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Embora comumente no campo da psi- cologia se pense em diagnóstico como um processo investi- gativo que deve preceder o tratamento ou a intervenção clínica - como ocorre quando se fala em estudo de caso -, acredito que esse modelo, que em muito se assemelha ao modelo médico, não seja adequado à Gestalt-terapia, dada sua concepção de homem e de processo terapêutico. Uma vez que concebemos o homem como uma totalidade, em constante processo de crescimento e desenvolvimento, inclui não apenas atenção a suas dificuldades e sofrimentos, mas também a suas possibilidades e potencialidades, faz-se 8 2 8 3</p><p>Lilian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumitsu (orgs.) A clínica, a relação psicoterapêutica e o manejo em Gestalt-terapia necessária uma concepção de diagnóstico que contemple es- do trabalho interdisciplinar, não são suficientes. Elas descre- ses aspectos sem excluir os demais. vem o que há em comum entre as pessoas portadoras de de- Em Gestalt-terapia, pensar diagnosticamente demanda terminado distúrbio, como é o caso das alucinações nos psi- uma atitude de investigação inicial e também ao longo de todo cóticos sejam elas visuais, auditivas, olfativas etc. -, mas não o processo psicoterapêutico, comungando investigação e trata- descrevem o conteúdo singular delas em cada paciente, tam- mento que devem caminhar lado a lado. Além disso, conforme pouco seu significado. investigação e tratamento se desenvolvem ao longo do processo Sem negar a importância de tais classificações, é preciso psicoterapêutico, reconfiguram o diagnóstico, de forma que considerar que elas são insuficientes para o desenvolvimento pensar diagnosticamente em Gestalt-terapia implica um proces- do trabalho clínico, demandando também a compreensão da SO dinâmico e contínuo de formação e destruição de Gestalten. dinâmica e da complexidade de cada paciente em sua singula- Não pensamos em diagnóstico como algo fixo nem como ridade existencial. um perigoso "rótulo" como alegavam o movimento huma- Se os critérios diagnósticos nos oferecem a comunalidade nista e a antipsiquiatria da década de 1960, que rejeitaram a o que há de comum entre os homens falta-lhes a singulari- ideia de diagnóstico por achá-lo despersonalizante e por acre- dade (o que há de diferente, próprio, singular em cada homem). ditar ser ele um rótulo limitante que pouco contribuía para a Para tanto, é preciso que nos afastemos do modelo médico, compreensão e o desenvolvimento do paciente. Acreditava-se que supõe, conforme colocado por Rogers (1972, p. 195): que o diagnóstico reduzia as pessoas a conceitos e as catego- rizava, tornando-se assim antiterapêutico e politicamente re- que uma situação orgânica tem uma causa que a pressivo (Deslile, 1990). antecede; Talvez isso tenha relação com o fato de que, ao pensar em que o controle dessa situação é mais possível se essa diagnóstico, esses movimentos consideravam os critérios causa for conhecida; diagnósticos, cuja função é operacional e cujo objetivo é ofe- que a descoberta e a descrição exata da causa são um recer uma convenção que possibilite uma comunalidade de problema que pode ser cientificamente investigado. linguagem e de critérios. Para tanto, agrupam, nomeiam e classificam aquilo que se refere à perda dos mecanismos nor- No campo da psicoterapia, o diagnóstico deve ser enten- mais de funcionamento como é o caso dos Manuais Diag- dido como a descrição e a compreensão de cada cliente em nósticos e Estatísticos de Transtornos Mentais (DSMs) e das sua singularidade existencial, ou seja, é preciso compreender Classificações Internacionais de Doenças (CIDs). o que cada sintoma e queixa significam no contexto específico Embora classificações desse tipo possam ser úteis por em que surgiram e no conjunto da vida da pessoa, bem como proporcionar uma linguagem comum, importante no campo a que propósito serviram. 84 85</p><p>Lilian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumitsu (orgs.) A clínica, a relação psicoterapêutica e o manejo em Gestalt-terapia O diagnóstico não deve ser vinculado a uma doença ou que nossa percepção se organiza e nossos sentimentos ad- anormalidade, e sim ao modo de existir de alguém (o que quirem significado. pode incluir uma doença/anormalidade, mas esta não é ele- Contato com awareness empobrecida resulta em contato mento suficiente para uma compreensão mais ampla). que carece de qualidade. É o processo de contato de boa qua- Diagnosticar implica pensar os processos de ajustamen- lidade que propicia que a interação indivíduo/ambiente seja tos criativos funcionais e disfuncionais, razão pela qual escla- nutritiva e que ocorram mudanças no campo relacional reço minha compreensão deles a seguir. pessoa-ambiente, isto é, crescimento e desenvolvimento. Em nossa vida, temos necessidades distintas e inter- AJUSTAMENTOS CRIATIVOS FUNCIONAIS relacionadas: as de natureza fisiológica (comer, beber, dor- mir) e as de natureza psicológica (relacionarmo-nos com o A Gestalt-terapia tem uma concepção holística de Homem, o outro, expressarmos emoções, sermos amados e respeitados). qual é concebido como ser biopsicossocial dotado de múlti- Ao longo do desenvolvimento, nossas necessidades tornam-se plas dimensões: física, afetiva, intelectual, social, cultural e progressivamente mais complexas e abrangem diferentes âm- espiritual. A experiência é fruto da interação do indivíduo bitos de inserção social e cultural. Qualquer que seja a natu- com o meio ambiente. reza ou a abrangência da necessidade, é no campo indivíduo/ que possibilita a experiência em tal interação é contato ambiente que ela se manifesta e se realiza. e awareness. Desde o início da vida, as experiências da pessoa são re- Awareness é a capacidade de aperceber-se do que se pas- lacionais. Para o esse campo está, em grande sa dentro e fora de si no momento presente, seja em que di- parte, delimitado pela relação mãe-bebê. mensão for (corporal, mental, emocional). É a possibilidade A mãe, por meio de sua awareness, pode captar empatica- de perceber, simultaneamente, os meios externo e interno, mente seu bebê, percebendo suas necessidades. Uma vez que é mediante recursos perceptivos e emocionais, embora em de- ela que, a um só tempo, supre as necessidades fisiológicas e terminado momento algo possa se tornar mais proeminente está junto do filho amorosa e respeitosamente, ela é o primeiro (Frazão, 1999). outro significativo com quem a criança tem contato; constitui Para que haja awareness é necessário que exista contato, a primeira e mais importante possibilidade de estabelecimento embora possa haver contato sem awareness (Perls, Hefferline de relação, sendo nesse campo relacional mãe-bebê que terá e Goodman, 1998). início o processo de desenvolvimento. Pouco a pouco, à medi- O contato se dá por meio daquilo que em Gestalt- da que desenvolva autossuporte e se sinta segura, a criança -terapia chamamos de funções de contato: visão, audição, poderá ampliar seu contato com o mundo, ampliando cada olfato, tato, fala e movimento. É pelas funções de contato vez mais o âmbito e a complexidade de suas experiências. 8</p><p>A clínica, a relação psicoterapêutica e o manejo em Gestalt-terapia Lilian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumitsu (orgs.) Ajustamento criativo saudável implica awareness de nos- Embora em geral se pense no bebê como "aquele que de- sas necessidades, bem como ser capaz de priorizá-las, de acor- pende", creio ser importante assinalar que existe também do com aquilo que Perls (1973) denominou de hierarquia de uma interdependência, uma relação de reciprocidade mãe- valores ou dominâncias e no Brasil convencionamos chamar -filho, um interjogo de satisfações mútuas. Ao mesmo tempo de hierarquia de necessidades: quando diferentes necessidades que a mãe satisfaz o bebê, sente-se satisfeita; tanto quanto o ocorrem ao mesmo tempo, a pessoa atende à necessidade do- bebê precisa ser amamentado, também a mãe precisa aliviar a minante primeiro. Trata-se de uma hierarquia que, no caso de pressão do seio repleto de leite; aos incômodos sentidos e ma- nifestos pelo bebê correspondem desconfortos na própria ajustamentos criativos funcionais, sempre varia, uma vez que a todo momento nossas necessidades mudam. mãe. As reações da mãe no sentido de aliviar o filho dos incô- À medida que a pessoa possa experienciar, ao longo de modos que manifesta cumprem, também, a função recíproca seu desenvolvimento, uma relação amorosa e respeitosa, em de proporcionar a si mesmo satisfação. Dessa forma, a rela- ção mãe-bebê envolve interdependência e certa mutualidade. que possa expressar suas necessidades (sejam elas de que na- tureza forem) e exercer seu potencial, poderá se desenvolver Estar com seu bebê amorosa e respeitosamente, aceitando- como indivíduo único e singular, interagindo com o ambiente e confirmando-o tal como ele é, favorecerá a diferenciação e o desenvolvimento da individualidade. Esse processo de tornar- por meio do ajustamento criativo, de acordo com sua hierar- -se um indivíduo único decorre da qualidade da relação com o quia de valores. Embora eu esteja focalizando o processo de desenvolvi- outro. E, na medida em que o outro faz parte do ambiente, o mento com base no que ocorre na interação mãe/bebê, pro- que possibilita o desenvolvimento psíquico saudável é a intera- cessos análogos se dão em outros tipos de relacionamento ao ção saudável indivíduo-ambiente, Eu/não Eu, por meio da qual se dará a satisfação de necessidades sobretudo aquela que longo da vida, com duas diferenças significativas: considero fundamental do ponto de vista psicológico: o estabe- Não existe o mesmo grau de dependência em relação ao lecimento e a manutenção da relação com o outro. outro como na relação mãe/bebê. Conforme ocorrem os O atendimento de necessidades ocorre por intermédio do processos de desenvolvimento e crescimento, a independên- ajustamento criativo, que é a capacidade de satisfazer às nos- cia e a autonomia da pessoa aumentam. Embora a necessi- sas necessidades de acordo, simultaneamente, com nossa hie- dade de se relacionar com outro persista, a natureza dessa rarquia de necessidades e com as possibilidades no campo relação se modifica: enquanto decresce em grau de depen- organismo/meio. Ou seja: é a capacidade de interagir de modo dência, cresce em grau de reciprocidade e mutualidade. ativo com o ambiente na fronteira de contato, adaptando, Quanto mais se ampliam os processos de desenvolvi- quando necessário, a demanda das necessidades às possibili- mento e maturação, maiores o âmbito e a complexidade dades de atendimento do ambiente. 89 88</p><p>Lilian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumitsu (orgs.) A clínica, a relação psicoterapêutica e manejo em Gestalt-terapia das experiências que se apresentam à pessoa, e maior a contato, o ajustamento criativo disfuncional implicará algum possibilidade de ela dar conta dessas experiências. grau de desorganização ou distorção do universo das percep- ções e dos sentimentos que, por sua vez, interferirá nos Sintetizando: considero o ajustamento criativo funcional processos de awareness. um interativo que ocorre na fronteira de contato e Nessas condições, a relação que a criança mantém com sua se refere à habilidade de se relacionar criativamente com o mãe em lugar de segurança favorecerá o surgimento de desam- ambiente como indivíduo único, com vistas à expressão e ao paro e insegurança, interferindo na qualidade e na possibilidade atendimento de necessidades mantendo, ao mesmo tempo, de desenvolvimento das potencialidades da criança e na amplia- uma relação respeitosa com o outro em sua unicidade. ção do âmbito e da complexidade de suas experiências. Trata-se de Gestalten abertas, que demandam e buscam AJUSTAMENTO CRIATIVO DISFUNCIONAL fechamento. Quanto mais grave, significativa e essencial for essa situação, mais os processos de ajustamento criativo per- Ao longo do desenvolvimento, a satisfação de certas necessi- derão sua natureza criativa e se tornarão Gestalten abertas, dades pode rivalizar com a manutenção da relação com o ou- fixas ou cristalizadas. tro. Quando isso ocorre, a pessoa, por meio do ajustamento Tobin (1982) refere-se a esse processo como "respostas criativo, busca formas diferentes de expressar suas necessida- adaptativas necessárias à sobrevivência em função de situa- des, mantendo, ao mesmo tempo, a relação com o outro. No ções infantis difíceis" (adaptative survival necessary respon- entanto, se essas tentativas falharem, haverá conflito. Uma ses to difficult childhood situations). Para ele, tais respostas vez que a mãe é necessária para atender às necessidades mais são mantidas em situações atuais presentes que parecem se- primárias, esse conflito poderá se tornar crucial, sobretudo se melhantes ou idênticas às situações passadas. Na opinião des- ocorrer cedo e repetidamente na vida. De forma menos deci- se autor, as pessoas tinham escolhas possíveis, apesar de sen- siva, mas ainda assim significativa, o mesmo pode se aplicar a tirem como se não as tivessem. outras experiências relacionais ao longo da vida. Gostaria de discutir três questões relativas à colocação Se a tentativa de expressar as necessidades de forma dife- feita por Tobin. rente falhar repetidamente, a fim de diminuir o conflito e Primeira questão: considero interessante a maneira como manter a relação, dada a hierarquia de valores, a expressão de Tobin nomeia o resultado desse processo, exceto pelo fato de necessidades poderá ser distorcida ou até suprimida. O ajus- restringir as respostas a situações infantis. Embora concorde que tamento, em vez de funcional, disfuncional. elas ocorram e sejam significativas sobretudo em situações infan- Uma vez que, como vimos, a percepção se organiza e nos- tis difíceis, quando a necessidade de manutenção da relação com SOS sentimentos adquirem significado por meio das funções de o outro é maior e o conflito mais crucial, essas "respostas adap- 91</p><p>Lilian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumitsu (orgs.) A clínica, a relação psicoterapêutica e o manejo em Gestalt-terapia tativas necessárias à sobrevivência" podem ocorrer em outras Além disso, tais ajustamentos muitas vezes revelam possi- situações relacionais significativas difíceis ao longo da vida. bilidades que, reconfiguradas, podem revelar potencialidades Segunda questão: acredito que as pessoas tinham outras a serviço do desenvolvimento de um modo de funcionar sau- escolhas possíveis, apesar de sentirem como se não as tives- dável e criativo. sem, porque não podiam fazê-las, seja qual fosse a natureza Terceira questão: o funcionamento não saudável implica da impossibilidade. fato de a pessoa não poder ter feito certa desorganização ou distorção do universo das percepções outra escolha não deve ser entendido como se os pais tivessem e dos sentimentos; por isso, como colocou Tobin, as situações sido tão "ruins" que ela não teve outra alternativa, nem como presentes parecem idênticas às passadas. se não quisesse fazer outra escolha. que precisa ser conside- Enfim, cabe afirmar que considero ajustamento criativo rado é a maneira como a pessoa percebeu o fato e a reação disfuncional um interativo que ocorre na fronteira que isso suscitou nela; dito de outra forma, de que fundo de contato e se refere à inabilidade e/ou impossibilidade de se aquela figura emergiu de modo que adquiriu tal significado. A relacionar criativamente com o ambiente. Ao contrário, a pes- escolha feita pela pessoa é sempre a escolha que ela, naquela soa se relaciona por meio de padrões cristalizados e repetiti- circunstância, com aquela experiência, pôde fazer. A escolha vos, pelos quais a expressão de necessidades e sentimentos é feita foi em função de uma necessidade que considero absolu- distorcida ou suprimida a fim de manter a relação com o ou- tamente verdadeira e legítima: a de sobreviver como indiví- tro, por mais artificial ou inautêntica que uma relação desse duo mantendo a relação com o outro. tipo possa parecer. Quanto mais intensa a necessidade e maior Essa escolha se constitui num ajustamento criativo que a dificuldade de expressá-la e satisfazê-la, e quanto mais pre- pressupõe o princípio da pregnância, ou da boa forma, da cocemente ela ocorrer, tanto mais provável depararmos com psicologia da Gestalt, de acordo com a qual a organização sintomas graves (físicos ou psíquicos). psicológica será sempre tão "boa" quanto as condições rei- nantes o permitirem (Koffka, 1975, p. 121).0 princípio da PENSAMENTO DIAGNÓSTICO PROCESSUAL pregnância é o pressuposto do conceito de autorregulação or- ganísmica da Gestalt-terapia, segundo o qual o organismo Nessa perspectiva, podemos retomar a questão do diagnósti- fará o melhor que pode para se regular dados simultaneamen- este está longe de ser um rótulo limitante, como pensavam te suas capacidades e os recursos do ambiente (Latner, 1973). alguns autores na década de 1970, e deve, a meu ver, ocorrer As respostas adaptativas necessárias à sobrevivência que ob- não apenas no início mas também ao longo do processo tera- servamos em funcionamento não saudável resultam de pro- quando investigação e intervenção caminham lado a cessos de autorregulação sendo (na origem) lado, num processo dinâmico e contínuo de formação e des- ajustamentos criativos e constituindo aquilo que é possível. truição de Gestalten. Em virtude dessa dinamicidade, consi- 92 93</p><p>Lilian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumitsu (orgs.) A clínica, a relação psicoterapêutica e o manejo em Gestalt-terapia dero mais adequado falar em "pensamento diagnóstico pro- O que aparece no relato do paciente é uma figura que se cessual", termo que cunhei em 1989 quando falei do tema insere num fundo, e por fundo entendo a história de vida do pela primeira vez, no II Encontro Nacional de Gestalt-terapia, cliente, suas experiências, seus relacionamentos passados (em realizado em Caxambu, Minas Gerais. especial as relações primárias significativas), seus sucessos e Ao longo do processo terapêutico, constantemente nos per- insucessos nas mais diferentes áreas (profissional, afetiva, so- guntamos o que está acontecendo e a serviço do quê (para quê). cial etc.), suas potencialidades e seus limites. É preciso No pensamento diagnóstico processual, além de identifi- compreender a relação entre aqui e agora e lá e então; do carmos os ajustamentos disfuncionais que por tenderem a passado com o presente; entre a figura/queixa e o fundo, pois ser padronizados e repetitivos perderam sua natureza criativa é a relação figura/fundo que dá sentido à figura. -, devemos identificar os ajustamentos criativos funcionais, A ênfase dada pela Gestalt-terapia ao aqui e agora fre- que nos remetem às possibilidades e potencialidades de nos- quentemente gera um mal-entendido: pensa-se que o passa- SOS pacientes. do não tem importância, devendo ser desconsiderado. Ao Esse diagnóstico deve acompanhar o processo terapêuti- enfocarem a função da recuperação de cenas passadas, CO levando em consideração o crescimento do paciente e suas Perls, Hefferline e Goodman (1998, p. 105, grifos dos au- mudanças ao longo do tempo e na sua relação consigo e com tores) afirmam: o outro. É por isso que, em lugar de diagnóstico, prefiro falar em pensamento diagnóstico processual. [...] o conteúdo da cena recuperada é bastante sem importância, mas Ao diagnosticar precisamos estar atentos àquilo que se [...] o sentimento e a atitude infantis que viveram a cena são da má- mostra no que aparece e não apenas no que aparece, como xima importância. Os sentimentos infantis não são importantes nos mostra a fenomenologia. Dito de outra forma, é neces- como um passado que deve ser desfeito, mas como alguns dos pode- sário compreender a serviço de quê se constituiu aquilo res mais belos da vida adulta que precisam ser recuperados [...]. que aparece. pensamento diagnóstico processual não precisa ser Assim, o pensamento diagnóstico processual implica despersonalizante nem tem relação com um rótulo limitante. compreender a relação da pessoa com sua história passada e Não se refere ao que a pessoa é, mas a como ela está a cada presente, pois a configuração presente está relacionada a momento do processo terapêutico. como a pessoa viveu suas experiências e a como elas a afeta- Aquilo que o cliente nos traz no aqui e agora não é apenas ram e ainda a afetam. seu presente imediato, a-histórico. O aqui e agora inclui o pas- conhecimento que posso ter do cliente se dá por aquilo sado que surge na forma de lembranças e experiências e o que ele apresenta: sua expressão verbal e não verbal, sua his- futuro que se apresenta na forma de projetos, anseios, planos. tória de vida, seus sintomas e queixas, seus sentimentos etc. 95</p><p>Lilian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumitsu (orgs.) A clínica, a relação psicoterapêutica e o manejo em Gestalt-terapia Conheço-o também por meio daquilo que experiencio em mi- sões de outra natureza. Em geral, o impacto sinaliza algo que, nha relação com ele: sentimentos, intuição, fantasias e obser- embora talvez não seja compreendido de imediato, pode vir a vação, além do conhecimento e da minha experiência clínica fazer sentido ao longo do tempo. prévia (que orientam meu olhar e minha escuta). Certa ocasião fui procurada por uma paciente de aproxi- O pensamento diagnóstico processual envolve uma des- madamente 50 anos. Ao recebê-la na sala de espera, deparei crição e compreensão do funcionamento psíquico de cada in- com uma mulher muito malvestida. Sua roupa parecia-me ex- divíduo singular, bem como seu desenvolvimento e mudanças tremamente inadequada para a idade e muito descombinada. ao longo do processo psicoterapêutico. À medida que para minha sala, observei que O pensamento diagnóstico processual com cada cliente é tanto suas roupas quanto seus sapatos e sua bolsa eram de tão singular quanto cada cliente é único. Embora não seja um grifes caras - e aquilo me impactou. A cliente relatou que era processo linear, nem o mesmo com todos os pacientes, numa origem muito pobre e que, depois de alguns anos de casada, tentativa de oferecer alguns indícios de como se pode alcançar seu marido se tornou um homem rico, mas ela não conseguia um diagnóstico compreensivo mencionarei alguns aspectos se sentir parte daquele mundo repleto de pessoas ricas, janta- úteis para tanto. res, viagens etc. Era como se ela fosse uma estrangeira em Desde o primeiro momento de contato com o paciente, qualquer lugar: ela não pertencia àquele novo mundo e tam- quer na primeira entrevista, no telefone quando ele marca bém não pertencia mais às suas origens. sua primeira consulta ou no início de uma sessão, é impor- Essa mulher tinha um sério problema de identidade, não tante não ter nenhuma ideia apriorística em mente. Faz-se ne- sabia quem era. E suas roupas, que haviam inicialmente me cessário um estado de disponibilidade interna e de abertura impactado, revelavam isso. ao outro, no qual é possível deixar-se entrar em contato com Omissões também podem ser significativas e esclarecedo- aquilo que possa emergir na relação. ras. Omissões se referem àquilo que o paciente não conta, Além disso, é preciso demonstrar uma atitude respeitosa deliberadamente ou não. As ao contrário dos im- de curiosidade, tomando o cuidado de não invadir, e sim de pactos, não são percebidas pelos sentidos, mas por lacunas no mostrar interesse; perguntar sem insistir, ouvir e acolher sem relato verbal. Podem referir-se a períodos de vida, relações julgar ou avaliar. significativas, áreas de desempenho profissional, sexual ou É importante estar atento àquilo que impacta, àquilo que cial, saúde física etc. Lacunas podem indicar áreas de dificul- chama a atenção, intriga, não faz sentido, impressiona e assim dade ou menosprezadas pelo paciente. por diante. Isso pode ocorrer no discurso do paciente, na sua Tive um paciente cuja aparência chamou minha aten- aparência, na sua energia, na sua postura corporal, na sua ção: alto, forte e musculoso. Falava o mínimo possível e res- afetividade (ou nos bloqueios dela), na sua ou em expres- pondia laconicamente às minhas perguntas. A razão que o 97</p><p>Lilian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumitsu (orgs.) A clínica, a relação psicoterapêutica e o manejo em Gestalt-terapia levara a procurar psicoterapia não era clara para mim, e mes- cida, levou-a, por meio de uma metáfora, a perceber que ela mo quando eu perguntava a única resposta que obtinha nascia de novo, como as folhas novas e mais fortes da era que médico dissera que "ele Dei-me conta Além dos impactos, das omissões e das associações, con- de que ele não havia mencionado nada a respeito de sua vida sidero útil também prestar atenção às repetições. Elas podem afetiva e sexual. Perguntei-lhe a esse respeito, e ele me con- sinalizar cristalizações, que impedem a fluidez na formação tou que era impotente. Este era na realidade o motivo que de Gestalten. Repetições muitas vezes podem ser ouvidas lite- levara a buscar terapia, e só foi possível chegar a ele pela ralmente como re-petições, um pedir novamente. A questão percepção da omissão. não é atender ao pedido, e sim ouvi-lo no que concerne à sua Também presto atenção às associações espontâneas, isto função, de tal forma que o pedido expresso possa ser ressigni- é, ao fluxo associativo da expressão verbal e não verbal do ficado e o processo fluido de formação e destruição de Gestal- cliente (quer ela se refira a fatos e/ou a afetos). As associações ten, restaurado. espontâneas podem revelar conexões figura/fundo, das quais Perls, Hefferline e Goodman (1997, p. 101) chamam a o cliente muitas vezes não se dá conta. atenção para o fato de que "a compulsão neurótica à repeti- Certa vez, uma cliente iniciou a sessão comentando sobre ção é sinal que uma situação inacabada do passado ainda está as flores vermelhas que vira no jardim. Acrescentou que gos- inacabada no presente" Acrescentam ainda que "é o esforço tava muito de vermelho, pois essa cor, para ela, significava repetido do organismo para satisfazer sua necessidade que vida e paixão. Em seguida, disse estar muito deprimida, causa a repetição" (ibidem, p. 103). sentindo-se como folhas secas no chão, sem vida nem função. Tive uma paciente que se queixava de ter um péssimo E afirmou: "Preciso reciclar e no entanto só vejo coisas ruins; relacionamento com o marido. Apesar disso, não conseguia se quero viver... me transformar". Retomei o que ela dissera a separar dele. Ela dizia não ser capaz de fazer nada sozinha e respeito das flores vermelhas e apontei que ela não via apenas usar o marido como uma espécie de "muleta" padrão que se as coisas ruins. No decorrer da sessão, ela se deu conta do repetia em diferentes relacionamentos de sua vida: com sua ciclo no qual folhas caem de árvores e transformam-se em mãe, com sua irmã, com seus filhos etc. A cliente se sentia fertilizantes que, por sua vez, nutrem a árvore, tornando pos- ameaçada pela possibilidade de se divorciar, pois não se dava sível que novas folhas, potencialmente mais fortes, cresçam. conta de suas próprias "pernas" por sinal muito fortes e Acrescentou que vinha sentindo que todas as coisas difíceis bonitas. Sua história de vida indicava que, na verdade, ela era pelas quais passara (um processo longo e doloroso de depres- uma mulher forte que perdera contato com suas capacidades são, com sério comprometimento orgânico e embotamento e possibilidades. Uma vez que ela pôde se apossar delas, não intelectual) haviam ensinado muitas coisas: era como se só precisou mais de relacionamentos tipo pôde se di- agora ela a viver. Essa associação, uma vez esclare- vorciar, administrar sua vida, suas contas, sua casa. 98</p><p>Lilian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumitsu (orgs.) A clínica, a relação psicoterapêutica e o manejo em Gestalt-terapia Finalmente, gostaria de mencionar os sintomas que tam- seus subordinados. À medida que transcorreu a terapia, perce- bém podem sinalizar relações figura/fundo. Embora eles pos- bemos que isso causava irritação e insatisfação. Sua "mer- sam remeter-nos a categorias nosológicas, é necessário com- da", metaforicamente, indicava sua necessidade de expressar preender a serviço de quê eles se constituíram e se mantêm. O seus sentimentos, e sua diarreia apontava para a única manei- sintoma pode ser uma forma, às vezes dramática, de expressar ra possível, para ele, de fazê-lo uma forma disfuncional e uma necessidade muito profunda que, por alguma razão, não perigosa de se livrar dos conteúdos que o intoxicavam. Algum pôde ser expressa de outra maneira é um grito silencioso de tempo depois, tendo percebido seus sentimentos, ele pôde socorro que precisa ser cuidadosa e respeitosamente ouvido. buscar meios novos e mais funcionais de se expressar. Um Revela um dos muitos paradoxos humanos: o de que evitar o deles foi começar a pintar e a fazer vitrais. sofrimento gera sofrimento. No funcionamento não saudável, É importante ressaltar que não se pensa diagnosticamen- os sintomas podem ter função compensatória, indicando um te com apenas um ou outro elemento; o caminho para o pen- desequilíbrio. Talvez eles revelem, metaforicamente, o que a samento diagnóstico processual não é linear nem igual com pessoa não pode dizer. todos os clientes ou em todos os momentos do processo tera- Às vezes, lido com o sintoma como se fosse algo comple- pêutico. Todos esses elementos (os impactos, as omissões, as tamente desconhecido para mim, como se eu não soubesse a associações espontâneas, as repetições, os sintomas etc.) se que o cliente está se referindo. Posso pedir a ele que descreva entrecruzam e podem ocorrer ao mesmo tempo. São sinais o sintoma, que se identifique com ele e lhe dê voz; outras ve- que indicam possíveis relações figura/fundo e sugerem hipóte- zes, pergunto-me em fantasia o que o sintoma faz para aquele ses diagnósticas que aguçam a observação e a discriminação paciente, a serviço de quê aquele paciente tem tal sintoma, o do Gestalt-terapeuta. que este favorece ou dificulta. Desejo reiterar que o pensamento diagnóstico processual Há algum tempo, um gastroenterologista indicou um pa- não envolve apenas os aspectos disfuncionais do paciente. É ciente que tinha constantes diarreias e perdia peso com rapi- igualmente importante atentar para os aspectos funcionais: as dez. Na ocasião em que foi encaminhado para realizar psico- forças, os recursos, os sucessos em diferentes áreas, as poten- terapia comigo, estava tomando cortisona e seu médico temia cialidades, as capacidades, as qualidades, a energia etc. que nada mais pudesse ser feito. Ao longo do trabalho tera- Pensar o diagnóstico em termos gestálticos implica pen- a natureza compensatória desse sintoma foi se tor- sar em processo, em relações de relações (pensamento dialéti- nando clara. Ele apresentava awareness de má qualidade de co); sobretudo, implica compreender (aprender com), alicerce seus sentimentos e, portanto, não podia contatá-los nem central do relacionamento terapêutico. expressá-los. Além disso, em função do cargo que ocupava, Assim, o pensamento diagnóstico processual demanda achava que tinha de manter um relacionamento distante com uma atitude cuidadosa com o paciente, buscando, por meio de 100</p><p>Lilian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumitsu (orgs.) uma relação respeitosa e amorosa genuína, resgatar sua possi- bilidade de se relacionar de forma autêntica e criativa com o ambiente, a fim de possibilitar o intercâmbio nutritivo no cam- po interacional e o resgate de seu lugar legítimo no mundo. 5 As técnicas em Gestalt-terapia REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DELISLE, G. A Gestalt perspective of personality disorders. Gouldsboro: Gestalt MAURO FIGUEIROA Journal Press, 1995. FRAZÃO, L. M. "A compreensão do funcionamento saudável e não saudável a serviço do pensamento diagnóstico em Gestalt-terapia". Revista do V Encontro Goiano de Gestalt-terapia, n. 5, 1999, p. 27-34. KOFFKA, K. Princípios de psicologia da Gestalt. São Paulo: Cultrix/Edusp, 1975. LATNER, J. The Gestalt therapy book. Nova York: Julian Press, 1973. PERLS, The Gestalt approach and eye witness to therapy. Palo Alto: Science and Behavior Books, 1973. PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-terapia. 3. ed. São Paulo: Summus, 1998. Meu primeiro contato com a Gestalt-terapia foi em um grupo ROGERS, C.R. Psicoterapia centrada en el cliente. Buenos Aires: Paidós, 1972. TOBIN, S. A. "Self-disorders, Gestalt therapy and self psychology". The Gestalt Jour- que havia se reunido para uma demonstração. Alguns dos parti- nal, V, n. 2, 1982, p. 3-44. cipantes comentaram a ausência de uma colega e sugeriram que a aguardássemos. Outros argumentaram que era melhor come- sem ela. A coordenadora disse que poderia esperar ou começar, conforme a decisão do grupo. Seguiu-se uma calorosa discussão. Um dos argumentos para que a esperássemos era o de que ela perderia uma parte do trabalho, o que não seria justo. O grupo estava num impasse, mas a intensidade do con- fronto foi diminuindo e cedendo lugar a colocações menos intransigentes. Isso acontecia à medida que percebíamos em nós mesmos o conflito entre esperar ou começar. Ao mesmo tempo, foi surgindo, aos poucos, a consciência de que já esta- va acontecendo uma experiência importante da qual a nossa colega ausente jamais poderia participar. Aqueles que obti- nham esse insight já não viam sentido em tomar qualquer decisão: ficava claro que o trabalho já havia iniciado. 102 1 3</p>