barão de Mareschal informa</p><p>em um de seus despachos para a Áustria que a “família aflui de todos os lugares,</p><p>avó, tios, primas e primos”.</p><p>(3) A história do anel é uma verdadeira novela. Primeiro ele pede o anel, ela</p><p>o manda, ele devolve dizendo que não é aquele e depois se convence de que está</p><p>errado e que é o mesmo que havia visto na casa dela. Essa é a carta inicial da se-</p><p>quên cia já publicada anteriormente.4</p><p>(4) A ópera Timonella, ou O tutor logrado, de Luigi Caruso, estreou no Rio</p><p>de Janeiro em 1826, sendo reapresentada em 1827.5 Como nesta carta d. Pedro faz</p><p>referência a “nossas filhas”, ela só poderia ter sido escrita após o nascimento de</p><p>Maria Isabel, em 13/8/1827.</p><p>1 4 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 4 3</p><p>(5) O “bandalho do bremense” pode se referir a algum desafeto do imperador</p><p>que tenha dito algo a respeito de Domitila. Não seria a primeira vez que d. Pedro</p><p>tomaria a defesa da marquesa sem que ela concordasse ou mesmo gostasse de tal</p><p>atitude: “Se o motivo (de estar zangada) é o de ter eu ontem xingado o Albino e</p><p>o João Caetano, tenho muita glória de punir por ti e pela tua honra”.6 Em carta</p><p>datada de 15/11/1827, o barão de Mareschal, em relatório enviado à Áustria, conta</p><p>que a 16 de junho daquele ano d. Pedro havia recebido uma delegação estrangeira</p><p>vinda de Bremen, Alemanha.7</p><p>(6) Esta é uma das cartas mais passionais de d. Pedro, tanto entre as já publi-</p><p>cadas anteriormente quanto neste acervo inédito redescoberto. Em 1827 ele estava</p><p>sob muita pressão. A Guerra da Cisplatina não ia bem e acabaria com a perda da</p><p>província e a criação do Uruguai. Havia ainda a questão da sucessão portuguesa,</p><p>a busca por uma nova esposa, enfim, aqui é o homem Pedro, e não o imperador,</p><p>exausto, lançando um grito de socorro.</p><p>Minha querida filha e amiga do coração,</p><p>Não me taches, filha, de te não querer responder, nem tampouco</p><p>disso me esquecer; neste momento, que são quase duas horas,</p><p>acaba o Bicho (1) de me entregar tua para mim estimadíssima</p><p>carta, e recebo a reprimenda de não ter mandado saber de ti.</p><p>Eu a aceito como coisa tua, e ta agradeço, pois tu me ensinas,</p><p>mandando saber de mim, o que eu deveria ter feito, e que não fiz</p><p>por esquecimento, pois sempre existes em minha lembrança. Hei</p><p>de estimar que passastes bem, e te divirtas ainda que eu me per-</p><p>suada que te farei falta, e que tu com saudades acharás todos os</p><p>divertimentos insossos, assim como eu os acho. Das meninas (2)</p><p>ainda não tive notícias, mas decerto estão boas, pois se houvesse</p><p>novidade já eu havia de saber; mas, não tendo de lá mandado</p><p>participação, já havia mandado saber, e ainda não tinha vindo</p><p>resposta. Logo que receba, terá o gosto de lá receber.</p><p>Este teu filho, amigo e amante, fiel, constante, desvelado,</p><p>agradecido e</p><p>Verdadeiro</p><p>O Imperador</p><p>59</p><p>1 4 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 4 3</p><p>P. S.</p><p>As encomendas ainda não chegaram todas, e o Borba já tem sa-</p><p>cado por oito a dez contos de réis.</p><p>(1) Bicho, Gaiato, Manuel Inglês, são criados ou amigos de confiança a quem</p><p>d. Pedro e Domitila, nesse período crítico, confiavam suas mensagens.</p><p>(2) Maria Isabel, segunda filha de d. Pedro e de Domitila, nasceu em 13 de</p><p>agosto de 1827. Em 26 de agosto, o imperador mandou tirar Isabel Maria e a filha</p><p>recém-nascida da mãe, e as crianças passaram a viver com ele no Palácio de São</p><p>Cristóvão. Maria Isabel faleceu em 25 de outubro de 1828, de meningite.</p><p>Filha,</p><p>Não te escrevi logo de manhã pois que haverão 4 horas que daí</p><p>tinha vindo, e poderia parecer mangação perguntar-te como pas-</p><p>saste, o que agora faço e ao mesmo tempo te apresento as condi-</p><p>ções que me parecem serem iguais.</p><p>1ª Mútua confiança de parte a</p><p>parte.</p><p>2ª Poder cada um de nós fazer o que lhe parecer, uma vez</p><p>que guarde fidelidade ao outro.</p><p>3ª Não darmos ouvidos (o que nunca fiz) a ninguém.</p><p>4ª Não haverem ciúmes desordenados, e só sim os que forem</p><p>bem fundados, e compatíveis com o bem viver, e conformes a toda</p><p>condição que os destrói de per si.</p><p>5ª Podermos sair a passeios, estarmos fora e conversarmos,</p><p>contando uma vez que seja sustentada a 2ª.</p><p>Teu filho etc.</p><p>Imperador</p><p>P. S.</p><p>Lá vou depois da Ópera e então falamos.</p><p>60</p><p>1 4 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 4 5</p><p>Filha,</p><p>Não só para meu cômodo como para não incomodar o Barão</p><p>(1), que vinha para a cidade, julguei mais acertado não jantar na</p><p>Tijuca. Ao mesmo tempo, tiro a utilidade de saber antes da noite</p><p>como tu passaste desejando que fosse bem o resto, pois o princí-</p><p>pio foi mau para nós ambos.</p><p>Quero saber de quem é tanta sege que lá está, pois nem me-</p><p>nos de três vi quando passei.</p><p>Filha, eu hoje estou muito terno, e muito macio. Desejo sa-</p><p>ber se tu estimarias que este teu grosseiro, mas teu muito amigo</p><p>filho lá fosse. O meu desejo é este (de ir lá hoje), mas temo não se</p><p>encontre a tua vontade em oposição. Eu espero que tu me man-</p><p>des dizer que = (Não deixas de estimar que eu lá vá hoje às 9 e</p><p>meia para as dez) =. Se isto me fizeres, eu me reputarei mui feliz,</p><p>e cada vez mais.</p><p>Teu filho, amigo e amante etc.</p><p>Imperador</p><p>(1) Não identificado. Pode ser uma referência ao barão de Mareschal (ver</p><p>carta 65, nota 3).</p><p>Filha,</p><p>Remeto para te ser apresentado logo que tu chegares a casa este</p><p>ramalhete, que eu quero que à noite, quando eu for, tu me digas</p><p>se te lembras o que significa cada uma dessas flores de per si; e</p><p>depois todas juntas (1). Adeus, até as horas da ordem, e no en-</p><p>tretanto recebe o coração saudoso e que de ti nunca se esquece</p><p>que te envia</p><p>Este teu filho, amigo e amante etc.</p><p>Imperador</p><p>61</p><p>62</p><p>1 4 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 4 5</p><p>(1) D. Pedro refere-se à Linguagem das Flores, que os viajantes ingleses já ha-</p><p>viam notado na Turquia e que os franceses acabaram por disseminar pela Europa.</p><p>Nessa conversa sem palavras, não só cada flor tinha um significado, como o modo</p><p>de ofertar e receber eram carregados de simbolismos. Maria Graham observou em</p><p>1821 que os jovens pernambucanos eram “tão destros no uso de sinais como os</p><p>próprios amantes turcos. [...] Um namoro é mantido desta maneira, e termina em</p><p>casamento sem que as partes tenham sequer ouvido as respectivas vozes”.8 Códigos</p><p>através do manejo de leques também eram comuns.</p><p>Filha,</p><p>Não lembrando que hoje era dia de jogo (1) (pois minha cabeça</p><p>estava perdida), te mandei dizer que às dez lá estava, mas não</p><p>querendo que tu repares se chegar às dez e meia te escrevo. Hei</p><p>de fazer as diligências para acabar (sem que eles desconfiem) o</p><p>jogo às dez, e logo te irei abraçar.</p><p>Teu filho, amigo e amante etc.</p><p>Imperador</p><p>(1) Em 1827, d. Pedro arrumou um parceiro de xadrez: o inglês John Henry</p><p>Freese, conhecido na casa do barão de Mareschal. Talvez seja a esse jogo que ele</p><p>se refira nessa e em outras mensagens. Observando-se as cartas datadas sobre o</p><p>mesmo tema,9 percebe-se que as idas de d. Pedro à casa do diplomata austríaco e</p><p>os jogos ocorreram na época em que ele tentava aparentar que nada mais existia</p><p>entre os amantes.</p><p>63</p><p>1 4 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 4 7</p><p>Minha boa senhora,</p><p>Não posso entender a razão de me não responder chamando-me</p><p>de filho como eu chamo a Va. Ea. e espero que Va. Ea., mitigan-</p><p>do alguma coisa seu gênio hoje irritado sem razão, me responda</p><p>pondo no frontispício da carta Filho, na forma porque sempre me</p><p>escreveu, e</p><p>E. R. M. (1)</p><p>(1) Espera Receber Mercê.</p><p>D. Pedro, neste bilhete, talvez após alguma briga, dirige-se a Domitila ironi-</p><p>camente imitando linguagem protocolar.</p><p>Filha,</p><p>Com o coração nas mãos deveras te confesso que não sei o mal</p><p>que tenho feito em ir a Botafogo. Quero que me mandes dizer ou</p><p>que à noite me digas. Quanto à Boa Vista, eu não conheço que</p><p>duas: uma é esta chácara (1), outra é no alto da Tijuca (2), aonde</p><p>não vou desde 10 ou doze de janeiro quando lá estava o barão de</p><p>Mareschal (3), e que voltamos ambos. Quanto a Laranjeiras, de-</p><p>pois daquelas três vezes que para lá fui em que na segunda entrei</p><p>na casa da Lagoa do Marquês de Cantagalo (4), ainda não passei</p><p>que cá pelo caminho que vai para o Botafogo, e passa pelo largo</p><p>exatamente aonde eu caí.</p><p>Portanto, filha, eu muito desejo saber o que é isto, e peço-te</p><p>que ou me mandes dizer ou à noite mo digas, porque eu ainda</p><p>que dê com a cabeça pelas paredes decerto não adivinho por quê.</p><p>Agora, com toda a verdade que é inseparável de mim, te digo que</p><p>não tenho minha cabeça com sentido em ninguém, nem fiz coi-</p><p>sa, por menos que fosse, que pudesse fazer dizer-se nada de mim.</p><p>Não duvido que houvesse algum bom ofício de algum maroto; mas</p><p>fazendo-me tu o obséquio de me contar o que te disseram, eu estou</p><p>64</p><p>65</p><p>1 4 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 4 7</p><p>pronto com a verdade a rebater e repelir qualquer intriga e moti-</p><p>vo. Adeus, filha, até à noite, recebe o coração, abraços e beijos</p><p>Deste teu filho, amigo e amante, que tendo sido mau em ou-</p><p>tros tempos nunca te enganou e por isso se jacta de dizer seu</p><p>verdadeiro</p><p>Imperador</p><p>(1) Quinta da Boa Vista, onde fica o Palácio de São Cristóvão, moradia do</p><p>imperador. O local fazia parte de uma vasta fazenda jesuíta chamada São Cristó-</p><p>vão. Quando da expulsão desses religiosos pelo marquês de Pombal, a propriedade</p><p>passou à coroa. Com o passar do tempo, o terreno foi sendo loteado, e uma grande</p><p>área, arborizada e elevada, foi adquirida por Antônio Elias Lopes, um rico comer-</p><p>ciante português. A propriedade, de onde era possível avistar o porto e a cidade</p><p>do Rio de Janeiro, recebeu o nome de Quinta da Boa Vista. Com a chegada de d.</p><p>João VI e da corte portuguesa, Elias cedeu-a para o príncipe. D. Pedro para aí se</p><p>mudou durante sua administração como príncipe regente, transferindo ao paço os</p><p>serviços burocráticos que estavam espalhados por edifícios alugados.</p><p>(2) Alto da Boa Vista, na Tijuca.</p><p>(3) Philippe Leopold Wenzel, barão de Mareschal (1784-1851). Diplomata</p><p>austríaco. Encarregado dos negócios da Áustria no Brasil de 1819 a 1826, ministro</p><p>plenipotenciário em 1827. Retirou-se do país em 1830.</p><p>(4) João Maria da Gama Freitas Berquó foi feito marquês de Cantagalo em 12</p><p>de outubro de 1826. Estava entre os acompanhantes de d. Pedro em 7 de setembro</p><p>de 1822.</p><p>37. Palácio de São Cristóvão, localizado na Quinta da Boa Vista.</p><p>1 4 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 4 9</p><p>Filha,</p><p>Jamais receberei os sacrifícios que faz por mim de uma maneira</p><p>mal entendida. Eu os recebo como provas de teu amor para co-</p><p>migo. Que culpa posso eu ter de tu seres desconfiada sem razão?</p><p>Que precisão tens tu de tomares tanto interesse por mim que não</p><p>queres que te vá ver hoje? Eu, filha, hei de lá ir hoje, e só dei-</p><p>xarei de o fazer se tu assim mo ordenas positivamente, o que eu</p><p>tomarei como estares mal com este teu filho que tanto te ama e</p><p>estima. Tu não deitaste pérola fora, teu filho sabe apreciar teus</p><p>incômodos e cumprimentos para com ele, e te agradece ainda os</p><p>menores, quanto mais este. Tu não tens que te emendar porque</p><p>não te enganaste em visitares quem te quer bem. Eu lá vou ainda</p><p>que me leve o Diabo, pois morrendo por ti, morro contente, e</p><p>deixarei os meus inimigos satisfeitos. Adeus, filha, até as dez. Teu</p><p>filho, amigo e amante</p><p>Imperador</p><p>P. S.</p><p>Filha, pelo amor que tens a nossas filhas, não me faças por tuas</p><p>inconsideradas expressões (e por mim não merecidas) atormen-</p><p>tar-me eu. Filha, estou (pergunta a teu mano João) com a cara</p><p>mais abatida, e muito mais ficará se em lugar de receber de ti</p><p>agradáveis expressões eu na tua carta achar o contrário. Filha,</p><p>eu te quero muito, tu bem o sabes, e se te não quisesse nada te</p><p>diria, nem excogitaria todos os dias modos e entradas para te ir</p><p>ver. Manda, filha, fazer a porta, e até ela ficar pronta irei entran-</p><p>do pelo portão</p><p>de costume (1), por onde hei de visitar hoje às dez</p><p>horas querendo tu, o que espero, pois não quererás dar cabo des-</p><p>te teu filho com mais essa provação de me proibir lá ir. E espero</p><p>que tu te compadeças de quem é teu filho e teu amigo e amante.</p><p>O mesmo</p><p>66</p><p>1 4 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 4 9</p><p>(1) Nota-se ainda a tentativa de dissimulação entre eles. É preciso fin-</p><p>gir para que os criados e pessoas mais próximas não percebam que houve a</p><p>reconciliação dos amantes, a fim de que continuem não sabendo nada os em-</p><p>baixadores, e consequentemente as cortes europeias, onde Barbacena e seus</p><p>delegados estão tentando ajustar um novo casamento para d. Pedro. Curiosa</p><p>a menção a mandar fazer a porta. Uma das lendas do palacete onde Domitila</p><p>morava é que ele se comunicaria por um túnel com o Palácio de São Cristóvão,</p><p>e seria por aí que o imperador entraria escondido. Mas a distância, a natureza</p><p>do terreno e outros fatores não contribuem para a existência real dessa pas-</p><p>sagem. O que houve, efetivamente, foi a construção de um portão no muro</p><p>de divisa da casa da marquesa com a Quinta da Boa Vista, por onde d. Pedro</p><p>poderia entrar discretamente.</p><p>Filha,</p><p>Como começas a sentir os prognósticos da sezão (1), ainda</p><p>que não sintas mais nada, toma à noite o enxofar (2), porque</p><p>ainda que ela venha, virá menor, e continuando a tomá-la não</p><p>terás mais de duas outras, e se tiver segunda, tomando um</p><p>vomitório e remédios, adeus sezões. Adeus, filha, até as onze.</p><p>Teu filho, amigo e amante etc.</p><p>Imperador</p><p>(1) Febre intermitente ou maleita.</p><p>(2) A mistura é ensinada novamente por d. Pedro em carta datada de</p><p>22/1/1828: “Em duas colheres de água bem quente, meia colher de chá de flor</p><p>de enxofre”.10</p><p>67</p><p>1 5 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 5 1</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Acabo de receber uma carta sua na qual me pede parelhas para</p><p>mandar a fim de ir à Fazenda do visconde de Gericinó (1). Nada</p><p>mais tenho a dizer-lhe senão que com todo o gosto passo já a</p><p>mandar aprontar tudo, e conte que não terá falta alguma, e ao</p><p>mesmo tempo lhe participo que as ordens que haviam em todas</p><p>as repartições da Minha Imperial casa estão com todo o seu vigor,</p><p>portanto não tem mais nada que mandar buscar o que precisar</p><p>que tudo lhe há de ir.</p><p>Aproveito esta ocasião para lhe significar o meu contenta-</p><p>mento pelas suas melhoras, as quais me acaba de dizer o Barão</p><p>de Inhomirim (2), que são verdadeiras e parecem que prometem</p><p>uma saúde vigorosa. Assim Deus permita. Ao mesmo tempo te-</p><p>nho o prazer de assegurar-lhe o quanto a estimo, e lhe deseja</p><p>todas as venturas que podes apetecer como quem é</p><p>Seu amo e seu</p><p>Imperador</p><p>Boa Vista</p><p>7</p><p>18–27</p><p>11</p><p>(1) Ildefonso de Oliveira Caldeira Brant (1774-1829). O visconde de Gericinó</p><p>era irmão do marquês de Barbacena, Felisberto Cadeira Brant Pontes de Oliveira</p><p>Horta. Amigo comum de Domitila e de d. Pedro, foi feito de mensageiro pelo im-</p><p>perador na questão da retirada da marquesa da corte, em maio de 1828.</p><p>(2) Dr. Vicente Navarro de Andrade (1776-1850). Barão de Inhomirim em</p><p>12/10/1826, conselheiro imperial e também médico da Imperial Câmara, além de</p><p>amigo de d. Pedro.</p><p>Essa carta, provavelmente, foi escrita na frente de outras pessoas. Note-se o</p><p>tom protocolar e oficial. No mesmo dia, em carta já publicada, ele afirma: “Escre-</p><p>vi-te como imperador, agora escrevo como teu filho”, e finaliza: “Adeus, filha, rece-</p><p>68</p><p>1 5 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 5 1</p><p>be o coração cheio de saudades que, posto que seja teu, contudo tu não me privas</p><p>que to ofereças, até mesmo única pessoa a quem o dediquei e por quem ele sempre</p><p>suspirará dentro do peito”.11</p><p>Filha,</p><p>Estimarei saber que chegaste bem quanto à viagem, e sinto que</p><p>o teu ouvido esteja pior, segundo me disse José Bernardes (1), a</p><p>quem perguntei pela tua saúde. Deus queira que ele se enganasse</p><p>no que me disse. Nossas filhas estão de mui boa saúde, a Maria</p><p>(2) vai melhor e a Paula (3) também está com febre. Eu sei que</p><p>tenho tido saudades tuas e aposto que tu também as terás tido de</p><p>mim, que é que faz mitigar, mas por me ver retribuído na mesma</p><p>moeda. Adeus, minha querida filha, até logo, que terei o gosto</p><p>de te abraçar, beijar, etc. Nada mais digo senão que sou, e serei,</p><p>teu filho, amigo e amante fiel, constante, desvelado, agradecido e</p><p>sempre verdadeiro</p><p>O Imperador</p><p>10</p><p>18–27</p><p>11</p><p>(1) José Bernardes Monteiro Guimarães, Moço da Imperial Câmara, tinha</p><p>negócios com Domitila.</p><p>(2) Maria da Glória, rainha de Portugal.</p><p>(3) Paula Mariana era a sexta filha de d. Pedro e de d. Leopoldina. Nasceu</p><p>em 17 de fevereiro de 1823 e faleceu em 16 de janeiro de 1833. Sempre foi muito</p><p>enferma, e é constante a referência ao estado de saúde dela nas cartas à Domitila.</p><p>Em 1828, o pai levou a menina para uma casa recém-comprada em Botafogo, para</p><p>tomar melhores ares. No ano seguinte iria para a serra, onde hoje se encontra Pe-</p><p>trópolis, sempre em busca de melhoras para a filha doente.</p><p>69</p><p>1 5 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 5 3</p><p>Minha querida filha,</p><p>Logo que cheguei fui abraçar nossas filhas, que estão boas hoje,</p><p>apesar [de] que a Bella ontem de uma jabuticaba que comeu vomi-</p><p>tou muito, mas está boa. A Paula tem andado constipada, mas vai</p><p>bem. Eu, esta manhã, que são 15, espremi tua coisa (1) e deitou</p><p>uma lágrima maior do que ontem, parecendo depois de enxuta na</p><p>camisa goma de polvilho exatamente; mas não tenho ardor nem</p><p>inflamação, nem coisa que me faça descoroçoar de todo, apesar</p><p>de que quando eu andei sossegado, e contigo, nunca tive nada.</p><p>O Júlio diz que não é nada; mas eu é que tenho esse nada, ainda</p><p>que nadinha, para cúmulo de toda a minha infelicidade. Hoje vou</p><p>tomar o Le Bos, e ver se posso atalhar uma coisa que, posto que</p><p>digam não é nada, é escandecência (2). Eu o que respondo é que</p><p>tal nunca tive quando andava contigo. O portador, que é o José</p><p>Pequeno, tem ordem de pedir ao Manuel Inglês (3) uma das se-</p><p>ringas de prata (4) da Imperatriz e escondidamente levar-ta por</p><p>cautela, e eu amanhã te escreverei para te participar como vou,</p><p>e te remeterei uma receita para que no caso (hó!!! desgraça!!!)</p><p>que te tenha aparecido alguma coisa tu deites seringadas com a</p><p>tal seringa. Eu estou muito esperançado que tu não terás nada</p><p>porque assim me parece que isto é o que diz o Júlio e o Peixoto,</p><p>escandecência, e que com a viagem aumentou ainda que pouco a</p><p>Este teu amigo etc.</p><p>Imperador</p><p>(1) D. Pedro está se referindo ao pênis.</p><p>(2) No Diccionario de medicina popular,12 a definição inclui de prisão de ven-</p><p>tre a um estado mórbido generalizado que vai de febre, sede, dor de cabeça, ventre</p><p>duro, urina vermelha, até braços e pernas doloridas. Alguns dicionários antigos,</p><p>como o Moraes, dão como aumento do calor interno a ponto de perturbar a saúde</p><p>do paciente.</p><p>(3) Criado particular de confiança de d. Pedro I, conhecido como Manuel</p><p>Inglês.13</p><p>(4) Essas seringas eram utilizadas para higiene íntima feminina.</p><p>70</p><p>1 5 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 5 3</p><p>Essa mensagem foi escrita em novembro de 1827, conforme carta já publicada</p><p>anteriormente,14 onde podemos ler a continuação do “drama”, com a “tua coisa” sen-</p><p>do espremida e o consequente resultado, narrado com igual nível de detalhamento.</p><p>Filha,</p><p>Eu não vou hoje à Ópera porque não quero apanhar ar de noite</p><p>porque estou com o purgante, e logo que possa apanhar ar de</p><p>noite terei primeiro que tudo o gosto de ir ver-te. O teu compadre</p><p>já está arranjado, e melhor do que estava (1), e dou-te parte que</p><p>comprei a casa do Visconde de Vila Nova no Botafogo (2). Acei-</p><p>te, filha, saudades que de todo o coração te manda</p><p>Este teu filho, amigo e amante etc.</p><p>Imperador</p><p>17</p><p>18–27</p><p>11</p><p>P. S.</p><p>Recebi as flores pela mão da Duquesa, e tas ofereço a ti de mimo.</p><p>71</p><p>1 5 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 5 5</p><p>38. Vista noturna da praia de Botafogo.</p><p>(1) Em 17 de novembro de 1827, João de Castro, irmão de Domitila, recebeu</p><p>o título de conselheiro de Estado.</p><p>(2) No mesmo dia, 17 de novembro,</p><p>d. Pedro adquiriu a residência do viscon-</p><p>de de Vila Nova da Rainha, na praia de Botafogo. Existe uma discussão histórica</p><p>a respeito dessa casa. Alguns afirmam que o palacete que d. Pedro possuía nessa</p><p>praia fora herdado da mãe, a rainha d. Carlota Joaquina, que lá morara. Outros</p><p>dizem que ele a teria comprado. Alberto Rangel15 demonstra, através de corres-</p><p>pondência localizada em arquivos diplomáticos na França e na Inglaterra, a luta</p><p>de d. Pedro para tirar do imóvel recém-adquirido o antigo inquilino, o embaixador</p><p>britânico sir Robert Gordon. Gordon teimava em continuar lá morando, alegando</p><p>tratativas documentadas com o proprietário anterior. D. Pedro, segundo demons-</p><p>tram as cartas trocadas, dizia precisar da residência para ter onde instalar as filhas,</p><p>Maria da Glória e Paula Mariana, convalescentes. A quantidade de pessoas de um</p><p>séquito era grande, e talvez não fosse impossível pensar que d. Pedro teria real-</p><p>mente comprado uma segunda propriedade em Botafogo para abrigar todos os</p><p>servidores que acompanhariam as crianças.</p><p>1 5 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 5 5</p><p>As casas de Botafogo, segundo Debret16 e outros viajantes, estavam entre as</p><p>chácaras mais encantadoras do Rio de Janeiro. O local era residência habitual de</p><p>ricos negociantes brasileiros e ingleses e de altos funcionários imperiais.</p><p>Filha,</p><p>Nada me dizes de assistência? (1) Ainda nada? Além disto, que-</p><p>ro saber a quem compraste o anel de cadeia e coração ou se to</p><p>deram, e se assim foi com toda a verdade manda-me dizer quem</p><p>to deu, e de quem é o cabelo que tem dentro do coração (2).</p><p>Responde sem me enganares, e com aquela verdade com</p><p>que eu sempre te falo. Até à noite, filha, tira-me da aflição em que</p><p>estou por causa do anel que tantas tolices tem feito supor a</p><p>Este teu filho, amigo e amante etc.</p><p>Imperador</p><p>P. S.</p><p>A Paula está outra vez com febre, Deus queira não seja fatal.</p><p>25</p><p>18–27</p><p>11</p><p>(1) Referia-se d. Pedro ao atraso da menstruação de sua amante.</p><p>Conforme cartas já publicadas,17 sabemos que a menstruação de Domitila</p><p>atrasou ao menos uma semana nesse período. A primeira referência à “assistência”</p><p>foi em 20/11/1827.</p><p>No dia 22, ele diz:</p><p>Se à noite tiveres alguma coisa irei à Glória, primeiro que à tua casa.18</p><p>A “Glória” é a Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, provável refe-</p><p>rência a alguma promessa feita por ele para que Deus não lhe enviasse outro filho</p><p>72</p><p>1 5 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 5 7</p><p>da marquesa. O imperador não precisava de uma notícia dessas chegando à Euro-</p><p>pa enquanto um novo casamento era negociado com tanta dificuldade.</p><p>(1) Era comum o costume de possuir mechas e fios de cabelos de pessoas</p><p>queridas como lembrança, muitas vezes transformando-os em adereços, como</p><p>pulseiras e colares trançados com fechos em ouro, ou em medalhões, como no</p><p>caso do coração usado por Domitila que atraiu os ciúmes do monarca.</p><p>39. D. Maria II, rainha de Portugal.</p><p>1 5 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 5 7</p><p>Filha,</p><p>Eu não te escrevi logo de manhã porque acordei às oito e um</p><p>quarto, e logo apareceu o Chalaça, e tendo-me de me vestir (para</p><p>a festa) (1) o não pude fazer com tenção de te escrever depois;</p><p>mas infelizmente recebo a triste notícia do falecimento do nosso</p><p>amigo Pedro (2) e então fechei-me, estando já para sair para a</p><p>cidade, e te escrevi mal e porcamente pois eu não soube aonde</p><p>fiquei com tal nova, e agora mesmo estou com uma cara que o</p><p>Carlota (3), que nada sabia, me perguntou o que eu tinha. Eu sin-</p><p>to ainda muito mais por eu me ter deixado iludir pelo B. de Soca</p><p>Rabo (4) a ponto de fazer tal; mas como assim não seria? Sendo</p><p>eu sincero e franco e ele, maroto e velhaco? Valha-nos Deus, o</p><p>mesmo Deus lhe dê o Reino da Glória em remuneração de tantos</p><p>e tão aviltantes trabalhos. Filha, até à noite depois que vier do</p><p>Teatro, pois contigo quero aliviar este teu coração que se sente</p><p>estalar de dor, remorsos, desesperação em suma, de tudo quanto</p><p>é neste mundo de mortificante. Então, filha, manda estar a porta</p><p>aberta que eu lá vou estar contigo. Aceita, filha, tudo quanto há</p><p>de bom em amizade, pois te oferece</p><p>Este teu filho, amigo e amante etc.</p><p>Imperador</p><p>1</p><p>18–27</p><p>12</p><p>(1) Referência às festividades em comemoração ao quinto aniversário da co-</p><p>roação de d. Pedro I: missa na Capela Imperial e recepção no paço.</p><p>(2) Quem seria o “amigo Pedro” é um dos grandes enigmas dessas cartas</p><p>inéditas. O filho deles, com esse nome, havia falecido um ano antes. O irmão dela,</p><p>Pedro de Castro, ainda estava vivo nessa época, assim como seu sobrinho, afilhado</p><p>do monarca. Existe a possibilidade de ser algum membro do batalhão comandado</p><p>por Carlos Maria Oliva que havia sido despachado para Recife, mas não foi possí-</p><p>vel comprovar essa suspeita até o momento.</p><p>73</p><p>1 5 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 5 9</p><p>(3) João Carlota, funcionário do paço, amigo de d. Pedro, presente entre as</p><p>testemunhas de 7 de setembro de 1822.</p><p>(4) B. de Soca Rabo é um provável anagrama do barão de Sorocaba.</p><p>Filha,</p><p>Dei o abraço nas nossas filhas, e recebi a tua segunda carta.</p><p>Sinto não me dizeres = Podes vir = como eu te pedi; e espero que</p><p>assim me mandes dizer, respondendo-me a esta, que serve para</p><p>te tornar a pedir que me mandes dizer = Podes vir =, porque as-</p><p>sim fico certo que não é por comprazeres comigo. Fui ver, como</p><p>ontem te disse, as joias da Duquesa, e achei a peça número 6</p><p>que eu lhe não dei, bem como falta da número 2, que é um dos</p><p>nossos que lhe dei. Eu não falo nisto senão para te dizer que</p><p>cá existe a peça número 6 que, não tendo sido dada por mim, é</p><p>tua, como ontem te disse. Não me tomes a mal minha franque-</p><p>za, pois tudo quero fazer claro. Eu não quero que tu assentes</p><p>que eu cá deixaria ficar uma das peças que ontem te disse que</p><p>ficasses com elas, e por isso quis mui a levar. Espero me mandes</p><p>dizer = Podes vir =. Se isto me fizeres, apesar do meu grande</p><p>incômodo, conta comigo, se não pensarei e darei resposta à res-</p><p>posta desta que te escrevo sem pressa, pois já estou crismado há</p><p>muito tempo.</p><p>Teu filho, amigo e amante etc.</p><p>Imperador</p><p>6</p><p>18–27</p><p>12</p><p>P. S.</p><p>Perdoa se me mostro sentido de não me dizeres = Podes vir =,</p><p>mas tu vês que, assim como tu teimas em não mandares dizer-me</p><p>= Podes vir =, também eu sentido posso pedir-te uma, e muitas</p><p>vezes, este para mim grandíssimo favor, pois vejo nele teu desejo</p><p>74</p><p>1 5 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 5 9</p><p>de gozares da minha grosseira companhia, bem como eu da tua,</p><p>que sempre me será agradável.</p><p>O mesmo</p><p>Essa é a primeira de duas cartas do mesmo dia. Na outra, já publicada ante-</p><p>riormente, d. Pedro diz:</p><p>Não pude conseguir que me mandasses dizer ‘podes vir’. Paciência [...] eu lá vou.</p><p>[...] Manda-me dizer se posso ir e manda estar a porta aberta, que eu lá vou, e</p><p>adeus, até as dez horas. Responde-me a esta para ficarmos justos.19</p><p>Como imperador, ele podia ordenar e obedeceriam, mas, como homem, pedia.</p><p>Se ela dissesse não, ou não respondesse, ele não arrombaria a porta.</p><p>Filha,</p><p>Além de ir saber como passaste o resto da noite, eu vou agrade-</p><p>cer-te o modo lhano com que me trates esta noite, e pedir-te que te</p><p>não esqueças do que me prometes, e é o deixares-me uns dias por</p><p>outros (às horas do costume) saber da tua saúde pessoalmente.</p><p>Eu, minha filha, passei bem, como se ontem nada tivera tido,</p><p>pois nem ainda nem sequer [tive] vontade de ir à caixa, e dormi</p><p>bem. Só o que sinto é uma displicência, e fraqueza no corpo, mas</p><p>que em breve será restabelecido. Adeus, minha filha, aceita os</p><p>protestos da mais sincera amizade</p><p>Deste teu filho, amigo, fiel, constante, agradecido e sempre</p><p>verdadeiro</p><p>O Imperador</p><p>7</p><p>18–27</p><p>12</p><p>75</p><p>1 6 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 6 1</p><p>P. S.</p><p>Hei de confessar-me com o Monsenhor Fidalgo (1) amanhã,</p><p>como te disse, e espero que tu me não enganes quanto ao que</p><p>me prometes, pois então eu me reputarei o homem mais feliz por</p><p>estar bem com Deus não estando tu mal comigo.</p><p>(1) Duarte Mendes de Sampaio Fidalgo,</p><p>monsenhor da Capela Imperial, cô-</p><p>nego da Sé do Rio de Janeiro e reitor do seminário de N. S. da Lapa. Membro da</p><p>comissão de 1822, responsável pela coroação e sagração de d. Pedro I.</p><p>Pelo teor da carta, podemos entender que Domitila finalmente disse: “podes vir”...</p><p>Após se confessar, d. Pedro mandou uma carta para ela em 8/12/1827:</p><p>[...] Acabando de confessar-me, não posso por dever de cristão deixar de te ir</p><p>(pelo modo que posso) pedir perdão das ofensas que tiveres de mim e daquelas</p><p>que tu supuseres ter. Eu te peço, minha filha, que, da minha parte, peças perdão</p><p>(tão decididamente como eu te peço) à tua mãe e que me respondas. Uma coisa te</p><p>pediria, mas temo não ser atendido, que era queimares todas aquelas cartas que te</p><p>tenho escrito desde 10 de setembro, não porque eu tenha medo que tu as mostres,</p><p>mas porque pode acontecer (o que Deus não permita) que tu faleças (ainda que</p><p>eu irei primeiro) e em tal desgraçado caso, minha honra ficar manchada. Se me</p><p>fizeres isto, eu te remeterei as tuas que cá tenho guardadas.20</p><p>Depois de pedir perdão a ela e à mãe, pede que ela destrua as cartas desde</p><p>o reatamento até aquela data. O final do ano chegava, e com ele o aniversário de</p><p>um ano da morte da imperatriz Leopoldina e as primeiras notícias da Europa a</p><p>respeito das dificuldades em se arrumar uma nova esposa para d. Pedro. O que</p><p>ele poderia ter feito para ofender a mãe de Domitila? Talvez fosse ainda um eco</p><p>da tentativa de expurgar os Castros Canto e Melo da corte depois do atentado à</p><p>baronesa de Sorocaba.</p><p>1 6 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 6 1</p><p>Filha,</p><p>Como tu tens estado sem ires (e por mui justo motivo) ao Teatro,</p><p>e tendo nós muito apetite de assistirmos à Comédia Francesa, e</p><p>podendo-o não ir eu hoje ao Teatro, e ir depois de amanhã pare-</p><p>cer combinação entre nós, ou para nestes dias que não vamos</p><p>estarmos juntos, ou nós que vamos nos vermos, assentei de ir</p><p>esta noite ao Teatro, um pouco para evitar todas as suspeitas e</p><p>podermos viver sossegados. Eu bem conheço que muitos escrú-</p><p>pulos são maus; mas, neste nosso caso, e posição delicadíssima,</p><p>convém muito uma perfeita fantasmagoria. Manda-me dizer o</p><p>que te parece, que é impossível que te não pareçam duas coi-</p><p>sas: primeira, muito escrúpulo; segunda, muito bom pensamento,</p><p>para gozarmos um do outro sem que os outros se divirtam à nos-</p><p>sa custa. Adeus, filha, recebe o coração saudoso</p><p>Deste teu filho, amigo e amante etc.</p><p>Imperador</p><p>13</p><p>18–27</p><p>12</p><p>O jogo prossegue: a tentativa de não serem vistos juntos, a farsa, a “fantasmagoria”.</p><p>Filha,</p><p>Como me parece que tu tens alguma coisa que te aflija, e pare-</p><p>cendo-me que te poderei pela minha companhia ainda que gros-</p><p>seira consolar-te, pretendo ir mais cedo do que te mandei dizer, e</p><p>irei às dez, e para que não haja jogo, para esse fim deixo ordem</p><p>(indo agora para o Botafogo) que, não chegando eu até as oito, se</p><p>retirem, e assim posso com certeza lá chegar à sua casa às dez.</p><p>Adeus, filha, até então, e espero que estejas mais doce do que</p><p>mostras pelas tuas cartas, que estão umas um tanto sem amiza-</p><p>de, e outra seca como um pau. Eu estimarei não ser participante</p><p>76</p><p>77</p><p>1 6 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 6 3</p><p>pessoalmente das tuas quizílias (1), pois isso seria uma injustiça</p><p>sendo eu tão bom (agora) para ti e sendo teu</p><p>Filho, amigo e amante etc.</p><p>Imperador</p><p>14</p><p>18–27</p><p>12</p><p>(1) Inimizade, antipatia.</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Desejo saber como passou e lhe participar que eu e as meninas</p><p>estamos bons, que a Maria Isabel se vai vacinar (1) e que a mi-</p><p>nha filha Rainha (2) vai com bastante melhora. Estimamos que</p><p>se divirta pelo Caju (3).</p><p>Aceite os protestos da maior consideração com que sou,</p><p>Querida Marquesa, Seu amo que muito a estima</p><p>Imperador</p><p>23</p><p>18–27</p><p>12</p><p>(1) Referência à vacina contra a varíola, instituída por d. João VI desde 1811.</p><p>A vacinação era realizada às quintas-feiras e domingos na igreja do Rosário.</p><p>(2) D. Maria da Glória, rainha de Portugal com a renúncia do pai, só assumi-</p><p>ria efetivamente o trono em 1834, sob o nome de d. Maria II.</p><p>(3) Provável referência à Ponta do Caju, próximo de onde hoje se encontra a</p><p>zona portuária do Rio de Janeiro. Na época, era um agradável local utilizado para</p><p>banhos de mar. Chegou a ser frequentado por d. João VI e d. Leopoldina.</p><p>78</p><p>1 6 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 7 1 6 3</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Desejo saber como passou, e participar-lhe que eu e as meninas</p><p>estamos bem, a Rainha vai assim mesmo. Já desde hoje lhe come-</p><p>ço a dar os parabéns dos seus anos (1), mostrando-lhe o quanto</p><p>desejaria que goze desses dias mais cem.</p><p>Aceite os protestos da maior amizade e consideração, com</p><p>que sou,</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Seu amo que muito a estima</p><p>Imperador</p><p>26</p><p>18–27</p><p>12</p><p>(1) O aniversário de 30 anos da marquesa seria no dia seguinte, 27 de dezembro.</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Desejo que me mande dizer como passou e participar que eu e as</p><p>meninas estamos bem, que a Rainha minha filha vai assim mesmo.</p><p>Aceite os protestos da mais pura, lícita e sincera amizade, e</p><p>consideração com que sou,</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Seu amo que muito a estima</p><p>Imperador</p><p>31</p><p>18–27</p><p>12</p><p>79</p><p>80</p><p>1 6 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 6 51 6 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 6 51 6 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 6 5</p><p>1828</p><p>1 6 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 6 7</p><p>40. Movimentação no porto do Rio de Janeiro.</p><p>1 6 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 6 7</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Agradeço-lhe muito o [rasgado], pois eu [rasgado] precisava de</p><p>tua boa [rasgado] em razão do desespero em que estou por causa</p><p>de ainda não ter recebido notícias do paquete (1) de outro dia, e</p><p>do chegado de hoje (tendentes ao meu negócio), em razão de o</p><p>Gordon (2) estar na Serra.</p><p>Nada tenho a enviar-lhe senão os protestos da maior amiza-</p><p>de e consideração com que sou,</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Seu amo que muito a estima</p><p>Imperador</p><p>1</p><p>18–28</p><p>12</p><p>(1) Derivação da palavra alemã pack, o mesmo que feixe, molho, maço de</p><p>cartas. Paquebote, ou packet boat, era o termo com que se designava o navio que</p><p>levava carta da França para a Inglaterra.1 A palavra paquete virou sinônimo do</p><p>correio transportado pelos navios que ligavam a América à Europa.</p><p>(2) Provável referência a notícias de Barbacena referentes às negociações</p><p>diplomáticas visando ao apoio de Inglaterra, França e Áustria ao processo de</p><p>sucessão do trono em Portugal. No final de 1827 e 1828, também começaram a</p><p>chegar informações a respeito das dificuldades de se arrumar uma nova esposa</p><p>para d. Pedro.</p><p>81</p><p>1 6 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 6 9</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Desejo saber como passou; eu passei bem, e as meninas que lá</p><p>vão. A Rainha já deu três passos segura pelas criadas. A Chica</p><p>(1) está bem.</p><p>Aceite os protestos da maior amizade e consideração com</p><p>que sou,</p><p>Querida marquesa, Seu amo que muito a estima e estimará,</p><p>Imperador</p><p>14</p><p>18–28</p><p>1</p><p>(1) D. Francisca Carolina, quarta filha de d. Pedro I com d. Leopoldina. Nas-</p><p>cida em 2 de agosto de 1824 e falecida em Paris, em 27 de março de 1897. A</p><p>princesa d. Januária, nascida em 11 de março de 1822 e falecida em 13 de maio de</p><p>1901, não é mencionada em nenhuma destas cartas, talvez porque tivesse a saúde</p><p>melhor que a das irmãs.</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Desejo saber como passou; eu e as meninas estamos bons. A Rai-</p><p>nha vai indo, e a Chica está boa.</p><p>Aceite os protestos da maior amizade, e consideração com</p><p>que sou,</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Seu amo que muito a estima, e estimará</p><p>Imperador</p><p>15</p><p>18–28</p><p>1</p><p>82</p><p>83</p><p>1 6 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 6 9</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Desejo saber como passou. Eu passei bem, e as meninas. A Rai-</p><p>nha vai indo.</p><p>Querida Marquesa, Seu amo que muito a estima e estimará</p><p>Imperador</p><p>17</p><p>18–28</p><p>1</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Muito sinto que ontem passasse tão incomodada, e lhe afirmo que</p><p>muito atormentado estive enquanto o Barão (1) à noite me não</p><p>assegurou que estava melhor. Agora muito estimo a melhora, e</p><p>um</p><p>parasita que amanhã pelas 11 ou meio-dia já o crescimento</p><p>que tiver seja menor, e poderá ser que em consequência da des-</p><p>carga, dele mesmo escape, o que eu muito desejaria.</p><p>Aceite os protestos de maior amizade e consideração com</p><p>que sou,</p><p>Querida Marquesa, Seu amo que muito a estima, e estimará</p><p>Imperador</p><p>25</p><p>18–28</p><p>1</p><p>(1) Barão de Inhomirim (ver carta 68, nota 2).</p><p>84</p><p>85</p><p>1 7 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 7 1</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Muito estimei saber ontem quando vim do Teatro que continua-</p><p>va a passar bem, e que desde as nove e meia até as 11 e quarto</p><p>que não dormia mui sossegada. Meu prazer será consumado se</p><p>eu souber que hoje não teve acréscimo (1), ou que o teve muito</p><p>menos, pois a Marquesa não pode pensar a aflição com que tenho</p><p>andado, motivada pelo cuidado que tenho tido. Se eu alguma vez</p><p>estiver doente é que poderá calcular que tal é uma mortificação,</p><p>como a minha tem sido.</p><p>Aceite os protestos da maior, e mais pura, e sincera amizade</p><p>e consideração com que sou,</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Seu amo que muito a estima e estimará</p><p>Imperador</p><p>28</p><p>18–28</p><p>1</p><p>(1) Febre intermitente.</p><p>86</p><p>1 7 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 7 1</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Desejo saber como passou, e muito estimarei que fosse bem, pois</p><p>me interesso cordialmente pela sua saúde, que apeteço ser sem-</p><p>pre no melhor estado.</p><p>Aceite os protestos da maior amizade e consideração com</p><p>que sou,</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Seu amo que tanto a estima e estimará</p><p>Imperador</p><p>2</p><p>18–28</p><p>2</p><p>P. S.</p><p>Agora com todo o prazer parto para a Glória, acompanhado de</p><p>todos os filhos, em dar graças pela melhora da Rainha, que tam-</p><p>bém vai.</p><p>87</p><p>1 7 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 7 3</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Muito desejo saber como tem passado, e como está de saúde, pois</p><p>me interesso o mais possível por que ela seja a mais perfeita. Eu</p><p>estou bom, e cheguei bem. As meninas estão boas, todas menos</p><p>a Paula, que vai melhor. Aceite os protestos da maior amizade e</p><p>consideração com que sou,</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Seu amo que muito a estima e estimará</p><p>Imperador</p><p>26</p><p>18–28</p><p>2</p><p>Muito estimarei, querida Marquesa, saber como passou, e</p><p>se lhe não fez mal a chuva que apanhou durante o seu passeio,</p><p>em que estimo se divertisse. Eu estou bom, o Pedro (1) está quase</p><p>sem abalo de pulso e muito esperto, como costuma, as mais bem.</p><p>Quero ver se agora lhas posso mandar, tanto a Duquesa, que já</p><p>deu ou vai dar lição, como a Maria Isabel. Não posso por ora dar</p><p>uma resposta cabal à sua pergunta relativa ao nosso Felício (2),</p><p>pois hei de examinar os papéis, tirar algumas informações, para</p><p>dar um conselho salutar.</p><p>Aceite os protestos da maior amizade e consideração como</p><p>sou,</p><p>Querida marquesa,</p><p>Seu amo que muito a estima e estimará</p><p>Imperador</p><p>5</p><p>18–28</p><p>3</p><p>88</p><p>89</p><p>1 7 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 7 3</p><p>(1) Pedro de Alcântara, futuro d. Pedro II.</p><p>(2) D. Pedro refere-se ao filho de Domitila com o primeiro marido. Felício foi</p><p>enviado para estudar em Paris no segundo semestre de 1827, tendo por guardião</p><p>o médico imperial dr. Domingos dos Guimarães Peixoto, que também ia para a</p><p>capital francesa realizar especialização médica. Ambos recebiam pensão do go-</p><p>verno imperial, que foram todas encerradas no início de 1828, deixando tanto o</p><p>dr. Peixoto como Felício sem amparo financeiro, o que foi resolvido em junho do</p><p>mesmo ano.</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Mande-me dizer como passou. Eu passei bem. O menino às 3 ho-</p><p>ras da noite parecia estar melhor, porque dormiu até a essa hora,</p><p>dos mais nada posso dizer porque agora me levanto da cama, e</p><p>ainda os não vi.</p><p>Aceite os protestos da maior amizade e consideração com</p><p>que sou,</p><p>Querida Marquesa, Seu amo que muito a estima e estimará</p><p>Imperador</p><p>7</p><p>18–28</p><p>3</p><p>90</p><p>1 7 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 7 5</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Desejo saber como passou. Eu passei bem, e todos os filhos. A</p><p>Paula vai indo.</p><p>Aceite os protestos da maior, mais sincera e desinteressada</p><p>amizade com que sou,</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Seu amo que muito a estima e estimará</p><p>Imperador</p><p>28</p><p>18–28</p><p>3</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Desejo que me mande dizer como passou. Eu passei bem; mas</p><p>agora estou com muita pena no fundo do meu coração pela morte</p><p>inesperada do Ponçadilha (1), que aconteceu às 5 horas e meia,</p><p>em menos de 5 minutos deitando sangue pela boca e ouvidos. Só</p><p>pôde chamar o Maurício (2), que quando chegou já havia dado</p><p>contas a Deus. As filhas vão bem.</p><p>Aceite os protestos da maior, mais pura, sincera e desinte-</p><p>ressada amizade com que sou,</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Seu amo que muito a estima e estimará,</p><p>Imperador</p><p>17</p><p>18–28</p><p>4</p><p>91</p><p>92</p><p>1 7 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 7 5</p><p>(1) Provável referência à morte de João Manuel Rodrigues Ponçadilha. O ou-</p><p>tro irmão, José Manuel, irá servir o filho de d. Pedro, d. Pedro II, como secretário,</p><p>já com a patente de coronel.</p><p>(2) Padre José Maurício Nunes Garcia?</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Desejo saber como passou e mais sua mãe. Eu passei bem, e todos.</p><p>Aceite os protestos da maior, mais pura, sincera e desinte-</p><p>ressada amizade com que sou,</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Seu amo que muito a estima, e estimará</p><p>Imperador</p><p>24</p><p>18–28</p><p>4</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Mande-me dizer como está, e mais sua mãe e tia. Eu estou bom,</p><p>e todos, menos a Paula, que se vomitou ontem.</p><p>Aceite os protestos da maior, mais pura, sincera e desinte-</p><p>ressada amizade com que sou</p><p>Seu amo que muito a estima, e estimará</p><p>Imperador</p><p>16</p><p>18–28</p><p>5</p><p>93</p><p>94</p><p>1 7 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 7 7</p><p>Minha querida Marquesa,</p><p>Muito desejo que goze de perfeita saúde, e de tão perfeita como</p><p>eu desejo para mim e para meus filhos. Peço-lhe que acredite que</p><p>estas minhas expressões são filhas do Amor que lhe consagro e</p><p>consagrarei, atentas às relações tão íntimas que tivemos.</p><p>Eu sempre sou o mesmo homem. Estar longe ou estar per-</p><p>to não me faz diferença para mostrar-lhe uma verdadeira, pura,</p><p>sincera e cordial amizade. Eu não seria homem digno de exis-</p><p>tir neste mundo se assim não pensasse. Eu estou, Deus louvado,</p><p>[bem] de saúde. A Paula já anda e vai à casa de fora. As mais,</p><p>e o Pedro, estão bons. A Duquesa mui esperta, e cada vez mais</p><p>galante, e a Maria (1) igualmente, e já quer andar só.</p><p>Eu lhe asseguro que jamais me esquecerei, quando for tem-</p><p>po, de lhe mandar dizer que venha para sua casa gozar mui des-</p><p>cansada do que é seu, e muito seu, e então, pelo sossego em que</p><p>há de estar, conhecerá a necessidade que havia desta sua saída</p><p>temporária da Corte. (2)</p><p>Vou tratar de mandar começar a arranjar o seu jardim, e</p><p>espero que ficará muito bom, e a seu gosto.</p><p>Aceite o protesto da maior, mais pura, sincera e desinteres-</p><p>sada amizade, com que sou,</p><p>Querida Marquesa,</p><p>Seu amo que muito a estima, e estimará</p><p>O Imperador</p><p>Boa Vista, 23 de julho de 1828.</p><p>(1) Maria Isabel faleceria três meses depois.</p><p>(2) Após o retorno do marquês de Barbacena da Europa, d. Pedro convenceu-</p><p>-se de que era necessário o afastamento de Domitila da corte para que ele tivesse</p><p>chance de receber o “sim” de alguma princesa europeia. O que havia adiado desde</p><p>o relatório do barão de Mareschal, em julho de 1826, resolveu pôr em prática, e</p><p>Domitila partiu no final de junho de 1828 para São Paulo.</p><p>95</p><p>1 7 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O 1 8 2 8 1 7 7</p><p>Querida Marquesa,</p><p>O meu amor pela Marquesa é que me compele a escrever-lhe, e</p><p>é que me compeliu no protesto que lhe remeti diretamente, e no</p><p>outro, que por motivo de carta sua em que me dizia coisas que, se</p><p>não esperava, igualmente o fez.</p><p>Eu não desejo que meu casamento seja frustrado por causa</p><p>da Marquesa, e se a Marquesa estivesse na minha delicada po-</p><p>sição decerto com o seu gênio, se ainda o não perdes, faria pior.</p><p>Agradeço a sua atenciosa e amigável carta, mas permita-me que</p><p>lhe peça que faça o que eu lhe digo, não pelas ameaças, que só</p><p>servem para aborrecerem e desvanecerem ideias de inteligências</p><p>entre mim e a Marquesa, mas sim por convicção. A Duquesa</p><p>bem e eu bom, e sempre seu verdadeiro e sincero amigo</p><p>Pedro</p><p>marque-</p><p>sa era tamanha que, com a notícia do falecimento da imperatriz Leopoldina, “se</p><p>ensofregou a cidade a inquirir das prováveis causas da morte, enredando historie-</p><p>tas, entabulando conjecturas e lançando o nome de Domitila à execração popular,</p><p>como a principal provocadora do que acontecera”. Essa imagem, até hoje, povoa</p><p>nosso pensamento... Muito mais, ainda, depois das cartas... Quem de nós não fe-</p><p>cha o livro e sacode a cabeça quando d. Pedro desvia os presentes da imperatriz</p><p>para dar à Titília? Não é de espantar que naquela época tenha sido necessário co-</p><p>locar patrulhas de cavalaria às portas do palacete de Domitila, em São Cristóvão,</p><p>1 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N A D A é p O r A c A s O 1 71 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N A D A é p O r A c A s O 1 71 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N A D A é p O r A c A s O 1 71 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N A D A é p O r A c A s O 1 7</p><p>até para defendê-la de tropas de soldados mercenários alemães sublevados, indig-</p><p>nados com o ocorrido à imperatriz.17</p><p>Viúvo, o imperador passou a exibir-se publicamente na companhia de Tití-</p><p>lia. O ministro francês Gabriac escrevia: “l’esclave de l’habitude d’une passion qui le</p><p>subjugue”.18 Você, caro leitor, poderá julgar, por si mesmo, o quanto o imperador era</p><p>escravo dessa paixão, acompanhando seus registros, pelos sete anos em que ela durou.</p><p>Paulo Rezzutti, por sua vez, o autor de Titília e o Demonão, poderia ser apre-</p><p>sentado de diversas maneiras: biógrafo consagrado, escritor premiado, pesquisa-</p><p>dor competente e cuidadoso etc. Escolho aquela que me parece uma das principais</p><p>contribuições que ele legou à nossa e às próximas gerações: suas obras possibilita-</p><p>ram descortinar um passado envolto em sombras, humanizar personagens demo-</p><p>nizados ou glorificados, mostrando que eram pessoas de carne e osso, convivendo</p><p>com seus medos, dores, angústias, moléstias, ambições, inveja, medos, loucuras,</p><p>extravagâncias, alegrias, prazeres, tristezas, mesquinharias, às vezes, contidas, ou-</p><p>tras mais evidentes.</p><p>Ao longo da história, os reis costumavam ter perto de si um biógrafo, alguém</p><p>contratado para registrar seus feitos e glórias, contar suas histórias. Algumas vezes,</p><p>embora poucas, esses escribas se rebelavam e contavam mais do que deviam. A es-</p><p>crita de Paulo Rezzutti se parece muito com a de alguém que esteve lá, sorrateira-</p><p>mente, abrindo uma porta, servindo uma taça, atrás de alguma cortina ouvindo o</p><p>que se passava. Ele tem o dom de nos fazer acreditar que a sua escrita está impreg-</p><p>nada de memórias, ainda que elas sejam evidenciadas pelas inúmeras fontes que</p><p>ele consulta para construir suas obras. Todavia, a sensação permanece... é como se</p><p>ele estivesse estado lá e também nos transportasse para lá. E onde é lá? É nos fios</p><p>da história que se tecem e destecem a cada acontecimento. Ler Titília e o Demonão</p><p>não é um convite apenas à intimidade de um rei e de sua concubina; é um convite</p><p>à intimidade de uma época, de uma cidade, de uma corte forjada à brasileira, com</p><p>padrões copiados da Europa e adaptados a um país que diferia completamente dos</p><p>arquétipos já decadentes do velho continente.</p><p>Deixe que o século XIX envolva sua leitura e compartilhe com o imperador d.</p><p>Pedro I um pouco dos sete anos do seu apaixonado cotidiano!</p><p>Rio de Janeiro, outono de 2019.</p><p>Maria Celi Chaves Vasconcelos*</p><p>* Professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Pesquisadora do CNPq/Cien-</p><p>tista do Estado do Rio de Janeiro.</p><p>1 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N A D A é p O r A c A s O 1 71 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N A D A é p O r A c A s O 1 71 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N A D A é p O r A c A s O 1 71 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N A D A é p O r A c A s O 1 7</p><p>Nada é por acaso</p><p>Durante as pesquisas históricas realizadas para um romance sobre um antigo</p><p>professor da Faculdade de Direito de São Paulo, Júlio Frank, um vulto feminino</p><p>insinuava-se.</p><p>Nas esquinas da velha São Paulo, com suas casas protegidas por rótulas e</p><p>suas mulheres de mantilha, na Revolução Liberal de 1842 e até no cemitério da</p><p>Consolação, eu tropeçava nela. A presença, delicada a princípio, ampliou-se,</p><p>beirando o incômodo. Tornava-se impossível não coletar o que ia surgindo a</p><p>respeito dela em paralelo com as pesquisas sobre o professor alemão enterrado</p><p>nas Arcadas.</p><p>Após achar que o romance sobre a Bucha estava terminado, comecei a me</p><p>ocupar dessa senhora. Primeiro chamava-a veneravelmente de “Marquesa”, com</p><p>“m” maiúsculo mesmo, pouco me importando com as normas. Não podia ser de</p><p>outra forma: o retrato dela, já idosa, no seu túmulo exigia tal deferência. Até que a</p><p>vi, próxima do final de sua existência, através dos olhos de Isabel Burton,1 sentada</p><p>no chão de terra batida, fumando cachimbo! Desse dia em diante passamos a uma</p><p>maior intimidade, bem... nem perto da que ela teve com seu famoso amante, mas</p><p>já podíamos, ao menos, considerar-nos amigos.</p><p>Procurando livros, filmes e artigos sobre a vida de “Nhá Titília”, como a cha-</p><p>mava d. Pedro I em suas primeiras cartas, a esperança de ter algo original na bio-</p><p>grafia que eu projetava sobre ela esvaía-se no horizonte. Corri museus e arquivos</p><p>públicos e privados atrás de fontes primárias, mas pouco ou nada de novo surgia,</p><p>1 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N A D A é p O r A c A s O 1 9</p><p>além de duas mensagens do imperador para ela, guardadas na Academia Paulista</p><p>de Letras e presentes nesta edição. Estudando o livro sobre as cartas de d. Pedro</p><p>para Domitila, publicado pela Nova Fronteira em 1984, algo me chamou a atenção.</p><p>No final da introdução, o editor informava, baseado no historiador Pedro Calmon,</p><p>que as 36 cartas pertencentes à coleção do embaixador Caio de Melo Franco, in-</p><p>clusas na obra, encontravam-se atualmente na “Spanish Society” de Nova York e,</p><p>portanto, não puderam ser cotejadas com as transcrições feitas pelo historiador e</p><p>romancista Alberto Rangel, na década de quarenta. Estranhei a informação; afinal,</p><p>em Nova York pode até existir alguma sociedade espanhola, mas o museu a que</p><p>eles deveriam estar se referindo era a Hispanic Society of America. Mas deixei isso</p><p>de lado. Se as cartas já haviam sido pesquisadas anteriormente por Rangel, e esta-</p><p>vam transcritas na coletânea, não haveria por que ir atrás disso.</p><p>Conversando sobre o assunto com uma amiga, a professora e pesquisado-</p><p>ra Claudia Thomé Witte, soube que o Itaú possuía uma carta de d. Pedro I para</p><p>Domitila.2 Ao lê-la, percebi que não era inédita: tratava-se de uma das peças da</p><p>coleção Caio de Melo Franco.3 Se esse acervo havia sido vendido para um museu</p><p>em Nova York, conforme afirmara Calmon, como uma instituição no Brasil pos-</p><p>suía uma das cartas? Entrei em contato com mr. John O’Neill, curador da seção de</p><p>obras raras e manuscritos da Hispanic Society, que confirmou existirem no acervo</p><p>do museu 94 cartas do imperador brasileiro para a marquesa de Santos. Como</p><p>uma coleção que eu pensava achar desfalcada poderia ter triplicado? A confu-</p><p>são ficou maior quando o curador norte-americano informou que o acervo havia</p><p>sido adquirido entre 1890 e 1917. Então não poderiam ser as mesmas cartas. Melo</p><p>Franco havia comprado as suas em 1939, como documenta uma ata do Instituto</p><p>Histórico e Geográfico Brasileiro.4</p><p>A confusão, quem desfez foi Alberto Rangel. No seu primeiro livro sobre o</p><p>casal de amantes, Dom Pedro I e a marquesa de Santos, editado em Paris, ele infor-</p><p>mava haver perdido o paradeiro de 94 cartas que uma senhora brasileira vendera</p><p>ao livreiro antiquário Charles Chadenat, em 1908, na França, e só sabia que esse</p><p>comerciante as repassara a um antiquário alemão. A primeira edição desse livro de</p><p>Rangel é de 1916, quando o autor encontrava-se na capital francesa sitiada pelos</p><p>alemães, em plena Primeira Guerra Mundial. Sem conseguir contato com o anti-</p><p>quário germânico, perdeu o rastro. Mas eu o achei.</p><p>Chadenat vendeu as cartas para seu colega Karl Hiersenann. Este revendeu-</p><p>-as, conforme apurei</p><p>21</p><p>18–28</p><p>12</p><p>Esta é a última carta do lote vendido na Europa e que hoje pertence à Hispa-</p><p>nic Society of America. Nela, observamos a continuação de uma discussão entre</p><p>Domitila, exilada em sua cidade natal, e d. Pedro. Após viver quatro anos na capital</p><p>do Império, em meio ao luxo e ao poder, a acanhada São Paulo da época não era</p><p>suficiente para a marquesa. Se na corte ela já teve que enfrentar situações emba-</p><p>raçosas, pior lidar com o provincianismo paulistano. As velhas amigas evitavam-</p><p>-na, os piqueniques fracassavam, e até as diversões e festas não passavam de uma</p><p>pálida imitação dos faustos da corte. Alguns dias antes, d. Pedro havia recebido</p><p>uma mensagem de Domitila (anexo 9, p. 188) comunicando que estava partindo</p><p>de volta para a corte em 23 de dezembro. O imperador ameaçou até mesmo de não</p><p>deixá-la ver a filha, a duquesa de Goiás:</p><p>Não espere a marquesa, de chegar sem expressa ordem minha, que eu a trate</p><p>como minha amiga prezada que é (como creio). [...] saiba que no caso (que eu não</p><p>espero) de vir sem ordem minha que a marquesa a vá ver, pois ela não poderá visi-</p><p>96</p><p>1 7 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 7 91 7 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 7 91 7 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 7 91 7 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 7 9</p><p>tar a quem não quer concorrer para a glória de seu pai, do seu imperador e da sua</p><p>pátria. Nada mais tenho a dizer, senão que pode estar certa que, imediatamente</p><p>eu vir que a sua presença aqui me não influi nada sobre um negócio de tão grande</p><p>monta para o Império, eu serei o primeiro que, enviando-lhe expressamente um</p><p>soldado como agora faço, lhe mande ordem para se recolher para sua casa, pois</p><p>bem poderá e deverá supor quanto me custará o meu imperial coração vê-la ator-</p><p>mentada com incômodos.2</p><p>Mas essa determinação em mantê-la afastada foi diminuindo à medida que as</p><p>negativas aos pedidos de casamento iam se somando. Em abril de 1829, d. Pedro</p><p>permitiria o retorno de Domitila à corte.</p><p>1 7 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 7 91 7 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 7 91 7 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 7 91 7 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 7 9</p><p>Anexos</p><p>1 8 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 8 1</p><p>41. Vestimentas de pessoas na cidade de São Paulo.</p><p>1 8 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 8 1</p><p>As cartas a seguir não são em sua totalidade inéditas. A última carta de Domitila</p><p>para d. Pedro, por exemplo, já foi publicada anteriormente. Algumas outras cons-</p><p>tam do CD Pedro I: um brasileiro, feito pelo Museu Imperial, porém as versões</p><p>apresentadas nesta obra foram transcritas diretamente dos originais, corrigindo</p><p>erros e omissões anteriores. A última missiva, uma minuta em que d. Pedro enu-</p><p>mera os filhos bastardos, só apareceu, em parte, na obra de Octávio Tarquínio de</p><p>Sousa A vida de dom Pedro I.</p><p>Os documentos anexos estão na seguinte ordem:</p><p>1 – Nomeação de Domitila como dama camarista da imperatriz, 1825.</p><p>2 e 3 – Documentos referentes à primeira tentativa de banimento de Domitila</p><p>e dos irmãos da corte, após o atentado contra a baronesa de Sorocaba, em 1827.</p><p>4 a 8 – Cartas de Domitila respondendo a d. Pedro a respeito da retirada dela</p><p>da corte em junho de 1828.</p><p>9 a 11 – Cartas de Domitila e de sua mãe para d. Pedro, dezembro de 1828.</p><p>12 e 13 – Cartas anônimas dirigidas a d. Pedro I após o conhecimento do</p><p>retorno de Domitila para a corte, em março de 1829.</p><p>14 a 15 – Cartas de Domitila para d. Pedro a respeito da necessidade de se</p><p>retirar definitivamente da corte, provavelmente junho a agosto de 1829.</p><p>16 – Cartas de despedida de Domitila para d. Pedro, 26/27 de agosto de 1829.</p><p>17 – Minuta de uma carta de d. Pedro I na qual, além de outros assuntos, trata</p><p>dos filhos que teve fora do casamento.</p><p>42. Vestimentas das damas do paço.</p><p>1 8 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 8 3</p><p>43. Carta da marquesa de Aguiar para Domitila de Castro notificando</p><p>sua nomeação como dama camarista da imperatriz. Rio de Janeiro, 4 de</p><p>abril de 1825. Museu Imperial/IBRAM/MinC, Rio de Janeiro</p><p>1 8 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 8 3</p><p>Ilma. Exma. Sra.,</p><p>Sua Majestade A Imperatriz minha Ama me Ordena de parti-</p><p>cipar a V. Exa. que A Mesma Augusta Senhora houve por bem</p><p>fazê-la Sua Dama Camarista; o que eu lhe faço saber a V. Exa.</p><p>para sua inteligência.</p><p>Deus guarde a V. Exa.</p><p>Paço em 4 de abril de 1825.</p><p>Marquesa Camareira-Mor (1)</p><p>Sra. D. Dometília de Castro Canto e Melo</p><p>(1) Maria Francisca de Portugal e Castro, marquesa de Aguiar, dama da rainha</p><p>d. Maria I, camareira-mor da princesa e depois imperatriz d. Leopoldina. Viúva de</p><p>d. Fernando José de Portugal e Castro, conde e marquês do mesmo título. Morava</p><p>na rua do Lavradio, no Rio de Janeiro, até 1831, quando retornou para Lisboa.</p><p>Essa nomeação foi feita logo em seguida à afronta sofrida por Domitila na</p><p>Capela Imperial, quando as damas da corte ali reunidas retiraram-se após sua en-</p><p>trada no local. Apesar de parecer curioso a nomeação ter saído em nome da impe-</p><p>ratriz, era um procedimento usual. Cada soberano nomeava seus cortesãos.</p><p>D. Pedro deve ter solicitado isso como um favor a d. Leopoldina e esta, sem</p><p>suspeitar ainda de nada, concedeu-o.</p><p>Ilma. e Exma. Senhora,</p><p>Havendo Sua Majestade o Imperador entabulado, em potência</p><p>estrangeira, negociações ao complemento das quais muito de</p><p>frente se lhes opõem a estada de Vossa Excelência nesta Corte, e</p><p>mesmo neste Império. E conhecendo o mesmo Augusto Senhor o</p><p>quanto Vossa Excelência se interessa por sua glória particular e</p><p>felicidade da nossa pátria, tendo deixado tempo oportuno para lhe</p><p>mandar esta participação, ordena Sua Majestade Imperial que</p><p>Vossa Excelência, embarcando no bergantim português Treze de</p><p>Maio, siga para Portugal ou para outro qualquer país estrangei-</p><p>ro que Vossa Excelência escolha, ficando Vossa Excelência na</p><p>1</p><p>2</p><p>1 8 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 8 5</p><p>inteligência que deverá partir o mais tardar até o dia três ou qua-</p><p>tro de setembro próximo futuro, levando Vossa Excelência em</p><p>sua companhia, além de seus dois irmãos, os gentis-homens da</p><p>Câmara José de Castro e Pedro de Castro, aquelas pessoas que</p><p>quiser. Outrossim, manda o mesmo augusto senhor participar a</p><p>Vossa Excelência que nada perderá das honras, regalias, pensões</p><p>e de tudo aquilo que Sua Majestade Imperial lhe mandava dar,</p><p>bem como a seus irmãos.</p><p>Sua Majestade o Imperador fica certo [de] que Vossa Exce-</p><p>lência executará o que lhe ordena, independente de mais ordem</p><p>ou procedimento algum, e, para que nada falte, se expedem as</p><p>ordens necessárias por todas as repartições competentes.</p><p>Deus guarde a Vossa Excelência.</p><p>Paço, 26 de agosto de 1827.</p><p>Senhora marquesa de Santos.</p><p>Nesse ofício com letra de Francisco Gomes da Silva, secretário de d. Pedro</p><p>I, vemos a decisão do imperador em afastar da corte Domitila e seus irmãos, três</p><p>dias depois de ocorrido o atentado à baronesa de Sorocaba. O bispo de São Paulo,</p><p>intermediando o banimento, conseguiria, evocando o fato de Domitila ter tido um</p><p>filho há pouco tempo, protelar essa partida, até que finalmente, por volta de 10 de</p><p>setembro, d. Pedro e ela fizeram as pazes.</p><p>Ilmo. e Exmo. Sr.,</p><p>Tendo a Marquesa de Santos de fazer uma viagem à Europa</p><p>por assim convir aos interesses deste Império Nossa Pátria, e</p><p>não querendo Sua Majestade o Imperador que uma Dama de</p><p>Seu Paço deixe de ir com toda a decência que lhe é devida, e</p><p>lembrando-se que V. Exa. é seu irmão e que ninguém melhor a</p><p>poderá acompanhar com mais interesse e cuidado. Há o mesmo</p><p>Augusto Senhor por bem ordenar que V. Exa. acompanhe a dita</p><p>Marquesa à Europa, e que lá persista com ela, ficando V. Exa.</p><p>na inteligência que deve sair deste porto no bergantim português</p><p>3</p><p>1 8 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 8 5</p><p>Treze de Maio, e que deve partir o mais tardar até no dia três ou</p><p>quatro de setembro sem falta.</p><p>[ilegível], 26 de agosto de 1827.</p><p>Sr. P. Castro Canto e Melo</p><p>Ordem para Pedro de Castro do Canto e Melo seguir a irmã para o exílio na</p><p>Europa. Com a negativa da partida, ele seria retirado da corte e enviado para a</p><p>Cisplatina.</p><p>Meu bom senhor,</p><p>Estimo a boa saúde de V. M. e de S. Altezas.</p><p>Meu senhor, como V. M. tem sido Meu Pai e de todos os</p><p>meus Filhos, eu peço licença a V. Majestade para acabar de efe-</p><p>tuar o casamento da minha Chiquinha com o mano José (1) isto</p><p>sendo do gosto de V. M., senão, nada farei. Minha mãe ainda</p><p>passa incomodada, minha tia o mesmo, mano José também hoje</p><p>amanheceu com muitos tremores de frios e assim está de cama.</p><p>Eu, graças a Deus, vou passando sem novidade.</p><p>Sou de V. M. criada</p><p>Que muito o estima e obrigada</p><p>Marquesa de Santos</p><p>(1) Ver nota 1 da carta 34. O casamento foi realizado em 24 de maio de 1828.</p><p>Senhor,</p><p>Estimo a saúde de V. M. e de S. A. V. Majestade sabe mui bem</p><p>que, se eu vou fazer este passeio, é só para lhe fazer a vontade.</p><p>Não que eu tal tenções tivera de sair daqui para parte alguma.</p><p>Assim, senhor, não posso ir para o mês que vem, sim nos princí-</p><p>4</p><p>5</p><p>1 8 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 8 7</p><p>pios de julho. Não sou destas de saco às costas, já lhe faço esta</p><p>vontade, e assim peço-lhe não me mortifique mais.</p><p>Sou de V. M. criada e obrigada.</p><p>Marquesa de Santos</p><p>Em resposta a esta carta, d. Pedro escreve em 22/5/18281:</p><p>Minha filha (d. Maria da Glória) infalivelmente sai até dois do mês de julho,</p><p>e por isso eu muito desejo que a marquesa saia pelo menos seis dias antes, o que</p><p>vem a ser 26 de junho, porque muito convém que os que vão possam dizer “a mar-</p><p>quesa já saiu”, e não “está para sair”. Todos acreditarão o que aconteceu e não o que</p><p>está para ser, que pode não ser, e o negócio é grave e mui grave. Na sua primeira</p><p>presta-se a tudo que eu lhe mandar, pede-me instruções, e agora que lhe escrevo</p><p>diz-me que não pode antes de princípios de julho, tendo convido com o Gericinó</p><p>até meado de junho. Sustente sempre aquela palavra que uma vez der e não faça</p><p>rodeios, veja bem a quem a dá e qual é a magnitude do negócio que é dependente</p><p>do cumprimento de sua palavra.</p><p>A próxima carta responde ao imperador.</p><p>Senhor,</p><p>Perdoe-me que lhe diga isto: eu não preciso de conselhos, não</p><p>sou como V. M., as minhas respostas são todas nascidas do meu</p><p>coração. Ao Gericinó eu sempre disse que sairia no princípio de</p><p>julho, e se ele disse o contrário disto, mentiu. Eu torno de novo</p><p>a fazer esta vontade, sairei até o fim deste mês que vem e Deus</p><p>permita sejam todas as suas vontades feitas assim como eu as</p><p>faço. Eu tive criação, sei conservar a minha palavra e sou de V.</p><p>M. criada e obrigada</p><p>Marquesa de Santos</p><p>6</p><p>1 8 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 8 7</p><p>Senhor,</p><p>Estimo a boa saúde de V. M. e de S. A. Vejo Vossa Majestade</p><p>falar-me na minha jornada e nos meus cavalos, e que não há</p><p>tempo a perder. Sei mui bem isso. Faz esse favor de mandar vir</p><p>os ditos cavalos para, enquanto eu não for, serem tratados. Esse</p><p>o fato irá mesmo por terra. Porque eu ainda não tenho destino</p><p>algum, daqui vou mesmo a cavalo. Guardo o préstimo de V. M.</p><p>para outra coisa e também rogava-lhe que me mandasse dizer</p><p>por quanto tempo quererá que eu esteja separada da minha casa,</p><p>ora nisto pode ter coração. Enquanto o falarem e dizerem que eu</p><p>não vou, seria melhor dizerem-lhe outras coisas que devia dizer,</p><p>não lhe importarem comigo. Eu sairei. Não se mortifique com a</p><p>minha jornada, eu tenho paciência para lhe aturar tudo e tomava</p><p>já vê-lo de mulher, porque só assim descansarei de sofrer tantos</p><p>incômodos. O mano José não vai já beijar a mão de V. M., porque</p><p>está doente. Eu passo sem novidade. Sou de V. M. sincera criada</p><p>e obrigada</p><p>Marquesa de Santos</p><p>Nesta carta, Domitila responde a uma outra, enviada por d. Pedro em 26 de</p><p>maio de 1828,2 em que ele busca apressá-la:</p><p>Como em vésperas de jornada não há tempo a perder, lhe participo que em</p><p>Santa Cruz tem dois cavalos e aqui tem, além do Rabicano, o Tocano, que está</p><p>bom. Eu desejo saber o que quer para mandar aprontar e de caminho lhe ofereço,</p><p>se quiser aproveitar-se, de carruagem leve quatro pessoas até Santa Cruz. [...] Espe-</p><p>ro que se aproveite do que lhe ofereço e que não faça como os marotos, que dizem</p><p>que a marquesa não sabe, adivinhem.</p><p>Senhor,</p><p>Estimo a boa saúde de V. M. e de S. Altezas.</p><p>Não busco pretexto, privilé[gios], para interromper a minha</p><p>viagem. Sei cumprir o que prometo. Provera Deus que Vossa</p><p>7</p><p>8</p><p>1 8 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 8 9</p><p>Majestade assim fosse. Eu hei de sair até o fim do mês e peço-lhe</p><p>não me incomode mais.</p><p>Sou de Vossa Majestade sincera criada e obrigada</p><p>Marquesa de Santos</p><p>Este bilhete foi escrito por Domitila, provavelmente, na fazenda do visconde</p><p>de Gericinó, onde parou por quinze dias depois da sua saída da capital, em junho</p><p>de 1828.</p><p>Segundo alguns historiadores, ela teria esperado, próximo da cidade do Rio</p><p>de Janeiro, ordens de que d. Pedro mandasse chamá-la assim que o marquês de</p><p>Barbacena e a rainha de Portugal tivessem deixado o porto a caminho da Europa.</p><p>Mas, por essa resposta a alguma mensagem dele, é possível ver que o imperador</p><p>mantinha firme a sua resolução de que ela deixasse efetivamente a corte. Afinal,</p><p>os despachos dos embaixadores estrangeiros mencionariam de imediato qualquer</p><p>retorno da favorita, como ocorreria em 1829.</p><p>Meu senhor,</p><p>Estimo a boa saúde de V. M. e de S. Altezas.</p><p>Creio ter cumprido com o meu degredo e, persuadida de que</p><p>V. M. já não se lembra de mim, o que prova a falta de cartas suas,</p><p>tomo a resolução de retirar-me daqui até o dia vinte e três deste</p><p>mês e creio que não ofendo e nem pretendo incomodar a V. M. Eu</p><p>o respeitarei sempre como meu soberano e meu amo e nada mais</p><p>eu lhe sirvo, não intrometerei-me com sua vida pois isto em mim</p><p>não é novo. Viverei em minha casa como qualquer outra pessoa.</p><p>Espero isto como mais uma graça, além das muitas feitas a mim e</p><p>a minha família. Aprove esta minha resolução. Deus lhe dê muita</p><p>saúde e vida para satisfação de todos que o amam e respeito que</p><p>lhe deseja com todas as veras.</p><p>Sua criada e obrigada</p><p>Marquesa de Santos</p><p>9</p><p>1 8 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 8 9</p><p>Esta carta foi escrita por Domitila em São Paulo, no começo de dezembro de</p><p>1828. Farta de aguardar o chamado de d. Pedro para que voltasse à corte, ela resol-</p><p>veu tomar por si própria a resolução. Note-se que ela comunica, altivamente, sua</p><p>intenção de partir para o Rio de Janeiro no dia 23. O imperador mandaria diversas</p><p>cartas em resposta a essa ousadia, proibindo a partida dela sem sua ordem. Tam-</p><p>bém à mãe de Domitila, d. Escolástica Bonifácia, que estava com ela em São Paulo,</p><p>d. Pedro escreveu ameaçando tomar medidas contra a marquesa e sua família se</p><p>ela aparecesse na corte sem sua permissão.</p><p>Meu senhor,</p><p>Com a maior mágoa li a carta de V. Majde. que me pôs na mais</p><p>grande perturbação por ver o quanto V. Majde. se afligiu com o</p><p>recebimento da carta da Marquesa sobre o que só tenho a dizer</p><p>a V. M. I. que ela bem conhece o quanto deve a V. Majde não só</p><p>pelo lado do que é, como não ignora o muito respeito que em qual-</p><p>quer caso deve tributar à Pessoa de V. Majde. Não é de supor,</p><p>Senhor, que ela dê um passo tão inconsiderado como diz, talvez</p><p>por se persuadir que isto fosse do agrado de V. M. I., porque por</p><p>mim está prevenida, muito de antemão, para não dar um só passo</p><p>sem positiva determinação de V. M. I. Contudo agora tenho de</p><p>estranhar-lhe o seu modo de pensar errado. Esteja V. M. I. certo</p><p>que quem pela sua conduta tem sabido até agora amar e respeitar</p><p>a V. Majde saberá continuar na mesma. Sinto meu senhor, e sinto</p><p>n’Alma, que uma produção de meu desgraçado ventre viesse ao</p><p>mundo para dar motivos de inquietações a V. Majde.</p><p>Deus ponha termo a tudo.</p><p>Beijo a mão a V. M. I. e sou com toda a submissão e respeito</p><p>Súdita e Criada, muito obrigada</p><p>Viscondessa de Castro</p><p>10</p><p>1 9 0 T I T Í</p><p>L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 9 1</p><p>Senhor,</p><p>Que motivo haverá mais forte que me obrigou por algum tempo</p><p>separar-me de minha casa. Mas senão o respeito e amor que de</p><p>todo o meu coração consagro à pessoa de V. M. e por isso cheia</p><p>da maior sensibilidade. Estou resolvida a entregar-me a dispo-</p><p>sições de V. M. I. qualquer. Sei que o seu magnânimo coração</p><p>jamais deixará perecer quem por V. M. daria mil vidas se todas</p><p>as possuísse.</p><p>Embora prevaleçam meus inimigos, como eles foram ganha-</p><p>dos pelo amor que V. M. me tinha, fico satisfeita porque V. M. sa-</p><p>berá defender-me de seus projetos. Depois de V. M. bem ponderar</p><p>o meu estado, a minha casa e meus parentes. A minha casa me</p><p>dará todas as insinuações que devo fazer em observância de seu</p><p>proveito, protestando a V. M. firmemente executar, porque nada</p><p>haverá neste mundo de maior valor para mim do que dizer que</p><p>prezo e que sou de Vossa Majestade criada e obrigada</p><p>Marquesa de Santos</p><p>Senhor,</p><p>A consciência de um súdito cuja ascendência tem por timbre fi-</p><p>delidade e amor à augustíssima Casa de Bragança; a consciên-</p><p>cia, digo, deste súdito fiel a V. M. I. e a toda a Imperial Família</p><p>seria devorada de crudelíssimos remorsos se ele não empunhasse</p><p>a pena para traçar e depor aos pés do trono de V. M. I. quanto</p><p>sabe a prol não menos dos interesses mundanos de V. M. I., como</p><p>ainda dos espirituais. Verdades, senhor, tenho eu por obrigação</p><p>quanto antes de apresentar a V. M. I. duras verdades, sim, se-</p><p>nhor, porém precisas, para que V. M. I. salve enquanto é tempo.</p><p>Verdades finalmente que eu mesmo por ora não vou exibir pe-</p><p>rante a augusta presença, porque sei quanto é perigoso dizê-las</p><p>onde podem ser escutadas pelo partido da pessoa a quem são</p><p>amargas. Possam elas chegar junto à benfazeja alma de V. M. I.</p><p>11</p><p>12</p><p>1 9 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 9 1</p><p>e eletrizando o sempre magnânimo coração trazer ao Império e</p><p>a V. M. I. a paz de que nas atuais circunstâncias tanto carece-</p><p>mos. Todavia, se eu que por agora me encubro não tiver a dita</p><p>de ser escutado por V. M. I., só me resta rogar-lhe com a mais</p><p>viva instância que guarde a presente para conhecer no progresso</p><p>dos males que vou descrever, que ainda V. M. I. tem súditos que</p><p>anelam o seu bem-estar e que sacrificarão até a sua existência</p><p>para dar ao melhor dos monarcas um aviso a tempo. Mandou</p><p>V. M. I. por conduto do tenente Lima que a marquesa de Santos</p><p>regressasse para o seu Palácio de São Cristóvão. Que mandado,</p><p>Senhor! Sancionou V. M. nesse ato a sua perdição e a do Brasil</p><p>inteiro!!! A marquesa de Santos!! Esse monstro de ingratidão e</p><p>perfídias vem acabar com a preciosa vida de V. M. I. Não satis-</p><p>feita com assoalhar por toda a parte diatribes contra a pessoa</p><p>sagrada de V. M. I., atribuindo a V. M. defeitos que esta pena re-</p><p>pugna escrever, indispondo a quase toda a nação com V. M.; não</p><p>temendo esta pérfida ferir a mão benfazeja que a tirou do nada</p><p>e a toda a família, como todo o Brasil sabe; não se envergonhan-</p><p>do essa maligna mulher prostituir-se em São Paulo com dois es-</p><p>tudantes; não envergonhada com sua gravidez resultado de sua</p><p>devassidão. Ainda mais, senhor (até causa horror a descrição</p><p>dessa fatal, mas indispensável verdade), ainda, senhor, a mais se</p><p>abalança esse monstro de perfídia e iniquidade. Convidada pelo</p><p>republicano Costa Carvalho (1) e seus consócios, que ela finge</p><p>detestar como aparenta em toda a parte, e de quem por sistema e</p><p>combinação ajustada, vem dizendo muito mal para melhor ador-</p><p>mecer a vigilância de V. M. I., ela se dirige de comum acordo com</p><p>os inimigos de V. M. I. a cortar com mão sacrílega a tão necessá-</p><p>ria quanto preciosa vida de V. M. I., propinando veneno em co-</p><p>mida ou bebida que lhe deve ofertar. E será difícil, senhor, V. M.</p><p>convencer-se destas verdades? Quem é capaz de assassinar seus</p><p>filhos em seu próprio ventre, como agora fez para abortar, tam-</p><p>bém o não será de assassinar aquele a quem tudo deve? Quem se</p><p>arroja a envenenar a virtuosa imperatriz não o fará a V. M. I.?</p><p>Ah! Senhor, lembre-se V. M. I., pela alma da mesma virtuosa e</p><p>sempre chorada imperatriz, lembre-se, senhor, por tudo quanto</p><p>lhe é mais caro, que semelhante mulher vem mergulhar o Brasil,</p><p>1 9 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 9 3</p><p>o augusto inocente herdeiro do trono e os amigos de V. M. I. em</p><p>amargo pranto. Lembre-se mais, senhor, finalmente, que aquela</p><p>que sob o nome de V. M. I. tem aceitado dinheiro a Gordon (2)</p><p>e Stuart (3), que a procuraram para obterem ratificação de seus</p><p>tratados, essa que tem vendido presidências e consulados e que</p><p>a todos os respeitos tem atraiçoado a V. M. I. para consumação</p><p>dos atentados, vem disposta agora a vender aos revolucionários</p><p>a vida de V. M. Ah! Senhor, se V. M. não se apercebe do abismo</p><p>que lhe está preparado, ai de V. M. I. e da tenra prole tão infeliz</p><p>que acabará na mais dura orfandade. Ai do Brasil, e mais que</p><p>tudo, ai das contas que V. M. I. tem que dar perante o ser dos</p><p>seres de não curar de tamanhas calamidades. Mas, senhor, um</p><p>raio de esperança me consola e diz-me que V. M. I. ouvirá este</p><p>aviso, mas, se for tão desgraçado que V. M. observe o precipício</p><p>sem desviar-se dele, outra vez será com V. M. I. o fiel</p><p>Avisador</p><p>Pelo tom da carta, bem diferente da anterior, dá para imaginar a conversa que</p><p>a mãe, a viscondessa de Castro, deve ter tido com Domitila.</p><p>(1) José da Costa Carvalho (1796-1860). Barão, visconde e marquês de Monte</p><p>Alegre. Com a abdicação de d. Pedro I, integraria a regência trina permanente. Foi</p><p>diretor da Academia de Direito de São Paulo e presidente da província.</p><p>Tanto sir Charles Stuart (3) quanto sir Robert Gordon (2), diplomatas britâni-</p><p>cos, buscaram contato com Domitila na esperança de que sua influência junto ao</p><p>imperador os beneficiasse de alguma forma.</p><p>Esta carta anônima e a seguinte medem bem a temperatura da opinião públi-</p><p>ca a respeito do retorno de Domitila. D. Pedro deve ter achado graça em algumas</p><p>informações prestadas, talvez não a respeito dos “estudantes paulistas” — que po-</p><p>demos imaginar serem os primeiros jovens a ir cursar a Academia de Direito de</p><p>São Paulo —, tanto que ele procurou confirmar esses rumores.</p><p>A acusação de que ela teria envenenado a imperatriz já corria de boca em</p><p>boca na época da morte de d. Leopoldina, assim como a troca dos “Pedros”. Co-</p><p>mentava-se que o verdadeiro herdeiro teria falecido durante a viagem deles para a</p><p>Bahia, e alguns servidores do paço e os pais de Domitila teriam efetuado a troca,</p><p>sendo d. Pedro II na realidade filho da marquesa e do imperador.</p><p>1 9 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 9 3</p><p>Senhor,</p><p>Do velho e sempre amigo fiel e vassalo honrado de V. M. I. e do</p><p>senhor d. João VI desde os seus primeiros anos, não posso ser in-</p><p>diferente à ingratidão e à infâmia. Senhor, a pessoa que V. M. tan-</p><p>to honrou, a qual teve ventura de contar já três augustos filhos</p><p>de monarca tão excelso, esqueceu-se de tudo, a uma escandalosa</p><p>prostituição: companhia de rapazes e estudantes em público, em</p><p>particular, pela roça... Senhor, perante meu soberano, não posso</p><p>dizer tudo, mas digo somente que ela, se ela não está, esteve pe-</p><p>jada. Vossa Majestade por quem é para salvar a sua honra, pro-</p><p>cura indagar o procedimento desta mulher ingrata, então saberá</p><p>o que não convém dizer.</p><p>Deus guarde a Vossa Majestade Imperial meu amo.</p><p>São Paulo.</p><p>13</p><p>1 9 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 9 5</p><p>44. Carta de Domitila de Castro para d. Pedro I. Rio de Janeiro, julho/</p><p>agosto de 1829. Museu Imperial/IBRAM/MinC, Rio de Janeiro</p><p>1 9 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 9 5</p><p>Filho,</p><p>Não é pelos seus conselhos que buscamos ambos separarmos,</p><p>sim porque vejo sem que haja uma coisa certa V. M. me tenha</p><p>aborrecido tanto e me tenha dito tantas coisas que eu não sou</p><p>merecedora. Assim, senhor, a minha presença não lhe há de ser</p><p>mais fastidiosa nem V. M. casando e nem deixando de casar, e só</p><p>desta maneira terão sossego meus inimigos.</p><p>Fique V.</p><p>M. na certeza que serei eternamente grata a tantos</p><p>benefícios que lhe devo.</p><p>Sou de V. M. amiga e criada</p><p>Demetília</p><p>Nesta carta, enviada entre junho e agosto de 1829, quando d. Pedro já estava</p><p>ciente de que as tratativas de casamento na Europa haviam tido um final positivo,</p><p>Domitila ainda duvidava do casamento, ou não queria acreditar que, depois do seu</p><p>retorno à corte, ele a faria partir novamente.</p><p>Senhor,</p><p>Recebi ao meio-dia a carta de V. M. e não respondi logo como de-</p><p>via por causa de uma grande dor de cabeça que me acompanhava.</p><p>Agora que me acho melhor agradeço a V. M. a honra que me fez,</p><p>pois se V. M. tivesse feito isto há mais dias já estava tudo decidido.</p><p>Eu, senhor, largo todas as minhas chácaras, com bem custo do</p><p>meu coração. Assim espero em V. M. que me dê outras proprieda-</p><p>des iguais em tudo às que deixo. Eu não quero viver mais em chá-</p><p>caras, sim quero uma boa chácara na cidade e julgo que o Plácido</p><p>não porá dúvida de ceder as suas casas para este fim. Restam só</p><p>duas chácaras, da escolha de V. M., que igualem as três que deixo.</p><p>Beija a augusta e benfeitora</p><p>Mão de V. Majestade</p><p>A Marquesa de Santos</p><p>14</p><p>15</p><p>1 9 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 9 7</p><p>No verso do papel, encontra-se a datação do recebimento, com letra de d.</p><p>Pedro: 10/7/1829.</p><p>Não é difícil imaginar a dor de cabeça de Domitila. Acabada a festa da peque-</p><p>na duquesinha de Goiás, alguns dias depois d. Pedro descobria-se casado na Euro-</p><p>pa, e não só isso: a noiva era linda e jovem. Neste ponto, a marquesa acreditava que</p><p>bastava sair de perto do Palácio de São Cristóvão para que tudo ficasse bem, mas,</p><p>com o tempo, e outras dores de cabeças, descobriria que o que a aguardava era o</p><p>retorno definitivo para São Paulo.</p><p>45. Carta de Domitila de Castro para d. Pedro I. Rio de Janeiro, agosto</p><p>de 1829. Museu Imperial/IBRAM/MinC, Rio de Janeiro</p><p>1 9 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 9 7</p><p>Senhor,</p><p>Eu parto esta madrugada e seja-me permitido ainda esta vez bei-</p><p>jar as mãos de V. Majestade por meio desta, já que os meus infor-</p><p>túnios, e a minha má estrela, me roubaram o prazer de o fazer</p><p>pessoalmente. Pedirei constantemente ao céu que prospere e faça</p><p>venturoso ao meu Imperador enquanto a Marquesa de Santos,</p><p>Senhor, pede por último a V. M. que, esquecendo como ela tantos</p><p>desgostos, se lembre só mesmo, a despeito das intrigas, que ela em</p><p>qualquer parte que esteja saberá conservar dignamente o lugar a</p><p>que V. M. a elevou assim como ela só se lembrará do muito que</p><p>deve a V. M. Que Deus vigie e proteja como todos precisamos.</p><p>De V. Majestade Súdita</p><p>Muito obrigada</p><p>Marquesa de Santos</p><p>Esta é, provavelmente, a última carta escrita por Domitila para d. Pedro. Ela</p><p>partiria do Rio de Janeiro, definitivamente, na madrugada de 26 para 27 de agosto</p><p>de 1829.</p><p>16</p><p>1 9 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 9 9</p><p>46. Carta de Pedro I para o marquês de Resende. Rio de Janeiro, 22 de</p><p>abril de 1830. Museu Imperial/IBRAM/MinC, Rio de Janeiro</p><p>1 9 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 1 9 9</p><p>Rio de Janeiro, 22 de abril de 1830.</p><p>Meu Resende,</p><p>Esta vai acusar-lhe a recepção de todas as que me tem escrito, e</p><p>fazer-lhe conhecer que sou aquele mesmo que sempre fui, e para</p><p>isso o livrei de ir morrer na Rússia, e agora até mesmo de lá ir,</p><p>pois mandei que fosse o Maceió, que de lá deverá vir para cá. Ora</p><p>por este motivo viria Lornes, e a quinta de Varja. – A estas horas</p><p>já tens visto minha filha Duquesa (1), e mesmo o pequeno Pedro</p><p>(2) que lá nasceu em 7 de junho. Parece-me que, no interná-lo,</p><p>não o fiz mal; aquele que foi feito naquela noite de 27 de janeiro</p><p>de 1823, e nasceu a 5 de setembro do mesmo ano, por um moti-</p><p>vo bem simples, que a mãe não era burra, e se chama Rodrigo</p><p>(3), e que lhe morreu o Pai putativo, está na Inglaterra. Em São</p><p>Paulo existe também uma, feita (4) enquanto os senhores leva-</p><p>ram tempo a me arranjarem casamento. Em casa por ora nada,</p><p>mas o trabalho continua e em breve darei cópia de mim, e farei a</p><p>Imperatriz dar cópia de si, se ela me não emprenhar a mim, que</p><p>é a única desgraça que me falta a sofrer. Se eu me tivesse como</p><p>o Gagis e não sei quem mais aplicado as [ilegível], nem teria fi-</p><p>lhos, nem incômodos por consequência, e que são os cadilhos</p><p>de quem tem filhos e os querilhos (ai perdoe) quizilas de quem</p><p>tem filhos, nem teria feito metade das despesas que tenho feito;</p><p>mas, enfim, que quer que lhe faça? Já não há remédio. Agora já</p><p>propósito firme de não... se não em casa, não só por motivos de</p><p>religião, mas até porque para o pôr assim [desenho de um pênis</p><p>ereto] já não é pouco dificultoso. Vamos indo com os pés para a</p><p>cova para depois nos encontrarmos no vale de Josafá, aonde ca-</p><p>beremos todos, segundo diz a escritura, e o Padre Vieira o prova</p><p>em um dos seus sermões, duvidando ao mesmo tempo (o que</p><p>eu também duvido) que haja e caiba um Desembargador com</p><p>honra, muito principalmente em 1830, em que o câmbio está a</p><p>33, o ágio do cobre a 30, as notas pequenas a 10 e 12, o ouro que</p><p>não é muito sendo peças a 17 e 18, em [ilegível], a prata a 96 e</p><p>100; contudo vamos vivendo mal e pobremente, para não dizer</p><p>porcamente; mas Barbacena, que está ao leme, e dirige tudo =</p><p>abaixo de mim =, está esperançado de alcançar vitória = hagasse</p><p>17</p><p>2 0 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 2 0 1</p><p>el miracolo, hagalo el diabolo. Sto. Amaro (5) lá vai tratar da</p><p>questão portuguesa. Gomes (6) e Rocha (7) passear, em suma</p><p>ministerial e constitucionalmente postos fora ao que eu anuí por</p><p>interesse deles, e meus; não que eles estejam fora da minha gra-</p><p>ça, e a prova é que lhes dou pensões. Gomes vai encarregado de</p><p>arranjar meus negócios, e Rocha de passear; a Sto. Amaro (8)</p><p>vai, creio que por causa deste; forte tola! Como se em França</p><p>não houvessem milhares de putas melhores do que ela. Acabou-</p><p>-se o papel e a carta.</p><p>Seu amo e amigo,</p><p>Pedro</p><p>Nesta carta, na realidade uma minuta com letra de Francisco Gomes da Silva</p><p>(6), d. Pedro informa a Antônio Teles da Silva Caminha e Meneses, o marquês de</p><p>Resende, a nomeação do marquês de Maceió para a embaixada do Brasil na Rússia</p><p>no lugar daquele, discorre sobre o problema com o câmbio brasileiro e faz diversas</p><p>outras considerações. A parte mais interessante é o levantamento dos filhos que ele</p><p>realiza: (1) Isabel Maria, a duquesa de Goiás; (2) Pedro de Alcântara Brasileiro, fi-</p><p>lho de Clemência Saisset, comerciante, junto com o marido, na rua do Ouvidor, no</p><p>Rio de Janeiro, que partiu grávida de d. Pedro para a França, onde nasceu a criança</p><p>em 1829; (3) Rodrigo Delfim Pereira, filho do imperador com a baronesa de So-</p><p>rocaba; Boaventura Delfim Pereira, marido desta, que assumiu a criança, faleceu</p><p>em 20/3/1829; Maria Isabel (4), futura condessa de Iguaçu, está mencionada nesta</p><p>passagem: “Em São Paulo existe também uma, feita enquanto os senhores levaram</p><p>tempo a me arranjarem casamento”. A carta apresenta algumas incongruências.</p><p>Silva Leme, na Genealogia Paulistana, dá a data de nascimento de Rodrigo Del-</p><p>fim Pereira como 4/11/1823, no que é seguido pelos demais historiadores. Alberto</p><p>Rangel, em Textos e pretextos, afirma que Pedro de Alcântara Brasileiro nasceu em</p><p>Paris, a 23 de agosto de 1829.</p><p>Quanto aos demais personagens mencionados nesta carta:</p><p>(5) Sto. Amaro: José Egídio Álvares de Almeida (1767-1832). Barão, visconde</p><p>e marquês de Santo Amaro. Foi ministro das Relações Exteriores e embaixador em</p><p>Paris e Londres.</p><p>2 0 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A N E x O s 2 0 1</p><p>(7) Rocha: João da Rocha Pinto (1791-1837). Homem de confiança de d.</p><p>Pedro, foi veador das duas imperatrizes e encarregado de questões diplomáticas.</p><p>Suicidou-se em sua casa em Lisboa quando se viu falido.</p><p>(8) A Sto. Amaro: Maria Benedita Papança (1787-1846). Segunda esposa de</p><p>José Egídio, com quem se casou em 1802.</p><p>Rocha e Francisco Gomes partiam para a Europa devido à pressão do mar-</p><p>quês de Barbacena, que, assumindo o governo e em alta popularidade, conseguiu o</p><p>afastamento dos cortesãos</p><p>portugueses. Mas a boa estrela do marquês não brilha-</p><p>ria para sempre. Em 30 de setembro de 1830, um decreto imperial demite Barbace-</p><p>na de suas funções, para, segundo o texto, “[...] tomarem-se as contas da Caixa de</p><p>Londres, examinando-se as grandes despesas feitas pelo marquês de Barbacena, do</p><p>Meu Conselho de Estado, tanto com Sua Majestade Fidelíssima, Minha Augusta</p><p>Filha, como com os emigrados portugueses na Inglaterra, e especialmente com o</p><p>Meu Casamento”.</p><p>2 0 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O C r O N O L O g I A 2 0 32 0 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O C r O N O L O g I A 2 0 32 0 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O C r O N O L O g I A 2 0 32 0 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O C r O N O L O g I A 2 0 3</p><p>Cronologia</p><p>1797</p><p>20 de janeiro: nascimento de d. Leopoldina.</p><p>27 de dezembro: nascimento de Domitila de Castro.</p><p>1798</p><p>7 de março: batizado de Domitila.</p><p>12 de outubro: nascimento de d. Pedro.</p><p>1808</p><p>8 de março: chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro.</p><p>1813</p><p>13 de janeiro: casamento de Domitila com o mineiro Felício Pinto Coelho de</p><p>Mendonça.</p><p>2 0 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O C r O N O L O g I A 2 0 5</p><p>1817</p><p>6 de novembro: casamento de d. Pedro e d. Leopoldina no Rio de Janeiro.</p><p>1819</p><p>6 de março: Domitila é esfaqueada por Felício em São Paulo; tem início a</p><p>disputa pela guarda dos filhos.</p><p>1821</p><p>22 de abril: d. Pedro é nomeado príncipe regente.</p><p>25 de abril: regresso da família real para Portugal.</p><p>1822</p><p>25 de agosto: chegada de d. Pedro a São Paulo.</p><p>29 de agosto: primeira relação entre d. Pedro e Domitila de Castro.</p><p>7 de setembro: proclamação da Independência.</p><p>1º de dezembro: coroação de d. Pedro como imperador do Brasil.</p><p>1823</p><p>Primeiro semestre: chegada de Domitila ao Rio de Janeiro. 30 de junho: d.</p><p>Pedro sofre um acidente de cavalo (carta 1).</p><p>4 de novembro: nascimento de Rodrigo Delfim Pereira, filho de d. Pedro com</p><p>Maria Benedita, irmã de Domitila (carta 37).</p><p>1824</p><p>4 de março: início do processo de divórcio de Domitila. 21 de maio: sentença</p><p>de divórcio do primeiro marido.</p><p>23 de maio: nascimento de Isabel (futura duquesa de Goiás) (cartas 8 e 9).</p><p>31 de maio: batizado de Isabel na Igreja do Engenho Velho.</p><p>22 de setembro: d. Pedro ordena o fechamento do teatro, depois de Domitila</p><p>ser barrada na entrada (carta 11).</p><p>2 0 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O C r O N O L O g I A 2 0 5</p><p>1825</p><p>Páscoa: Domitila é destratada na Capela Imperial (carta 25).</p><p>4 de abril: é nomeada dama camarista da imperatriz d. Leopoldina (anexo 1).</p><p>12 de outubro: recebe o título de viscondessa de Santos.</p><p>2 de dezembro: nascimento de d. Pedro II.</p><p>7 de dezembro: nascimento de Pedro, segundo filho de Domitila com o im-</p><p>perador.</p><p>10 de dezembro: Brasil declara guerra à Argentina.</p><p>1826</p><p>9 de fevereiro: viagem dos imperadores à Bahia; Domitila acompanha como</p><p>dama da Imperatriz.</p><p>10 de março: falecimento de d. João VI.</p><p>13 de março: falecimento do filho Pedro no Rio de Janeiro.</p><p>1º de abril: retorno da Bahia.</p><p>2 de maio: d. Pedro renuncia à coroa portuguesa em favor de sua filha d.</p><p>Maria da Glória.</p><p>20 de maio: d. Pedro reconhece oficialmente como filha Isabel, que passa a se</p><p>chamar Isabel Maria.</p><p>24 de maio: Isabel Maria recebe o título de duquesa de Goiás, com tratamento</p><p>de Alteza.</p><p>12 de outubro: Domitila tem o seu título elevado a marquesa de Santos.</p><p>2 de novembro: falecimento do pai de Domitila, o visconde de Castro, aos</p><p>85 anos.</p><p>23 de novembro: embarque de d. Pedro para o Rio Grande do Sul.</p><p>11 de dezembro: falecimento de d. Leopoldina, aos 29 anos.</p><p>1827</p><p>15 de janeiro: d. Pedro retorna para o Rio de Janeiro.</p><p>4 de abril: Domitila é nomeada dama da Real Ordem de Santa Isabel de</p><p>Portugal.</p><p>Maio: início das tratativas para um novo casamento de d. Pedro.</p><p>13 de agosto: nascimento de Maria Isabel, segunda filha de d. Pedro com</p><p>Domitila.</p><p>20 de agosto: partida do marquês de Barbacena para a Europa.</p><p>2 0 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 0 72 0 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 0 72 0 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 0 72 0 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 0 7</p><p>23 de agosto: atentado contra a baronesa de Sorocaba.</p><p>25 de agosto: d. Pedro retira as filhas de Domitila e leva-as para serem criadas</p><p>no palácio.</p><p>26 de agosto: ordem para Domitila embarcar para a Europa (anexos 2 e 3).</p><p>1828</p><p>Maio: Retorno do marquês de Barbacena.</p><p>27 de junho: partida de Domitila para São Paulo (anexos 5, 6, 7 e 8).</p><p>Julho: nova partida do marquês de Barbacena para a Europa.</p><p>25 de outubro: falecimento de Maria Isabel.</p><p>Agosto: cessação de hostilidades entre Brasil e Argentina.</p><p>15 de agosto: Domitila chega a São Paulo.</p><p>Dezembro: discussão entre Domitila e d. Pedro a respeito da volta dela à corte</p><p>(anexos 9, 10 e 11).</p><p>1829</p><p>29 de abril: retorno de Domitila para o Rio de Janeiro.</p><p>24 de maio: comemoração do aniversário da duquesa de Goiás.</p><p>2 de agosto: casamento de d. Pedro com d. Amélia por procuração.</p><p>27 de agosto: partida definitiva de Domitila para São Paulo (anexos 14, 15 e 16).</p><p>16 de outubro: desembarque de d. Amélia de Leuchtenberg no Rio de Janeiro.</p><p>17 de outubro: casamento de d. Pedro e d. Amélia.</p><p>25 de novembro: embarque da duquesa de Goiás para a Europa.</p><p>1830</p><p>28 de fevereiro: nascimento de Maria Isabel, futura condessa de Iguaçu, quar-</p><p>ta filha de d. Pedro e Domitila (anexo 17).</p><p>2 0 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 0 72 0 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 0 72 0 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 0 72 0 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 0 7</p><p>Notas</p><p>Prefácio</p><p>1 REZZUTTI, Paulo. Titília e o Demonão: cartas inéditas de d. Pedro I à marquesa de</p><p>Santos. 1. ed. São Paulo: Geração Editorial, 2011, carta p. 158.</p><p>2 GRAHAM, Caroline. Camilla. A amante do Rei: uma história de amor. Algés: Talento,</p><p>1995.</p><p>3 CABRAL, Helena Sacadura. Mulheres que amaram demais. Lisboa: A Esfera dos Livros,</p><p>2010.</p><p>4 NORTON, Luiz. A Corte de Portugal no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional,</p><p>1938.</p><p>5 PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru: EDUSC, 2005.</p><p>6 CRAVERI, Benedetta. Amantes y reinas: El poder de las mujeres. México: FCE Siruela,</p><p>2006.</p><p>7 ABBOTT, Elizabeth. Amantes: uma história da outra. Rio de Janeiro: Record, 2016.</p><p>8 REZZUTTI, Paulo. Titília e o Demonão: cartas inéditas de d. Pedro I à marquesa de</p><p>Santos. 1. ed. São Paulo: Geração Editorial, 2011, carta p. 92.</p><p>9 GRAHAM, Maria. Correspondências entre Maria Graham e a Imperatriz Dona</p><p>Leopoldina e cartas anexas. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1997, p. 112.</p><p>10 REZZUTTI, Paulo. Titília e o Demonão: cartas inéditas de d. Pedro I à marquesa de</p><p>Santos. 1. ed. São Paulo: Geração Editorial, 2011, carta p. 105.</p><p>11 Idem, carta p. 158.</p><p>2 0 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 0 9</p><p>12 Idem, carta p. 214.</p><p>13 Idem, carta p. 220.</p><p>14 Idem, carta p. 102.</p><p>15 Idem, carta p. 131.</p><p>16 Idem, carta p. 130.</p><p>17 NORTON, Luiz. A Corte de Portugal no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional,</p><p>1938, p. 285.</p><p>18 Idem, p. 289.</p><p>Nada é por acaso</p><p>1 Nada é por acaso. Isabel Arundel Burton, esposa do cônsul inglês Richard Burton,</p><p>narrou o encontro em BURTON, Isabel. The life of captain Sir Richard F. Burton, vol. 1,</p><p>p. 432.</p><p>2 CORRÊA DO LAGO, Pedro. Brasiliana Itaú: uma grande coleção dedicada ao Brasil, p.</p><p>521.</p><p>3 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 430.</p><p>4 Revista do IHGB, vol. 174, 1939, p. 757.</p><p>Os amantes</p><p>1 Apelido dado a São Paulo, atribuído ao governador Gomes Freire de Andrade (1685-</p><p>1763).</p><p>2 O primeiro a documentar essa história foi Vicente de Paulo Vicente de Azevedo, em</p><p>artigo de 1973 sobre a marquesa de Santos. Teria ouvido de Escragnolle Dória, que a</p><p>escutou quando estudante de Direito em São Paulo. A passagem foi repetida por Honório</p><p>de Sylos na introdução de Ensaio d’um quadro estatístico da Província de São Paulo, de</p><p>Daniel Pedro Müller, na edição da Coleção Paulística de 1978. Na continuação dessa</p><p>história, o príncipe</p><p>regente, ciente da beleza das filhas de Müller, teria passado diversas</p><p>vezes na frente da casa dele, no centro de São Paulo, tentando ser apresentado a elas.</p><p>Não logrando êxito, teria questionado diretamente o militar a respeito da aparência</p><p>das meninas. Em resposta, escutaria que elas eram feias, e os paulistas, mentirosos. A</p><p>verdade é que d. Pedro, quando foi recebido em São Paulo, não quis ver ninguém que</p><p>tivesse tomado parte da revolta ao lado dos bernardistas, incluindo Müller, que foi,</p><p>junto com outros, exilado para o Rio de Janeiro. Colocando um fim definitivo na lenda:</p><p>Guilhermina Müller, a filha mais velha do marechal, nascida em 1812, era pouco mais</p><p>que uma criança quando d. Pedro chegou à cidade, e, até onde sabemos, de pedófilo</p><p>ainda ninguém acusou o primeiro imperador brasileiro.</p><p>3 CALDEIRA, Jorge (org.). Brasil: A história contada por quem viu, p. 312 et seq.</p><p>2 0 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 0 9</p><p>4 Devido à ausência de instituições financeiras em São Paulo, os homens que dispunham</p><p>de capital emprestavam dinheiro ao governo em caso de necessidade.</p><p>5 Representante desse setor na Assembleia.</p><p>6 Martim Francisco tornou-se impopular desde a cruel execução do cabo Francisco José</p><p>das Chagas, ou Chaguinhas, como ficou conhecido popularmente um dos militares</p><p>revoltosos de Santos. Quem deixou uma viva descrição do caso foi o padre Feijó.</p><p>Primeiro Chaguinhas caiu da forca, pois a corda rompeu. Como não havia outra</p><p>própria, usaram um laço de couro, que, além de não o sufocar corretamente, acabou</p><p>arrebentando também. O condenado, ainda semivivo, apesar dos apelos dos presentes,</p><p>foi morto no chão. Além de secretário do Interior, responsável pela aplicação da justiça,</p><p>Martim Francisco era também secretário da Fazenda, e o povo pedia a deposição não só</p><p>dele, mas também a do outro vogal pelo comércio no governo provincial, o brigadeiro</p><p>Jordão. Não é difícil imaginar que a rixa entre “andradistas” e “bernardistas” tivesse</p><p>razões econômicas.</p><p>7 A memória escrita por Francisco de Castro do Canto e Melo foi publicada inicialmente</p><p>na Revista Comercial, de Santos, em 29 de dezembro de 1864, depois em diversas</p><p>outras publicações, inclusive na Revista do IHGB, tomo 41, segunda parte, de 1878, e</p><p>na História do Brasil Reino e do Brasil Império, de Melo Morais.</p><p>8 BUENO, Francisco de Assis Vieira Bueno. Recordações evocadas da memória.</p><p>9 Atual avenida Rangel Pestana.</p><p>10 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 101 e 469.</p><p>11 “Que podem parecer-me tais loucuras? / Estou tonto de ouvir estes senhores! / Parece-</p><p>me que estou entre paulistas / Que arrotando cegonhas, me aturdiam / Com a fabulosa</p><p>ilustre descendência / De seus claros avós, que de cá foram / Em jaleco e ceroulas...”</p><p>GARÇÃO, Pedro Antônio Correia. Teatro Novo. Drama. In Obras poéticas, Lisboa,</p><p>1778.</p><p>12 Para as dezenas de variantes, algumas demonstrando a enorme má vontade estampada</p><p>nos despachos dos embaixadores estrangeiros, ver as notas de Alberto Rangel em Dom</p><p>Pedro I e a marquesa de Santos, p. 122 et seq.</p><p>13 Rangel informa equivocadamente o ano de 1815 como o de nascimento de Francisca,</p><p>levando a erro todos os que o copiam. Na certidão de batismo de Francisca, que se</p><p>encontra na igreja de S. João Batista do Morro Grande, em Barão de Cocais, MG,</p><p>consta 1813.</p><p>14 OLIVEIRA Jr., Dimas (dir.); HARAZIM, Luis Felipe (dir.). A marquesa de Santos: uma</p><p>história real. DVD.</p><p>15 RANGEL, Alberto. Op. cit., p. 530 et seq.</p><p>16 Alberto Rangel, em Dom Pedro I e a marquesa de Santos, p. 91, informa que Felício teria</p><p>esfaqueado a esposa grávida em 6 de março de 1819. Logo em seguida diz que João,</p><p>o último filho do casal, teria sido batizado em 26 de agosto de 1819, deixando vaga a</p><p>informação a respeito da gravidez de Domitila. Porém, no termo de batismo da criança,</p><p>consta que ele foi batizado com um ano e quatro meses, tendo, portanto, nascido em</p><p>abril de 1818. Teria Rangel se confundido? Outros historiadores farão eco à informação</p><p>de Rangel sem apresentação de provas dessa aventada quarta gravidez de Domitila.</p><p>Estudando os autos do divórcio, não se encontram informações relativas a um aborto,</p><p>ou ao fato de ela estar grávida quando sofreu a agressão. Na justificativa para retirar-lhe</p><p>2 1 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 1 1</p><p>os filhos e por ter agredido a mulher, afirma Felício em janeiro de 1820 que d. Francisco</p><p>de Assis de Lorena o havia desonrado. O capitão-general Oyenhausen-Gravenburg, no</p><p>ofício nº 9 de 20 de fevereiro de 1820, relata que os problemas do casal eram anteriores</p><p>à chegada de d. Francisco de Lorena a São Paulo.</p><p>17 “Processo de justificação de sevícias e divórcios do qual foi autora D. Domitila de</p><p>Castro e o réu o seu primeiro marido.” Apud RANGEL, Alberto. Op. cit., anexo 125,</p><p>p. 416. O processo oficial de divórcio teve início em fevereiro de 1824, e a sentença foi</p><p>dada em maio.</p><p>18 RANGEL, Alberto. Op. cit., p. 98 et seq.</p><p>19 Ibid., p. 97.</p><p>20 BÖSCHE, Eduardo Teodoro. Quadros alternados..., p. 153.</p><p>21 SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro como é (1824-1826), p. 58.</p><p>22 Spix e Martius, em Viagem ao Brasil 1817-1820, reproduzem o seguinte dito popular</p><p>que recolheram: “Na Bahia, merecem gabo eles, e não elas; em Pernambuco, elas, e não</p><p>eles; em São Paulo, elas e elas”.</p><p>23 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 53.</p><p>24 “Começo a crer que se é muito mais feliz quando solteiro, pois agora só tenho preocupações</p><p>e dissabores, que engulo em segredo, pois reclamar é ainda pior; infelizmente vejo que</p><p>não sou amada.” Carta de Leopoldina para Maria Luísa, de 24 de maio de 1821, in</p><p>KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz, p. 379.</p><p>25 O mesmo que meretriz.</p><p>26 Cartas andradinas, p. 14 et seq.</p><p>27 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Op. cit., p. 434.</p><p>28 GRAHAM, Maria Dundas. Escorço biográfico de dom Pedro I, p. 140.</p><p>29 Segundo carta do acervo do Arquivo Histórico do Museu Imperial (I-POB-07.12.1825-</p><p>Biv.c), em dezembro de 1825 as propriedades adquiridas por Domitila em São Cristóvão</p><p>haviam sido colocadas todas sob um mesmo registro.</p><p>30 José Feliciano Fernandes Pinheiro, visconde de São Leopoldo, é a quem São Paulo</p><p>realmente deve a criação da Faculdade de Direito, e não a Domitila, como diz a lenda.</p><p>José Bonifácio, em 1821, em um memorial dirigido aos deputados paulistas que iriam</p><p>para as cortes de Lisboa, propunha a criação de um curso jurídico em São Paulo. José</p><p>Feliciano, um desses deputados, defendeu perante a Assembleia portuguesa as ideias</p><p>do Patriarca. Seis anos depois, como ministro da Justiça brasileiro, iria concretizar</p><p>esse projeto. Decidido desde julho de 1827 a procurar uma nova esposa, dificilmente</p><p>d. Pedro iria honrar a mulher que procuraria afastar da corte. A lei da criação dos</p><p>cursos jurídicos no Brasil é de 11 de agosto de 1827, mas esse assunto já era motivo de</p><p>discussão na Assembleia Constituinte, em 1823.</p><p>31 Após a morte de d. Leopoldina, o embaixador da Áustria recolheu o depoimento de</p><p>um cozinheiro do palácio, que afirmava ter sido testemunha de discussão entre os</p><p>imperadores por d. Pedro ter se ausentado mais de um mês de casa. Anexo ao ofício do</p><p>Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 1826. Relatório do embaixador barão de Mareschal,</p><p>apud RAMIREZ, Ezequiel Stanley, As relações entre a Áustria e o Brasil, p. 43, nota 31.</p><p>32 MELO MORAIS, Crônica geral do Brasil, tomo 2, p. 255.</p><p>33 GRAHAM, Maria Dundas. Op. cit., p. 164.</p><p>34 RANGEL, Alberto. Textos e pretextos, p. 200.</p><p>2 1 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 1 1</p><p>35 Philippe Leopold Wenzel, barão de Mareschal (1784-1851).</p><p>36 GRAHAM, Maria. Op. Cit., p. 170.</p><p>37 Em carta de 6 de abril de 1823, d. Leopoldina pediu ao barão von Stürmer: “[...] seria</p><p>bom chamar de volta o barão Mareschal, que desfruta aqui de péssima reputação</p><p>devido a suas opiniões intrigantes e levianas”. In KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza.</p><p>Op. cit., p. 419.</p><p>38 Apud RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro</p><p>I à marquesa de Santos, p. 165.</p><p>39 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Op. cit.</p><p>40 MELO MORAIS. Op. cit., p. 175.</p><p>41 GRAHAM, Maria. Op. cit., p. 130.</p><p>42 SOUSA, Octávio Tarquínio de. A vida de d. Pedro I, tomo 3, p. 1.138.</p><p>43 Annaes do Parlamento Brazileiro. Primeiro ano da quarta legislatura, vol. 2, p. 46.</p><p>44 Gazeta de Lisboa de 6 de agosto de 1831.</p><p>45 RANGEL, Alberto. Dom Pedro I e a marquesa de Santos, p.184 et seq.</p><p>46 SOUSA, Octávio Tarquínio de. Op. cit., tomo 2, p. 695.</p><p>47 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 210.</p><p>48 RANGEL, Alberto. Dom Pedro I e a marquesa de Santos, p. 212 et seq.</p><p>49 Ibid., p. 223.</p><p>50 Ibid., p. 257.</p><p>51 Ibid., p. 225.</p><p>52 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 448 et seq.</p><p>53 Apud AZEVEDO, Vicente de Paulo Vicente de. “Marquesa de Santos”, p. 250.</p><p>54 RANGEL, Alberto. Op. cit., p. 475.</p><p>55 RANGEL, Alberto. Textos e pretextos, p. 99 et seq.</p><p>56 RANGEL, Alberto. Dom Pedro I e a marquesa de Santos, p. 262.</p><p>57 Arquivo Histórico do Museu Imperial. I-POB-12.04.1829-A.B.c 1-2.</p><p>58 RANGEL, Alberto. Textos e pretextos, p. 159-169.</p><p>59 Arquivo histórico do Museu Imperial. I-POB-19.07.1831-Men.c.</p><p>60 Numa carta à sua mãe, ao contar sobre um baile na casa da marquesa de Santos, assim</p><p>descreve Maria Isabel: “A Bela tinha um vestido cinzento que lhe fazia uma cinturinha</p><p>de sílfide. No colo, numa volta só, lhe corria um colar de pérolas de finíssimas, digo</p><p>grossíssimas pérolas. Nem havia dizer se as pérolas aí eram o enfeite ou o enfeitado.”</p><p>Apud AZEVEDO, Vicente de (org.). Cartas de Álvares de Azevedo, p. 123.</p><p>61 Felício faleceu em 5/11/1833.</p><p>62 A portaria é datada de 9/11/1841. A Revolução Liberal só estourou em maio de 1842.</p><p>Cartas</p><p>1 RANGEL, Alberto. Dom Pedro I e a marquesa de Santos, p. 50.</p><p>2 1 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 1 3</p><p>1823</p><p>1 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz, p. 423.</p><p>2 DRUMMOND, A. M. V. Anotações de A. M. V. de Drummond à sua biografia, p. 1 et</p><p>seq.</p><p>3 GRAHAM, Maria Dundas. Escorço biográfico de dom Pedro I, p. 94.</p><p>4 MACEDO, J. M. de. Memórias da rua do Ouvidor, p. 92.</p><p>1824</p><p>1 MACEDO, J. M. de. Ano biográfico brasileiro, vol. 1, p. 528.</p><p>2 SILVA, Antônio Moraes. Diccionario da lingua portugueza.</p><p>3 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 365.</p><p>4 RANGEL, Alberto. Dom Pedro I e a marquesa de Santos, anexo 116, p. 413.</p><p>5 ARMITAGE, João. História do Brasil: desde o período da chegada da..., p. 242.</p><p>1825</p><p>1 VIEIRA FAZENDA. Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro, tomo 86, vol. 140, p. 57.</p><p>2 RANGEL, Alberto. Dom Pedro I e a marquesa de Santos, p. 338.</p><p>3 SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro como ele é (1824-1826), p. 23, nota.</p><p>4 COSTA, Jacinto da. Pharmacopea naval e castrense, p. 204.</p><p>5 GRAHAM, Maria Dundas. Escorço biográfico de dom Pedro I, p. 163.</p><p>6 ZANNONI, Cláudio. Conflito e coesão, p. 74.</p><p>7 RANGEL, Alberto. Os dois ingleses: Strangford e Stuart, p. 67. Rangel confunde-se no</p><p>texto e troca as datas. Apresenta dia 19, mas o correto é 21.</p><p>8 CHAVES, Castelo Branco. A emigração francesa em Portugal durante a revolução, p.34.</p><p>9 SOUSA, Octávio Tarquínio de. A vida de d. Pedro I, vol. II, p. 496.</p><p>10 Arquivo Histórico do Museu Imperial, I-POB-07.12.1825-Biv.c</p><p>11 Apud OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, p. 376.</p><p>12 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 527.</p><p>13 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 611.</p><p>14 WIED-NEUWIED, Maximiliano. Viagem ao Brasil, vol. 2, p. 468.</p><p>2 1 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N O TA s 2 1 3</p><p>1826</p><p>1 SANTOS, Luís Gonçalves dos. Memória para servir à história do Reino do Brasil, vol. 1,</p><p>p. 55.</p><p>2 VIEIRA FAZENDA. Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro, tomo 95, vol. 149, p.</p><p>632.</p><p>3 BÖSCHE, Eduardo Teodoro. Quadros alternados..., p. 163.</p><p>4 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 344.</p><p>5 RANGEL, Alberto. Textos e pretextos, p. 162.</p><p>6 Arquivo Histórico do Museu Imperial, I-POB-10.07.1829-PI.B.c.</p><p>7 DIAS, Demosthenes de Oliveira. O solar da marquesa de Santos, p. 65 et. seq.</p><p>1827</p><p>1 CASTILHO, Antônio Feliciano de. Revista universal lisbonense..., tomo II, p. 26.</p><p>2 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 299 et seq.</p><p>3 Idem, p. 263.</p><p>4 Idem, p. 304 et seq.</p><p>5 ANDRADE, Ayres de. Francisco Manuel da Silva e seu tempo: 1808-1865, vol. 1, p. 189 et</p><p>seq. Dá notícias sobre os programas, mas não informa o dia e o mês da reapresentação</p><p>dessa ópera em 1827.</p><p>6 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 344.</p><p>7 RANGEL, Alberto. Op. Cit., p. 210.</p><p>8 GRAHAM, Maria Dundas. Diário de uma viagem ao Brasil, p. 122.</p><p>9 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à Marquesa de Santos, p. 372.</p><p>10 Idem, p. 401.</p><p>11 Idem, p. 335.</p><p>12 CHERNOVIZ, Pedro Luiz Napoleão. Diccionario de medicina popular, p. 1.074.</p><p>13 VIANNA, Hélio. D. Pedro I e d. Pedro II, acréscimos às suas biografias, p. 33.</p><p>14 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 353.</p><p>15 RANGEL, Alberto. Trasanteontem, p. 28 et seq.</p><p>16 DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, p. 90.</p><p>17 Ibid., p. 347 et seq.</p><p>18 Ibid., p. 354</p><p>19 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 361.</p><p>20 Idem, p. 362.</p><p>2 1 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O B I B L I O g r A f I A 2 1 52 1 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O B I B L I O g r A f I A 2 1 52 1 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O B I B L I O g r A f I A 2 1 52 1 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O B I B L I O g r A f I A 2 1 5</p><p>1828</p><p>1 BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino, vol. 6, p. 243.</p><p>2 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 630.</p><p>Anexos</p><p>1 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 458.</p><p>2 Idem, p. 623.</p><p>2 1 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O B I B L I O g r A f I A 2 1 52 1 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O B I B L I O g r A f I A 2 1 52 1 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O B I B L I O g r A f I A 2 1 52 1 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O B I B L I O g r A f I A 2 1 5</p><p>Bibliografia</p><p>Fontes manuscritas</p><p>Academia Paulista de Letras: Cartas 80 e 95.</p><p>Hispanic Society of America: Cartas de 1 a 79, 81 a 94 e carta 96.</p><p>Museu Imperial: Cartas 1 a 17 do Anexo.</p><p>Fontes impressas</p><p>Livros</p><p>ANDRADA E SILVA, José Bonifácio de; ANDRADA, Antônio Carlos Ribeiro de;</p><p>ANDRADA, Martim Francisco Ribeiro de. Cartas andradinas. Correspon-</p><p>dência particular de José Bonifácio, Martim Francisco e Antônio Carlos dirigi-</p><p>da a Antônio de Meneses Vasconcelos de Drummond. Rio de Janeiro: Leuziner</p><p>& Filhos, 1890.</p><p>ANDRADE, Ayres de. Francisco Manuel da Silva e seu tempo 1808-1865. Uma fase</p><p>do passado musical do Rio de Janeiro à luz de novos documentos. Rio de Janei-</p><p>ro: Tempo Brasileiro, 1967. 2 v.</p><p>2 1 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O B I B L I O g r A f I A 2 1 7</p><p>ARMITAGE, João. História do Brasil desde o período da chegada da família de Bra-</p><p>gança em 1808 até a abdicação de d. Pedro I em 1831, compilada à vista dos</p><p>documentos públicos e outras fontes originais, formando uma continuação da</p><p>história do Brasil de Southey. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1981.</p><p>AZEVEDO, Vicente de Paulo Vicente de (org.). Cartas de Álvares de Azevedo. São</p><p>Paulo: Biblioteca da Academia Paulista de Letras, vol. 1, 1976.</p><p>BLAKE, Augusto V. Sacramento. Diccionario biobibliographico brasileiro. Brasília:</p><p>Conselho Federal de Cultura, 1970. 7 v.</p><p>BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architecto-</p><p>nico... Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1712-1728. 8 v.</p><p>BUENO, Francisco de Assis Vieira. A cidade de São Paulo: recordações evocadas de</p><p>memória. São Paulo: Biblioteca da Academia Paulista de Letras, vol. 2, 1976.</p><p>BURTON, Isabel. The Life of Captain Sir Richard F. Burton. Londres: Chapman &</p><p>Hall, 1893. 2 v.</p><p>CALDEIRA, Jorge (org.). Brasil: a história contada por quem viu. São Paulo: Ma-</p><p>meluco, 2008.</p><p>CALÓGERAS, João Pandiá. A política</p><p>exterior do Império. Rio de Janeiro: Impren-</p><p>sa Nacional; IHGB, 1927. 3 v.</p><p>______. O marquês de Barbacena. Brasília: Universidade de Brasília, 1982.</p><p>CHAVES, Castelo Branco. 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Ver Santo Amaro, marquês de</p><p>Álvares de Azevedo, Manuel Antônio, 55</p><p>Amaral, Francisco Pedro do, 120</p><p>Andrada e Silva, José Bonifácio de, 24, 25, 37, 39, 67, 68, 80, 109</p><p>Andrada, Martim Francisco Ribeiro de, 25</p><p>Andrade, Vicente Navarro de. Ver</p><p>Inhomirim, barão de</p><p>Aracati, marquês de. Ver Oyenhausen-Gravenburg, José Carlos de Augusto</p><p>Arrábida, frei Antônio de, 44</p><p>Assis de Lorena, d. Francisco de, 210</p><p>Avilez, Jorge de, 25</p><p>2 2 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E O N O M á s T I c O 2 2 3</p><p>Azevedo Marques, Antônio Mariano de, 48</p><p>Badaró, Giovanni Batista Líbero, 66</p><p>Barbacena, marquês de, 48, 50, 54, 130, 149, 176, 199, 201</p><p>Barreto, Joaquim Francisco Alves Branco Muniz, 77</p><p>Berquó, João Maria da Gama Freitas. Ver Cantagalo, marquês de</p><p>Bivar, Diogo Soares da Silva de, 104</p><p>Bösche, Eduardo Teodoro, 31</p><p>Bragança, d. Francisca Carolina de, 168</p><p>Bragança, d. Isabel Maria de, 40</p><p>Bragança, d. Januária Maria de, 123, 168</p><p>Bragança, d. Maria da Glória. Ver Maria da Glória, d.</p><p>Bragança, d. Miguel de, 48, 49</p><p>Bragança, d. Paula Mariana de, 124, 151, 152, 154, 155, 172, 175</p><p>Bragança, João de. Ver João VI, d.</p><p>Bregaro, Carolina, 109, 138</p><p>Bregaro, Manuel Maria, 138</p><p>Bregaro, Paulo Emílio, 109</p><p>Burton, Isabel Arundell, 17, 80, 208</p><p>Burton, sir Richard, 208</p><p>Buvelot, J., 43</p><p>Cadolino, César, 43</p><p>Caldeira Brant, Felisberto. Ver Barbacena, marquês de</p><p>Caldeira Brant, Ildefonso de Oliveira. Ver Gericinó, visconde de</p><p>Caldeira Brant, Pedro, 54</p><p>Calmon, Pedro, 18</p><p>Caminha e Meneses, Antônio Teles da Silva. Ver Resende, marquês de</p><p>Cantagalo, marquês de, 146, 147</p><p>Canto e Melo. Ver Castro</p><p>Carlota Joaquina, d., 97, 154</p><p>Carlota, João, 157</p><p>Carneiro Leão, coronel Brás, 96</p><p>Carvalho e Melo, Luís José de, 101</p><p>Castelo Branco, João Sabino de Melo e Bulhões Lacerda, 85</p><p>Castro, 1º visconde de. Ver Castro do Canto e Melo (pai), João de</p><p>Castro, 2º visconde de. Ver Castro do Canto e Melo (filho), João de</p><p>Castro Canto e Melo, Ana Cândida de, 17, 24, 37, 54, 77</p><p>Castro Canto e Melo, Maria Benedita de, 89, 17, 18, 25, 26, 40, 50, 63, 76, 82, 97,</p><p>112, 114, 124, 125</p><p>2 2 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E O N O M á s T I c O 2 2 3</p><p>Castro do Canto e Melo (filho) – 2º visconde de Castro, João de, 16, 26, 57, 93</p><p>Castro do Canto e Melo (pai) – 1º visconde de Castro, João de, 12, 14, 16, 37, 53</p><p>Castro do Canto e Melo, Francisco de, 11, 15, 17, 37, 53</p><p>Castro do Canto e Melo, José de, 106, 16, 27, 46, 62, 113</p><p>Castro do Canto e Melo, Pedro de, 185, 51, 52, 95, 113, 114</p><p>Castro, Inês de, 27, 83</p><p>Castro, Tomás de Aquino e, 102</p><p>Chadenat, Charles, 7, 18</p><p>Chagas, Francisco José das. Ver Chaguinhas</p><p>Chaguinhas, 209</p><p>Chalaça. Ver Gomes da Silva, Francisco</p><p>Costa Carvalho, José da. Ver Monte Alegre, marquês de</p><p>Coutinho, Francisco Afonso Meneses Sousa. Ver Maceió, marquês de</p><p>Coutinho, d. José Caetano de Sousa, 138</p><p>Dória, Luís Gastão d’Escragnolle, 208</p><p>Drummond, Antônio Menezes de Vasconcelos, 68</p><p>Drummond, barão de, 77</p><p>Drummond, conselheiro. Ver Vasconcelos Drummond, Antônio Menezes de</p><p>Drummond, João Batista Viana. Ver Drummond, barão de</p><p>Durocher, Ana, 125, 126</p><p>Durocher, Maria, 126</p><p>Feijó, Diogo Antônio, 55, 209</p><p>Fernandes Pinheiro, José Feliciano, 39</p><p>Fidalgo, monsenhor Duarte Mendes de Sampaio, 160</p><p>Fischler, Ernesto, 80</p><p>Flach, J. M., 43</p><p>Fonseca e Silva, Valentim. Ver Valentim, mestre</p><p>Francisco I da Áustria, 45, 67, 68</p><p>Frank, Júlio, 17</p><p>Freese, John Henry, 145</p><p>Freire de Andrade, Antônio Gomes, 208</p><p>Gabriac, marquês de, 35</p><p>Gericinó, visconde de, 48, 150, 186, 188</p><p>Gestas, conde Aymer de, 31, 104</p><p>Goiás, duquesa de, 36, 39, 40, 45, 48, 54, 78, 80, 119, 126, 130, 132, 177, 200, 204,</p><p>205, 206, 234</p><p>Gomes da Silva, Francisco, 157, 184, 199, 201</p><p>Gonçalves de Andrade, d. Manoel Joaquim, 136, 137</p><p>2 2 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E O N O M á s T I c O 2 2 5</p><p>Gonçalves dos Santos, Luís, 119</p><p>Gonçalves Gomide, Tomás, 102</p><p>Gonçalves, Lázaro José, 25</p><p>Gordon, sir Robert, 35, 47, 154, 167</p><p>Goytacazes, baronesa de São Salvador dos Campos de, 96</p><p>Graham, Maria, 97, 113, 130, 145</p><p>Guimarães Peixoto, Domingos Ribeiro dos, 66, 78, 173</p><p>Hamond, sir Graham Eden, 101</p><p>Heindricks, Carlos, 43</p><p>Hiersenann, Karl, 18</p><p>Holzen, barão de. Ver Fischler, Ernesto</p><p>Huntington, Archer Milton, 18</p><p>Iguaçu, conde. Ver Caldeira Brant, Pedro</p><p>Iguaçu, condessa de. Ver Alcântara Brasileira II, Maria Isabel</p><p>Iguaraçu, barão de. Ver Guimarães Peixoto, Domingos Ribeiro dos</p><p>Inhambupe, visconde de, 39</p><p>Inhomirim, barão de, 150, 169</p><p>João VI, d., 24, 28, 38, 39, 40, 96, 97, 99, 113, 124, 147, 162, 193, 205</p><p>Jordão, brigadeiro Manuel Rodrigues, 209</p><p>José Bonifácio. Ver Andrada e Silva, José Bonifácio de</p><p>Josefina, imperatriz, 50</p><p>Josefine, madame, 69</p><p>Lages, marquês de. Ver Vieira de Carvalho, João</p><p>Lecor, Carlos Frederico, 38</p><p>Leopoldina, imperatriz, 12, 15, 33, 34, 36, 38, 39, 40, 42, 43, 44, 45, 49, 52, 66, 67,</p><p>69, 78, 80, 97, 104, 109, 113, 119, 124, 136, 151, 160, 162, 168, 183, 192, 203, 204,</p><p>205</p><p>Leuchtenberg, Amélia Augusta Napoleona de, 50, 51, 52, 119</p><p>Leuchtenberg, Augusta de, 52</p><p>Leuchtenberg, Augusto Carlos Eugênio Napoleão de, 52</p><p>Luís XVI, 104</p><p>Maceió, marquês de, 199, 200</p><p>Maciel da Costa, Ana Francisca Rosa. Ver Goytacazes, baronesa de São Salvador</p><p>dos Campos de</p><p>Mallet, madame, 130</p><p>Mareschal, barão de, 42, 44, 46, 47, 49, 105, 141, 142, 144, 145, 146, 147, 176</p><p>Maria da Glória, d., 38, 39, 44, 45, 48, 49, 85, 97, 124, 126, 136, 139, 151, 154, 162, 186</p><p>Maria Luísa, arquiduquesa da Áustria, 36, 42</p><p>2 2 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E O N O M á s T I c O 2 2 5</p><p>Mauá, barão de, 126</p><p>Maul, Carlos, 54</p><p>Melo Franco, Caio de, 18</p><p>Mena Barreto, José de Abreu, 99</p><p>Mendonça e Castro, João de, 20</p><p>Monte Alegre, marquês de, 192</p><p>Müller, Daniel Pedro, 24, 25, 29, 69, 208</p><p>Müller, Guilhermina, 208</p><p>Napoleão I, 50</p><p>Nunes Garcia, Padre José Maurício Nunes, 175</p><p>Oliva, Carlos Maria, 35, 46, 66, 157</p><p>Oliveira, Antônio José de, 29</p><p>Oyenhausen-Gravenburg, José Carlos de Augusto, 25, 69, 210</p><p>Padre Feijó. Ver Feijó, Diogo Antônio</p><p>Paes Leme, Pedro Taques de Almeida, 26</p><p>Papança, Maria Benedita. Ver Santo Amaro, marquesa de</p><p>Paula, Francisco Manuel de, 63, 93</p><p>Pedro II, d., 38, 40, 44, 53, 55, 71, 109, 123, 124, 126, 135, 136, 173, 175, 192</p><p>Pereira da Cunha, Antônio Luís. Ver Inhambupe, visconde de</p><p>Pereira de Abreu, Plácido Antônio, 39, 67, 68, 195</p><p>Pereira Valente, Tomás Joaquim, 121</p><p>Pereira, Boaventura Delfim, 35, 37, 69, 105, 109, 200</p><p>Pereira, d. Mateus de Abreu, 26</p><p>Pereira, José Clemente, 52</p><p>Pereira, Rodrigo Delfim, 36, 109, 138, 200</p><p>Perereca, Padre. Ver Gonçalves dos Santos, Luís</p><p>Pinto Coelho de Mendonça e Castro, Felício, 27</p><p>Pinto Coelho de Mendonça e Castro, Francisca, 27, 35, 106</p><p>Pinto Coelho de Mendonça, Felício, 35, 55, 105</p><p>Pombal, marquês de, 77, 147</p><p>Ponçadilha, João Manuel, 130, 134, 174</p><p>Ponçadilha, José Manuel Rodrigues, 130, 134, 174</p><p>Portugal e Castro, d. Fernando José de. Ver Aguiar, marquês de</p><p>Portugal e Castro, Maria Francisca de. Ver Aguiar, marquesa de</p><p>Rangel, Alberto, 18, 42, 61, 63, 154, 200</p><p>Resende, marquês de, 198, 199, 200</p><p>Rio Pardo, conde do. Ver Pereira Valente, Tomás Joaquim</p><p>Rocha Pinto, João da, 201</p><p>2 2 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E L O c A L I D A D E s 2 2 72 2 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E L O c A L I D A D E s 2 2 72 2 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E L O c A L I D A D E s 2 2 72 2 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E L O c A L I D A D E s 2 2 7</p><p>Roquefeuil, condessa de, 104</p><p>Sacramento, frei Leandro do, 113</p><p>Saisset, Clemência, 50, 200</p><p>Saisset, Pedro. Ver Alcântara Brasileiro II, Pedro de</p><p>Santana Lopes, Josefa, 141</p><p>Santo Amaro, marquês de, 200</p><p>Santo Amaro, marquesa de, 201</p><p>São Leopoldo, visconde de. Ver Fernandes Pinheiro, José Feliciano</p><p>Saúde, barão da. Ver Paula, Francisco Manuel de</p><p>Schlichthorst, C., 32</p><p>Serro Largo, barão de. Ver Mena Barreto, José de Abreu</p><p>Sorocaba, barão de. Ver Pereira, Boaventura Delfim</p><p>Sorocaba, baronesa de. Ver Canto e Melo, Maria Benedita de Castro</p><p>Souza, João Evangelista de. Ver Mauá, barão de</p><p>Souza Lobato, Francisco José Rufino de. Ver Vila Nova da Rainha, visconde de</p><p>Souza Lobato, Joaquim Valentim de Faria e, 96</p><p>Souza Queirós, Francisco Inácio de, 25</p><p>Souza, Octávio Tarquínio de, 68</p><p>Stuart, sir Charles, 38, 101, 192</p><p>Stürmer, barão von, 42</p><p>Sylos, Honório de, 208</p><p>Taques, Catarina Angélica</p><p>da Purificação, 26</p><p>Toledo Ribas, Ana Maria de, 28</p><p>Toledo Ribas, Engrácia Maria de, 141</p><p>Toledo Ribas, Escolástica Bonifácia de, 26, 49, 66, 141, 189</p><p>Treuberg, conde de. Ver Fischler, Ernesto</p><p>Valentim, mestre, 120</p><p>Vasconcelos Drummond, Antônio Menezes de, 38</p><p>Vicente de Azevedo, Vicente de Paulo, 208</p><p>Vieira Bueno, Francisco de Assis, 26</p><p>Vieira de Carvalho, João, 99</p><p>Vieira Fazenda, José, 90, 120</p><p>Vila Nova da Rainha, visconde de, 154</p><p>Wenzel, Philippe Leopold. Ver Mareschal, barão de</p><p>2 2 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E L O c A L I D A D E s 2 2 72 2 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E L O c A L I D A D E s 2 2 72 2 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E L O c A L I D A D E s 2 2 72 2 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E L O c A L I D A D E s 2 2 7</p><p>Índice de localidades</p><p>Acidentes geográficos</p><p>Baía de Guanabara, 102</p><p>Ilha do Governador (Rio de Janeiro), 33</p><p>Ilha Terceira (Açores), 66</p><p>Lagoa Rodrigo de Freitas (Rio de Janeiro), 113</p><p>Morro da Conceição (Rio de Janeiro), 118</p><p>Morro de São Bento (Rio de Janeiro), 119</p><p>Ponta da Armação (Niterói), 92</p><p>Ponta do Caju (Rio de Janeiro), 162</p><p>Praia de Botafogo (Rio de Janeiro), 33</p><p>Riacho do Ipiranga (São Paulo), 29</p><p>Rio da Prata, 38</p><p>Rio Paraguai, 38</p><p>Rio Paraná, 38</p><p>Rio São Francisco, 124</p><p>Vale do Paraíba, 24</p><p>2 2 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E L O c A L I D A D E s 2 2 9</p><p>Bairros e localidades</p><p>Alto da Boa Vista (Rio de Janeiro), 147</p><p>Botafogo (Rio de Janeiro), 33, 50, 129, 146, 151, 153, 154, 161</p><p>Engenho Velho (Rio de Janeiro), 35, 40, 48, 132</p><p>Estácio (Rio de Janeiro), 35</p><p>Laranjeiras (Rio de Janeiro), 147</p><p>Mata-Porcos (Rio de Janeiro), 35, 38</p><p>Penha (São Paulo), 26</p><p>Santa Isabel (Rio de Janeiro), 77, 85</p><p>Tijuca (Rio de Janeiro), 104, 144, 146, 147</p><p>Cidades brasileiras</p><p>Barão de Cocais (MG), 209</p><p>Guaratinguetá (SP), 26</p><p>Lorena (SP), 26</p><p>Recife (PE), 46, 137, 157</p><p>Rio de Janeiro (RJ), 12, 24, 25, 32, 33, 34, 39, 42, 46, 48, 50, 52, 55, 67, 69, 92, 97,</p><p>101, 102, 113, 114, 118, 120, 124, 128, 136, 138, 141 147, 155, 160, 162, 183, 189,</p><p>197, 200, 203, 204, 205, 206</p><p>Salvador (BA), 39, 115</p><p>Santos (SP), 25, 28, 29</p><p>São Paulo (SP), 29, 31, 34, 38, 46, 48, 50, 52, 53, 54, 66, 68, 69, 71, 83, 102, 106, 107,</p><p>109, 124, 126, 137, 176, 177, 189, 191, 196, 199, 200</p><p>São Sebastião (SP), 66</p><p>Taubaté (SP), 26</p><p>Vila Rica (MG), 27</p><p>Cidades do exterior</p><p>Belém (Portugal), 44</p><p>Buenos Aires (Argentina), 38</p><p>Gênova (Itália), 49</p><p>2 2 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E L O c A L I D A D E s 2 2 9</p><p>Gibraltar (Grã-Bretanha), 49</p><p>Londres (Grã-Bretanha), 97, 200, 201</p><p>Montevidéu (Uruguai), 38</p><p>Murnau (Alemanha), 80</p><p>Nova York (Estados Unidos), 18</p><p>Paris (França), 18, 30, 35, 52, 78, 126, 168, 173, 200</p><p>Viena (Áustria), 45, 48</p><p>Chácaras, fazendas, palácios e quintas</p><p>Chácara de Domitila, ou Palacete do Caminho Novo do Imperador (atual Museu</p><p>do Primeiro Reinado, Rio de Janeiro), 47, 52, 125, 126, 130, 154</p><p>Chácara dos Ingleses (São Paulo), 29</p><p>Fazenda de Gericinó (atual Parque Nacional do Gericinó, Nilópolis), 48, 150, 188</p><p>Fazenda de Santa Cruz (Rio de Janeiro), 46, 50, 77, 187</p><p>Imperial Quinta do Macaco (Rio de Janeiro), 67, 77</p><p>Palácio de São Cristóvão (Rio de Janeiro), 42, 44, 45, 50, 67, 68, 105, 126, 143, 147,</p><p>149, 191, 196</p><p>Palácio do Bispo (Rio de Janeiro), 118</p><p>Quinta da Boa Vista (Rio de Janeiro), 13, 39, 46, 47, 105, 125, 147, 149</p><p>Edifícios e campos militares</p><p>Arsenal da Marinha (Rio de Janeiro), 52, 113, 119</p><p>Campo da Aclamação (atual praça da República, Rio de Janeiro), 120</p><p>Campo de São Cristóvão (atual Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas,</p><p>Rio de Janeiro), 120, 121</p><p>Casa da Pólvora (Rio de Janeiro), 120</p><p>Casa do Trem (atual Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro), 120</p><p>Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição (Rio de Janeiro), 119</p><p>Quartel da Praia Vermelha (Rio de Janeiro), 120</p><p>2 3 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E L O c A L I D A D E s 2 3 1</p><p>Estados e províncias brasileiras</p><p>Bahia, 38, 39, 40, 77, 104, 114, 115, 135, 136, 192, 205</p><p>Minas Gerais, 25, 27, 124</p><p>Província Oriental do Rio da Prata (Cisplatina), 38, 185</p><p>Rio de Janeiro, 25</p><p>Rio Grande do Sul, 38, 99, 130, 205</p><p>Santa Catarina, 40</p><p>São Paulo, 55, 124</p><p>Instituições</p><p>Academia Paulista de Letras, 18, 237</p><p>Arquivo Histórico do Museu Imperial (Petrópolis), 43, 50, 130, 237</p><p>Assembleia Constituinte (Rio de Janeiro), 66, 68, 84, 210</p><p>Câmara dos Deputados (Rio de Janeiro), 44</p><p>Casa de Câmara (São Paulo), 24</p><p>Casa dos Expostos (Rio de Janeiro), 41</p><p>Depósito dos Estrangeiros (Niterói), 92</p><p>Faculdade de Direito da USP, 17</p><p>Gabinete Topográfico (São Paulo), 69</p><p>Hispanic Society of America (Nova York), 18, 19, 20, 79, 82, 88, 95, 112, 128, 131, 177</p><p>Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Rio de Janeiro), 18</p><p>Museu do Primeiro Reinado (Rio de Janeiro), 126</p><p>Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro), 85, 119</p><p>Museu Imperial (Petrópolis), 43, 47, 50, 70, 130, 181</p><p>Museu Paulista da USP, 29</p><p>Instituições de ensino</p><p>Colégio de Madame Mallet (Rio de Janeiro), 130</p><p>Colégio Sacré Coeur (Paris), 52</p><p>Seminário de N. S. da Lapa (Rio de Janeiro), 160</p><p>2 3 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E L O c A L I D A D E s 2 3 1</p><p>Igrejas e cemitérios</p><p>Capela Imperial (Rio de Janeiro), 36, 37, 96, 98, 105, 157, 160, 183</p><p>Cemitério da Consolação (São Paulo), 17, 66</p><p>Cemitério dos Aflitos (São Paulo), 29</p><p>Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro (Rio de Janeiro), 35, 155</p><p>Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo (Rio de Janeiro), 96, 105</p><p>Igreja de São João Batista do Morro Grande (Minas Gerais), 209</p><p>Igreja de São Francisco de Paula (Rio de Janeiro), 139</p><p>Igreja de São Francisco Xavier (Rio de Janeiro), 40, 48</p><p>Igreja do Carmo (São Paulo), 48</p><p>Igreja do Rosário (Rio de Janeiro), 162</p><p>Recolhimento de Santa Teresa (São Paulo), 48</p><p>Logradouros</p><p>Avenida Rangel Pestana (São Paulo), 209</p><p>Cais de Belém (Lisboa), 44</p><p>Ladeira da Fortaleza da Conceição (atual Ladeira João Homem, Rio de Janeiro), 119</p><p>Ladeira da Glória (Rio de Janeiro), 35, 89</p><p>Largo do Palácio (atual praça XV, Rio de Janeiro), 37, 98</p><p>Ponte do Carmo (São Paulo), 26</p><p>Porto de Santos (Santos), 52</p><p>Praça do Rocio (atual praça Tiradentes, Rio de Janeiro), 139</p><p>Rua da Ajuda (parte absorvida pela av. Rio Branco, Rio de Janeiro), 130</p><p>Rua de Santo Antônio (Rio de Janeiro), 130</p><p>Rua do Carmo (São Paulo), 24</p><p>Rua do Ouvidor (Rio de Janeiro), 50, 69, 126</p><p>Rua dos Barbonos (atual rua Evaristo da Veiga, Rio de Janeiro), 119</p><p>Rua Roberto Simonsen. Ver Rua do Carmo</p><p>Países estrangeiros</p><p>Alemanha, 142</p><p>Argentina, 38, 69</p><p>2 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E I M A g E N s 2 3 32 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E I M A g E N s 2 3 32 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E I M A g E N s 2 3 32 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E I M A g E N s 2 3 3</p><p>Áustria, 45, 46, 47, 49, 67, 141, 142, 147, 167, 210</p><p>Espanha, 38</p><p>Estados Unidos, 18, 42</p><p>França, 18, 38, 45, 50, 104, 154, 167, 200</p><p>Inglaterra, 45, 49, 76, 80, 134, 154, 167, 199, 201</p><p>Portugal, 12, 24, 25, 38, 39, 40, 44, 48, 49, 76, 97, 101, 104, 132</p><p>Uruguai, 38, 142</p><p>Parques, chafarizes e monumentos</p><p>Bica de Santa Luzia (São Paulo), 28</p><p>Chafariz das Marrecas (Rio de Janeiro), 118</p><p>Jardim Botânico (Rio de Janeiro), 113, 120</p><p>Monumento da Independência (São Paulo), 29</p><p>Passeio Público (Rio de Janeiro), 119</p><p>Teatros</p><p>Casa da Ópera (São Paulo), 102</p><p>Imperial Teatro São Pedro de Alcântara (Rio de Janeiro), 138</p><p>Teatrinho Constitucional São Pedro (Rio de Janeiro), 36, 83, 96</p><p>Teatro João Caetano (Rio de Janeiro), 139</p><p>Teatro São Carlos (Lisboa), 44</p><p>2 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E I M A g E N s 2 3 32 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E I M A g E N s 2 3 32 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E I M A g E N s 2 3 32 3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E I M A g E N s 2 3 3</p><p>Índice de imagens</p><p>1. Anúncio em alemão do lote ofertado pelo antiquário Karl Hiersernann e adqui-</p><p>rido por</p><p>com mr. O’Neill, para mr. Archer Milton Huntington, que fez</p><p>negócios com o comerciante alemão até 1917, quando os Estados Unidos entraram</p><p>no conflito. Mr. Huntington era enteado de um barão de estradas de ferro e, com</p><p>1 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N A D A é p O r A c A s O 1 9</p><p>sua fortuna, dedicou-se, entre outros trabalhos, à criação da Hispanic Society of</p><p>America, o maior acervo hispânico fora da Europa. Colecionadores e antiquários</p><p>do mundo inteiro ofereciam a ele quadros, livros e documentos, inclusive das pos-</p><p>sessões espanholas na América, e com isso algum material a respeito do Brasil</p><p>acabou entrando para o museu.</p><p>E esta é a história dessa descoberta e do soterramento momentâneo de um</p><p>romance sobre a Bucha e de uma nova biografia da marquesa de Santos, surpreen-</p><p>didos pelo estouro de 94 cartas que, rompendo fronteiras e barreiras, chegaram às</p><p>minhas mãos e, agora, às suas.</p><p>Paulo Rezzutti</p><p>2 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N A D A é p O r A c A s O 2 1</p><p>1. Anúncio do antiquário alemão a respeito do lote de cartas de d. Pedro I para</p><p>a marquesa de Santos conservado na Hispanic Society of America.</p><p>Pedro I, (1822-1831), cartas de amor de Dom Pedro I, Imperador do Brasil, à Marquesa de</p><p>Santos. 1827-28. Coleção altamente interessante de 94 cartas de amor não impressas,</p><p>escritas de forma cursiva à mão pelo primeiro imperador do Brasil (1822-1831) em língua</p><p>portuguesa. Abrange 116 páginas de texto in 4º e 8º. Algumas mostram ainda o endereço</p><p>da destinatária e o selo imperial. O vocativo é normalmente querida marquesa, filha, meu</p><p>bem, meu beminho [sic], minha boa senhora, meu amor, meu coração, minha fililia [sic]. E</p><p>como assinatura encontra-se Pedro, o imperador, e na maior parte das vezes O Demonão,</p><p>um apelido que o imperador usava entre seus amigos. As respostas da marquesa não</p><p>estão disponíveis. As cartas são uma excepcional contribuição para a caracterização do</p><p>imperador e o conhecimento de sua vida íntima amorosa, assim como de personalidades</p><p>e hábitos da corte. Elas mostram como ele se deixou dominar por sua paixão, o que no</p><p>final o levou a tal antagonismo com seu povo que uma insatisfação geral rompeu e ele teve</p><p>que deixar o governo. (Tradução do alemão por Claudia Thomé Witte)</p><p>2 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O N A D A é p O r A c A s O 2 1</p><p>2. Vestimentas do Rio de Janeiro.</p><p>2 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 32 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 32 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 32 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 3</p><p>2 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 32 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 32 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 32 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 3</p><p>Os amantes</p><p>SÃO PAULO, 3 de novembro de 1867.</p><p>Às quatro e meia da tarde, pouco antes de completar sua sétima década, chegava ao</p><p>fim a vida de uma das paulistas mais fascinantes do século XIX. Protetora dos es-</p><p>tudantes, santa perante a pobreza envergonhada, atenciosa e preocupada com seus</p><p>escravos e parentes, que a cercaram durante os últimos oito dias, falecia Domitila</p><p>de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos.</p><p>Difícil afastar a curiosidade de saber qual teria sido o seu último pensamento.</p><p>Uma oração final? Preocupação com os que ficavam? Ou algo mais antigo, como</p><p>a recordação de uma velha paixão? Um louco e devastador amor nutrido por um</p><p>imperador que fez dela, uma simples divorciada, motivo de despachos diplomá-</p><p>ticos e assunto mundano nas principais cortes europeias. Teria se arrependido de</p><p>algo nos instantes finais? Provavelmente não. Ninguém que toma para si as rédeas</p><p>da própria existência, rompendo os padrões de conduta que se espera de mulheres</p><p>de sua época e de seu nível, pode ter grandes arrependimentos além de não ter</p><p>transgredido, vivido e amado mais.</p><p>Junto com propriedades, joias, títulos e ações, essa velha senhora deixava</p><p>para a posteridade cartas recebidas de d. Pedro I ao longo dos sete anos em que</p><p>foram íntimos, no sentido mais amplo do termo. Umas poucas poderiam ter sido</p><p>suficientes para relembrar o passado na corte, reafirmar a progenitura das filhas</p><p>que teve com ele, reviver o amor e os ciúmes. Ninguém passa impunemente por</p><p>2 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 5</p><p>uma grande paixão, e mesmo seus ecos vindos de um passado longínquo ainda</p><p>podem servir para nos lembrar do quanto fomos amados, desejados e importan-</p><p>tes para alguém. Se para isso algumas migalhas bastam, o que dizer de mais de</p><p>duzentas cartas? Quis Domitila, talvez, que seu romance fosse eterno. Apesar de</p><p>dispersada pelos parentes, essa memória íntima foi ressurgindo em diversos locais,</p><p>no Brasil e no exterior, e, ao longo do século XX, acabou sendo apresentada ao</p><p>público em geral.</p><p>Como numa brincadeira além-túmulo, quando achávamos que não houvesse</p><p>mais nada de inédito a ser pesquisado, a curiosidade revelou uma enorme surpre-</p><p>sa: 96 cartas inéditas contando um pouco desse relacionamento. Antes, porém, de</p><p>deixarmos os sentimentos do imperador transbordarem novamente, fazendo os</p><p>amantes reviverem uma vez mais, vamos abandonar o corpo que começa a esfriar</p><p>em um palacete na antiga rua do Carmo, no centro de São Paulo, e vê-lo ressurgir</p><p>jovem, saudável, repleto de vida, às vésperas da Independência brasileira.</p><p>A formosa sem dote1</p><p>“A primeira de vocês que sair à rua ou chegar à janela, enquanto d. Pedro estiver</p><p>em São Paulo, tem de se haver comigo!” — teria esbravejado o militar Daniel Pe-</p><p>dro Müller2 às filhas em agosto de 1822, poucos dias antes da chegada do príncipe</p><p>regente à cidade.</p><p>Vindo do Rio de Janeiro, d. Pedro tinha uma missão, além de aterrorizar pro-</p><p>genitores zelosos e servir de suposto pai a dezenas de crianças nascidas após sua</p><p>passagem pelo Vale do Paraíba: apaziguar São Paulo.</p><p>Um ano antes, em 25 de abril de 1821, o rei d. João VI retornara a Portugal,</p><p>deixando d. Pedro como herdeiro de uma dívida milionária. Seu pai havia levado</p><p>consigo todo o dinheiro do Tesouro. Em carta para d. João,3 o jovem príncipe re-</p><p>gente queixava-se da penúria em que se encontrava a economia e os apertos para</p><p>dar conta da folha de pagamento pública, chegando a cunhar moedas com o cobre</p><p>que conseguiam arrancar de velhos navios! Não demorou muito para os soldados</p><p>reclamarem da falta do soldo.</p><p>Em 23 de junho, uma sublevação militar estourou na cidade de São Paulo,</p><p>levando o povo e a tropa a convidarem José Bonifácio de Andrada e Silva para pre-</p><p>sidir a eleição de um novo governo paulista. De uma janela da casa da Câmara de</p><p>2 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 5</p><p>São Paulo, José Bonifácio leu uma lista de cargos e nomes, que o povo aclamava,</p><p>elegendo seus representantes pela primeira vez na história. Ao ex-capitão-general</p><p>deposto, João Carlos Augusto de Oyenhausen-Gravenburg, foi oferecida a pre-</p><p>sidência, tornando-se José Bonifácio o seu vice. Martim Francisco de Andrada,</p><p>irmão do futuro Patriarca da Independência, ficou com a pasta do Interior e Fa-</p><p>zenda. De 28 para 29 do mesmo mês, o 1º Batalhão de Caçadores, aquartelado em</p><p>Santos, revoltou-se devido ao atraso de seus vencimentos. Em 2 de julho, os coro-</p><p>néis Lázaro Gonçalves e Daniel Pedro Müller partiram da capital paulista para pôr</p><p>um fim no levante santista.</p><p>Com a chegada das ordens das Cortes de Lisboa exigindo o retorno imediato</p><p>do príncipe para Portugal e o fim da Regência, os governos de Rio de Janeiro, São</p><p>Paulo e Minas Gerais posicionaram-se ao lado de d. Pedro, levando ao famoso</p><p>Dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822. Com a movimentação do comando portu-</p><p>guês, chefiado pelo general Avilez, sediado no Rio de Janeiro, para fazer cumprir</p><p>as ordens de Lisboa, d. Pedro enviou sua família para fora da capital e, em carta</p><p>de 12 de janeiro, pediu que São Paulo e Minas enviassem tropas para a Corte. São</p><p>mr. Archer Milton Huntington. Hispanic Society of America, Nova</p><p>York.</p><p>2. Johann Moritz Rugendas. Costumes de Rio de Janeiro, s.d. Litografia. In: RU-</p><p>GENDAS, Johann Moritz: Voyage pittoresque dans le Brésil. Paris: Engelman</p><p>& Cie, 1835.</p><p>3. Richard, after a sketch by Mrs. Eliot, of S. Paulo. View of the city of S. Paulo, s.d.</p><p>Litografia. In: KIDDER, D. P.; FLETCHER, D. J. C.: Brazil and the Brazilians,</p><p>Portrayed in Historical and Descriptive Sketches. 9ª ed. Boston: Little, Brown,</p><p>and Company, 1879.</p><p>4. Gianni. Alegoria ao juramento da Constituição de 1824. Paris, 1824. Litografia.</p><p>5. Jean-Baptiste Debret. Le Roi don João VI. L’empereur don Pedro Ier. Grand cos-</p><p>tume (detalhe: L’empereur don Pedro I), s.d. Litografia. In: DEBRET, Jean-</p><p>Baptiste. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Paris: Firmin Didot frères,</p><p>1834/1839.</p><p>6. Francisco Pedro do Amaral (atribuído). Retrato de d. Domitila de Castro Canto</p><p>e Melo, marquesa de Santos. Óleo sobre tela, s.d. Museu Histórico Nacional/</p><p>Ibram/MinC, Rio de Janeiro.</p><p>2 3 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E I M A g E N s 2 3 5</p><p>7. The largo do Paço, and rua Primeiro de Março, or Direita, s.d. Litografia. In:</p><p>KIDDER, D. P.; FLETCHER, D. J. C. Brazil and the Brazilians, Portrayed in</p><p>Historical and Descriptive Sketches. 9ª ed. Boston: Little, Brown, and Com-</p><p>pany, 1879. S.a.</p><p>8. Simplício Rodrigues de Sá. Dom Pedro I e a imperatriz Leopoldina, 1826 (de-</p><p>talhe). Óleo sobre tela. Col. Educandário Romão de Mattos Duarte, Rio de</p><p>Janeiro.</p><p>9. Prosper Aimée Marie Brunellière. Marquês de Barbacena pedindo a mão de S.</p><p>A. R. Amelie Auguste Eugenie Napoleone em nome de S. M. dom Pedro Im-</p><p>perador do Brasil, s.l., s.d. Litografia.</p><p>10. Pierre Louis Henri Grevedon. Amélie Imperatrice du Brésil, 1830. Litografia.</p><p>Col. Cláudia Thomé Witte.</p><p>11. Isabel Maria de Alcântara Brasileira, duquesa de Goiás. Litografia, s.d., s.a.</p><p>12. D. Maria Isabel, condessa de Iguaçu. Fotografia, s.d., s.a.</p><p>13. Colar formado por 14 ametistas de primeira água engastadas em ouro filigra-</p><p>nado, ao centro, aplicado na ametista maior, um camafeu de concha com o</p><p>busto de d. Pedro I. Museu Imperial/Ibram/MinC, Rio de Janeiro.</p><p>14. Calendário perpétuo alegórico, dedicado a Sua Majestade Senhor Dom Pedro</p><p>Primeiro, Imperador Constitucional & defensor perpétuo do Brasil. S.l., s.a.,</p><p>circa 1826. Litografia.</p><p>15. Carta de Pedro I para a marquesa de Santos. Hispanic Society of America,</p><p>Nova York.</p><p>16. Carta de Pedro I para a marquesa de Santos. Hispanic Society of America,</p><p>Nova York.</p><p>17. Carta de Pedro I para a marquesa de Santos. Hispanic Society of America,</p><p>Nova York.</p><p>18. Johann Moriz Rugendas. Ladeira da Glória, s.d. Litografia. In: RUGENDAS,</p><p>Johann Moritz: Voyage pittoresque dans le Brésil. Paris: Engelman & Cie, 1835.</p><p>19. Jean-Baptiste Debret. Transport d’un enfant blanc, pour être baptisé a l’église,</p><p>s.d. Litografia. In: DEBRET, Jean-Baptiste. Voyage pittoresque et historique au</p><p>Brésil. Paris: Firmin Didot frères, 1834/1839.</p><p>20. Carta de Pedro I para a marquesa de Santos. Hispanic Society of America,</p><p>Nova York.</p><p>21. Jean-Baptiste Debret. Vue de la place du palais, à Rio de Janeiro. s.d. Litografia.</p><p>In: DEBRET, Jean-Baptiste. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Paris:</p><p>Firmin Didot frères, 1834/1839.</p><p>22. Barão Gerard. Sir Charles Stuart. Londres: s.d. Litografia.</p><p>2 3 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O Í N D I c E D E I M A g E N s 2 3 5</p><p>23. Carta de Pedro I para a marquesa de Santos. Hispanic Society of America,</p><p>Nova York.</p><p>24. Sébastien Auguste Sisson. Vista do Jardim Botânico. Rio de Janeiro, s.d. Lito-</p><p>grafia. In: SISSON, S. A. Álbum do Rio de Janeiro Moderno. Rio de Janeiro:</p><p>Lith. de A. Sisson, 1855.</p><p>25-26. Jean-Baptiste Debret. Planta da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro</p><p>(detalhes) s.d. Litografia. In: DEBRET, Jean-Baptiste. Voyage pittoresque et</p><p>historique au Brésil. Paris: Firmin Didot frères, 1834/1839.</p><p>27. Johann Moriz Rugendas. São Cristóvão, s.d. Litografia. In: RUGENDAS, Jo-</p><p>hann Moritz: Voyage pittoresque dans le Brésil. Paris: Engelman & Cie, 1835.</p><p>28. Ignaz Ferting. Dom Pedro I, Imperador do Brasil, Duque de Bragança. Lisboa,</p><p>1850. Litografia.</p><p>29. Filhos de d. Pedro I. Detalhes da Folhinha Nacional Brasileira para o ano de</p><p>MDCCCXXXVII. Londres: Day & Haghe, 1836. Litografia. S.a.</p><p>30. The Gloria hill from the Passeio Publico, s.d., s.a. Litografia. In: KIDDER, D.</p><p>P.; FLETCHER, D. J. C.: Brazil and the Brazilians, Portrayed in Historical and</p><p>Descriptive Sketches. 9ª ed. Boston: Little, Brown, and Company, 1879.</p><p>31. Museu do Primeiro Reinado. Rio de Janeiro, 2010. Fotografia digital. Acervo</p><p>pessoal.</p><p>32. Carta de Pedro I para a marquesa de Santos. Hispanic Society of America,</p><p>Nova York.</p><p>33. Carta de Domitila de Castro, marquesa de Santos, para Pedro I, com resposta</p><p>do mesmo. Hispanic Society of America, Nova York.</p><p>34. Simplício Rodrigues de Sá. D. Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade. Rio de</p><p>Janeiro, 1827. Óleo sobre tela. Museu de Arte Sacra, São Paulo.</p><p>35. Domingos António de Sequeira. Alegoria às Constituições do Brasil e de Portu-</p><p>gal. Paris, 1826. Litografia de Alois Senefelder.</p><p>36. Jean-Baptiste Debret. Acceptation provisoire de la constitution de Lisbonne,</p><p>à Rio de Janeiro, en 1821, s.d. Litografia. In: DEBRET, Jean-Baptiste. Voyage</p><p>pittoresque et historique au Brésil. Paris: Firmin Didot frères, 1834/1839.</p><p>37. Jean-Baptiste Debret. Améliorations progressives du palais de St. Christophe,</p><p>(Quinta de Boa Vista); depuis 1808, jusqu’en 1831 (detalhe: Palácio de São</p><p>Cristóvão em 1831), s.d. Litografia. In: DEBRET, Jean-Baptiste. Voyage pitto-</p><p>resque et historique au Brésil. Paris: Firmin Didot frères, 1834/1839.</p><p>38. Johann Moriz Rugendas. Botafogo, s.d. Litografia. In: RUGENDAS, Johann</p><p>Moritz. Voyage Pittoresque dans le Brésil. Paris: Engelman & Cie, 1835.</p><p>39. Domingos José da Silva. D. Maria II, Rainha de Portugal, s.l., s.d. Litografia.</p><p>2 3 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 3 72 3 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 3 72 3 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 3 72 3 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 3 7</p><p>40. Jean-Baptiste Debret. Les Rafraichissemens de l’après diner sur la place du pa-</p><p>lais. Litografia. In: DEBRET, Jean-Baptiste. Voyage pittoresque et historique au</p><p>Brésil. Paris: Firmin Didot frères, 1834/1839.</p><p>41. Johann Moriz Rugendas. Costumes de San Paulo, s.d. Litografia. In: RUGEN-</p><p>DAS, Johann Moritz. Voyage Pittoresque dans le Brésil. Paris: Engelman &</p><p>Cie, 1835.</p><p>42. Jean-Baptiste Debret. Costumes des dames du palais. Litografia. In: DEBRET,</p><p>Jean-Baptiste. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Paris: Firmin Didot</p><p>frères, 1834/1839.</p><p>43. Carta da marquesa de Aguiar para Domitila de Castro. Museu Imperial/</p><p>IBRAM/MinC, Rio de Janeiro.</p><p>44. Carta de Domitila de Castro para d. Pedro I. Museu Imperial/IBRAM/MinC,</p><p>Rio de Janeiro.</p><p>45. Carta de Domitila de Castro para d. Pedro I. Museu Imperial/IBRAM/MinC,</p><p>Rio de Janeiro.</p><p>46. Carta de Pedro I para o marquês de Resende. Museu Imperial/IBRAM/MinC,</p><p>Rio de Janeiro.</p><p>2 3 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 3 72 3 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 3 72 3 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 3 72 3 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 3 7</p><p>Agradecimentos</p><p>A mr. John O’Neill, curador da seção de Manuscritos e Obras Raras da Hispanic</p><p>Society of America. Ao sr. Maurício Vicente Ferreira Júnior, diretor do Museu Im-</p><p>perial. À sra. Ana Luísa Alonso de Camargo, do setor de Museologia do Museu</p><p>Imperial. À sra. Neibe Cristina Machado da Costa, responsável pelo Arquivo His-</p><p>tórico do Museu Imperial, pela ajuda com os “etc.” e os símbolos utilizados por</p><p>d. Pedro I para assinalar o fim das cartas, e na confirmação a respeito de a carta</p><p>anônima ter sido escrita</p><p>pelo imperador. Ao dr. José Renato Nalini, presidente da</p><p>Academia Paulista de Letras à época das pesquisas para este livro, e às sras. Maria</p><p>Luiza Pereira de Souza Lima e Rubenira Farias de Oliveira, bibliotecárias dessa</p><p>instituição, pela gentil colaboração. Ao dr. Pierre Moreau, pentaneto de Domitila</p><p>de Castro, pela atenção e pela disponibilização do material produzido pela Casa</p><p>do Saber para a exposição “Marquesa de Santos e a defesa de São Paulo no Brasil</p><p>independente”, realizada no Salão dos Passos Perdidos do Tribunal de Justiça de</p><p>São Paulo, em setembro de 2009. À sra. Bettina Kann, diretora da biblioteca digi-</p><p>tal da Biblioteca Nacional da Áustria e à dra. Patrícia de Souza Lima, do Instituto</p><p>Histórico de Petrópolis, coautoras do livro D. Leopoldina: cartas de uma impe-</p><p>ratriz, pelas informações prestadas. A Claudia Thomé Witte, pelo compartilhar,</p><p>pelas noites ao telefone, pela leitura atenta e pelos comentários pertinentes. E a</p><p>Adriana Sauerbronn de Moura, pela revisão, pelos comentários, pelo apoio e pelo</p><p>companheirismo.</p><p>2 4 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 4 12 4 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 4 12 4 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O A g r A D E c I M E N T O s 2 4 1</p><p>1a edição Julho de 2019</p><p>papel de miolo Polen Soft 70g/m2</p><p>papel de capa Cartão Supremo 250g/m2</p><p>tipografia Minion Pro e Paperback</p><p>2 4 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O < H E A D E r > P B2 4 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O < H E A D E r > P B2 4 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O < H E A D E r > P B</p><p>Paulo atendeu à solicitação do príncipe e, por meio de seus capitalistas,4 armou e</p><p>despachou 1.100 homens, os Leais Paulistanos. Entre eles estava o jovem cadete</p><p>Francisco de Castro do Canto e Melo, caçula de uma família de militares. Em 19</p><p>de janeiro, José Bonifácio chegou à Corte chefiando uma delegação paulista e foi</p><p>nomeado ministro do Reino e do Estrangeiro.</p><p>Enquanto José Bonifácio transformava-se no principal conselheiro político</p><p>do futuro imperador, em São Paulo o governo da província rachava: de um lado</p><p>os “andradistas”; do outro, os capitalistas Francisco Inácio de Souza Queirós, vogal</p><p>pelo comércio,5 e José da Costa Carvalho, ouvidor-geral. O presidente João Carlos</p><p>Augusto de Oyenhausen-Gravenburg, vacilante entre os dois partidos, foi chama-</p><p>do ao Rio de Janeiro por ordem de José Bonifácio. Na ausência de ambos, quem de-</p><p>veria assumir a presidência da junta governamental paulista era Martim Francisco.</p><p>Em 23 de maio, os inimigos dos Andradas, apesar da relutância da Câmara</p><p>de São Paulo, fizeram do povo e da tropa massa de manobra para evitar que Oye-</p><p>nhausen-Gravenburg deixasse o governo e que Martim Francisco tomasse posse.6</p><p>O episódio, que entrou para a história como “Bernarda de Francisco Inácio”, teria</p><p>diversas consequências. Martim Francisco, escoltado para a corte, veria o seu guar-</p><p>dião preso, sendo logo nomeado ministro da Fazenda. Algumas Câmaras Munici-</p><p>pais uniram-se ao governo revoltoso paulista, outras ficam ao lado da legalidade.</p><p>Somente em 21 de julho, com a entrada do marechal Cândido Xavier de Almeida e</p><p>Souza na capital da província, Oyenhausen-Gravenburg seria efetivamente deposto.</p><p>2 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 7</p><p>D. Pedro, instado pelas cartas recebidas da Câmara paulista garantindo fi-</p><p>delidade e pelos acontecimentos que se precipitavam, partiu em 14 de agosto do</p><p>Rio de Janeiro em direção à sitiada São Paulo, acompanhado de poucos e fiéis se-</p><p>guidores, entre eles o jovem Francisco de Castro do Canto e Melo. A comitiva foi</p><p>engrossando à medida que passava por Lorena, Taubaté, Guaratinguetá e outras</p><p>cidades do Vale do Paraíba, onde o príncipe ia tomando as medidas necessárias</p><p>para a pacificação da província enquanto tecia alianças importantes para o futuro</p><p>do Brasil independente. No dia 24, já no subúrbio paulista, d. Pedro pernoitou na</p><p>Penha, de onde despachou Francisco de Castro, promovido por ele a alferes três</p><p>dias antes, e Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, seu amigo e futuro secretário,</p><p>para verificarem o “espírito” dos moradores da cidade. Segundo recordaria Fran-</p><p>cisco de Castro: “[...] regressamos à meia-noite, dando notícias da perfeita quieta-</p><p>ção em que a tínhamos encontrado”.7</p><p>Francisco de Assis Vieira Bueno era um garoto de pouco mais de seis anos</p><p>quando viu o príncipe entrar na cidade, na manhã de 25 de agosto.8 D. Pedro</p><p>atravessou a galope a ponte do Carmo e no meio da ladeira9 foi recepcionado</p><p>pelo bispo d. Mateus Pereira e por representantes políticos. Além de lembrar-se</p><p>de ter chorado com o susto provocado pelas salvas de tiros em honra do futuro</p><p>monarca, Vieira Bueno registrou um boato interessante: d. Pedro teria estado</p><p>na cidade na véspera, na calada da noite, incógnito, junto com “Xico” de Cas-</p><p>tro. Teria aí então conhecido a irmã divorciada do alferes, Domitila de Castro?</p><p>Infelizmente ninguém documentou esse encontro, confirmando o rumor que</p><p>Vieira Bueno ouviu. O que se sabe é o que nos conta o próprio d. Pedro I, já</p><p>imperador, em cartas para a amante: a intimidade entre eles começou em 29 de</p><p>agosto de 1822.10</p><p>Arrotando cegonhas11</p><p>Matilda,12 Domitila, Demetília ou ainda Dimitília de Castro Canto e Melo, como</p><p>consta de sua certidão de batismo, nasceu em São Paulo, em 27 de dezembro de</p><p>1797. Era a sétima e penúltima filha do militar açoriano João de Castro do Canto</p><p>e Melo e da paulista Escolástica Bonifácia de Toledo Ribas. Teve por ama de leite</p><p>Catarina Angélica da Purificação Taques, prima de sua mãe e filha do genealogista</p><p>dos bandeirantes Pedro Taques de Almeida Paes Leme. Pela linha paterna, supos-</p><p>2 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 7</p><p>tamente descenderia de Inês de Castro, e pela materna, de Fernão Dias, de Brás</p><p>Cubas, do cacique Piquerobi e de Anhanguera, o que a tornava, para a pequena</p><p>São Paulo da época, com cerca de cinco mil habitantes, uma filha da elite colonial,</p><p>com toda a nobreza de sua origem e o desmazelo de seu provincianismo.</p><p>Aos 15 anos, em 13 de janeiro de 1813, Domitila casou-se com o alferes</p><p>Felício Pinto Coelho de Mendonça, de 24 anos. Felício servia no regimento de</p><p>cavalaria mineiro que aguardava, aquartelado no convento de São Francisco,</p><p>em São Paulo, ordens para seguir para o Sul, a fim de entrar em combate na Pri-</p><p>meira Campanha Cisplatina. Devido a mudanças de ordens, no meio do ano o</p><p>regimento retornou para Vila Rica, Minas Gerais. Domitila, seguindo o marido,</p><p>trocaria a pacata São Paulo pela terra onde seu sogro, com oitenta escravos, mi-</p><p>nerava ouro. Em 13 de dezembro de 181313 foi batizada a primeira filha, Fran-</p><p>cisca Pinto Coelho de Mendonça e Castro. Felício, o segundo, nasceu em 20 de</p><p>novembro de 1816. Mas os problemas domésticos não se fizeram demorar. Con-</p><p>ta o bisneto de Domitila, o arquiteto José Tobias de Aguiar,14 que Felício a mal-</p><p>tratava muito, era um “cavalo”. No afã de tirar seu ar aristocrático, obrigava-a a</p><p>servir à mesa como uma serviçal qualquer, isso em pleno regime escravocrata.</p><p>3. Vista noturna da cidade de São Paulo, primeira metade do século XIX.</p><p>2 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 9</p><p>No relatório enviado pelo capitão-general Oyenhausen-Gravenburg para</p><p>o rei d. João VI por ocasião da separação do casal15 e consequente disputa pela</p><p>guarda dos filhos, ele comenta sobre o péssimo gênio de Felício, seus costumes</p><p>depravados e as surras que dava na mulher. Ainda segundo o governador, Domi-</p><p>tila, cansada de sofrer, havia buscado abrigo na casa da avó, Ana Maria de Toledo</p><p>Ribas, então residente em Vila Rica. Quando escreveu para a casa paterna sobre o</p><p>que vinha passando, os pais mandaram que ela retornasse a São Paulo.</p><p>Em 1817, Felício conseguiu uma transferência e mudou do Regimento de</p><p>Cavalaria de Vila Rica para o de Caçadores de Santos. Mais próximo da mulher,</p><p>convenceu-a, e a seus pais, de que havia mudado, e o lar foi refeito. Mas a paz não</p><p>durou muito, ainda segundo Oyenhausen-Gravenburg: “Então seus pais e o públi-</p><p>co conheceram que a suplicante [Domitila] não tinha uma camisa que este [Felí-</p><p>cio] lhe desse, nem para seus filhos [...]. Não há uma pessoa nesta cidade a quem</p><p>[ele] não pedisse dinheiro, dizendo ser para sustentar a sua família, porém mal</p><p>dela se não fosse o amparo dos pais da suplicante.” No meio dessas idas e vindas,</p><p>rompimentos e conciliações, nasceria em 1818 o terceiro e último filho do casal,</p><p>João, falecido ainda criança.</p><p>Por volta das sete horas da manhã de 6 de março de 1819,16 quando Domitila</p><p>estava indo à bica de Santa Luzia pegar água, ou encontrar-se com um amante, ou</p><p>ainda ver uma prima, conforme cada cronista narra o episódio, Felício esfaqueou-a</p><p>duas vezes, na coxa e na barriga. Ainda com a arma ensanguentada, ele procurou</p><p>refúgio na casa de parentes, que lhe recusaram o abrigo. No mesmo dia, foi preso e</p><p>enviado para a sede de seu regimento, em Santos.</p><p>Mas Domitila estava ainda longe de ser deixada em paz pelo marido. Em</p><p>janeiro de 1820, começava a disputa pelas crianças, que só teria fim quatro</p><p>anos depois. Apesar da ordem régia, obtida graças ao prestígio e fortuna do</p><p>sogro de Domitila, para que os três filhos fossem entregues a um procurador</p><p>de Felício, já que este havia se mudado para a corte, as crianças nunca deixa-</p><p>riam a casa materna.</p><p>Os futuros detratores de Domitila irão aumentar o acontecido, e não raro</p><p>dar razão a Felício. Afinal, se ela havia se tornado amante do imperador, devia ter</p><p>feito isso anteriormente, pensariam. Quanto ao pobre marido, um homem lavar</p><p>a honra com o sangue</p><p>da mulher adúltera era coisa corriqueira até o início do</p><p>século passado.</p><p>Tinha assim início a fama de Domitila, adúltera, esfaqueada pelo marido com</p><p>razão! O que não era de conhecimento público, e somente a leitura atenta do pro-</p><p>cesso de divórcio17 revela, é que, segundo testemunhos, além de negar dinheiro,</p><p>2 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 2 9</p><p>alimentos e roupas para a família, Felício ameaçava constantemente a mulher, che-</p><p>gando a dormir com uma faca na cabeceira da cama. Para completar, teria falsi-</p><p>ficado a assinatura da esposa para poder vender terras em Minas, herdadas pelo</p><p>casal com o falecimento da mãe dele.</p><p>Titília e o Demonão</p><p>Alguns historiadores afirmam que o primeiro encontro entre Domitila e d. Pe-</p><p>dro ocorreu em uma chácara próxima ao antigo cemitério dos Aflitos, onde hoje</p><p>fica o bairro da Liberdade, em São Paulo. Era, na época, alugada pelo pai de</p><p>Domitila, inspetor de reparação das estradas de São Paulo, cujo supervisor era</p><p>o engenheiro militar Daniel Pedro Müller, envolvido com a “Bernarda de Fran-</p><p>cisco Inácio”. Uma outra propriedade do coronel João de Castro era uma cháca-</p><p>ra localizada a cerca de trezentos metros do riacho do Ipiranga, perto de onde</p><p>hoje está o Monumento da Independência. Essa propriedade era utilizada como</p><p>pasto para suas tropas de mula, que faziam a ligação entre Santos e São Paulo.</p><p>A casa foi demolida em 1941, segundo registros, fotos e artigos existentes no</p><p>Museu Paulista da USP. Antônio José de Oliveira,18 casado com uma prima de</p><p>Domitila e ajudante de ordens do imperador, deixou um relato curioso sobre um</p><p>dos primeiros encontros entre ela e d. Pedro. O príncipe regente, encantado em</p><p>vê-la chegando numa cadeirinha transportada por escravos, dispensou um dos</p><p>carregadores e assumiu ele próprio um dos varais, afirmando querer ver o peso</p><p>da ocupante. Entre risos e flertes, os escravos acabaram sendo substituídos por</p><p>homens de sua guarda de honra, com d. Pedro brincando que jamais Domitila</p><p>teria negrinhos como aqueles.</p><p>3 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 3 1</p><p>4. Alegoria ao juramento da Constituição.</p><p>Quem fizer questão de possuir um retrato muito parecido da festejada D. Dimitila faça vir</p><p>de Paris uma estampa que traz a legenda “Salve! Querido brasileiro dia”, na qual está</p><p>3 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 3 1</p><p>alegoricamente representada a Independência do novo Império do Brasil. Sobre despeda-</p><p>çados grilhões de escravos e serpentes calcadas aos pés, vê-se o jovem d. Pedro com uma</p><p>encantadora americana que se lhe atira nos braços. A bela condessa é o original dessa</p><p>figura. Não me atrevo a afirmar que tenha posado para o pintor nos mesmos trajes com</p><p>que na gravura se apresenta.</p><p>Schlichthorst, C. O Rio de Janeiro como é (1824-1826), p. 60.</p><p>Levando-se em conta o gênio indomável de d. Pedro I, que havia de levar</p><p>uma bofetada de uma bonita escrava em Santos, às vésperas da Independência,</p><p>por tê-la tomado no meio da rua e lhe dado um beijo, bem poderia ser verdade</p><p>a história relatada. As cartas, mais adiante reproduzidas, mostram o perfil de um</p><p>homem apaixonado que seria capaz, imperador ou não, de dirigir tal cena.</p><p>Mas lembremos que Francisco de Castro, irmão de Domitila, havia vindo</p><p>junto com o príncipe regente, e no caminho, na intimidade que era própria de d.</p><p>Pedro ter com qualquer um que se acercasse dele, não seria impossível imaginar</p><p>que “Nhô Xico” tivesse contado a ele sobre os problemas da irmã, sobre a tentativa</p><p>de assassinato e a briga dela com o ex-marido e com o sogro, que tentavam tirar-</p><p>-lhe os filhos. Corrobora essa hipótese um despacho de 1826 enviado pelo conde</p><p>de Gestas, diplomata francês, para o seu governo, comentando que a marquesa de</p><p>Santos havia se aproveitado da viagem de d. Pedro a São Paulo para relatar seus</p><p>problemas.19</p><p>Quatro anos depois desse encontro, o mercenário alemão Bösche,20 descre-</p><p>vendo o imperador, que subira ao navio para cumprimentar os imigrantes, pintou</p><p>um retrato bastante interessante de d. Pedro:</p><p>[...] se bem que não fosse bonito, era simpático e bem feito de corpo. Cabelos</p><p>pretos e anelados cobriam-lhe a fronte; os olhos eram pretos, brilhantes e muito</p><p>móveis, o nariz aquilino, a boca regular e os dentes bem alvos. Os sinais de bexigas</p><p>do rosto não eram repugnantes, como acontece com outras pessoas; as suas suíças</p><p>espessas ocultavam-nos inteiramente. Tinha uma atitude imponente e reconhe-</p><p>cia-se logo nele o senhor, não obstante a simplicidade do vestuário.</p><p>Se um militar alemão descreveu d. Pedro dessa maneira, podemos imaginar</p><p>o que Domitila deve ter achado desse homem quando o conheceu.</p><p>3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 3 3</p><p>5. D. Pedro I.</p><p>O que ele viu nela pode ter sido o mesmo que outro alemão, Schlichthorst.21</p><p>Em suas memórias do Rio de Janeiro, comentaria que a favorita do imperador</p><p>distinguia-se pelo rosto regular e formoso e pela tez clara. E que, apesar de não lhe</p><p>faltar gordura, o que corresponderia ao gosto geral dos brasileiros de então, e de</p><p>não ser mais tão jovem, os olhos nada haviam perdido de seu fulgor, com uma por-</p><p>ção de cachos escuros emoldurando sua face. Ainda afirma que Domitila era uma</p><p>mulher verdadeiramente bela, de acordo com a fama de que gozavam as paulistas.</p><p>O germânico fazia eco a diversos outros viajantes europeus que haviam notado a</p><p>beleza das moças de Piratininga.22</p><p>3 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 3 3</p><p>6. Domitila de Castro, marquesa de Santos.</p><p>O príncipe regente já era casado com a arquiduquesa Leopoldina da Áustria</p><p>fazia cinco anos quando conheceu Domitila. O jovem atlético, que escalava mor-</p><p>ros no Rio de Janeiro, nadava nu na praia de Botafogo e na Ilha do Governador e</p><p>esgotava seus cavalos em passeios de um dia inteiro, parecia querer viver tudo o</p><p>que podia a um só tempo, como se suspeitasse que a morte estava à espreita para</p><p>ceifá-lo jovem. E era assim também nos amores. Desde antes do casamento já ar-</p><p>rumara uma amante, e o filho que teve com ela, morto na infância, seria um dos</p><p>primeiros espúrios reais a nascer. Apesar de ser, hoje, inquestionável o amor que</p><p>ele sentia por Domitila, isso não garantiu a ela sua fidelidade. Ao longo do rela-</p><p>3 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 3 5</p><p>cionamento de sete anos, quatro dos quais ele passou casado com d. Leopoldina,</p><p>diversas aventuras amorosas despertaram os ciúmes da paulista, como podemos</p><p>ver nas respostas que ele lhe enviava:</p><p>Eu já não namoro a ninguém depois que lhe dei minha palavra de honra (carta</p><p>50, p. 129).</p><p>Mas, como em qualquer início de namoro, as brigas por ciúmes ainda esta-</p><p>vam longe de acontecer. Provavelmente Domitila não ficara sabendo do tapa que</p><p>ele levara da escrava santista alguns dias após dormir com ela pela primeira vez.</p><p>Proclamada a Independência em São Paulo, d. Pedro retornou para a corte,</p><p>no Rio de Janeiro. Em 17 de novembro,23 escrevia para Domitila, encantado com</p><p>as cartas que esta lhe enviara. Dava a entender que falara com o pai dela, João de</p><p>Castro, que a filha encontrava-se grávida dele.</p><p>Tive arte de fazer saber a seu pai que estava pejada de mim (mas não lhe fale nisto)</p><p>e assim persuadi-lo que a fosse buscar e a sua família, que não há de cá morrer de</p><p>fome, muito especialmente o meu amor, por quem estou pronto a fazer sacrifícios.</p><p>Assim foi feito, e toda a família, com exceção dos irmãos mais velhos, João e</p><p>José de Castro, militares aquartelados no sul do Brasil, mudou-se para o Rio de Ja-</p><p>neiro. Dessa primeira gravidez pouco se sabe de concreto. Arteiro, não seria difícil</p><p>imaginar que d. Pedro houvesse enganado o velho coronel, assim como Domitila,</p><p>vendo que a sorte lhe sorria pela primeira vez, poderia ter feito o possível para</p><p>segurar o homem que a chamava de “meu amor”. Depois das facadas, do boato</p><p>de infidelidade abafando a questão de sua assinatura falsificada, do processo de</p><p>divórcio e da tentativa de lhe tirarem os filhos, a preocupação</p><p>com sua reputação</p><p>na pequena São Paulo devia ser irrelevante.</p><p>Os filhos do primeiro casamento, os pais, a avó, irmãos, cunhados, tios e pri-</p><p>mas desceram em avalanche sobre a capital do nascente império brasileiro, onde</p><p>contaram com a proteção de d. Pedro para manterem-se. O imperador iria real-</p><p>mente ajudá-los, dando empregos e promoções, mas sempre dentro da legalidade.</p><p>Recusaria diversos favores solicitados, chegando, em certa ocasião, a alegar:</p><p>Sinto infinito quando não posso fazer o que mecê pede; mas é o que acontece a</p><p>quem como eu deseja manter a justiça e a disciplina militar (carta 29, p. 102).</p><p>3 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 3 5</p><p>Ele podia amá-la, mas não deixava de lado os negócios de Estado para aten-</p><p>der a seus caprichos.</p><p>A data exata em que Domitila se instalou na corte não é certa, mas a cor-</p><p>respondência entre eles e algumas resoluções e despachos oficiais mostram que a</p><p>chegada deve ter ocorrido entre janeiro e março de 1823. A irmã, Ana Cândida,</p><p>chamada de Nhá Cândida por d. Pedro (carta 1, p. 66), e o marido, o militar Carlos</p><p>Maria Oliva, mudaram-se para o Engenho Velho; o cunhado, Boaventura Delfim</p><p>Pereira, e a esposa, Maria Benedita, irmã mais velha de Domitila, compraram uma</p><p>chácara na ladeira da Glória (carta 17, p. 89), próximo da igreja de Nossa Senhora</p><p>da Glória do Outeiro. Domitila, os pais e os filhos do primeiro casamento estabele-</p><p>ceram-se em uma casa em Mata-Porcos, onde hoje se localiza o bairro do Estácio.</p><p>Inicialmente, a relação entre eles não foi escancarada como querem os seus</p><p>detratores, principalmente os políticos e cortesãos em queda. Seria mais fácil acu-</p><p>sar d. Pedro de ter se deixado influenciar pela sua amante paulista do que assumir</p><p>sua inépcia ou sua ganância pelo poder como causa de sua demissão. Até mesmo</p><p>os diplomatas estrangeiros no Rio de Janeiro ajudariam a espalhar a fama de Do-</p><p>mitila, como o embaixador francês marquês de Gabriac, que atribuiria os sucessos</p><p>do embaixador britânico sir Robert Gordon em tentar pôr um fim ao tráfico ne-</p><p>greiro ao fato de este haver enfrentado a marquesa...</p><p>A primeira carta publicada nesta edição (carta 1, p. 66) mostra que, se eles já</p><p>mantinham um relacionamento em junho de 1823, quando d. Pedro caiu do cava-</p><p>lo e fraturou costelas, ganhando hematomas e traumas que o prenderam ao leito,</p><p>os encontros eram feitos secretamente, de maneira bastante discreta, até mesmo</p><p>com a determinação do imperador de que o irmão dela, Francisco de Castro, a</p><p>acompanhasse à corte. D. Pedro não deveria estar muito preocupado nessa época</p><p>com o que a amante, de escrita irregular e ortografia pobre, tivesse a dizer sobre</p><p>a queda dos Andradas, ou sobre as relações externas. O imperador estava mais</p><p>interessado em tratá-la bem, dando-lhe joias de presente e cuidando para que fre-</p><p>quentasse a modista certa (carta 2, p. 69).</p><p>Qualquer novidade despertava nele a lembrança de Domitila. Assim, des-</p><p>viava presentes que deveriam ter sido entregues à imperatriz (carta 40, p. 113) e</p><p>remetia-lhe pequenos mimos, como um queijo (carta 53, p. 134), ou morangos e</p><p>flores (cartas 8 e 31, p. 78 e 104).</p><p>Em 21 de maio de 1824, saiu a sentença de divórcio separando Domitila do</p><p>ex-marido e dando a guarda dos filhos para a mãe. Francisca seria educada em</p><p>um colégio da elite carioca, enquanto Felício filho, mais tarde, completaria seus</p><p>estudos em Paris. Dois dias depois, em 23 de maio, nasceu a primeira filha do casal</p><p>3 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 3 7</p><p>de amantes, Isabel, a Bela, ou Belinha, como a chama d. Pedro (carta 10, p. 81).</p><p>Inicialmente a menina foi registrada como filha de pais desconhecidos. O impera-</p><p>dor afirmaria, em carta para Domitila, que Isabel deveria viver com a mãe, até que</p><p>tivesse idade para ser educada (carta 9, p. 80).</p><p>Mas a vida de Domitila não era apenas bailes, filhos, vestidos e joias novas.</p><p>Em algum momento, ela receberia um duro golpe. Rodrigo Delfim Pereira, filho</p><p>de sua irmã Maria Benedita, nascido em 4 de novembro de 1823, era fruto de</p><p>rápido entrevero amoroso entre ela e d. Pedro. Muito antes do que julgam seus</p><p>detratores, Domitila deveria saber sobre o assunto, como ilustra uma resposta de-</p><p>sesperada do imperador, dada em algum momento de 1825:</p><p>Eu não fui na casa nem do grande nem do pequeno Boaventura (carta 37, p. 109).</p><p>Assim como a imperatriz Leopoldina, que escrevia para a irmã Maria Luísa,</p><p>muito antes de d. Pedro começar o seu caso com Domitila,24 comentando sobre a</p><p>decepção que era o marido em termos de fidelidade, Titília era ciente das traições</p><p>do imperador. Mas, diferente da mulher legítima, era capaz de grandes cenas e</p><p>até mesmo de atormentá-lo por isso, o que levava o monarca a escrever-lhe cartas</p><p>assegurando que nada havia feito de mal, ou antecipando-se a fofocas que fariam</p><p>por ele ter se encontrado com alguma mulher (carta 36, p. 108).</p><p>Quatro meses após o nascimento de Isabel, em setembro de 1824, Domitila,</p><p>ao tentar entrar em uma sessão do Teatrinho Constitucional São Pedro, foi impe-</p><p>dida por não ter sido convidada. A fúria do amante real não se fez esperar (carta</p><p>11, p. 83). Irritado ao saber que ela havia sido barrada na porta do prédio, d. Pedro</p><p>retirou-se e, no dia 22, o teatro foi fechado.</p><p>Pouco menos de um ano depois, durante as comemorações da Semana Santa</p><p>de 1825, um novo incidente ocorreu. D. Pedro pedira que um servidor do paço</p><p>levasse Domitila até a tribuna de honra da Capela Imperial para participar das</p><p>comemorações da Páscoa. As damas da corte, lá instaladas, indignadas com a pre-</p><p>sença de uma desconhecida que os rumores indicavam ser amante do imperador,</p><p>levantaram-se e acintosamente deixaram o local, expondo a paulista ao vexame.</p><p>Novamente o imperial amante intercedeu e fê-la nomear dama camarista da im-</p><p>peratriz (anexo 1, p. 183), passando, hierarquicamente, a ter mais importância e</p><p>maiores direitos que as outras damas do paço. Isso qualquer livro sobre a intimi-</p><p>dade da corte brasileira do Primeiro Reinado poderia contar; mas a saborosa carta</p><p>em que d. Pedro esmiúça o plano de vingança, informando à amante ter mandado</p><p>3 6 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 3 7</p><p>instalar uma tranca na tribuna para impedir que qualquer outra pessoa se sentasse</p><p>antes da chegada de Domitila, ainda não havia sido descoberta (carta 25, p. 96).</p><p>“Tenho muita glória de punir por ti e pela tua honra”, como dirá a essa aman-</p><p>te que, mesmo não tendo sido fiel a ela, foi uma das poucas que realmente amou.</p><p>Afinal, com qual outra teria trocado este tipo de confidência:</p><p>Ontem mesmo fiz amor de matrimônio para hoje, se mecê estiver melhor e com</p><p>disposição, fazer o nosso amor por devoção (carta 9, p. 80).</p><p>7. Largo do Paço e rua Direita. A Capela Imperial é a segunda edificação à esquerda.</p><p>Com a pena transformada em vara de condão, d. Pedro transformou os feios</p><p>patinhos paulistas em belos cisnes dignos de frequentar a corte. Sua Titília foi feita</p><p>viscondessa de Santos em 12 de outubro de 1825, dia do aniversário do imperador,</p><p>quando anistias eram dadas e mercês, distribuídas. À família, seguiu nobilitando:</p><p>o pai recebeu o título de visconde de Castro; os irmãos ganharam comendas e títu-</p><p>los de honra; e o cunhado, Boaventura Delfim, que assumiu Rodrigo como se fosse</p><p>seu filho, se tornaria barão de Sorocaba. É do outro lado do Atlântico que nos vem</p><p>uma das mais indignadas reações: “Quem sonharia que a michela25 Domitila seria</p><p>viscondessa da pátria dos Andradas?”,26 perguntaria indignado José Bonifácio, em</p><p>3 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 3 9</p><p>seu exílio na França, a seu fiel escudeiro Vasconcelos Drummond, em 26 de janei-</p><p>ro de 1826. A provocação de d. Pedro ao escolher a cidade natal do antigo ministro</p><p>para nobilitar a amante surtira efeito.</p><p>Em 7 de dezembro de 1825, cinco dias depois do nascimento de d. Pedro de</p><p>Alcântara, futuro d. Pedro II, nascia outro Pedro, este no bairro de Mata-Porcos, fru-</p><p>to dos amores imperiais com Domitila. Essa</p><p>gravidez não diminuiu o furor sexual</p><p>do imperador. Em junho desse mesmo ano, enquanto esperava sir Charles Stuart,</p><p>diplomata britânico, mediador do tratado de reconhecimento entre Portugal e a an-</p><p>tiga colônia, d. Pedro escrevia à amante: “Estou munido bastante” (carta 28, p. 101).</p><p>Se a vida íntima ia bem, o mesmo não acontecia com o destino do Brasil. A</p><p>Província Oriental do Rio da Prata, hoje conhecida como Uruguai, desde 1680 era</p><p>alvo de disputa entre a Espanha e Portugal devido à sua posição estratégica: quem</p><p>a controlasse detinha não só o domínio sobre o rio da Prata, como ainda os acessos</p><p>aos rios Paraguai e Paraná. Em 1821, essa região foi incorporada por d. João VI ao</p><p>Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, com o nome de Província Cisplatina.</p><p>Em abril de 1825, durante o processo de organização das Províncias Unidas do</p><p>Prata, que dariam origem ao Estado argentino, alguns exilados uruguaios, vindos</p><p>de Buenos Aires, retornaram à Cisplatina levantando a população espanhola con-</p><p>tra o governo brasileiro. O general Lecor conseguiu manter Montevidéu e outras</p><p>cidades, porém o interior da província permanecia nas mãos dos portenhos. Após</p><p>receber tropas vindas do Rio Grande do Sul, Lecor preparou uma ofensiva contra</p><p>os rebeldes, mas essa força expedicionária acabou dizimada na batalha de Sarandi,</p><p>em 12 de outubro. Algumas semanas depois, devido ao sucesso dos uruguaios dis-</p><p>sidentes, o governo argentino decidiu aceitar oficialmente a petição deles para que</p><p>a Cisplatina fosse admitida na união. Buenos Aires e outras províncias mandaram</p><p>tropas para ajudarem os uruguaios contra os brasileiros, levando d. Pedro a decla-</p><p>rar guerra contra a Argentina em 10 de dezembro.</p><p>Como fizera antes com Minas e São Paulo na época da Independência, d. Pe-</p><p>dro planejou uma viagem à Bahia para buscar apoio ao esforço de guerra. Porém,</p><p>diferente das excursões de sua época como príncipe regente, onde uma comitiva</p><p>pequena era suficiente, dessa vez ele levaria a mulher, d. Leopoldina, a filha, d.</p><p>Maria da Glória, futura rainha de Portugal, e mais de setenta convidados, entre</p><p>eles Domitila, no cargo de dama da imperatriz.</p><p>Em carta de 6 de novembro de 182427 para a amiga e confidente Maria</p><p>Graham, d. Leopoldina confessava que se sentiria aliviada quando tivesse se “li-</p><p>vrado de certa canalha”. Querem os amantes de estudos superficiais ver no termo</p><p>uma alusão direta a Domitila. Porém a viajante inglesa, no seu Escorço biográfico</p><p>3 8 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 3 9</p><p>de Dom Pedro I, narra todo o problema que houve nesse período entre ela e os</p><p>funcionários do paço, envolvendo o administrador Plácido e as damas portugue-</p><p>sas, o que levou à sua demissão do cargo de governanta das princesas. Nenhuma</p><p>menção a Domitila é feita pela própria vítima das armações da “canalha do Paço”,</p><p>no coletivo, como se refere o próprio d. Pedro em citação registrada por Graham.28</p><p>D. Leopoldina tinha, em excesso, a educação que faltava a Domitila, e isso foi</p><p>o seu fim. Produto de seu tempo e seu meio, criada para não ver, não ouvir e so-</p><p>mente cumprir a função que lhe era destinada, o seu lado “arquiduquesa Habsbur-</p><p>go” contrastava com sua sede de conhecimento e saber compartilhada com raras</p><p>pessoas, como José Bonifácio e a amiga inglesa, ambos tirados dela por problemas</p><p>políticos — no caso de Graham, pela intriga da camarilha portuguesa que cercava</p><p>os imperadores.</p><p>Sem ter afinidades com a comitiva que os acompanhou para a Bahia, d. Leo-</p><p>poldina trancou-se na cabine durante a viagem de navio. Comia sozinha, evitando</p><p>a mesa comum do marido. Para compartilhar as refeições, d. Pedro chamava a</p><p>seu lado a amante, que foi muitas vezes vista não só na companhia do monarca</p><p>como na da filha dele. Na chegada a Salvador, a d. Leopoldina seria destinada uma</p><p>residência diferente daquela em que dormiriam d. Pedro e Domitila. A tudo ela</p><p>se resignava até mesmo nos passeios que fazia com o marido. D. Pedro dirigia sua</p><p>própria carruagem, com a esposa na boleia, levando a amante e d. Maria da Glória</p><p>sentadas atrás.</p><p>Em 1º de abril de 1826, quando retornaram ao Rio de Janeiro, Pedro e Domi-</p><p>tila tomaram ciência de que o filho nascido em dezembro falecera em 13 de março.</p><p>Esse ano foi para d. Pedro uma época de perdas. Além dessa, recebeu em 24 de</p><p>abril a notícia da morte do pai, d. João VI, em Portugal, aos 59 anos, o que daria</p><p>início a uma crise dinástica só resolvida em 1834.</p><p>Ainda no primeiro semestre, a viscondessa mudou-se para o bairro de São</p><p>Cristóvão, morando inicialmente em uma das casas existentes na chácara29 que</p><p>havia comprado. Após a conclusão das obras do seu palacete, praticamente à porta</p><p>da Quinta da Boa Vista, residência imperial, transferiu-se para ele, em 1827. Assim</p><p>ela viveria a uma distância de pouco menos que um quilômetro do amante, que</p><p>do palácio, não raro, a espionaria com uma luneta (carta 48, p. 125). Em maio, no</p><p>dia 20, às vésperas do aniversário de Isabel, d. Pedro decidiu reconhecê-la oficial-</p><p>mente como sua filha. Mas encontrou alguém que o afrontasse. O bispo do Rio de</p><p>Janeiro negou-lhe autorização para mudar o registro do batismo. Isso poderia ser</p><p>um empecilho para outros, mas não para o imperador. O reconhecimento foi feito</p><p>via ato ministerial, com os ministros Lages, Inhambupe e José Feliciano Fernandes</p><p>4 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 4 1</p><p>Pinheiro30 atestando a paternidade da menina. Após o decreto, o secretário do im-</p><p>perador foi à igreja de São Francisco Xavier, no Engenho Velho, e intimou o padre</p><p>a reformar a declaração de batismo, acrescentando o nome de d. Pedro como pai.</p><p>O decreto também mudou o nome da criança. Antes somente Isabel na certidão</p><p>de batismo, agora passava a chamar-se Isabel Maria, o mesmo nome da irmã de d.</p><p>Pedro que, durante a doença de d. João VI, havia assumido a regência portuguesa e</p><p>agora governava Portugal em nome do irmão. Na nova certidão constava apenas o</p><p>nome do pai, não havendo qualquer referência à mãe, mas, oficialmente, d. Pedro</p><p>daria ao leal visconde de Castro, avô da criança, a incumbência de criá-la, ficando</p><p>Isabel Maria nesse arranjo junto de Domitila. No dia 24, concedeu à menina o</p><p>título de duquesa de Goiás. D. Pedro parecia ter uma predileção especial por essa</p><p>filha: no mesmo ano, uma corveta construída para integrar a Marinha brasileira</p><p>foi batizada com seu título (carta 43, p. 118).</p><p>Domitila, que teve seu título nobiliárquico elevado para marquesa de Santos</p><p>em 12 de outubro, também perderia o pai em 2 de novembro. A doença do vis-</p><p>conde de Castro causou problemas para d. Pedro. Querem alguns que ele tenha</p><p>passado um mês longe de casa cuidando do velho visconde, o que teria feito d.</p><p>Leopoldina revoltar-se e ameaçar de pô-lo na rua, ou ainda de partir para a Euro-</p><p>pa, abandonando-o. Mexericos da criadagem31 do palácio à parte, Melo Morais32</p><p>afirma ter o imperador passado junto ao doente dois dias e duas noites. Muito</p><p>mais realista do que ter abandonado por trinta dias a família e os negócios do</p><p>Brasil, incluindo o Tesouro exaurido e a Guerra da Cisplatina, além dos negócios</p><p>portugueses. O certo é que o funeral do velho militar, numa pompa desusada, seria</p><p>pago pelo monarca.</p><p>Em cartas enviadas à sua amiga Maria Graham desde seu retorno da viagem</p><p>da Bahia, d. Leopoldina tinha um travo amargo, depressivo, além de reclamações</p><p>a respeito da saúde. Ao visitá-la pela última vez antes de partir para a Europa, em</p><p>setembro de 1825, três meses antes do nascimento de d. Pedro II, Graham encon-</p><p>trou-a em depressão e fraca de saúde.33 O estado dela piorou com uma nova gra-</p><p>videz, o que não impediu que d. Pedro a deixasse, sob cuidados médicos, para ver</p><p>de perto a situação em que se encontrava o exército brasileiro no Sul. O imperador</p><p>partiu em 24 de novembro com uma frota de navios, entre eles a corveta Duquesa</p><p>de Goiás, levando oitocentos oficiais e as tropas mercenárias do 27º Batalhão de</p><p>Infantaria Ligeira, com destino à Cisplatina. Sua primeira parada foi</p><p>Santa Cata-</p><p>rina, aonde chegou cinco dias depois e escreveu para a esposa e a amante cartas</p><p>praticamente idênticas, descrevendo as particularidades da viagem. Porém para</p><p>Domitila o final foi estendido, com protestos de saudades e de amor.34</p><p>4 0 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 4 1</p><p>8. D. Pedro I e d. Leopoldina visitam os órfãos da Casa dos Expostos em 1826.</p><p>4 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 4 3</p><p>Alguns estrangeiros que estavam no Brasil à época recolheriam os comen-</p><p>tários das ruas e iriam transformá-los em principal razão para a morte de d.</p><p>Leopoldina: d. Pedro teria agredido a esposa antes da partida, provocando um</p><p>aborto e a sua morte. Realmente, a imperatriz abortaria um feto de três meses</p><p>na madrugada de 2 de dezembro, mais de uma semana depois do embarque do</p><p>marido. Depois disso, não recuperou totalmente a consciência, falecendo em 11</p><p>de dezembro de 1826.</p><p>O barão de Mareschal,35 diplomata austríaco no Rio de Janeiro, escreveu para</p><p>Maria Graham logo após a morte de d. Leopoldina:</p><p>Sua moléstia foi curta e dolorosa. Não a perdi de vista durante todo seu curso. Ela</p><p>desesperou desde o princípio; tendo em vista sua idade, sua constituição e a fatal</p><p>complicação de uma gravidez, fez-se o que foi possível para salvá-la. Sua morte foi</p><p>chorada sincera e unanimemente. Ela deixa um vácuo perigoso. Nada até agora</p><p>indica nem que se pretenda preenchê-lo, nem por que pessoa.</p><p>Graham afirma36 ser essa a versão “oficial” e narra que depois começaram</p><p>a chegar cartas de outras pessoas, contando outras histórias. Uma delas afirma-</p><p>va que Domitila, fazendo uso de suas funções como dama camarista, proibiu as</p><p>crianças de verem a mãe e teve que ser retirada à força por um servidor do palácio.</p><p>Mareschal, chamado de “abelhudo” pelo historiador Alberto Rangel, não era bem</p><p>visto nem por sua conterrânea d. Leopoldina37 e não deixou diferentes impressões</p><p>quando serviu nos Estados Unidos, onde ficou conhecido por suas intrigas e pelas</p><p>fofocas com que recheava seus relatórios ao governo austríaco. Presente no Palácio</p><p>de São Cristóvão durante a enfermidade de d. Leopoldina, não lançou uma única</p><p>linha sobre ter visto Domitila no quarto da imperatriz. Sempre bem informado, no</p><p>seu relatório de 13 de dezembro38 afirma que a falecida não havia deixado nenhu-</p><p>ma disposição testamentária, o que vai contra uma suposta última carta.</p><p>Em 8 de dezembro, d. Leopoldina teria ditado suas últimas palavras para a</p><p>camareira-mor, a marquesa de Aguiar, contando, às vésperas da morte, as agruras</p><p>por que vinha passando. Nessa carta para a irmã Maria Luísa, ex-imperatriz dos</p><p>franceses, ela chama-a ora de “minha adorada mana”, ora de “minha mana”. Em</p><p>um trecho, descreve a pessoa a quem a carta está sendo ditada:</p><p>A marquesa de Aguiar, de quem bem conheceis o zelo e o amor verdadeiro que</p><p>por mim tem, como repetidas vezes te escrevi, essa minha única amiga que tenho,</p><p>é quem lhe escreve em meu lugar.</p><p>4 2 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 4 3</p><p>No fim, ela manda recomendações para que paguem tudo o que deve aos</p><p>credores, além de dispor que os filhos sejam educados pela marquesa de Aguiar,</p><p>até que “o meu querido Pedro não disponha em contrário”.</p><p>Esse documento apresenta alguns detalhes que parecem ter sido ignorados</p><p>pelos historiadores por quase dois séculos. Primeiro: em nenhuma outra carta co-</p><p>nhecida d. Leopoldina trata a irmã por “mana”. Sempre a chama de “caríssima” ou</p><p>“queridíssima Luísa”,39 independente de a mensagem seguir por correio diplomáti-</p><p>co ou por mensageiro particular. Segundo: a marquesa de Aguiar não é menciona-</p><p>da em nenhuma outra das mais de duzentas cartas conhecidas da imperatriz. Melo</p><p>Morais40 informa que a camareira-mor não morava no paço; para lá se mudou</p><p>unicamente devido à doença da consorte imperial, por exigência do seu cargo e</p><p>pela ausência do imperador, não sendo suficientemente íntima de d. Leopoldina.</p><p>Maria Graham comenta sobre a marquesa de Aguiar ser uma mulher honesta e</p><p>educada, “para uma portuguesa”.41</p><p>Este trecho da carta faz eco aos comentários do povo de que d. Pedro teria</p><p>maltratado a imperatriz:</p><p>[...] maltratando-me na presença daquela mesma que é a causa de todas as minhas</p><p>desgraças. Muito e muito tinha a dizer-te, mas faltam-me forças para me lembrar</p><p>de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa de minha morte.</p><p>Faltavam-lhe forças para se lembrar do “horroroso atentado”, mas não para</p><p>continuar ditando mais da metade do total da carta, falando sobre credores e as</p><p>dívidas que estes haviam contraído para ajudá-la financeiramente. Mareschal dá</p><p>a entender que d. Leopoldina teria perdido os sentidos após o aborto e, quando</p><p>voltava a si, não estava de todo consciente.</p><p>Todos os que se ocuparam até o momento do estudo dessa carta serviram-</p><p>-se de uma cópia, que hoje se encontra no Arquivo Histórico do Museu Imperial.</p><p>A original nunca foi encontrada em qualquer arquivo, no Brasil ou no exterior. A</p><p>cópia existente em Petrópolis está escrita em português, com uma única frase em</p><p>francês dizendo que a transcrição foi feita de acordo com uma original expedida</p><p>em 12 de dezembro de 1826. Só surgiu no Rio de Janeiro em 5 de agosto de 1834 —</p><p>quase oito anos após a morte da imperatriz — para ser registrada junto ao tabelião</p><p>Joaquim José de Castro. Testemunharam: César Cadolino, J. M. Flach, J. Buvelot e</p><p>Carlos Heindricks. Desses, comprovadamente com dois, Cadolino e Flach, d. Leo-</p><p>poldina fizera grandes dívidas. Exatamente por essa época deve ter chegado ao Rio</p><p>de Janeiro a informação de que d. Pedro, na noite de 27 de maio de 1834, sob os</p><p>4 4 T I T Í L I A E O D E M O N Ã O O s A M A N T E s 4 5</p><p>apupos de uma plateia furiosa com a anistia dos absolutistas portugueses, tossira</p><p>sangue, manchando seu lenço diante de todo o teatro São Carlos, em Lisboa.42 A</p><p>tuberculose o mataria em 24 de setembro do mesmo ano.</p><p>Era, portanto, conveniente ter alguma prova das dívidas da imperatriz, me-</p><p>lhor ainda se confessada pela própria. Apesar de o decreto de 11 de outubro de</p><p>1827 ter criado uma dotação de oitenta contos de réis para o pagamento aos credo-</p><p>res da falecida, nos anais da Câmara dos Deputados existe menção às dívidas ainda</p><p>em 1838.43 Quanto à pessoa a quem a carta teria sido ditada, a marquesa de Aguiar,</p><p>assim como diversos cortesãos portugueses, retornara para Portugal após a abdi-</p><p>cação do imperador, desembarcando no cais de Belém em 5 de agosto de 1831,44</p><p>e estava convenientemente longe o bastante do Brasil em 1834 para confirmar ou</p><p>negar a autenticidade do documento. O barão de Mareschal, também citado na</p><p>carta, tinha partido do Brasil quatro anos antes de o documento aparecer. Entre</p><p>1833 e meados de 1834, alguns políticos veriam com bons olhos um documento</p><p>público que demonizasse o ex-imperador, afinal, o Partido Caramuru, capitaneado</p><p>pelos Andradas, ainda nutria alguma esperança de que d. Pedro, após conseguir</p><p>pacificar Portugal e entronizar d. Maria da Glória, pudesse voltar para o Brasil</p><p>como regente de d. Pedro II. A produção de escândalos para denegrir a imagem</p><p>pública de alguém não é invenção recente.</p><p>Informado da morte da esposa, d. Pedro chegou ao Rio em 15 de janeiro de</p><p>1827. Num ato contínuo, demitiu boa parte do ministério, além de funcionários</p><p>da casa imperial e até o confessor e antigo professor, frei Antônio de Arrábida.</p><p>Querem alguns ver nisso a fúria imperial pelas queixas de Domitila por ter sido</p><p>barrada no Palácio de São Cristóvão, quando os servidores não a deixaram ver</p><p>d. Leopoldina uma última vez. Segundo outras fontes, a demissão dos ministros</p><p>foi consequência da desorganização administrativa e logística que d. Pedro en-</p><p>controu no sul do país e, quanto aos servidores do paço, o jornal Sete de Abril,</p><p>em 2/2/1831, comentava que essas antigas demissões foram devidas à falta de</p><p>protocolo e pompa que conviria ao velório de uma imperatriz.45 Mas Domitila</p><p>não só levaria a culpa pela morte da primeira esposa de d. Pedro. Ela teve</p>

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