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<p>DE GOI AS Palacín Esta História de procura harmonizar as cias didáticas com as diretrizes da pesquisa e exposição Maria Augusta de Sant'Anna Morae histórica na atualidade. Do ponto de vista didático, houve a intenção de apre- sentar uma visão global do processo histórico em desde as bandeiras e o primeiro povoamento até os nossos dias. as três grandes épocas, ou dos, da história de o da mineração, o da expansão e povoamento agro-pastoril, e o da integração pelas vias de comunicação modernas e pelo processo de urbanização - receberam uma atenção e o espaço equivalentes. Como instrumento metodológico-didático se no começo de cada capítulo um resumo ou "abstract", que apresenta em poucas linhas a síntese de toda a matéria. Também se deu grande importância à inclusão de mapas e gráficos, que além de visualmente a matéria exposta, podem servir de ponto de partida para o trabalho pessoal dos alunos na comparação de diversas situações históricas com a atualidade. No tocante à orientação metodológica procurou-se um equilíbrio entre o destaque dado aos aspectos rais - formas de produção, classes sociais, estruturas de PAL his governo etc - e os aspectos conjunturais e evolutivos 5 crescimento populacional, povoamento, crises e transfor- mações. ex Os temas que mereceram maior destaque são os da história atual: todo o referente à história demográfica, à história econômica, entendida como infra-estrutura e, em relação com ela, a social, à história política como expres- são do poder e como intervenção do governo no processo social. edição</p><p>Pe. Luís Palacín Dom Antônio Ribeiro de Oliveira Maria Augusta de Sant'Anna Moraes REITOR JARMUND Dario Nunes Silva NASSER VICE-REITOR PARA ASSUNTOS ACADÊMICOS Clélia Brandão Alvarenga Craveiro VICE-REITOR PARA ASSUNTOS ADMINISTRATIVOS João Sobreira de Macedo VICE-REITOR DE E PESQUISA Iria Brzezinski Devolva este livro sem danos VICE-REITOR PARA ASSUNTOS COMUNITÁRIOS E ESTUDANTIS Evite, sob qualquer pretexto: riscar, sujar, rasgar ou Eliana Siviero Stein dobrar as de qualquer livro ou doc. sob sua responsabilidade. 0 usuário que devolver este livro com danos, pelo com a biblioteca na preservação do acervo". HISTÓRIA DE GOIÁS (1722-1972) 5a edição 94 (817.3) PAL Editora-UCG COORDENAÇÃO GERAL DA EDITORA Maria Isoldina Evangelista Oliveira de Alcântara Goiânia/Go/1989 Instituto de Educação de</p><p>JARMUND NASSER SUMÁRIO E G. 1. BANDEIRAS DESCOBRIDORAS E POVOAMENTO DE GOIÁS 1.1 - As Primeiras Bandeiras 6 1.2 -Descobrimento de Goiás 8 1.3 Viagem da Bandeira de Anhanguera 9 1.4 -Povoamento de Goiás 10 2. A ECONOMIA DO OURO EM GOIÁS 2.1 - Goiás Dentro do Sistema Colonial 16 2.2 A Mineração em Goiás 17 2.3 A Política Fiscal nas Minas - Contrabando 17 2.4 Quinto 20 2.5 A Produção de Ouro 20 2.6 A Riqueza do Ouro em Goiás 23 3. A SOCIEDADE GOIANA DA DO OURO 3.1 - Quadro Administrativo: A Capitania de Goiás 27 3.2 A População de Goiás 28 3.3 A Sociedade de Goiás Durante a Colônia 29 3.4 - A Vida do Escravo 30 3.5 - A Sociedade mestiça 36 3.6 Classes Dirigentes 36 3.7 -Os Indios 37 4. TRANSIÇÃO DA SOCIEDADE MINERADORA À SOCIEDADE PASTORIL 4.1 -Tentativas Governamentais para o Progesso de Goiás 41 4.2 - Novos Aspectos Administrativos 43 4.3 - Consequencias da Decadência da Mineração 44 5. A EM 5.1 - Processo da Independência do Brasil e Seus Reflexos em Goiás 49 5.2 - -Primeiras Manisfestações Contra a Administração Colonial 49 5.3 - Construção das Juntas Governativas e a Promulgação da Independência 51 5.4 - Movimento Separativista do Norte de Goiás 51 5.5 - 1831 Um Movimento Nacionalista 53</p><p>6. POVOAMENTO DE GOIAS E A EXPANSÃO DA PECUÁRIA 6.1 - Correntes migratórias Devolva este livro sem danos 58 6.2 - Cronologia do Povoamento 63 Evite, sob qualquer pretexto: riscar, sujar, rasgar ou 6.3 - População Indígena 64 dobrar as de qualquer livro ou doc. seb sua 6.4 -Imigração Estrangeira 66 responsabilidade. 0 usuário que devolver este livro 7. PANORAMA ADMINISTRATIVO POLÍTICO CULTURAL com danos, pelo mesmo. DE DURANTE IMPÉRIO "Colabore com a biblioteca na preservação do 7.1 Panorama Administrativo 70 7.2 Panorama Político 71 7.3 Panorama Cultural 73 1. BANDEIRAS DESCOBRIDORAS E POVOAMENTO DE 8. MOVIMENTOS LIBERAIS E A IMPLANTAÇÃO DE REPUBLICA EM 8.1 - A Escravidão e o movimento libertário 79 8.2 - Felix de Bulhões, o Castro Alves Goiano 81 8.3 - Movimento Republicano em Goiás 83 8.4 - Natal - um Republicano Histórico 83 8.5 - A Implantação do Regime Republicano 84 8.6 - Crises Políticas 85 1.1 As Primeiras Bandeiras 8.7 Crise da Constituição Goiana 86 8.8 -Elites Dominantes Os Bulhões e os Jardim-Caiado 87 1.2. Descobrimento de Goiás GOIAS ATÉ A REVOLUÇÃO DE 30 9.1 Situação Geral do Estado 91 9.2 - Comunicações 91 1.3. Viagem da Bandeira de Anhanguera 9.3 - População 93 9.4 Economia 94 9.5 Regime de Propriedade: Classes Sociais 96 9.6 Governo: Administração 98 1.4. Povoamento de Goiás 10. A REVOLUÇÃO DE 30 E A CONSTRUÇÃO DE GOIANIA 10.1 Governo revolucionário 104 10.2 - o problema da mudança 106 10.3 Influência de 30 no ideal mudancista 107 10.4 Etapas da Construção de Goiânia 108 10.5 Goiânia e o desenvolvimento de Goiás 109 11. GOIAS ATUALIDADE, 1940 1970 Goiás era conhecido e percorrido pelas Bandeiras qua- 11.1 A população 114 11.2 - Distribuição da População se desde os primeiros dias da colonização. Mas seu 115 11.3 - Urbanização 117 to só se deu em decorrência do descobrimento das minas de 11.4 -Economia: Predomínio de Setor Rural 119 ouro (século XVIII). Este povoamento, como todo povoamen- 11.5 - A Estrutura social 120 to foi irregular e instável. 11.6 - Governo: Administração 122 Instituto de Educação de 5</p><p>1.1. As primeiras Bandeiras 2 o caminho fluvial, partindo de Belém pelo Amazonas, remontando depois o Tocantins e É certo que, já no primeiro século da colonização do Brasil, o Araguia, era igualmente frequentado. Já em 1664, Bartolomeu Barreiros de Ataíde subiu o Tocantins diversas expedições, "entradas", "descidas", "bandeiras", percorreram e entrou no Araguaia, buscando uma mina de ouro parte do território do atual Estado de embora não se conser- de que tinha notícia, segundo dizia, por uma escra- vem notícias precisas. Estas expedições, organizadas principalmente va. A partir de 1653, sucedem-se regularmente as na Bahia, centro então da colonização, eram umas de caráter oficial expedições dos em 1653, a do P. Vieira; em destinadas a explorar o interior e buscar riquezas minerais, e outras 1655 e 1658 as de Tomé Ribeiro, que chegou a su- empresas comerciais de particulares organizadas para a captura de bir 300 léguas rio acima; em 1659, a de Manuel Nunes, e em 1668, a de Gaspar Misch; em 1671 a do padre Gonçalo de Veras, acompanhado do sar- No século XVII, a documentação conservada com referências gento-mor Francisco Valadares; em 1674, finalmen- precisas à passagem por nosso Estado de bandeiras e descidas é rela- te, a do padre Raposo. tivamente abundante. De São Paulo saiam as bandeiras que buscando índios, cada vez mais escassos, chegavam com frequência até ao extremo norte de Goiás, região do De início seguiam em canoas o curso dos 1.2. Descobrimento de Goiás rios: até voltar pelo Tieté a São Paulo. Naquele tempo, sem pressas, uma destas viagens podia demo- Por isso é costume dizer que o descobridor de Goiás foi rar-se dois ou três anos. Anhanguera. Isto não significa que ele fosse o primeiro a chegar a mas sim que ele foi o primeiro em vir a Goiás com intenção de se fixar aqui. 2 Isto se deu dentro da conjuntura do descobrimento do ouro no Brasil. Em 1690 descobriram-se as minas de ouro de Minas Gerais. Aquele território até então povoado tão só por índios, como Goiás, começou a cobrir-se de arraiais e de vilas: Vila Rica, Vila do Carmo Salvador etc. Em 1718, foram descobertas, muito mais para o interior, as minas de Cuiabá e começou também o povoamento de Mato Grosso Grande Tiete Foi então que o Anhanguera, paulista que tinha vivido em Mi- nas, junto com outros dois parentes, pediu licença ao rei para orga- Rio de Janeiro nizar uma bandeira que viesse a Goiás buscar minas de ouro. Se em Minas se tinha encontrado tanto ouro, argumentavam eles, e em Mato Grosso também, em Goiás, território situado entre Minas e Mato Gros- o mapa indica o caminho percorrido pela bandeira de Fernandes (1613 1615), so, devia também existir ouro. A última bandeira, que tinha estado de acordo com as notícias de Padre Araújo. Pode ver-se como as primeiras bandeiras em Goiás, trouxera, com efeito, algum ouro; e o Anhanguera dizia preferiam o caminho fluvial, pelas dificuldades de transporte terrestre antes de dispo- rem de muares. É também fácil perceber o profundo conhecimento da rede hidrográfi- possuir o "roteiro" da viagem. ca para poder transportar as canoas por terra de uma bacia a outra. 6 Instituto de Educação de 7</p><p>Mais tarde depois de 1630 introduziu-se o uso de mua- res e as bandeiras preferiam a viagem por terra, atravessando de sul 3 Bartolomeu Bueno da Silva, pai, experiente serta- nista, era cego de um olho. Talvez deste defeito fí- a norte e de norte a sul todo o território goiano Há notícias docu- sico venha o apelido de origem e mentadas de pelo menos 16 bandeiras. significado discutidos. Quase todos os sertanistas eram apelidados pelos índios. Quanto ao fato de haver ateado fogo num prato de aguardente para amedrontar os índios a fim de que lhes mostrassem as minas, não se tratava de fato original. Era um ardil comum próprio dos exploradores. Segundo Pe- 1 A primeira bandeira, que partindo de São Paulo, dro Taques, linhagista paulistano, o primeiro ban- possivelmente chegou até os sertões de Goiás no deirante que usou este método foi Francisco Pires leste do Tocantins, foi a de Antônio Macedo e Do- Ribeiro, sobrinho do Caçador das Esmeraldas, nos mingos Luís Grau (1590-1593). Depois seguiram- sertões de Minas Gerais. se a de Domingos Rodrigues (1596-1600), que des- ceu até a confluência do Tocantins com o Araguaia; a de Afonso Sardinha (1598-?) a de Belchior Car- neiro (1607-1609), que passou ainda mais para o rei concedeu a licença, mandando ao governador que desse norte; a de Martins Rodrigues (1608-1613); a de um regimento à bandeira. André Fernandes (1613-1615); a de Pedroso de Al- varenga (1615-1618); a de Francisco Lopes Buena- Todos os gastos da expedição corriam por parte dos organi- vides a de Luís Castanho de Almeida zadores, que em troca recebiam vantagens nas novas minas que se e a expedição familiar de Antônio Paes (1671); a descobrissem e os principais cargos políticos na região. de Sebastião Paes de Barros (1673). Esta bandeira, a maior das saídas de São Paulo para Goiás, conta- 3 A bandeira era uma expedição organizada militarmente, va com uns 800 membros e se fixou na região da e também uma espécie de sociedade comercial. Cada um dos confluência do Tocantins e o Araguaia, dedicada preferencialmente à mineração. participantes entrava com uma parcela de capital, que consis- tia, ordinariamente, em certo número de Os principais fi- nanciadores da bandeira foram João Leite da Silva Ortiz, genro do próprio Anhanguera, proprietário de lavras em Minas, e João de Abreu, irmão de Ortiz. Mas também muitos dos participantes entra- vam com certo número de escravos, como o Alferes Braga, que deixou depois uma narração da viagem da bandeira. Eram uns 150 os mem- Outro tipo de expedições eram as "descidas" dos do bros da bandeira, mas o número total, incluindo os escravos, índios e Pará. Os tinham criado na amazônia um sistema bem estru- alguns pretos, chegava quase a quinhentos. turado de "aldeias" de aculturação indígena. Buscando índios para estas aldeias, os organizaram diversas expedições fluviais, que 1.3. Viagem da Bandeira subindo o Tocantins chegaram a A bandeira saiu de São Paulo a 3 de julho de 1722. cami- Mas nem bandeirantes nem vinham para fixar-se em nho já não era tão difícil como nos primeiros Até o Rio Gran- Goiás. Levavam índios goianos para o sul e para o norte, traçavam de era bem conhecido dos paulistas, com alguns moradores e com ro- roteiros para mostrar o caminho, mas não vinham a Goiás para criar ças; para além, o Anhanguera dizia possuir um roteiro, até o lugar do povoações. ouro. 8 9</p><p>Mas a bandeira se desencaminhou quase desde o Sur- Onde se estabeleceram as povoações? giram muitas inimizades entre os chefes paulistas e os componentes da bandeira, quase todos roteiro, se existia, não aju- O povoamento determinado pela mineração de ouro é o po- dou para encontrar o caminho. E a bandeira marchou sem rumo, voamento mais irregular e mais instável, sem nenhum planejamento, durante muitos meses, pelos cerrados do centro de Goiás. Muitos fo- sem nenhuma ordem. Onde aparece ouro, ali surge uma povoação; ram morrendo de fome. Outros preferiram voltar em pequenos grupos quando o ouro se esgota, os mineiros mudam-se para outro lugar e para São Paulo. Um dos últimos em desertar foi o alféres Braga. Ao a povoação definha ou desaparece. chegar à região do alto Tocantins região de Niquelândia possivel- Nos vinte primeiros anos da mineração, quase todo o território mente construiu uma balsa com outros dois companheiros, e os de Goiás foi percorrido e vasculhado pelas bandeiras, que durante três sozinhos desceram pelo rio até Belém. Viagem de quase 2.000 tempo da seca procuravam novos "descobertos" de ouro. Mas só sur- km. por um rio perigoso pelos rápidos e habitado por tribos hostis, giram arraiais e se fixaram populações lá onde foi achado ouro. que nos mostra a coragem e a determinação daqueles exploradores. Três zonas povoaram-se assim durante o século XVIII com Anhanguera era um homem obstinado: disse que preferia a uma relativa densidade; uma zona no centro-sul, com uma série des- morte a voltar fracassado. No fim acabou tendo sorte. Numa das vol- conexa de arraiais no caminho de São Paulo, ou nas suas proximida- tas da bandeira, quando já lhe restavam poucos companheiros, desco- des: Santa Cruz, Santa Luzia Meia Ponte (Pirenópolis) briu ouro nas cabeceiras do rio Vermelho na atual região da cida- principal centro de comunicações, Jaraguá, Vila Boa e arraiais vizi- de de nhos. A 21 de outubro de 1725, após três anos, voltaram triunfan- Uma segunda zona na "região do Tocantins", no alto Tocan- tes a São Paulo, propalando que tinham descoberto cinco córregos au- tins ou Maranhão, que administrativamente pertencia à correição do ríferos, umas minas tão ricas como as de Cuiabá, com ótimo clima e norte. Esta zona, de limitada extensão, era a mais densa em povoa- fácil comunicação. ções: Traíras, Água Quente, São José (Niquelândia), Santa Rita, Mu- 1.4. Povoamento de Goiás quem, etc. E, por fim, o verdadeiro norte da Capitania, abrangendo uma Poucos meses depois da volta da bandeira, organizou-se, em extensa zona entre o Tocantins e os chapadões dos limites com a Ba- São Paulo, uma nova expedição para explorar as minas. Bartolomeu hia. Nesta região, na sua maior parte, áspera e árida, encontravam-se Bueno voltava com o título de superintendente das minas e Ortiz com algumas povoações dispersas: Arraias, S. Félix, Cavalcante, Nativida- o de guarda-mor. de, Porto Real (Porto Nacional), o arraial mais setentrional. A primeira região ocupada foi a região do rio Vermelho. Fun- Fora destas regiões de povoamento, surgiram aqui e acolá al- dou-se o arraial de Sant'Ana, que depois seria chamado Vila Boa, guns arraiais isolados pelas exigências da mineração: Pilões, 18 lé- e mais tarde, Cidade de Goiás, sendo durante 200 anos a capital do guas ao sul de Vila Boa, na região do Araguaia, a povoação mais oci- território. Nas proximidades de Sant'Ana, surgiram numerosos arraiais, dental; Pilar e Crixas, nas matas da região do Araguaia; Couros (For- nas margens de córregos e rios, como centros de garimpo: Barra, Fer- mosa) no caminho da Bahia, limite oriental da Capitania. reiro, Anta, Ouro Fino, Santa Rita etc. resto do território goiano, dois terços pelo menos do atual Ao divulgar-se a riqueza das acor- Estado de Goiás, ficava ainda sem nenhuma povoação; o sul e o su- ria, sem cessar, gente de todas as partes do país. Pelos registros da doeste, todo o Araguaia e o norte desde Porto Nacional até o Estreito. capitação, sabemos que dez anos depois, em 1736, já havia nas minas A ocupação humana destas zonas processar-se-ia com a extensão da de Goiás 10.263 escravos negros. pecuária e da lavoura, durante os séculos XIX e XX. 10 Instituto de Educação de Goias 11</p><p>- 1804 38 A) CORREIÇÃO DE VILA BOA B) CORREIÇÃO DO NORTE MARANHÃO VIII Julgado de Traíras I - Julgado de Vila Boa 18. Arraial de Água Quente 01. Arraial da Barra 19. Arraial do Cocal 02. Arraial de Anta 20. Arraial do Maranhão 03. Arraial de Santa Rita 21. Arraial de José do 04. Arraial de Tesouras Tocantins 05. Arraial do Ferreiro 22. Arraial de Cachoeira 06. Arraial do Ouro Fino 23. Arraial de Santa Rita 07. Arraial do Curralinho 24. Arraial de Muquém 08. Arraial de 25. Arraial de Piedade is 09. Arraial de Anicuns 26. Arraial de Amaro Leite IX Julgado de Cavalcante goyaz 37 II - Julgado de Meia Ponte 27. Arraial das Flores MAPA DA CAPITANIA BAHIA 10. Arraial do Córrego do 28. Arraial de Santa Rosa Jaraguá POLÍTICO ADMINISTRATIVO XI 29. Arraial de Mato Grosso 11. Arraial de Corumbá 30 ESCALA 1: 33 X Julgado de São Félix 26 VIII 31 III - Julgado de Santa Luzia 30. Arraial do Carmo 21 12. Arraial de Montes Cla- 31. Arraial Chapada de 16 ros Félix 13 13. Arraial de Couros XI - Julgado de Arraias 10 I 32. Arraial do Morro do 12 III IV Julgado de Santa Cruz Chapéu 14. de Bonfim 33. Arraial de São Domin- IV gos V - Julgado do Desemboque XII Julgado da Barra do Palma 15. Arraial do Araxá 34. Arraial de Conceição 35. Arraial do Príncipe VI Julgado do Pilar 16. Arraial das Lavrinhas XIII - Rio GRA Julgado da Natividade CONVENÇÕES 17. Arraial de Goarinos 36. Arraial da Chapada da Natividade VILA VII Julgado de Crixá 37. Arraial do Duro JULGADO SÃO PAULO XIV Julgado de Porto Real ARRAIAL 38. Arraial de São João das RIO Duas Barras Arraial do Carmo 40. Arraial do Pontal 12 13 Instituto de Educação de</p><p>DOCUMENTO 2 A ECONOMIA DO OURO EM BANDO: Pedro Mathias Sigar, escrivão da cia d'estas minas dos Goyaz, etc. Certifico que em meu poder e carto- rio se acha um bando, que mandou lançar o superintendente d'estas minas, prohibindo aos moradores d'ellas o terem canaviaes de assucar, fazerem aguardente, o qual é do theor seguinte "Bartolomeu Bueno da Silva superintendente e guarda-mór d'estas minas de Goyaz, n'ellas 2.1. Goiás dentro do sistema colonial provedor das fazendas dos defuntos e ausentes, tudo na forma das or- 2.2. A mineração em Goiás dens de S.M. etc. Porquanto tenho recebido carta do governador e capitão-general da capitania de S Paulo e suas minas, Antônio da Silva 2.3. A Política Fiscal nas Minas - Contrabando Caldeira Pimentel, em qual me declara que S. M. "que Deus guarde, por repetidas ordens tem prohibido haver cannas deassucar, engenhocas 2.4. quinto e as suas destilações de aguas ardentes en minas, e com especialidade 2.5. A produção de ouro n'estas dos Goyaz, por principiarem de novo, e lhe constava que mui- tos moradores d'estas minas tinham em suas e fazendas, mandas- 2.6. A riqueza do ouro em Goiás se logo queimar e destruir a dita planta de canna. Pelo que mando nenhuma pessoa de qualquer gráo e condição que seja, não tenha em suas roças e fazendas a referida planta de canna, e os que tiverem, a destruirão e queimarão logo, para que lhes concedo o tempo de ses- senta dias, com a comunicação de que não fazendo, denunciando-se que a tem, provando-se, pagará a pessoa, que comprehendida cem oita- vas de ouro, que a aplicarão para as obras da matriz d'espezas da jus- A epoca do ouro em for intensa e breve. Após tiça, e outrossim será preso na cadeia, donde estará 30 dias. E para 50 anos verificou-se a decadência rápida e completa da mine- que ninguém possa allegar ignorância, etc., 13 de junho de 1732. ração. Por outro lado, só se explorou o ouro de aluvião e Bartolomeu Bueno da Silva". a técnica empregada foi rudimentar. 14 15</p><p>2.1 Goiás den'ro do sistema colonial cie de colônia dentro da colônia: um território dependente camente dos produtores e dos comerciantes da Bahia, do Rio e de O sistema colonial fundava-se no que hoje se chama "pacto São Paulo. colonial". Era o pacto colonial uma espécie de pacto implícito entre a metrópole neste caso Portugal e suas colônias neste caso o Brasil em que ambas as partes davam e recebiam numa troca de 4 As capitanias de Minas foram durante o século benefícios que se supunha vantajosa para todos. A metrópole dava, XVIII Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Era in- em primeiro lugar, proteção; a ela correspondia o dever de manter a teresse do governo dentro da mentalidade mer- ordem interna da colônia e defendê-la contra os inimigos exteriores. cantilista de especialização para a exportação, con- centrar todo esforço na produção do ouro; com essa A metrópole cuidava também de integrar a colônia dentro de uma or- finalidade proibia ou dificultava outros ramos de dem econômica nacional e internacional, dirigindo a produção e co- produção. Poderíamos citar como exemplo a proi- mercializando-a. bição de engenhos de açúcar em Goiás. Ver do- Cumento página 14. A colônia, em troca, devia integrar-se como uma parte subor- dinada no sistema político-econômico da metrópole. Dentro da prá- tica mercantilista, então vigente, isto significava que a colônia se es- Isto nos explica o pouco desenvolvimento da lavoura e da pe- pecializava em produzir "matérias primas" (produtos minerais ou agrí- cuária em Goiás, durante os cinquenta primeiros anos; todos os esfor- colas principalmente de tipo tropical) e os exportava para a de capital e de mão de obra deveriam concentrar-se na minera- que cuidava de sua distribuição para o mercado mundial. Ao mesmo ção. Tal sistema não se devia exclusivamente aos desejos e à política tempo, atuava como mercado para os produtos industrializados da me- dos dirigentes era também decorrente da mentalidade do povo. Não trópole, ou de outras nações por seu intermédio. eram unicamente os governantes e funcionários, os grandes comercian- Este sistema esteve vigente no Brasil plenamente até a abertu- tes favorecidos com os monopólios, os militares dedicados ao engran- ra dos portos em tempos de D. João VI. Brasil até o século XVII, decimento territorial do estado, os que tinham uma forma de pensar produzia bens tropicais pau brasil, açúcar, fumo, algodão etc., que de acordo com os critérios e valores mercantilistas; esta forma de pen- exportava por meio de Importava produtos portugueses, co- sar tinha-se estendido a todas as outras classes sociais. mo vinho, azeite e produtos manufaturados portugueses ou importa- Aqui, em Goiás, esta mentalidade se traduziu na supervalori- dos de Portugal. zação do "mineiro" e na pouca estima das outras profissões, especial- Ao descobrir-se o ouro no Brasil nos últimos anos do século mente do "roceiro". Mineiro naquele tempo significava, não como XVII, este produto passou, imediatamente, a ocupar o primeiro lugar hoje, aquele que trabalha na mina, mas o proprietário de lavras e es- na estimação das autoridades e do povo. Isto se devia, em grande par- cravos que as trabalhassem, assim como roceiro não significava o que te à mentalidade mercantilista, que durante algum tempo, identificou trabalhava na roça, mas o proprietário de terras e escravos dedicados a riqueza com a posse dos metais preciosos. à lavoura, algo assim como o fazendeiro de hoje. Por isso, dentro do Brasil se organizou logo uma hierarquia Ser mineiro, era a profissão mais honrosa, significava o mais da produção: os territórios de minas deviam dedicar-se exclusivamente alto status social. Todos queriam ser mineiros e ninguém queria ser ou quase exclusivamente à produção de ouro, sem desviar es- chamado de roceiro, profissão desprezada. Mesmo depois de muitos forços na produção de outros bens, que poderiam importar. anos da decadência da mineração, esta continuava a ser a forma de Os alimentos e todas as outras coisas necessárias para a vida pensar do povo em Isto explica que fora da mineração não se vinham das capitanias da costa. As minas eram, assim, uma espé- desenvolvessem outras formas importantes de economia durante o sé- culo XVIII, e que só fossem ocupadas as áreas 16 Instituto de de Educação Educação de de Goiás Golás 17</p><p>2.2. A mineração em Goiás ríamos, em forma mais impessoal, que pertencem ao estado. Mas como o rei não tinha intenção de fazer a exploração por si mesmo, ce- Dois tipos de jazidas auríferas foram exploradas no Brasil: dia aos particulares o direito de exploração mediante o pagamento do 1) as jazidas sedimentares do ouro de aluvião e 2) as formações ro- um imposto, que correspondia à quinta parte da produção líquida chosas com veios auríferos na pedra. Cada tipo de jazida dava lugar Isso é o que se chamava "o a várias formas diferentes de mineração. 1) As jazidas sedimentares davam lugar ao que se chamava 5 Os impostos no Brasil Colonial eram sufocantes. Muitas vezes representaram desestímulos ao traba- "mineração de cascalho". o ouro, levado pelas chuvas, fica deposita- lho. Falemos dos dízimos recolhidos no Brasil du- do no cascalho, no fundo das correntes de água: córregos e rios, ou rante o século XVIII. Podiam ser reais, mistos, ou antigos rios. trabalho do mineiro consiste em arrancar o cascalho pessoais. Dízimos reais compreendiam a décima par- e peneirá-lo, para que o ouro, mais pesado que a areia, fique deposita- te ou o seu equivalente em ouro dos produtos do no fundo. Para retirar o cascalho aurífero, às vezes recoberto por agrícolas, tais como mandioca, milho, arroz, açúcar, tabaco, vegetais e frutas. Incluíam, também, pelo outras camadas sedimentares, costumava-se cercar e secar uma parte menos teoricamente, a décima parte de outros pro- do rio, ou desviar a corrente, ou, em formas mais elementares, retirar dutos da terra, tal como madeira, fosse de cresci- o cascalho do fundo da água. Maior era a dificuldade quando o cas- mento espontâneo, fosse cultivada. Dízimos mistos calho se encontrava acima do nível da água; às vezes até 12-14 metros. eram os recolhidos em gado e aves, colmeias, mel, Havia, então, que trazer água de longe, até de várias léguas, pois sem cera, queijo e materiais de construção, bem como sobre os produtos dos engenhos e destilarias de uma corrente de água era impossível a operação de retirada e lavagem. aguardente, fornos de pão etc. Dízimos pessoais A operação lavagem fazia-se ou simplesmente na mão, agi- eram a décima parte do lucro líquido de qualquer tando o cascalho na bateia, ou em recipientes com água corrente, cha- cargo, comércio ou ofício. Esses não eram coletados mados "canoas". pela Coroa, mas pagos diretamente ao clero, habi- tualmente na forma de conhenças, por ocasião da Este tipo de mineração, a mais simples, foi quase a única pra- Páscoa. Rei de Portugal recolhia dízimos colo- ticada em E sempre de uma forma empírica e rudimentar, pois niais em sua qualidade de Grão-Mestre da Ordem de Cristo, que era, em teoria, responsável pela ma- nunca foram contratados técnicos em geologia, nem em mineração. nutenção das igrejas de ultramar. Mas, a essa altu- 2) A "mineração de morro", como era chamada a mineração ra, tal privilégio se tornara, realmente, uma regalia na rocha primitiva, era muito mais cara, e técnicamente mais difícil. da Coroa lusitana, e os dízimos eram chamados dí- zimos reais. Praticava-se de duas formas: ou por meio de túneis e galerias "mineração de mina" ou cortando a montanha perpendicular- No Brasil, sempre que o rei concedia licença às bandeiras para mente "talho o talho aberto, sobretudo, requeria um buscar ouro ou prata- ou outros metais exigia que pagassem o grande investimento. Bastante usado em Minas, aqui foi quase total- quinto, segundo a lei do reino. mente desconhecido. Faltavam jazidas importantes, ou capitais, e or- dinariamente, as duas coisas direito do rei ao quinto ninguém discutia, embora muitos mineiros pensassem que não estavam obrigados a pagar os impostos 2.3. A Política Fiscal nas Minas Contrabando e procurassem evitá-los mediante o contrabando contrabando consistia em passar fraudulentamente o ouro Já desde tempos muito antigos, no direito português, conside- para fora da capitania ou do país sem pagar impostos. Sahe-se rava-se que todos os produtos minerais eram propriedade do rei, como que o contrabando sempre foi bastante alto, embora não se possa deter- senhor do reino. É o que se chamava um "direito senhorial". Hoje di- minar a cifra que alcançou. Em Goiás parece que foi mais praticado 18 19</p><p>no norte que no sul, possivelmente por ser menor a vigilância naquelas Tampouco são completos os registros do quinto; entre 1726 e regiões afastadas. 1751 faltam bastante anos. Mas suprindo os anos que faltam pelos dados conhecidos, podemos afirmar que o quinto, nos cem anos que 2.4 quinto em Goiás vão até a independência, subiu aproximadamente a 20.000 Kg. sen- do, portanto, a produção declarada de 100.000 Kg. De duas formas foi cobrado o imposto do quinto em Que significa esta quantidade? a "capitação" e o quinto, propriamente dito. Para interpretá-la, devemos ter em conta, em primeiro lugar, A capitação foi uma forma de cobrar o quinto instituída preci- que a produção não foi uniforme. Foi subindo constantemente desde samente por temor ao contrabando. As autoridades pensaram que era o descobrimento até 1753, ano mais elevado com uma produção de mais fácil ocultar o ouro que os escravos, e determinaram que em 3.060 Kg. Depois decaiu lentamente até 1778 (produção: 1.090), a vez de pagar-se pelo ouro extraído, se pagaria o imposto pelo número partir desta data a decadência cada vez é mais acentuada (425 Kg em de escravos; o dono do escravo pagaria uma quantidade fixa por es- 1800) até quase desaparecer (20 Kg. em 1822). cravo que tivesse, fosse qual fosse sua ocupação e Este sistema de cobrança do quinto esteve em vigor 16 anos, de marcos 1736-51; depois foi abolido pois os mineiros reclamavam que era in- 2.600 justo que todos pagassem o mesmo: o dono de uma lavra muito rica, 2.400 o QUINTO 1752 1822 = em Marcos em que o rendimento do escravo era alto, e o que trabalhava uma data 2.200 pobre ou meio esgotada, que mal dava para pagar o custo do escravo. 2.000 1.800 Voltou-se, então, ao pagamento direto do quinto. ouro em 1.600 pó retirado das minas, corria como moeda na Capitania. Tudo se 1.400 comprava ou vendia não com moeda cunhada, mas com ouro em pó 1.200 pesado em pequenas balanças. Mas quando o mineiro ou comerciante 1.000 queria levar seu ouro para fora da Capitania, tinha que quintá-lo: leva- 800 va-se o ouro para a Casa de Fundição, onde se retirava o quinto 600 para o rei e o resto era devolvido ao proprietário, fundido em barras 400 com um carimbo e uma guia para ser exportado. 200 0 52 55 60 65 70 75 80 85 90 951800 05 10 15 2022 6 Havia duas Casas de Fundição na Capitania de Goiás: uma em Vila Boa, atendendo à produção do Cartografia: Antônio T. Neto sul e outra em S. Félix para atender o norte. Mais grave era a decadência da produtividade, isto é, da produ- ção de ouro por homem dedicado à mineração; a diminuição da pro- 2.5. A produção do ouro em Goiás dutividade iniciou-se já nos primeiros anos, mas começou a tornar-se um problema grave depois de 1750; nos dez primeiros anos (1726- Quanto ouro produziram as minas de Não é possível 1735), um escravo podia produzir até perto de 400 gramas de ouro dizê-lo com certeza, pois não se conservam registros das lavras nem por ano; nos 15 anos seguintes (1736-1750) já produzia menos de de sua produção. Contudo, podemos deduzi-lo do ouro declarado pe- 300; a partir de 1750 não chegava a 200, e mais tarde, em plena de- los registros do quinto. Para ter o total deveríamos acrescentar o ouro cadência, a produção era semelhante à dos garimpeiros de hoje: pou- do contrabando que não sabemos quanto é. mais de 100 gramas. 20 21</p><p>Esta curva da produtividade nos explica que a mineração foi A partir de 1775 o rendimento era já tão baixo que não dava um negócio próspero até 1750, um empreendimento arriscado, mas para pagar a importação de novos escravos. A mineração deixava de ainda rendoso entre 1750 e 1770, um negócio ruinoso depois desta da- ser um bom negócio. Por volta de 1800, escrevia um autor que um ta. homem trabalhando na lavoura produziria em Goiás 40.000 reis por ano, no cultivo de cana, 70.000 e na mineração só 30.000. GRAMAS 2.6. A riqueza do ouro em Goiás 400 Produção de ouro Agora podemos repetir a pergunta: foi grande a riqueza de ouro por escravo-ano em Goiás? 300 Não podemos comparar a produção das épocas antigas com a de hoje, pois a técnica tem multiplicado muitas vezes a produção e a produtividade, (como ponto de referência, poderíamos indicar que 200 a África do Sul, principal produtor de ouro extrai mais de 500 tone- ladas de ouro por ano). Podemos, contudo, tentar a comparação com outras quantida- 100 des da época. Goiás foi o segundo produtor de ouro do Brasil, bastante in- ferior a Minas aproximadamente 1/6 e um pouco superior a Mato Grosso talvez 10/7. 00 1726-35 1736-51 1752-78 1779-1828 Mais interessante é saber o que significou o ouro em riqueza Cartografia - A.T. Neto para a população. A produção e a renda "per capita" não foram mui- to elevadas durante o período da mineração. o ouro parecia uma grande riqueza que enganou aos contem- Por isso, nos primeiros anos foi grande o número de mineiros mas tendo em conta a população e os capitais empregados, que vieram a Goiás trazendo seus escravos. Os preços de tudo eram os rendimentos não eram grandes. Uma comparação com a produção extraordinariamente altos, pois as minas não produziam nada e as dis- de açúcar nos ensinará isto melhor. tâncias do Rio, da Bahia e de São Paulo eram tão grandes para as coi- sas importadas e os juros cobrados pelos comerciantes altíssimos; o mesmo acontecia com os escravos, pois, dada sua grande procura, seu 7 Em 1640, o Brasil tinha aproximadamente, 170.000 preço se tinha multiplicado por oito desde o começo da mineração. habitantes, que conseguiam produzir e exportar 3,8 o rendimento do escravo, contudo, era tão alto que dava para pagar milhões de libras ouro. Em 1740 havia nas minas estes preços e ainda ficar bastante lucro sobrante. mais ou menos 450.000 habitantes, que produziam e exportavam ouro no valor de 2,2 milhões de libras. Depois de 1750, embora os preços já começassem a diminuir, A produção por habitante na economia do açúcar como o rendimento do escravo tinha decaído, a mineração podia ser era de 22 libras. e no tempo do ouro de 5 libras, já um negócio arriscado. Continuava a importação de escravos, mas isto é, quatro vezes menos. se o dono não administrasse corretamente não poderia pagar os prazos Vemos por esta comparação que a época do ouro e os juros da compra dos escravos e seus bens seriam penhorados e não foi tão rica, nem a produção tão grande como mais tarde Era o que acontecia com frequência. às vezes se pensa. 22 23</p><p>Podemos perguntar: esta riqueza para onde foi, que proveito O fato de não ficar aqui não significa que não contribuísse para trouxe para o Brasil e para o progresso do país. século XVIII, o século do ouro, foi o século da grande expansão territorial do Brasil Brasil, que até então estava Pouco deste ouro ficou no Brasil, nada ficou em Goiás Em limitado a uma pequena faixa na costa, ocupou então enormes terri- virtude do "pacto colonial", como antes explicamos, os produtos do tórios que formam hoje as suas fronteiras: no norte a Amazônia, no Brasil iam para Portugal que os vendia para o exterior; Portugal, em centro, Minas, Goiás e Mato Grosso, no sul, Paraná, Santa Catarina troca, enviava para o Brasil homens, administradores, exércitos, pro- e Rio Grande do Sul. Foi o ouro, em grande parte, o que permitiu os dutos comerciais, sobretudo produtos manufaturados. o ouro do Bra- gastos expansão. sil, em sua maior parte, saía de Portugal para outros países especial- Ao mesmo tempo, aumentou extraordinariamente a sua po- mente Inglaterra, para pagar esses produtos manufaturados. pulação. Entre 1700 e 1800, a população aumentou 9,4 vezes, pas- Então este ouro não enriqueceu o Brasil e sou de 350.000 para 3.300.000 habitantes. Foi o ouro que pagou este aumento. Em em 1800, além dos antigos índios, havia mais de 50.000 hab., havia cidades construídas, estradas e caminhos, fazendas em produção. capital que pagou tudo isto foi o ouro, e isto é o que ficou para Goiás da época do ouro. DOCUMENTO A sede insaciável do ouro, estimulou a tantos a deixarem suas terras e a meterem-se por caminhos tão ásperos, como são das minas, que dificultosamente se poderá contar o número de pessoas que atual- mente lá estão Cada ano, vêm nas frotas quantidades de portugueses e de es- trangeiros, para passarem às minas. Das cidades, vilas e sertões do Brasil, vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a codição de pessoa ho- mens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos, religiosos e diversos institutos, muitos dos quais não tem no Brasil convento nem casa. Antonil "Cultura e Opulência do Brasil." Igreja de Pilar com o famoso sino fundido em bronze e ouro, uma das "4 maravilhas de É o único que se conserva da passada grandeza de Pilar. 25 24</p><p>3.1. Quadro administrativo: a Capitania de Goiás Goiás fora descoberto por paulistas e era um terreno teorica- mente pertencente à Capitania de São Paulo. Por isso, de início, foi considerado um território de minas dentro da Capitania de São Paulo. capitão general de São Paulo era a suprema autoridade, mas como delegado seu governava em Vila Boa um superintendente das Minas. Nos primeiros anos este superintendente foi Bartolomeu Bueno, o 3. A SOCIEDADE GOIANA DA DO OURO Anhanguera. Mais tarde, por causa de certas desordens, foi substituí- do pelo ouvidor. Depois de vinte anos, Goiás tinha crescido tanto, em população e em importância, que não podia continuar sendo governado à distân- cia por São Paulo. A Corte portuguesa decidiu tornar Goiás inde- pendente de São Paulo, elevando-o à categoria de Capitania. 3.1. Quadro Administrativo: A Capitania de Goiás Em 1749 chegou a Vila Boa o primeiro governador e capitão 3.2. A População de Goiás general, Conde dos Arcos. território goiano passou então a ser de- nominado Capitania de Goiás, título que conservaria até a indepen- 3.3. A Sociedade de Goiás durante a colônia dência, quando se tornou Província. 3.4. A vida do escravo Toda capitania do Brasil tinha um governo próprio e inde- 3.5. A sociedade mestiça pendente, ligado diretamente ao rei e aos organismos centrais de Lis- boa, especialmente ao Conselho 3.6. Classes dirigentes A principal era o governador, responsável pela ad- 3.7. Os índios ministração e pela aplicação das leis. Comandava o exército, com- posto de soldados profissionais de cavalaria os famosos dragões e pedestres. A justiça estava a cargo do ouvidor, independente nesta parte do próprio governador. Ele julgava os recursos e vigiava para a elei- pertenceu até 1749 à capitania de São A ção dos juízes eleitos pelo povo. partir desta data, tornou-se capitania independente. A parte da arrecadação de impostos correspondia ao Intenden- te, também com bastante autonomia No aspecto social, a distinção fundamental é entre li- Governador e o Intendente tinham certo número de auxilia- vres e escravos. No da cclonização das minas, os escra- res, mas estes eram, em realidade, muito poucos e não havia um corpo vos predominaram em com a decadência da minera- de funcionários profissionais como hoje. A administração era bastante ção os escravos passaram a ser menos que os livres. simples, e não se tinha desenvolvido, portanto, a burocracia. Os es- A população, contudo, continuou composta por negros crivães, oficiais de justiça, chefes de polícia etc., eram pessoas sem qualificação especial e sem salário Ganhavam uma quantidade e mulatos na sua maioria. fixa por serviço prestado. 26 27</p><p>A partir desta data, começa de novo, uma tendência ascensio- nal da população: parte pelo crescimento vegetativo, e parte também 8 Se excluirmos os 100 soldados e oficiais da força pela migração pequena, mas constante, dos que vinham dedicar-se à pública, não deviam chegar a uma dúzia os "filhos criação de gado, nos grandes espaços vazios de da folha", como eram chamados os funcionários, com ordenado público; tão reduzida era ainda a 3.3. A sociedade em Goiás durante a colônia administração pública. Um dos aspectos funda- mentais da evolução histórica nos últimos tempos É sabido que a sociedade colonial, como todas as sociedades é desenvolvimento das funções e do volume desta administração. do "Antigo Regime", era uma sociedade que não se fundava no prin- cípio da igualdade de todos seus membros. Era uma sociedade com características estamentais, com direitos diferentes para os diversos grupos sociais. As diferenças legais pois as diferenças reais con- 3.2. A população de Goiás tinuam hoje tão grandes quanto antes começaram a desaparecer de- pois da revolução francesa. Em todo descobrimento de ouro numa terra nova, os primeiros Mais importante em e no Brasil, é a diferença funda- anos são de um dinamismo populacional extraordinário: atraídas pela mental entre livres e miragem do ouro, acorrem grandes multidões, que percorrem, vascu- lham e povoam os desertos. A primeira informação precisa que temos sobre a população de Goiás são os dados da capitação de 1736. Nesta data, dez anos, por- tanto, depois do início da mineração, havia em Goiás mais de 10.000 escravos adultos. Qual seria o total da população? Menos de 20.000, pois os escravos deviam constituir mais da metade da população. Sécu- lo e meio de bandeiras não tinham conseguido senão diminuir a popu- lação indígena de Goiás. Os dez primeiros anos de mineração instala- ram em Goiás quase 20.000 pessoas que, abriram caminhos, fundaram cidades, colocando em atividade grande parte do território. Em 1750, ao tornar-se Goiás capitania, os habitantes deviam ser pouco menos de 40.000. A população tinha mais que dobrado nestes 25 anos. Nos trinta anos seguintes, a população continuou aumentando, embora já a um ritmo inferior: em 1783 havia em Goiás quase 60.000 habitantes; um aumento de mais de Entre esta data e 1804, não se conservam dados precisos, mas parece que a decadência da mineração se traduziu numa diminuição da população. Não se importavam mais escravos para suprir as mor- tes, bastantes brancos e livres emigravam para outros territórios. censo de 1804 deu 50.000 habitantes para Uma diminuição de quase 28 29</p><p>A economia açucareira, que dominara os dois primeiros sécu- 1) A diminuição ou estancamento na importação de escravos. los da colonização do Brasil, foi uma economia estruturada sobre o Em Goiás deixaram de importar-se escravos a partir de 1775, pois a trabalho escravo; consequentemente a sociedade do açúcar apresenta- decadência em produção e produtividade das minas fazia com que os va como uma de suas estruturas fundamentais a oposição livre tivessem perdido todo crédito junto às companhias importa- escravo. doras de escravos. Um informe dos primeiros anos do século XIX atri- buía a decadência de Goiás à falta do braço escravo, e propunha como A mineração continuou a basear-se no trabalho escravo. solução que o governo importasse os escravos e os vendesse a preço de Os escravos, pretos importados nesta qualidade da África, e custo aos mineiros, para pagar num prazo de 6 anos. Medidas pare- seus descendentes, constituiram de início, a maior parte da população cidas foram apresentadas por alguns dos governadores. Mas nunca das minas. Com a decadência da mineração, esta situação foi se mo- passaram do papel, nem poderiam passar; o governo carecia de dinhci- dificando, até que no último período da mineração o número abso- ro e de crédito tanto como os próprios súditos. luto e, sobretudo relativo, de escravos tinha diminuído bastante. Com Não entrando novos escravos, e sendo a taxa de natalidade en- isto a escravatura perdeu grande parte de sua importância, como ins- tre eles bastante inferior à do resto da população, é lógico que a longo tituição básica da sociedade. prazo a proporção da população escrava tendia a diminuir Em 1736 os escravos eram aproximadamente 12.000. Não 2) A diminuição da produtividade do trabalho escravo. Ao é possível, por falta de dados, determinar a proporção exata no total diminuir a produtividade, chegava um momento em que o trabalho da população. Contudo, pode-se afirmar que não devia ser inferior escravo quase não pagava os próprios custos, e resultava mais barato, aos 60 ou e sobretudo mais seguro, o trabalho assalariado ou semi-assalariado. Em 1750 os escravos já alcançavam o número de 20.000; a Não haveria que carregar assim com o ônus dos escravos doentes, in- proporção devia continuar a mesma, ou talvez um pouco inferior. válidos e velhos. Esta é uma das razões que explicam o aumento ex- Em 1804 primeiro recenseamento que conservamos o traordinário no número de número de escravos continuou o mesmo, mas a era nota- 3) A compra da liberdade. regime de trabalho do escravo velmente mais baixa: os livres passavam de 30.000, sendo os escra- nas minas era realmente duro e desumano, mas tinha algumas com- vos, portanto, apenas 40% do total. No novo recenseamento de 1823, pensações com respeito ao escravo destinado a outras ocupações. o a tendência à diminuição aparecia momentaneamente estabilizada, escravo podia trabalhar para si em dias feriados e em horas extra. As- pois os escravos eram 24.000 num total de 61.000 habitantes sim mediante este trabalho, ao qual se acrescentavam pequenos rou- (39,3%). Em Minas, apesar da decadência da mineração não ser lá bos, podia reunir o dinheiro para comprar sua liberdade. Direito que tão completa, encontrava-se mais avançado este processo de diminui- a lei lhe garantia, o que não acontecia em outros países. ção relativa da população escrava. Com efeito, os escravos que em 1786 representavam 43% da população (190.000, entre 396.286), 4) A miscigenação. De Minas escrevia Basílio Teixeira: "Os em 1823 já tinham descido a apenas 33,5% (215.000 entre 640.000 casamentos e mais ainda as mancebias dos proprietários com mulhe- haibtantes). Mais adiantado ia o processo na terceira capitania de mi- res pretas e mulatas tem feito mais de três partes de gente nas, Mato Grosso, onde os escravos em 1823 eram só 20% da Pelos registros dos batizados, podemos constatar como esta situação população (6.000 em 30.000 habitantes). era parecida em Goiás. Estes filhos de escrava com branco às ve- zes recebiam a liberdade no momento do batizado, outros ficavam A que se devia esta tendência à diminuição do número relativo escravos toda a vida. de escravos nos territórios de mineração? A várias causas, decorren- tes todas da própria decadência da mineração. Podemos analisar 5) tipo de trabalho. controle rigoroso do trabalho escra- como mais importantes: vo, próprio à mineração e à lavoura de monocultura, era praticamente REG.: 30 31 GO:</p><p>impossível na pecuária extensiva. Por isso ao passar-se em Goiás da tação de 1745, os negros forros, que pagaram capitação, foram 120, mineração para a criação de gado, como forma econômica preponde- quando o número de escravos chagava quase a 11.000; pouco mais rante, a escravatura estava fadada a desaparecer por si mesma. de No recenseamento de 1804, os negros livres eram em nú- mero de 7.936,28% do total dos pretos. 3.4. A vida do escravo Maior era, ainda, a progressão de número dos mulatos. A au- sência de mulheres brancas nas minas foi a determinante de uma mes- A vida do escravo nas minas era extraordinariamente dura tiçagem, em grande escala, entre branco e preto, até então desconhe- Em primeiro lugar todos os males do garimpo: trabalho esgotador, má cida no Brasil Em 1804, os mulatos em Goiás eram 15.452, mais alimentação (os escravos alimentavam-se quase que exclusivamente de dos 50% da população livre. Pretos livres e mulatos constituiam milho), as graves doenças (reumatismo, pelo contínuo trabalho com os 77% da população livre. pés na água, doenças de espinha e de rins, pelo trabalho curvado com o sol nas costas, enfermidades venéreas e verminoses, A isto há que acrescentar os males da falta de liberdade: arbitrariedades, casti- POPULAÇÃO DE 1804 gos. Eram considerados nais como cousas que como pessoas. Brancos 7131, Pardos 16531, Pretos 7943, Escravos 19159 9 Em do árduo trabalho e da escassez de vantagens que habitualmente lhes cabiam per sorte escreve Boxer a vida de um escravo trabalhador era, quase sempre, sórdida, brutal e pardos e curta. Um missionário capuchinho, italiano, que pretos 85,95% visitou a Bahia em 1682, ouviu contar que tra- balho deles é tão pesado e seu sustento tão peque- no que se pode dizer terem vivido muito, quando sete anos". Martinho de Mendonça, de- pois de fazer exaustivas investigações em Minas brancos 14,05% Gerais, no ano de 1734, declarou que os senhores não normalmente, conseguir mais de doze anos de trabalho dos escravos que compra- vam. Com a evolução da sociedade e da economia, estas circunstân- cias foram se modificando profundamente. A situação do escravo na livres 62,26% lavoura doméstica não devia diferir notavelmente da dos empregados das fazendas dos dias de hoje. Com maior razão poderia afirmar-se isto do vaqueiro. 3.5. A sociedade mestiça escravos 37,74% Ao mesmo tempo que diminuía o número de escravos, aumen- tava, como é lógico, o número de pretos livres ou "forros". Na 32 33</p><p>DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO NA CAPITANIA DE - 1804 DISTRIBUIÇÃO DA HOM. MUL. HOM. MUL. HOM. MUL. HOM. MUL. HOM. MUL. HOM. MUL. HOM. MUL POPULAÇÃO JULGADOS BR. BR. BR. BR. PR. PR. PR. PR. PAR. PAR. PAR. PAR. ESCR. ESCR. TOTAL PORCENT. CAS. CAS. SOL. SOL. CAS. CAS. SOL. SOL. CAS. CAS. SOL. SOL. VILA BOA 109 84 504 525 25 28 388 571 118 137 1090 1466 2637 1795 9477 18,67 MEIA PONTE 124 120 462 562 57 40 248 364 184 200 734 796 1356 926 6173 12,16 40 40 214 236 18 19 174 282 110 200 493 796 768 496 3886 7,66 SANTA CRUZ 122 113 344 339 17 21 71 110 79 85 324 322 324 380 2651 5,22 DESEMBOQUE 200 209 410 384 2 2 30 28 85 84 161 118 413 247 2373 4,67 PILAR 33 33 173 126 32 40 290 470 48 49 365 395 1307 538 3899 7,67 8 14 40 160 15 19 153 256 268 26 787 222 422 212 2602 5,13 TRAIRAS 49 14 149 160 114 108 428 650 268 250 787 802 1624 1118 6521 12,85 CAVALCANTE 66 58 128 86 68 67 183 198 155 178 418 383 753 456 3197 6,30 S. FÉLIX 10 10 29 29 25 26 142 196 60 60 243 310 331 310 1781 3,51 ARRAIAS 42 42 32 23 32 42 92 172 154 154 184 213 232 187 1601 3,15 BARRA DO PALMA 46 46 51 56 44 43 235 245 94 95 274 181 304 280 1994 3,93 NATIVIDADE 37 13 74 72 72 91 38 433 88 94 421 410 295 604 2742 5,40 PORTO REAL 18 19 32 12 25 30 170 204 50 26 182 255 625 219 1867 3,68 TOTAL 904 815 2642 2770 546 576 2642 4179 1761 1638 6463 6669 1391 7768 50764 100,0 PORCENTAGEM 1,78 1,61 5,20 5,46 1,08 1,13 5,20 8,23 3,47 3,23 12,73 13,14 22,44 15,30 100,0</p><p>11 Um bando de 1749 começava com estas palavras: decadência, tornaram-se raros os que tinham 12 escravos. Ao desco- "Sendo-me presentes os grandes insultos e desor- brir-se em Anicuns, em 1809, as últimas jazidas de grande riqueza, dens que nesta Capitania cometem os negros e mulatos cativos, como também os forros..." E não foi possível completar o número de ações da Companhia, que uma lei de 1731: "Atendendo aos atrozes crimes devia explorá-las, pois a ação consistia em doze escravos. Houve que que em todas essas Minas cometem os negros, completar o número com trabalhadores assalariados. bastardos, mulatos, carijós e fui servido A mineração não formou uma classe média com raízes autô- mandar que esta casta de gente fosse sentencia- nomas. Embora aumentasse extraordinariamente o número dos ho- da mens "legalmente" livres. Na nova reestruturação da sociedade, con- sequente da decadência das minas, o poder econômico, e consequen- temente o poder político e a inversa também é verdadeira ficou 3.6 Classes Dirigentes concentrado nas poucas famílias, que sobreviveram à ruína econômica. Mesmo entre os brancos a pobreza era geral, mas ser branco Os brancos foram sempre uma minoria, mas com a decadên- continuava sendo uma honra e um privilégio. "O branco, mesmo quan- cia da mineração, esta minoria foi-se tornando cada vez mais exígua. do pobre, escrevia Eschwege na época da independência, não move Ao acentuar-se a decadência, muitas famílias brancas migraram para uma palha, pois até na vadiagem encontra com que viver. As mais ve- outras regiões. No norte, sobretudo, segundo testemunhos da época, zes, limita-se a possuir um escravo, que se encarrega de sustentá-lo". havia lugares onde não se encontrava um só branco. Em 1804, os brancos constituiam pouco menos de 14% da população. 3.7. Os índios Esta minoria, contudo, como a antiga nobreza, concentrava to- do o poder e quase toda a riqueza. Os cargos administrativos supe- Ao tempo de descoberta, eram numerosas as tribos de índios riores eram de nomeação da Corte. Para ser eleito ou escolhido para em Goiás, cobrindo todo o seu território. Silva e Souza enumera em os cargos administrativos locais (vereador, juiz ordinário, etc.) era 1809 vinte tribos, e certamente não estão incluídas todas. Podemos necessário pertencer ao número dos "homens bons", formado das fa- citar entre as mais importantes: Caiapó, Xavante, Crixá, Araés; mílias tradicionais. Xerente, Carajá, Acroa Durante a épcca da mineração as relações entre índios e minei- ros foram exclusivamente guerreiras e de mútuo Ao minciro, sempre apressado e inquieto, faltavam-lhe tempo 12 Aqui se encontram os germes do futuro coronelis- mo, e já, de fato, segundo governador, Conde e paciência para tratar de atrair-se o índio mediante uma política pací- de São Miguel, queixava-se de que os juízes lo- fica. À invasão de seus territórios e às perseguições dos do cais eleitos entre os "homens bons" eram mato" respondiam os índios com contínuas represálias. verdadeiros donos da justiça, pois "contra os No sul os caiapó moveram guerra contínua durante cinquenta quais não há quem jure pelo medo da sujeita con- anos, chegando muitas vezes às portas de Vila Boa. Foram, em parte, veniência, ou se jura falso pelo temor da vingan- exterminados por Antônio Pires dos Campos com 500 bororos trazidos ça" de Mato Grosso, e por seu sucessor João de Godoy Em 1780 foram aldeados chegando asim a paz ao sul da Capitania. A trajetória dos Acroá no norte foi semelhante. Habitavam a Os dias de apogeu da mineração breves ser rico, região de Arraias, Natividade, São Domingos. Combatidos por Wen- "mineiro poderoso" era possuir 250 escravos ou mais. Não faltaram ceslao Gomes da Silva, foram posteriormente aldeados em Duro, atual mineiros que em Goiás possuíam este número de escravos. Com a Dianópolis. 36 37</p><p>Mas no norte, com a decadência, a atividade hostil dos índios 13 Aldear os índios consistia em reuni-los em povoa- recrudesceu, exterminando fazendas e até arraiais florescentes como ções fixas, chamadas aldeias, onde, sob super- visão da uma autoridade leiga ou religiosa, deviam Palma. Especialmente na região dos grandes rios, onde os índios se re- cultivar o solo e aprender a religião cristã. Em fugiaram, as hostilidades continuariam durante muitos anos. 1754, deu D. Marcos regimento a estas aldeias, submetendo os índios a um rigoroso regime mili- tar, que gerou os piores resultados. D Gastaram-se enorme somas na construção e manutenção das al- deias, mais de 200 contos, quando o orçamento total da Capitania não passava de 50. Mas se as intenções do governo eram humanas e generosas, os resultados foram bastantes pobres. As dificuldades eram enormes, co- mo o experimentaram posteriormente o Serviço de Proteção ao Indio e atualmente a Funai. Não havia pessoal especializado, sobretudo de- pois que os missionários foram expulsos. E faltava a cooperação da população, que via no índio um inimigo ou um "bicho". Por isso, durante a época da mineração, o índio permaneceu à margem, sob todos os aspectos, da sociedade que se instalava em DOCUMENTO "O capelão de Jaraguá era mulato: já prestei homenagens a sua cortesia; porém ele possuía algo desse servilismo em que a socie- dade brasileira mantem os homens de sangue mestiço (1819), o que A política das autoridades com os índios é totalmente oposta esses não esquecem jamais quando estão em presença de brancos. a esta guerra de extermínio. As instruções dadas aos governadores Essa inferioridade não existe realmente, se se tomar por objeto ordenavam: "tentem primeiro todos os meios de suavidade e persuação de comparação a inteligência de uns e outros; talvez mesmo se possa para reduzir os índios bravos a viver civilizados, e não se procurarem afirmar que os mulatos têm maior vivacidade de espírito e facilidade domar por armas a Divina Providência não permitiu estender o em aprender do que os homens da raça caucásica; mas compartilham poder desta Monarquia nessas vastas regiões para destruir, ou reduzir da falta de caráter inerente à raça africana, e filhos ou netos de escra- à escravidão os naturais habitantes delas, mas para os trazer ao co- vos, possuem sentimentos menos elevados do que os brancos, sobre os nhecimento da religião, e para mudar seus bárbaros costumes em ou- quaes, todavia, os vícios da escravidão não reagem tros humanos, e mais úteis para sua própria Saint Hilaire "Viagem às Nascentes do Rio São Francisco e pela Província de Goiás." Os governadores procuraram dar cumprimento a estas ordens, mediante o aldeamento dos índios. 39 38</p><p>4.1. Tentativas governamentais para o progresso de Goiás Com a decadência ou desaparecimento do ouro, o governo português, que antes procurava canalizar toda a mão de obra da Ca- pitania para as minas, passou através das suas autoridades a incenti- var e promover a agricultura em Goiás. Vários foram, porém, os obstáculos que impediram seu desen- volvimento: 4. TRANSIÇÃO DA SOCIEDADE MINERADORA À / - legislação fiscal - os dízimos, temidos pelos agriculto- SOCIEDADE PASTORIL res, tanto na forma de avaliação, como na forma de pagamento; desprezo dos mineiros pelo trabalho agrícola, muito pouco rentável; ausência de mercado consumidor; dificuldade de exportação, pelo alto custo do transporte e ausência de sistema viário 4.1. Tentativas governamentais para o progresso de Goiás Na primeira década do século XIX era desolador o estado da Capitania de Com a decadência, a população não só diminuiu 4.2. Novos aspectos administrativos como se dispersou pelos sertões; os arraiais desapareciam ou arruina- vam-se e a agro-pecuária estava circunscrita à produção de subsis- tência. 4.3. da decadência da mineração Em 1809, quando D. Francisco de Assis Mascarenhas trans- mitia o governo a Fernando Delgado de Carvalho declarou, entre ou- tras queixas, que durante sua administração não fora possível edificar uma só obra pública e nem ao menos reparar as existentes, por causa do estado financeiro da Capitania. Ao se evidenciar a decadência do ouro, várias medidas Como medidas salvadoras, o Príncipe Regente D. João, administrativas foram tomadas por parte do governo, sem tendo em vista seus objetivos mercantilistas, passou a incentivar a agri- cultura, a pecuária, o comércio e a navegação dos rios. Neste no emtanto, resultados satisfatórics. várias resoluções foram tomadas, embora, muitas delas permaneces- sem letra morta: A economia do ouro, sinônimo de lucro fácil, não en- 1° Foi concedido isenção dos dízimos por espaço de tempo controu, de imediato, um produto que a substituísse em nível de dez anos aos lavradores que nas margens dos rios Tocantins, Ara- guaia e Maranhão fundassem estabelecimentos agricolas; de vantagem Deu-se especial ênfase à catequese e civilização do A decadência do ouro afetou a sociedade goiana, sobre- com interesse em aproveitar a mão de obra dos índios na agricultura; 3.° Criação de presídios à margem dos rios com os se- tudo na forma de ruralização e regressão a uma eccnomia guintes objetivos: proteger o comércio, auxiliar a navegação e aprovei- de subsistência. tar o trabalho dos naturais para o cultivo da terra; 40 Instituto de Educação de 41</p><p>14 Presídios eram colônias militares de povoamento, 4.2. Novos aspectos administrativos defesa e especialização agrícola. Em Goiás os mais importantes foram: SANTA MARIA, JURUPEN- Por causa da enorme área geográfica de Goiás, vários SEM, LEOPOLDINA, SÃO DOS MARTI- RIOS. Na verdade pouco incremento agrícola de- generais haviam reclamado a divisão da capitania em duas Comarcas, ram, por causa do isolamento e da inaptidão dos a fim de facilitar a administração. No entanto, somente ano de soldados para o amanho da terra. 1809, quando o Brasil já vivia o processo de sua emancipação política, foi o nosso território dividido em duas comarcas: 2 a do sul compreendendo os julgados de: (ca- Incrementou-se a navegação do Araguaia e Tocantins. beça ou sede) de Meia Ponte, de Santa Cruz, de Santa Luzia, de Canoas e montarias carregadas de algodão, açúcar, fumo, couros, sola, Pilar, de Crixás e Desemboque; desceram o grande rio indo ter às praças do Pará, principalmente en- a do norte compreendendo os julgados de: Vila tre os anos de 1805-1808; de São João da Palma (cabeça ou sede), da Conceição, da Natividade, Tentou-se desenvolver a navegação dos rios do sul de de Porto Imperial, de São Félix, de Cavalcante e de Trahiras. Goiás como Paranaíba e alguns de seus afluentes, a fim de se comu- nicar com o litoral, com mais facilidade. Revogou-se o alvará de 5 de janeiro de 1785 que proibia e extinguia fábricas e manufaturas em toda a Colônia Esta revo- gação foi seguida de estímulos à agricultura do algodão e à criação de fábricas de 15 alvará de revogação data de de abril de 1808. Logo depois do governo de Fernando Delgado, fundou-se na cidade de Goiás uma fábrica de teci- III dos que pouco produziu. Em 12 de outubro de 1818, surgiu nova fábrica de melhores resultados. Ao se falar em tentativas de vencer o marasmo financeiro de Goiás, a fim de oferecer melhores perspectivas à metrópole, não se poderia deixar de fazer referência aos descobertos auríferos de Ani- cuns. o rendimento destas minas no primeiro ano de exploração foi Edifício da Câmara de Vila Boa (a parte inferior servia de cadeia). Vila Boa foi a única Vila na Capitania; a única portanto com governo municipal próprio. Hoje este edifício satisfatório. Mas, ocorreram irregularidades na administração, aber- é a sede do Museu das Bandeiras e do Arquivo anexo. tura de inquéritos, desentendimentos entre os sócios, fatores estes que conduziram a empresa ao fracasso. Outra medida administrativa de real valor foi a criação do car- Não obstante estas tentativas do governo, Goiás permaneceu go de juiz de fora de Vila Boa, também no ano de 1809. nos primeiros anos do século XIX em decadência. Esta é uma carac- Antes a câmara da capital, a única da Capitania, portanto a terística não só de Goiás, como de todo o Brasil, sob o impacto de di- única que administrava as rendas de todos os julgados, era formada por ficuldades financeiras, reflexo da conjuntura internacional, vereadores indolentes e presidida por juízes leigos, que não tinham cia das guerras napoleônicas. consciência de seus deveres. Confundiam as contas de seus rendimen- 42 43</p><p>tos, deixavam de cobrar impostos que lhes competiam, e, às vezes, não 17 Cem anos depois do início do povoamento de Goi- sabiam nem o que cobrar. que prejudicava as rendas da Capitania ás, Silva e Souza assim se expressou sobre a co- e as possíveis realizações dos marca do sul, que era a mais próspera: " mui- tas terras devolutas, tendo-se alguns moradores O estabelecimento de uma linha de correio da Corte para o apossado de espaços, que não podem cultivar, Pará por via Goiás (1808) auxiliou o desenvolvimento da navegação tendo por este vizinhos de 23, 45 e mais légoas, e favoreceu as Simultaneamente criou-se uma linha de havendo algumas roças abandonadas, a que cha- correio para Cuiabá. Os estafetas oficais foram, durante muito marão de taperas, situações convertidas em deser- tos e grandes fábricas de mineração, que apresen- tempo, os únicos veículos de comunicação. tão escavações solitárias e espantosas, e este es- petáculo contristante a cada passo se encontra, como hum momento dos primitivos tempos de 16 Antes, com a alta produção do ouro, os habitantes grandeza." de Goiás viam passar com os tropei- ros e mascates com suas mercadorias, trazendo notícias do que acontecia nas capitanias, no Bra- até na Com a queda da mineração, drixaram de vir a Goiás, cuia população ficou isolada durante muito tempo. Estas novas medidas administrativas não deixaram de auxiliar a Capitania que se encontrava em condições difíceis, mas não resol- veram seus grandes problemas, que eram de ordem econômica, social e Para que fossem seria surgir um pro- duto básico que encontrasse aceitação no mercado consumidor euro- peu. Como havia acontecido com o açúcar, com o ouro e com o algo- dão do Brasil 4.3. Consequências da decadência da mineração A economia mineradora não só trouxe a idéia como a realidade da riqueza fácil. Em menos de 20 anos, regiões desconhecidas esta- vam povoadas, cortadas por trieiros, entrando e saindo comer- ciais, desenvolvendo-se, em alguns aspectos, uma sociedade diferente da sociedade tradicional Mas, tão logo os veios escassearam, numa técnica ru- dimentar, dificultando novos descobertos, a pobreza, com a mesma ra- pidez, substituiu a riqueza. apesar de sua aparente embora curta prosperidade, nunca passou realmente, de um pouso de aventu- reiros que abandonavam o lugar, logo que as minas começavam a dar Estado atual das igrejas de Natividade, importante centro de mineração. Sua sinais de cansaço. cia foi rápida como a de todo o norte. 44 45</p><p>Esta evidente decadência trouxe para Goiás uma defasagem DOCUMENTO sócio-cultural. Registrou-se queda na importação e exportação, afe- tando muito o comércio; os aglomerados urbanos estacionaram e al- Já não há em Santa Luzia senão pequeníssimo número de guns desapareceram; parte da população abandonou o solo goiano e jas muito mal sortidas; tudo se compra a crédito. Os jornaleiros têm parte se dispersou para a zona rural, dedicando-se à criação de gado maior dificuldade em se fazerem pagar, se bem que o seu salário não ou agricultura; costumes e hábitos da civilização branca foram esque- vá a mais de 600 por semana; e negros creoulos me diziam que prefe- cidos em decorrência do isolamento no qual os goianos passaram a riam recolher no córrego de Santa Luzia um unico vintem de ouro por viver; ocorreu a ruralização da sociedade e desumanização do homem dia, do que se porem ao serviço dos cultivadores por 4 vintens, uma Goiás viveu um longo período de transição. Desaparecera vez que os patrões pagam em generos dos quais lhes é impossível se uma economia mineradora de alto teor comercial. Nascia uma eco- desfazerem. Certos colonos cairam em tal miséria que ficam meses in- nomia agrária, fechada, de subsistência, produzindo apenas algum ex- teiros sem poder salgar os alimentos, e quando o paroco faz a sua ex- cedente para aquisição de gêneros essenciais, como: sal, ferramentas, cursão para a confissão pascal, sucede frequentemente que todas as mulheres da mesma família se apresentam uma pós outra com o mes- etc. mo Nesta época, várias foram as vilas de Goiás que se torna- ram carcaças, matos pelas ruas, casas abandonadas. São exemplo: S. Hilaire "Viagem às nascentes do Rio S. Francisco e Ouro Fino, Crixás, Palma, Cavalcante, Pilar, etc. pela Província de Goiás." 18 Em 1823, Cunha Matos, enviado ao norte para re- conduzi-lo à união com sul, documenta em seus escritos a indolência do povo e a decadência dos arraiais sublevados: "Cavalcante é quase nada, aqui falta tudo, a fome é dizem que nas Arraias, Conceição, Flores, e Natividade, ainda é pior...". Somos tentados a fazer a seguinte ob- servação: Eram estes os lugares mais prósperos do Norte na fase mineratória. Porque agora esta in- dolência, este marasmo? Ausência de um produto básico rentável, é que nos parece real. Este quadro pobre de Goiás das primeiras décadas do século XIX não vai se alterar com a transformação da Capitania em Provín- cia. Os viajantes europeus do século XIX aludem a uma regressão sócio-cultural, onde os brancos assimilaram costumes dos selvagens, Matriz Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte (hoje Pirenópolis) centro aurífero e habitam chopanas, não usam o sal, não vestem roupas, não circula nó de comunicações da Capitania. É cidade histórica de moeda... Tão grande era a pobreza das populações que se duvidou ter havido um período anterior com outras características. 46 47</p><p>5.1. processo da independência do Brasil e seus reflexos em Goiás / As transformações sócio-econômicas e políticas ocorridas na Europa no fim do século XVIII, somadas com a política e administra- ção de D. João VI no Brasil e com a reação das Cortes Portuguesas (1820), levaram o Brasil a viver um processo revolucionário, que ter- minou com a vitória separatista no ano de 1822. 5 A INDEPENDENCIA EM GOIAS Após a volta de D. João VI para Portugal, o Brasil viveu um período de profunda crise política, pois suas conquistas econômicas e administrativas estavam sendo ameaçadas pelas Cortes Portuguesas. Em Goiás a população rural permaneceu alheia a essas crises. Mas, elementos ligados à administração, ao exército, ao clero e a algu- 5.1. Processo da independência do Brasil e seus reflexos em mas famílias ricas e poderosas, insatisfeitos com a administração, fi- Goiás zeram germinar no rinção goiano o reflexo das crises nacionais A atuação dos generais, às vezes prepotentes e arbitrários, fez 5.2. Primeiras manifestações contra a administração colonial nascer na capitania ogerisa pelos administradores. A causa maior dos descontentamentos encontrava-se na estrutura da administração co- 5.3. Constituição das Juntas Governativas e a promulgação da lonial. Os empregados públicos eram os mais descontentes: a receita independência não saldava as despesas e os seus vencimentos estavam sempre em atraso. Encontravam-se também entre estes elementos do clero, os 5.4. Movimento separativista do Norte de Goiás mais intelectualizados da Capitania. 5.5. 1831 Um movimento nacionalista 5.2. Primeiras manifestações contra a administração colonial As insatisfações administrativas existiam, mas raramente se manifestavam Foram as Câmaras que se manifestaram em primeira linha contra os Generais, representantes diretos da le. Em 1770 por ocasião da morte do Capitão General João Manoel Assim como no Brasil, o processo de independência de Melo, a Câmara elegeu uma junta governativa para substitui-lo. Em em deu gradativamente. A formação das juntas ad- 1803 desentendeu-se com o Capitão General e pretendeu destitui-lo ministrativas, que representam um dos primeiros passos nes- do poder/Nos dois casos, o Governo Metropolitano repreendeu severa- te sentido, deram oportunidade às disputas pelc poder entre mente estas atitudes, sob a justificativa de que, "para se fazer eleições os grupos locais. semelhantes, são sempre necessárias ordens terminantes, e positivas de S.M., porque é quem unicamente pode dar o poder de governar os Especialmente em fci a reação do Nor- povos a uma ou mais te que, se julgando injustiçado falta de assistência go- Tempos depois (1820) por ocasião da escolha dos represen- vernamental, proclamou sua separação do sul. tantes goianos à Constituinte Portuguesa, apareceram nas esquinas 48 49</p><p>da cidade de Goiás proclamações insubordinativas contra a or- 5.3. Constituição das Juntas Governativas e a Proclamação da dem constituída, sob a liderança do Padre Luiz Bartolomeu Marquez. Independência Apesar da ação repressora do governador Sampaio, que se co- 19 Foram eleitos deputados por Goiás à Constituinte locou contra a idéia de criação de uma junta governativa, foi esse mes- Portuguesa o ouvidor Joaquim Teotônio Segurado mo Governador obrigado pelas pressões de grupos políticos locais a (que tomou posse de sua cadeira em Portugal); Pe. Luiz Antônio da Silva e Souza (que não foi para ordenar à Câmara a eleição de uma junta governativa, em cumpri- Portugal); e ainda um suplente Antônio Plácido mento ao decreto de 18 de abril de 1820. Nesta primeira eleição, Moreira de Carvalho, residente no Maranhão. Sampaio trabalhou para ser eleito presidente da junta, o que de fato conseguiu. Mas os grupos políticos locais, insatisfeitos com a sua administração, desejavam o poder, e também afastá-lo definitivamente A dar-se crédito na documentação oficial, este movimento não de Goiás. Surgiram brigas, que culminaram com era rico do sentimento nacionalista. Era influenciado pelos fatos que sua renúncia e retirada da Província. aconteciam em outras capitanias, como a de São Paulo, e era estimu- A partir deste fato, Goiás viveu um período de intensa crise lado por elementos do clero, que se sentiam lesados em seus interesses. política, agravada pelo pouco rendimento econômico, cuja arrecada- Propunha depor o Capitão General Manoel Inácio de Sam- ção não dava nem mesmo para pagar os funcionários paio, considerado por seus inimigos maior dos déspotas", e insta- Os grupos locais, com diferentes idéias e com os mesmos obje- lar um governo provisório. tivos o poder, entraram novamente em choque. Houve até mesmo A conspiração foi denunciada e seus principais implicados re- quem falasse em ideal republicano. No entanto, a situação foi domi- ceberam como castigo deportação para além de 50 léguas da capital nada por conchavos políticos entre famílias ricas e influentes de Goiás de Goiás. e Meia-Ponte, sempre coerentes com a ordem constituída, desde que ela lhes oferecesse a direção da futura 20 padre José Cardoso foi enviado para Formiga e Duro; Pe. Luís Bartolomeu retirou-se 50 léguas 21 Entre estas famílias que dominaram a situação, da Capital; o Capitão Antônio Felipe Cardoso foi salientam-se os Rodrigues Jardim, os Fleurys, os residir em Arraias; o Capitão Francisco Xavier Bulhões, que estiveram presentes na conjuntura de Brito foi comandar presídio de Santa Maria. política durante todo o período de Goiás cia e lançaram raízes nas diretrizes oligárquicas até o fim da chamada República Velha. Não se pode precisar até que ponto iam os ideais deste movi- mento Ou seja, se queria apenas depor o governador, ou se desejou Elegeu-se nova junta governativa. Foram seus integrantes: "a total independência e separação do reino unido", como diz Sampaio Álvaro José Xavier Presidente, José Rodrigues Jardim, Secretá- em sua documentação oficial. rio, e os membros, Joaquim Alves de Oliveira (que logo depois renun- Afastados da Capital os aliciadores militares e religiosos, úni- ciou), João José do Couto Guimarães e Raimundo Nonato Hyacinto, cos que por motivos diversos eram ou poderiam ser favoráveis a uma Pe. Luiz Gonzaga de Camargo Fleury e Inácio Soares de revolução, esta idéia desapareceu do contexto político goiano. Os ou- Forças políticas minoritárias marginalizadas nestas eleições, tros elementos, que permaneceram na capital, estavam imbuídos do quase todas pertencentes ao quadro de funcionários, colocaram-se con- sentido de legitimidade, ou seja, só atenderiam à ordem constituída. tra esta junta governativa. Arvoraram-se em republicanos, manifes- 50 Instituto de Educação de Goiás 51</p><p>taram-se contra a permanência de D. Pedro no Brasil Mas a ação 22 Manifestaram-se contra um governo despótico, re- do governo contra estes elementos foi imediata. Ou seja, foram presentado para eles na pessoa dos Capitães Ge- nerais. Adotaram como medidas salvadoras a destituídos de seus cargos, e banidos da Capitania. abolição de vários impostos, como o da saída do Processada a Independência do Brasil 1822, esta não trou- gado, entrada de sal, ferramentas, ferro e aço. xe transformações, quer sociais, quer econômicas para Ope- Elevaram os direitos políticos de alguns arraiais, como São José, São Domingos, Chapada e Car- rou-se teoricamente a descolonização. Os próprios governantes serão mo. ainda portugueses. Mas os documentos registram muita festa e muita alegria. No dia 16 de dezembro, fez-se juramento solene à aclamação Algumas medidas administrativas foram tomadas a fim de fa- do Imperador Constitucional do Brasil D. Pedro I. cilitar a consolidação do novo governo: organizou-se a fôrça policial, No novo regime que se iniciou Brasil Independente, ocorre- suspendeu-se a remessa de dinheiro para o sul. ram apenas pequenas mudanças na administração e na política. Surgiram, no entanto, desentendimentos entre os revolucioná- primeiro Presidente de Goiás, nomeado por D. Pedro, foi rios: alguns abandonaram o campo de lutas. Mudança da sede de go- Dr. Caetano Maria Lopes Gama, que assumiu o cargo a 14 de setem- verno para Natividade, viagem de Teotônio para as Cortes, precarie- bro de 1824. dade financeira e econômica, rivalidades políticas entre os habitan- tes de Cavalcante, Palma e Arraias, foram fatores locais que deter minaram o fracasso do movimento. A notícia de criação de um Go- 5.4. Movimento Separativista do Norte de Goiás verno Provisório no sul e o afastamento de Sampaio da direção da Capitania de Goiás também amorteceram o entusiasmo dos separa- movimento separatista do Norte representou uma continua- tistas. ção do movimento revolucionário da capital da capitania de Goiás sob Não obstante, quando a de janeiro de 1823 foi o governo a liderança do mesmo Padre Luis Bartolomeu Marquez cognomi- do Norte informado, através do Correio da Bahia, da Independência nado Apóstolo da Liberdade. Como foram os principais elementos política do Brasil, buscou apoio à sua causa no governo de Pedro I, do movimento dispersados para o Norte de Goiás, era natural que le- que desaprovou o movimento em ofício de José Bonifácio (datado de vassem consigo o germem da sedição Ora, havia descontentamento 23 de junho de 1823), recomendando severamente a união com geral na população do Norte. Os grandes proprietários afirmavam que o sul. apesar de pagar os impostos, os benefícios do governo lá não che- Com esta posição do Governo Central e a atuação violenta do gavam. Estavam descontentes, vendo prejudicados seus interesses eco- Pe. Luíz Gonzada de Camargo Fleury, emissário ao Norte do gover- povo vivia em completa miséria. no do sul, os sediciosos não tiveram mais forças para continuar com a luta. Os revolucionários do sul, conhecendo a realidade desta situa- Coube à junta governativa do Sul unficar a Província. Mas o ção, exploranam-na politicamente. Fizeram constar do plano revolu- ideal separatista do Norte continuou vivo no transcorrer do século cionário a instalação de um governo provisório no Norte, na hipótese XIX, e vamos encontrá-lo ainda hoje, nos jovens estudantes do Norte de fracassar na capital a deposição de Sampaio. No dia 14 de setem- de Goiás. bro de 1821, instalou-se em Cavalcante um governo provisório, que se declarava independente da Comarca do Sul de fiel à Cons- 5.5. Um movimento nacionalista tituição do Reino Unido, sob o governo de Dom João VI. Após a independência política do Brasil, processou-se uma Através das proclamações deste governo, concluímos que seus luta surda entre brasileiros e portugueses pelo poder político e econô- móveis eram os interesses econômicos e políticos. mico do Brasil; D. Pedro I, como era português de nascimento, co- 52 53</p><p>meçou a ser favorável aos portugueses, inclusive colocando-os nos clima político tornou-se tenso, agravado pelo assassinato do melhores cargos públicos e postos de confiança de seu governo. Sua ouvidor Jerônimo José da Silva Castro atitude parcial desgostou aos brasileiros. Tornou-se D. Pedro I um Outro fator de descontentamento era a permanência da au- rei impopular. sência de progresso da Província, embora as causas extrapolassem as Estas crises foram agravadas pelas questões financeiras. D. possibilidades dos administradores: grandes distâncias, ausência de Pedro lançou mão de empréstimos no estrangeiro para pagar dívidas um produto econômico básico, e que encontrasse aceitação no mer- e equilibrar nossas finanças, agravando assim a situação para o futuro. cado consumidor, carência de mão de obra, falta de transporte, cor- Em Goiás como vimos, não houve mudanças marcantes de rupção e ignorância de funcionários, ignorância e escassez da popu- Colônia para o Império. lação, etc. No aspecto econômico continuou o mesmo marasmo já regis- Com a abdicação de D. Pedro I, rebentou em Goiás um mo- trado com a decadência da mineração, somente mais tarde vai a pe- vimento de caráter nitidamente nacionalista, que alcançou vitória pelas cuária oferecer ligeiras No aspecto político, as trans- condições da política geral do Brasil Os líderes deste movimento formações foram pequenas. Os presidentes nomeados pelo poder cen- foram o Bispo cego, D. Fernando Ferreira, Pe. Luis Bartolomeu tral, sem vínculos com a terra, ainda continuavam sendo de nacio- Marquez e Coronel Felipe Antônio nalidade portuguesa. Os goianos os identificavam com os detestáveis Os dois últimos líderes haviam participado dos movimentos Capitães Generais de um passado próximo, que não se apagara. Tam- rebeldes do periodo de Independência. bém outros cargos de importância política eram exercidos por por- Recebendo adesão e apoio das tropas movimento de 13 de tugueses, tais como: ouvidor, juiz de fora, secretário de governo, fa- agosto de 1831 alcançou seu objetivo, que era depor todos os portu- zendo crescer descontentamento entre os grupos locais, desejosos de gueses que ocupavam cargos públicos em Goiás enfeixar nas mãos o poder Vitoriosos, depuseram o presidente da Província Miguel Lino segundo presidente de Goiás, foi o portugues Miguel Lino de Moraes e vários funcionários da capital, como ouvidor, juiz de fora de Moraes (1827-1831), homem inteligente e que procurou fazer uma e militares boa administração. A consequência deste movimento de rebeldia foi a nomeação de três goianos para a presidência de Goiás, embora a Regência de início oficialmente o 23 Impulsionou o ensino, lutou pelo renascimento da Foram estes os seguintes presidentes Goianos: mineração, criou uma empresa de exploração de minérios (Companhia dos Seis Amigos) na cidade José Rodrigues Jardim, (1831-1837), Pe. Luiz Gonzaga de de Goiás, fundou, também na mesma cidade uma Camargo Fleury (1837-1839) e José de Assis Mascarenhas (1839- fábrica de tecelagem (1828), incentivou a agricul- 1845). tura e a pecuária. De seu governo datam "as grandes exportações de rebanhos, sobretudo de ga- DOCUMENTO do vacum e cavalar". Tenho a honra de participar a V. Ex. que entrei neste Arraial Não obstante as tentativas de uma boa administração, ganhou de Cavalcante no dia 15 do mês corrente depois de haver sofrido uma a antipatia dos goianos influentes, pelo fato de propor a mudança da crise de incômodos e trabalhos, além de toda a expressão, por motivo capital (1830) para uma região mais bem situada geográficamente. das imensas chuvas, e falta de pontes e canoas. A tropa chegou no mais povoada, para assim atender melhor ao comércio, fator indispen- dia 26, os soldados e oficiais em boa saúde, exceto um que por efeito sável ao desenvolvimento goiano. das chuvas se declarou moléstia venérea e outro que veio com febre. 54 55</p><p>povo dos lugares por onde tenho transitado é mui pacífico e pare- ce-me mui indolente e pouco industrioso. Este Arraial é quase nada, mas os seus edifícios, posto que humildes conservam-se em melhor reparo do que os de Pilar, e outros lugares. Observo que ainda os mais circunspectos mostram desejos sanguíneos de verem instalado o Gover- no desta Comarca, posto que não amem aqueles que foram Deputados do mesmo Sr. Luiz Gonzaga é aqui muito malvisto talvez por motivo das prisões ou ameaças de castigos Aborrecem 6. POVOAMENTO DE E A EXPANSÃO DA quanto podem o Governo de Goiás e a aqueles que mostram alguma PECUÁRIA indiferença ou predileção por ele é por aborrecerem extremamente as pessoas que governaram Natividade. Até hoje não tenho recebido no- tícias deste último Arraial depois do dia 7 do corrente. José Bernar- dino devia lá entrar no dia 10. Ouvi dizer que Pio Pinto e outros ho- mens que iam presos foram postos em liberdade em virtude de um de- creto de S. M. I. talvez o da Anistia Geral. Já mandei ordem a José Bernardino para vir ao Quartel General para o desenganar a respeito do Governo de Assim como já tenho desenganado os mais 6.1. Correntes migratórias acérrimos defensores do mesmo Governo sediado neste Arraial. Vejo- me na indispensável necessidade de meter mão a construção de canoas 6.2. Cronologia do povoamento e pontes em todos os rios e córregos para que não aconteça a outros o que já aconteceu. Aqui falta tudo, há fome terrível, as coisas mais 6.3. População indígena insignificantes ou não aparecem ou são pelo mais alto preço, que se pode imaginar. Dizem que nas Arraias, Conceição, Flores e Nativida- 6.4. Imigração estrangeira de ainda é pior. Até agora não chegou a bagagem de expedição por- que na noite passada houve grande chuva e trovoada talvez ainda ho- je não entre no Arraial. Dois dias depois da chegada da bagagem marcham 45 homens para Natividade, e eu já fiz marchar o Coman- dante Nicácio da Cunha Monteiro com a tropa de linha que se acha do seu comando. Deus guarde V. Excia. Quartel General de Cavalcante, 28 de outubro de 1823. Durante o século XIX a população de Goiás e Sr. R. J. da C. M. continuamente, não só pelo crescimento vegetativo, como pe- Lacerda, Regina "Os antecedentes e a repercussão da In- las migrações dos Estados vizinhos. Os índios diminuíram dependência em Goiás." quantitativamente e a contribuição estrangeira foi inexis- tente. A pecuária tornou-se o setor mais dinâmico da econo- mia. 56 57</p><p>desta região dedicaram-se não só a criação de gado, mas também a 6.1. Correntes Migratórias exploração do babaçu, de pequenos roçados, do comércio do sal (muito rendoso) e a faiscação. Nasceram novas cidades e outras já existen- tes tomaram novos impulsos sob o fluxo da pecuária: Impetratriz, Pal- Como já foi dito, após a decadência das minas, Goiás viveu ma, São José do Duro, São Domingos, Carolina, Arraias. um período de grandes dificuldades econômicas. A ausência e difi- culdades de meios de transporte e de comunicação, a inexistência de mercados consumidores mostraram o quadro da impossibilidade do desenvolvimento da agricultura goiana em nível comercial Goiás era uma região periférica pertencente a um país de economia dependente. Sua situação era bastante difícil. A maioria dos mineiros que aqui permaneceu, após o desapa- recimento do ouro como empresa pré-capitalista, vai dedicar-se a uma agricultura de subsistência e criação de gado. Esta com relativo êxito, não só pela existência de boas pastagens, mas porque o gado se conduzia ao mercado consumidor, vencendo as grandes distâncias. Nas três primeiras décadas do século XIX, espalharam-se fa- zendas de criar pelos sertões de Poucas sesmarias foram de- marcadas judicialmente. A grande maioria dos proprietários possuía apenas o título de posse e as concessões dos antigos Capitães Estas fazendas eram mal cultivadas e mal aproveitadas não só pela falta de braços e de numerário, como pela ausência de mercado interno. Registrou-se neste período uma média de exportação anual superior a 20.000 cabeças de gado vacum, além de o incremento da pecuária trouxe como consequência o desen- volvimento da população. Correntes migratórias chegavam a Goiás oriundas do Pará, do Maranhão, da Bahia, de Minas, povoando os inóspitos No sudoeste novos centros urbanos surgiram, sob o impulso da pecuária: Rio Verde, Jataí, Mineiros, Caiapônia (Rio Bonito), Quirinópolis (Capelinha), etc. No norte a pecuária trouxe intensa mestiçagem com o índio, que foi aproveitado como mão de obra na criação de gado. Em menor escala, também ocorreu a mestiçagem com o negro. Os habitantes A casa rural goiana se caracteriza pelo primitivismo: cobertura de palha, paredes de pau-a-pique, o uso do barro ou taipa. 58 59</p><p>QUADRO DOS ELEITORES DA PROVINCIA DE PARÓQUIAS 26 COMARCAS MUNICÍPIOS Sant' Ana da Capital N.S. do Rosário da Capital N.S. d'Abadia do Curralinho N.S. do Pilar do Ouro Fino S. José de CAPITAL 1. Capital Santa Rita D'Antas N.S. do Rosário da Barra S. Francisco de Assis Anicuns Sebastião do Alemão N.S. do Rosário do Rio Claro N.S. das Dôres do Rio Verde 24 2. Rio Verde Divino Espírito Santo do Jatahy RIO VERDE Divino Espírito Santo do Rio Bonito 3. Rio Bonito 25 (Caiapônia) 23 19 N.S. da Penha de Jaraguá 022° N.S. do Pilar °18 4. Jaraguá N.S. da Conceição de Crixás Santo Antonio do Amaro Leite 16 20 N.S. do Rosário do Meia Ponte 5. Meia Ponte Sant'Anna das Antas (Anápolis) 15 17 RIO (Pirinópolis) o N.S. da Penha de Corumbá 6. Corumbá Senhor do Bonfim 7. Bonfim N.S. da Conceição de Campinas (Silvânia) 9 CORUMBÁ N.S. d'Abadia do Pouso Alto 5 8. Pouso Alto (Piracanjuba) 07 3 11 9. Santa Luzia Santa Luzia IMPERATRIZ N.S. da Conceição da Formosa 12 13 2 FORMOSA 10. Formosa Este quadro dos municípios e as paróquias dependentes povoadas durante corresponde o século a última XIX, década (sudes- do do te e Império, sudoeste) mostra e o grande claramente aumento as novas do número zonas dos municípios. o norte e a região Araguaia-Tocantins continuam despovoados. 61 60</p><p>Insulados geograficamente e culturalmente, sem meios de trans- COMARCAS MUNICÍPIOS PARÓQUIAS porte e comunicação, esses elementos humanos conservaram o modo 11. Santa Cruz N.S. da Conceição de Santa Cruz de vida da época colonial, ou regrediram, em alguns aspectos, ao es- N.S. do Desterro de Caldas Novas tado selvagem de nossos índios. No ciclo da pecuária em Goiás, regis- SANTA CRUZ trou-se a regressão dos costumes ou indianização do modus vivendi. 12. Vila Bella N.S. do Carmo de Vila Bella A enorme área geográfica de Goiás condicionou à formação de (Morrinhos) Santa Rita do Paranaíba ilhas demográficas, circundadas por imensos vazios humanos. 13. Catalão N.S. Madre de Deus de Catalão 6.2. Cronologia do povoamento RIO 14. Entre Rios Divino Espírito Santo de Entre Rios (Ipameri) Pelo exposto, viu-se que a economia mineradora deu início ao processo de colonização de Coube à pecuária desenvolver e au- RIOS 15. S. José S. José do Tocantins TOCANTINS mentar sua (Niquelândia) N.S. da Conceição do Trairas Quando se evidenciou a decadência da mineração, a popula- Sant' Ana do Cavalcante ção decresceu. Infelizmente, não temos dados estatísticos da última 16. Cavalcante S. Félix década do século XVIII, mas em 1804 o conde de Palmas mandou CAVALCAN- S. Theodoro de Nova Roma fazer um levantamento estatístico da Capitania, registrando-se 50.000 TE 17. Forte S. Sebastião do Forte habitantes, dos quais 20.000 eram escravos. N.S. do Rosário de Santa Rosa 24 As estatísticas do século XVIII e começo do sécu- N.S. dos Remédios de Arraias lo XIX são por vários motivos duvidosas. Cunha RIO 18. Arraias S. Antônio do Chapéo Matos assim se expressa sobre as causas das difi- culdades: "Os senhores ocultam o número dos es- PARANÁ 19. Taguatinga S. Maria de Taguatinga cravos, porque sonham a capitação à antiga; os pais ocultam os filhos, porquem temem que lhes POSSE 20. S. Domingos S. Domingos alistem para soldados; e todos desejam que os vi- 21. Posse Sant'Ana da Posse gários ignorem a força das famílias, para não exi- girem direitos paroquiais pelas desobrigas da qua- resma. Os empregados nos alistamentos dizem que 22. Palma S. João da Palma é vadiação e inutilidade todo esse trabalho, e mui- (Parana) Divino E. Santo do Peixe PALMA tos não se entendem com uma relação ou um ma- N.S. da Conceição do Norte pa, ainda mais simples visto por qualquer lado". 23. Conceição S. José do Duro A partir dos anos 30 do século XIX foi a população aumen- N.S. das Mercês de Porto Imperial tando, sob os auspícios da pecuária: 24. Porto Imperial N.S. do Carmo 1849 79.000 habitantes; PORTO (Porto Nacional) 1856 122.000 habitantes; IMPERIAL N.S. de Natividade 1861 133.000 habitantes; 25. Natividade Sant'Anna da Chapada 1872 149.000 habitantes; S. Miguel e Almas 1890 227.000 habitantes; BOA VISTA 26. Boa Vista N.S. da Consolação da Boa Vista 1900 255.000 (Tocantinópolis) Instituto de Educação de Goias 62 63</p><p>Este crescimento satisfatório dentro de Goiás, em nível verti- cal, é insignificante ao se considerar sua enorme área geográfica. na-se ainda mais insignificante se transposto para o âmbito nacional. Assim vejamos: em 1872 a população do Brasil era de 10.000.000 (porcentagem goiana 1,6%); 1890 14.000.000 (porcentagem goiana 1,59%); 1900 - 17.000.000 (porcentagem goiana 1,47%). 6.3. População indígena Necessário se faz mencionar os aborígenes, que contribuiram sobremaneira para a formação do grupo principalmente no Norte do Estado. 25 Saint-Hilaire afirma que por ocasião de sua viagem, Goiás era a Província que mais índios possuía "...a população portuguesa derramada nesta Ca- pitania não fora nunca suficientemente intensa pa- ra aniquilá-los todos. Com muito custo conseguira- se reunir certo número em aldeias; os outros viviam inteiramente selvagens nas matas e nos lugares mais desertos". Infelizmente, nunca foi possível precisar o número exato dos silvícolas goianos, como de todo o Brasil. Com o passar dos anos a colonização trouxe o desaparecimento parcial dos naturais e a extin- ção total de muitas tribos. A população que acabamos de apresentar é rural, arredia, desconfiada sem contactos sociais e sem intercâmbio cultural. Sua cultura está condicionada à terra " seu mundo se encerra quase sempre nos limites de sua propriedade e nas paredes da Durante século XVIII a mestiçagem casa humilde onde abriga sua prole". Sua contribuição é encontrada No século XIX, à margem dos grandes principalmente na formação étnica, cultural. resultante da mistura do índio. 64</p><p>Somente nas primeiras décadas do século XX se iniciou a imi- gração européia em Goiás, em moldes muito modestos. 26 Em 1920, três núcleos coloniais mais importantes desenvolveram-se em Goiás: um de italianos em Inhumas; outro também de italianos no municí- pio de Anápolis (Nova Veneza); o terceiro, de portugueses, na fazenda Capim Puba no atual mu- nicípio de Goiânia. Em 1924, organizou-se a colônia de Uvá. 300 fa- mílias, num total de 299 pessoas, instalaram-se no referido núcleo, as demais dispersaram-se. Em Anápolis, no ano de 1929, formou-se um nú- cleo de 7 famílias japonesas. Nos anos seguintes juntaram-se outras famílias; estes pequenos gru- pos prosperaram pelo seu trabalho sistemático e pelas semelhanças de clima e solo. Foram estas as primeiras levas de colonos europeus que vie- ram para Goiás. As migrações do sul procederam em maior escala de Minas; no norte, vieram do Pará e da região Nordestina. DOCUMENTO Quando o Governo Imperial celebrou, em 1871, com o desem- .4. Imigração estrangeira bargador Bernardo Avelino Gavião Peixoto, um dos primeiros contra- tos para a introdução de colonos europeus nos estabelecimentos agrí- Estudando a população goiana não se poderia deixar de mos- colas de São Paulo, o ministro dos negócios da Agricultura, enviando trar a problemática da imigração européia. cópia do contrato ao governo provincial de então entregue ao Em 1871, o governo central, impulsionando a entrada de colo- presidente Antero Cícero de Assis, recomendou-lhe que "procurasse nos europeus, fez chegar a Goiás o eco de sua política. Mas não logrou por todos os meios ao seu alcance fazer conhecidas as vantagens que o despertar o interesse dos goianos, apesar de que a operação não lhes governo central oferecia aos fazendeiros e agricultores da Província, acarretava ônus. que, sob as condições consignadas naquele contrato, se propusessem Após a libertação do negro, grupos locais, identificados com a introduzir imigrantes nos seus interesse agrário, lutaram pela vinda do imigrante europeu. governo E o aviso-circular de 15 de novembro do mesmo ano, dirigido Montandom (1889) adquiriu do Vice-Presidente da Província, José pelo referido ministro ao presidente da Província, comunicava-lhe que Antônio Caiado, uma fazenda destinada a iniciar este tipo de coloni- existia em Lisboa um encarregado de tratar da imigração européia, zação. Mas as terras eram muito ruins, e os imigrantes italianos não especialmente da portuguêsa, para o Império, e que, chegaram nem a vir para o território goiano. "cm se oferecendo ocasião de tentar a vinda de colonos portuguêses Em 1896, o governo republicano de Goiás tentou mais uma para a Província, se aproveitasse do concurso do mesmo encarregado, vez impulsionar a imigração. Também sem que nenhuma remuneração exigia, etc." 66 67</p><p>Ambas as recomendações foram divulgadas por intermédio do "Correio Oficial", não logrando, entretanto, despertar o interesse dos latifundiários goianos para a imigração européia. Se Goiaz, nesse par- ticular, tivesse imitado São Paulo, parece lógico que, apesar de serem muito outras as condições, devido à sua situação mediterranea e cen- tral, teria certamente mudado o rumo dos seus destinos econômicos. 7. PANORAMA ADMINISTRATIVO POLÍTICO CULTURAL DE DURANTE IMPÉRIO 7.1. Panorama Administrativo 7.2. Panorama Político 7.3. Panorama Cultural As condições sócio-economicas do Brasil não possibili- taram uma ação administrativa em du- rante o século XIX. A política goiana, por outra parte, era dirigida por Presidentes impostos pelo poder central. So- mente no fim do período em referência, começou a adquirir feições próprias. Coexistiu no aspecto cultural um verdadeiro vazio. 69 68</p><p>7.1. Panorama Administrativo tivos, desequilíbrio entre receita e despesa, ausência de um produto econômico básico, Goiás teve vida medíocre no transcorrer do sécu- A primeira Constituição Brasileira foi promulgada a 25 de lo XIX. Não participou do surto desenvolvimentista do Brasil, em- março de 1824. Esta carta política regeu todo o Brasil até a procla- brionário a partir da década de 50 e em aceleramento depois dos anos mação da República em 1889. Instituiu a monarquia constitucional, 70. com uma administração altamente centralizada. Seus administradores quase conseguiram fazer. Lutaram para normalizar a navegação do Araguaia-Tocantins, com pequeno PODER tentaram estender os trilhos de ferro aos sertões goianos, mas MODERADOR não conseguiram. 7.2. Panorama Político PODER PODER PODER LEGISLATIVO EXECUTIVO JUDICIÁRIO As interferências do governo central na vida política local e a grande força exercida pelos presidentes nos múltiplos assuntos, somados à ausência da participação de elementos locais na vida po- CONSELHO PRES. DE DOS SENADO DE lítica, condicionaram a uma situação de fato, que se denominou: DEPUTADOS ESTADO PROVÍNCIAS "oficialismo político". PROVINCIAIS Durante o período regencial o Poder Moderador foi suspenso; as Assembléias Provinciais foram criadas com o ato Adicional de 1834 em substituição aos Conselhos Provinciais. As grandes distâncias das diferentes Províncias à Corte vão tra- zer à administração centralizada sérios problemas. Em Goiás os presidentes exerciam grande influência na vida política. Eram eles de livre escolha do poder central, sem vínculos fa- miliais à terra, descontentando os políticos locais Nossos representantes à Câmara Alta (compreendendo Depu- tados e Senadores), embora eleitos, eram nomes impostos pelos Minis- térios e quase sempre filhos de outras A Assembléia Provincial e a Câmara dos Vereadores funciona- vam de acordo com as ordens e interesse do Presidente da Província. Condicionado por uma série de fatores, como falta de meios de transporte e comunicação, grandes distâncias, descasos administra- Palácio do Conde dos Arcos, Residência dos Governadores em 70 71</p><p>27 Neste período, onze presidentes ocuparam o Pa- lácio Conde dos Arcos e cinco vice-presidentes di- rigiram o governo por onze vezes. Esta constante mudança de presidentes se choca com os anos an- teriores, onde Antero Cícero de Assis governou Goiás por sete anos (1871-1878). Também não se registrou nenhuma realização administrativa dig- na de menção. 7.3. Panorama Cultural Pode-se afirmar que a educação em Goiás no século XIX foi A cultura era própria do clero e inexpressiva. Cunha Ma- tos nos fala que existiam na Capitania, no começo deste século, apenas 60 homens ilustres. No período colonial, os não chegaram a deitar sementes, uma vez que foram expulsos do Brasil, logo após o início da exploração do solo goiano. Coube a Pombal instituir os cha- madas aulas régias e criar o subsídio literário (imposto sobre Antônio a carne verde) em 1773. primeiro professor oficial - Bartolomeu Veiga Vale, embora auto-didata, segue a tradição barroca colonial, mas o colorido cla- Cordovil iniciou sua tarefa, muitos anos depois, em 1787. A partir ro e as formas mais suaves indicam a influência do estilo de 1827 foi instituída para todo o Brasil a lei do ensino mútuo, Goiás quase Nas últimas décadas do século XIX, grupos locais manifesta- impraticável em No fim do século XVIII, existiam em ram-se insatisfeitos com a administração e responsabilizaram os Pre- oito professores. Praticamente não existiam escolas, considerando o sidentes "estrangeiros" pelo grande atraso de Goiás e passaram a lutar número de seus habitantes: 50.574. pelo nascimento de uma consciência política. Sob pretexto de afastar o "oficialismo político" e assim enfeixar nas mãos o poder, fundaram 28 José Rodrigues Jardim, presidente de Goiás, em 1835 regulamentou pela primeira vez o ensino de da os partidos políticos Liberal (1878) e Conservador (1882). Os jor- Província. Isto porque através do ato adicional mais Tribuna Livre, Publicador Goiano, Comércio, Goyaz, foram pro- 1834, decretou-se a descentralização do ensino. pulsores destas idéias e interesses. Antes vigorava o ensino individual, em condições Após esta tomada de consciência, verificou-se relativa mudan- precárias. ça no panorama político de Goiás. Representantes próprios foram enviados à Câmara Alta: André Augusto de Pádua Fleury, José Leo- poldo de Bulhões Jardim Rodrigues Jardim, Cônego Inácio Nos primeiros anos de Goiás Império, salientou-se como conhecido ele- mento propulsor do ensino Dr. João Gomes Machado, mais Xavier da Silva e outros. A consequência de tais movimentos foi a fortificação de gru- pelo nome de Dr. Corumbá. pos políticos locais, lançando as bases das futuras oligarquias goianas. ensino secundário passou a dar os seus primeiros passos com A vida política de Goiás na última década do Império foi muito do Liceu de Goiás em 1846. No entanto, este estabelecimen- maiores agitada, em decorrência das crises nacionais e dos choques de interes- a to criação não atendia aos jovens do interior da Aqueles de 73 ses dos grupos locais. 72</p><p>posses iam para Minas concluir seus estudos, os outros, grande maio- N. 266 Sabbado 10 de Dezembro de ria, ficaram como tinham nascido: analfabetos quando muito apren- diam as primeiras letras. A MATUTINA MEIAPONTENSE São Paulo era a cidade eleita para os estudos superiores, uma vez que o curso jurídico era, na maioria das vezes, o preferido. Poucos buscavam curso médico Alguns jovens de pequenas posses REIS só SAO LEGITIMOS QUANDO GOVERNAO o DIREITO DE RESISTENCIA HE encaminhavam-se para a escola militar ou para os seminários. DE TODO o LIVRE. Após o término da guerra do Paraguai, o Seminário Santa PATRIA. E CONSTITUIC,AO Cruz passou a funcionar. Lá estudaram vários moços goianos que se projetaram no cenário político e cultural não só de Goiás como tam- Meyaponte 1831. Na Typ. d' Oliverra. bém do Brasil. ARTIGOB DE para da publica, se Em 1882, foi criada a primeira Escola Normal de O CARTA DE da Auctoridade Civil. TITULO Art. 110. A e ordens, pelas quaes currículo desta escola era voltado para as matérias experimentais: físi- CAPITULO 1.° as Guardas Nacionaes forem chamadas, para fa- ca, química, zoologia, botânica, pedagogia, sociologia, lingua portu- Do Serviço de destacamentos do Municipio. zer Serviço de destacamentos, deverao declarar guesa, etc. Seu funcionamento encontrou vários obstáculos e pouco o numero de homens necessarios. do N.° antecedente. Art. 111. Quando os destacamentos sabirem tempo A RT. 107. As guardas devem for- fóra dos seus respectivos Municipios por mais No transcorrer da década de 80, o ensino em Goiás passou por necer destacamentos para fóra dos seos respecti- de tres dias, os que fizerem parte del- reformas, sofrendo ingerência de interesses políticos e da filosofia Municipios, nos seguintes cazos. le, os mesmos soldos, elapes, e mais No cazo de insuficiencia da Tropa de Po- tos que competem Tropa de Linha. licia, ou de Linha, o numero de homens neces- Art. 112 Os destacamentos du- sarios para escoltar de hum lugar para outro as rar além de hum anno por do remessas de dinheiros, ou outros perten- verno, e alem de seis mezes por centes a Nação, ou para conduzirem os pronun- bu dos Presidentes; de 30 dias par ciados, condemnados, ou quaesquer outros pre- dos Juizes Criminaes; e de 20 por dos Juizes de Paz. 2° Para soccorrer quaesquer outros Muni- CAPITULO 2. cipios da mesma, ou de diversa Provincia, no Disciplina dos Destacamentos. cazo de perturbados, ou ameaçados de Art. 113. Quando as guardas Nacionaes hou- insurreição, e e qualquer ou- de fornecer destacamentos, as penas de tra commoção, ou de incurçao de ladroes, ou disciplina as mesmas do Titulo Ca- malfeitores. pitulo 9, Sessao 1., accrescendo a pena de fa- Art. Os destacamentos das Guardas Na- zer dobrar de Serviço ate seis e podendo que forem fornecidos para os fins decla- a pena de ate oito dias. rados no numero segundo do Artigo anteceden- Art. 114. A pena de e a de reprehen- te, obrar além dos limites do terri- com mençao na Ordem do dia, nes- torio, em que tiver a Auctoridade te caso ser imposta pelo Comm do Corpo, in- que tiver ordenado, ou requisitado o destaca- dependente do Conselho de Disciplina; as ou- mento. cazos em que as Leis tras penas, excepto a de baixa do posto, pode- permittem aos Juizes a entrada dentro dos li- ser impostas por qualquer Superior ao mites de alheia. com porem de dar disso con- Art. 109. em todo caso das ao immediato Superior, a Guardas Nacionaes nao de estar sujei- dem das graduações. LEOPOLDO DE tos a Auctoridade civil: a Auctoridade Militar Art. 115. A pena de baixa do posto, só po- tomará das Guardas Nacionaes dera ser imposta pelo Conselue de Disciplina. 75 74</p><p>Em 1889, ocorreu a vinda das irmãs dominicanas, que fun- cada vez mais firmes e expressivos, dando formas proporcionais e leves daram um colégio na cidade de Goiás, cujos frutos foram altamente aos cepos de madeira cedro que trabalhava. positivos para as jovens goianas. Quando seu trabalho começou a aparecer e a ficar conhecido, Quanto ao desenvolvimento cultural de Goiás, operou-se tam- enconmendas eram-lhe dirigidas e a primeira que se tem notícia foi bém em passos lentos, como reflexo de sua limitada vida sócio-eco- mais ou menos em 1830, quando devotos lhe encomendaram a imagem nômica. do Divino Pai Eterno, que até hoje é cultuada em romaria na cidade Em 1830 fundou-se em Meia-Ponte o primeiro jornal goiano de Trindade Go. Em 1840, recebe um convite do Presidente da Matutina Meiapontense, de caráter liberal. Província para ir trabalhar nas igrejas da cidade de Goiás. Empreitou A partir dos anos 70, a imprensa goiana se desenvolveu, bata- a obra ficando hóspede do governo. Nesta ocasião, conhecendo os lhando pelas causas regionais: extensão dos trilhos de ferro às terras familiares do Presidente, gostou de uma de suas filhas e pouco depois goianas, navegação do Araguaia-Tocantins, aperfeiçoamento dos re- em 1841, casava-se com JOAQUINA PEREIRA JARDIM, fixando banhos, impulsos ao comércio, impulsos à mineração, abolição dos sua residência no Largo do Rosário. Nunca saiu da Província e escravos, imigração e maior autonomia da Província. por isso não sofreu muito a influência de outros lugares e pessoas, tinha apenas bastante inspiração ligado ao conhecimento que possuía para executar os seus trabalhos. 29 Varios são os goianos que merecem referencia, Grande foi o número de obras que empreendeu nos seus pou- entre eles podemos salientar: André Augus- cos anos de produção, destacando-se detalhes maravilhosos que mar- to de Pádua Fleury político de prestígio caram o seu estilo nos mais variados tipos e motivos da estatuária reli- nacional, Presidente de várias províncias do giosa que executou. Com um grau de instrução mínimo, demonstrou Brasil e Diretor da Escola de Direito do Largo São Francisco; Antônio Félix de Bulhões Jardim grande estudo e conhecimento da estética, do equilíbrio e da anatomia, poeta e político, muito lutou pela abolição dos dando aos seus trabalhos formas leves e esvoaçantes nos planejamen- escravos e para formar na Província uma consci- tos drapejados em suaves movimentos. Nas feições de suas peças, o ência política; José Leopoldo Bulhões Jardim, fino acabamento da carnação com seus traços delicados e angelicais. grande político e financista; foi duas vezes minis- VEIGA VALLE foi um santeiro, e viveu principalmente de tro da Fazenda no período Republicano sua arte através de encomendas que lhes eram dirigidas também de outras DOCUMENTO Por forças das familiares e políticas em que se envolveu, foi Deputado Provincial por várias vezes e Major da Guarda José Joaquim da Veiga Vale Nacional Faleceu VEIGA VALLE na cidade de Goiás em 29 de janeiro Natural de Meia Ponte, hoje Pirenópolis, ali nasceu em 9 de de 1874, acometido de uma dor ciática, tendo vivido 68 anos. Foi en- setembro de 1806. Filho do Cap. Joaquim Pereira Valle e Ana Joa- terrado no cemitério de São Miguel da cidade de na sepultura quina Pereira da Veiga. 313, ali repousa o sono da imortalidade. seu nome agora torna-se VEIGA VALLE, assim mais conhecido, fez algum aprendi- mais conhecido e divulgado para Goiás, para o Brasil e para o mundo zado, onde adquiriu conhecimentos da arte de desenhar, pintar e escul- como bem o merece, mostrando a sua colaboração para o acervo artís- pir, com o vigário local Manuel Amâncio da Luz. Sua arte e criativi- tico brasileiro, com o seu trabalho valioso. dade logo superou as lições teóricas e práticas do professor. Foi um artista quase autordidata, que evoluiu na ânsia de produzir e de criar coisas mais belas, aprimorando sua técnica, com detalhes 76 77</p><p>8.1. A escravidão e o movimento libertário A escravidão negra sustentou a exploração do ouro em No apogeu desta fase (1726-1778), as estatísticas mostraram a supe- rioridade numérica do negro sobre o branco. Paralelamente à decadência da mineração, ocorreu o esfacela- mento da instituição escrava. Para os primeiros tempos do povoamento, pode-se avaliar uma 8. MOVIMENTOS LIBERAIS E A IMPLANTAÇÃO DA relação de três para um entre escravos e livres, havendo que considerar REPUBLICA EM entre livres mulatos e forros. censo de 1804 indicou que três-quintos da população goiana era constituída de livres. Note-se que neste período se registrava a fase de transição da economia aurífera para a agro-pecuária. 8.1. A escravidão e movimento libertário A última ilusão de ouro em Goiás foram as Minas de Anicuns (1807). A falta de escravos para trabalhar nestas minas levou a se 8.2. Felix de Bulhões, o Castro Alves goiano aceitar o trabalho livre assalariado. A mudança da economia aurífera para a produção agro-pasto- 8.3. movimento republicano em Goiás ril aliviou o modus vivendi do escravo africano. negro das in- vernadas, embora escravo, vivia livre e mais distante do domínio do 8.4. Natal um republicano histórico senhor. A aventura pelas fazendas de gado, irmanou as classes e a hierarquia foi desaparecendo aos poucos. 8.5. A implantação do regime republicano 8.6. Crises políticas 30 conhecido o dito popular ser o Brasil in- ferno dos pretos, o purgatório dos brancos e o 8.7. Crise da constituição goiana paraíso dos trabalho nas minas era realmente infernizante. Tinham os negros me- 8.8. Elites dominantes Os Bulhões e os Jardim-Caiado tidos os pés na água fria, durante horas, dobrados sobre a cintura enquanto o sol caía, implacável, sobre as costas. Gripes, tuberculoses, pneumonias, escoliose eram doenças próprias dos Acrescido ainda de uma deficiente alimentação, Goiás acompanhou os movimentos liberais, que gras- os escravos não resistiam mais de 10 anos de tra- saram no Brasil durante o século XIX. trabalho nas minas. Morriam, acarretando assim, para o senhor a perda do capital invertido na sua A abolição não afetou a vida econômica da Provincia. aquisição. A transformação do regime monárquico em republi- cano ocorreu sem grandes dificuldades. Os Bulhões, dirigen- As matrículas de escravos, efetuadas a partir dos anos 70, acu- tes dc partido liberal após o 15 de novembro, apoiados pelos saram que a grande maioria dos escravos era pertencente à zona rural republicanos, tornaram-se os donos do poder em e abrangia as seguintes profissões: lavrador e vaqueiro por excelência, 78 79</p><p>e ainda, artífices compreendendo, cozinheiros, carpinteiros, pedreiros, Quando a escravidão deixou de ser o fulcro da produção e pela sapateiros, alfaiates, ferreiros, tecelões, fiandeiros e profissão não de- conjuntura nacional o preço do escravo ficou muito alto, os fazen- clarada, que significa aquele que fazia de tudo um pouco. deiros perceberam que pagar um trabalhador por baixo preço era mais lucrativo. Concomitantemente foram grassando na sociedade goiana os sentimentos humanitários de libertação do Antes do apogeu da campanha abolicionista, cujo valor se prende mais ao horizonte das idéias, o sistema escravagista foi rece- bendo cortes sucessivos. Assim vejamos, em 1823 a estatística acusou o número aproximado de 24.000 escravos. Em menos de 50 anos, ou seja em 1872 somavam-se apenas 10.652. As causas desta diminui- ção foram: morte natural, não aquisição de novos escravos, expor- tação de mão de obra para Províncias vizinhas e ainda a ação liber- tária do fundo emancipatório e das sociedades abolicionistas 31 Fundo Emancipatório foi de caráter nacional, inserido na Lei de Rio Branco em 1871. A Pro- víncia de Goiás recebia anualmente do Tesouro Nacional quotas em dinheiro para serem aplica- das no resgate de escravos. Sua contribuição não foi muito grande. Segundo dados extraídos da Câ- mara dos Deputados, até o ano de 1883 Fundo Emancipatório havia alforriado em Goiás ape- nas 468 escravos. 8.2. Felix de Bulhões, o Castro Alves goiano As sociedades abolicionistas de Goiás tomaram maior impulso no último lustro de 70 (século XIX). As primeiras organizações tiveram influxo palaciano. Os pre- Toda a geografia colonial de Goiás estava pontilhada de quilombos, alguns dos quais subsistiram até nossos dias (Mineiros, Crixás, Campos Belos, etc.). É uma manifestação sidentes Antero Cícero de Assis (Conservador), Aristides Spínola e da constante luta do negro pela sua liberdade. A sociedade escravocrata reagiu institu- Antônio Gomes Pereira Jr. (Liberais) foram os primeiros a impulsio- cionalizando a profissão do caçador de escravos foragidos: o capitão do mato (pintu- narem em Goiás o abolicionismo áulico. ra de Rugendas). 80 Instituto de Educação de Golas 81</p><p>32 Leopoldo de Bulhões deputado goiano às Cortes, tação do que se desenrolava na área nacional, políticos goianos, como apresentou em 1883 um projeto que visava a abo- Antônio José Caiado (liberal), Senador Antônio Canêdo (Conserva- lição da escravidão no Brasil, muito apreciado dor) passaram a lutar pela vinda da mão de obra européia, a fim de pela imprensa do Rio de Janeiro, mas não foi impulsionar a agro-pecuária goiana aprovado. Era um projeto que harmonizava "as- Ainda na Presidência Montandon, última do Império, o gover- pirações dos abolicionistas com o interesse dos senhores de escravo". no de Goiás adquiriu uma fazenda para ser colonizada por imigrantes italianos, que na verdade nunca chegaram a seu Félix de Bulhões, foi um dos goianos que mais batalhou pela 8.3. movimento republicano em Goiás libertação dos escravos. Em 1885, fundou o jornal Libertador, que teve como principais objetivos libertar, integrar e educar o negro no No contexto geral do Brasil, a idéia Republicana existiu de for- contexto social. Promoveu festas, angariou dinheiro para alforriar ma difusa desde o fim do período colonial. Na Inconfidência Mineira Era poeta. Compos o Hino Abolicionista Goiano. É cha- (1789), na Revolução dos Alfaiates (1798), para não falar em várias mado Castro Alves Goiano pela sua grande atuação em benefício à outras rebeliões, esteve presente a idéia republicana. libertação do negro. Sua morte, ocorrida em março de 1887, levou No momento do processo da Independência do Brasil (1808- várias sociedades emancipadoras, já constituídas em Goiás (Militar, 1822), este ideal foi em parte sufocado pela presença dos monarcas Cadetes e Inferiores, João Clapp, Comercial, Centro Libertador) a se portugueses no Brasil, pela ingerência inglesa na vida política brasi- unirem, fundando a Confederação Abolicionista Félix de leira e pelos interesses da classe dominante. Seus frutos foram positivos. Libertou muitos escravos. Assim, o movimento republicano no Brasil somente tomou al- ma e corpo a partir de 1870, justamente na década em que processa- vam transformações de ordem sócio-economica: surto cafeeiro, desen- volvimento do crédito bancário, impulsos à industrialização, deca- dência da mão de obra escrava, incremento à imigração européia, urbanização, desenvolvimento do mercado interno, etc. FELIX DE BULHÕES Após a fundação do Partido Republicano (Rio de Janeiro 1870), todas as Províncias receberam a influência deste movimento re- volucionário, embora nem sempre de forma contundente. Em Goiás, graças à sua estrutura sócio-econômica e cultural, as manifestações republicanas foram tardias e inexpressivas. 8.4. Natal um republicano histórico A Lei Áurea não encontrou nenhum negro cativo na cidade de Goiás. A notícia da abolição chegou no dia 31 de maio. Não cau- Em 1882, em decorrência da cisão do Partido Liberal Goiano, sou surpresa porque havia muito era esperada. Manuel Alves de Castro Sobrinho fundou o jornal Bocayuva que, A lei libertou em toda a Província goiana aproximadamente embora tenha circulado apenas 7 vezes, trabalhou pelo ideal republica- 4.000 escravos. Número insignificante para uma população que já no. alcançava cifra superior a 200.000 homens. No ano seguinte, um jovem goiano, que se formara na escola de Pelo exposto, vimos que a abolição em Goiás não deve ter afe- Direito de São Paulo, trouxe para a província goiana a efervescência tado a economia agro-pastoril. Mas, mesmo assim, talvez numa imi- desta chama revolucionária. 82 83</p><p>Era ele Joaquim Xavier Natal Fez renascer áreas imensas por povoar e explorar; decadência econômica sem se Bocayuva e batalhou pela divulgação de seus ideais, na época denomi- pensar em modificar a estrutura de produção; pecuária e agricultura nados subversivos. deficitárias; educação em estado embrionário; povo esquecido em Tendo como principal escopo maior desenvolvimento de suas necessidades, mas usado pelos hábeis políticos, que baixavam de- Goiás, lutou pela federação, abolição, liberdade de ensino, liberdade cretos em seu nome. de religião, eleições democráticas, etc. Nas pugnas eleitorais, seus candidatos não ganhavam votos. 8.6. Crises políticas e elites dominantes Brazil Federal (1887) foi outro jornal republicano fundado e dirigido pelo mesmo líder Natal. Pelo fato de ser Guimarães Natal cunhado dos Bulhões, a Re- No entanto, suas idéias não encontraram terreno fértil em pública em Goiás não trouxe modificação na liderança política. Goiás. Na capital da Província, encontramos no máximo 20 republi- Os Bulhões continuaram donos do poder como na fase na canos históricos. No interior temos notícia de apenas um clube Repu- qual ascendiam os liberais na área nacional. Agora, com maior mar- blicano, o de Formosa, cuja origem é decorrente de rixas no seio do gem de mando, graças à autonomia do Estado oferecida pelo novo partido Conservador (1888). regime Federação. Os primeiros anos de Goiás República estão cobertos de lutas 8.5. Implantação do regime republicano em Goiás pelo poder político. São elas, em parte, reflexo da conjuntura nacional. Governo provisório nomeou presidente do Estado o Tenente Como Goiás ainda não tinha telégrafo, a notícia da Proclama- Coronel Bernardo Vasques, que, no entanto, nem chegou a tomar pos- ção da República aqui chegou através de uma carta vinda de Franca, se. no dia 28 de novembro. No dia 25 de fevereiro de 1890, Gustavo Augusto da Paixão, A nova da Proclamação colheu de surpresa todos os políticos assumiu a Presidência do novo Estado da Província. o povareu não participava da vida política, portanto Os Bulhões desejosos de galgar o Executivo, embora mantendo o 15 de Novembro nada representou para ele. relações amistosas com Paixão, conseguem, através de Campos Salles Depois de confirmada a notícia pelo Correio Oficial do dia 1.° e Francisco Glicério, sua demissão, que se efetuou a 12 de janeiro de de dezembro, as diferentes facções políticas (liberal, conservadora e re- 1891. publicana) procuraram assumir atitudes que lhes assegurassem o poder Na impossibilidade de assumir o governo o 1° Vice-Guima- na nova ordem constituída. rães Natal, tomou posse Bernardo Antônio de Faria Albernaz A diretoria do clube republicano aclamou em praça pública Vice). Natal presidente do Estado de que não aceitou o segundo Ministério do governo de Deodoro (Ministério Lu- tamanhas responsabilidades. Sugeriu a criação de uma junta governa- cena) fez nova nomeação de Presidente e Vice Presidente para Goiás tiva, ficando esta assim constituída: Recaiu a escolha nos goianos João Bonifácio Gomes de Siqueira e Natal (Presidente), José Joaquim de Souza e Major Constâncio Ribeiro da Maia (Grupo Fleury). Eugênio Augusto de Melo. Empossado João Bonifácio a 30 de março de 1891, procurou Os efeitos do 15 de novembro em Goiás prenderam-se as ques- administrar imparcialmente, mas velho e cansado, sofrendo pressões tões administrativas e políticas. Os fatores sócio-econômicos e cultu- das diferentes facções, renunciou no dia 19 de maio de 1891. novo rais não sofreram abalos: o liberto continuou flutuante, caminhando Presidente foi Constâncio Ribeiro da Maia para o marginalismo social; as elites dominantes continuaram as mes- Com a renúncia de Deodoro (23 de novembro de 1891) o ce- mas; não ocorreu a imigração européia; os latifúndios improdutivos nário político goiano se transforma. Voltam ao poder os Bulhões. 84 85</p><p>Constâncio Ribeiro foi deposto em 19 de fevereiro de 1892, A grande preocupação da Junta Governativa foi dotar o Estado pelo Tenente Coronel Braz Abrantes, comandante do 20°. Batalhão de uma Constituição. Com este objetivo nomeou uma comissão para de Goiás, que se fez aclamar Presidente do Estado. Permaneceu neste estudar o ante-projeto, que a 7 de outubro de 1890 foi aprovado pelo cargo até o dia 18 de julho, quando Antônio José Caiado assumiu a Presidente do Estado ad referendum da Assembléia Legislativa, que presidência do Estado, na qualidade de vice eleito pelo povo, uma deveria ser convocada para 13 de maio de 1891. Sua convocação foi vez que o Presidente eleito José Leopoldo de Bulhões, renunciara ao prorrogada por várias vezes. cargo em função de suas atividades na Câmara Federal Choques entre o legislativo e o executivo geraram a primeira grande crise política de Goiás República crise da Constituição. Goi- 33 Não se deve pensar que estas crises políticas eram ás teve duas Contituições, a dos Bulhões e a dos Fleurys. próprias apenas de Goiás A turbulência polí- tica esteve presente em quase todos os Estados Após a renúncia de Deodoro, prevaleceu a Constituição de da Federação, neste curto espaço de 2 anos. Em de juhno de 1891, também conhecida pelo nome de Constituição dos Goiás, como vimos, tivemos 6 presidentes, isto sem contar com dois que não tomaram posse. No Rio Grande do Norte, a proporção foi de 10, em Minas Gerais 13, no Paraná 11, em Sergipe 7. 8.8. Elites Dominantes Bulhões e Jardim Caiado 8.7. Grande crise da Constituição goiana Paralelamente à crise do executivo, ocorria também crise Com o Marechal de Ferro no poder Central, os Bulhões conso- lenta no legislativo e as finanças do novo Estado eram lidaram seu domínio na política de grande líder desta oli- Uma das primeiras preocupações de Junta Governativa, acla- garquia foi José Leopoldo. mada a de dezembro, foi a escolha dos representantes goianos à No ano de 1904, ocorreu fracionamento do grupo, sob a lide- Constituinte rança de Xavier de Almeida, que conseguiu afastar momentaneamente Foram nossos representantes: os Bulhões do poder Senadores: José Joaquim da Souza e Antônio Amaro da Silva No entanto, em 1908, em decorrência da sucessão senatorial, Canedo. Goiás viveu clima de intranquilidade política, desaguando numa revo- Deputados: José Leopoldo de Bulhões, Sebastião Fluery Cura- lução (1909) do e Joaquim Xavier Guimarães Natal. Nesta luta sairam vitoriosos, mais uma vez, os Bulhões, a esta Todos no momento pertencentes ao altura opoiados por Eugênio Jardim e Antônio Ramos Caiado, que posteriormente, se tornaram fortes como políticos não só na área re- 34 Esta representação vai se cindir no momento da gional como na nacional. escolha do do Presidente da República: Sebas- tião Fleury Curado e José Joaquim de Souza Maio de 1909 pode ser conhecido na história política de Goi- vão apoiar Deodoro. ás como renascimento do mandonismo Foi reconhecido Os demais apoiaram Prudente de Moraes. No en- presidente do Estado, para o quatriênio 1910--913, Urbano de Gou- tanto, na escolha para Vice-Presidente, todos fi- vêa, cunhado de José Leopoldo; este se elegeu, mais uma vez, Senador caram com Floriano Esta cisão trouxe da República por repercussão no cenário político goiano. Forna- ram-se dois blocos fortes e antagônicos: dos Permaneceu nesta função até o ano de 1918, quando não mais Bulhões e dos conseguiu se 86 87</p><p>Foram desentendimentos entre o grupo bulhônico e os Jar- co, constitucional, hereditário e representativo. Que há 4 poderes: dim-Caiado, e o apoio da política de Hermes da Fonseca a estes, legislativo, executivo, judiciário e moderador. que levaram a oligarquia dos Bulhões à derrocada. Que elles são delegação da nação. A partir de 1912, a elite dominante na política goiana, vai ser Nada d'isto é exacto: é sophisma. Primeiro não há monarchia a dos Jardim-Caiado, popularmente conhecida por Caiadismo. No constitucional. Monarchia e Constituição são duas coisas que se re- seu início os documentos registram "política Eugenista." pellem: a monarchia é a vontade do rei, e uma constituição é a vontade do povo: a vontade do rei e a do povo não se combinam: ou o rei manda mais que o povo, e então a monarchia é absoluta, ou o povo 35 A política de Hermes da Fonseca denominou-se manda mais que rei, e então o povo dá cabo do rei: mata-o, ou tira- "Salvações", consistia em depor os grupos domi- lhe a coroa: mas neste caso não há mais monarchia. nantes em vários Estados, revestindo de poderes Não há monarchia representativa, porque na monarchia a na- políticos elementos de ção não pode se representar pelos seus deputados. Se a nação quer Ein Goiás recebeu o bastão do poder político o fazer deputados republicanos, o que faz a monarchia? Coronel reformado Eugênio Jardim, que, por ser cunhado dos Caiados, dividiu com eles o mando- Faz a eleição, não deixa o povo faze-la, e se não fosse assim, nismo estadual. Após sua morte, Ramos os deputados republicanos fariam do paiz uma república. Monarchia Caiado tormou-se o verdadeiro chefe político de e povo são entidades que não se entendem: não há monarchia popular, democratica, como se diz em política. Seus contemporâneos afirmam que dirigiu Goiás É mentira da Constituição a tal existência dos quatro poderes. como se fora uma grande fazenda de sua proprie- dade. Nós não temos poder legislativo, porque o povo não é que faz a eleição, 2°. o imperador pode dissolver as camaras sempre que for pa- ra bem do estado, isto é, de nós todos, mas é elle quem decide do nosso bem, e não Antônio Ramos Caiado fez presidente do Estado, fez deputa- dos, se fez sempre senador da República e fez aprovar leis de acordo o Publicador Goiano, 23 de junho de 1882. com seu interesse político e pessoal Somente foi afastado do poder quando o movimento renovador de 1930 tornou-se vitorioso. Em Goiás seu grande opositor foi o mé- dico Pedro Ludovico Teixeira. DOCUMENTO o Governo do Brazil uma Monarchia Absoluta Quando o Brazil tornou-se independente de Portugal (1822), quiz fazer uma Constituição, isto é, um certo número de leis pelas quaes se governasse, mas o imperador d'esse tempo, que era Pedro I, não consentiu nisso, disolvendo com armas os deputados. A Constituição que elle mandou fazer, e que mandou que fos- se jurada, e que é a que temos, diz que o nosso governo é monarchi- 88 89</p><p>9.1. Situação Geral do Estado Em 1925, o capitão Cordolino de Azevedo, goiano, residente no Rio, empreendeu uma viagem nostálgica a Goiás, depois de 30 anos de ausência. Escreveu, com esta ocasião, um livro, Terra Distante, que retrata seu entusiasmo Para ele Goiás atravessava uma grande fase de progresso, inaugurava-se uma nova era para a terra goiana. As principais razões do progresso goiano enumeradas pelo ca- 9. ATÉ A REVOLUÇÃO DE 30 pitão eram: Comunicações. A chegada da estrada de ferro a Goiás ti- nha revolucionado as comunicações. Nota o autor que, quando ele via- jou para o Rio, necessitou de 29 dias para percorrer a cavalo as 110 léguas que separavam a cidade de Goiás do fim da estrada de ferro, então em Uberaba; agora, 1925, em dois dias chegou de Uberaba a uma carta antes demorava 30 dias do Rio a Goiás, agora 6. Economia. A estrada de ferro estava produzindo uma ex- 9.1. Situação Geral do Estado traordinária expansão da economia goiana. Governo. Estado de Goiás era um dos poucos estados da 9.2. Comunicações União com finanças saneadas, com constantes superavit orçamentários. Esta visão otimista do capitão não parece confirmada pela 9.3. População realidade: até 1930 o Estado de Goiás continuava fora da corrente de progresso, que nos últimos 80 anos vinha transformando São Paulo e 9.4. Economia outros estados, a partir da modernização da agricultura e de um co- meço de industrialização. 9.5. Regime de propriedade: Classes sociais Examinemos os principais aspectos da situação de Goiás antes de 1930. 9.6. Governo: Administração 9.2. Comunicações Em 1824 entrou em Goiás o primeiro carro de bois, provenien- te de Minas. Foi um progresso para a época, e pouco ou nada haveriam de melhorar as comunicações depois, durante o restante do século. Uni- As três primeiras décadas do seculo XX não modifica- camente o telégrafo chegado a Goiás em 1891 supôs um enorme avan- ram a situação a que Goiás regredira como na transmissão de notícias. consequência da decadência da mineração no fim do século Dois grandes inventos tinham revolucionado as comunicações XVIII. Continuava sendo um Estado isolado, pouco povoado, durante o século XIX: no setor das comunicações marítimas o na- quase integralmente rural, com uma eccnomia de vio a vapor no setor das comunicações terrestres a estrada de fer- cia. ro. 91 90</p><p>No século XX, um novo invento veio revolucionar os trans- 36 A estrada de ferro tinha possibilitado a integração dos dois grandes impérios continentais do século portes: o automóvel. XIX: Estados Unidos e Rússia. o primeiro automóvel parece ter chegado a Goiás em 1907. A Era um grande marco nas comunicações interna- primeira estrada de rodagem foi inaugurada em 1921. Era o primeiro cionais, mais tarde aceleradas por outros grandes trecho da estrada que ligava a capital à estação terminal da estrada engenhos do homem. de ferro. progresso neste sentido foi também lento: em 1930 o movimento de veículos nesta estrada, a principal do Estado, era de Significava o transporte "rápido e barato", indispensável apenas dez por dia, entre carros e para o progresso econômico e social. Mas somente chegou a Goiás Uma geografia publicada em Goiás em 1927 resumia: "Vias de comunicação. em 1913. Na última década do século XIX tinha alcançado o Triân- gulo Mineiro a estrada de ferro Mogiana: Uberaba em 1889 e Ara- Quase nada possue este Estado. Em geral os transportes são guari em 1896. Deveria ter-se prolongado até Catalão, mas por falta feitos por carros de bois em estradas de rodagem, geralmente mal de capitais sua construção ficou paralisada. construídas e piores conservadas. Estradas carroçáveis são muito pou- cas, mesmo assim, este ano, não poderão ser trafegadas, devido às Em 1907 constituiu-se a compahnia Estrada de Ferro chuvas que assolam o Estado. Atravessando 4 municípios goianos, que deveria construir a linha Araguari-rio Araguaia. No entanto, até vê-se a Estrada de Ferro de Goiás, que muito tem desenvolvido as zo- 1931 o avanço dos trilhos tinha sido muito lento, chegando apenas até Leopoldo de Bulhões, perfazendo um total de 287 Km. em território nas que atravessa. É irrisório: mas poderia ser pior. Nos grandes caudais a na- goiano. Não havia esperanças de prolongar a estrada nem sequer até vegação é feita na sua maioria em barcos antiquados. Existem poucas a capital Goiás, pois o emprendimento resultava anti-econômico, por ser a população tão escassa. governo estadual carecia de meios barcas a vapor, e essas são Grandes zonas do Estado ficavam quase incomunicáveis: o para a construção, e o governo federal não estava disposto a um inves- timento tão vultoso num estado sem significação política e econômica norte todo, a região do Araguaia, os chapadões da divisa com a Bahia. como 9.3. População Embora um grande avanço para as comunicações com o ex- terior, os 300 Km. de estrada de ferro não poderiam significar grande A população do Estado aumentava rapidamente. censo de coisa para um Estado de mais de 600.000 quilômetros quadrados. 1900 deu para uma população de 255.284 habitantes; e o de 1920, registrou 511.919. Se estas cifras fossem exatas, a população teria dobrado nestes vinte anos, o que parece excessivo, devendo atri- buir-se a imprecisão do censo. Mas mesmo admitindo 500 mil habitantes para o Estado, a densidade populacional continuava baixíssima: 0,77 habitantes por quilômetro quadrado. Enormes extensões do Estado ficavam completa- mente despovoadas, o sudoeste e a região divisória com a Bahia: outras regiões, potencialmente ricas como o "mato grosso" goiano, ape- nas começavam a ser A região mais povoada era o sudeste, pela maior proximidade do Triângulo Mineiro e presença da Estrada de Ferro Catalão com 35 mil habitantes era em 1920 o município com maior população. 92 93</p><p>Esta população, tão rala, vivia disseminada nas grandes exten- sões das fazendas e sítios. Era uma população quase integralmente rural Os centros urbanos eram poucos e de pouca significação. 37 Goiás, a capital, contava com 8 mil habitantes. Mas era uma cidade em decadência. Não aumenta- va, nem diminuia, ao tempo que a população do Estado crescia rapidamente. As outras cidades mais populosas, Catalão, Morrinhos, Ipameri, não de- viam alcançar três mil habitantes. censo de 1920 não fez ainda a distinção entre população rural e urbana, não há, portanto, dados certos sobre este aspecto da população; é contudo quase certo que o índice de ruralidade não de- via ser inferior aos 9.4. Economia Nestas circunstâncias de carência de comunicações e de ausên- cia de centros urbanos, a economia era uma economia quase exclusi- vamente de subsistência: a produção era local e para o consumo, sen- do muito pequeno o comércio interno e a circulação Durante o século XIX o gado constituiu a principal exportação de por ser o A grande massa da população trabalhava na agricultura: único produto de fácil transporte. 110.220 pessoas, em 1920, segundo o censo, frente a 6.995 na pe- A indústria e os serviços continuavam sendo atividades eco- cuária. A criação de gado era, contudo, o setor mais dinâmico da nomicamente pouco significativas. A indústria, no sentido moderno da economia, por ser o gado em pé o produto de mais fácil exportação palavra de produção mecanizada para o mercado, não existia em e quase o único exportado em quantidade Continuava, portanto, a produção doméstica artesanal de certos bens Entre 1920-1929, o gado vivo significou quase a metade de para o próprio consumo, ou para serem vendidos no mercado local. todas as exportações e 27,69% da arrecadação total do Entre Os tecidos de algodão, feitos no tear manual, eram o produto 1889 e 1932, Goiás exportou 3.690.372 cabeças de gado; em 1928, mais importante da produção artesanal. Por isso, é relativamente ele- ano de maior exportação, vado o número de pessoas que trabalhavam no vestuário: 6.690, em Com a construção da Estrada de Ferro, a produção de arroz têxteis, 8.228 no vestuário, segundo o censo de 1920. Muitos deles, para a exportação aumentou rapidamente; no período 1928-1932, a contudo, não trabalhavam senão em tempo parcial. exportação de arroz já alcançava a metade do valor da exportação de Posteriormente, o progresso das comunicações, ao introduzir a gado. concorrência do produto industrializado, acabaria arruinando este tipo Também crescia a exportação de café em virtude, sobretudo, de produção. da instalação em Nova Veneza de uma colônia de italianos especiaii- A indústria da construção, a mais importante após a dos teci- zados em seu dos, ocupava apenas 2.551 trabalhadores, e possivelmente também de temporada ou de tempo parcial. 94 95</p><p>Igualmente reduzido era o papel econômico dos serviços. 39 censo de 1920, que abarcou 40% da totalida- comércio, o mais importante dos serviços, era um empreendimento ti- de do estado, constatou a existência de 16.000 picamente familiar. Ocupava 2.556 pessoas Sendo tão reduzida a propriedades. Destas somente 2.500 isto é vida urbana, o "tipo" era o agrupamento constituído pelo pequeno ar- 15% tinham menos de 40 hectares. A exten- são média das propriedades recenseadas era de mazem rural e algumas vendas, em torno dos quais se constituia um 1.344 hectares (280 alqueires). pequeno grupo de casas, que é o que até hoje no interior recebe o no- me de Do ponto de vista social, estes números indicam a inexistência A economia em seu conjunto continuava, pois, sendo uma eco- de uma classe de pequenos proprietários dedicados à lavoura ou à nomia de subsistência. A escassez de moeda e meios de pagamento, a pecuária. Em todo o Estado encontramos o domínio da grande pro- inexistência de vida urbana, e a dificuldade de comunicações impe- priedade rural, em mãos de poucas famílias aparentadas entre sí. Den- diam a criação de um mercado interno; a dificuldade de comunicações tro desta grande propriedade, trabalhavam e viviam seus dependentes: impedia a produção para o exterior mediante a exportação. Goiás no sitiantes, vaqueiros, meeiros, camaradas, jagunços etc., num sistema período da República Velha, permaneceu estagnado. patriarcal, herdado do período colonial. censo registrou também um fato de grande importância so- cial: em 1.000 fazendas 981 eram levadas pelos e.só 19 por administradores ou arrendatários. Não existia o absenteismo; o 38 Neste sentido, faiza notar um jornalista, Goiás es- rendimento das fazendas não poderia sustentá-lo. tava muito inferiorrizado não somente com res- peito aos grandes estados exportadores como São Na realidade a terra valia muito pouco, e ainda menos. Paulo e Minas, mas inclusive com respeito a ou- preço médio do hectare em 1920 era de Preço o mais baixo de tros estados bem menores em extensão ou popu- todo o Brasil, só levemente superior ao do território do Acre. Como lação, mas mais bem comunicados por estradas ponto de referência podemos citar o estado de São Paulo, onde o hec- de ferro: em 1929 São Paulo exportou por valor tare valia 161$, e o Estado do Rio o preço era de 106$. A pro- de 114 contos; Minas, 903 000; Espírito Santo, 193 000; Mato Grosso, 47. 000 e Goiás, dutividade da terra, e sua consequente valorização, só se dariam em 37.000. Goiás com a criação de um mercado consumidor em decorrência do processo de urbanização. Por isso a distância entre o proprietário agrícola e seus depen- dentes não poderia expressar-se bem em termos econômicos e de gê- 9.5. Regime de Propriedade: Classes sociais nero de vida, de cultura ou mentalidade. trabalho, as diversões, o vestido, até diríamos a alimentação do fazendeiro não diferiam subs- Em todo o estado, continuava dominando a grande proprie- tancialmente da de muitos de seus empregados. dade rural, o latifúndio. Isto era uma decorrência ainda do sistema A diferença mais profunda encontrava-se no prestígio e no po- de sesmarias proveniente do tempo colonial, continuado durante o der. Não existindo uma economia monetária, trabalhar para alguém Império. não significava simplesmente um contrato de serviço prestado e de A falta de mercados e de uma economia monetária contri- salário recebido era principalmente o estabelecimento de um laço pes- buiam para fortalecer o sistema de latifúndio; só as grandes fazendas soal de confiança mútua e de dependência pessoal. empregado tor- podiam vender algum excedente (principalmente gado levado pelos nava-se assim "homem do patrão", num sentido real, embora sem o tropeiros à Bahia ou Minas) à dinheiro, com que comprar o sal, armas, formalismo e sem a ideologia do antigo feudalismo. pólvora e chumbo, e outras poucas coisas imprescindíveis para a vida Todo grande proprietário, por conseguinte, embora não pu- e não produzidas na própria fazenda. desse ser considerado econômicamente poderoso por carecer de ca- 96 97</p>

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