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CULTURA VISUAL INTRODUÇÃO Prezado aluno, O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 1 CULTURA VISUAL: PERSPECTIVAS, INTERPRETAÇÕES E ABORDAGENS MULTISSENSORIAIS Na sociedade atual, quase a totalidade das informações que temos acerca do conhecimento gerado nos é transmitida por intermédio das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), que por conseguinte, constroem representações visuais do mundo. Como aventureiros em nossos próprios lares, capturamos representações visuais, frequentemente desprovidas de modelo, sem contexto definido, no ponto de interseção de múltiplas conotações. Essas representações visuais são criadas para proporcionar prazer, entretenimento, estimular vendas, e nos influenciam no que diz respeito à escolha de vestimenta, alimentação, aparência e pensamentos. O aumento do interesse na dimensão visual tem estimulado pesquisadores das áreas de história, antropologia, sociologia e educação a debaterem sobre as representações visuais e sobre a importância de desenvolver a alfabetização visual, manifestada por meio de diversas terminologias, como interpretação de representações visuais e cultura visual. Localizando-se no contexto dos estudos culturais, Bolin e Blandy (2003), opõem-se ao termo visual para descrever o trabalho dos educadores com as representações visuais, por considerá-lo limitante, dada a ampla gama de experiências proporcionadas pelas representações físicas e virtuais. Esses autores reintroduzem o questionamento sobre a supremacia do aspecto visual e sobre a relação deste com os demais sentidos. Em reação a essas observações, Mitchell (1995), em um de seus primeiros trabalhos, já havia alertado que, embora a ideia de visual represente uma dimensão distinta da linguagem verbal, isso não significa que a cultura visual trate apenas desse aspecto isoladamente. De maneira oposta, a cultura visual abrange a interação com todos os demais sentidos e formas de comunicação. Esses escritores trazem de volta à discussão a questão da ascendência do elemento visual e sua conexão com os restantes sentidos. Em reação a essas recomendações, Mitchell (1995), em um dos seus primeiros ensaios, já tinha sublinhado que, embora a concepção do visual apresente uma dimensão separada da linguagem verbal, isso não caracteriza que a cultura visual se ocupe unicamente desse aspeto de maneira isolada. Em oposição, a cultura visual engloba a interação com todos os outros sentidos e formas de linguagem. Uma das figuras centrais desse enfoque é Mirzoeff (2003). Segundo suas ideias, a visualização se tornou uma característica distintiva do mundo contemporâneo, no entanto, isso não implica necessariamente a compreensão do que está sendo contemplado. A discrepância entre a abundância de experiências visuais na cultura atual e a habilidade de analisar essa observação cria a necessidade e a oportunidade de alterar a cultura visual em um campo de estudo. De acordo com Mirzoeff (p. 20, 2003), a cultura visual é uma “tática para estudar a genealogia, a definição e as funções da vida cotidiana pós-moderna a partir da perspectiva do consumidor, mais que do produtor”. Ele ressalta que isso não se trata de uma narrativa histórica das imagens, nem é dependente exclusivamente das imagens em si, mas sim está relacionado à tendência de moldar a vida por meio de imagens ou de visualizar a existência. Isso ocorre porque o domínio visual é um “lugar sempre desafiante de interação social e definição em termos de classe, gênero, identidade sexual e racial” (MIRZOEFF, p. 20, 2003). De acordo com Mirzoeff, a cultura visual não se configura como uma disciplina acadêmica, mas sim como uma abordagem para entender a sociedade moderna. Ele ressalta que os espaços públicos dos cafés no século XVIII, que Jürgen Habermas elogiou, e a era da imprensa capitalista no mundo editorial do século XIX, descrita por Benedict Anderson, eram particularidades distintivas de seus respectivos tempos e desempenharam um papel fundamental nas análises desses autores, não obstante as várias opções disponíveis. Da mesma forma que esses escritores, Mirzoeff tenta capturar a essência da vida por meio de imagens ou representar a existência visualmente para analisar o mundo atual. Ele busca entender como pessoas e grupos reagem às formas de comunicação visual dentro de um cenário interpretativo maleável. Mirzoeff destaca a inovação associada à concepção de cultura visual, justamente porque se concentra no domínio visual como o terreno onde significados são criados e debatidos. Dessa forma, ele se afasta das obras de arte, museus e cinema, para concentrar sua atenção nas vivências diárias. Assim como nos estudos culturais, que visam entender a forma como as pessoas conferem sentido à sua interação com o consumo na cultura de massa, a cultura visual direciona sua atenção para a vivência cotiadiana do aspecto visual e se dedica aos eventos visuais em que o usuário procura obter informações, significado e/ou satisfação relacionados à tecnologia visual. O autor define tecnologia visual como qualquer dispositivo criado com a finalidade de ser percebido visualmente e/ou de melhorar a capacidade de visão natural, abrangendo desde pinturas a óleo até aparelhos de televisão e a internet. A cultura visual, nessa perspectiva, abraça uma proposta muito mais abrangente do que a análise de representações visuais fundamentada no formalismo perceptivo e na semiótica. Trabalhar sob essa ótica ampla envolve reconhecer a habilidade das representações visuais de operarem como intermediárias de antigas e novas manifestações de poder, assim como de experimentações contra discursivas de novas formas de convivência (MORAZA, 2004). Essa perspectiva tem sua base enraizada na vertente socioantropológica, o que significa que ela concentra sua pesquisa tanto nos criadores dessas expressões quanto no contexto sociocultural no qual elas surgem. Os sentidos de observação e visualização desempenham um papel essencial na apreensão da cultura visual. Walker e Chaplin (2002) definem a observação como o processo fisiológico em que a luz afeta os olhos, enquanto a visualização é compreendida como a forma socialmente adquirida de enxergar. Não existe diferenciação no sistema óptico entre um indivíduo brasileiro, europeu ou africano; entretanto, há diferenças na maneira singular pela qual cada um descreve e representa o mundo, resultando em sistemas variados de representação. Dentro desse mesmo raciocínio, Freedman (2002, 2003) argumenta que nossas identidades são refletidas e definidas pela forma como nos representamos visualmente, desde nossas roupas até os programas que visualizamos na televisão. Para essa autora, as abordagens educativas que envolvem a cultura visual podem abranger desde discussões sobre jogos eletrônicos até possíveis alterações no ambiente imediato, como, por exemplo,a decoração do quarto dos estudantes. De acordo com Freedman (2003), a cultura se manifesta como um modo de viver, e a cultura visual dá forma ao nosso mundo, ao mesmo tempo que molda nossa percepção do mundo. Sua abordagem em relação à cultura visual busca responder de maneira apropriada à crescente interatividade das manifestações visuais, abrangendo desde as Belas Artes até as histórias em quadrinhos. A escritora refuta a ideia de que as Belas Artes devam ser elitizadas e vistas como um limite para a exploração das representações visuais no contexto educacional. Em vez disso, ela enfatiza três objetivos que servem como base para uma abordagem social ao lidar com a cultura visual: o cultivo de ideias, a capacidade de visualização e a promoção da reflexão crítica. A autora observa que envolver-se com histórias em quadrinhos não se resume a simplesmente copiar imagens ou personagens dessas criações. Em vez disso, envolve tentar visualizar, com base nas narrativas presentes nessas obras, uma sociedade alternativa que também enfrenta conflitos e, a partir disso, propor respostas para esses conflitos. Em concordância com essa visão cultural, Chanda (2002) apresenta uma abordagem para analisar os objetos visuais sob três perspectivas distintas: a do observador, a histórico-cultural do objeto e a do criador. A autora defende que, ao nos aproximarmos de um objeto visual exclusivamente através da nossa perspectiva individual, nossa interpretação ficará consideravelmente restrita. Isso porque os objetos visuais se manifestam como instrumentos ideais para investigar como nós entendemos o mundo, assim como a maneira pela qual observamos e compreendemos os outros. Isso nos apresenta um dilema duplo, pois enfrentamos o desafio de lidar com culturas frequentemente distantes de nós, ao mesmo tempo em que nos deparamos com culturas próximas e isoladas. Quando alguém que não está familiarizado com a cultura de origem de um objeto visual narra ou analisa esse objeto, geralmente reflete principalmente os conceitos filosóficos, ideais e históricos do observador, em vez dos da cultura de origem do próprio objeto. De acordo com Chanda (2002), as interpretações de um artefato visual revelam os receios, os estereótipos e as ideias que o observador do artefato traz consigo no ato de observar. Para a autora, analisar um artefato visual sob a perspectiva do outro proporciona uma oportunidade singular para experimentarmos os modos de comportamento e os sistemas de pensamento que originam as discrepâncias. Ela apresenta uma segunda etapa: nos observarmos a partir do ponto de vista do contexto do outro. A título de exemplo, ela indaga quais componentes da cultura negra são incorporados à cultura americana como um todo, permitindo que os americanos afirmem que, em diversos aspectos, são diferentes, mas também compartilham proximidade em outros. Chanda propõe que isso deveria constituir o objetivo de uma educação visual voltada para a multiculturalidade. Outro pedagogo que se insere nesse contexto cultural é o educador australiano Paul Duncun (2002). Em sua perspectiva, a cultura visual está intrinsecamente entrelaçada aos estudos culturais, particularmente quando se aborda as práticas de atribuição de sentido, tanto no que se refere às vivências individuais quanto à dinâmica estrutural da sociedade. Essa interação é moldada em torno do controle, e as atividades de atribuição de sentido frequentemente servem como um instrumento para estabelecer e conservar o poder. Entretanto, os indivíduos possuem a habilidade de se opor e negociar o significado dessas atividades por conta própria. O autor descarta a ideia de cultura como uma forma de sofisticação pessoal ou como expressões de uma sensibilidade particular, pois isso engloba apenas uma parte muito restrita da cultura. Rejeita igualmente a noção antropológica de cultura como um estilo de vida, por considerá-la demasiado abrangente. Adota uma abordagem de cultura como práticas significantes, não como itens específicos, mas sim como as relações sociais, valores, convicções e atividades dos quais os objetos são componentes essenciais. 1.1 Análise formalista e significado das representações visuais O termo análise de imagens começou a circular no contexto dos campos de comunicação e artes no final dos anos 1970, simultaneamente ao aumento das plataformas audiovisuais. Esse desenvolvimento foi impactado pelas correntes do formalismo, que se baseavam na teoria da Gestalt, assim como pela semiótica. No campo da psicologia da forma, a representação visual constituía a percepção, visto que toda experiência estética, seja na produção ou na recepção, pressupõe um processo perceptual ativo. A percepção é entendida nesse contexto como um procedimento de elaboração em constante mudança, uma experiência intricada que modifica a informação recebida. À medida que a representação por meio de imagens começa a ser compreendida como um símbolo que engloba diversos códigos, a interpretação dessas imagens demanda a aquisição de conhecimento e a compreensão desses códigos. A ideia de instruir a observação e a interpretação de elementos visuais teve seu início nas contribuições de Rudolf Arnheim em seu livro Arte e Percepção Visual, lançado em 1957. Nessa obra, Arnheim procura identificar categorias visuais essenciais pelas quais a percepção deduz estruturas e o criador de imagens desenvolve suas composições. Arnheim organizou um conjunto de dez categorias visuais fundamentais: harmonia, figura, configuração, sequência, dimensão, luminância, matiz, deslocamento, energia e manifestação. Dentro desse modelo, o espectador desvenda os padrões subjacentes nas representações visuais, empregando as diversas categorias visuais até desvendar a configuração que, por si só, possui atributos expressivos. No cenário brasileiro, Fayga Ostrower (1983, 1987, 1990) emergiu como uma das disseminadoras das contribuições de Rudolf Arnheim. As ideias elaboradas por Ostrower em aulas e diálogos com educadores destacavam as interligações entre os aspectos formais e expressivos das representações visuais. Outro texto que serviu de base para a abordagem formalista na avaliação de representações visuais foi o trabalho da artista visual Donis Dondis, intitulado A primer of visual literacy, lançado em 1973 pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Nessa obra, a autora introduz o conceito de aptidão visual. O livro introduz um sistema elementar para a aprendizagem, identificação, criação e compreensão de mensagens visuais acessíveis a todas as pessoas, não apenas àquelas com instrução especializada, como designers, artistas e estudiosos de estética. Com base na estrutura proposta por Dondis para a alfabetização visual, alguns educadores passaram a adotar uma abordagem analítica das representações visuais, ancorada na gramática visual, que explora o arranjo dos elementos fundamentais, como ponto, linha, forma, cor e luminosidade, para construir a composição. A ideia de examinar as representações visuais com uma perspectiva formalista se baseia em uma lógica cognocível e acessível que sustenta a utilização e a evolução da linguagem visual como um meio para aprimorar a comunicação. No âmbito educacional, essa prática costumava ser associada aos professores de arte, embora não tenha se tornado predominante entre eles. Hernandez (2000) conceitua a lógica como o conjunto de raciocínios e provas que respaldam a integração da prática artística no ambiente escolar. A presença dessa lógica não implica necessariamente em domínio absoluto, pois diferentes formas de lógica podem coexistir no mesmo contexto e período, com uma delas possivelmente tendo maior estabilidade do que a outra. A racionalidade moral sustenta que a prática artística desempenha um papel no aprimoramento moral e no enriquecimento da vidaespiritual e emocional. Por outro lado, a perspectiva expressiva da racionalidade considera a arte como uma ferramenta fundamental para expressar emoções e sentimentos que não podem ser comunicados de outras formas. A racionalidade cognitiva enxerga a prática artística como uma modalidade de aprendizado que estimula o progresso intelectual. Por outro lado, a racionalidade cultural identifica a expressão artística como uma manifestação da cultura, confiando aos artistas a tarefa de forjar representações que intermedeiem significados para cada época e sociedade. Essa forma de racionalidade está incorporada nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), que definem a produção artística, no caso as imagens, como uma expressão cultural, um testemunho do imaginário humano, da sua história e diversidade (Brasil, 1997). 1.2 Análise dos estudos visuais e da influência das imagens digitais Com o avanço das imagens digitais, alguns acadêmicos voltaram sua atenção para um novo campo de estudo conhecido como estudos visuais. Como citado anteriormente Mirzoeff (2003), define que a cultura visual como estratégia ou abordagem interdisciplinar que se dedica a investigar a origem, caracterização e os propósitos das ocorrências dos eventos visuais na era pós-moderna. Essa abordagem se concentra principalmente na experiência cotidiana do indivíduo, levando em conta que o sujeito/consumidor busca informações, significado e satisfação por meio da tecnologia visual. Mirzoeff (2003) conceitua tecnologia visual como qualquer dispositivo projetado para observação ou para aprimorar a visão natural, abrangendo desde pintura a óleo até televisão e internet. A cultura visual, por não ser uma disciplina acadêmica, mas sim uma abordagem tática, busca transcender os limites traçados pelas disciplinas acadêmicas convencionais, promovendo uma interação com a vida cotidiana das pessoas. Isso, de certa forma, segue o rumo dos estudos culturais a partir da década de 1960, que procuraram inserir movimentos sociais, como o Movimento Negro, Feminista e LGBTQIAPN+, no ambiente acadêmico, com o objetivo de questionar o modelo binário vigente na época. Tais movimentos de contracultura desafiaram os valores sociais estabelecidos e adotaram um posiscionamento de crítica radicalizada em relação à cultura convencional. Esses movimentos se estenderam até a década de 1970 (HOBSBAWN, 2000; MACIEL, 1973). A agitação social e cultural dessas décadas gerou uma série de pesquisas acadêmicas interdisciplinares relacionadas à arte e à cultura. De acordo com Monteiro e Schiavinato (2008), a partir dos anos 1990, especialmente nos Estados Unidos, surgiu um campo de estudos denominado Estudos Visuais, que envolveu as áreas de arte, comunicação, antropologia, história e sociologia. Nesse contexto emergiram pesquisas que trataram de forma multidisciplinar a centralidade das imagens e a relevância da observação na sociedade ocidental atual. Elas exploraram como diversos tipos de imagens permeiam a vida cotidiana (a visualidade de uma época) e também a relação entre as técnicas de produção e circulação das imagens e a forma como diferentes grupos e espaços sociais são retratados (os padrões de visualidade). Essas pesquisas propuseram uma análise da maneira como o mundo é visualizado (a visão), influenciando a compreensão da realidade e inspirando modelos de ação social (os regimes de visualidade). Através das investigações na área de cultura visual, hoje em dia temos a compreensão de que os padrões de visualização de uma localidade, como exemplo, expressam as qualidades das indivíduos que residem lá e transmitem significados por meio de ícones que são facilmente interpretados pelos moradores. Conforme colocado por Dias (2011): A cultura visual está associada aos estudos da cultura e do social e a várias disciplinas do conhecimento [...] Muitos teóricos da História da Arte, Artes Visuais, Sociologia, Psicologia, Semiótica, Publicidade, Informática, Cinema, Design, vêm utilizando o termo cultura visual com a intenção de incluir num conceito comum todas as realidades visuais, as visualidades, sejam elas quais forem, que afetam sujeitos em seu cotidiano (DIAS, 2011, p. 50). 2 DESAFIOS DA MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE Conforme Bortoluzzi e Silva (2008), existe um impasse em relação ao entendimento da pós-modernidade, contudo, não há um consenso definido quanto à resposta precisa para o conceito do pós-moderno, gerando um debate sobre o significado tanto da modernidade quanto do pós-moderno. Inicialmente, é apropriado adotar a modernidade como referência para, posteriormente, compreender o que é considerado pós-moderno, visto que o prefixo pós frequentemente indica algo que sucede ou ocorre após aquilo que aconteceu, ou seja, àquilo que chamamos de modernidade. Não é requerido examinar todas as perspectivas, mas sim buscar elucidar a noção de modernidade, visto que essa noção é de caráter contrastante, ela pode adquirir significado tanto daquilo que está sendo negado quanto daquilo que está sendo afirmado. Dessa maneira, a palavra adquire diferentes significados em distintas épocas. Tomando como início, no século V d.C., Santo Agostinho, cujas ideias foram essenciais na construção da perspectiva medieval sobre a relação entre a fé cristã e a exploração da natureza, mencionou que a palavra modernus marcava o começo da nova era cristã, contrapondo-se ao paganismo. Contudo, os intelectuais do Renascimento, ao revitalizarem o humanismo clássico, associaram essa palavra à cristandade para distinguir entre estados e sociedades que eram considerados antigos e modernos. Essa intersecção entre o medieval, o antigo e o moderno, junto com a associação do moderno com o presente, contribuiu para a fluidez do conceito. Consequentemente, a sociedade moderna evoluiu para aquela na qual estamos imersos, nitidamente distinta do período anterior. Nesse sentido, a modernização passou a ser equiparada à ocidentalização. 2.1 A era moderna: razão, ciência e mudanças sociais Ao longo da trajetória histórica, surge um novo cenário social conhecido como modernidade ou era moderna, que se inicia por volta do século XVII, marcando o advento do pensamento moderno concomitantemente ao surgimento de uma classe em oposição às mentalidades e modos de produção feudais. Nesse período, é possível identificar o surgimento de uma sociedade impulsionada pela razão humana, pelo avanço de métodos inovadores, pelo refinamento das expressões artísticas e pelo crescimento na esfera científica (BORTOLUZZI; SILVA, 2008). A razão humana, desprovida de mitos, convicções e superstições, estabeleceu-se como base do controle humano sobre a natureza, resultando em uma estrutura de atividade laboral fundamentada na cooperação. Posteriormente, por volta do meio do século XX, essa estrutura antecipou o paradigma de produção em longa escala que assegurou o sistema fordista. O contexto em que a modernidade se erigiu surgiu a partir da burguesia capitalista, com os ideais de liberdade, o método científico de figuras como Galileu, Kepler e Newton, e a filosofia de pensadores como Descartes, Comênio, Locke e Bacon. Isso permitiu uma autêntica revolução científica e tecnológica, em que a abordagem formalista do ser humano suplantou a primazia do mundo interior em favor do mundo exterior, levando ao domínio das coisas sobre a palavra (BORTOLUZZI; SILVA, 2008). Estudos demonstram que a modernidade foi influenciada por elementos como o Renascimento, originário na Itália, a Reforma Protestante na Alemanha e a Revolução Industrial na Inglaterra, liderada por Martinho Lutero. Entretanto, foi por meio da revolução científica, impulsionada por intelectuais, cientistas e filósofos da época, que se deu a ascensão da ciência e a redefinição do papel do ser humano dentro de sua cultura. Isso resultou em umanova visão do mundo, do cosmos e de si mesmo, fundamentada em descobertas de grande relevância. É incontestável que esse renascimento científico ocorreu em uma circunstância social e cultural fortemente embasado na matemática. Inegavelmente, ocorreu uma transformação na visão do mundo em relação à organização religiosa. No contexto em que a função unificadora, previamente representada pela religião, migra para a esfera política. A postura passiva e reflexiva dá lugar à atividade fundamentada na razão, que se alarga tanto no domínio físico quanto no social, à medida que procura novas abordagens para compreensão e estruturação. Conforme Bortoluzzi e Silva (2008), ao analisar elementos essenciais do contexto histórico, fica claro que foi com a advento da modernidade que o indivíduo passou a reconhecer suas habilidades cognitivas para desvendar os mistérios da natureza, procurando respostas para suas adversidades. Nesse sentido, deu-se a troca da cultura baseada em um foco religioso e metafísico, que se apoiava na verdade revelada e na autoridade eclesiástica, por uma cultura centrada no ser humano e no secularismo. Esse deslocamento teve sua raiz no humanismo do Renascimento. A chegada da modernidade não está apenas associada ao aparecimento de uma ciência desvinculada das instruções bíblicas, nem somente à evolução de uma cultura política e jurídica fundamentada nas vontades humanas. Ela também envolve a consolidação de uma moral independente da autoridade da igreja e das verdades manisfestadas, tendo como alicerce, consequentemente, uma base racional de natureza humana. Desse modo, essas transformações no âmbito do conhecimento e da ética acarretaram mudanças no cenário educacional. O sistema educativo, antes direcionado para moldar a conformidade do indivíduo aos desígnios divinos, passou a ser percebido como uma ferramenta de emancipação e ampliação da racionalidade. Essa racionalidade, por sua vez, visa esclarecer os segredos da natureza tanto humana quanto material, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Segundo Harvey (1992): O pensamento iluminista abraçou a ideia do progresso e buscou ativamente a ruptura com a história e a tradição esposada pela modernidade. Foi, sobretudo, um movimento secular que procurou desmistificar e dessacralizar o conhecimento e a organização social para libertar os seres humanos de seus grilhões (HARVEY, 1992, p.23). O movimento intelectual do Iluminismo, em sua concepção de modernidade, enalteceu a importância da razão, da ciência e da tecnologia, nutrindo aspirações de liberdade e progresso. Acreditava-se que, com um método capaz de atestar a verdade de maneira objetiva, a humanidade se desvincularia do conhecimento fundamentado na subjetividade. No entanto, a compreensão da realidade como algo único e objetivo, e a visão de progresso como garantia de uma vida próspera, passaram a ser postas em dúvida, à medida que se percebeu que a grande narrativa de um futuro perfeito constituía uma ilusão (BORTOLUZZI; SILVA, 2008). Dessa forma, o conceito de modernidade estava enraizado na primazia da razão, vista como um caminho seguro para a verdade. Isso levou as ciências humanas a adotarem uma abordagem metodológica semelhante à das ciências naturais, uma vez que se embasavam na eficácia dos resultados obtidos. Isso resultou em uma posição de desconfiança e equívoco em relação ao conhecimento baseado em tradições, cujo fundamento residia nas narrativas antigas e tradicionais. A característica proeminente do pensamento moderno residia no conceito de uma sociedade ideal, na qual as instituições político-econômicas estariam genuinamente dedicadas ao bem-estar coletivo, impulsionadas pelo avanço científico apoiado pela razão. Isso implicava na quebra da ordem tradicional vigente. Sob essa perspectiva, a condição de ser moderno implica contrastar com o antigo, e a razão, ao emancipar-se do discurso religioso e das tradições, passa a considerar o método científico como a verdade. Nesse contexto, a razão assume o lugar da fé e o progresso substitui a noção de Lei Divina. Contudo, a modernidade passou por uma crise, visto que a promessa de um mundo aprimorado através da ciência também não se concretizou plenamente. O mundo experimentou melhorias para alguns indivíduos que podiam arcar com os custos do progresso, mas, ao mesmo tempo, a exclusão social ressurgiu, resultando em um culto excessivo à razão que levou muitas pessoas a perderem a noção de bem-estar coletivo. Consequentemente, buscam o sucesso de maneira egoísta, sem considerar a situação dos outros. De fato, o avanço científico contribuiu para a melhoria do mundo, mas o progresso tecnológico trouxe consigo conflitos e a perda de vidas em escala global. A ocorrência de eventos como a Segunda Guerra Mundial deixou traumas profundamente marcantes, e esse contexto deu origem a diversos movimentos contraculturais e antimodernos. 2.2 Retratando a educação na era pós-moderna A era pós-moderna se configura por transformações que permeiam as esferas das artes, ciências e do cotidiano, ganhando ímpeto por meio das críticas direcionadas à filosofia ocidental durante o século XX. O termo pós-modernidade foi cunhado por Lyotard, que lançou questionamentos à modernidade, ressaltando seu estado de crise e provocando rupturas com a tradição realista europeia que prevaleceu no século XIX. Nesse contexto, diversos valores e ideais que outrora guiaram a trajetória humana, ao menos nos séculos anteriores, agora enfrentam desconfiança e descrédito. A modernidade era caracterizada por uma estrutura objetiva e precisa, fundamentada na lógica, no avanço tecnológico e no desenvolvimento. Essa confiança inabalável na razão científica e instrumental considerava o mundo como um sistema interconectado por relações de causa e efeito, prometendo à humanidade o conhecimento necessário para melhorar o bem-estar das pessoas. Não é possível determinar se o pós-modernismo indica declínio ou um novo florescimento cultural. No entanto, o paradigma pós-moderno é inequivocamente fundamentado na contradição, no niilismo que implica na falta de valores, no hedonismo, na transitoriedade, no consumismo e no acentuado individualismo. Esse cenário é moldado por símbolos, pela representação do status, pelo poder mantido pelo sistema econômico; essas são características distintivas de uma sociedade pós- industrial, enraizada na informação, na tecnologia e na automação (BORTOLUZZI; SILVA, 2008). Ao explorar o pós-modernismo, torna-se evidente que o consumo e a produção são os pilares desse conceito. O indivíduo é inundado por um fluxo constante de referências midiáticas e nesse processo tende a perder seu engajamento político, diminuindo sua capacidade de reflexão em relação a questões significativas de cunho social, econômico ou político. Segundo Bortoluzzi e Silva (2008), destaca-se a presença da antiarte, caracterizada pela falta de compromisso tanto social quanto intelectual, sem manifestar propostas claramente definidas. Nesse contexto, o pluralismo e o ecletismo emergem como normas predominantes. Há uma desconstrução do discurso filosófico ocidental, acompanhada da ideia de declínio das grandes verdades, das metanarrativas e dos valores tradicionais, incluindo a família. Essa abordagem incorpora a negação do absoluto, sendo o niilismo uma influência central. Ainda conforme o autor citado anteriormente a tecnociência penetra no cotidiano das pessoas, desprovida de qualquer valor moral além do consumismo, através da mídia de massa, resultando em um efeito prejudicial, que é diluidor e contrário à natureza humana. A queda das instituições previamente consideradas sólidas, que já não orientam mais a vida das pessoas, incluindo a família e a escola, juntamente com a decadência de valores que foram substituídospor tendências passageiras, como a busca pelo efêmero, narcisismo, hedonismo e hiper-realismo midiático, conduzem o indivíduo a um estado sincrético, caracterizado por confusão, indefinição, descartabilidade e fragmentação. A educação exerce um papel de extrema relevância nesse cenário, uma vez que pode optar por reproduzir ou transformar a realidade que se apresenta, considerando que a formação em massa ocorre por meio da interação entre escola e mídia. Identifica-se um grande paradoxo nesse contexto. Embora as novas tecnologias tenham simplificado o mundo, elas também deram origem a novas necessidades que não conseguem suprimir as inquietações do indivíduo. Este, cada vez mais, depende da família, da escola e da sociedade para encontrar seu caminho. Ao mesmo tempo, ocorre a negação de valores, embora sejam igualmente necessários para a própria existência. Não raro, a busca por uma fuga leva à recorrência da drogadição como uma forma de escape. Dentro do paradigma pós-moderno, somente o presente é relevante, sem espaço para perspectivas de futuro. Há uma clara renúncia ao passado, à História, à política, à ideologia, ao trabalho, à família e à religião. O sujeito pós-moderno demonstra indiferença em relação à política, não confia em valores morais e não busca a realização pessoal por meio do trabalho. Todas essas questões posicionam a pós-modernidade como uma reação cultural às formas históricas pelas quais os ideais da Modernidade foram desenvolvidos. Segundo Morin (2007): As civilizações tradicionais viviam na certeza de um tempo cíclico cujo funcionamento devia ser assegurado por sacrifícios às vezes humanos. A civilização moderna viveu com a certeza do progresso histórico. A tomada de consciência da incerteza histórica acontece hoje com a destruição do mito do progresso. O progresso é certamente possível, mas é incerto. A isso acrescentam-se todas as incertezas devido à velocidade e à aceleração dos que nem a mente humana, nem um supercomputador, nem um de processos complexos e aleatórios de nossa era planetária (MORIN, 2007, p.80). Diante desse cenário de dubiedades, a educação pós-moderna emerge como uma defensora do ensino orientado para o futuro, especialmente adaptado para lidar com a imprevisibilidade. Essa abordagem busca estabelecer uma educação contínua que fomente a humanização e seja vital para o progresso. Nesse contexto, o objetivo é capacitar o indivíduo a explorar princípios e estratégias que o habilitem a enfrentar as incertezas, os imprevistos e o inesperado, adaptando seu comportamento com base nas informações acumuladas ao longo do tempo. Esse modelo carece de uma identidade distintiva e se apoia na rejeição da modernidade, resultando em uma crise paradigmática. A ausência de bases concretas e estáveis para os indivíduos culmina em uma multiplicidade de expressões culturais. A educação, por sua vez, assume uma abordagem multicultural, desafiando a uniformidade cultural e construindo um mosaico diversificado de identidades étnicas. De acordo com os pensadores pós-modernos, a educação deve dar destaque ao que é instantâneo, colocando os objetivos à frente da finalidade educacional. Nesse sentido, o material de ensino deve ser relevante para o estudante, enquanto a instituição escolar deve ser independente, inovadora e inclusiva, promovendo diálogo entre as múltiplas culturas e visões de mundo. Para Pourtois e Desmet (1999): A pedagogia será pós-moderna quando deixar de ver seus mestres identificar-se com um modelo particular e permitir um diálogo fecundo entre suas diversas orientações de pensamento (....). Dessa forma, o processo de pensamento e ação pós-modernos procura uma unidade, real, por certo, mas que sempre permanecerá inacabada (....) sem cair no “desejo de totalidade” (POURTOIS; DESMET, 1999, p.41) A abordagem educacional pós-moderna coloca a condição humana como seu núcleo central e se propõe a explorar as múltiplas facetas do indivíduo. Conforme afirmam POURTOIS e DESMET (1999): A função educativa assume maior importância nessa nova sociedade; terá uma meta: formar sujeitos com identidade sólida que, embora possam encontra-se em situação difícil, se definirão como pessoas autônomas, responsáveis, capazes de engajar-se e respeitar os compromissos, inventivos, com autoimagem positiva e aptos a assumir papéis sociais. Essa perspectiva de uma exigência implica que a educação e o desenvolvimento não estejam mais reduzidos estrita dimensão escolar (POURTOIS; DESMET, 1999, p.14). Nesse contexto, considerar uma abordagem educacional pós-moderna implica enfrentar uma série de desafios psicológicos, culturais, econômicos e sociais, permeados por elementos simbólicos e contraditórios. Essa abordagem tem como fundamento a busca pela liberdade e pelo bem-estar na sociedade moderna pós- industrial. 3 REPRESENTAÇÃO VISUAL NA COMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO DIGITAL A representação visual, também denotada como imagem, refere-se às representações visuais ou figuras que são empregadas em nosso dia a dia. Utilizamos o conceito de representação visual devido à abordagem de Santaella (2012) nos campos da Semiótica. De acordo com essa perspectiva, o termo "imagem" abarca uma diversidade de significados, o que implica que não existe uma definição exclusiva para tal. Isso se deve ao fato de que a imagem se faz presente em esferas mentais, receptivas e representacionais, conforme é explanado “[...] existem diferentes territórios da imagem, do que resulta uma polivalência conceitual que vaza os limites de uma definição única” (SANTAELLA, 2012, p. 14). No âmbito da visualidade, a representação imagética é categorizada em três esferas distintas, nomeadamente: o domínio das imagens mentais, que abrange aquelas que residem em nossa cognição, podendo ser concebidas ou visualizadas durante o sono, conforme ressaltado por Santaella (2012, p. 15) “a mente é livre para projetar formas e configurações não necessariamente existentes no mundo físico”. Já no contexto das imagens perceptíveis, referindo-se às imagens que captamos do mundo visível, estas são as que contemplamos diretamente na realidade em que nos inserimos e habitamos (SANTAELLA, 2012). O campo das imagens enquanto expressões visuais, como explicado por Santaella (2012), são originadas e geradas pelos indivíduos dentro das comunidades em que estão inseridos e são manifestadas através de desenhos, pinturas, gravuras, fotografias, imagens em movimento cinematográficas e televisivas, bem como as holográficas e infográficas (imagens computacionais) . Observe a respresentação das categorias citadas na Figura 1. Figura 1 – Campos da visualidade Fonte: Mata e Sondermann, 2020. Portanto, ao falamos de imagens, precisamos identificar o processo ou estágio desse processo cognitivo ao qual estamos nos referindo; podemos estar fazendo menção à percepção sensorial da realidade, que chamamos, a partir de agora, de imagem/visão; as imagens internas que elaboramos do mundo, às quais daremos o nome de imagem/pensamento; ou ás expressões de nossa subjetividade, que receberão o nome de imagem/texto (COSTA, 2013, p.32). Para Carneiro (1997, p. 22) “chamamos de imagem a representação visual, real ou analógica de um ser, fenômeno ou objeto [...]”, isso enfatiza que as representações visuais carregam significados e englobam uma comunicação visual que orienta os observadores em direção a uma reinterpretação. As representações visuais, na forma de imagens, demonstram-se altamente recomendáveis no contexto do processo educativo, uma vez que contribuem significativamente para a compreensão de conceitos. Isso ocorre porque uma das suas atribuições é “aquela a que às ilustrações de livros se prestam, sobretudo a de cumprir a tarefa de ilustrar as informações transmitidas pelo texto verbal” (SANTAELLA, 2012, p. 19). As representaçõesvisuais podem ser desenvolvidas em conformidade com o tema que se deseja abordar. Elas podem ser criadas utilizando softwares específicos de design, bem como serem produzidas manualmente através de desenhos, esboços, mapas mentais, pinturas, gravuras, entre outras técnicas. Esse processo é de grande auxílio para os profissionais da educação no que se refere à elaboração do material didático destinado ao uso em suas aulas. 3.1 Interpretação, significação e estilo nas representações visuais Inseridas na ampla gama de criações culturais características de uma sociedade específica, as representações visuais apresentam dois âmbitos fundamentais para a sua interpretação: o ponto de vista daquele que as concebe, ou seja, o autor, e o ângulo de observação daquele que as recebe. É compreendido que percepções aproximadas ou comparáveis podem surgir devido à simultaneidade das experiências dos indivíduos, que partilham do mesmo conjunto de ideias e objetivos de produção (VICENTE, 2000). Mesmo entre indivíduos que compartilham o mesmo contexto histórico e pertencem à mesma comunidade cultural, surgem interpretações variadas, capazes de reinventar sentidos e significados. É por meio da interação entre a produção e percepção das representações visuais que concebemos e construímos sequências interligadas de imagens. Referindo-se a esse conceito crucial, recorremos ao trabalho do professor Eduardo Neiva intitulado "Imagem, história e semiótica", datado de 1993. Originado da iconologia, ele é considerado "tanto uma característica intrínseca à história quanto um atributo inevitável da ação dos signos". Essa noção pode ser descrita como "uma forma de parentesco visual, um piscar de unidade por meio de diversas expressões", reconhecível entre a ampla gama de produtos culturais de uma determinada era. Neiva (1993), introduz novas perspectivas à historiografia, superpondo à análise iconológica a abordagem da análise semiótica: As imagens nos vêm de séries conexas continuamente transformadas. A analogia preside as conexões. São essas séries conexas que nos permitem, de possibilidade em possibilidade, interpretar as imagens. Um passo importante para a interpretação de imagens deve recompor as séries conexas. Duas formas de tempo estão em atividade: o presente que caracteriza as possibilidades materiais da imagem e o desdobramento da série, passo a passo, que cria as idéias de história, passado e tradição. (NEIVA, 1993, p. 12) Segundo Vicente (2000), a interpretação das representações visuais por meio de séries interligadas permite a identificação das analogias presentes entre as imagens. Essas analogias podem ser discernidas graças ao conhecimento prévio ou à familiaridade adquirida com o objeto referente ao processo cultural que as gerou e, de forma mais sutil a própria participação nesse processo de criação. O que Neiva denomina de patrimônio histórico e vivências conceituais ou cognitivas parece englobar os elementos essenciais para uma análise inicial. Neste ponto, faremos uma breve digressão para esclarecer a compreensão do termo interpretação. O filósofo Edmond Ortigues (1987), levanta questões relevantes sobre as distintas maneiras de conduzir a atividade interpretativa, conectando suas variadas categorias. Ele postula que a interpretação envolve a função intermediária dos significados presentes em uma obra, mais do que se tratar de um processo direto de atribuição de significado. Dessa forma, a atribuição de sentido teria a função de geração, enquanto a interpretação busca fazer com que um determinado público compreenda o que foi dito ou escrito por outro. O intérprete não é o autor das palavras ou da escrita, tampouco o destinatário final da mensagem. Ele é um elo, um mediador. A interpretação, aderindo a essa perspectiva, constitui uma conexão estabelecida entre o texto ou a expressão original e o texto ou a expressão que emerge do ato de interpretar. Esse movimento funciona como uma chave de compreensão para a expressão original. Desse modo, surge um enunciado secundário que existe apenas em relação ao primeiro. Essa relação, que poderíamos descrever como intrínseca, só seria rompida caso novos significados fossem gerados, ou seja, se, em vez de um processo simples de descrição de uma obra, fossem implementados processos analíticos que dessem origem a novos sentidos. Prontamente fazemos uma conexão entre esse modelo de pensamento e os níveis de análise propostos por Panofsky (1986). Contudo, a ideia de dissociar a atividade de interpretação da atividade de atribuição de significado pode parecer um tanto cartesiana para abordar o tema. Adicionalmente, de acordo com ortigues (1987), a análise contém uma porção de interpretação, ou seja, de reconfiguração da linguagem descritiva em termos de uma hipótese teórica destinada a revelar determinadas relações entre os dados observáveis. No entanto, o ponto crucial de sua abordagem reside na capacidade de conceber a diversidade de interpretações possíveis não apenas através de uma subjetividade simplista, mas sim por meio da habilidade de estabelecer categorias de correspondência. Se tais obras se prestam a múltiplas leituras, não é porque tenham vários "sentidos", mas sobretudo, porque o seu sentido explícito cria classes de correspondências que permitem com o livro interpretar a vida e com a vida interpretar o livro. Interpretar então, quer dizer: fazer ver certas correspondências entre universos ou estados de coisas, entre os quais não nos percebíamos até então nenhuma ligação direta (ORTIGUES, 1987, p. 225). Percebemos que os limites distintos entre interpretação e significação não são claramente definidos. No processo de análise, enquanto interpretamos, desvelamos os modos pelos quais os significados são construídos, seja por meio da iconologia ou da semiótica, por exemplo. No entanto, ao finalizar a análise, o objeto não permanece inalterado; a percepção do objeto não será a mesma de antes, pois ao analisá-lo, o dotamos de novos significados, atribuímos novos valores e signos. Ao observarmos as categorias envolvidas na análise de representações visuais, enfatizamos a evolução conceitual do termo "estilo". Enquanto, no vernáculo cotidiano, ele é entendido como uma forma de expressão individual, em Neiva, o termo adquire uma dimensão suplementar de "concepções culturais coletivas incorporadas nas imagens". Desta forma, estilo é compreendido a partir da noção de "um conjunto que transcende enquanto sintoma do estado geral do espírito de uma época inteira, e não mais como a expressão de um indivíduo" (NEIVA, 1993, p.14). 3.2 Representações visuais na era digital Atualmente, a sociedade encontra-se imersa naquilo que é comumente referido como a Era Digital. Os computadores desempenham um papel significativo e indispensável no modelo atual de interações sociais, abrangendo diversos âmbitos da sociedade, como comércio, política, serviços, entretenimento, informação e relacionamentos. Os desdobramentos dessa evolução são claramente visíveis, e essas mudanças alteraram substancialmente o panorama social na busca por aprimoramento e pela simplificação das vidas e práticas individuais (KOHN, 2007). Segundo Kohn (2007), as tecnologias digitais abriram caminho para uma nova dimensão em relação aos produtos, transmissão, arquivamento e acesso à informação, provocando alterações significativas nos âmbitos econômico, político e social. No entanto, o aspecto mais crucial do computador não reside unicamente nele próprio, mas sim na habilidade de conexão e criação de redes. Dessa forma, com o advento da internet no final dos anos 1960, conceitos como liberdade e imaterialidade passaram a revolucionar a maneira como a leitura e a comunicação ocorrem em rede. Isso possibilitou o arquivamento, a reprodução, a fragmentação, a recomposição, o deslocamento e a construçãode textos, sua exibição e o acesso a todo tipo de informação, de todas as formas imagináveis e a qualquer momento. O avanço de tecnologias inovadoras no campo da informática ultrapassou um mercado que se tornou cada vez mais competitivo e especializado, como consequência da globalização, do aumento da velocidade e da instantaneidade nos processos produtivos e dos padrões de mercado predominantes. A utilização da rede interconectada de computadores por indivíduos e empresas se tornou uma necessidade incontornável nos tempos atuais. Essa rede possibilita o acesso a uma vasta gama de informações em tempo real, bem como a troca e o cruzamento de dados a qualquer instante. A adoção do computador impulsionou a eficiência e a facilidade dos serviços, resultando na redução da dependência de mão de obra em setores que foram automatizados, porém, ao mesmo tempo, abriu novas oportunidades profissionais especializadas no campo da informática (como programadores, webdesigners e administradores de rede) e das comunicações (incluindo profissionais de marketing e jornalistas digitais) (KOHN, 2007). Diferentemente das analogias anteriores fundamentadas em suportes como a imprensa, televisão e rádio, Lévy (1993) identifica novas funções na formação da rede digital, as quais ele denomina como polos funcionais. Estes polos compreendem: a produção ou composição de dados, programas ou representações visuais por meio de técnicas digitais; a seleção, recepção e processamento de dados, sons ou imagens utilizando terminais de recepção inteligentes; a transmissão através da rede digital de serviços integrados; e o armazenamento em bancos de dados de informações e imagens. Hoje em dia, é possível acessar qualquer informação de forma instantânea e a partir de qualquer lugar do mundo. Isso resultou em uma visibilidade ampliada e acelerada dos eventos, com os dados sendo atualizados constantemente. Conforme Lévy (1993) argumenta, a interface digital expande o âmbito do que pode ser visualizado, destacando a evolução emergente que diversificou, simplificou e possibilitou a disseminação instantânea e abrangente das informações. A internet transformou o indivíduo em um potencial interator e comunicador ativo. Agora, não apenas tem acesso expandido à informação, mas também pode participar diretamente, expressando opiniões e interagindo simultaneamente enquanto absorve conteúdo. Uma das questões discutidas em relação à internet envolve a criação de um espaço público virtual. Para certos críticos, como Nunes (1997), a internet não promove a objetivação e a consolidação da vontade coletiva. Nesse sentido, percebe- se que essa ideia está relacionada ao fato de que esse domínio encontra-se ainda em um processo de transição, reconfigurando significados nas esferas sociais. O autor argumenta que essa esfera é governada pelas dinâmicas das relações entre empresas, o estado e os usuários, o que dificulta a efetivação do espaço público. Para estudiosos de uma perspectiva mais otimista, a internet trouxe uma revolução positiva à sociedade, simplificando diversos aspectos da vida. Ela se tornou um ambiente para comunicação, política, economia e democracia, um espaço que abarca as atividades humanas (retirando a ideia de esfera pública, conforme a definição clássica de Jürgen Habermas, 1984) e favorece a participação e interação cívica (MAIA, 2002). Nesse contexto, também proporciona diversão, entretenimento, momentos de ócio, além de possibilitar contatos pessoais e profissionais, bem como o exercício da liberdade de expressão. Conforme a teoria do agir comunicativo de Habermas, a mídia tem a capacidade de superar a ação cara a cara, estabelecendo redes de comunicação simultâneas que abrangem conteúdos provenientes de diversos segmentos sociais. Além disso, Maia acrescenta que a mídia disponibiliza mensagens em uma ampla escala espaço-temporal, permitindo que o público não apenas participe desse espaço, mas também mantenha um campo de interações. Para Habermas (1984), muito além do corpo físico, são essenciais as ações, interações, trocas de ideias e experiências. O ciberespaço é impregnado por práticas sociais, e a materialidade das relações humanas se manifesta por meio da linguagem. Isso destaca a importância da capacidade dessa ferramenta de conferir ao público o poder de interação, prescindindo do contato presencial. Também é evidente que ocorreu uma descentralização do processo de produção e disseminação de informações, permitindo que qualquer pessoa possa contribuir e acessar o conteúdo que busca. No entanto, a característica mais marcante desses meios é a sua capacidade de encurtar distâncias, remover barreiras nacionais e até mesmo algumas ideológicas. Isso resulta em uma desterritorialização e na adoção de uma linguagem universal - a linguagem dos computadores. Essas são ideias que surgiram em defesa do potencial uso dos dispositivos tecnológicos (KOHN, 2007). Poster e Shapiro (1999) destacam a tecnologia como um campo de interação entre técnicas e relações sociais, o qual reconfigura a relação entre tecnologia e cultura. Brittos (2002), complementa afirmando que as tecnologias têm um impacto econômico, político e social. As novas configurações trazem consigo tanto benefícios quanto desvantagens, uma vez que, por um lado, tornam certas tarefas mais fáceis, mas, por outro lado, demandam um nível maior de conhecimento para serem acessadas. Além disso, as tecnologias tendem a afastar as pessoas do contato físico, evidenciam diferenças sociais e revelam que o poder está cada vez mais concentrado nas mãos de poucos. Saco (2002), descreve o mundo digital como uma esfera informal, composta por indivíduos privados, de uso exclusivo e com acesso restrito, onde apenas as grandes empresas têm uma vantagem, já que controlam a produção e a disseminação das informações, exercendo influência sobre a esfera social. Este cenário resulta na acumulação de riqueza para uma elite que se beneficia das pseudorrelações sociais. Marcondes (2007), argumenta que a concretização de uma esfera pública virtual dedicada à comunicação pública, onde todos têm a capacidade e os recursos críticos, econômicos, educacionais e tecnológicos para participar, é uma utopia, um idealismo inatingível. Além disso, ele propõe que uma sociedade voltada para o capital não conseguirá alcançar uma esfera virtual que seja igualitária, universal e não coercitiva. Isso vai de encontro às perspectivas de autores que anteriormente defendiam que o ambiente virtual levaria a uma maior participação e interatividade entre os indivíduos. Rheingold (2000), sustenta que o ciberespaço é um espaço conceitual, no qual palavras, interações humanas, dados e poder são expressões para aqueles que utilizam a tecnologia de comunicação mediada por computador. Nessa abordagem, fica claro que nem toda informação é garantida como veraz e de fontes confiáveis, e também que o acesso a esse meio não está disponível para todos. Diante deste panorama teórico, é factível afirmar que a apreciação da tecnologia deve ser abordada de maneira contextualizada, uma vez que o diálogo sobre a sociedade digital é intrincado. Castells (1999) ressalta que as novas tecnologias da informação não se limitam a ser meras ferramentas a serem aplicadas, mas sim processos a serem construídos. Essa construção ocorre, portanto, dentro da sociedade. 4 IDENTIDADE CULTURAL: PERSPECTIVAS E INFLUÊNCIAS NA CONTEMPORANEIDADE Na perspectiva do senso comum, quando se menciona o conceito de identidade, normalmente se refere às características distintas de um indivíduo, que o diferenciam de outro. No entanto, de acordo com Bauman (2005), a ideia de identidade emergiu da crise do senso de pertencimento, quando os Estados buscavam a lealdade de seus cidadãos, e esses indivíduos, por sua vez, ansiavam por umanoção sólida de nação. Sem um Estado, essa nação se tornaria insegura sobre seu passado, incerta sobre seu presente e, principalmente, duvidosa sobre seu futuro. Bauman argumenta que a identidade nacional passou a ser imposta, e é o poder governante que determina a nacionalidade e um destino compartilhado pela nação. No entanto, essa identidade permanece incompleta devido ao poder de exclusão e à diferenciação na criação, imposição e controle das fronteiras entre "nós" e "eles". Já o termo cultura tem sua origem no verbo cultivar, relacionado à agricultura (HOFSTEDE, 1991; TROMPENAARS, 1994). O antropólogo Tylor (1871), foi o pioneiro em propor o significado da palavra cultura como o conjunto de saberes, convicções, expressões artísticas, ética, leis, tradições ou qualquer aptidão ou costume adquirido pelo ser humano enquanto membro de uma comunidade. Essa definição engloba todas as facetas da expressão humana, além de estabelecer o termo cultura como a totalidade de comportamentos aprendidos, algo que é produzido e compartilhado socialmente, e não inerente geneticamente. Conforme Hofstede (1991), também é afirmado que a cultura é adquirida e não inata, originando-se do ambiente social do indivíduo e não de sua constituição genética. Segundo esse autor, as distinções culturais se assemelham às camadas de uma cebola. Na camada mais externa, que reflete as manifestações mais superficiais da cultura, estão os símbolos (linguagem, gestos, representações visuais, objetos). Em um nível intermediário, encontram-se os heróis (indivíduos que funcionam como modelos) e rituais (práticas coletivas). Já nas camadas mais profundas residem os valores (preferências em relação a alternativas). Os valores integram as primeiras lições que as crianças frequentemente absorvem de maneira inconsciente. A identidade cultural é formada ao internalizar os próprios valores culturais. A maneira pela qual os pais vivenciam sua própria cultura confere à criança sua identidade cultural, e esse sentimento de identidade proporciona uma sensação de segurança ao interagir com outras culturas. Segundo Lopes (1995), cultura representa o conjunto de modificações, assimilações e interpretações que o ser humano efetua em relação à natureza. A cultura emerge do vínculo entre o ser humano e a natureza. O ser humano, enquanto entidade biológica, mantém laços com o reino natural; no entanto, os princípios que guiam suas ações, desde o nascimento, estão ancorados no âmbito social. Ele desempenha um papel intermediário, servindo como elo entre a natureza e o contexto social. Ele não é apenas uma extensão da natureza (destituída de intencionalidade), nem exclusivamente um agente social (comportando-se conforme normas societárias). O que o distingue de outros elementos naturais, como árvores, é sua intencionalidade, sua laboriosidade, sua habilidade transformadora, em suma, sua cultura. A noção de uma natureza humana detém importância, pois implica que a posição do ser humano engloba todos os elementos necessários para equilibrar o processo. No que tange à cultura brasileira, Bosi (1987) sustenta que esta não se apresenta como uma entidade unitária ou homogênea, mas sim exibe uma natureza plural. A identidade nacional emerge de um processo de interações entre a cultura popular, a cultura de massa e a cultura erudita, bem como entre diversas influências culturais ibéricas, indígenas, africanas e migratórias (como a italiana, alemã, síria, judaica, japonesa e norte-americana). 4.1 Restrições tradicionais e liberdades na sociedade contemporânea De acordo com Sen (2000), certos setores da sociedade enfrentam privações, como a impossibilidade de participar nos mercados de bens, devido a restrições tradicionais. Estas restrições mantêm esses segmentos à margem dos proveitos da sociedade voltada para o mercado, assim como das avaliações sobre distintos estilos de vida e valores ligados à cultura mercadológica. Os valores e costumes sociais desempenham um papel crucial na determinação das liberdades das pessoas. O exercício da liberdade é mediado pelos valores. Com frequência, tem-se afirmado que a liberdade política, as liberdades formais e a democracia são especificamente associadas ao ocidente e contrastariam com os valores asiáticos, que supostamente priorizam mais a ordem e a disciplina do que as liberdades. Conforme Galbraith (1992), os camponeses desfavorecidos podem ser sujeitos a controle e despojamento de seus direitos políticos por parte dos proprietários de terras. Enquanto isso, cientistas, jornalistas, professores, artistas, poetas e estudantes, ao reivindicarem um papel ativo na sociedade industrial, não são suscetíveis a manipulação. A liberdade de expressão e a participação cidadã na governança emergem como qualidades sociais. Em determinada etapa do progresso econômico, elas se convertem em imperativos sociais e desafios políticos inevitáveis. 4.2 Identidade cultural na sociedade Segundo Miranda (2000), as concepções de identidade cultural têm evoluído ao longo do processo de desenvolvimento civilizacional. Desde o sujeito iluminista, entendido como uma entidade totalmente coesa desde o seu nascimento, dotada de faculdades de raciocínio, consciência e ação, até a ideia mais recente do sujeito sociológico, que se forma por meio das interações com outros indivíduos que intermediam seus valores, significados e símbolos manifestados em uma cultura. Nessa perspectiva, projetamos a nossa própria essência nessas identidades culturais à medida que internalizamos esses significados e valores, alinhando nossas sensações subjetivas com os contextos objetivos que ocupamos no mundo social e cultural ao nosso redor. Em outras palavras, é o mundo externo que está passando por mudanças, fragmentando o indivíduo e compelindo-o a adotar diversas identidades. Essa situação é exacerbada pelo fato de que o ambiente em que vivemos é agora percebido como transitório e mutável. O sujeito pós-moderno, consequentemente, carece de uma identidade fixa, essencial ou perene, visto que está sujeito a contínuas formações e transformações, as quais são moldadas pelas diversas maneiras em que os sistemas culturais o condicionam. O sujeito pós-moderno é definido de modo histórico, em oposição a biológico. Isso ocorre porque o sujeito assume identidades diversas em momentos diferentes, influenciado tanto pelos processos de socialização quanto pela globalização dos meios de comunicação e da informação. A sociedade em que o sujeito vive não é um todo unificado e monolítico, uma totalidade que flui e evolui por si só, pois também está constantemente sendo descentralizada e deslocada por influências externas (MIRANDA, 2000). Ainda segundo o autor citado anteriormente, também é relevante destacar que as identidades são intrinsecamente contraditórias, e as pessoas frequentemente adotam múltiplas identidades simultaneamente, muitas vezes em conjunções que podem gerar conflitos, como ser mulher, pobre, homossexual e negra ao mesmo tempo. Além disso, é válido mencionar que essa identidade se modifica conforme a maneira como o indivíduo é abordado ou representado, e que a sua identificação nem sempre é automática; muitas vezes, ela deve ser conquistada e pode ser politicamente alienada. Já foi afirmado com grande acerto que, ao invés de se considerar a identidade como um estado finalizado, deveríamos abordá-la como um processo de identificação em constante evolução. Essa identidade nunca se encontra completa dentro dos indivíduos; ao contrário, ela requer ser preenchida e aprimorada ao longo do tempo. As identidades nacionais não possuem natureza genética nem são transmitidas hereditariamente; ao invés disso, elas são moldadas e modificadas no âmbito de uma representação. Durante esse processo de formação da identidade, uma nação se transforma emuma comunidade simbólica dentro de um sistema de representação cultural. A cultura nacional, por sua vez, constitui um discurso ou um método de construir significados que impactam e estruturam tanto as ações quanto as percepções que nutrimos a nosso próprio respeito (MIRANDA, 2000). Não é irrelevante recordar que essas identidades, no contexto do Brasil, estão enraizadas em nossa língua e em nossos sistemas culturais, contudo, estão distantes de uma uniformidade que já não buscamos. Pelo contrário, essas identidades são influenciadas pelas nossas variações étnicas, pelas disparidades sociais e regionais, bem como pelas trajetórias históricas distintas, compreendendo o que denominamos de unidade na diversidade. Assim como todas as nações, e até mais do que a maioria delas, somos resultantes de cruzamentos culturais e enxergamos esse processo como um fator que amplia nossas capacidades criativas. A sociedade da informação é concebida como uma das forças unificadoras e transformadoras, com uma abordagem globalizante. A globalização, um processo desigual em sua essência, pode ser vista em certa medida como a ocidentalização dos valores culturais predominantes em nossa época. Contudo, de maneira paradoxal, a globalização tem fomentado a disseminação de identidades locais. Mesmo que possa parecer idealista, a sociedade da informação que estamos contribuindo para construir também pode abrir espaço para culturas que se encontram isoladas geograficamente, um cenário que se aplica, em parte, à nossa própria situação (MIRANDA, 2000). Seria uma afirmação acertada dizer que as sociedades contemporâneas vivenciam a dialética entre tradição e tradução, mantendo a preservação de suas raízes ao mesmo tempo em que buscam a transferência de sistemas simbólicos (tanto de dentro de suas regiões como do exterior), visando acelerar seu próprio progresso social e cultural. Em outras palavras isso parece ser especialmente válido para o contexto brasileiro, as culturas híbridas (ou sincréticas) representam um dos vários tipos de identidades emergentes na era pós-moderna. O processo de globalização, impulsionado pela rápida troca de informações por meio dos novos meios de comunicação, que eliminam as barreiras de distância e tempo, não tem resultado na completa homogeneização das culturas e identidades. Pelo contrário, não apenas antigas controvérsias relacionadas à identidade permanecem ativas, mas também estão surgindo diversos nichos de identidades locais, que podem ser inspiradas por fatores religiosos, étnicos ou comportamentais. Essas identidades locais são revitalizadas e fomentadas como uma forma de resistência à propagação de novos padrões identitários uniformizadores. A tendência à cristalização e disseminação de uma ou algumas poucas linhas dominantes com alcance global é mais notável no campo econômico do que no campo cultural. Conforme Miranda (2000), essa dinâmica em relação à identidade cultural não se restringe apenas ao chamado mundo em desenvolvimento. Países de primeiro mundo também veem na preservação da identidade nacional um instrumento crucial para a capacitação não apenas em assuntos culturais, mas também científicos e tecnológicos, dada a clara dimensão econômica envolvida. Medidas excepcionais são elaboradas para salvaguardar a cultura local em suas diversas manifestações. Além disso, é dada proteção à própria língua nacional, que reflete uma perspectiva específica de mundo, uma perspectiva que se acredita ser a mais adequada para representar um determinado estilo de vida, com seus valores e significados. Portanto, enquanto o Brasil se empenha em criar as bases para uma inserção plena na sociedade da informação em evolução, é crucial estabelecer uma política que vá além da preocupação apenas com os aspectos econômicos e tecnológicos dos meios eletrônicos, especialmente a internet. É necessário também direcionar atenção aos interesses das identidades culturais do país, que representam seu ativo mais valioso e genuíno, não sujeito a restrições de propriedade intelectual. Tendo isso em mente, é importante considerar que será imprescindível elaborar estratégias que orientem a criação e difusão de conteúdos alinhados aos interesses das identidades culturais do país. Ao se entender a identidade cultural como um conjunto de significados que moldam a vida de indivíduos e comunidades, é essencial partir do pressuposto de que a identidade cultural não é única, mas sim múltipla. Indubitavelmente, uma identidade primária prevalece no país, personificada pela língua vernácula utilizada aqui, que, no caso do Brasil, é efetivamente considerada única e unificadora. As variações linguísticas não apresentam um obstáculo significativo para a compreensão entre a população, e, nesse aspecto, não há demandas por diferenciações identitárias. No entanto, isso não implica que a fonte de identidade primária do país não deva ser objeto de uma política cultural de suporte projetada para o novo sistema eletrônico de produção de informações. Ao contrário, é necessário apoiar programas específicos com o objetivo de fortalecer o português como o idioma preponderante na sociedade de informação brasileira (MIRANDA, 2000). No que diz respeito às identidades secundárias (tais como regionalismos e grupos com preferências diversas), a situação se transforma. É essencial observar que, junto à identidade estabelecida (a identidade oficial, que é imposta de cima para baixo e previamente legitima as existências e as propostas, proporcionando um padrão ou código abrangente), diversas identidades instituintes emergem de baixo para cima. Nesse movimento, essas identidades moldam o indivíduo, o grupo e a comunidade. Dentro dessas identidades instituintes, duas merecem destaque imediato. Por um lado, há as identidades de resistência, que são características de minorias étnicas e religiosas e frequentemente se nutrem da memória ou culto às suas origens. Por outro lado, surgem as identidades instituintes de projeto, que também podem envolver minorias étnicas e religiosas, mas abrangem outros grupos (como os defensores da igualdade de gênero ou da ecologia), incluindo os produtores culturais. Estes últimos não se definem pela reverência ao passado, mas pela concepção de um futuro organizado, almejando não apenas a preservação de um estado particular, mas também a proposição de novos estilos de vida e perspectivas para si e para a comunidade. Em resumo, buscam a transformação da estrutura social. Ao planejar sua inserção na sociedade da informação, o país deve considerar a questão da identidade cultural em suas diversas manifestações. Especialmente, deve evitar repetir o erro, que já foi observado no passado, de dar prioridade apenas às formas identitárias ancoradas na veneração da memória ou das origens. Na nova era cultural que se inaugura, é tão ou até mais crucial que a identidade orientada para o futuro seja valorizada, pois é provável que dela venham as soluções para os novos desafios. Esta identidade projetada para o futuro merece atenção especial (MIRANDA, 2000). As implicações práticas dessa diferenciação tornam-se evidentes imediatamente. Ao considerar, por exemplo, como promover a formação de redes digitais de museus, é necessário reconhecer que os museus são, por excelência, os guardiões da identidade estabelecida, aquela que já se consolidou e é respaldada pelo consenso forjado nas instituições culturais do país (como escolas e mídia). No entanto, ao lado dos museus, existem alternativas especiais que devem ser abordadas por uma política de informação, a fim de dar espaço às identidades instituintes emergentes. A abordagem adequada das dinâmicas identitárias no contexto de um processo de globalização em aceleração será essencial não apenas para a coexistência pacífica e o potencial de criatividade dos indivíduose grupos, mas também, de maneira ainda mais crucial, para a capacidade de governança nacional na sociedade da informação. Sem essa abordagem, será difícil participar do diálogo cultural, econômico, tecnológico e científico que está tomando forma em escala global. Na ausência de um interlocutor, o que prevalece é o discurso da imposição. Miranda (2000), afirma que o suporte às identidades culturais nos novos meios eletrônicos trará benefícios evidentes, como já foi observado em países que progrediram nessa direção. Isso resultará em um aumento na atividade econômica em geral (criação de novos empregos, maior arrecadação de impostos) e no desenvolvimento da cidadania, o que terá impactos diretos na redução da violência urbana. Esses elementos são partes integrantes da capacidade de governança em geral, uma meta essencial da consciência política de uma nação. Além disso, é uma etapa inevitável no eventual processo de integração em blocos, primeiramente regionais e, posteriormente, em âmbito mais amplo. Isso é válido caso se deseje que essa integração ocorra com o devido respeito às demandas e potenciais de um povo. 5 DESVENDANDO A COMUNICAÇÃO: SIGNIFICADOS E PROCESSOS Inicialmente, podemos categorizar a comunicação de acordo com as definições apresentadas nos dicionários, fazendo do termo apenas mais um substantivo feminino: “1. ato de comunicar; informação, aviso; 2. passagem, caminho, ligação”. (ROCHA, 1997, p.154). Contudo, essa categorização, além de ser inadequada para capturar toda a complexidade do fenômeno, utiliza o longo processo de evolução da linguagem para simplificar um dos aspectos mais cruciais da socialização. Os contornos desse fenômeno estão constantemente em evolução, como enfatizado por Baitello Júnior (1998): Hoje o homem tenta lançar pontes (ainda que hipotéticas) não apenas sobre a origem do universo, sobre o chamado big bang, mas também sobre as raízes remotas dos códigos da comunicação humana. Constata que a capacidade comunicativa não é privilégio dos seres humanos; está presente e é bastante complexa em muitos outros momentos da vida animal, nas aves, nos peixes, nos mamíferos, nos insetos e muitos outros (BAITELLO JÚNIOR, 1998, p. 11). Retomando o termo em sua origem etimológica, Marques de Melo (1975), recorda que comunicação provém do latim communis, significando comum. Isso traz à tona a noção de comunhão e comunidade. No entanto, quando abordamos o processo de comunicação, é pertinente também realizar uma breve análise do termo processo. Berlo (1991), descreve sua interpretação do termo da seguinte maneira: Um dicionário, pelo menos, define “processo” como “qualquer fenômeno que apresente contínua mudança no tempo”, ou “qualquer operação ou tratamento contínuo”. Quinhentos anos do nascimento de Cristo, Heráclito destacou a importância do conceito de processo, ao declarar que um homem não pode entrar duas vezes no mesmo rio; o homem será diferente e assim também o rio. [...] Se aceitarmos o conceito de processo, veremos os acontecimentos e as relações como dinâmicos, em evolução, sempre em mudança, contínuos. [...] Não é coisa estática, parada. É móvel. Os ingredientes do processo agem uns sobre os outros; cada um influencia todos os demais (BERLO, 1991, p. 33). A comunicação é uma faceta inata do ser humano. A ação de interagir pode ser compreendida, tendo como base um conjunto de diretrizes, como uma reação a um estímulo (PIGNATARI, 1981); exemplificando, um estímulo sonoro, visual ou tátil. Harold D. Lasswell, um cientista político e teórico da comunicação, desenvolveu um esquema abrangente de comunicação, construído a partir de uma expansão do molde comunicativo de Aristóteles: Emissor - Mensagem - Receptor (MARTINO, 2014). A estrutura deste esquema aborda questões como Quem está se comunicando; O que está sendo comunicado; Através de qual canal; Para quem está sendo comunicado; Com que efeito? (LASSWELL, 1948). Charles Osgood e Wilbur Schramm, psicólogo e autoridade em comunicação de massa, respectivamente, conceberam uma estrutura diferente daquela apresentada por Lasswell. Eles reconheceram a possibilidade de o destinatário também responder, tornando-se assim um emissor. Para esses autores, a ideia de interação é a base do modelo proposto. A Figura 1, ilustra o processo circular entre a recepção da mensagem e a emissão de uma resposta. Isso inclui a tradução de pensamentos e/ou ideias pelo emissor para que a mensagem seja compreendida pelo receptor (codificação). Em continuação a esse ciclo, o receptor transforma a mensagem em pensamentos ou ideias significativas, permitindo, assim, a interpretação da mensagem (decodificação). Figura 1 - Modelo de comunicação por Osgood e Schramm. Fonte: Adaptado de Martino, 2014. O processo de comunicação requer um emissor (aquele que emite/envia e codifica a mensagem). Através de um canal de transmissão (meio), a mensagem (informação) desejada será transmitida ao receptor (quem recebe e decodifica a mensagem). A interpretação correta do conteúdo só será viável se tanto o emissor quanto o receptor compartilharem um código (PEIRCE, 2005; PEPULIM; FIALHO; SOUZA, 2013; PERUZZOLO, 2015). Esse código liga os sinais necessários para estabelecer a comunicação, ou seja, elementos essenciais do mesmo repertório vocabular e cultural. O código contextualiza a mensagem, tornando possível a compreensão do seu significado e viabilizando a comunicação (PERUZZOLO, 2015). Através de um sistema de normas estabelecidas, isto é, um código, as letras do alfabeto, por exemplo, permitem a transmissão de informações/mensagens. Cada letra do alfabeto, ou seja, cada símbolo como é conhecido hoje, exemplifica uma evolução no código comunicativo e ilustra a adaptação das regras de comunicação a um dado período histórico, de acordo com suas regras contextuais (MIGLIARI, 2011). A escrita desempenha um papel facilitador na transmissão da mensagem, ao possibilitar que o emissor e o receptor compartilhem a mesma informação. Contudo, enquanto a fala e a escrita envolvem códigos regionais, as imagens têm a capacidade de superar a regionalidade, por possuírem uma representatividade comum, como sistemas de signos que, expressos por imagens, simplificam a comunicação, como é o caso do uso de emoticons. Ter familiaridade com o código é fundamental para possibilitar a comunicação entre as partes envolvidas e por consequência permitir que a expressão linguística (diversas formas de uso da língua) seja capaz de transcender barreiras regionais e ser entendida por ambas as partes. As imagens, quando utilizadas de maneira contextualizada, têm a capacidade de enriquecer e facilitar o acesso à comunicação. 5.1 Comunicação aumentativa e alternativa Segundo Garcia e Santos (2022), a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) tem como objetivo oferecer apoio, de maneira temporária ou permanente, a indivíduos que apresentam distúrbios (sejam eles leves ou profundos; de desenvolvimento ou adquiridos) na comunicação. Isso pode incluir dificuldades relacionadas à audição, à linguagem e/ou à fala. O propósito da CAA é auxiliar indivíduos que enfrentam dificuldades para compreender e processar sistemas de símbolos verbais, não verbais e/ou gráficos/imagens (AMERICAN SPEECH- LANGUAGE-HEARING ASSOCIATION, 2019). A CAA concentra-se no processo cognitivo e social da comunicação, buscando complementar, ampliar, aumentar ou fornecer alternativas aos métodos de comunicação de pessoas que enfrentam déficits na comunicação, sejam eles relacionados à fala ou à escrita (SANTAROSA, 2010, p. 319). Os desafios e limitações de um indivíduo podem ser estimulados por meio do uso de facilitadores, incluindo a Tecnologia Assistiva (TA), que é definida pela Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, que estabelece a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.O principal objetivo da TA é proporcionar recursos para promover a inclusão e conferir autonomia (BRASIL, 2015). A TA desempenha um papel fundamental no apoio e na facilitação do processo de comunicação para pessoas que enfrentam transtornos na comunicação. Isso se reflete na interação, conforme ilustrado na Figura 1 (Modelo de comunicação de Osgood e Schramm), que ocorre entre indivíduos com deficiência e/ou indivíduos sem deficiência, de maneira intercultural, nos contextos de Comunicação Aumentativa e Alternativa. Além disso, a TA pode contribuir para a capacitação e reabilitação de pessoas com deficiência. As tecnologias assistivas desempenham um papel central nesse contexto, e a Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), uma das referências utilizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para descrever os estados de saúde (DI NUBILA; BUCHALLA, 2008), defende o seu uso visando a promoção da inclusão, incentivando a utilização de facilitadores sociais, como é o caso de softwares e dispositivos tecnológicos que auxiliam os pacientes a otimizar suas capacidades, incluindo a comunicação. 5.2 Comunicação visual para indivíduos com dificuldades na comunicação Garcia e Santos (2022), afirmam que os sistemas de comunicação por meio de elementos visuais, através de imagens, contribuem para uma comunicação mais independente para indivíduos que enfrentam dificuldades na comunicação. As representações visuais, quando organizadas e aplicadas em um contexto adequado, podem auxiliar e simplificar o acesso à comunicação. Além disso, também superam barreiras regionais, já que representam conceitos universais em várias localidades, como é o caso das placas de trânsito e do sistema de sinalização, que utilizam imagens para promover uma comunicação precisa. O International System Of Typographic Picture Education (ISOTYPE) e o Blissymbolics Communication International (BLISS) exemplificam sistemas de comunicação visual. 5.3 Comunicação visual na superação de barreiras de comunicação O International System Of Typographic Picture Education (ISOTYPE), concebido nos primórdios da década de 1920 pelo pensador Otto Neurath, representa um sistema meticulosamente estruturado de ícones visuais, cujo propósito é simplificar a disseminação de informações. Neurath almejava desenvolver uma linguagem pictórica global, capaz de fomentar a comunicação entre diferentes culturas (BESSA, 2005). A representação visual de um sapato, como exemplo, transmite a mensagem de um objeto destinado a ser usado nos pés para povos situados em diferentes áreas geográficas, os quais não compartilham de um mesmo sistema linguístico (alfabeto). Enquanto as expressões sapato e shoes, que possuem o mesmo significado, serão adequadamente entendidas somente por indivíduos capazes de decodificar o sistema linguístico inserido em seu contexto social específico, observe a Figura 2. Figura 2 - Modelo de pictograma no sistema ISOPYPE. Fonte: Adaptado de Bessa, 2005. 5.4 ISOTYPE e a comunicação iconográfica O Blissymbolics Communication International (BLISS) é um exemplo de comunicação alternativa e faz uso de imagens para transmitir a informação. Desenvolvido de 1942 a 1965, Charles K. Bliss trabalhou com o objetivo de criar um sistema visual capaz de transpor barreiras da língua, “composto por símbolos gráficos, coloridos e derivados de um número básico de figuras geométricas” (DELIBERATO, 2007, p. 372).Os caracteres BLISS são unidades indivisíveis, construídas em estrutura de blocos com significado semântico básico, como exemplificado na Figura 3. Figura 3 - Modelo de pictograma no sistema Blissymbolics Fonte: Adaptado de Crockford, 2003. Portanto, um arranjo de símbolos, ou seja, um código, emerge como um elemento crucial na propagação da mensagem, sem considerar a fundação da sua estrutura. Isso ocorre devido ao seu papel como um intermediário facilitador na apreensão da mensagem. Paralelamente, o veículo pelo qual a mensagem é transmitida, ou seja, a mídia empregada, desempenha um papel indispensável no procedimento de comunicação, conforme ilustrado na figura 1. Seguindo a visão de Henry Jenkins, a convergência dos meios de comunicação impacta o modo como absorvemos esses meios (JENKINS, 2009). Portanto, se a comunicação se manifesta por meio de pictogramas ou linguagem escrita, o veículo que a veicula também exerce influência sobre a compreensão da informação. Jenkins enfatiza que “a convergência das mídias é mais do que apenas uma mudança tecnológica. A convergência altera a relação entre tecnologias existentes, indústrias, mercados, gêneros e públicos” (JENKINS, 2009, p. 43). Como resultado deste fenômeno de convergência, emergem as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), predominantemente empregadas por sistemas computacionais, que viabilizam e simplificam o fluxo comunicativo ao permitir a disseminação e distribuição de dados em variados contextos/plataformas. Além disso, elas assumem a função intermediária no processo de aprendizado. Quando empregadas de maneira apropriada, as TICs podem representar um fator distintivo na esfera educativa e comunicativa, instigando uma profunda renovação nos conhecimentos construídos nos ambientes de ensino. Isso ocorre por meio da utilização de recursos que conferem novas abordagens à transmissão de conteúdo e que oferecem propostas para a formulação de expressões linguísticas. A utilização de correio eletrônico, plataformas de redes sociais ou sistemas de mensagens traça um novo percurso no processo comunicativo. Essas ferramentas tecnológicas se baseiam na estrutura de intercâmbio de mensagens, intensificando a dimensão da comunicação e o papel dos recursos icônicos como formas de expressão linguística. Isso se dá ao permitirem a inserção de imagens e a capacidade de transmitir sentimentos através de ícones em movimento. Um exemplo concreto destes recursos icônicos é observado nos emoticons utilizados em emails e/ou nas plataformas de redes sociais. Os emoticons, que são ícones de imagem digital cujo termo se origina da combinação das palavras emoção e ícone (SAMPIETRO, 2016), exemplificam uma evolução no processo de comunicação. Quando empregados como símbolos na Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), têm o potencial de desempenhar um papel inclusivo. Associados à teoria da comunicação e à semiótica, poderiam atuar como facilitadores nesse processo ao fazer uso de símbolos culturalmente adequados que expressam emoções e são prontamente compreendidos. Isso ocorre porque esses símbolos conseguem superar obstáculos relacionados a origens nacionais, geográficas, tecnológicas e linguísticas, estando disponíveis para pessoas de todas as origens, culturas e nações (BRITO, 2008), promovendo uma ampla compreensão. O uso gratuito dos emoticons, que são códigos que representam estados emocionais, é parte integrante do consórcio Unicode. Na Figura 4, dispostos da esquerda para a direita, temos: a) um emoticon com uma expressão de choro, que pode denotar tristeza; b) um coração vermelho, que pode ser interpretado como um símbolo de amor; c) um rosto com aparência zangada, que pode representar o sentimento de raiva; d) o símbolo de um beijo, indicando que o remetente está enviando beijos ao destinatário da mensagem; e) um rosto sorridente com olhos alegres e bochechas coradas, possivelmente representando vergonha; f) o icônico sinal de polegar para cima, transmitindo um sentimento de aprovação, concordância, gostar ou validação. Figura 4 - Modelos de emoticons Fonte: Garcia e Santos, 2022. As soluções e tecnologias derivadas das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) têm sido prontamente assimiladas pelas Tecnologias Assistivas (TA), concedendo uma maior flexibilidade aos processos de Comunicação Aumentativae Alternativa (CAA). Estes processos podem auxiliar na expressão de desejos, aspirações, emoções e sentimentos, enriquecendo as abordagens tradicionais. Um exemplo que ilustra a incorporação de recursos icônicos digitais como formas de expressão linguística na CAA é a integração de emoticons, tanto estáticos quanto animados, nas tabelas de comunicação. Esse uso poderia transmitir a intensidade das comunicações. Assim, por meio da imagem, a ênfase na intensidade da mensagem pode ser enfatizada, acrescentando mais contexto às nuances subjetivas do processo comunicativo, que frequentemente está relacionado à interação entre o remetente e o destinatário. Na figura 5, temos um modelo exemplificativo da aplicação dos emoticons em uma tabela de comunicação. Nesse caso, o elemento do Sol é representado pelo ícone que indica a sua presença (primeira imagem à esquerda), acompanhado por emoticons que denotam a intensidade do calor proporcionado. Figura 5 – Intensidade das Imagens Fonte: Garcia e Santos, 2022. 6 SEMIÓTICA E LINGUAGEM VISUAL A semiótica, originária da palavra grega semeiotiké, representa uma disciplina dedicada à investigação do processo de conexão e criação de significados em um amplo espectro de códigos e linguagens. Seu propósito fundamental consiste em “[...] estabelecer como deve ser todos os signos para uma inteligência capaz de apreender através da experiência [...]” (SILVEIRA, 2007, p. 38). Semiótica concentra-se na análise do processo de significação e representação, tanto na esfera natural quanto na cultural, dos conceitos e ideias. Em termos mais abrangentes a “[...] semiótica é a teoria de todos os tipos de signos, códigos, sinais e linguagens. Portanto, ela nos permite compreender palavras, imagens, sons em todas as suas dimensões e tipos de manifestações” (SANTAELA, 2010, p. 59). As linguagens permeiam o mundo ao nosso redor, e nós desempenhamos um papel fundamental dentro desse contexto. Como destacado por Nöth (2008), A Semiótica como teoria geral dos signos teve várias denominações no decorrer da história da filosofia. A etimologia do termo nos remete ao grego semeîon, que significa signo, e sema, que pode ser traduzido por “sinal” ou também “signo”. Semio, uma transliteração latinizada da forma grega semeio, e os radicais parentes, sema(t)- e seman-, têm sido a base morfológica para várias derivações de vocábulos que dão nome às ciências Semióticas (NÖTH, 2008, p. 21). De acordo com Nöth (2008), a origem da semiótica propriamente dita remonta a filósofos como John Locke (1632-1704), que, em seu trabalho "Essay on human understanding" de 1690, introduziu a ideia de uma doutrina dos signos chamada de Semeiotiké. Além disso, há a possibilidade de que essa disciplina tenha sido influenciada, em alguma medida, pelo trabalho do filósofo Johann Heinrich (1728- 1777), que escreveu um tratado específico com o título Semiotik. No entanto, Peirce (1990) atribui a denominação semiótica ao filósofo inglês John Locke, que argumentava que todas as nossas ideias originavam-se do que era percebido pelos sentidos. De acordo com Locke (1988), semiótica é a doutrina dos signos, que se ocupa da relação triádica entre sinais ou representação da coisa, a coisa propriamente dita e as ideias. Outro termo utilizado para se referir à semiótica seria lógica. Afirma Nöth (2008), que a doutrina dos signos, que segundo ele compreende todas as investigações sobre a natureza dos signos, da significação e da comunicação na história da ciência, isso coincide com a história da filosofia, uma vez que Platão e Aristóteles eram teóricos do signo e, portanto, podem ser considerados semioticistas. Entretanto, somente no final do século XIX e início do século XX, a semiótica começou a se consolidar e adquirir status de ciência. Esse desenvolvimento ocorreu de forma independente na Europa e nos Estados Unidos, com trabalhos paralelos realizados por dois influentes pensadores: o linguista Ferdinand de Saussure (1857-1913) e o semiólogo Charles Sanders Peirce (1839-1914), que também incorporou a fenomenologia. Foi nesse período que a semiótica começou a ganhar autonomia e reconhecimento como uma disciplina distinta. Tudo o que vemos, sentimos e ouvimos está intrinsecamente ligado aos nossos sentidos, influenciando nossas percepções do que é real. Para compreender plenamente a nossa vivacidade e interatividade com o mundo que nos cerca, bem como para interagir com essa realidade e seus habitantes, nós, como seres sociais, sentimos uma necessidade inerente de nos comunicarmos. Na prática da comunicação, empregamos diversos tipos de linguagens simbólicas, algumas das quais foram categorizadas por Charles Sanders Peirce em ícones, índices e símbolos, e podem ser explicadas da seguinte maneira: Um signo é um ícone, um índice ou um símbolo. Um ícone é um signo que possuiria o caráter que o torna significante, mesmo que seu objeto não existisse, tal como um risco feito a lápis representando uma linha geométrica. Um índice é um signo que de repente perderia seu caráter que o torna um signo se seu objeto fosse removido, mas que não perderia esse caráter se não houvesse interpretante. Tal é, por exemplo, o caso de um molde com um buraco de bala como signo de um tiro, pois sem o tiro não teria havido buraco; porém, nele existe um buraco, quer tenha alguém ou não a capacidade de atribuí-lo a um tiro. Um símbolo é um signo que perderia o caráter que o torna um signo se não houvesse um interpretante. Tal é o caso de qualquer elocução de discurso que significa aquilo que significa apenas por força de compreender-se que possui essa significação (PEIRCE, 1990, p. 74). A semiótica de Charles Sanders Peirce foi organizada de maneira triádica, e ele categorizou o pensamento em relações de tríades. A primeira tricotomia trata do signo em relação a si mesmo. Isso indica que, no que diz respeito à sua própria natureza, um signo pode ser classificado como uma qualidade (Quali-sino), um existente (Sin-sígno) ou uma lei (Legi-sígno). Em outras palavras, Peirce argumenta que, entre as inúmeras propriedades materiais, substanciais e assim por diante que as coisas possuem, existem três propriedades essenciais que as capacitam a funcionar como signos: sua simples qualidade, seu mero estado de existência e seu caráter normativo de acordo com uma lei. Na segunda tricotomia, Peirce direciona sua atenção ao caráter interpretativo do signo (PEIRCE, 1990). Onde um signo pode ser categorizado como um ícone, um índice ou um símbolo. Cada uma dessas categorias representa diferentes maneiras pelas quais um signo se relaciona com seu objeto e seu interpretante. Na terceira tricotomia, Peirce (1990) aborda como o signo se apresenta ao seu interpretante, descrevendo o poder interpretativo do signo. Essa tricotomia explora o grau de influência que um signo exerce na produção de interpretantes, ou seja, como ele guia ou influencia a compreensão do receptor. Devido à natureza dinâmica dos processos semióticos, um elemento pode ser classificado como ícone, índice ou símbolo, entre outras categorias, dependendo do contexto e das relações envolvidas na semiose. Em outras palavras, isso está relacionado ao processo no qual o signo tem um efeito cognitivo sobre o intérprete (PEIRCE, 1990). A semiose é um processo em constante evolução, portanto, é vital reconhecer que as classificações de Peirce estão sujeitas a fundamentos e perspectivas interpretativas, que por sua vez estão interligados com um conjunto mais amplo de elementos em nossa comunicação. A relação e a compreensão desses signos, de alguma forma, contribuem para o desenvolvimento de nossas faculdades cognitivas, resultando em julgamentos. Isso pode ocorrer de maneira superficial, fornecendo informações de imediato, ou de forma mais profunda, acrescentando conhecimento à nossa cognição.Ao analisar a informação sob uma perspectiva semiótica, partimos do princípio de que qualquer sistema que gere significados estruturados a partir de fluxos de informação está intrinsecamente ligado a signos que se enquadram nas três categorias tricotômicas mencionadas anteriormente, as quais Charles Sanders Peirce considerava como as três categorias fundamentais da experiência: primeiridade, secundidade e terceiridade. De acordo com a definição de Peirce, a primeiridade é o modo de existência daquilo que é tal como é, de maneira positiva, sem qualquer referência a outra coisa. É a categoria que envolve o sentimento sem reflexão, a mera possibilidade, a sensação de liberdade, o imediatismo, a qualidade que ainda não foi diferenciada e a independência em relação a outros elementos. Essa categoria representa a experiência em seu estado mais puro e não mediado por comparações ou relações com outros elementos (PEIRCE, 1990). A primeiridade representa uma faceta da experiência que está relacionada aos aspectos qualitativos, puramente sensacionais e/ou sensoriais do objeto, desde que esses sejam experimentados de maneira completamente não reflexiva e desprovida de pensamento. Quando percebemos a sensação ou a qualidade sem fazer qualquer reflexão consciente sobre o objeto, estamos nos concentrando em sua alteridade, ou seja, em sua natureza intrínseca e imediata, tal como se forma em nossa mente. Para Peirce (1990, p. 356), a “secundidade começa quando um fenômeno primeiro é relacionado a um segundo fenômeno qualquer”. Em outras palavras, estamos estabelecendo uma relação binária, ou seja, percebemos o objeto como algo separado, como um segundo elemento, como um “ele” distinto, e, consequentemente, como algo que já existe por si só. Portanto, podemos afirmar que essa experiência com o outro está relacionada à ideia de secundidade.. Quanto à terceiridade, Peirce a descreve como a categoria que relaciona um segundo fenômeno a um terceiro (PEIRCE, 1990). É a esfera da mediação, do hábito, da memória, da continuidade, da síntese, da comunicação, da representação e da semiose, envolvendo o uso de signos. Essa categoria representa a camada de inteligibilidade ou pensamento em signos, por meio da qual representamos e interpretamos o mundo. Em termos mais amplos, de acordo com a ciência cognitiva tradicional, as representações desempenham um papel duplo: elas carregam um conteúdo e influenciam o comportamento (HASELAGER, 2004). A utilidade das representações está relacionada ao fato de preencherem o lugar de algo ausente no ambiente, permitindo-nos compreender e agir no mundo. Para tornar mais compreensível a relação dos signos com seus respectivos objeto, é importante destacar que, de acordo com Peirce (1990), esses objetos podem ser uma coisa material do mundo, da qual temos um conhecimento perceptivo. No entanto, eles também podem ser entidades puramente mentais ou imaginárias, da natureza de um signo ou pensamento. Peirce (1990), identifica duas espécies de objetos: o objeto imediato e o objeto mediato, real ou dinâmico. O objeto imediato é o objeto dentro do signo, representando o objeto tal como é representado pelo próprio signo, e sua existência depende da representação dentro do signo. Em contrapartida, o objeto mediato, real ou dinâmico é o objeto fora do signo, referindo-se à realidade que, de alguma forma, realiza a atribuição do signo à sua representação (PEIRCE, 1990). Conforme Nöth (2008), esse segmento da realidade, também chamado de objeto real, é imediato e dinâmico, pois só pode ser indicado no processo da semiose. O objeto dinâmico é, portanto, o conjunto das naturezas das coisas que o signo não pode expressar, apenas indicar, deixando para o intérprete a tarefa de descobri-lo por meio de experiência colateral (PEIRCE, 1990). Segundo Santaella (2010), Quando olhamos para uma fotografia, lá se apresenta uma imagem. Essa imagem é o signo e o objeto dinâmico é aquilo que a foto capturou no ato da tomada a que a imagem na foto corresponde [...]. O modo como o signo representa, indica, se assemelha, sugere, evoca aquilo a que ele se refere é o objeto imediato (SANTAELLA, 2010, p. 15). 6.1 Os pioneiros da semiótica Os dois pioneiros na área da semiótica e semiologia foram Ferdinand de Saussure, um linguista suíço (1857-1913), e Charles Sanders Peirce, um filósofo norte-americano (1839-1914). Saussure é amplamente reconhecido como o precursor da linguística moderna. Após sua morte, surgiu a ideia de compilar suas anotações de aula, resultando na publicação do "Cours de linguistique générale." Essa obra póstuma ganhou notoriedade e foi organizada por seus discípulos Charles Bally, Albert Séchehaye, com a colaboração de A. Riedlinger, culminando na primeira edição em 1916. As ideias revolucionárias de Saussure e seus estudos sobre as estruturas linguísticas desempenharam um papel fundamental no estabelecimento da linguística moderna, com uma abordagem estruturalista. No entanto, o "Cours de linguistique générale" também indicava a necessidade de uma ciência dos signos que englobasse não apenas a linguística, mas também outros tipos de signos, em um processo chamado significação. Saussure havia alertado sobre a importância de criar uma ciência dos signos, mas foi apenas na década de 1950 que alguns de seus contemporâneos, esquecendo-se de que ele era um dos precursores da Semiótica, começaram a desenvolver a Semiologia, um termo alternativo para a Semiótica. Entre esses pioneiros estão Roland Barthes, Umberto Eco e Todorov. Eles ampliaram o escopo da disciplina para abranger todos os tipos de signos, não apenas os verbais, como proposto por Saussure. No entanto, esses estudiosos inicialmente negligenciaram a teoria de Peirce, tentando aplicar os esquemas e conceitos da linguística a outros sistemas de signos, muitas vezes resultando em uma abordagem excessivamente verbalista. Saussure baseava-se em uma lógica tradicional, caracterizada por dicotomias ou dualidades, como significante/significado, língua/palavra, denotação/conotação e paradigma/sintagma. Essas estruturas foram inicialmente aplicadas à análise de formas visuais, música, cinema e arquitetura, após terem sido exaustivamente utilizadas na narrativa literária e na linguagem poética, geralmente associadas ao movimento estruturalista. Esses chamados estruturalistas levaram cerca de duas décadas para perceber que existe um pensamento e uma linguagem não verbais. Eventualmente, passaram a reconhecer a importância de Peirce para a lógica da linguagem em um contexto mais amplo. Como afirmam Brosso e Valente (1999), a partir desse momento, surgiu uma espécie de "semiologia dos linguistas," que às vezes era erroneamente chamada de Semiótica, mas tinha raízes profundamente saussurianas. Essa abordagem estava preocupada em analisar os sistemas de comunicação com base no conceito de signo de dupla-face (significante/significado). Um exemplo que ilustra essa afirmação é a palavra, que representa o signo linguístico por excelência, possuindo dois códigos diferentes, um oral e outro escrito. A linguística concentra-se no estudo da palavra falada, mas não pode ignorar a influência da palavra escrita. Enquanto Saussure desenvolvia suas teorias na França, que ele chamou de semiologia, o filósofo Charles Sanders Peirce, na mesma época, estava formulando os princípios de uma ciência que viria a ser conhecida como semiótica. 6.2 Significados na comunicação visual e audiovisual Qualquer peça visual desenvolvida deve levar em consideração diversos fatores para alcançar os resultados desejados, ou seja, a interpretação. Conforme afirmado por Belloni (2002), as mídias, sejam elas as tradicionais ou as mais recentes, desempenham um papel fundamental no processo de socialização e estão ativamente envolvidas na formação das novasgerações. As novas linguagens visuais e audiovisuais fazem parte do cenário em que os jovens crescem e aprendem, seja de forma independente ou em interação com seus pares. Nesse contexto, diversas formas de expressão, como imagens estáticas e em movimento, sons ambiente, música, linguagem oral e escrita, e até mesmo o teatro, são combinadas em uma única mensagem. Isso resulta na construção de significados, na veiculação de representações e na disseminação de signos. Em resumo, a interação de várias linguagens na comunicação visual contemporânea desempenha um papel fundamental na formação cultural e social das novas gerações. Em outro contexto, Bakhtin (1997) enfatiza que os signos desempenham um papel fundamental na consciência individual, sendo a matéria-prima de seu desenvolvimento e refletindo sua lógica e suas leis. A lógica da consciência está intrinsecamente ligada à lógica da comunicação ideológica e à interação semiótica de um grupo social. Dessa forma, a consciência adquire sua forma e existência por meio dos signos criados por um grupo organizado durante suas relações sociais. Concordando com Bakhtin, em um contexto diferente, Eco (1976) afirma que um signo só adquire significado quando é socializado, ou seja, quando se torna parte de uma comunicação compartilhada. Sem essa dimensão social, o signo perde seu sentido. De acordo com Levy (1996), os signos têm o poder de evocar cenas, enredos e séries completas de eventos interligados. Quanto mais ricas e diversas forem as linguagens disponíveis, maior será a capacidade de simulação e imaginação. A diversidade de linguagens amplia as possibilidades de criação e interpretação de significados. As formas de utilização das mídias precisam ser adaptadas de modo a possibilitar a interpretação por parte dos grupos que se deseja alcançar. É fundamental considerar, como base desse processo de mediatização, fatores sociais, contextuais, conhecimento, características e demandas variadas dos grupos ou públicos, o que resultará em leituras e usos bastante diversificados (BELLONI, 2002). Estamos lidando com um coletivo pensante, um conjunto dinâmico de indivíduos com singularidades ativas e subjetividades em constante mutação (LEVY, 1993). A diversidade de linguagens, tanto as antigas quanto as novas, veiculadas através dos novos meios de comunicação, é vasta, como destacado por Carmo (1998). A compreensão, criação e uso de materiais multimídia representam novos desafios para os participantes envolvidos nesses processos de criação, incluindo professores, criadores de conteúdo, especialistas em tecnologia da informação e outros, contribuindo para o fenômeno da mediatização. 7 A EVOLUÇÃO DA ARTE É imprescindível iniciar uma análise em torno dos conceitos de modernidade e contemporaneidade, a fim de aprofundar a compreensão do período em destaque nesta proposta. Conforme expresso por Cauquelin: Para apreender a arte como contemporânea, precisamos estabelecer certos critérios, distinções que isolarão o conjunto dito “contemporâneo” da totalidade das produções artísticas. Contudo, esses critérios não podem ser buscados apenas nos conteúdos das obras, em suas formas, suas composições, no emprego deste ou daquele material, também não no fato de pertencerem a este ou aquele movimento dito ou não de vanguarda. (CAUQUELIN, 2005, p. 11, 12). Torna-se essencial estabelecer uma estrutura que possa discernir claramente o que constitui a arte contemporânea daquilo que não a integra, organizando suas diversas expressões de acordo com uma determinada ordem. No entendimento comum, o termo moderno denota algo novo e atual. No contexto da arte, entretanto, designa um período específico na história artística, tendo sua origem na Europa no século XIX, quando ocorreu a crise do academicismo. Este período pode ser assinalado por obras notáveis como as de Manet, como Olympia e Almoço na Relva, bem como pelo realismo de Gustavo Courbet e pelo subsequente movimento impressionista. No Brasil, a arte moderna teve seu início com artistas como Anita Malfatti e Lasar Segall, que antecederam a Semana de Arte Moderna de 1922. Cauquelin (2005), por sua vez, apresenta uma definição de moderno que contribui para a compreensão desse conceito: Nós nos servimos então do termo moderno para qualificar certa forma de arte que conquista seu lugar (ao mesmo tempo em que adota o nome) por volta de 1860 e se prolonga até a intervenção do que chamamos de arte contemporânea. Esse posicionamento histórico, ligado à denominação ‘moderno’, bastará por enquanto para sugerir os conteúdos nacionais (...): o gosto pela novidade, a recusa do passado qualificado de acadêmico, a posição ambivalente de uma arte ao mesmo tempo ‘da moda’ (efêmera) e substancial (a eternidade). Assim situada, a arte moderna é característica de um período econômico bem definido, o da era industrial, de seu desenvolvimento, de seu resultado extremo em sociedade de consumo. (CAUQUELIN, 2005. p. 27) Com essa definição da arte moderna como característica da era industrial, somos levados a considerar a arte contemporânea como integrante da era tecnológica e da comunicação. Este argumento pode servir como base para situar a arte contemporânea. No entanto, quando observamos a arte ao nosso redor, percebemos uma mescla de diversos elementos e valores que constantemente emergem na arte, deixando-nos com uma interrogação persistente. A origem da arte contemporânea pode ser rastreada até a obra pioneira de Marcel Duchamp (1887-1968), frequentemente considerado o progenitor desse movimento artístico. Duchamp defendia a ideia de que a arte não necessariamente deveria ser criada fisicamente pelo artista, mas sim concebida intelectualmente por ele. Ele revolucionou o cenário artístico ao criar os ready-mades, que consistiam na seleção de objetos comuns e triviais, enfatizando o conceito por trás da obra em vez de sua materialização. Isso marcou uma ironia consciente em relação à estética clássica, exemplificada por sua intervenção na Mona Lisa, na qual acrescentou bigodes, questionando a própria noção de obra de arte e o artista como um ser excepcional e genial, desafiando a ideia de uma carreira artística tradicional (AGOSTINETTI; CAVALCANTI, 2008). Duchamp argumentava que a arte acadêmica frequentemente mudava de tema, mas mantinha uma imagem grega comum, seguindo um formato predefinido. Para ele, não era mais necessário criar uma obra a partir do zero; bastava selecionar objetos já existentes e elevar esses objetos à categoria de arte. Ele promoveu a ideia de que a arte não era mais uma questão de criação física, mas sim de concepção intelectual, o que resultou na negação de toda a tradição artística convencional. O cerne de sua obra era negar o significado intrínseco na própria obra de arte. Sua escolha notável de um urinol, conhecido como A Fonte, para exposição no Salon des Indépendants de Paris em 1917, sob o pseudônimo Mutt (o nome de uma empresa fabricante de artigos sanitários), subverteu os princípios estéticos da arte. No entanto, essa provocação gerou um dilema significativo, pois, se tudo pode ser considerado arte, então nada é arte. Nesse contexto, a própria existência da obra de arte foi posta em xeque. Essa abordagem de Duchamp abriu caminho para formas de expressão artística mais participativas, como a performance e a instalação, que transcendiam os limites dos museus e galerias convencionais. Essa ideia visava romper com a passividade do espectador, convidando-o a participar ativamente da experiência artística. Os ready-mades também lançaram uma questão fundamental: o que é arte e o que não é arte? A rejeição inicial de sua obra A Fonte não impediu Marcel Duchamp de continuar a criar outros ready-mades, escolhendo objetos aparentemente insignificantes e transformando-os, atribuindo-lhes novos nomes. Dessaforma, Duchamp exerceu uma influência significativa na evolução da vanguarda artística ao longo do século XX. Sua contribuição se manifesta na origem dos movimentos conceituais e nas instalações que se tornaram emblemáticas na década de 1970, bem como no trabalho de artistas experimentais que exploraram meios não convencionais, o que também afetou profundamente a própria definição de arte. Na década de 1960, em resposta às mudanças radicais na arte do século XX, o termo obra-prima foi substituído pelo termo objeto para descrever o que os artistas propunham. Isso ocorreu porque a palavra obra já não conseguia abranger plenamente as transformações que a arte estava experimentando nesse período. Essa mudança linguística refletiu a evolução da arte contemporânea e a dissolução das fronteiras tradicionais entre o que era considerado uma obra de arte e o que não era. Ao analisar a história da tradição do cristianismo e do capitalismo, torna-se evidente que o desejo de desconstruir ou negar a própria arte, como implementado por Marcel Duchamp, reflete ideias de opositores que denunciam a opressão inerente a esses sistemas e propõem novos valores. Isso representou uma busca pela autonomia do artista e da arte, indicando que os valores conformistas associados à arte acadêmica já não se alinhavam com a evolução cultural e as demandas da época, pois estavam profundamente enraizados na tradição (AGOSTINETTI; CAVALCANTI, 2008). Karl Marx, por exemplo, argumentava que na ordem capitalista, o trabalho se tornava alienado. Friedrich Nietzsche, por sua vez, questionava a religião, considerando-a um mecanismo imaginado pelo homem que infantilizava a humanidade, levando as pessoas a buscar conforto em forças sobrenaturais. Para Nietzsche, o cristianismo era visto como um remédio criado para ajudar as pessoas a suportar as dificuldades da vida (AGOSTINETTI; CAVALCANTI, 2008). Segundo Agostinetti e Cavalcanti (2008), a partir do século XIX, os artistas passaram a perceber a arte como uma força repressora e inibidora de impulsos inconscientes. Eles se tornaram subversivos e começaram a desafiar essa ordem estabelecida, incorporando essas ideias tanto em suas obras quanto em seus comportamentos. A busca pela liberdade individual tornou-se o catalisador da expressão artística, refletindo a visão de que uma obra de arte é um reflexo de ideias individuais, em vez de seguir padrões universais. No contexto brasileiro, Ronaldo Brito assinala que é viável identificar o neoconcretismo como um marco de ruptura na trajetória da arte moderna no país. A partir desse movimento, foram estabelecidas as bases para uma produção que Mario Pedrosa denominou de arte pós-moderna, com o intuito de distinguir essa fase da arte moderna que se inspirou no pós-impressionismo e no pós-cubismo (AGOSTINETTI; CAVALCANTI, 2008). Ainda de acordo com o autor citado anteriromente, o neoconcretismo se destaca não apenas pelas questões que suscitou, mas também pela sua própria forma de inserção na instituição artística e pela maneira como se desenvolveu como uma estratégia de grupo. Esse movimento marcou uma forma inovadora e distinta de questionamento no campo cultural brasileiro, especialmente no final dos anos 50. 7.1 A amplitude do contemporâneo na arte Conforme argumenta Cocchiarale (2011), a arte contemporânea vai além das fronteiras tradicionais da arte, incorporando outras formas de expressão artística e a própria vivência cotidiana, expandindo assim seus limites e aproximando-se mais das pessoas. Isso gera um desafio na tentativa de discernir o momento em que uma criação se transforma em uma obra de arte. A dificuldade de compreensão diante da arte contemporânea parece estar em ascensão, o que levanta a questão frequente: Isso é realmente arte? Costa (2008), oferece uma justificativa para isso, ao argumentar que o público tende a aceitar mais prontamente uma pintura do início do século 20 do que uma instalação do século 21. Isso ocorre porque as obras do passado, devido à sua maior familiaridade e reconhecimento, são geralmente mais apreciadas pelo público. A recusa em aceitar a arte contemporânea revela nossa falta de preparo para apreciá-la plenamente. Esta forma artística está profundamente arraigada em teorias antigas que datam do século XVIII e de parte do século XX, criando uma espécie de barreira que obstrui nossa compreensão do presente artístico. Como argumenta Cauquelin (2014, p. 18), é essencial “perceber a realidade da arte atual que está encoberta (...). Em outras palavras, ver de que forma a arte do passado nos impede de captar a arte de nosso tempo”. De acordo com a autora, a arte moderna muitas vezes nos impede de enxergar a arte contemporânea como realmente é, porque está muito próxima de nós, assumindo o papel do novo, e temos a tendência de tentar encaixar nela, de forma forçada, as expressões artísticas atuais (CAUQUELIN, 2014). Portanto, ocorre um confronto entre o moderno e o contemporâneo. Conforme Sakamoto (2018), a controvérsia gerada pela obra nos dias atuais evidencia que a arte transcendeu sua função representativa e adquiriu uma natureza ambígua. Enquanto, por um lado, oferece uma nova experiência sensorial do mundo, por outro, tem a capacidade de fomentar interações sociais e compartilhamento, dando forma simbolicamente à vida e reestruturando as formas pelas quais o mundo é concebido. A arte moderna já antecipava a quebra dos paradigmas artísticos, à luz das mudanças significativas na sociedade. Como citado no tópico anterior o processo de industrialização, a expansão econômica, as duas guerras mundiais e os avanços tecnológicos alteraram permanentemente a percepção das pessoas e, consequentemente, a compreensão de seu lugar e papel no mundo. Atualmente, a arte assume o papel de reimaginar a realidade, desenvolvendo a habilidade de examinar de forma crítica o mundo contemporâneo, com todas as suas complexidades, desafios e triunfos. A atenção da arte se volta para questões urgentes, como a preservação do meio ambiente, o respeito à diversidade étnica e de gênero, bem como temas relacionados ao sincretismo religioso, entre outros. Essas temáticas inspiram a criação artística em obras audaciosas, frequentemente causando impacto ou estranhamento, à medida que refletem a incerteza do momento presente (SAKAMOTO, 2018). Além disso, a arte contemporânea está intrinsecamente ligada ao tempo presente, e Giannotti (2009, p. 12) coloca de maneira assertiva que “pensar a temporalidade inerente a todo trabalho artístico se tornou uma questão fundamental para entendermos o lugar efetivo da obra de arte hoje em dia”. Através de sua obra, o artista revela sua exploração e percepção do tempo e do espaço, ou seja, o gesto criativo do artista que expressa sua visão do presente também denota sua consciência do passado e sugere projeções, antecipando o futuro. Para alcançar esse objetivo, é crucial estar em sintonia com os eventos que ocorrem ao nosso redor e também requer a tomada de decisões que influenciam a direção da sociedade por meio da criação artística. Portanto, uma postura ativa como cidadão é necessária. Os sentimentos de pertencimento ou exclusão, de acolhimento ou repulsa diante do mundo, o desejo de protesto ou solidariedade diante de um acontecimento, tudo isso atua como motivação para fazer escolhas e adotar um posicionamento pessoal em relação à realidade circundante, seja ela de natureza política, econômica, religiosa, social ou moral. Giannotti (2009), também observa que na arte contemporânea: a relação entre a obra e o observador se transforma por completo. O espaço não é mais concebido como um espaço ideal, a priori, uma forma pura da intuição a ser preenchida, mas como algo que deve ser concebido como um processo, um espaço aberto a novas experimentações (GIANNOTTI, 2009, p. 38-39).Isso implica em ultrapassar os limites da criação, estabelecendo uma ligação entre a vida e a arte, transpondo obstáculos e incorporando novos meios e recursos materiais que sejam mais adequados à expressão artística. A obra de arte inicia um diálogo com o espectador, em um desafio constante, por vezes até provocativo, que vai além da simples contemplação, engajando o público na interação com a obra de arte e na reflexão sobre o tema proposto pelo artista. Cada indivíduo deve, por sua vez, descobrir o significado da arte em sua vida nesse processo, com base em suas próprias referências culturais, sociais, históricas e outras. No entanto, esse processo pode ser complexo para a sociedade, que também traz consigo valores morais, religiosos e convicções pessoais que moldam sua percepção. O confronto de ideias resulta na formação de ideais e ideologias, influenciando a opinião do público. Quando essa tensão se estabelece, a rejeição à obra de arte pode se tornar inevitável (SAKAMOTO, 2018). Sakamoto (2018), indaga o que leva à rejeição da arte contemporânea. Segundo ele, a falta de compreensão em relação à forma e ao conteúdo das obras pode ser um fator motivador desse tipo de atitude, assim como a superficialidade das informações que frequentemente encontramos na sociedade moderna, o que pode levar à desvalorização do conhecimento, especialmente no campo artístico. A influência do poder da mídia e a disseminação indiscriminada de informações incorretas nas redes sociais também desempenham um papel significativo na censura de manifestações artísticas contemporâneas. 7.2 Arte contemporânea e transformação social A produção artística em sociedade sempre esteve estreitamente relacionada às condições que possibilitam a expressão e a compreensão dentro dela. Conforme Deleuze (1987) observa, a experiência de ver e falar é moldada pela história e pode ser situada na interação entre conhecimento e poder. Portanto, a produção de arte não deve ser vista simplesmente como um espelho da sociedade, mas talvez como um mapa que nos permite identificar como as pessoas desenvolvem seus valores, exploram questões relacionadas à existência e, ao mesmo tempo, contribuem para a mudança. Uma sociedade se define não apenas pelo que ela formaliza e preserva, mas também pelo que transcende suas fronteiras, como apontou Janice Caiafa (1992). A produção artística, por sua vez, é um lugar onde podemos detectar as fissuras pelas quais ocorrem essas fugas e transformações. Nesse contexto, a natureza contemporânea da produção artística está intimamente relacionada à nossa cultura da comunicação, ao progresso tecnológico da nossa era e à formação dos nossos modos de vida e subjetividade. Em um mundo que, mais do que nunca, é definido pela incerteza, fragmentação e pela sobreposição de tempos, espaços e experiências, a arte contemporânea abandona a ideia de uma coerência sistêmica que em muitos momentos caracterizou a modernidade, e adota um estado constante de descontinuidade. Como indicado por Danto (2003), essas transformações só podem ser compreendidas em uma perspectiva histórica, na qual é evidente que aquilo que denominamos de arte é, na realidade, uma concepção que se originou no Ocidente durante o Renascimento, aproximadamente no século XV. Nesse período, surgiram as noções fundamentais do indivíduo moderno e da autoria, e um exemplo marcante é a mudança da pintura, que deixou de ter um caráter predominantemente religioso e ritualístico para se tornar um objeto estético. Ela fez a transição da arquitetura para a tela, que passou a ser vista como uma "janela" simulando o mundo real. No contexto do modernismo, percebe-se que essa "janela" foi fechada: a perspectiva e a representação foram abandonadas, dando lugar a processos de desconstrução. O tema central da arte deixou de ser o mundo naturalista e passou a ser a própria arte e sua linguagem. A arte moderna paradoxalmente introduziu novos sistemas de interpretação e valores, os quais estabeleceram modelos inovadores para a apreciação e produção artística. Ela passou a explorar a própria arte como uma linguagem expressiva, uma estrutura narrativa e um meio de compreender e interagir com o mundo, como evidenciado pelas chamadas vanguardas históricas europeias. Enquanto a arte moderna estava vinculada ao mundo industrial, à era eletro-mecânica e às estruturas e categorias convencionais, a arte contemporânea se insere em uma modalidade diferente de experiência histórico-cultural. Foi nesse contexto que surgiu a discussão sobre a morte da arte. Conforme apontado por Danto (2003), o conceito da morte da arte tem suas origens na arte moderna, que, consciente de sua descontinuidade com a arte clássica, desafia os padrões tradicionais de representação. Na segunda metade do século XX, as grandes narrativas que explicavam o mundo, a natureza humana e a sociedade começam a desmoronar, e a história deixa de ser centralizada em um relato oficial para se fragmentar em narrativas fragmentadas. A década de 70 se destaca como um período em que essas crises se tornam mais evidentes. A ideia do fim da arte implica, em parte, na legitimação do que estava além dos limites da arte convencional. No entanto, o que realmente "morre" não é a arte em si, mas sim a sua associação com uma narrativa oficial e uma experiência artística que se concentra na criação de objetos veneráveis destinados à contemplação. Confome Gonçalves (2007), em um período em que a tecnologia possibilita ao ser humano reproduzir o mundo de forma técnica e, subsequentemente, reinventá-lo por meio da fotografia e do cinema, surge a questão sobre a natureza da realidade. Se a realidade passa a ser cada vez mais moldada pela nossa capacidade de representá-la ou pelo que desejamos que ela seja, a arte moderna busca, acima de tudo, libertar-se das restrições que antes a limitavam: os sistemas de interpretação, de significado e o mimetismo que reforçavam as grandes narrativas sobre a realidade. Levados a extremos, esses princípios levam a arte contemporânea a não mais se preocupar em criar conhecimentos ou elementos sagrados, mas sim em explorar questões essenciais. Por isso, ela goza de uma grande liberdade ao utilizar desde objetos comuns e reciclados até meios digitais, hipersistemas de redes telemáticas e até mesmo a biotecnologia como suporte para obras de arte. Todos esses elementos interconectados formam uma vasta rede de significados. Nesse contexto, a arte contemporânea está mais relacionada ao código subjetivo do que à linguagem objetiva, e ela evoca a ideia de rede e constelação, em vez de estrutura e centralização. O artista contemporâneo não busca mais rupturas ou superações, mas sim deslocamentos, explorando colagens e simultaneidades. O conceito de museu também está em transformação, deixando de ser um espaço de aura intocável para se tornar um depósito de objetos que podem ser coligados e conectados de diversas maneiras (GONÇALVES, 2007). 8 ELEMENTOS HISTÓRICOS SOBRE AS MÍDIAS DIGITAIS Fonte: https://encurtador.com.br/azBFX Nos últimos anos, tem havido uma crescente análise da terminologia mídias digitais e um reconhecimento de sua influência na formação do indivíduo contemporâneo. Isso se deve à necessidade de explorar esse tema devido ao rápido avanço das novas tecnologias de comunicação e informação. Quando nos referimos especificamente às mídias digitais, é crucial considerar sua complexidade, pois se desenvolveram a partir dos anos 1940, em um contexto marcado pela ordem industrial. Naquela época, a concentração econômica e administrativa, juntamente com o progresso tecnológico, estabeleceu uma estrutura semelhante à de outras mídias, como cinema, rádio e revistas. No que diz respeito ao conceito de mídias digitais, o sociólogo Richard Miskolci (2011), compreende que: [...] Mídiasdigitais são uma forma de se referir aos meios de comunicação contemporâneos baseados no uso de equipamentos eletrônicos conectados em rede, portanto referem-se – ao mesmo tempo – à conexão e ao seu suporte material. Há formas muito diversas de se conectar em rede e elas se entrecruzam diversamente segundo a junção entre tipo de acesso e equipamento usado [...] (MISKOLCI, 2011, p.12). Nesse contexto, o conceito de mídias digitais é percebido como uma coleção de dispositivos tecnológicos cujos usos desempenham um papel central na mediação das interações sociais por meio da conectividade (PRADO, 2015). Ao buscar entender o contexto histórico em que as mídias digitais estão integradas à vida social das pessoas, é relevante considerar o que Miskolci (2011), aborda nesse sentido: [...] reconhecer as continuidades entre o passado e o presente também auxilia a evidenciar as verdadeiras rupturas, as quais, mesmo sendo novidades podem ser mais bem analisadas em contraste com o que se dava antes do acesso às mídias digitais (MISKOLCI, 2011, p.18). Conforme indicado no trecho, é necessário adotar novas maneiras de experimentar a comunicação, as atividades cotidianas e as ferramentas de trabalho. O momento presente representa uma quebra em relação às práticas de épocas anteriores, pois a manualidade está sendo substituída pela conectividade e pela digitalização. De acordo com Adrian Athique (2013), as tecnologias digitais têm suas raízes nas máquinas de cálculo desenvolvidas no século XIX por Charles Babbage na década de 1830, assim como no armazenamento de dados em cartões perfurados, que desempenhou um papel fundamental no avanço da computação no século XX. Em 1936, Alan Turing desenvolveu a máquina universal, capaz de realizar cálculos matemáticos e algoritmos. Essa inovação solidificou o papel de Alan Turing como “uma das figuras mais influentes da computação e da matemática, junto ao exército Britânico durante a Segunda Guerra Mundial na decifração de códigos secretos alemãs.” (PRADO, 2015, p. 25). De acordo com Fonseca Filho (2007): Um sistema formal automático é um dispositivo físico que manipula automaticamente os símbolos de um sistema formal de acordo com as suas regras. A máquina teórica de Turing estabelece tanto um exemplo da sua teoria da computação quanto uma prova de que certos tipos de máquinas computacionais poderiam ser construídas (FONSECA FILHO, 2007, p. 76). Conforme sugerido pelo autor do trecho citado anteriormente, a história da computação já indicava, desde seus primórdios, que as máquinas tinham o potencial para processar informações de maneira automática e, por conseguinte, substituir o registro de dados e os cálculos realizados manualmente pelos indivíduos envolvidos nesse processo. Conforme mencionado pela socióloga Juliana do Prado (2015, p. 26), “a partir do final dos anos de 1960, o processamento de informações através da computação se espalhou para além das aplicações militares, adentrando às universidades e corporações comerciais.” Em consonância com isso, ao analisar a expansão das tecnologias digitais para além dos setores públicos e privados, Athique (2013) sustenta que esse processo pode ser descrito como a substituição da sociedade industrial pela sociedade da informação. A partir da difusão da utilização de redes digitais em torno da década de 1960, Adrian Athique (2013, p. 10) observa que “o que fez a revolução da informação da década de 1970 tecnologicamente diferentes da época anterior do mainframe, computador de grande porte, foi a realização em grande parte da distribuição da computação.” Nesse contexto, podemos afirmar que o desenvolvimento dos avanços tecnológicos foi influenciado pelos contextos políticos durante e após a guerra, com foco em interesses militares e comerciais de países considerados potências econômicas. Naquela época, devido ao amplo mercado consumidor de eletrônicos, que abrangia praticamente toda a sociedade, esses fatores desempenharam um papel significativo. Segundo Athique (2013), na década de 1980, a produção de computadores pessoais abriu caminho para sua utilização no ambiente de trabalho. Consequentemente, a posse de computadores se tornou algo comum entre as classes médias nos Estados Unidos a partir de meados dos anos 1980. Quanto ao avanço da informática para diversas classes sociais, Fonseca Filho (2007) enfatiza que: A integração dos meios de comunicação gera também uma progressiva fusão das atividades intelectuais e industriais do campo da informação. Jornalistas das redações dos grandes jornais e agências de informação, artistas, comunidade estudantil, pesquisadores trabalham diante de uma tela de computador [...] há um aumento da eficiência informacional a cada dia, e se barateiam cada vez mais os custos tecnológicos. Não esquecendo que o computador, diferentemente das outras máquinas (que manipulam, transformam ou transportam matéria e energia) manipula, transforma e transporta um elemento muito mais limpo e menos consumidor de energia e matéria prima. Abre-se, portanto, uma porta para um crescimento da informação praticamente ilimitado (FONSECA FILHO, 2007, p. 138). Conforme o autor do trecho indica, a disseminação da informática transformou a sociedade, proporcionando uma nova abordagem nas atividades artísticas, de trabalho e de estudo. Os recursos ligados à informática se tornaram mais acessíveis, atingindo um público mais amplo, resultando em uma democratização do acesso à informação e custos significativamente inferiores em comparação com ferramentas anteriormente conhecidas, como o transporte de uma enciclopédia de um lugar para outro. Em concordância com as observações de Fonseca Filho (2007), Athique (2013) destaca que durante os anos 1990 ocorreu uma significativa redução de custos na fabricação de computadores. Houve uma padronização de softwares, o que tornou os computadores pessoais comuns na vida da classe média. Ao mesmo tempo, nesse período, as privatizações no setor de telecomunicações possibilitaram a introdução da internet comercial no Brasil. Além disso, a criação da World Wide Web (WWW) estabeleceu padrões para a navegação na internet, permitindo que, por meio de software, as pessoas permitia os usuários a visitar facilmente documentos em qualquer número de redes diferentes e navegar através de informações em todo o sistema de redes de computadores interligados, a internet (ATHIQUE, 2013). Nos anos 2000, a internet foi aprimorada, permitindo a interação entre os usuários e possibilitando que eles fizessem comentários sobre o conteúdo que consumiam. Nesse período, as mídias digitais emergiram. No entanto, a expansão das novas mídias avançadas por volta dos anos 2000 definiu um novo paradigma na sociedade, que Manuel Castells (1999) denominou de sociedade de rede, na qual a conectividade desempenha um papel central. De acordo com Manuel Castells, esse novo paradigma tecnológico está construindo novos agrupamentos humanos que, cada vez mais, conectam o mundo em vastas redes locais e globais. Esse novo modo de comunicação incorpora elementos cada vez mais comuns, abrangendo linguagem, imagens, cultura, política, economia, identidade e outros aspectos. Resumidamente, essas redes de comunicação estão, nas palavras de Castells (2000, p. 22), "moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo moldadas por ela." 8.1 Mídias sociais e a construção da identidade Fonte: Pixabay.com Segundo Martins (2013), as mídias digitais desempenham um papel fundamental em diversas atividades humanas, incluindo comunicação em tempo real, aprendizado por meio de aplicativos e plataformas digitais, entretenimento, comércio de produtos de diversos tipos, exploração de lugares, realização de pesquisas e inúmeras outras necessidades que emergem diariamente no ambiente virtual. Bauman (2004), argumenta que no mundo contemporâneo,comprometer-se com uma identidade fixa por um longo período pode ser uma escolha arriscada. Ele sugere que as identidades são mais adequadas para serem exibidas e não preservadas ou mantidas indefinidamente. No entanto, ele enfatiza que seria imprudente culpar os recursos eletrônicos, como grupos de bate-papo na internet ou telefones celulares, pelo estado atual das coisas. Pelo contrário, ele sugere que é precisamente porque “somos incessantemente forçados a tecer e moldar as nossas identidades, sem ser permitido que nos fixemos a uma delas, mesmo querendo, que instrumentos eletrônicos para fazer exatamente isso nos são acessíveis e tendem a ser entusiastamente adotado por milhões” (BAUMAN, 2004 p.96). De acordo com Recuero (2008), o fenômeno da construção da identidade através da internet já estava em andamento desde o surgimento das páginas pessoais. Há a sugestão de que os websites pessoais eram apropriações individuais do ciberespaço, representando uma forma duradoura de construção do self, em consonância com as características da pós-modernidade. Bauman (2004), argumenta que o mundo pós-moderno gera a necessidade de ter várias identidades e a capacidade de remodelar essas identidades sempre que necessário. A construção da identidade se torna uma experiência experimental. Quando um indivíduo assume uma identidade, há muitas outras identidades possíveis ainda não exploradas aguardando por ele. O autor enfatiza que para os jovens, o que importa é manter a capacidade de remodelar sua identidade e sua rede quando surge a necessidade de fazê-lo. Ao contrário do que ocorria na modernidade, onde a ênfase estava em uma identidade exclusiva e singular, a pós-modernidade introduz a necessidade de uma reidentificação perpétua (BAUMAN, 2010). A internet e suas capacidades interativas atendem bem a essa necessidade. De acordo com Bauman (2010), é a quantidade de conexões que possibilita acompanhar o que todo mundo está falando e as escolhas essenciais do momento, como as músicas mais populares, as roupas da moda, as últimas notícias sobre celebridades, as festas mais badaladas e os eventos mais comentados. O autor argumenta que nas relações da pós-modernidade, a lógica predominante é a do consumo, em que tudo é considerado passível de ser consumido e descartado, inclusive as identidades. Segundo Bauman (2004): Ao mesmo estar em dia com tudo isso ajuda a atualizar os conteúdos e a redistribuir as ênfases na imagem da pessoa; ajuda ainda a apagar depressa os vestígios do passado, isto é, os conteúdos e as ênfases que agora estão vergonhosamente fora de moda. Tudo somado, a internet facilita demais, inclusive impõe o exercício incessante da reinvenção (BAUMAN, 2004 p. 25). Desse modo as mídias sociais auxiliam na construção da identidade do sujeito no sentido em que são capazes de colocar o indivíduo em contato com diversas pessoas e, assim, fazer com que ele possa assumir diferentes identidades e diferentes comportamentos nos diversos grupos sociais em que está inserido dentro da internet. Além disso, as mídias sociais colocam os usuários em contato com diversas informações, notícias e itens de consumo (músicas, filmes, livros, jogos) que permitem formar sua identidade ou suas identidades. Bauman (2004), diz que se no passado a arte da vida estava em encontrar meios adequados para atingir determinados fins, agora trata-se de testar, um após o outro, todos os fins que se possam atingir com os meios que já se possui ou que estão ao alcance. Outro aspecto a ser considerado é o fato de que algumas mídias sociais permitem a criação de personas, ou seja, perfis que, embora sejam gerenciados pelo indivíduo, não correspondem à sua identidade real, por assim dizer. Conforme explicado por Judy Tavares (2010), em seu artigo A Construção da Persona, a palavra persona se originou das máscaras usadas pelos atores no teatro grego, que serviam para identificar o personagem que estavam interpretando e eram elementos essenciais para o desempenho do artista no palco. Assim, ao discutir o termo fazemos uma analogia com esse conceito, apontando para uma espécie de máscara irreal utilizada pelos membros da rede mundial de computadores quando criam uma identidade para navegar na internet e interagir no espaço digital. Pode ser desafiador afirmar que quando um usuário recorre a uma persona, ele está adotando uma identidade falsa. Seria mais apropriado afirmar que, ao assumir uma persona que não corresponde à sua identidade na vida real, o usuário está procurando revelar uma faceta adicional de sua identidade, ou até mesmo uma identidade alternativa. No entanto, isso não implica necessariamente que se trata de uma identidade falsa. De acordo com Bauman (2004), o termo falsas identidades só pode ser aplicado se estivermos assumindo a existência de uma única identidade verdadeira. No entanto, essa suposição parece não se encaixar em um contexto pós-moderno, no qual as pessoas estão constantemente em busca de tendências efêmeras. Portanto, podemos afirmar que as mídias sociais proporcionam uma certa liberdade para que as pessoas possam explorar suas identidades fragmentadas. Além disso, essas plataformas também servem como ferramentas que permitem às pessoas expressar identidades que talvez não seriam apropriadas no ambiente offline, por exemplo. De acordo com Recuero (2010), os perfis nas mídias sociais funcionam como indícios de um eu que pode ser percebido pelos outros, representando construções plurais de um indivíduo que refletem diversas facetas de sua identidade. Portanto, podemos afirmar que os usuários das mídias sociais têm a oportunidade de experimentar diferentes aspectos de sua identidade em cada uma delas. Mídias sociais diferentes contribuem para a formação da identidade do indivíduo de maneiras distintas, uma vez que a dinâmica da comunicação varia de uma mídia para outra. De acordo com Zhao et al. (2008), o anonimato presente nos ambientes online permite que as pessoas se reinventem por meio da criação de novas identidades. No entanto, é importante ressaltar que nem todos os ambientes online são anônimos. Dentro dessas plataformas, membros da família, vizinhos, colegas e outros conhecidos também se comunicam entre si. Zhao et al. (2008), descreve essas relações como relações ancoradas, indicando que um relacionamento online pode estar ancorado offline de várias maneiras, como por meio de instituições, local de residência ou amigos em comum. Os autores explicam que existem dois tipos de relacionamentos na internet: aqueles que são baseados no anonimato e aqueles que não são. A ausência de anonimato, ou seja, quando as pessoas compartilham informações como nome, local de residência e instituição de ensino em seus perfis, cria a condição ideal para examinar a construção da identidade em ambientes online nos quais as relações estão ancoradas em comunidades offline (Zhao et al., 2008). No Facebook, por exemplo, as pessoas estão conectadas a outras que frequentemente também conhecem offline. Isso altera a dinâmica da construção da identidade, pois as ações das pessoas na internet podem influenciar suas vidas offline. REFRÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGOSTINETTI, Lúcia; CAVALCANTI, Jardel Dias. 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