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<p>LÍNGUA PORTUGUESA –</p><p>CLASSES DE PALAVRAS</p><p>AULA 1</p><p>Prof. Caio Augusto Lima de Castro</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>A investigação linguística é um empreendimento que há tempos provoca</p><p>a curiosidade humana. Na cultura ocidental, os primeiros registros de que temos</p><p>notícia nos remetem à Antiguidade Clássica quando os primeiros filósofos já</p><p>dedicavam parte de suas reflexões para esse instrumento tão surpreendente e</p><p>próprio da espécie humana, isto é, a língua. O encantamento pela capacidade</p><p>que os humanos têm de se comunicar e se expressar por meio dos signos</p><p>linguísticos também se faz presente na literatura. Em Emília no país da</p><p>gramática, por exemplo, Monteiro Lobato transforma a gramática em um</p><p>universo no qual muitas aventuras acontecem! Vamos lembrar um trecho, logo</p><p>do início da narrativa:</p><p>Pedrinho fez bico, mas afinal cedeu; e todos os dias vinha sentar-se</p><p>diante de Dona Benta, de pernas cruzadas como um oriental, para</p><p>ouvir explicações de gramática. — Ah, assim, sim! — dizia ele. — Se</p><p>meu professor ensinasse como a senhora, a tal gramática até virava</p><p>brincadeira. Mas o homem obriga a gente a decorar uma porção de</p><p>definições que ninguém entende. Ditongos, fonemas, gerúndios. . .</p><p>Emília habituou-se a vir assistir às lições, e ali ficava a piscar, distraída,</p><p>como quem anda com uma grande ideia na cabeça. É que realmente</p><p>andava com uma grande ideia na cabeça. — Pedrinho — disse ela um</p><p>dia depois de terminada a lição —, por que, em vez de estarmos aqui</p><p>a ouvir falar de gramática, não havemos de ir passear no País da</p><p>Gramática? (Lobato, 1934, p. 7)</p><p>Pois bem, o convite feito por Emília a Pedrinho é o mesmo que fazemos</p><p>a você. Vamos explorar esse “país” dedicando nossa atenção a um território em</p><p>particular, ou seja, voltemos nosso olhar para o módulo gramatical que se dedica</p><p>ao estudo das palavras: a morfologia. Nesta aula, discutiremos:</p><p>1. A língua como objeto de estudo;</p><p>2. Os módulos gramaticais;</p><p>3. A morfologia e o estudo do léxico;</p><p>4. Classe de palavras: um princípio de organização;</p><p>5. Os substantivos.</p><p>Atenção, senhores passageiros, a viagem já vai começar!</p><p>TEMA 1 – O ESTUDO DA LINGUAGEM AO LONGO DO TEMPO</p><p>Embora a linguística seja considerada uma ciência relativamente nova, a</p><p>curiosidade humana pelos fenômenos da linguagem e, portanto, da língua já vem</p><p>de longa data. Muito antes das ideias propagadas por Ferdinand de Saussure e</p><p>3</p><p>da publicação de seu Curso de linguística geral, filósofos, filólogos, etimologistas</p><p>se preocuparam em desvendar os mistérios que envolvem esse poderoso</p><p>instrumento com base no qual nos comunicamos, nos expressamos e</p><p>organizamos nosso pensamento, enfim, configuramos nossa visão sobre o</p><p>mundo.</p><p>Só para termos uma ideia, já no século IV a.C., encontramos tanto na</p><p>tradição oriental quanto na ocidental o início das reflexões sobre a linguagem.</p><p>No Oriente, como apontado por Petter (2002, p. 12), os hindus começaram a</p><p>estudar sua língua “para que os textos sagrados reunidos no Veda, não</p><p>sofressem modificações no momento de ser proferidos” (Os Vedas..., 2016). Mas</p><p>foi com Panini (século IV a.C.) que a primeira gramática da tradição oriental foi</p><p>elaborada. Segundo Stella (S.d.):</p><p>Esse livro contém a primeira e a mais importante descrição gramatical</p><p>que possuímos no domínio indiano. A gramática sânscrita de Panini é</p><p>a mais vasta e a mais metódica, o mais completo trabalho gramatical</p><p>de toda a Antiguidade, e, em certo sentido, de todos os tempos e de</p><p>todas as nações, no sentir de Fumi. Expõe o célebre gramático, com</p><p>uma exatidão admirável, as doutrinas dos sons, das formas, das</p><p>divisões, nominais, verbais, etc., e acrescenta a lista das raízes e dos</p><p>temas, que têm sido para a nova linguística de uma luz e auxílio</p><p>incontestáveis.</p><p>Saiba mais</p><p>Para saber mais sobre o tema acesse o link a seguir:</p><p>OS VEDAS: um livro aberto. Superinteressante, 31 out. 2016. Disponível</p><p>em: <https://super.abril.com.br/historia/os-vedas-um-livro-aberto/>. Acesso em;</p><p>30 jan. 2020.</p><p>No Ocidente, é entre os gregos que localizamos os primeiros registros de</p><p>uma reflexão linguística. Segundo Weedwood (2002, p. 21), “Platão foi o primeiro</p><p>pensador europeu a refletir sobre os problemas fundamentais da linguagem”.</p><p>Ainda segundo essa autora, Crátilo é o primeiro texto ocidental a abordar a</p><p>linguagem (Weedwood, 2002). Nele, Platão (428-427 a.C. – 348-347 a.C.)</p><p>dedica-se a discutir sobre a arbitrariedade ou não da língua no que diz respeito</p><p>à realidade. Haverá uma relação necessária entre a palavra e seu significado?</p><p>A tese de Platão vai apontar que a conexão entre palavra e coisa ocorre de</p><p>maneira indireta, logo arbitrária.</p><p>Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), discípulo de Platão, por sua vez,</p><p>dedicou-se “a uma análise precisa da estrutura linguística, chegou a elaborar</p><p>4</p><p>uma teoria da frase, a distinguir partes do discurso e a enumerar as categorias</p><p>gramaticais” (Petter, 2002, p. 26).</p><p>Segundo Weedwood (2002, p. 37), além dos pensadores gregos, temos</p><p>em Varrão (116-27 a.C.) o expoente latino a nos remeter à origem dos estudos</p><p>linguísticos. De acordo com Valenza (2005),</p><p>Os estudos morfológicos presentes no De lingua latina (KENT, 1999)</p><p>— nos quais Varrão opõe analogia e anomalia — são muito apreciados,</p><p>mas a parte em que trata de etimologia — na qual estabelece a relação</p><p>analógica entre as palavras e as coisas — recebeu críticas de muitos</p><p>autores, entre eles Quintiliano (Pereira, 2000), que considerava Varrão</p><p>"o mais culto dos romanos”.</p><p>Como indica Petter (2002), Varrão empenhou-se nos estudos gramaticais,</p><p>procurando definir a gramática como ciência e arte.</p><p>Durante o período da Idade Média, os estudos acerca da linguagem</p><p>continuaram a ocorrer junto às atividades empreendidas nos monastérios. Uma</p><p>característica marcante das investigações empreendidas no referido período é o</p><p>surgimento das gramáticas descritivas, que se baseavam na forma (estruturas,</p><p>paradigmas que pudessem favorecer o aprendizado do latim como língua</p><p>estrangeira). Essas gramáticas, porém, deram vez às gramáticas analíticas.</p><p>Já no Renascimento e Iluminismo, o desenvolvimento da reflexão acerca</p><p>da linguagem dar-se-á com base em duas perspectivas diferentes:</p><p>a. A abordagem particular, que se voltava para os fenômenos físicos que</p><p>distinguiam as línguas e estava, metodologicamente, mais próxima das</p><p>ciências biológicas;</p><p>b. A abordagem universal, que se voltava para os princípios subjacentes à</p><p>linguagem e, portanto, estava mais próxima da filosofia e da lógica.</p><p>Por sua vez, no século XIX tivemos o desenvolvimento do método</p><p>comparativo que, como o próprio nome já diz, trata-se do estudo comparado das</p><p>línguas, o qual deixa evidente o fato de que “as línguas se transformam com o</p><p>tempo, independentemente da vontade dos homens, seguindo uma necessidade</p><p>própria da língua e manifestando-se de forma regular” (Petter, 2002, p. 12).</p><p>Um nome a se destacar nesse século XIX é o de Humboldt (1767-1835).</p><p>O nomeado linguista lançou a teoria sobre a forma interna e a forma externa da</p><p>língua. Em linhas gerais, a forma externa da língua corresponderia aos sons</p><p>(matéria bruta); já a forma interna seria o padrão ou estrutura de gramática e</p><p>significado imposto sobre a matéria bruta e que diferencia uma língua da outra</p><p>5</p><p>(Weedwood, 2002, p.108). Essa concepção estrutural vai embasar a corrente</p><p>estruturalista no século XX.</p><p>Além disso, Humboldt compreende que a língua é dinâmica e não estática.</p><p>Assim, para ele, “uma língua não é um conjunto de enunciados prontos</p><p>produzidos pelos falantes, mas os princípios ou regras subjacentes que</p><p>possibilitam aos falantes produzir tais enunciados e, mais que isso, um número</p><p>ilimitado de enunciados” (Weedwood, 2002, p.108). Também essas intuições</p><p>servirão como base para o desenvolvimento do gerativismo chomskiano</p><p>proposto no século XX.</p><p>É todo esse panorama</p><p>histórico acerca dos estudos linguísticos que</p><p>culmina na instauração da linguística como uma ciência autônoma, logo no</p><p>começo do século XX, a partir da publicação do Curso de linguística geral, em</p><p>1916, tal qual falamos no início deste tema. Como afirma Petter (2002, p.13):</p><p>Antigamente, a Linguística não era autônoma, submetia-se às</p><p>exigências de outros estudos, como a lógica, a filosofia, a retórica, a</p><p>história, ou a crítica literária. O século XX operou uma mudança central</p><p>e total dessa atitude, que se expressa no caráter científico dos novos</p><p>estudos linguísticos, que estarão concentrados na observação dos</p><p>fatos da linguagem.</p><p>Vimos até aqui um breve percurso dos estudos da linguagem ao longo do</p><p>tempo. Nesse itinerário, procuramos destacar a contribuição mais marcante de</p><p>cada período até a instauração da linguística como uma ciência autônoma no</p><p>século XX. No próximo tema, vamos discutir como a língua é abordada dentro</p><p>dos estudos linguísticos.</p><p>TEMA 2 – A LÍNGUA E OS MÓDULOS GRAMATICAIS</p><p>Como vimos no Tema 1, a Linguística adquire estatuto de ciência no</p><p>século XX, tendo em Saussure o seu progenitor. Mas, se os estudos da</p><p>linguagem já existiam muito antes das ideias saussureanas, por que ele é tido</p><p>como o fundador da linguística? Para responder a essa pergunta, um primeiro</p><p>ponto que precisamos considerar é a ruptura que Saussure faz com a tradição</p><p>histórica dos estudos linguísticos. Até então, os estudos da linguagem estavam</p><p>pautados no método histórico-comparativo, portanto, dentro de uma perspectiva</p><p>diacrônica. Saussure, por sua vez, considera a sincronia como ponto de partida</p><p>para a investigação da língua, o que lhe permite definir um novo objeto de</p><p>investigação e análise linguística.</p><p>6</p><p>Esse novo objeto é a língua que, sendo uma parte da linguagem, passou</p><p>a ser compreendida como um sistema de signos de natureza homogênea,</p><p>coletiva e exterior ao indivíduo. Essa ideia está presente na dicotomia língua</p><p>(langue) e fala (parole). Enquanto a língua é social, a fala é individual.</p><p>Os elementos que constituem a língua são chamados de signos</p><p>linguísticos, que são compostos por um significante (imagem acústica) e um</p><p>significado (conceito), duas faces de uma mesma moeda. Esquematicamente:</p><p>Quadro 1 – Signo linguístico</p><p>Signo linguístico</p><p>Cabe lembrar que o signo linguístico é arbitrário, isto é, não há motivação</p><p>para a relação entre um significante e um significado. Ele também é linear.</p><p>Dentro dessa perspectiva, a língua constitui-se como uma forma (um todo</p><p>organizado) em que cada elemento se define em relação ao outro, por isso</p><p>constitui-se também como um sistema de valores. Assim, as relações</p><p>estabelecidas entre os signos linguísticos se dão tanto de forma sintagmática</p><p>(eixo das combinações) quanto paradigmática (eixo das seleções).</p><p>Saiba mais</p><p>Por não fazer parte do escopo das discussões aqui apresentadas, não</p><p>vamos nos aprofundar na questão das relações sintagmáticas e paradigmáticas.</p><p>Para os objetivos de nossa aula, é suficiente saber que no exemplo apresentado</p><p>existem combinações que se estabelecem entre a, Maria, comprou, um e carro,</p><p>as quais permitem a constituição da sentença tal qual foi apresentada. Nesse</p><p>sentido, a se junta a Maria formando o sintagma A Maria e assim por diante.</p><p>Essas são as chamadas relações sintagmáticas. Agora é verdade que, para a</p><p>escolha realizada (A Maria), existem outras tantas possibilidades, tais como: A</p><p>moça, A estudante de letras chamada Maria, A filha de Ana etc. Essas são as</p><p>chamadas relações paradigmáticas.</p><p>7</p><p>Algo tão instigante para a investigação e análise científica como o é a</p><p>língua demanda uma certa logística ou organização para abordá-la, visto que</p><p>seria muito difícil tratar de todas as questões a ela concernentes em um único</p><p>módulo. Para melhor compreendermos como seu estudo é organizado, podemos</p><p>compará-lo às especificidades da medicina. Isto é, embora tenhamos um único</p><p>só corpo, para tratar do coração temos o cardiologista; para tratar do aparato</p><p>respiratório, o otorrinolaringologista; do sistema sanguíneo, o hematologista e</p><p>assim por diante.</p><p>De maneira análoga, podemos pensar o tratamento que a língua recebe</p><p>dentro da linguística. Assim, uma primeira especificação diz respeito à</p><p>microlinguística e a macrolinguística. Grosso modo, na primeira encontramos os</p><p>estudos voltados para a língua em si. Já na macrolinguística temos os estudos</p><p>dedicados à língua e suas relações contextuais, ideológicas etc. Nesta aula,</p><p>estamos dentro do escopo da microlinguística e nela encontramos os chamados</p><p>módulos gramaticais, cada um deles com uma particularidade:</p><p>1. Fonética e fonologia: responsável pela investigação dos aspectos sonoros</p><p>da língua. Seu objeto de análise são os fonemas e os fones;</p><p>2. Morfologia: área da linguística que se volta para o estudo da palavra;</p><p>3. Sintaxe: componente gramatical que vai se debruçar sobre as estruturas</p><p>linguísticas como, por exemplo, as regras de boa formação de uma</p><p>sentença;</p><p>4. Semântica: área da linguística que se volta ao estudo do significado.</p><p>Saiba mais</p><p>O termo regra está aqui empregado não como as prescrições oriundas da</p><p>gramática normativa/prescritiva, mas como o entendemos dentro dos estudos</p><p>gerativistas, ou seja, entendemos essas regras como princípios universais, os</p><p>quais, uma vez parametrizados, irão compor as distinções entre as línguas.</p><p>Integram a macrolinguística os estudos desenvolvidos na sociolinguística,</p><p>na psicolinguística, na análise do discurso e da conversação, na pragmática, na</p><p>linguística textual etc.</p><p>Vimos neste tema como a perspectiva sincrônica proposta por Saussure</p><p>contribuiu para o estabelecimento da linguística como uma ciência autônoma, no</p><p>início do século XX. Vimos também, de maneira geral, como a língua é abordada</p><p>8</p><p>dentro dos estudos linguísticos e quais são os módulos gramaticais. A partir de</p><p>agora, vamos voltar nossa atenção para os estudos desenvolvidos na</p><p>morfologia.</p><p>TEMA 3 – A MORFOLOGIA E O ESTUDO DO LÉXICO</p><p>Como dissemos anteriormente, estando voltada para a palavra, a</p><p>morfologia é o ramo da linguística que se dedica ao estudo da estrutura dos</p><p>vocábulos que integram uma língua. Sua perspectiva de análise subdivide-se em</p><p>duas vertentes: o da morfologia lexical e o da morfologia flexional.</p><p>Na morfologia lexical, debruçamo-nos sobre a investigação dos processos</p><p>de formação de palavra, bem como a investigação das classes de palavras. Já</p><p>na morfologia flexional, desenvolvemos o estudo das flexões verbais e nominais.</p><p>Entretanto, antes de continuarmos nossa reflexão, é fundamental interrogarmos</p><p>sobre a natureza do chamado léxico. Afinal, o que vem a ser isso?</p><p>3.1 O léxico</p><p>Dentro dos estudos morfológicos, denominamos léxico (ou léxico mental)</p><p>a “lista de entradas lexicais de um falante nativo” (Rocha, 2008). Rocha (2008,</p><p>p. 74) nos mostra que as entradas lexicais correspondem a “toda e qualquer</p><p>forma linguística que a pessoa conhece ou utiliza”. Essa afirmação, contudo,</p><p>pode nos levar a crer que a melhor representação do léxico seria um dicionário,</p><p>afinal, nele encontramos uma série de itens que conhecemos. Contudo, essa</p><p>associação é enganosa e, por isso, precisamos estar atentos.</p><p>Muito mais do que um dicionário, o léxico corresponde àquele conjunto de</p><p>conhecimentos mais abrangentes que temos sobre as palavras de uma língua.</p><p>De acordo com Rocha (2008), ele abriga tanto os lexemas – palavras que</p><p>apresentam uma ou mais raiz – quanto aquelas palavras que não têm raiz e que</p><p>são chamadas de instrumentos gramaticais, ou seja, preposições, conjunções,</p><p>artigos etc.</p><p>Saiba mais</p><p>No léxico são encontradas informações fonológicas, informações</p><p>sintáticas, informações semânticas e informações discursivas</p><p>9</p><p>Costumamos chamar de lista aberta os lexemas, sendo essa a parte do</p><p>léxico que sofre as maiores mudanças</p><p>provenientes dos processos de formação</p><p>de palavras ou empréstimos linguísticos. Por outro lado, a lista fechada diz</p><p>respeito aos instrumentos gramaticais.</p><p>Você já percebeu que o conjunto das preposições, por exemplo,</p><p>permanece o mesmo? Em contrapartida, quantas palavras novas você percebe</p><p>ou mesmo cria diariamente?</p><p>3.2 Palavras e morfemas</p><p>Uma vez compreendida a noção de léxico, cabe-nos, agora, indagar sobre</p><p>o que vem a ser a unidade de análise da morfologia, isto é, a palavra. Em um</p><p>primeiro momento, você pode pensar que palavra é isso que vemos no papel</p><p>separada uma da outra por um espaço em branco. Todavia, a noção de palavra</p><p>é mais complexa que isso, já que a escrita é uma representação gráfica da língua</p><p>falada. Assim, o que nos permite entender que [gwardaʃuva] é uma palavra e não</p><p>duas?</p><p>Dentro dessa perspectiva, é necessário pensarmos em algum critério que</p><p>possa nos auxiliar na determinação do que vem a ser, então, uma palavra. Como</p><p>aponta Câmara Júnior (2016), Bloomfield estabelece que temos dois tipos de</p><p>“unidades formais” na morfologia: as formas livres e as formas presas. Grosso</p><p>modo, as formas livres correspondem àquelas que funcionam de maneira isolada</p><p>como “comunicação suficiente” (Câmara Jr, 2015, p. 69). Por sua vez, as formas</p><p>presas só funcionam quando associas a outras. Vamos aos exemplos:</p><p>a. Forma livre: vamos considerar a seguinte questão: Como a Maria se sente</p><p>hoje? Resposta: Infeliz.</p><p>Nesse caso, infeliz é uma forma livre, pois funciona isoladamente como</p><p>comunicação eficiente.</p><p>b. Forma presa: como a palavra infeliz é formada? É formada pela junção de</p><p>in + feliz. Nesse caso, “in” e “feliz” são consideradas formas presas.</p><p>O resultado a que chegamos quando utilizamos esses critérios</p><p>denominamos de morfema: unidade mínima com significado. Assim, a</p><p>morfologia vai se concentrar no estudo dos morfemas de uma língua.</p><p>10</p><p>Vimos nesse tema alguns conceitos básicos da morfologia. Léxico,</p><p>palavra, morfema são os termos científicos que utilizamos neste módulo da</p><p>gramática. No próximo tema, vamos iniciar nossa discussão acerca das classes</p><p>de palavra. Vale lembrar que esse estudo está inserido no terreno da morfologia</p><p>lexical.</p><p>TEMA 4 – AS CLASSES DE PALAVRAS</p><p>Antes de iniciarmos a discussão acerca das classes de palavras,</p><p>gostaríamos de trazer um exemplo que se encontra fora do domínio da gramática</p><p>para, em seguida, voltarmos a esse território, pois acreditamos que o referido</p><p>exemplo nos ajuda na compreensão das classes.</p><p>Imaginemos, pois, que combinamos de ir a um estádio de futebol, para</p><p>prestigiarmos o time para o qual torcemos em uma final de campeonato</p><p>considerada um clássico, por exemplo, uma final entre Corinthians e Palmeiras,</p><p>Grêmio e Atlético, Coritiba e Atlético Paraense etc. Ao chegarmos ao estádio,</p><p>encontramos uma forma de organização para acomodar os torcedores, de forma</p><p>que dificilmente um torcedor corinthiano irá se sentar no lado do estádio</p><p>destinado aos torcedores palmeirenses e vice-versa, não é mesmo?</p><p>Pois bem, há no estádio de futebol um princípio de organização que busca</p><p>reunir os torcedores de acordo com as suas preferências em relação aos times.</p><p>Algo parecido encontramos nos estudos gramaticais, quando vamos fazer o</p><p>estudo das palavras. Assim, considerando-se alguns critérios, as palavras são</p><p>agrupadas nas chamadas classes de palavra.</p><p>4.1 Os critérios de classificação e as classes de palavras</p><p>Câmara Jr. (2016, p. 75) ajuda-nos a compreender a natureza dos</p><p>critérios utilizados para estabelecermos as classes de palavras. De acordo com</p><p>o nomeado estudioso, são três os critérios que utilizados para a classificação</p><p>das palavras, por ele chamadas de “vocábulos formais”. O primeiro deles é o</p><p>critério semântico, o qual diz respeito ao que as palavras significam. O segundo</p><p>critério está associado aos aspectos mórficos, ou seja, relaciona-se às</p><p>“propriedades de forma gramatical que podem apresentar”. O terceiro critério é</p><p>funcional, pois trata da função que a palavra exerce em uma sentença.</p><p>11</p><p>Segundo Câmara Jr. (2015, p. 77), em português, o critério</p><p>morfossemântico “parece dever ser o fundamento primário da classificação”.</p><p>Isso posto, quais seriam as classes de palavras da língua portuguesa? Em</p><p>português, são dez as classes de palavras, as quais se subdividem em variáveis</p><p>e invariáveis. O conjunto das variáveis é composto por: substantivo, adjetivo,</p><p>artigo, numeral, pronome e verbo. Por sua vez, o conjunto das invariáveis é</p><p>constituído por: advérbio, preposição, conjunção e interjeição. O quadro a seguir</p><p>ajuda-nos a visualizar essa classificação:</p><p>Quadro 2 – Classes de palavras</p><p>Vimos neste tema que, essencialmente, as classes de palavras</p><p>correspondem a um princípio de organização, cujos critérios semântico, mórfico</p><p>e funcional nos permitem agrupá-las em um arranjo que se subdivide em</p><p>variáveis e invariáveis. As especificidades de cada uma das classes passam a</p><p>ser analisadas no próximo tema.</p><p>TEMA 5 – OS SUBSTANTIVOS</p><p>Com toda a certeza, ao longo de nossa formação acadêmica, em algum</p><p>momento, entramos em contato com a noção de substantivo, não é verdade?</p><p>Muito provavelmente você ouviu alguém dizer que os substantivos são aquelas</p><p>palavras utilizadas para nomear as coisas que existem no mundo. De igual</p><p>VARIÁVEIS</p><p>SUBSTANTIVO</p><p>ADJETIVO</p><p>ARTIGO</p><p>NUMERAL</p><p>PRONOMES</p><p>VERBOS</p><p>INVARIÁVEIS</p><p>ADVÉRBIO</p><p>PREPOSIÇÃO</p><p>CONJUNÇÃO</p><p>INTERJEIÇÃO</p><p>CLASSES DE PALAVRAS</p><p>12</p><p>maneira, é bem possível que em alguma etapa de sua formação escolar, algum</p><p>professor ou professora solicitou que você separasse os substantivos em</p><p>concretos e abstratos, próprios e comuns, não é verdade? Vamos fazer um</p><p>teste? Primeiro, leia o seguinte texto, de minha autoria:</p><p>Flor</p><p>A menina Flor era conhecida pelo amor que sentia pelas flores. Um dia,</p><p>andando por um imenso jardim, Flor colheu uma flor para seu avô</p><p>marinheiro. O marinheiro contava-lhe muitas histórias bonitas. Fadas e</p><p>unicórnios eram os personagens favoritos da criança. Quando Flor</p><p>chegou ao avô e lhe entregou o singelo presente, o olho verde do avô</p><p>encheu-se de alegria. E naquela tarde, como num passe de mágica, o</p><p>verde envolveu os dois, traduzindo-se em felicidade e esperança.</p><p>Agora, observando atentamente as palavras utilizadas para formar a</p><p>narrativa, como você classificaria a palavra flor? Substantivo próprio ou comum?</p><p>E marinheiro? E verde? Outra pergunta ainda cabe ser feita: se os substantivos</p><p>nomeiam coisas que existem no mundo, como fica a classificação de fadas e</p><p>unicórnios? Como podemos perceber, quando diante de um texto, o exercício de</p><p>classificação, que poderia parecer tão fácil, adquire um maior grau de</p><p>complexidade, não é mesmo?</p><p>Fizemos esse breve exercício para que você tenha em mente que, embora</p><p>a gramática tradicional (cujo viés será aqui utilizado para apresentar as classes</p><p>de palavras) estabeleça uma classificação das palavras, nosso olhar jamais deve</p><p>perder seu senso crítico e assumir os pressupostos dessa mesma gramática</p><p>como dogmas ou verdades absolutas. Diante de um texto, tudo pode se</p><p>modificar.</p><p>5.1 Substantivos e sua subdivisão</p><p>De acordo com Bechara (2001, p. 113), a classe dos substantivos se</p><p>subdivide em: substantivos concretos, abstratos, próprios e comuns. “Os</p><p>substantivos concretos nomeiam pessoas, lugares, animais, vegetais, minerais</p><p>e coisas”. Por sua vez, “os substantivos abstratos designam ações (beijo,</p><p>trabalho, saída, cansaço), estado e qualidade (prazer, beleza), considerados fora</p><p>dos seres, como se tivessem existência individual” (Bechara, 2001, p. 113).</p><p>O conjunto dos substantivos concretos subdivide-se em substantivos</p><p>próprios e comuns. Ainda segundo Bechara (2001, p. 113), os substantivos</p><p>próprios são utilizados para se referir “a um objeto ou a um conjunto de objetos,</p><p>mas sempre individualmente”. Eles se subdividem em antropônimos, os quais</p><p>se</p><p>13</p><p>aplicam às pessoas (exemplo: João, Maria, Carlos etc.) e topônimos, destinados</p><p>a designar lugares e acidentes geográficos (exemplo: São Paulo, Curitiba, Brasil</p><p>etc.).</p><p>Já os substantivos comuns dizem respeito “a um ou mais objetos</p><p>particulares que reúnem características inerentes a da classe: homem, mesa,</p><p>livro, cachorro, sol, fevereiro, segunda-feira, papa” (Bechara, 2001, p. 113). Os</p><p>substantivos comuns podem ser subdivididos em contáveis e não-contáveis.</p><p>Para ilustrar como é que funciona essa subdivisão, consideremos as seguintes</p><p>ocorrências:</p><p>a. A Maria comprou dois livros e três canetas.</p><p>b. A beleza de Maria é contagiante.</p><p>Como podemos perceber, em (a), a quantidade de itens adquiridos por</p><p>Maria pode ser mensurada, a saber, dois foram os livros comprados e três, as</p><p>canetas. Contudo, o mesmo não pode ser dito em relação a (b). Como quantificar</p><p>a beleza de Maria? Assim, em (a), temos a presença de substantivos contáveis,</p><p>já em (b), estamos diante de um substantivo incontável. De acordo com Bechara</p><p>(2001, p. 114), portanto, os substantivos contáveis dizem respeito aos “objetos</p><p>que existem isolados como partes individualmente consideradas”. Por outro lado,</p><p>os substantivos não-contáveis referem-se à “classe dos objetos contínuos, não</p><p>separados em partes diversas, que podem ser massa ou matéria ou ainda uma</p><p>ideia abstrata” (Bechara, 2001, p. 114). Cabe lembrar que os substantivos</p><p>coletivos integram a classe dos substantivos não contáveis.</p><p>Os substantivos coletivos se organizam em:</p><p>1. Conjunto de pessoas: caravana, comunidade, elenco, auditório, etc;</p><p>2. Conjunto de animais: alcateia, ninhada, rebanho, gado, etc;</p><p>3. Conjunto de coisas: granizo, constelação, antologia, frota, etc.</p><p>No diagrama a seguir, podemos visualizar melhor as subdivisões</p><p>concernentes à classe dos substantivos:</p><p>14</p><p>Quadro 3 – Classes dos substantivos</p><p>Vimos nesta seção que a classe dos substantivos apresenta uma série de</p><p>subdivisões e que, essencialmente, são empregados para nomear coisas. Vimos</p><p>também que, embora a classificação apresentada pareça ser eficiente no</p><p>tratamento dos substantivos, a depender do contexto, ela pode ser alterada,</p><p>como foi demonstrado no texto “Flor”.</p><p>5.2 Os substantivos e suas flexões</p><p>A fim de nos situarmos no nosso estudo, é importante considerarmos que</p><p>a análise das flexões dos substantivos encontra-se no escopo da morfologia</p><p>flexional. Isso posto, ao afirmamos que os substantivos integram a classe dos</p><p>elementos variáveis, isso significa que eles têm sua forma alterada. Para que</p><p>você possa compreender melhor essa proposição, vamos considerar o seguinte</p><p>exemplo:</p><p>1. (a) O menino ganhou uma bola.</p><p>Em (1a), temos que um dado elemento (X) ganhou um dado elemento (Y).</p><p>No caso, X corresponde a 1 menino (X = 1 menino) e Y, a 1 (bola Y = 1 bola).</p><p>Se, alterássemos o valor de X para 2 e Y para 3, teríamos como resultado, em</p><p>linguagem natural, o seguinte resultado:</p><p>2. (a) Dois meninos ganharam três bolas.</p><p>Se fixarmos nossa atenção nos substantivos menino e bola entre (1a) e</p><p>(2a), percebemos uma variação, não é verdade? O acréscimo do morfema [s]</p><p>em (2a) expressa a flexão de número. Em (1a), temos a forma singular e, em</p><p>SUBSTANTIVOS</p><p>concretos</p><p>próprios</p><p>antropônimos topônimos</p><p>comuns</p><p>contáveis não contáveis</p><p>abstratos</p><p>15</p><p>(2a), a forma de plural. Nesta aula, não vamos nos aprofundar no estudo das</p><p>flexões. Por enquanto nosso objetivo é basicamente fazer uma apresentação</p><p>geral. A análise mais detida ocorrerá no momento em que discutirmos as</p><p>desinências.</p><p>Agora, considere o seguinte exemplo:</p><p>3. (a) O aluno de letras deve ser muito dedicado.</p><p>(b) A aluna de letras deve ser muito dedicada.</p><p>Com toda a certeza, entre (3a) e (3b), você é capaz de notar alguma</p><p>diferença. Já que estamos tratando dos substantivos, vamos nos concentrar nos</p><p>termos aluno e aluna. Como podemos perceber, em (3a), temos a forma</p><p>masculina da palavra e, em (3b), a forma feminina. Essa variação expressa a</p><p>chamada flexão de gênero.</p><p>Por fim, vamos observar o que acontece nas próximas ocorrências:</p><p>4. (a) A Ana comprou um carro.</p><p>(b) A Ana comprou um carrinho.</p><p>(c) A Ana comprou um carrão.</p><p>A observação das ocorrências apresentadas em (4) nos revela alteração</p><p>em um termo específico: carro em (4a), carrinho em (4b) e carrão em (4c). Essa</p><p>variação refletida no substantivo em questão exprime a noção de diminutivo em</p><p>(4b), visto ser carrinho uma forma diminuta de carro e do aumentativo em (4c),</p><p>já que carrão designa a forma aumentada de carro. Essa variação reflete a flexão</p><p>de grau.</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Vimos em nossa aula que as entradas lexicais presentes no léxico se</p><p>dividem em listas aberta e fechada. Considerando que as maiores mudanças</p><p>são verificadas na lista aberta, faça uma busca na internet, jornais, revistas de</p><p>palavras que foram incorporadas à língua portuguesa mais recentemente. Em</p><p>seguida, responda à questão: o empréstimo linguístico é algo que deve ser</p><p>barrado, a fim de se assegurar a sobrevivência da língua portuguesa? Discuta</p><p>com seus colegas e com seu professor-tutor.</p><p>16</p><p>FINALIZANDO</p><p>Nossa aula foi repleta de informações e conhecimentos, não é mesmo?</p><p>Vamos sistematizar o que discutimos, a fim de melhor organizar nossas ideias e</p><p>facilitar o nosso estudo. Na aula 1, discutimos sobre:</p><p> O estudo da linguagem ao longo do tempo;</p><p> A língua e os módulos gramaticais;</p><p> A morfologia e o estudo do léxico;</p><p> As classes de palavras;</p><p> O substantivo.</p><p>Retome as discussões para melhor compreensão do que foi abordado e,</p><p>em caso de dúvidas, busque auxílio de seu tutor.</p><p>17</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BECHARA, E. Moderna gramática portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro:</p><p>Lucerna, 2001.</p><p>CAMARA JÚNIOR, J. M. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis/RJ:</p><p>Vozes, 2016.</p><p>LOBATO, M. Emília do país da gramática. São Paulo: Brasiliense, 1934.</p><p>OS VEDAS: um livro aberto. Superinteressante, 31 out. 2016. Disponível em:</p><p><https://super.abril.com.br/historia/os-vedas-um-livro-aberto/>. Acesso em; 30</p><p>jan. 2020.</p><p>PETTER, M. Linguagem, língua, linguística. in: FIORIN, J. L. (Org.) Introdução</p><p>à linguística I: objetos teóricos. São Paulo: Contexto, 2002, p. 11-24.</p><p>ROCHA, L. C. A. Estruturas morfológicas do português. São Paulo: Martins</p><p>Fontes, 2008.</p><p>SAUSSURE, F. de. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2006.</p><p>STELLA, J. B. A gramática de Panini. Revista UFPR, S.d. Disponível em:</p><p><http://revistas.ufpr.br/letras/article/viewFile/19908/13133>. Acesso em; 30 jan.</p><p>2020.</p><p>VALENZA, G. M. Etimologia de Varrão: a origem dos nomes de imortais e</p><p>mortais. Revista do Gel, 2005. Disponível em:</p><p><https://revistas.gel.org.br/rg/article/download/313/217>. Acesso em: 30 jan.</p><p>2020.</p><p>WEEDWOOD, B. História concisa da linguística. Trad: Marcos Bagno. São</p><p>Paulo: Parábola Editorial, 2002.</p>

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