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<p>Teoria da Narrativa</p><p>Estudo dos principais aspectos teóricos e conceituais da narrativa e de sua estrutura, considerando suas</p><p>características, seus elementos e as diversas relações entre eles.</p><p>Prof. Rodrigo Jorge Ribeiro Neves</p><p>1. Itens iniciais</p><p>Propósito</p><p>A compreensão do funcionamento de uma narrativa é fundamental para a análise e interpretação de textos</p><p>que relatam uma sequência de acontecimentos, encadeados ou não. Para isso, conheceremos seus</p><p>componentes e os modos como eles se organizam para que a narrativa possa cumprir o seu principal papel:</p><p>contar uma história.</p><p>Preparação</p><p>Antes de iniciar seu estudo, pesquise e acesse o E-Dicionário de Termos Literários, de Carlos Ceia, disponível</p><p>na Internet, para entender conceitos específicos da área.</p><p>Objetivos</p><p>Reconhecer a universalidade da Narrativa.</p><p>Identificar as principais características do Gênero Narrativo.</p><p>Identificar os elementos da Narrativa.</p><p>Reconhecer o conceito de Narratividade.</p><p>Introdução</p><p>Contar histórias é uma das atividades fundamentais da existência humana. Por meio delas, construímos e</p><p>reconstruímos, simbolicamente, o mundo ao nosso redor.</p><p>Compreender os mecanismos envolvidos na construção de histórias, ou narrativas, é fundamental não apenas</p><p>para saber como chegamos até aqui, mas também para enxergar as possibilidades de caminhos que temos</p><p>adiante.</p><p>Por isso, a Teoria da Narrativa é de grande importância. Também conhecida como Narratologia, ela é a parte</p><p>da Teoria Literária que estuda as narrativas, seus elementos e efeitos. Apesar de, desde sempre, as histórias</p><p>estarem presentes em nossas vidas, o desenvolvimento desse ramo dos estudos literários é relativamente</p><p>recente, mas já conta com diversos conceitos e tendências críticas que, cada vez mais, vêm sendo</p><p>atualizados, como acontece em toda área de estudos diante de novas descobertas e demandas.</p><p>Portanto, neste conteúdo, demonstraremos como se constitui a universalidade da Narrativa e analisaremos as</p><p>principais características do Gênero Narrativo. Em seguida, identificaremos os principais elementos narrativos</p><p>que compõem a sua estrutura e, por fim, examinaremos a função exercida pelas histórias por meio do conceito</p><p>de Narratividade.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>Eduardo Galeano, escritor uruguaio.</p><p>1. A universalidade da Narrativa</p><p>Feitos de Histórias</p><p>Por que contamos histórias?</p><p>O escritor uruguaio Eduardo Galeano (2012) afirmou certa</p><p>vez que, ao contrário do que dizem os cientistas, não somos</p><p>feitos de átomos, mas de histórias. A metáfora utilizada por</p><p>Galeano, como podemos perceber, não tem nenhuma</p><p>pretensão de ser tomada como uma conclusão científica,</p><p>mas de destacar a importância das histórias para a natureza</p><p>humana.</p><p>Somos feitos de átomos, sonhos, medos, paixões, crenças,</p><p>ódio, culpa, esperança, ideologias, preconceito, violência,</p><p>descobertas, governos, memória, intolerância e tantos</p><p>outros produtos de nossa necessidade de contar e de ouvir</p><p>histórias.</p><p>No Paleolítico, as condições climáticas e os</p><p>animais eram difíceis de encarar. As cavernas</p><p>serviam como refúgio para a sobrevivência do</p><p>ser humano. Nelas, os desenhos rupestres</p><p>registram imagens e histórias daquele tempo.</p><p>Pesquisas recentes, inclusive, apontam muitas</p><p>delas como precursoras das narrativas</p><p>cinematográficas.</p><p>Dá para acreditar? Aquelas paredes não eram</p><p>sua única proteção. As histórias também.</p><p>Diante de uma realidade ainda desconhecida</p><p>para o homem, as narrativas gravadas na pedra, de certa maneira, contribuíram para que ele a conhecesse</p><p>melhor e a enfrentasse. Por isso, podemos pensar no ato de narrar como uma forma de produzir</p><p>conhecimento e de se prevenir do que não é bom.</p><p>Curiosidade</p><p>Pesquisadores também acreditam que alguns desenhos pré-históricos são relatos de eventos passados,</p><p>uma espécie de ritual de agradecimento ou de forma de recordação. Contar histórias, nesse sentido, é</p><p>também lembrar.</p><p>A memória tem papel fundamental na experiência humana. É preciso lembrar não apenas para que possamos</p><p>aprender uma lição ou evitar erros, mas também para nos conhecermos melhor.</p><p>As narrativas são poderosas ferramentas para a memória, pois elas reconstroem a experiência por</p><p>meio da linguagem e nos oferecem outras maneiras de olhar.</p><p>Sacerdotisa de Delfos, John Collier, 1891.</p><p>Busto de Aristóteles.</p><p>É como se criassem um tipo de espelho. Não</p><p>esse que temos em nossas casas, no qual</p><p>conferimos cada detalhe, verificando se está</p><p>tudo em ordem e se tem algo a ser ajeitado.</p><p>Não é disso que estamos tratando. As</p><p>narrativas criam espelhos que nos colocam</p><p>diante do que vemos, mas, principalmente, do</p><p>que não vemos.</p><p>A frase lida no Oráculo de Delfos é um belo</p><p>exemplo dessa relação entre memória e</p><p>narrativa em nossa vida: “Conhece-te a ti</p><p>mesmo”.</p><p>Não é difícil perceber que as palavras</p><p>“comunicar” e “comum” têm origens</p><p>semelhantes. Elas vêm do latim communis, ou seja, o que é compartilhado por muitos, público. Já não é tão</p><p>evidente o fato de elas derivarem de mei-, mesma raiz indo-europeia de palavras como “migrar” e “mútuo”,</p><p>que significa “mudar, trocar”. Assim como migrar é trocar de lugar ou residência, comunicar é trocar entre</p><p>pessoas e fazer com que o objeto da troca pertença a todos. É tornar aquilo que era apenas individual em algo</p><p>coletivo, mas sem perder a unidade do que cada um passa a ter depois da troca. Por isso, também contamos</p><p>histórias, para que, lembrando e conhecendo melhor sobre o mundo e sobre nós mesmos, estejamos juntos.</p><p>Compreendendo a estrutura narrativa</p><p>A concepção aristotélica</p><p>Em nossa tentativa de responder à pergunta que dá título ao núcleo anterior, procuramos características</p><p>gerais da arte de contar histórias que explicassem a sua ocorrência entre diversos povos e tempos diferentes.</p><p>Ou seja, buscamos razões universais que nos ajudassem a entender o fenômeno em si. Sem dúvida, cada</p><p>história varia de uma cultura para outra, mas há alguns padrões que se repetem, independentemente do</p><p>idioma e dos autores. É o que caracteriza a universalidade da narrativa. E um dos primeiros a formular os</p><p>conceitos para a compreensão dessa estrutura foi Aristóteles.</p><p>As artes, de acordo com Aristóteles, possuíam um papel</p><p>fundamental para a natureza humana e para o crescimento</p><p>moral dos indivíduos. Dentre as obras dedicadas a essa</p><p>atividade, destaca-se a sua Poética, considerada o primeiro</p><p>tratado filosófico sobre as formas de criação literária e</p><p>cênica, exercendo grande influência até os dias atuais.</p><p>A Poética de Aristóteles trata basicamente da poesia, sua</p><p>natureza, suas espécies e funções, assim como seus modos</p><p>de composição. As espécies são:</p><p>A tragédia</p><p>De versos curtos, possuiria tempo e espaço</p><p>delimitados, sendo realizada em um único</p><p>cenário e em apenas um dia.</p><p>A epopeia</p><p>De versos mais longos, ocorreria durante dias,</p><p>meses ou anos, e em diversos espaços.</p><p>A comédia</p><p>Se dedicaria à imitação (mimesis) de homens</p><p>inferiores, enquanto as duas anteriores, dos</p><p>elevados.</p><p>Aristóteles discute um pouco mais sobre a tragédia e a epopeia nesse conjunto de notas sobre a arte poética</p><p>que chegou até nós. O ponto em comum entre essas duas espécies da Poética que vai nos interessar é o</p><p>esquema de três atos, ou seja, é a estrutura com começo, meio e fim. Familiar?</p><p>Atenção</p><p>Para Aristóteles, a relação entre esses três atos é de causalidade, ou seja, cada um é modificado pelo</p><p>princípio de causa e consequência, a partir de um conflito entre personagens, ideias ou situações.</p><p>A chave de um bom enredo, segundo o filósofo, seria constituída da seguinte forma:</p><p>O começo</p><p>Essa é a situação estável até que algo a desequilibre.</p><p>O meio</p><p>É a tentativa de volta à estabilidade anterior e de eliminação do que provocou o desequilíbrio.</p><p>O fim</p><p>Que é a eliminação do objeto do desequilíbrio.</p><p>Encontramos essa estrutura em muitas grandes obras do teatro e da literatura. Em Fausto I, de Goethe (1985),</p><p>por exemplo, a seguinte divisão seria possível:</p><p>1 1º ato, ou começo</p><p>Fausto realizou um pacto com Mefistófeles, o demônio, para se tornar mais jovem e atraente. Como</p><p>ele se apaixona por uma moça, Margarida, pede a intervenção</p><p>e apresentado por Rodrigo Casarin. Ele trata de livros,</p><p>autores, gêneros e formatos dos mais variados. Cada episódio traz um convidado de destaque no</p><p>cenário cultural.</p><p>Referências</p><p>ARISTÓTELES. Poética. Trad. Paulo Pinheiro. São Paulo: Editora 34, 2020.</p><p>ASSIS, M. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Moderna, 1999.</p><p>BARTHES, R. Introdução à análise estrutural das narrativas. In: BARTHES, R. A aventura semiológica. Trad.</p><p>Mário Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 103-152.</p><p>BANDEIRA, M. Libertinagem - Estrela da manhã. Edição crítica, coord. Giulia Lanciani. Madrid; Paris; México;</p><p>Buenos Aires; São Paulo; Lima; Guatemala, San José; Santiago: ALLCA XX, 1998. (Colección Arquivos; 33).</p><p>•</p><p>•</p><p>BENJAMIN, W. O narrador. In: BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história</p><p>da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987.</p><p>BORGES, J. L. Outras inquisições. Trad. Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.</p><p>CAMPOS, H. Morfologia de Macunaíma. São Paulo: Perspectiva, 1973.</p><p>CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Trad. Ephraim Ferreira Alves. Rio de Janeiro: Vozes,</p><p>1998.</p><p>CÉSAR, A. C. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.</p><p>CULLER, J. Teoria literária: uma introdução. Trad. Sandra Vasconcelos. São Paulo: Beca, 1999.</p><p>GALEANO, E. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012.</p><p>GARCÍA MÁRQUEZ, G. Crônica de uma morte anunciada. Trad. Remy Gorga Filho. São Paulo: Record, 2006.</p><p>GOETHE, J.W. Fausto. v.1. Trad. Sílvio Meira. São Paulo: Círculo do Livro, 1985.</p><p>LAFETÁ, J. L. A dimensão da noite e outros ensaios. Org. Antonio Arnoni Prado. São Paulo: Duas Cidades;</p><p>Editora 34, 2004.</p><p>PROPP, V. Morfologia do conto maravilhoso. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.</p><p>REIS, C.; LOPES, A. C. M. Dicionário de teoria da narrativa. São Paulo: Ática, 1988.</p><p>ROSENFELD, A. A teoria dos gêneros. In: ROSENFELD, A. O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 1985, p.</p><p>15-36.</p><p>SONTAG, S. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.</p><p>SAUSSURE, F. Curso de Linguística Geral. Trad. Antônio Chelini, José Paulo Paes, Isidoro Blikstein. São Paulo:</p><p>Cultrix, 1975.</p><p>TODOROV. T. Os gêneros do discurso. Trad. Ana Mafalda Leite. Lisboa: Edições 70, 1981.</p><p>WATT, I. A ascensão do romance: estudos sobre Defoe, Richardson e Fielding. Trad. Hildegard Feist. São</p><p>Paulo: Companhia das Letras, 2010.</p><p>Teoria da Narrativa</p><p>1. Itens iniciais</p><p>Propósito</p><p>Preparação</p><p>Objetivos</p><p>Introdução</p><p>1. A universalidade da Narrativa</p><p>Feitos de Histórias</p><p>Por que contamos histórias?</p><p>Curiosidade</p><p>Compreendendo a estrutura narrativa</p><p>A concepção aristotélica</p><p>A tragédia</p><p>A epopeia</p><p>A comédia</p><p>Atenção</p><p>O começo</p><p>O meio</p><p>O fim</p><p>1º ato, ou começo</p><p>2º ato, ou meio</p><p>3º ato, ou fim</p><p>A concepção formalista</p><p>Atenção</p><p>1. Antagonista</p><p>2. Doador</p><p>3. Auxiliar</p><p>4. Princesa e seu pai</p><p>5. Mandante</p><p>6. Herói</p><p>7. Falso herói</p><p>A concepção estruturalista</p><p>Comentário</p><p>O nível das funções</p><p>O nível das ações</p><p>O nível da narração</p><p>Narrativa: distintas concepções</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>A concepção formalista</p><p>Conteúdo interativo</p><p>A concepção estruturalista</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>2. Gênero Narrativo: características</p><p>Gênero Literário</p><p>Conceito</p><p>Exemplo</p><p>Exemplo</p><p>Distinções básicas para Teoria da Narrativa</p><p>Discurso, história e horizonte de expectativa.</p><p>Discurso</p><p>História</p><p>Horizonte de expectativa</p><p>Tipos de Narrativa: Gêneros mais antigos</p><p>Comentário</p><p>A epopeia</p><p>O conto</p><p>Curiosidade</p><p>Tipos de Narrativa: Gêneros mais recentes</p><p>A novela</p><p>O romance</p><p>Tipos de narrativa: a novela e o romance</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>O que são gêneros literários?</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Tipos de narrativa: a epopeia e o conto</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>3. Elementos da narrativa</p><p>Quem ou de quem se fala?</p><p>O narrador</p><p>Atenção</p><p>Narrador-personagem, em primeira pessoa</p><p>Narrador-observador, ou narrador-testemunha, em terceira pessoa</p><p>Narrador onisciente, em terceira pessoa</p><p>Quem age?</p><p>Personagem</p><p>Curiosidade</p><p>O protagonista, ou herói</p><p>O antagonista</p><p>Coadjuvante</p><p>Redondas, ou esféricas</p><p>Planas ou desenhadas</p><p>Tipos</p><p>Onde ocorre a ação?</p><p>Espaço</p><p>Saiba mais</p><p>Os diferentes tipos de tempo da narrativa</p><p>Tempo</p><p>Cronológico, ou da história</p><p>Histórico</p><p>Psicológico</p><p>Atenção</p><p>Elementos da narrativa: espaço e tempo</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Tipos de narrador</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Tipos de personagem</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>4. Narratividade</p><p>Tudo é narrativa?</p><p>O que pode ser narrado?</p><p>Narratividade em textos orais ou escritos</p><p>Narrativas de linguagem verbal</p><p>Atenção</p><p>Narratividade e os signos visuais</p><p>Narrativas de linguagem não verbal</p><p>Dica</p><p>Narratividade: o que é?</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>O que é narratividade?</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Narratividade em histórias de linguagem verbal</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>5. Conclusão</p><p>Considerações finais</p><p>Podcast</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Explore +</p><p>Referências</p><p>do diabo.</p><p>2</p><p>2º ato, ou meio</p><p>Em sua tentativa de conquistar a mulher amada, uma sucessão de mortes acontece. Um infanticídio</p><p>leva à prisão de Margarida. Fausto recorre a Mefistófeles mais uma vez.</p><p>3</p><p>3º ato, ou fim</p><p>Margarida recusa a ajuda de Fausto para sair de sua cela, entrega sua alma a Deus e é levada pelos</p><p>anjos aos céus. Fausto e Mefistófeles fogem da cela de Margarida.</p><p>Claro que a obra de Goethe é mais complexa e recheada de cenas e conflitos importantes, mas o enredo pode</p><p>ser sintetizado dessa maneira. A ordem dos atos também pode variar e assumir outros sentidos na história.</p><p>Em Memórias póstumas de Brás Cubas, por exemplo, Machado de Assis começa pelo fim, o narrador conta</p><p>sua história depois de morto (ASSIS, 1999).</p><p>Gabriel García Márquez, em Crônica de uma morte anunciada, de certa maneira, realiza algo parecido,</p><p>estimulando o nosso desejo de saber mais sobre como se deu a morte de Santiago Nasar (GARCÍA MARQUEZ,</p><p>2006).</p><p>Como podemos ver, “falar grego” também pode significar uma boa forma de ser compreendido.</p><p>Principalmente se esse grego for Aristóteles e sua Poética.</p><p>A concepção formalista</p><p>Outra contribuição importante para a Teoria da Narrativa no que diz respeito ao estudo da universalidade nas</p><p>histórias foi dada pelo filólogo, crítico e linguista russo Vladimir Propp, um dos nomes do chamado Formalismo</p><p>Russo. Os formalistas buscam se afastar das tendências críticas da época que se baseiam em fatores</p><p>externos ao texto, como a biografia do autor e o contexto histórico.</p><p>Atenção</p><p>Para eles, o texto e seus componentes seriam o objeto central das análises. Apenas o que diz e como diz</p><p>o texto seriam de interesse. Por isso, sua metodologia é descritiva e morfológica, pois a obra é</p><p>entendida como construção artística.</p><p>Os formalistas perguntavam: quais são os elementos das obras? E como interagiriam entre si?</p><p>Vladimir Propp, crítico e linguista russo.</p><p>Vladimir Propp lançou mão dessas e de outras</p><p>perguntas em sua análise de contos folclóricos</p><p>russos para escrever sua Morfologia do conto</p><p>maravilhoso (PROPP, 2001), um dos estudos</p><p>mais importantes da Narratologia e da Teoria</p><p>do Conto.</p><p>Ele coletou cerca de cem contos maravilhosos,</p><p>da tradição popular russa, como os contos de</p><p>fadas e de magia, buscando encontrar</p><p>elementos em comum entre eles.</p><p>Como um formalista, Propp não estava</p><p>interessado em uma investigação dos temas,</p><p>mas de seus processos de construção,</p><p>considerando as personagens e suas ações para o desenrolar da história.</p><p>Como sabemos, toda narrativa é movida por ações. Por isso, segundo Propp (2001, p. 16): “o que realmente</p><p>importa é saber o que fazem os personagens”, isto é, quais são suas funções na história. Para definir essa</p><p>função, o “procedimento de um personagem”, devemos considerar o substantivo que expresse a ação e o</p><p>significado da função na ocorrência da ação (PROPP, 2001, p. 16). Um personagem, portanto, não é definido</p><p>pelo que ele é, mas pelo que faz dentro de um momento da história. Ele exerce um papel específico sem o</p><p>qual essa história não é possível.</p><p>No conjunto de narrativas populares reunidas por Propp, ele encontrou diversas funções e as agrupou em</p><p>“esferas de ação”, que são, nada mais, nada menos, que os personagens que executam as ações.</p><p>As esferas, ou personagens básicos, seriam sete, de acordo com suas funções:</p><p>1. Antagonista</p><p>Ou malfeitor. Simboliza a provocação de dano e luta contra o herói.</p><p>2. Doador</p><p>Também conhecido como provedor, realiza a entrega do objeto mágico</p><p>ao herói.</p><p>3. Auxiliar</p><p>Realiza a prestação de assistência ao herói em sua trajetória.</p><p>4. Princesa e seu pai</p><p>Indicação de tarefas difíceis, imposição de estigma, reconhecimento e</p><p>casamento do herói.</p><p>5. Mandante</p><p>O mandante é o personagem que tem a função de envio do herói.</p><p>6. Herói</p><p>Sua função é da procura, atendimento ao doador e do casamento.</p><p>7. Falso herói</p><p>Possui a mesma procura do herói, mas suas pretensões e realizações são</p><p>negativas.</p><p>Como bem indicou João Luís Lafetá (2004, p. 79), o estudo de Propp gira em torno de um núcleo</p><p>simples, que é o dano ou a carência do herói e as tentativas dele em se restabelecer.</p><p>Cada uma dessas esferas de ação, ou personagens, contribuem para que o herói obtenha aquilo de que</p><p>necessita por meio de suas funções. Propp identificou 31 funções em seu corpus de narrativas populares, que</p><p>nem sempre estão presentes em sua totalidade, mas seguem sempre uma mesma sequência:</p><p>Uma parte preparatória.</p><p>O nó da intriga.</p><p>A intervenção de doadores.</p><p>O regresso do herói.</p><p>Para que possamos visualizar como essas funções são distribuídas dentro dessa sequência, vejamos a síntese</p><p>a seguir:</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>Quadro: Sequência de funções. Elaborado por: Rodrigo Jorge Ribeiro Neves.</p><p>Antes da sequência de funções, há uma situação inicial . Como podemos notar, Propp atribui um símbolo</p><p>combinatório a cada função. Algumas delas se repetem, mas, é preciso lembrar, obedecem sempre a essa</p><p>mesma série. A estrutura de Propp desenvolve o esquema aristotélico, embora esteja centrada nos contos</p><p>populares maravilhosos.</p><p>Há críticos, como Haroldo de Campos (1973), que veem em Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, a</p><p>possibilidade de análise segundo o modelo funcional de Propp, ainda que tenha sido uma obra criada a partir</p><p>de tradições populares e não feita delas.</p><p>Independentemente do corpus e do alcance do trabalho de Propp, é certo que sua busca por unidades nas</p><p>estruturas dos contos maravilhosos influenciou bastante outros teóricos da narrativa, como os estruturalistas.</p><p>A concepção estruturalista</p><p>Assim como os formalistas russos, os estruturalistas queriam encontrar padrões dentro de um sistema que os</p><p>ajudassem a compreender um objeto.</p><p>Comentário</p><p>Uma das principais diferenças é que o estruturalismo teve uma repercussão mais ampla, não se limitando</p><p>apenas ao campo da linguagem.</p><p>O termo surgiu a partir do Curso de linguística geral (1975), de Ferdinand de Saussure, que estabelece um</p><p>sistema de relações entre os elementos que formam uma língua. Por meio dessa relação, cada elemento é</p><p>definido, formando, assim, um modelo que possa explicar como a língua funciona. Isso é o que chamamos de</p><p>estrutura.</p><p>Claude Lévi-Strauss.</p><p>Roland Barthes.</p><p>Nas ciências humanas, o estruturalismo é uma metodologia aplicada a diversas áreas, como a Sociologia, a</p><p>Antropologia, a Filosofia e a Psicologia. Cada uma tenta, à sua maneira, compreender os seres humanos a</p><p>partir de relações estruturais, ou seja, de modelos que expliquem o que fazemos e o que pensamos.</p><p>O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss foi um dos</p><p>primeiros a aplicar o estruturalismo fora da linguística. Ao</p><p>observar povos indígenas de diferentes etnias e países, ele</p><p>constatou que havia formas comuns entre eles que</p><p>moldavam a maneira como agiam e pensavam. Em sua</p><p>análise dos mitos, por exemplo, ele percebeu que tinham</p><p>uma estrutura e funcionavam como uma linguagem.</p><p>Na literatura, encontramos nomes como Roland Barthes,</p><p>Tzvetan Todorov, Julien Greimas, Claude Bremond, entre</p><p>outros que buscavam encontrar uma espécie de gramática</p><p>da narrativa.</p><p>Falaremos aqui um pouco sobre o primeiro e</p><p>sua obra Introdução à análise estrutural das</p><p>narrativas (1966), uma das mais influentes nos</p><p>estudos sobre o tema. Nela, Barthes ressalta a</p><p>natureza universal da narrativa, ao indicar sua</p><p>presença em todos os setores da sociedade:</p><p>“não há, nunca houve em lugar nenhum povo</p><p>algum sem narrativa” (BARTHES, 2001, p. 104).</p><p>Uma pergunta, entretanto, perdura: em</p><p>uma perspectiva estruturalista, como</p><p>entenderia tais recorrências?</p><p>Para realizar sua análise, Barthes recorre aos principais estruturalistas e formalistas, como Propp, Todorov e</p><p>Benveniste, chegando até mesmo a Aristóteles. Ele propõe a utilização de um conceito da linguística: “nível de</p><p>descrição”.</p><p>E o que seria?</p><p>No caso da linguística, a frase é o seu objeto de análise, podendo ser descrita em vários níveis, divididos de</p><p>forma hierárquica, como o fonético, fonológico, gramatical e contextual. Embora cada unidade seja descrita</p><p>em um nível, ela só tem sentido se estiver relacionada</p><p>ao nível superior. Barthes dá o exemplo do fonema, que,</p><p>apesar de poder ser descrito, só faz sentido se integrado na palavra, e esta, na frase.</p><p>E as narrativas? Como Barthes aplica esse conceito a elas?</p><p>Sua análise estrutural propõe três níveis de descrições (BARTHES, 2001, p. 112):</p><p>O nível das funções</p><p>Como em Propp e Bremond, é onde a história acontece e como estão caracterizados os papéis das</p><p>personagens na história, é uma unidade de conteúdo, de “o que quer dizer”.</p><p>O nível das ações</p><p>Como em Greimas, no qual as personagens estão como “actantes”, ou seja, são descritas não pelo</p><p>que são, mas pelo que fazem.</p><p>O nível da narração</p><p>No qual os dois níveis anteriores se integram, em que a narrativa possui um doador/narrador, quem</p><p>dirige a história para alguém, e um destinatário/leitor, quem recebe a história. É onde leitor e narrador</p><p>dão significado à narrativa.</p><p>Para aplicar sua análise estruturalista, Barthes recorre a uma variedade de narrativas clássicas e</p><p>contemporâneas, buscando estabelecer os vínculos entre os níveis de descrição presentes em suas</p><p>estruturas, como em A carta roubada, de Edgar Allan Poe, Um coração simples, de Gustave Flaubert, A</p><p>Odisseia, de Homero, ou até mesmo no filme Goldfinger (1964), dirigido por Guy Hamilton, em que o famoso</p><p>agente James Bond, interpretado por Sean Connery, enfrenta o milionário criminoso que intitula a película.</p><p>Embora Barthes e outros teóricos dessa corrente tenham se afastado da metodologia estruturalista pouco</p><p>tempo depois, é importante conhecermos alguns de seus principais aspectos, que ainda podem ser utilizados</p><p>como instrumentos, mesmo complementares, de análises das narrativas.</p><p>Narrativa: distintas concepções</p><p>Vamos rever de forma mais abrangente as três concepções mencionadas neste conteúdo? Acompanhe o</p><p>especialista Rodrigo Jorge Ribeiro Neves no vídeo a seguir:</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.</p><p>A concepção formalista</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>A concepção estruturalista</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>Considere o texto a seguir:</p><p>“Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos — e, antes de começar, digo</p><p>os motivos por que silenciei e por que me decido. Não conservo notas: algumas que tomei foram inutilizadas,</p><p>e assim, com o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais difícil, quase impossível, redigir esta</p><p>narrativa. Além disso, julgando a matéria superior às minhas forças, esperei que outros mais aptos se</p><p>ocupassem dela. Não vai aqui falsa modéstia, como adiante se verá. Também me afligiu a ideia de jogar no</p><p>papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las, dar-</p><p>lhes pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance, mas teria eu o direito de utilizá-las em história</p><p>presumivelmente verdadeira? Que diriam elas se se vissem impressas, realizando atos esquecidos, repetindo</p><p>palavras contestáveis e obliteradas?” (RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: Record, 2008,</p><p>p. 11)</p><p>Esse é o primeiro parágrafo de um livro de Graciliano Ramos, um dos mestres da narrativa literária brasileira.</p><p>Considerando a citação e a relação do ser humano com a arte de contar histórias, assinale a alternativa</p><p>correta:</p><p>A</p><p>A reconstrução da memória pela narrativa é fundamental para entender não apenas a história de um indivíduo,</p><p>mas de suas relações sociais.</p><p>B</p><p>A reconstrução da memória pela narrativa é fundamental para entender apenas a história do indivíduo que a</p><p>escreve.</p><p>C</p><p>É impossível reconstruir o passado pela narrativa sem anotações e outros registros sobre os acontecimentos.</p><p>D</p><p>A experiência coletiva depende da concordância de todos os indivíduos para que possa ser narrada em uma</p><p>história.</p><p>E</p><p>A reconstrução da memória pela narrativa é produto de uma decisão coletiva, desde que os nomes utilizados</p><p>na história sejam verdadeiros.</p><p>A alternativa A está correta.</p><p>O trecho faz parte do livro Memórias do cárcere, em que Graciliano Ramos relata a sua experiência vivida</p><p>na prisão. O processo de rememoração depende da estrutura narrativa para que possa ser comunicada aos</p><p>outros membros da sociedade, seja como personagens e testemunhas da história ou como leitores que</p><p>estejam interessados em conhecê-la.</p><p>Questão 2</p><p>Em sua abordagem estruturalista das narrativas, Roland Barthes deu grande contribuição aos estudos acerca</p><p>da universalidade das histórias. Para o crítico francês, compreender uma narrativa “não é apenas passar de</p><p>uma palavra para outra, é também passar de um nível a outro.” (BARTHES, 2001, p. 112). Assinale a alternativa</p><p>que explique o conceito de narrativa defendido por Barthes:</p><p>A</p><p>Relação entre narrador, ação e personagem em uma sequência fixa.</p><p>B</p><p>Encadeamento de personagens, espaço e ação, considerando um público leitor.</p><p>C</p><p>Encadeamento de personagens, seus papéis e suas ações, transmitidos por um narrador para um leitor.</p><p>D</p><p>Relação não delimitada de ações e personagens, que nem sempre assumem um papel na história.</p><p>E</p><p>Encadeamento de funções e personagens, sem considerar, em princípio, a possibilidade de um leitor.</p><p>A alternativa C está correta.</p><p>Na análise estruturalista de Roland Barthes, em esquema provisório, como ele mesmo atesta, uma narrativa</p><p>é constituída de três níveis que, apesar de poderem ser descritos, só fazem sentido em uma relação entre</p><p>eles. Os papéis de personagens e suas ações se integram em uma narração construída para um leitor.</p><p>2. Gênero Narrativo: características</p><p>Gênero Literário</p><p>Conceito</p><p>As questões em torno das tentativas de classificação da literatura em gêneros literários são das mais</p><p>importantes e decisivas na própria concepção da literatura e dos limites e condições da teoria literária, desde</p><p>os seus precursores, Platão, com sua República, e Aristóteles, com a Poética, até os dias atuais.</p><p>Para Anatol Rosenfeld (1985), a adoção do sistema de</p><p>gêneros na literatura é fundamental não apenas pela</p><p>necessidade científica de estabelecer normas que deem</p><p>conta da multiplicidade de fenômenos, mas, por um motivo</p><p>ainda mais profundo, a necessidade de uma atitude face ao</p><p>mundo imaginário que se busca comunicar por meio da obra</p><p>literária.</p><p>Segundo Tzvetan Todorov, em seu clássico estudo Os</p><p>gêneros do discurso, todo gênero literário surgiu de outro,</p><p>pois “um novo gênero é sempre a transformação de um ou</p><p>de vários gêneros antigos: por inversão, por deslocamento, por combinação” (TODOROV, 1981, p.48). Assim,</p><p>para o crítico búlgaro, a pergunta a ser feita não é o que veio antes, mas as formas na linguagem que</p><p>evidenciam o surgimento de um novo gênero ou que mostrem a passagem de um para outro.</p><p>Exemplo</p><p>Podemos trazer o caso de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Em sua tentativa de parodiar as</p><p>histórias de cavalaria, ele se torna precursor de um dos principais gêneros da modernidade: o romance.</p><p>Por outro lado, algumas chamadas “transgressões” de determinados gêneros literários, recorrentes na</p><p>literatura, em especial no século XX, ocorrem justamente em situações em que todos os pressupostos</p><p>tradicionais de determinados gêneros foram rigorosamente seguidos. Jorge Luís Borges (2007), por exemplo,</p><p>lembra-nos que Edgar Allan Poe, mesmo inventando o conto policial e escrevendo contos de horror fantástico</p><p>ou de bizarrice, não misturou os dois gêneros. O objetivo não é esquecer ou mudar internamente os</p><p>procedimentos do gênero literário, mas utilizá-los à risca, seguindo as regras convencionais e até mesmo</p><p>prestigiadas do gênero, ainda que isso seja feito de modo transgressor.</p><p>Exemplo</p><p>Na literatura brasileira, o romance Vidas secas (1938) é um dos casos mais interessantes de obediência</p><p>e transgressão de gêneros. Apesar da estrutura inovadora proposta por Graciliano Ramos, os elementos</p><p>que compõem um conto e um romance estão ali, em diálogo inovador</p><p>em nossa literatura.</p><p>O livro não deixa de ser classificado, enquanto um conjunto de textos, como romance. É possível que você</p><p>tenha um exemplar em sua estante ou em sua pasta na nuvem. Veja na ficha catalográfica. Viu? Agora, leia</p><p>qualquer capítulo do livro. Pode ser o mais famoso, “Baleia”, e tente observar como ele também pode ser lido</p><p>com um conto. Deu para notar?</p><p>Um gênero literário é parecido com o ciclo de um ser vivo, ele nasce, cresce e se reproduz, só não</p><p>morre, ele se transforma.</p><p>Distinções básicas para Teoria da Narrativa</p><p>Discurso, história e horizonte de expectativa.</p><p>As relações entre discurso e história no Gênero Narrativo são uma de suas características mais importantes e</p><p>nos ajudam a compreender os limites e condições da própria estrutura da narrativa a partir de seus principais</p><p>elementos, que veremos no módulo seguinte.</p><p>Antes de mais nada, temos três distinções que precisam ser feitas, para que possamos refletir sobre os</p><p>significados dessas relações:</p><p>Discurso</p><p>O discurso nada mais é do que o texto</p><p>apresentado, com sua forma e regras de</p><p>estruturação.</p><p>História</p><p>É o acontecimento descrito pelo texto, ou seja,</p><p>é o que deduzimos do discurso que acabamos</p><p>de ler.</p><p>Horizonte de expectativa</p><p>A definição do tipo de narrativa vai depender</p><p>também de como essas duas categorias se</p><p>relacionam, além do horizonte de expectativa</p><p>manifestado pelo leitor.</p><p>Jonathan Culler (1999) destaca que essa relação é uma das distinções básicas da teoria da narrativa. A</p><p>história é o dado, o discurso são as diferentes maneiras de apresentação dele. Para Culler, a história é o</p><p>enredo, elemento da narrativa sobre o qual discutiremos adiante.</p><p>Apesar de estarem relacionados, qual característica enxergamos primeiro: o discurso ou a história?</p><p>Em geral, a história é a primeira que notamos. Depois, identificarmos o discurso, ou seja, qual é o gênero, os</p><p>efeitos da narrativa, a estrutura etc.</p><p>Como vimos, os gêneros literários são fenômenos culturais. São, portanto, formas específicas de ler a vida.</p><p>Ora, se a escolha de um gênero está relacionada ao setor da vida sobre o qual você quer falar/escrever, então</p><p>há um horizonte de expectativa de sua parte na definição desse gênero. Você tem um conhecimento prévio</p><p>sobre os gêneros escolhidos, o que indica que a sua expectativa como leitor influencia na escolha do tipo de</p><p>narrativa adequada para contar a sua história de vida.</p><p>Por que não costumamos ouvir ou ler que uma vida daria um poema?</p><p>Porque, em um primeiro momento, relacionamos o poema à expressão de sentimentos e de uma subjetividade,</p><p>que são, na verdade, características do gênero lírico.</p><p>Uma vida também poderia dar uma peça de teatro, como fez o ator e comediante Paulo Gustavo ao levar para</p><p>os palcos a premiada representação de sua mãe. Nesse caso, costumamos associar a peça ao gênero cômico.</p><p>Isso quer dizer que uma vida não poderia virar também uma peça trágica?</p><p>Claro que sim, mas o que estamos discutindo aqui é que existe um conjunto de informações que carregamos</p><p>antes de decidirmos o discurso que queremos ler.</p><p>E de onde elas vêm?</p><p>Elas fazem parte de nossa visão histórica do mundo,</p><p>moldada pelas instituições culturais e educacionais, como a</p><p>escola, a família, as redes sociais etc. Por meio delas, temos</p><p>acesso aos vários discursos e percebemos como eles</p><p>conseguem se ajustar às questões do nosso tempo. É a</p><p>partir dessa observação, por exemplo, que podemos avaliar</p><p>como um poema pode também contar uma história de vida.</p><p>Para que isso seja possível, qual característica seria</p><p>imprescindível nele?</p><p>Isso mesmo, a narração.</p><p>Com isso, constatamos que o horizonte de expectativa não influencia apenas as escolhas do leitor, mas</p><p>também do escritor, que, assim como quem recebe o discurso, também é formado pelas instituições, estando</p><p>inserido em determinada cultura literária. A partir do seu conhecimento da tradição, ele vai realizar escolhas</p><p>que atentam ao que está querendo compor, ou seja, qual discurso se ajusta melhor à história que pretende</p><p>contar.</p><p>O surgimento de novos gêneros, ou a mistura de gêneros distintos, mantendo as características de cada um,</p><p>também surge dessa relação entre discurso e história, mas movidos por um horizonte de expectativa.</p><p>Tipos de Narrativa: Gêneros mais antigos</p><p>Como um gênero literário é uma maneira de tornar determinado setor da vida legível por meio de um texto, é</p><p>natural que ele também acompanhe as condições históricas. Assim, os gêneros vão se transformando,</p><p>renascendo e criando novos tipos, ou subgêneros. Claro que nem todos são bem delimitados, alguns se</p><p>encontram na fronteira entre dois ou mais tipos.</p><p>No gênero narrativo, cada vez mais essa fronteira vem sendo colocada em xeque, mas, ainda assim, podemos</p><p>observar as estruturas ali presentes, com todos os principais elementos que respondem às exigências da</p><p>realidade que se quer retratar.</p><p>A Divina comédia, de Dante Alighieri.</p><p>O Decamerão, de Giovanni Boccaccio</p><p>Comentário</p><p>Na literatura, os principais tipos de narrativa que ainda podemos encontrar, ou subgêneros, são a</p><p>epopeia, o conto, a novela e o romance.</p><p>A epopeia</p><p>A epopeia é um dos subgêneros narrativos mais antigos e o único que é definido pela sua composição em</p><p>versos. Como vimos no primeiro módulo, Aristóteles, em sua Poética, descreveu a epopeia, ou poesia épica,</p><p>como uma espécie dedicada aos homens elevados, assim como a tragédia, mas se distingue desta pela sua</p><p>extensão e ritmo.</p><p>A epopeia é um texto longo e se dedica aos grandes feitos de heróis históricos ou mitológicos,</p><p>narrando, geralmente, os destinos de uma coletividade.</p><p>É o que vemos, por exemplo, na Ilíada e na</p><p>Odisseia, de Homero, na Divina comédia, de</p><p>Dante Alighieri, e em Os lusíadas, de Luís de</p><p>Camões. Apesar de sua decadência no século</p><p>XVIII, com a ascensão do romance,</p><p>encontramos algumas obras que retomam a</p><p>forma da epopeia em diálogo com outras</p><p>formas modernas e contemporâneas, como em</p><p>Invenção de Orfeu (1952), de Jorge de Lima, e</p><p>Uma viagem à Índia (2010), de Gonçalo M.</p><p>Tavares.</p><p>O conto</p><p>O conto é uma narrativa curta, em prosa, que contém, normalmente, um só conflito, uma única ação, espaço e</p><p>tempo limitados e poucos personagens. Claro que não são regras fixas, elas podem variar, mas essas são suas</p><p>características mais comuns. É considerado um dos tipos de narrativas mais antigos, anterior até mesmo à</p><p>escrita, quando povos pré-históricos se reuniam em torno da fogueira para contar e ouvir histórias.</p><p>Com o advento da escrita, passou a acolher histórias de</p><p>diversas civilizações, crenças e costumes, desde os relatos</p><p>bíblicos e o Livro das mil e uma noites até o Decamerão, de</p><p>Giovanni Boccaccio, e as fábulas dos irmãos Grimm. Entre</p><p>os maiores mestres do gênero, temos Machado de Assis,</p><p>Anton Tchekhov, Virginia Woolf, Franz Kafka, Clarice</p><p>Lispector, entre muitos outros.</p><p>Aliás, o conto é um dos tipos de narrativa mais</p><p>utilizados na expressão do fantástico e do</p><p>maravilhoso, como podemos notar pelo estudo de</p><p>Vladimir Propp já citado.</p><p>A metamorfose, de Franz Kafka.</p><p>Dom Casmurro, de Machado de Assis.</p><p>Curiosidade</p><p>Com o surgimento da imprensa escrita, o conto explodiu e se tornou um gênero moderno e ainda mais</p><p>popular.</p><p>Tipos de Narrativa: Gêneros mais recentes</p><p>A novela</p><p>Outra narrativa curta ainda atual é a novela, que, em termos de extensão, está entre o conto e o romance.</p><p>Apesar do nome, não confunda com a telenovela, ainda que esta possa ser a adaptação de uma novela</p><p>literária. A novela, enquanto tipo de narrativa, é um texto curto em prosa, mas com mais ações, conflitos e</p><p>personagens que o conto, além de apresentar um espaço e um tempo mais extensos. Sua agilidade e</p><p>objetividade na narração dos eventos é também uma de suas características mais comuns.</p><p>À diferença do conto, a novela é um gênero mais “recente”, surgindo em um momento próximo ao do romance,</p><p>no Renascimento, principalmente por meio do Decamerão, de Boccaccio, que também influenciou o</p><p>desenvolvimento do conto.</p><p>Na literatura brasileira, não é um gênero muito comum, mas</p><p>há grandes novelas, como O alienista,</p><p>de Machado de Assis,</p><p>e Um copo de cólera, de Raduan Nassar. Outras novelas</p><p>que merecem ser destacadas são A metamorfose, de Franz</p><p>Kafka, A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, e O velho e o</p><p>mar, de Ernest Hemingway.</p><p>O romance</p><p>Dos tipos de narrativas mencionados até aqui, nenhum é</p><p>tão múltiplo e híbrido quanto o romance. É, sem dúvida, um</p><p>dos gêneros mais importantes da modernidade, pois reflete</p><p>como poucos seu processo, seus conflitos e suas</p><p>contradições.</p><p>O romance tem sua ascensão, segundo Ian Watt (2010), no</p><p>século XVIII, quando ocorre uma reorientação do individualismo no pensamento filosófico, influenciada por</p><p>Descartes e, portanto, uma maior autonomia do indivíduo. Em sua estrutura, o romance se assemelha à</p><p>novela, mas é um pouco mais complexo. Nele, as ações acontecem de forma paralela, podendo, inclusive, um</p><p>personagem surgir no meio da história e desaparecer antes de seu fim.</p><p>Machado de Assis merece, mais uma vez, ser</p><p>citado como grande mestre no gênero,</p><p>principalmente com seus romances da fase</p><p>madura, Memórias póstumas de Brás Cubas</p><p>Dom Casmurro e Quincas Borba. Desse</p><p>período, vale a pena citar a primeira romancista</p><p>negra brasileira, Maria Firmina dos Reis, com</p><p>Úrsula.</p><p>No século XX, Virginia Woolf, com Ao farol,</p><p>James Joyce, com Ulysses, Marcel Proust, com</p><p>a série Em busca do tempo perdido, e</p><p>Guimarães Rosa, com Grande sertão: veredas,</p><p>elevaram o gênero narrativo à plenitude de sua</p><p>forma e também de seu conteúdo.</p><p>Tipos de narrativa: a novela e o romance</p><p>Acompanhemos agora o professor Rodrigo Jorge apresentar os tipos de narrativa conhecidos como novela e</p><p>romance, a partir de suas estruturas características.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.</p><p>O que são gêneros literários?</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Tipos de narrativa: a epopeia e o conto</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>A narrativa, assim como todo gênero literário, transforma-se de acordo com as condições de cada tempo, mas</p><p>também preserva determinados aspectos estruturais de seus tipos anteriores. Assinale a alternativa que</p><p>exemplifique essa informação:</p><p>A</p><p>O conto surge na Antiguidade, especialmente depois das obras de Aristóteles e Platão sobre os gêneros</p><p>literários. Por isso, o conto é o tipo de narrativa mais antigo.</p><p>B</p><p>O romance é um gênero com estrutura fixa e com poucas variações. Ele é antecedido pela novela, do qual</p><p>herdou poucos elementos.</p><p>C</p><p>O conto e a novela são gêneros bem próximos em suas respectivas estruturas. A única diferença entre eles</p><p>está no número de personagens. Enquanto o conto contém poucos personagens, a novela apresenta um</p><p>número bem mais variado.</p><p>D</p><p>A epopeia, ou poesia épica, é um dos gêneros mais antigos dentre os tipos de narrativa. Mesmo assim, ela é</p><p>bastante comum na contemporaneidade e pode ser lida com poucas variações em sua estrutura.</p><p>E</p><p>O romance surge em um momento em que a razão e o indivíduo se tornam centrais na sociedade. Ele é</p><p>antecedido pela novela, que, apesar da menor extensão, também pode apresentar uma variedade de</p><p>personagens, espaços e tempos.</p><p>A alternativa E está correta.</p><p>O gênero narrativo do romance é reflexo da modernidade e de suas transformações, a partir do século</p><p>XVIII. Embora também tenha herdado elementos do conto, a novela se aproxima um pouco mais de sua</p><p>estrutura. Além disso, ela emerge no Renascimento, pouco antes da ascensão da modernidade.</p><p>Questão 2</p><p>No gênero narrativo, é fundamental não apenas identificar o acontecimento relatado, mas também como é</p><p>construído o relato. Assinale a alternativa que contenha, respectivamente, duas características básicas do</p><p>gênero narrativo presentes nessa afirmação.</p><p>A</p><p>Horizonte de expectativa e discurso.</p><p>B</p><p>Estrutura e narração.</p><p>C</p><p>História e discurso.</p><p>D</p><p>História e intenção.</p><p>E</p><p>Discurso e leitura.</p><p>A alternativa C está correta.</p><p>Segundo Jonathan Culler, em Teoria literária (1999), a oposição entre discurso e história é uma das</p><p>distinções básicas do gênero narrativo. A história, que também pode ser lida como "enredo", é o</p><p>acontecimento em si, "sobre" o qual a narrativa fala. O discurso é o conjunto de elementos estruturais</p><p>utilizados para contar a história, é o "como" a narrativa fala.</p><p>3. Elementos da narrativa</p><p>Quem ou de quem se fala?</p><p>O narrador</p><p>O Gênero Narrativo precisa de uma série de elementos fundamentais em sua construção. Um deles é o</p><p>narrador.</p><p>Atenção</p><p>É importante apenas não confundirmos o narrador com o autor do texto, que é a pessoa física que</p><p>escreve a história. A perspectiva do narrador pode ou não corresponder à do autor.</p><p>Um dos casos em que essa distinção é óbvia acontece em Memórias póstumas de Brás Cubas, já que o</p><p>narrador pode estar morto, mas o romancista não. Por mais que Machado de Assis possa manifestar,</p><p>eventualmente, em uma passagem ou outra algum ponto de vista semelhante ao do narrador, isso não o</p><p>coloca na mesma função. O narrador é não apenas uma voz, mas uma estratégia narrativa. Para que</p><p>possamos identificá-lo, uma das principais perguntas a serem feitas é: “quem ou de quem fala?”</p><p>O narrador é também considerado o foco narrativo ou ponto de vista da história, podendo, ou não, ser</p><p>confundida com a do autor, como já ressaltamos. Mas nem sempre o narrador é o focalizador da história, pois</p><p>eles podem assumir posições distintas ao longo do texto (CULLER, 1999, p. 90). Por isso, é sempre importante</p><p>estar atento ao que nos é apresentado pelo narrador, observando suas estratégias.</p><p>Há diversos tipos de narrador, que podem variar de acordo com os estudos específicos sobre o tema. Em</p><p>síntese, eles são divididos em três tipos.</p><p>Narrador-personagem, em primeira pessoa</p><p>Quem fala? Eu. Quando você conta uma história que aconteceu com você</p><p>para os seus amigos, quem sabe mais sobre ela? É você, claro, que vai</p><p>narrá-la a partir do foco narrativo em primeira pessoa, como faz um</p><p>narrador-personagem, já que você também participa da história.</p><p>Contudo, justamente por ser a perspectiva de quem está na história, esse</p><p>narrador é parcial, nem sempre devemos confiar em seu relato.</p><p>Um clássico exemplo é o narrador-protagonista de Dom Casmurro,</p><p>Bentinho. A eterna questão em torno da traição de Capitu, na verdade,</p><p>está mais ligada à suspeição do narrador, que tenta nos convencer de</p><p>que sua perspectiva dos fatos é a verdadeira, pois não temos provas de</p><p>que houve a infidelidade. Temos apenas uma versão dos fatos. Há</p><p>também narradores em primeira pessoa que são personagens, mas não</p><p>protagonistas, como Nick Carraway, em O grande Gatsby, de F. Scott</p><p>Fitzgerald, e Dr. Watson, nas histórias de Sherlock Holmes, de Sir Arthur</p><p>Conan Doyle.</p><p>Narrador-observador, ou narrador-testemunha, em terceira pessoa</p><p>De quem fala? Ela ou ele, elas ou eles. Você já deve ter escutado, ou até</p><p>mesmo dito, algumas vezes que quem enxerga de fora, enxerga melhor.</p><p>Isso porque aquele que está em uma perspectiva distante consegue ver a</p><p>história de uma forma global e sem o envolvimento que, muitas vezes,</p><p>pode distorcer a versão dos fatos. Um observador ou testemunha</p><p>também pode distorcê-los? Sem dúvida, mas, na reconstituição dos</p><p>acontecimentos, o narrador em terceira pessoa, por não ter relação direta</p><p>com os personagens, pode apresentar uma visão mais imparcial.</p><p>É o caso, por exemplo, das biografias em geral. Para reconstituir a</p><p>história de uma vida, o biógrafo reúne uma série de documentos e relatos</p><p>sobre ela, que vão dar sustentação ao narrador. Na literatura de ficção,</p><p>as fábulas de Esopo e algumas narrativas infantis são um exemplo da</p><p>utilização desse foco narrativo.</p><p>Narrador onisciente, em terceira pessoa</p><p>De quem fala? Ela ou ele, elas ou eles. A diferença em relação ao</p><p>narrador-observador é que, apesar de falar em terceira pessoa, o</p><p>narrador sabe tudo sobre as personagens, podendo, inclusive, ter</p><p>participação na história. Os sentimentos, o pensamento,</p><p>as intenções e</p><p>aspectos da vida dos personagens são conhecidos desse narrador. É o</p><p>tipo mais comum na literatura.</p><p>Quem nunca se sentiu tentado a ser um narrador onisciente e saber</p><p>exatamente o que uma pessoa está pensando ou sentindo? De certa</p><p>maneira, esse foco narrativo é uma estratégia do escritor para envolver o</p><p>leitor na história, mas mantendo algum distanciamento. Nelson Rodrigues</p><p>dizia que sua ótica de ficcionista era de um garoto olhando pelo buraco</p><p>da fechadura, ou seja, ao mesmo tempo em que o narrador conhece a</p><p>história pelo lado de fora da porta, ele também a enxerga em sua</p><p>intimidade.</p><p>A literatura não se limita a esses tipos de narrador. Eles podem se combinar no mesmo texto. Há narrativas de</p><p>diversas vozes, como em As ondas, de Virginia Woolf, ou nas quais o narrador é uma figura difícil de definir,</p><p>como em Museu do romance da eterna, de Macedonio Fernández. E ainda nos dias atuais eles encontram um</p><p>jeito novo de falar.</p><p>Quem age?</p><p>Personagem</p><p>Outro elemento fundamental em uma narrativa é a personagem. Ela nem sempre corresponde ao narrador,</p><p>como acabamos de ver, podendo assumir papéis ainda mais variados e complexos. Em alguns casos, ela até</p><p>mesmo pode desaparecer. A palavra, em português, surgiu do francês personnage, que, por sua vez, veio do</p><p>latim persona.</p><p>Curiosidade</p><p>A expressão remonta ainda ao etrusco e ao grego e era utilizada para se referir à máscara teatral.</p><p>Não é interessante? Uma personagem é uma máscara, uma face, que um ator veste para representar algo em</p><p>uma história. É por meio dela que somos apresentados ao universo ficcional ou não ficcional da narrativa, pois</p><p>apenas quando aparece a personagem é que sabemos qual história estamos lendo.</p><p>Afinal, um texto que inicie falando de uma paisagem ou descrevendo, por meio de um narrador qualquer, a</p><p>movimentação em uma rua ou no transporte público, pode ser um artigo de jornal, uma carta, um ensaio</p><p>sociológico ou uma folha solta de um caderno de anotações. Mas, ao entrar uma personagem, seja por meio</p><p>de sua fala ou da descrição de uma atividade, entramos também no enredo, ou trama.</p><p>Por isso, uma personagem é um dos principais elementos</p><p>do gênero narrativo. É por meio dela que a natureza humana</p><p>se reflete e se revela na construção dos eventos. E como se</p><p>dá isso? Pela ação. A personagem é quem age e é também</p><p>afetada pelas ações. Ela é o elemento essencial para que</p><p>ocorra o conflito, um dos efeitos mais importantes de uma</p><p>narrativa.</p><p>Por ser uma “máscara”, ela assume diversos papéis, todos</p><p>bem conhecidos:</p><p>O protagonista, ou herói</p><p>Figura central no desenvolvimento da ação.</p><p>O antagonista</p><p>Opositor, em geral, do herói, atua sempre contra algo ou alguém.</p><p>Coadjuvante</p><p>Participante da narrativa com importância para o desenvolvimento da ação, mas menos destacado</p><p>que o protagonista.</p><p>Dependendo da história, esses papéis podem mudar, mas cada um tem uma relevância para a sucessão dos</p><p>acontecimentos e o desenrolar da intriga. Um exemplo de herói clássico é Ulisses, ou Odisseu, da epopeia de</p><p>Homero, Odisseia, que relata o retorno do protagonista para casa após 10 anos na Guerra de Troia,</p><p>enfrentando uma série de situações no caminho, ajudado ou atrapalhado pelos deuses. Dentro dessa mesma</p><p>categoria, temos o anti-herói, que não corresponde às virtudes esperadas de um herói. O personagem</p><p>Macunaíma, do livro de mesmo título, de Mário de Andrade, é um caso de anti-herói na literatura brasileira.</p><p>Nas histórias em quadrinhos, Batman, personagem criado por Bob Kane e Bill Finger, também assume esse</p><p>papel, embora nos pareça, por vezes, ambíguo.</p><p>É importante lembrar que os anti-heróis não são antagonistas, ou opositores, embora muitas vezes</p><p>se comportem quase como vilões, tornando-se difícil determinar a linha que separa um de outro.</p><p>De qualquer forma, os anti-heróis são personagens fundamentais para a trama, como é o caso do Major</p><p>Vidigal, do romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, ou Iago, de Othelo,</p><p>de William Shakespeare.</p><p>Entre os coadjuvantes, há uma infinidade, pois, como vimos, são todos aqueles que não possuem a relevância</p><p>do protagonista, mas têm uma participação imprescindível na história. Um exemplo é Escobar, do já citado</p><p>Dom Casmurro, que é peça chave no discurso paranoico do narrador.</p><p>Quanto à composição, as personagens podem ser, de um modo geral:</p><p>Redondas, ou esféricas</p><p>Complexas, dinâmicas e de profundidade</p><p>psicológica, podendo mudar ao longo da</p><p>história e nos surpreender.</p><p>Planas ou desenhadas</p><p>Mais simples e delimitadas em sua</p><p>caracterização, sem exploração de uma</p><p>interioridade, tornando-se, por isso, previsíveis</p><p>no desenrolar da narrativa.</p><p>Tipos</p><p>Representações simbólicas de um grupo de</p><p>indivíduos, como uma unidade, de acordo com</p><p>o aspecto que se quer ressaltar.</p><p>Na literatura, temos muitos exemplos, especialmente das duas primeiras formas. Raskólnikov, em Crime e</p><p>castigo, de Fiódor Dostoiévski, Macabéa, em A hora da estrela, de Clarice Lispector, e Ponciá Vicêncio, no</p><p>romance que leva seu nome no título, de Conceição Evaristo, são alguns bons exemplos de personagens de</p><p>composição redonda ou esférica.</p><p>As personagens planas ou desenhadas não significam que são necessariamente malfeitas, ao contrário.</p><p>Quando bem desenvolvidas, cumprem muito bem o seu papel na narrativa. Como é o caso das personagens</p><p>da série Harry Potter, de J.K. Rowling, como Harry e Voldemort.</p><p>As personagens-tipos podem não ser tão explícitas, como o cortiço que intitula a obra de Aluísio Azevedo,</p><p>mas exercem uma importante função.</p><p>Onde ocorre a ação?</p><p>Espaço</p><p>O espaço é onde ocorre a ação. Pode ser um, dois ou mais lugares, ou até mesmo ser indefinido. O sociólogo</p><p>francês Michel de Certeau (1998, p. 201-202) define o espaço como resultante do deslocamento entre</p><p>posições, ou lugares. Assim, o que define o espaço não é a circunscrição física e geográfica, mas as relações</p><p>sociais que ali se estabelecem. Se aplicarmos para a teoria da narrativa, poderemos pensar no espaço não</p><p>apenas como um cenário estático, mas como elemento que integra essas ações. Se fosse acessório, não</p><p>precisaria ser descrito.</p><p>Portanto, o espaço deve cumprir uma função, seja para contextualizar a história ou para ressaltar</p><p>uma caraterística da personagem.</p><p>Em uma narrativa, o espaço pode ser,</p><p>geralmente, de dois tipos: físico e psicológico.</p><p>O primeiro pode ser interno e externo. É</p><p>possível que, na mesma história, as</p><p>personagens se desloquem entre ambientes</p><p>físicos distintos, de acordo com o enredo e o</p><p>tipo de narrativa, como uma novela ou um</p><p>romance.</p><p>Há situações em que a definição do espaço</p><p>atende também à caracterização do ambiente</p><p>social do qual as personagens fazem parte, já</p><p>que a posição de um indivíduo na sociedade também se reflete nos lugares que ele habita e frequenta.</p><p>Podemos citar, mais uma vez, dois romances da literatura brasileira em que os espaços físicos ressaltam a</p><p>caracterização de classe das personagens: O cortiço, de Aluísio Azevedo, e Dom Casmurro, de Machado de</p><p>Assis. O primeiro traz, já no título, o próprio elemento da narrativa que estamos discutindo. Na época,</p><p>interessado em escrever sobre as vidas das gentes das habitações pobres da cidade, chega a frequentar e</p><p>até a morar em cortiços, próximo à região central do Rio de Janeiro.</p><p>Saiba mais</p><p>Em Dom Casmurro, a rua de Matacavalos foi o local onde nasceu e cresceu Bentinho.</p><p>O espaço psicológico é mais comum nas</p><p>narrativas modernas, em especial entre os</p><p>séculos XIX e o atual. Ele se refere ao interior</p><p>da personagem, seus pensamentos,</p><p>sentimentos e suas impressões.</p><p>Sabe quando você se coloca a viajar</p><p>mentalmente para situações e lugares que</p><p>seriam impossíveis de alcançar? É como sonhar</p><p>acordado, não? Às vezes, pode virar até mesmo</p><p>um pesadelo, dependendo de onde vamos</p><p>parar. Mas isso não deixa de ser uma espécie</p><p>de narrativa que criamos.</p><p>A traição de Capitu com Escobar, por exemplo, ocorreu em um espaço físico ou psicológico nos devaneios de</p><p>Bentinho? Baleia, a cachorra de Vidas secas, antes de morrer, sonha com um mundo cheio de preás imensos,</p><p>um dos episódios mais belos e sensíveis da literatura. É um dos raros momentos em que o espaço psicológico</p><p>é de um animal. Clarice Lispector explorou como poucos esse ambiente em suas narrativas, como em uma de</p><p>suas obras mais conhecidas, A paixão segundo G.H.</p><p>Como podem ver, a escolha de uma rua, de uma construção, de uma sensação, de uma lembrança, ou até</p><p>mesmo de uma calçada, em uma boa narrativa, não é casual. Podem ocorrer seleções aleatórias? Podem. E</p><p>não significa, necessariamente, que sejam histórias ruins ou mal contadas, mas uma narrativa bem construída</p><p>deve considerar cada um dos elementos e saber amarrá-los na trama. Os espaços podem ser diversos,</p><p>misturar-se, dissolver-se e desaparecer, mas sempre relacionados ao que a história quer contar.</p><p>O cortiço</p><p>Em O cortiço, exemplar do naturalismo no</p><p>Brasil, o meio é determinante para o</p><p>comportamento, o caráter e a personalidade</p><p>do ser humano.</p><p>Dom Casmurro</p><p>A rua de Matacavalos, apesar de</p><p>apresentar a decadência de uma elite,</p><p>também traz a representação de uma</p><p>estrutura social e econômica fundada</p><p>na escravidão.</p><p>Os diferentes tipos de tempo da narrativa</p><p>Tempo</p><p>“Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos...</p><p>Tempo tempo tempo tempo, entro num acordo contigo...</p><p>Tempo tempo tempo tempo..."</p><p>Diz um trecho de Oração ao tempo, de Caetano Veloso</p><p>(1979).</p><p>Você já deve ter escutado em algum momento essa canção.</p><p>Se não escutou, coloque no seu streaming de música</p><p>preferido ou veja no YouTube. Se já escutou, escute de</p><p>novo. O tempo é um dos elementos fundamentais da vida, por isso, não é menos imprescindível em uma</p><p>narrativa. Ele é o tecido do que somos, com nossos desvios, virtudes e hesitações. Assim, aquele que domina</p><p>o tempo em uma história, domina absolutamente todos os elementos, narrador, personagem e espaço,</p><p>embora este, para alguns, esteja também vinculado ao tempo.</p><p>Quanto aos tipos de tempo em uma narrativa, podemos encontrar, de uma forma geral, três:</p><p>Cronológico, ou da história</p><p>É a sequência de acontecimentos narrados na</p><p>ordem semelhante à do relógio, ou do</p><p>calendário.</p><p>Histórico</p><p>É a adequação da narrativa a uma época ou um</p><p>momento histórico, portanto, ele ocorre sempre</p><p>no passado.</p><p>Psicológico</p><p>É a duração subjetiva, da interioridade da</p><p>personagem, de acordo com o ritmo de suas</p><p>sensações e seus pensamentos.</p><p>O tempo cronológico, como o nome já deixa claro, é o mais próximo do que estamos acostumados no nosso</p><p>cotidiano. Nas narrativas, é um dos tipos mais comuns. Os diálogos, por exemplo, costumam seguir essa</p><p>marcação, pois a duração é de acordo com a conversa entre as personagens.</p><p>Quanto ao tempo histórico, não é difícil perceber que ele se aplica a eventos que já ocorreram e agora estão</p><p>sendo reconstituídos. As biografias, pela sua natureza, seguem necessariamente esse tempo, pois elas se</p><p>referem aos acontecimentos na vida de uma pessoa, ou seja, tudo aquilo que a formou como indivíduo. As</p><p>narrativas históricas, de modo geral, também buscam a obediência a essas marcas no calendário.</p><p>Atenção</p><p>Essa distinção não impede que o discurso seja construído com a combinação dos dois tipos de tempo,</p><p>pois, assim como há a necessidade de contextualizar historicamente uma narrativa do passado, ela</p><p>também precisa estar de acordo com o ritmo do presente da escrita e da leitura.</p><p>Sheherazade, no Livro das mil e uma noites, inicia seus relatos ao sultão Shahryar com praticamente a mesma</p><p>fórmula, “Conta-se, ó rei venturoso...”, a fim de imprimir ao evento do passado o frescor do presente.</p><p>O tempo psicológico, também chamado de tempo da memória, é um dos mais complexos e se mistura, de</p><p>certa maneira, com o espaço. Você já deve ter experimentado em algumas ocasiões esse tipo temporal,</p><p>quando um evento parece ter durado tão pouco enquanto outro, quase uma eternidade. É comum</p><p>qualificarmos essa passagem subjetiva do tempo de acordo com a satisfação da nossa experiência.</p><p>Em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, o tempo também opera nessa duração. Aliás, uma das</p><p>características do tempo psicológico, muito presente na literatura de Clarice, é o fluxo de consciência, técnica</p><p>que procura descrever a complexidade do pensamento e das sensações de uma personagem. Além de</p><p>Clarice, Virginia Woolf, Marcel Proust, James Joyce e William Faulkner estão entre os autores que mais</p><p>desenvolveram esse recurso em suas obras.</p><p>Elementos da narrativa: espaço e tempo</p><p>Acompanhemos agora o professor Rodrigo Jorge analisar aspectos e estrutura característica de dois tipos de</p><p>narrativa.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.</p><p>Tipos de narrador</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Tipos de personagem</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>Considere o seguinte texto:</p><p>“O Clube dos Desconfiados teve existência breve. Sua utilidade era indiscutível. Por isso congregou inúmeros</p><p>desconfiados, que em sociedade se sentiriam mais garantidos contra possíveis más intenções e surpresas</p><p>desagradáveis. Uma vez reunidos e organizados, com estatutos e diretoria, passaram a desconfiar uns dos</p><p>outros e de si mesmos. Marcada assembleia geral extraordinária para exame da situação, ninguém</p><p>compareceu. Ficaram todos nas esquinas próximas, espiando quem entrava na sede. O porteiro,</p><p>desconfiadíssimo, sumiu.”</p><p>(ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 44)</p><p>Intitulado “Aquele clube”, o texto faz parte da coletânea Contos plausíveis, de Carlos Drummond de Andrade,</p><p>em que o poético e o cômico se combinam. A utilização do narrador-observador, em terceira pessoa, contribui</p><p>para realçar a comicidade da narrativa, pois:</p><p>A</p><p>ele se envolve com os destinos dos membros do clube e tenta convencer o leitor de sua importância.</p><p>B</p><p>ele não participa da história e, portanto, busca obter cumplicidade do leitor, já que ambos estão distantes</p><p>daquela realidade.</p><p>C</p><p>não há seriedade na forma como ele descreve as personagens da história, levando-nos a um riso irônico.</p><p>D</p><p>ele protagoniza a história, já que possui informações privilegiadas sobre o destino do clube e de seus</p><p>membros.</p><p>E</p><p>o distanciamento em relação aos eventos narrados destaca a sua vantagem sobre os membros do clube.</p><p>A alternativa B está correta.</p><p>O narrador-observador está em uma posição distante dos eventos e não participa deles, mas, ao mesmo</p><p>tempo, tem uma visão geral e mais imparcial da história. A focalização sobre as personagens, sem se</p><p>envolver com elas, aproxima-o mais do leitor, que também imprime um significado na narrativa. Os dois,</p><p>narrador e leitor, situam-se em um plano distinto dos Desconfiados, destacando ainda mais o efeito cômico.</p><p>Questão 2</p><p>A personagem é um dos elementos fundamentais em uma narrativa, pois é por meio dela que sabemos em</p><p>que história estamos entrando no ato de leitura. Quanto aos tipos de personagem, segundo a teoria da</p><p>narrativa, assinale a alternativa correta:</p><p>A</p><p>Contradições e embates interiores são características muito comuns em personagens construídas como</p><p>redondas ou esféricas.</p><p>B</p><p>Resignação e tristeza estão presentes em personagens planas, criadas a partir da leitura de outros textos da</p><p>tradição narrativa.</p><p>C</p><p>As personagens esféricas podem representar um grupo social bem delimitado ou difuso, dependendo do</p><p>espaço da narrativa.</p><p>D</p><p>As personagens-tipos são as mais distantes das características humanas, por isso são muito comuns nas</p><p>representações de monstros nas fábulas.</p><p>E</p><p>A dimensão coletiva das personagens planas se dá pela sua representação dos anseios de um grupo social.</p><p>A alternativa A está correta.</p><p>As personagens chamadas de esféricas ou planas são concebidas a partir de aspectos subjetivos da</p><p>natureza humana, evidenciando, assim, características que as aproximam de pessoas reais.</p><p>4. Narratividade</p><p>Tudo é narrativa?</p><p>O que pode ser narrado?</p><p>No primeiro módulo, falamos</p><p>sobre a nossa necessidade milenar de contar histórias. Elas sempre estiveram</p><p>presentes em nossas vidas e foram se transformando ao longo do tempo, mas preservando alguns de seus</p><p>elementos e outros componentes estruturais.</p><p>Jonathan Culler (1999, p. 85) cita uma observação do crítico literário Frank Kermode sobre nossa capacidade</p><p>de organizar ficcionalmente o mundo tomando como exemplo o ruído de um relógio analógico, o tique-taque.</p><p>Ao conferir palavras diferentes a sons idênticos, estamos demarcando um início e um fim do movimento, como</p><p>se construíssemos uma espécie de microenredo.</p><p>Nesse sentido, é possível concluir que absolutamente tudo é narrativa, tudo pode ser narrativa ou</p><p>não é bem por aí? O que define se algo pode ser tornar uma história ou não?</p><p>Aqui não se trata de seu valor estético, mas de sua eficácia. Não importa se uma história é boa ou ruim, o que</p><p>importa é que ela seja autêntica, pois ela não deixa de ser uma história se não for bem contada. Será apenas</p><p>uma história... mal contada. Mas, ainda assim, uma história. Talvez possamos oferecer sugestões para que ela</p><p>se torne melhor, aí é outro caso. De qualquer maneira, se estamos falando de uma narrativa entendida como</p><p>tal, ela segue uma estrutura e é composta por um número razoável de elementos que a tornam comunicável, já</p><p>que o papel do leitor é fundamental para que uma narrativa se constitua como gênero.</p><p>E já que tocamos no assunto, voltemos à pergunta: o que pode ser narrado?</p><p>Na teoria da narrativa, há um conceito chamado</p><p>narratividade, que, em um primeiro momento, não é muito</p><p>difícil de compreender, considerando as palavras que você</p><p>conhece com o mesmo sufixo. Do que se trata?</p><p>Basicamente, é a qualidade da narrativa, do que é narrativo</p><p>ou pode ser narrado. Ou seja, ele se refere ao potencial de</p><p>um discurso de reconstruir o mundo por meio de uma</p><p>história.</p><p>Mas ele não se encerra nisso. Há outro dado imprescindível</p><p>para que a narratividade seja exercida: o leitor. Apenas por</p><p>meio do processo de leitura é que essa qualidade da narrativa se completa, pois a recepção de uma narrativa</p><p>é imprescindível para que ela cumpra com seu principal objetivo, que é contar uma história.</p><p>Por isso, “a narratividade tem que ver com a capacidade possuída pelo texto (narrativo) para facultar ao</p><p>receptor o acesso a ações de dimensão humana, de matriz temporal e englobadas em universos internamente</p><p>coerentes” (REIS; LOPES, 1988, p. 79). A recepção do texto pelo leitor é que vai permitir a produção de</p><p>sentido, de acordo com a transformação da história, ou relato, em discurso.</p><p>A narratividade é uma operação realizada pelo texto narrativo que o vincula também ao contexto</p><p>histórico-cultural.</p><p>Um leitor não é apenas uma camada imaginária, uma estratégia discursiva do autor, mas um indivíduo dotado</p><p>de subjetividade e inserido em determinado tempo histórico e formado por regras sociais mais ou menos</p><p>estabelecidas.</p><p>De acordo com Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes (1988, p. 78), isso explica o porquê de a epopeia ter sido</p><p>tão importante em determinadas épocas e de o romance, mesmo vinculado a espaços e tempos históricos</p><p>específicos, ser evocado em outros momentos e por subgêneros narrativos, como o romance histórico.</p><p>É o que chamam de “potencialidades modelizantes da narratividade”, isto é, a capacidade da</p><p>narrativa de se inscrever em um período e de se adaptar com o passar do tempo, podendo ser lida</p><p>de diversas maneiras por um público diverso.</p><p>Por que certas obras parecem tão atuais e outras amarradas à data de publicação? Por que alguns textos nos</p><p>remetem a problemas ainda próximos ao nosso cotidiano? Não é apenas pela permanência de aspectos</p><p>humanos e sociais, que também entram na conta, claro, mas também porque a narratividade do texto</p><p>contribui para essa identificação. Assim, o mesmo texto pode ser lido de diferentes maneiras.</p><p>Portanto, o que pode ser narrado não é apenas o que reúna os principais elementos narrativos, mas o que</p><p>tenha a capacidade de ser lido como uma história, já que a narratividade é um fenômeno que se dá por meio</p><p>da recepção, assim como todo fenômeno estético em geral. E é por esta razão que a narrativa, como bem</p><p>destaca Roland Barthes (2001, p. 103), é dada não apenas pela linguagem, mas também pela imagem e pelo</p><p>gesto, ou pela mistura de todas essas formas de expressão.</p><p>Narratividade em textos orais ou escritos</p><p>Narrativas de linguagem verbal</p><p>A narratividade nas histórias de linguagem verbal se refere à qualidade da narrativa nos textos orais ou</p><p>escritos, o que inclui praticamente todos os textos literários que citamos até agora. Mas sabemos que um</p><p>texto não é um conjunto de elementos homogêneos que se comportam da mesma maneira em todas as</p><p>situações. Ao contrário, ele é orientado pelos seus componentes estruturais e pelos gêneros do discurso que</p><p>organizam a história. É por isso que a narratividade é fundamental, pois ela vai diferenciar um texto narrativo</p><p>de outro que não exerça essa função.</p><p>Afinal, nem todo texto literário ou não literário é dotado de narratividade, mas toda narrativa sim.</p><p>Pegue o manual de um eletrodoméstico</p><p>qualquer que você tenha em casa, ou uma bula</p><p>de remédio. Ainda que em alguns deles você</p><p>encontre mais números, em todos você</p><p>encontrará palavras organizadas em uma</p><p>modalidade de discurso. Tanto no manual</p><p>quanto na bula de remédio, você terá à sua</p><p>disposição uma série de instruções para a</p><p>realização de uma tarefa.</p><p>Em nenhum deles você encontrará um discurso</p><p>narrativo, mas isso não significa que eles não</p><p>possam ser transformados em um. Caso você</p><p>tenha errado a dose do remédio, vai precisar ir</p><p>até seu médico para ser examinado. Para que o profissional possa ajudá-lo, você precisará reconstituir uma</p><p>série de eventos, em que a bula se inclui. Nesse processo, a narratividade está presente.</p><p>Vejamos o caso de alguns textos literários. A poesia lírica, por exemplo, define-se, de um modo geral, pela</p><p>expressão de sentimentos e da subjetividade do poeta em forma de versos. Mas também há poemas de</p><p>gênero lírico que apresentem certa narratividade, como este famoso texto de Manuel Bandeira:</p><p>João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número</p><p>Uma noite ele chegou no bar Vinte de NovembroBebeuCantouDançouDepois se atirou na lagoa Rodrigo</p><p>de Freitas e morreu afogado.</p><p>(BANDEIRA, 1998, p. 28)</p><p>Intitulado “Poema tirado de uma notícia de jornal”, o texto foi publicado em Libertinagem (1930), obra em que</p><p>Bandeira adere, de forma mais marcante, ao modernismo. Algumas das características do movimento</p><p>aparecem com frequência nesse e em outros poemas do livro, como a linguagem coloquial, o uso de versos</p><p>livres, a presença de temas do cotidiano comum e de certo tom narrativo. O olhar objetivo dos versos dá ao</p><p>poema certo tom irônico, crítica à indiferença da suposta imparcialidade da linguagem jornalística. Podemos</p><p>traçar um paralelo com a música “Construção”, de Chico Buarque, lançada em álbum homônimo. Nos dois</p><p>casos, apesar de pertencerem a gêneros distintos, a narratividade se realiza quando identificamos, como</p><p>leitores e ouvintes, os elementos que sustentam as duas histórias trágicas.</p><p>Atenção</p><p>Se não conseguimos identificar uma história sendo contada, ou seja, se os elementos presentes não são</p><p>suficientes para que a recepção reconheça o discurso narrativo, então não ocorre o fenômeno da</p><p>narratividade.</p><p>O poema O corvo, de Edgar Allan Poe, um dos mais importantes da literatura ocidental, também apresenta</p><p>narratividade, já que avançamos de um verso para outro e acompanhamos a descrição do eu lírico de seu</p><p>encontro com o “emigrado lá das trevas infernais”, na tradução de Fernando Pessoa. Nas canções de Bob</p><p>Dylan, um dos mais notáveis compositores da atualidade, esse é um dos traços mais presentes, seja criando</p><p>histórias ou reconstituindo situações reais, como na música Hurricane, escrita com Jacques Levy, em protesto</p><p>pela prisão injusta de Rubin “Hurricane” Carter, de clara motivação racista. Nesse caso, a narratividade não</p><p>atua apenas para comunicar os eventos</p><p>tais como se deram, mas também para provocar a indignação dos</p><p>ouvintes e engajá-los na luta antirracista expressa na música.</p><p>Narratividade e os signos visuais</p><p>Narrativas de linguagem não verbal</p><p>Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. Será verdade? Vai depender da imagem e também de</p><p>quais palavras quero substituir por elas. De fato, há imagens que carregam tantos significados que chegam a</p><p>se tornar objetos de longos ensaios, por isso elas constituem o que chamamos de linguagem não verbal e</p><p>utilizam signos visuais, em vez dos signos linguísticos.</p><p>As fotografias de guerra, por exemplo, são eloquentes em</p><p>sua exposição crua da violência e da dor ali expressas. Às</p><p>vezes, o excesso dessas imagens acaba, inclusive,</p><p>banalizando o sofrimento e o naturalizando, como analisa a</p><p>filósofa Susan Sontag, em seu ensaio Diante da dor dos</p><p>outros.</p><p>O olhar de alguém que amamos, seja um bebê, um animal</p><p>de estimação, um amigo que não víamos há muitos anos ou</p><p>uma grande paixão, pode estar carregado de entusiasmo</p><p>que não conseguimos exprimir de outra</p><p>maneira. Ou aquela troca de olhares por</p><p>minutos, mudos, logo após uma longa conversa</p><p>difícil e que precede o abraço envolvido de</p><p>lágrimas.</p><p>Em nenhuma dessas cenas as palavras foram</p><p>necessárias para comunicar um turbilhão de</p><p>sentimentos e histórias, como se tudo estivesse</p><p>misturado e não soubéssemos como dizer. Na</p><p>verdade, sabemos. E dizemos. A narratividade</p><p>também ocorre aqui (SONTAG, 2003).</p><p>Como já estudamos, a narratividade só se completa se a recepção contar com a matéria narrativa fornecida,</p><p>pois o fenômeno possui vínculo direto com quem recebe a história, seja por meio da leitura, da audição ou da</p><p>observação. Um olhar, como descrito em uma das situações anteriores, pode comunicar apenas emoções,</p><p>sem nenhuma narrativa envolvida, mas a cena pode estar inserida em um esquema narrativo e que atenda ao</p><p>horizonte de expectativas de quem a assiste.</p><p>Há vários exemplos no cinema mudo. Em um dos filmes mais divertidos e sensíveis de Charles Chaplin, Luzes</p><p>da cidade (1931), encontramos diversas cenas antológicas. Uma, em especial, está entre as mais belas.</p><p>Na imagem, o protagonista está sorrindo e tem</p><p>a mão, que segura uma flor, na boca, com o</p><p>dedo indicador mais flexionado que os outros.</p><p>Seus olhos se dirigem à personagem da florista</p><p>cega, que está fora do plano. É uma cena</p><p>carregada de emoção, mas também de história</p><p>e que diz tanto sobre as duas figuras, tanto a</p><p>que aparece quanto a que não aparece na</p><p>imagem.</p><p>Dica</p><p>Se não viu a cena ainda, veja! É imperdível.</p><p>Na história da arte, também encontramos vários exemplos de narrativas de linguagem não verbal.</p><p>Mencionamos, no primeiro módulo, as pinturas rupestres dos povos pré-históricos, cheios de mistério e de</p><p>significado, mas também de muitas histórias. Ainda que eles a utilizassem apenas com motivações</p><p>ritualísticas, isso não impediria de haver narratividade, já que o homem sempre fez uso de símbolos</p><p>imagéticos para expressar as suas crenças e tentativas de comunicação com o plano espiritual.</p><p>Crucificação de Jesus, Aleijadinho, Santuário do Bom</p><p>Jesus de Matosinhos (MG).</p><p>A via crucis, por exemplo, é um dos temas recorrentes ao</p><p>longo da história da arte sacra. Ela se refere ao percurso de</p><p>Jesus Cristo até o Calvário, de sua condenação até o seu</p><p>sepultamento, constituindo 14 estações. Uma das</p><p>reproduções mais admiráveis foi concebida por Antônio</p><p>Francisco Lisboa, o Aleijadinho.</p><p>Embora a via crucis seja um tipo de narrativa de linguagem</p><p>não verbal complementar ao registro escrito, já que se trata</p><p>de uma passagem bíblica, observem que a escultura do</p><p>artista mineiro possui emoção, mas também movimento,</p><p>gesto, resultando em uma cena extremamente dramática.</p><p>Ainda que alguém não conheça o relato pelas Escrituras, as</p><p>imagens contam uma história, por isso, está presente aqui também narratividade, já que onde o humano se</p><p>revela, há uma vida a ser contada.</p><p>Narratividade: o que é?</p><p>Você conseguiu compreender do que se trata a narratividade? Precisa de mais uma ajudinha? Sem problemas!</p><p>No vídeo a seguir, o professor Rodrigo Jorge nos apresenta o conceito de narratividade, suas aplicações e</p><p>implicações para a teoria literária.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.</p><p>O que é narratividade?</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Narratividade em histórias de linguagem verbal</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>Um texto narrativo do século XVI pode ser lido de uma maneira no século seguinte e de outra no atual. Além</p><p>dos fatores históricos e sociais, a narratividade do discurso contribui para sua recepção nesses três</p><p>momentos, pois:</p><p>A</p><p>como fenômeno, ela afasta o texto do leitor.</p><p>B</p><p>não há significado produzido pelo processo de leitura.</p><p>C</p><p>as histórias se tornam cada vez mais reais.</p><p>D</p><p>ela atualiza os gêneros de acordo com o contexto em que foram produzidos.</p><p>E</p><p>como fenômeno, ela estabelece uma relação da história com o leitor.</p><p>A alternativa E está correta.</p><p>A narratividade é a capacidade da narrativa de recriação do mundo e o estabelecimento das diversas</p><p>formas possíveis de recepção do discurso. Por isso, ela é fundamental no processo de leitura, pois indica</p><p>que a história está sendo compreendida e, portanto, cumprindo sua função.</p><p>Questão 2</p><p>Em todo álbum de família, temos uma coleção de imagens que cobrem diversos momentos da vida de cada</p><p>um. Independentemente da organização do conjunto, elas comunicam histórias, ainda que o observador das</p><p>fotografias não conheça os membros. Assinale a alternativa que explique essa recepção:</p><p>A</p><p>As fotografias, em geral, são sempre narrativas.</p><p>B</p><p>Por meio de signos visuais, as fotografias familiares, em sua narratividade, expõem os acontecimentos para o</p><p>observador.</p><p>C</p><p>O processo de comunicação da imagem é semelhante ao do texto.</p><p>D</p><p>Por meio de signos visuais, as fotografias familiares ressaltam qualidades dos fotografados.</p><p>E</p><p>Para conhecer as histórias dos membros da família, o observador precisa colocar as imagens em ordem</p><p>cronológica.</p><p>A alternativa B está correta.</p><p>Como uma narrativa de linguagem não verbal, a fotografia faz uso de signos visuais, diferente da narrativa</p><p>de linguagem verbal. No entanto, as duas formas de expressão, por transmitirem para o receptor uma</p><p>sequência, linear ou não, dos acontecimentos, possuem narratividade.</p><p>5. Conclusão</p><p>Considerações finais</p><p>Contar e ouvir histórias é uma das condições humanas essenciais. Por meio dessa necessidade de narrar as</p><p>nossas vidas e de ouvi-las é que nos desenvolvemos. Por isso, estudar as estruturas, os elementos e as</p><p>técnicas narrativas é tão importante, auxiliando na compreensão do mundo e de nós mesmos.</p><p>Apesar das diferenças de tempo, língua e espaço geográfico, todos seguimos alguns padrões mais ou menos</p><p>estabelecidos. A Teoria da Narrativa busca, assim, investigar os mecanismos que compõem as estruturas</p><p>narrativas e as dinâmicas envolvidas em suas variações de uma época a outra.</p><p>Os elementos que fazem parte de uma narrativa operam de modo que cada história transmita uma</p><p>perspectiva. A escolha de um narrador ou de um espaço não é casual, mas cumpre uma função dentro da</p><p>história, essencial para que ela alcance o seu objetivo, atualizando os nossos vínculos com o outro e com o</p><p>mundo.</p><p>Em tudo, uma história pode estar presente, desde que uma vida possa ser lida.</p><p>Podcast</p><p>Neste podcast, o especialista Rodrigo Jorge irá revisitar os pontos centrais do tema.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para ouvir o áudio.</p><p>Explore +</p><p>Além do Dicionário de Teoria da Narrativa, de Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, citado nas</p><p>referências, consulte também o E-Dicionário de Termos Literários, organizado por Carlos Ceia. Lá, você</p><p>tem acesso aos principais termos utilizados pela Teoria e os Estudos Literários.</p><p>Escute o podcast Página Cinco, produzido</p>