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<p>LITERATURA BRASILEIRA</p><p>E CONTEMPORANEIDADE</p><p>LITERATURA BRASILEIRA</p><p>E CONTEMPORANEIDADE</p><p>Copyright © UVA 2020</p><p>Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer</p><p>meio sem a prévia autorização desta instituição.</p><p>Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico</p><p>da Língua Portuguesa.</p><p>AUTORIA DO CONTEúDO</p><p>Silvana Moreli Vicente Dias</p><p>REVISãO</p><p>Lydianna Lima</p><p>Janaina Senna</p><p>Theo Cavalcanti</p><p>PROjETO GRáfICO</p><p>UVA</p><p>DIAGRAMAçãO</p><p>UVA</p><p>SUMáRIO</p><p>Apresentação</p><p>Autor</p><p>6</p><p>8</p><p>As escritas de si: narração, memória e história 33</p><p>• O memorialismo e as trajetórias brasileiras em Zélia Gattai</p><p>• Caio Fernando Abreu: narrativa entre evocação e resistência</p><p>• Cristovão Tezza: máscaras ficcionais entre vida e arte</p><p>Unidade 2</p><p>10</p><p>• Nelson Rodrigues: especificidades da tragédia brasileira</p><p>• Dalton Trevisan: inventários urbanos</p><p>• Peripécias malandras na escrita de João Antônio</p><p>ficções e dramas insólitos: rumo ao contemporâneo</p><p>Unidade 1</p><p>SUMáRIO</p><p>Literatura hoje, entre experimentação e missão 75</p><p>• Conceição Evaristo: “escrevivências” literárias</p><p>• Fronteiras e contaminações em Bernardo Carvalho</p><p>• Vozes periféricas, vozes impuras: mal-estar da sociedade no Racionais Mc’s</p><p>Unidade 4</p><p>52</p><p>• Ferreira Gullar: deslocamentos do poema sujo</p><p>• Poesia concreta ontem e hoje: a aventura da palavra</p><p>• Literatura, arte, multimídia e NTIC: linguagens em potência</p><p>Lirismo em liberdade: poesia, polifonia e multimídia</p><p>Unidade 3</p><p>6</p><p>Olá, aluno! Seja muito bem-vindo!</p><p>Construiremos juntos este espaço da disciplina Literatura Brasileira e Contemporanei-</p><p>dade. Pretendemos abordar, neste momento, do ponto de vista crítico, eixos temáticos,</p><p>procedimentos estéticos, meios de expressão e formas de recepção da Literatura Bra-</p><p>sileira ocorridos ao longo da contemporaneidade. Nosso intuito é destacar a obra de</p><p>autores considerados paradigmáticos no período que vai de meados do século XX até as</p><p>primeiras décadas do século XXI.</p><p>Aqui, esperamos problematizar o cânone da Literatura Brasileira do Modernismo, abrindo</p><p>espaço para redefinições e reflexões sobre os deslocamentos substanciais operados no</p><p>campo literário desde a segunda metade do século XX. Ênfase será oferecida a vertentes</p><p>críticas que buscam tensionar as perspectivas dominantes, de modo a repensar e a re-</p><p>definir criticamente as linhas do cânone brasileiro, desde aquele herdado do século XIX,</p><p>passando pelo Modernismo, até chegar à segunda metade do século XX e ao início do</p><p>século XXI.</p><p>Entre os autores que serão abordados em nosso curso, figuram: Nelson Rodrigues (1912-</p><p>-1980), Zélia Gattai (1916-2008), Dalton Trevisan (1925), Décio Pignatari (1927-2012), Ha-</p><p>roldo de Campos (1929-2003), Ferreira Gullar (1930-2016), Augusto de Campos (1931),</p><p>João Antônio (1937-1996), Conceição Evaristo (1946), Caio Fernando Abreu (1948-1996),</p><p>Cristovão Tezza (1952), Bernardo Carvalho (1960) e o grupo de rap Racionais Mc’s. Nos-</p><p>so objetivo é contribuir para uma formação ampla de nossos estudantes, de modo que</p><p>possam compreender a literatura dentro de um conjunto heterogêneo de autores, obras</p><p>e gêneros literários.</p><p>Nesse processo tangenciaremos também aspectos relativos à formação do leitor literá-</p><p>rio em espaços escolares e não escolares, apontando tendências da produção literária</p><p>APRESENTAçãO</p><p>7</p><p>em contextos de trocas simbólicas desenvolvidas na sociedade de informação e comu-</p><p>nicação. Daremos atenção, inclusive, às transformações da dinâmica da leitura no Brasil</p><p>e no mundo de hoje, de modo a se conhecerem e se estudarem as textualidades produzi-</p><p>das em mídias digitais. Ao discorrer sobre essas questões, pretendemos preparar nossos</p><p>estudantes para um ambiente educacional dinâmico, em que, cada vez mais, estarão</p><p>presentes as novas tecnologias, a relação entre a literatura, outras artes e outros saberes,</p><p>bem como os trânsitos interdisciplinares.</p><p>Esperamos que você, querido estudante, tenha um ótimo aproveitamento em nosso</p><p>curso. Bons estudos!</p><p>8</p><p>SILVANA MORELI VICENTE DIAS</p><p>Possui graduação em Licenciatura em Letras (Português e Inglês) pela Universidade Es-</p><p>tadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp (1999), mestrado (2003) e doutorado</p><p>(2008) em Letras pela Universidade de São Paulo – USP. Ganhou o prêmio CAPES de</p><p>Tese 2009, área de Letras/Linguística, pelo trabalho Cartas provincianas: correspon-</p><p>dência entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, posteriormente publicado pela Editora</p><p>Global, de São Paulo (2017). Foi pesquisadora bolsista Nível I da Fundação Biblioteca Na-</p><p>cional – FBN-RJ (2008), selecionada por edital. Realizou pesquisa de pós-doutorado na</p><p>Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, com ênfase em Metodologia e prática de edi-</p><p>ção crítica de textos modernos e contemporâneos (2009). Fez pós-doutorado no Instituto</p><p>de Estudos Brasileiros da USP (IEB-USP, 2010-2012) com bolsa FAPESP, desenvolvendo</p><p>o projeto de Edição com aparato crítico e estudo da correspondência de Gilberto Freyre</p><p>e de José Lins do Rego. Em seguida, fez novo pós-doutorado no IEB-USP (2012-2016)</p><p>com bolsa do Programa do Prêmio CAPES de Teses (Letras e Linguística), trabalhando</p><p>com temas como perspectivas críticas de estudo dos gêneros biográfico e epistolar;</p><p>formas e funções da correspondência; percursos da epistolografia brasileira do século</p><p>XX (Manuel de Oliveira Lima, Alfredo Freyre, Manuel Bandeira, Rodrigo Melo Franco de</p><p>Andrade, Gilberto Freyre, Otto Maria Carpeaux, José Lins do Rego e Cícero Dias); e as re-</p><p>lações comparadas entre o Modernismo brasileiro e o anglo-americano. Entre fevereiro</p><p>e julho de 2015 suspendeu atividades no Brasil para realizar pós-doutorado na Université</p><p>Sorbonne Nouvelle/Paris 3, com bolsa de pesquisa pós-doutoral no exterior pela CAPES,</p><p>dedicando-se à busca de manuscritos inéditos de escritores brasileiros, bem como a</p><p>reflexões metodológicas sobre edições crítico-genéticas em formato digital. Tem expe-</p><p>riência na área de Letras, com ênfase em preparo de edições, crítica genérica e crítica</p><p>textual; edições acadêmicas com aparato crítico; manuscritos de escritores, artistas e</p><p>intelectuais; análise e reflexões sobre a dinâmica dos gêneros híbridos na modernidade</p><p>AUTOR</p><p>9</p><p>e na contemporaneidade; crônica, memorialismo e ensaio; poesia brasileira; curadoria de</p><p>exposições; linguística aplicada; humanidades digitais; e relações entre o Modernismo</p><p>brasileiro e a literatura anglo-americana. Tem experiência docente nos níveis fundamen-</p><p>tal, médio e superior. Desde o primeiro semestre de 2017 é professora na Universidade</p><p>Veiga de Almeida – UVA (RJ) nas modalidades presencial e a distância, orientando diver-</p><p>sos trabalhos de Iniciação Científica (PIC-UVA) e Trabalhos de Conclusão de Curso, bem</p><p>como participando da elaboração de materiais didáticos diversos. Faz parte do Núcleo</p><p>Docente Estruturante – NDE do curso de Letras EAD. Foi selecionada e aprovada, após</p><p>participar de curso de formação no segundo semestre de 2018, para integrar o sistema</p><p>BASis MEC-INEP do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Tei-</p><p>xeira (avaliação de cursos presenciais e a distância).</p><p>Ficções e dramas insólitos:</p><p>rumo ao contemporâneo</p><p>UNIDADE 1</p><p>11</p><p>A primeira unidade da disciplina Literatura Brasileira e Contemporaneidade busca ofe-</p><p>recer aos nossos estudantes caminhos para conhecerem e discutirem as especificida-</p><p>des da literatura brasileira de meados do século XX até o início do século XXI, sublinhan-</p><p>do, sobretudo, a maestria da forma literária irônica, densa e reflexiva de Nelson Rodrigues</p><p>(1912-1980), Dalton Trevisan (1925) e João Antônio (1937-1996).</p><p>Abordaremos diferentes gêneros literários no espaço dessas reflexões, tais como tea-</p><p>tro, crônica, conto, miniconto e ensaio, ressaltando como a heterogeneidade é marca do</p><p>período. Espera-se, assim, contribuir para que o estudante consolide-se como um leitor</p><p>crítico, capaz de reconhecer os vínculos entre reflexão epistemológica e análise crítica</p><p>na abordagem de conteúdos de Literatura Brasileira, sem descuidar de aspectos como a</p><p>historicidade e a dinâmica</p><p>— Tem! Atlético e Fluminense!</p><p>— Então vamos chamar o Christian!</p><p>O Christian é o vizinho atleticano — em todo jogo, monta-se na casa uma</p><p>arquibancada de fanáticos.</p><p>— Sim, ele também vem.</p><p>— Isso! Vamos ganhar! Quatro a zero! — e ele mostra a mão espalmada,</p><p>olha para os dedos, ri e acrescenta: — Opa! Errei! Cinco a zero!</p><p>— Vai ser um jogo muito difícil — o pai pondera, torcedor pessimista. —</p><p>Que tal dois a um?</p><p>O menino pensa. Ergue a mão novamente, agora com três dedos.</p><p>45</p><p>— Três a zero, só. Que tal? — Tudo bem. Mas vai ser duro. Você está pre-</p><p>parado?</p><p>— Estou! Eu sou forte! — Ele ergue o braço, punho fechado: — Nós vamos</p><p>conseguir!</p><p>— Vamos ver se a gente ganha.</p><p>O menino faz que sim, e completa, braço erguido, risada solta:</p><p>— Eles vão ver o que é bom pra tosse!</p><p>É uma das primeiras metáforas de sua vida, copiada de seu pai, e o pai ri</p><p>também. Mas, para que a imagem não reste arbitrária demais, o menino</p><p>dá três tossidinhas marotas. Bandeira rubro-negra devidamente desfral-</p><p>dada na janela, guerreiros de brincadeira, vão enfim para a frente da tele-</p><p>visão — o jogo começa mais uma vez. Nenhum dos dois tem a mínima</p><p>ideia de como vai acabar, e isso é muito bom. (TEZZA, 2007)</p><p>A narrativa encerra-se assim: “Nenhum dos dois tem a mínima ideia de como vai acabar,</p><p>e isso é muito bom”. É a vida comum, homens comuns, comprometidos com valores</p><p>universais, de beleza e empatia na vida cotidiana. Observe-se, assim, como a opção pela</p><p>terceira pessoa é certeira ao avançar o gênero autoficcional para o terreno desconhecido,</p><p>de modo que a liberdade estética conduz, igualmente, ao terreno do não controlado, da</p><p>surpresa, ainda que saiba aonde se chegará — sabemos, àquela altura da publicação do</p><p>livro, que Cristovão Tezza não é um escritor desconhecido, nem inexperiente, nem mes-</p><p>mo profissionalmente fracassado.</p><p>Para refletir</p><p>A produção autoficcional na contemporaneidade: uma visada geral</p><p>O conceito de “autoficção” foi cunhado pelo escritor e crítico francês Serge</p><p>Doubrovsky em 1977. De lá para cá, houve uma proliferação de estudos</p><p>críticos voltados para o caráter autoficcional na literatura contemporânea,</p><p>acompanhada por uma crescente produção literária que lida com as fronteiras</p><p>não nítidas entre realidade e ficção. Conforme afirma a especialista no tema</p><p>Jovita Marai Gerheim Noronha:</p><p>No que diz respeito a seus antecessores, certos críticos, dentre os</p><p>quais o próprio Doubrovsky, estimam que o neologismo veio nomear</p><p>46</p><p>Aprendemos, ao final, que a leitura pode, ainda sim, conduzir-nos para um terreno novo</p><p>e inexplorado, em que os jogos de máscaras, comprometidos com o autêntico da expe-</p><p>riência, podem nos guiar para um encontro singular com as vidas escritas.</p><p>Apesar do enfoque em trajetórias conhecidas e em acontecimentos reais, o próprio autor</p><p>paradoxalmente defende a necessidade da escrita literária como distanciamento, força</p><p>construtiva e impessoalização. Em suas palavras:</p><p>[...] a grande chave técnica do livro porque não me envolvi. A terceira</p><p>pessoa me deu liberdade para lidar com o narrador. Eu trabalho escan-</p><p>caradamente com dados biográficos: eu tenho um filho com síndrome</p><p>de Down e esse é o tema central do livro. (TEZZA apud MARTINS, 2011)</p><p>Trabalhar com dados biográficos não significa excesso de narcisismo e subjetivação.</p><p>Essa lição de escrita e vida Cristovão Tezza nos oferece com toda perfeição e justeza.</p><p>uma prática que, de fato, já existia. Quanto à sua sucessão, a pala-</p><p>vra se encontra hoje dicionarizada na França (dicionários Larousse e</p><p>Robert) e cada vez mais se propaga além das fronteiras desse país</p><p>para definir práticas de autoescrita, como se constata atualmente en-</p><p>tre nós. E essa disseminação é operada em três esferas: os escritores</p><p>que se apropriam do termo para definir suas próprias obras; mundo</p><p>acadêmico, no qual a investigação sobre essa categoria conceitual</p><p>toma corpo em eventos e comunicações, em teses, dissertações e</p><p>artigos; a mídia especializada, que mobiliza o termo em entrevistas e</p><p>resenhas. Além disso, a etiqueta “autoficção” não se restringe mais ao</p><p>campo da literatura, estendendo-se às outras artes. [...] De fato, tanto</p><p>a fortuna crítica da autoficção, quanto sua apropriação pelos autores</p><p>para designar suas obras deixam antes a impressão de um debate ver-</p><p>tiginoso, à maneira de Pirandello. (NORONHA, 2014, p. 7-8)</p><p>47</p><p>Para ampliar seu conhecimento veja o material complementar da Unidade 2,</p><p>disponível na midiateca.</p><p>MIDIATECA</p><p>Leonor Arfuch (2002) concebe o termo “espaço biográfico” para pensar sobre</p><p>novos gêneros discursivos que avançam na contemporaneidade, acompanhan-</p><p>do o desenvolvimento das “novas tecnologias da presença”. Mas também há</p><p>um avanço indiscutível de gêneros autobiográficos reconhecidos pela tradição</p><p>moderna, como autobiografia, memórias, diários, cartas, crônicas etc.</p><p>Nesse sentido, podemos dizer que o espaço dilatado do eu na época de hoje</p><p>contribui, como nunca antes, para a ampliação dos arquivos literários, históri-</p><p>cos e culturais e, consequentemente, das potenciais relações entre ética, esté-</p><p>tica e política (ARFUCH, 2010). As obras de Zélia Gattai, Caio Fernando Abreu e</p><p>Cristovão Tezza demonstram bem o potencial significativo dessa literatura que</p><p>toca em questões como as relações entre vida e arte, entre eu e o mundo, entre</p><p>subjetividade, literatura, história e sociedade.</p><p>Analisar produções que dialogam ativamente com as escritas de si pode ser</p><p>um objetivo das aulas de Língua Portuguesa e suas Literaturas, de Crítica e</p><p>Teoria Literária, de estudos críticos voltados para artes, cultura e sociedade,</p><p>entre outros. Mais ainda, produções que transitam livremente no âmbito do es-</p><p>paço biográfico na contemporaneidade tendem a sensibilizar o leitor de hoje,</p><p>ampliando seu repertório e seu poder de construir sentidos complexos sobre o</p><p>mundo que o cerca.</p><p>NA PRáTICA</p><p>48</p><p>Resumo da Unidade 2</p><p>Na Unidade 2 foi possível desenvolver uma leitura panorâmica de importantes escritores</p><p>da Literatura Brasileira Contemporânea, que produziram obras fundamentais de meados</p><p>do século XX até as décadas iniciais do século XXI. O foco foi dado ao tratamento fic-</p><p>cional de elementos da subjetividade, dando relevo ao conceito de escritas de si, memo-</p><p>rialismo, crônicas e autoficção, com destaque para as obras de Zélia Gattai (1916-2008),</p><p>Caio Fernando Abreu (1948-1996) e Cristovão Tezza (1952).</p><p>Figurações da subjetividade; relações entre literatura, história e sociedade; es-</p><p>paço biográfico na Literatura Contemporânea Brasileira.</p><p>CONCEITO</p><p>49</p><p>Referências</p><p>ABREU, C. F. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. E-book.</p><p>ARFUCH, L. O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Trad. Palo-</p><p>ma Vidal. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010.</p><p>BARBOSA, N. L. “Infinitivamente pessoal”: a autoficção de Caio Fernando Abreu, “o biógrafo</p><p>da emoção”. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2008. Disponível em: https://teses.usp.br/</p><p>teses/disponiveis/8/8151/tde-30072009-172856/pt-br.php. Acesso em: 15 mar. 2020.</p><p>BRAGA, K. Zélia Gattai e as publicações Anarquistas, graças a Deus (1979) e Città di</p><p>Roma (2000): uma construção de si. Face da História, Assis-SP, v. 3, n. 2, p. 176-193, jul.-</p><p>dez. 2016. Disponível em: http://seer.assis.unesp.br/index.php/facesdahistoria/article/</p><p>view/389. Acesso em: 18 mar. 2020.</p><p>BULHÕES, M. M. Jornalismo e literatura em convergência. São Paulo: Ática, 2007. Bi-</p><p>blioteca Virtual.</p><p>CARNEIRO, M. L. T. Memórias de uma jovem anarquista. In: SEMINÁRIO ZÉLIA GATTAI:</p><p>Gênero e Memória. Org. Myrian Fraga e Marlyse Meyer. Apresentação Myriam Fraga. Sal-</p><p>vador: FCJA; Museu Carlos Costa Pinto, 2002, p. 39-54. Disponível em: http://www.usp.</p><p>br/proin/download/artigo/artigo_zelia_gattai.pdf. Acesso em: 20 mar. 2020.</p><p>DALCASTAGNÈ, R. Um território contestado: literatura brasileira contemporânea e as no-</p><p>vas vozes sociais. Revista Iberical, Paris, n. 2, p. 13-17, 2012. Disponível em: http://iberi-</p><p>cal.paris-sorbonne.fr/wp-content/uploads/2012/03/002-02.pdf. Acesso em: 20 fev. 2019.</p><p>ENSAIOS</p><p>SOBRE AUTOFICÇÃO. Org. Jovita Maria Gerheim Noronha. Trad. Jovita Maria</p><p>Gerheim Noronha e Maria Inês Coimbra Guedes. Belo Horizonte: UFMG, 2014.</p><p>GATTAI, Z. Anarquistas, graças a Deus. Rio de Janeiro: Record, 1979.</p><p>GATTAI, Z. Città di Roma. 7. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.</p><p>GINZBURG, J. Exílio, memória e história: notas sobre “Lixo e purpurina” e “Os sobreviven-</p><p>tes” de Caio Fernando Abreu. Literatura e Sociedade, v. 10, n. 8, p. 36-45, 2005. Disponí-</p><p>vel em: http://www.revistas.usp.br/ls/article/view/19617. Acesso em: 20 mar. 2020.</p><p>50</p><p>KAVISKI, E. Literatura brasileira: uma perspectiva histórica. Curitiba: InterSaberes, 2014.</p><p>Biblioteca Virtual.</p><p>KLINGER, D. I. Escritas de si, escritas do outro: autoficção e etnografia na narrativa la-</p><p>tino-americana contemporânea. Tese (Doutorado em Literatura Comparada) – Instituto</p><p>de Letras da Uerj, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2006. Disponível em: http://</p><p>www.bdtd.uerj.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=124. Acesso em: 19 fev. 2019.</p><p>MARTINS, A. F. Uma discussão teórica acerca da autoficção: a ficcionalização de si em O</p><p>filho eterno, de Cristovão Tezza. Letrônica, v. 4, n. 1, p. 181-195, jun. 2011. Disponível em:</p><p>http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/letronica/article/view/7984/6398.</p><p>Acesso em: 10 mar. 2020.</p><p>MELLO, J. A.; BARRETO, R. G. Novas paisagens e passagens da literatura brasileira contem-</p><p>porânea. Estud. Lit. Bras. Contemp. [on-line], n. 38, p. 23-39, 2011. Disponível em: http://</p><p>www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S2316-40182011000200023&lng=pt.</p><p>Acesso em: 16 fev. 2019.</p><p>MORAES, V. de. A construção do escritor. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 30, n. 62,</p><p>p. 681-700, set.-dez. 2017.</p><p>MOREIRA, M. E.; DOVAL, C. C. Leituras de literatura brasileira contemporânea. Porto</p><p>Alegre: EdiPUCRS, 2015. Biblioteca Virtual.</p><p>PEDROSA, C. Poesia e crítica de poesia hoje: heterogeneidade, crise, expansão. Estudos</p><p>avançados, São Paulo, v. 29, n. 84, maio-ago. 2015. Disponível em: http://www.scielo.br/</p><p>scielo.php?pid=S0103-40142015000200321&script=sci_arttext. Acesso em: 21 fev. 2019.</p><p>PERNAMBUCO, J. O filho eterno, de Cristovão Tezza: um acontecimento. Organon, Porto</p><p>Alegre, n. 53, p. 183-197, jul.-dez. 2012. Disponível em: http://www.cristovaotezza.com.br/</p><p>critica/trabalhos_acd/o%20filho%20eterno%20-%20um%20acontecimento.pdf. Acesso</p><p>em: 18 mar. 2020.</p><p>PROVOCAÇÕES RECEBE O ESCRITOR CRISTOVÃO TEZZA – BLOCO 1. Entrevista a Cristo-</p><p>vão Tezza conduzida por Antônio Abujamra. São Paulo, TV Cultura. Disponível em: https://</p><p>www.youtube.com/watch?v=tadIvxiLDSM&feature=youtu.be. Acesso em: 10 mar. 2020.</p><p>PROVOCAÇÕES RECEBE O ESCRITOR CRISTOVÃO TEZZA – BLOCO 2. Entrevista a Cris-</p><p>tovão Tezza conduzida por Antônio Abujamra. São Paulo, TV Cultura. Disponível em: ht-</p><p>tps://www.youtube.com/watch?v=xA2t_hl4fR8. Acesso em: 10 mar. 2020.</p><p>51</p><p>ROCHA, J. C. de C. R. A guerra de relatos no Brasil contemporâneo. Ou “a dialética da</p><p>marginalidade”. Revista do Programa de Pós-graduação em Letras, PPGL-UFSM, n. 32,</p><p>p. 23-70. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/letras/article/view/11909/7330. Aces-</p><p>so em: 21 fev. 2019.</p><p>SANTIAGO, S. Nas malhas da letra. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.</p><p>SANTOS, A. S. Figurações do Estado de Exceção em Zélia Gattai: memórias de uma tes-</p><p>temunha anarquista-libertária. Grau Zero, Revista de Crítica Cultural, v. 3, n. 1, 2015. Dis-</p><p>ponível em: https://www.revistas.uneb.br/index.php/grauzero/article/view/3282. Acesso</p><p>em: 20 mar. 2020.</p><p>TEZZA, C. O filho eterno. São Paulo: Record, 2007, p. 9-17. Disponível em: http://www.</p><p>martinsfontespaulista.com.br/anexos/produtos/capitulos/249095.pdf. Acesso em: 10</p><p>mar. 2020.</p><p>Lirismo em liberdade: poesia,</p><p>polifonia e multimídia</p><p>UNIDADE 3</p><p>53</p><p>Ao abordar a poesia contemporânea brasileira, deparamo-nos com um território hete-</p><p>rogêneo, marcado pela desestabilização dos discursos hegemônicos, o que demanda</p><p>a necessidade de encarar a diversidade como um elemento constitutivo dos tempos</p><p>de hoje. Há muitas linhas críticas e criativas, as quais se aproximam e se distanciam</p><p>da tradição, ora para aprofundar seus parâmetros, ora para marcar suas posturas de</p><p>resistência e de divergência.</p><p>Assim, algo que parece comum a diversas tendências é a constante indagação sobre</p><p>seus limites, o que afirma a condição de autorreflexão e crise da linguagem, da sintaxe,</p><p>do sentido. O movimento entre crise e expansão é bem abordado por Celia Pedrosa em</p><p>seu artigo Poesia e crítica de poesia hoje: heterogeneidade, crise, expansão (PEDRO-</p><p>SA, 2015).</p><p>Ao lado dessa experiência com linguagem verbal, a poesia contemporânea também in-</p><p>corpora elaborações promissoras como construção formal, semântica, sensorial etc.,</p><p>com sua migração para os meios digitais e computacionais. Imagem, ritmo, texturas,</p><p>sonoridades e movimentos passam a ser ressignificados ao se transportar do universo</p><p>analógico para o digital.</p><p>Todos esses elementos serão discutidos ao longo desta unidade. Esperamos que os</p><p>conteúdos aqui tratados despertem em você, estudante, a vontade de conduzir novas</p><p>pesquisas e de conhecer a poesia desenvolvida nos dias de hoje no Brasil.</p><p>INTRODUçãO</p><p>54</p><p>Nesta unidade você será capaz de:</p><p>• Analisar as principais vertentes da poesia brasileira na contemporaneidade, en-</p><p>fatizando como procedimentos poéticos se deslocam explorando novos espaços</p><p>e novas configurações, com destaque para a obra de Ferreira Gullar (1930-2016),</p><p>Augusto de Campos (1931), Haroldo de Campos (1929-2003) e Décio Pignatari</p><p>(1927-2012).</p><p>OBjETIVO</p><p>55</p><p>ferreira Gullar: deslocamentos do poema</p><p>sujo</p><p>Ferreira Gullar viveu as contradições de seu</p><p>tempo e de seu espaço, elaborando-as por</p><p>meio de uma escrita poética, memorialística,</p><p>cronística e ensaística de qualidade incon-</p><p>teste. Membro da Academia Brasileira de Le-</p><p>tras, sua obra foi aclamada por seus pares,</p><p>por seu público e por críticos especializados.</p><p>Além de escritor de gêneros propriamente li-</p><p>terários, também se dedicou à tradução e foi</p><p>um intenso combatente por meio da palavra</p><p>empenhada, enviando periodicamente seus</p><p>artigos para jornais de grande circulação no</p><p>Brasil. Escreveu importantes livros, como A</p><p>luta corporal (1954), Dentro da noite veloz</p><p>(1975), Poema sujo (1976), Na vertigem do dia (1980), Em alguma parte alguma (2010),</p><p>entre outros.</p><p>Nascido no Maranhão, cedo mudou-se para o Rio de Janeiro, onde consolidou sua car-</p><p>reira literária. Participou do movimento da poesia concreta, assim como da exposição</p><p>concretista de 1956 — que será estudada no próximo tópico da disciplina —, mas poucos</p><p>anos depois, por divergências várias, afastou-se do movimento.</p><p>Com os artistas plásticos Lygia Clark (1920-1988) e Hélio Oiticica (1937-1980), fundou o</p><p>movimento neoconcreto, distanciando-se definitivamente dos pressupostos da poesia</p><p>concreta, criticada por ele por seu excesso de tecnicismo, de formalismo e de herme-</p><p>tismo, entre outros argumentos. Reforçaram, então, que a arte não é somente forma ou</p><p>objeto desprovido de conteúdo e de emoção: expressividade e subjetividade encontram</p><p>espaço por meio das produções neoconcretas que se apoiam na sensibilidade e na pers-</p><p>pectiva humanizadora da arte.</p><p>Assumiu, em 1961, a presidência da Fundação Cultural do Distrito Federal. Participou ati-</p><p>vamente dos Centros Populares de Cultura, os chamados CPCs, muito ativos entre 1962</p><p>e 1964, quando foram fechados após o Golpe Militar de 1964. Ferreira Gullar praticou</p><p>a poesia engajada, com um lirismo comprometido com as classes populares, com os</p><p>Ferreira Gullar (1930-2016), em foto de 1970</p><p>para o jornal Correio da Manhã.</p><p>56</p><p>problemas sociais brasileiros e com os impasses do momento histórico. Nesse período,</p><p>publicou o cordel João Boa-morte, cabra marcado pra morrer (1962). Sua obra já se</p><p>aproximava do chão brasileiro, e, por tal motivo, passou a ser perseguido pela ditadura</p><p>então vigente — inclusive, foi militante do Partido Comunista Brasileiro.</p><p>A atuação política de Ferreira Gullar, fortemente combativa e questionadora, o levou</p><p>ao</p><p>exílio entre agosto de 1971 e março de 1977. Foram longos anos fora do Brasil, em que as</p><p>incertezas sobre os tempos foram vividas com angústia e pessimismo. Marcélia Guima-</p><p>rães Paiva, em sua tese de doutorado, debruça-se sobre a construção poética em Ferreira</p><p>Para refletir</p><p>Ao se falar sobre a crítica literária dedicada a compreender a dinâmica do con-</p><p>temporâneo, desenham-se algumas linhas: por exemplo, há aquela que aponta</p><p>que é impossível abarcar a multiplicidade do que é produzido em cena; de outro</p><p>lado, há uma vertente atenta ao modo como o contemporâneo se relaciona com</p><p>a modernidade e com os textos que lhe são coetâneos, destacando seus diálo-</p><p>gos, suas conexões, suas releituras, suas apropriações e seus distanciamentos.</p><p>Do ponto de vista crítico, também pode-se observar a dialética entre ênfase no</p><p>significante e destaque da complexidade do significado (histórico, político, cultu-</p><p>ral etc.). Essas tensões foram vividas pela geração de críticos atuantes nas déca-</p><p>das de 1960 e 1970, em plena Ditadura Militar, como afirma Alfredo Bosi:</p><p>Voltando ao Brasil [da Itália], em 1962, pude participar de um dos</p><p>momentos mais esperançosos de nossa vida política: a união estra-</p><p>tégica de todas as forças progressistas (socialistas, comunistas, tra-</p><p>balhistas, cristãs de esquerda, democratas radicais) em torno de um</p><p>projeto histórico, a luta pelas reformas de base, que se estendem até</p><p>março de 1964, quando o golpe udeno-militar desbaratou os militan-</p><p>tes e inaugurou a ditadura. Paradoxalmente, esse clima intensamen-</p><p>te politizado, que expulsou da nossa universidade os mestres mais</p><p>engajados (cito o nome de Florestan Fernandes, que vale por todos),</p><p>foi quase imediatamente substituído pela onda universitária do es-</p><p>truturalismo linguístico, muito pouco sensível aos dramas de nossa</p><p>história política, e da história em geral... [...] (ENTREVISTA COM AL-</p><p>FREDO BOSI SOBRE CRÍTICA LITERÁRIA, 2013, p. 314).</p><p>57</p><p>Gullar, que incorpora a condição de “exilado”. Para tanto, reforça a imagem de “morada”.</p><p>Segundo a autora, o exílio pode ser compreendido por meio de diversas facetas:</p><p>O exílio possui muitas facetas. Ele pode estar relacionado à situação de</p><p>ser clandestino em seu próprio país, de viver em um espaço conhecido</p><p>que rejeita o exilado, de não ter identificação pessoal, de estar em si-</p><p>tuação de interrupção do diálogo com a família e com os participantes</p><p>de seu círculo de convívio, de viver em permanente estranhamento do</p><p>outro ou em um espaço onde se habita que se converte em outro país.</p><p>Essas diversas situações impõem ao exilado um conjunto de tarefas,</p><p>tais como não perder a memória do exílio, fazer inventário de perdas, de-</p><p>fender-se de acusação de transgressão da lei, não abandonar sua língua</p><p>e conseguir asilo. Essas ações, em um poema de exílio, são básicas para</p><p>se construir a morada. Essa construção é abalada pela perspectiva da</p><p>volta. (PAIVA, 2017, p. 18)</p><p>Um acontecimento dramático no contexto do exílio — quando o autor, então em Buenos</p><p>Aires (depois de estadas em Moscou, Santiago e Lima), acredita ser iminente sua queda</p><p>nas mãos da polícia — dá ensejo à escrita do Poema sujo, de 1975. Esse funcionaria</p><p>como uma espécie de sobrevivência lírica em um universo de perdas — tanto as ocor-</p><p>ridas de fato como as que se anunciam. Estratégias da memória e da escrita sensível</p><p>mobilizam um conjunto de imagens que se esquivam do universo da fuga e da desespe-</p><p>rança que estão a seu redor. Assim, retoma aspectos memorialísticos que passam por</p><p>sua vida no Maranhão, no Rio de Janeiro, nos trânsitos do exílio, suas experiências amo-</p><p>rosas, suas leituras poéticas etc., com uma mistura de inúmeros tons e registros, como</p><p>elementos formais e informais, prosa e poesia, passando pelas diversas classes sociais</p><p>e pelos desafios mais intensos de sua época.</p><p>Aqui, sonoridade e ritmo embalam um sujeito em busca de preservar sua autonomia cria-</p><p>tiva, ciente das ameaças, pronto para lutar pelo fio de vida que lhe resta, com a profun-</p><p>didade que esse compromisso lhe incita. Nesse sentido, conforme Paiva (2017) sugere,</p><p>o autor constrói uma morada pela linguagem. Leiam-se algumas das estrofes do longo</p><p>Poema sujo para se notarem essas e outras questões:</p><p>[...] Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís</p><p>do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos</p><p>e pais dentro de um enigma?</p><p>58</p><p>mas que importa um nome</p><p>debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre</p><p>cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de</p><p>garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já</p><p>um prato de louça ordinária não dura tanto</p><p>e as facas se perdem e os garfos</p><p>se perdem pela vida caem</p><p>pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos</p><p>e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-ci-</p><p>dreira [...]</p><p>corpo que se para de funcionar provoca</p><p>um grave acontecimento na família:</p><p>sem ele não há José Ribamar Ferreira</p><p>não há Ferreira Gullar</p><p>e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta</p><p>estarão esquecidas para sempre corpo-facho corpo-fátuocorpo-fato</p><p>[...] Mas sobretudo meu</p><p>corpo nordestino</p><p>Mais que isso</p><p>maranhense</p><p>mais que isso</p><p>sanluisense</p><p>mais que isso ferreirense</p><p>newtoniense</p><p>alzirense</p><p>meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres</p><p>ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo</p><p>sob as balas do 24º BC</p><p>na revolução de 30</p><p>e que desde então segue pulsando como um relógio</p><p>num tic tac que não se ouve</p><p>(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)</p><p>tic tac tic tac</p><p>enquanto vou entre automóveis e ônibus</p><p>entre vitrinas de roupas</p><p>nas livrarias</p><p>nos bares</p><p>tic tac tic tac</p><p>59</p><p>pulsando há 45 anos</p><p>esse coração oculto</p><p>pulsando no meio da noite, da neve, da chuva</p><p>debaixo da capa, do paletó, da camisa</p><p>debaixo da pele, da carne,</p><p>combatente clandestino aliado da classe operária</p><p>meu coração menino. (GULLAR, 2016)</p><p>O prefácio à edição do Poema sujo recentemente publicado pela Companhia das Letras,</p><p>de autoria de Antonio Cicero, traz apreciações de outros autores sobre o mais conhecido</p><p>poema de Gullar, como esta de Otto Maria Carpeaux: “[...] mereceria ser chamado ‘Poema</p><p>nacional’, porque encarna todas as experiências, vitórias, derrotas e esperanças do homem</p><p>brasileiro. É o Brasil mesmo, em versos ‘sujos’ e, portanto, sinceros” (CARPEAUX apud</p><p>CICERO, 2016, e-book). O autor sabe que há um hiato irresolúvel entre vida e escrita — e é</p><p>nesse hiato que o sujeito se inscreve de modo a fazer com que, para falar como Viviana</p><p>Bosi (2017), seu passado perdido e reconquistado se torne sua identidade. Segundo Bosi:</p><p>A pluralidade que o poema convoca, fazendo irromper o menino e o ado-</p><p>lescente dentro do homem, junto às muitas vozes do seu passado, seja</p><p>em breves sequências narrativas, seja pela imersão nas sensações vi-</p><p>venciadas (fiapos de cor, luz, cheiros que se entramam dentro de si, bi-</p><p>chos e corpos que nascem da terra), transforma-se numa multiplicidade</p><p>de pontos de vista. (BOSI, 2017, p. 426)</p><p>De fato, o poema incorpora e elabora literariamente dados multifacetados de uma trajetó-</p><p>ria feita de rica experiência formativa, estudo disciplinado, domínio técnico, compromisso</p><p>social e imensa solidão pelo isolamento, consequência esta das fugas sucessivas pelas</p><p>quais passou o escritor para preservar sua integridade física, psicológica e sua autono-</p><p>mia criativa e reflexiva. Ao mesmo tempo, um monumento da poesia nacional se ergue,</p><p>como resistência ao estado de coisas e à crueldade que exalavam aqueles tempos.</p><p>60</p><p>Poesia concreta ontem e hoje: a aventura</p><p>da palavra</p><p>Com a breve análise da poesia de Ferreira Gullar to-</p><p>camos rapidamente em um dos movimentos mais</p><p>conhecidos e criativos da literatura brasileira: o mo-</p><p>vimento da poesia concreta. Suas bases — lançadas</p><p>em uma década de grande euforia e de confiança</p><p>crescente na democracia como sistema político ga-</p><p>rantidor do progresso dos povos, a década de 1950</p><p>— continuam a render frutos no novo milênio. Veja-</p><p>mos alguns aspectos do movimento e como</p><p>figu-</p><p>ras-chave, como Haroldo de Campos, Augusto de</p><p>Campos e Décio Pignatari, imprimiram sua energia</p><p>de propulsão vanguardista, com forte ressonância</p><p>no exterior, em um país que — a despeito dos avan-</p><p>ços técnicos evidentes — continuaria subdesenvolvi-</p><p>do e externamente dependente.</p><p>O movimento concretista busca aprofundar os elementos desenvolvidos pela arte mo-</p><p>derna, muito bem representada por expoentes como Piet Mondrian (1872-1944), Wassily</p><p>Kandinsky (1866-1944) e Max Bill (1908-1994), para citar alguns nomes. O movimento</p><p>abstracionista de vanguarda tende a enfatizar a concretude versus a abstração, o obje-</p><p>tivismo versus o subjetivismo, a geometria calculada versus o caos disforme, desarticu-</p><p>lado da matéria bruta. A técnica, desse modo, busca aprofundar o aprendizado com os</p><p>materiais, a serem depreendidos por meio da geometria e do cálculo.</p><p>No Brasil, na década de 1940, é o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), autor</p><p>de O Engenheiro (1945), que inicialmente firmou as premissas de uma linguagem</p><p>calculada como escopo principal do fazer literário. Na década de 1950, essas questões</p><p>foram postas como centrais no debate artístico nacional pelas mãos de poetas como</p><p>Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari. O trio editou a histórica</p><p>revista Noigandres em 1952, marcando época (as edições posteriores da revista</p><p>também agregaram Ronaldo Azeredo e José Lino Grünewald, circulando até 1962). Para</p><p>o estudioso do assunto Omar Khour, o grupo Noigandres forçou, inclusive, uma visada</p><p>Capa da primeira revista</p><p>Noigandres, de 1952.</p><p>61</p><p>diferente daquilo que então se compreendia como tradição modernista, de modo que</p><p>suas reverberações foram além da ruptura inicial, mais aguerrida:</p><p>O conjunto da obra poética do Concretismo acrescentou muito à criação</p><p>do século XX e, através de um cuidadoso exercício comparativo, pode-</p><p>remos concluir que a melhor poesia concreta produzida mundialmente</p><p>foi a do Brasil e mais especificamente da Pauliceia e a feita por poetas a</p><p>ela ligados de alguma forma. O Grupo Noigandres arregimentou Ronal-</p><p>do Azeredo e, depois, José Lino Grünewald. A Poesia Concreta brasileira</p><p>não ficou apenas nas já importantes faturas dos anos 50, da chamada</p><p>fase ortodoxa (heroica) em que vigorou um projeto coletivo de produção:</p><p>evoluiu, apresentou novos projetos, congregou mais poetas, explicitou</p><p>individualidades. A Poesia Concreta obrigou os apreciadores das Letras</p><p>a repensar a tradição. (KHOURI, 2006, p. 22)</p><p>Paralelamente, ocorreram movimentações no Rio de Janeiro em torno de nomes como</p><p>Lygia Clark, Hélio Oiticica e Ferreira Gullar — sobre as quais tratamos no tópico anterior.</p><p>Esses grupos fizeram concertações, manifestos, exposições etc., de modo que, paulati-</p><p>namente, os dissídios foram se desenrolando, com acontecimentos que são vistos hoje</p><p>como marcos incontestáveis. Em 1956, ocorreu a Exposição Nacional de Arte Concreta,</p><p>em São Paulo; em seguida, movimentos tensivos ao grupo paulista incorporam-se em</p><p>1957, na Exposição do Rio de Janeiro. Já em 1959, as divergências ficam claras com o</p><p>posicionamento do grupo carioca ao propor o neoconcretismo, na contramão do tecni-</p><p>cismo paulista.</p><p>É interessante notar o frutífero diálogo entre diversas artes nesse período. Literatura, es-</p><p>cultura, pintura, arquitetura, música etc. buscam territórios de produção e de reflexão que</p><p>sejam mutuamente estimulantes. Inclusive, o discurso crítico que acompanha essas pro-</p><p>duções torna-se praticamente indispensável. Desses grupos, nascem teóricos e críticos</p><p>que alcançam posição-chave na cena cultural brasileira, como Haroldo de Campos, que</p><p>também possui vasta produção como tradutor (em vertente que se poderia chamar de</p><p>tradução-transcriação) e teórico da literatura.</p><p>62</p><p>Vimos, portanto, que Haroldo de Campos ocupa posição central como tradutor, pensa-</p><p>dor, teórico da literatura e crítico de literatura e de arte. Seu legado múltiplo pode ser</p><p>conferido por meio de títulos memoráveis, como as obras poéticas Galáxias (1984) e</p><p>Crisantempo (1998), ao lado de importantes livros de crítica literária, como Morfologia</p><p>do Macunaíma (1973), A arte no horizonte do provável (1972) e Transcriação (2015,</p><p>organização de Marcelo Tápia e Thelma Médici Nóbrega).</p><p>Por sua vez, Décio Pignatari, escritor multifacetado, tradutor e professor, autor de Poe-</p><p>sia pois é poesia (1977), dedicou-se a inúmeros gêneros literários — poesia, contos,</p><p>romance, memórias, teatro, crônicas, além do ensaísmo e de estudos de cunho teó-</p><p>rico-metodológico voltados para a área de Comunicação e Semiótica. Sua ênfase é</p><p>claramente voltada para a comunicação poética centrada na potência do signo visual,</p><p>como vemos a seguir:</p><p>Uma das faces mais prolíficas do movimento concretista tem a ver com a refle-</p><p>xão sobre a poesia, a literatura e a arte deixada pelos autores. Nesse contexto,</p><p>Haroldo de Campos ocupa uma posição ímpar como teórico e crítico, como</p><p>bem sugere Lino Machado, na passagem a seguir:</p><p>Com certeza, as categorias utilizadas podem ser articuladas a conceitos</p><p>privilegiados no ensaísmo do próprio Haroldo de Campos [...]. Apontemos</p><p>alguns [...]: as noções hauridas em Roman Jakobson, de ‘poética sincrô-</p><p>nica’ (diálogo com o passado a partir de uma perspectiva crítica fincada</p><p>no presente, não numa pretensa ‘neutralidade’ de reconstituição histórico-</p><p>filológica), ‘função poética’ (ênfase na materialidade dos signos) e ‘função</p><p>metalinguística’ (atenção ao desdobrar-se da literatura sobre si mesma,</p><p>em exercício lúdico de autoproblematização); o ‘dialogismo’ de Mikhail Ba-</p><p>khtin, rebatizado como ‘intertextualidade’ por Julia Kristeva (a remessa in-</p><p>findável que os discursos fazem uns aos outros); a consideração do ‘texto’</p><p>(herdada quer das práticas da vanguarda, quer da teorização literária dos</p><p>anos 1960) como algo em que as fronteiras entre poesia e prosa tendem</p><p>a diluir-se; as várias contribuições da semiótica (em especial a de Peirce),</p><p>com sua ênfase na diversidade das espécies de signos...” (MACHADO,</p><p>2013, p. 262-263).</p><p>Importante</p><p>63</p><p>Observe-se como esse ícone do movimento concretista incorpora visualidade, musica-</p><p>lidade, ritmo, estreita junção entre linguagem verbal e não verbal, em subversiva correla-</p><p>ção, a ponto de se constituir como uma marca de antipropaganda capitalista. Assim, a</p><p>comunicação multissemiótica pode ser dinamizada para estimular crítica e convidar ao</p><p>criterioso julgamento. Coca-cola seria cloaca?</p><p>Palavra e visualidade são faces inseparáveis não só para Décio Pignatari, mas também</p><p>para os expoentes do grupo, que não deixam as premissas de seu principal legado. Nesse</p><p>passo, Augusto de Campos — considerado por muitos o grande poeta do grupo — conti-</p><p>nua a instigar as gerações sucessivas, mesmo porque não se furta do enfrentamento dos</p><p>principais impasses da poesia nos novos tempos. Por exemplo, em Pós-tudo, poema de</p><p>1984, em momento político brasileiro crucial no contexto da abertura democrática, per-</p><p>gunta-se (e pergunta-nos), em primeira pessoa: “depois de tudo, restaria (subjetividade,</p><p>alteridade mundo) mudo?”. Leia-se, a seguir, outra obra-prima do movimento concretista:</p><p>Beba coca-cola, de 1957. Autoria de Décio Pignatari.</p><p>Disponível em: http://s3-sa-east-1.amazonaws.com/des-</p><p>complica-blog/wp-content/uploads/2015/10/beba_coca_</p><p>cola.jpg. Acesso em: 3 abr. 2020.</p><p>64</p><p>Augusto de Campos, nascido em 1931, continua produtivo e inventivo, ocupando posição</p><p>de destaque na poesia brasileira, em especial naquela que explora os espaços do univer-</p><p>so digital. O autor de títulos como Poetamenos (1953), Expoemas (1985), Não poemas</p><p>(2003), bem como de célebres traduções de Mallarmé e E.E. Cummings, prossegue, des-</p><p>se modo, sua trajetória de busca de novas formas e renovadas expressões poéticas.</p><p>Pós-tudo (1984). Autoria de Augusto de Campos.</p><p>Disponível em: https://image.slidesharecdn.com/concre-</p><p>tismo-120828180322-phpapp02/95/concretismo-16-728.</p><p>jpg?cb=1346178062. Acesso em: 2 abr. 2020.</p><p>65</p><p>Literatura, arte, multimídia e NTIC: linguagens</p><p>em potência</p><p>Falar</p><p>do legado da poesia concreta necessariamente conduz às reflexões sobre os ter-</p><p>renos móveis, híbridos e dinâmicos da poesia realizada em formato digital. Entretanto,</p><p>antes de tecer considerações sobre o universo da produção poética em específico,</p><p>façamos uma breve incursão sobre os âmbitos da arte multimidiática.</p><p>As aproximações hoje entre arte e tecnologia são muito vastas e encontram-se ao</p><p>nosso alcance pela rede mundial de computadores. Aqui podemos vivenciar aquilo que</p><p>denominamos realidade ubíqua, que atravessa espaços e tempos. Podem-se mencio-</p><p>nar, por exemplo, realizações de grande força sensorial, de estranhamento e de comu-</p><p>nicação e de interação no universo da arte digital, da web arte, do videoarte, das insta-</p><p>lações, das performances e da realidade virtual interativa. Nomes que vêm produzindo</p><p>com criatividade e perspicácia ao reconhecer aspectos centrais desses tempos são</p><p>Gilbertto Prado (artista multimídia, professor da ECA-USP, com obras presentes no site:</p><p>http://www2.eca.usp.br/cap/gilbertto/english/index.html) e Guto Lacaz (artista multi-</p><p>mídia, com vasta obra gráfica, plástica e multimidiática, presente no site http://www.</p><p>gutolacaz.com.br/).</p><p>As experiências desenvolvidas por Max Bense estão nos primórdios da ligação</p><p>entre poesia, literatura e computação. Leia-se:</p><p>Apesar de ainda nos dias de hoje serem pouco conhecidas de gran-</p><p>des públicos, inclusive no meio literário, experimentações poéticas</p><p>com linguagem de computação foram realizadas já na década de 50</p><p>do século XX pelo grupo liderado pelo filósofo e matemático alemão</p><p>Max Bense, o qual, à época, fora influenciado pelas reflexões em torno</p><p>da cibernética, introduzidas por Norbert Wiener. Em um artigo recente</p><p>sobre a contribuição de Bense para a história da literatura digital, Eli-</p><p>sabeth Walther esclarece que os primeiros experimentos de literatu-</p><p>ra em computador ocorreram devido à presença de Wiener, em julho</p><p>Ampliando o foco</p><p>66</p><p>As Novas Tecnologias da Informação e Comunicação – NTIC têm o poder não só de</p><p>aproximar o criador de seu público, alimentando-se uma comunidade de leitores cada</p><p>vez mais versada no ambiente tecnológico e nos recursos de inovação, mas também</p><p>tornam cada receptor um criador em potencial, um fruidor do patrimônio cultural da</p><p>humanidade que pode oferecer uma contribuição reflexiva, analítica e criativa em um</p><p>debate e numa área inventiva que apenas deu seus passos iniciais.</p><p>No campo da literatura infantojuvenil, uma experiência criativa foi publicada pela Edito-</p><p>ra Global pelos escritores-artistas Ana Cláudia Gruszynski — responsável pelo projeto</p><p>gráfico e pela capa — e Sérgio Capparelli — escritor que desconstrói o verso tradicional</p><p>em busca de uma comunicação imediata, de tipo icônica, com seu público. Algumas</p><p>dessas produções podem ser visitadas no site: http://www.ciberpoesia.com.br/. Os au-</p><p>tores estimulam, inclusive, a interação e a criação a partir da experiência multimidiáti-</p><p>ca. O livro Poesia visual (2000) recebeu o selo Altamente Recomendável pela FNLIJ</p><p>2001 (Fundação Nacional do Livro Infantojuvenil) (CAPPARELLI; GRUSZYNKSI, 2001).</p><p>Para encerrar, um artista multimidiático reputado como dos principais no Brasil é André</p><p>Vallias. Formado em Direito, designer gráfico e criador multimidiático de profissão, o es-</p><p>critor e designer fez suas primeiras incursões pela poesia visual em 1985. Influenciado</p><p>por Vilém Flusser, trabalhou com importantes nomes da poesia multimidiática. Autor</p><p>de poemas complexos, matemáticos e com impactante leitura social, como Oratório</p><p>(2003) e Totem (2014, finalista do Prêmio Oceanos de Literatura), André Vallias é um</p><p>artista que lança mão da convergência de som, cores, formas, palavras e movimento,</p><p>como vemos a seguir, pelas imagens fixadas para nossa leitura:</p><p>de 1955, como palestrante convidado na Escola Técnica de Stuttgart,</p><p>onde Bense atuava. Sua palestra foi capaz de empolgar uma série de</p><p>estudantes de diferentes áreas, dentre os quais ‘alguns jovens mate-</p><p>máticos e técnicos em eletrônica (Rul Gunzenhäuser, Sigfried Maser)</p><p>sentiram-se especialmente estimulados a realizar certos trabalhos a</p><p>partir da forte dependência da estética com relação à matemática [...],</p><p>abordada por Bense em seus ensaios e palestras’ (WALTHER, 2012, p.</p><p>39).” (KIRCHOF, 2013, p. 129-130).</p><p>67</p><p>Em Oratório, a cidade do Rio de Janeiro é representada pela topografia recortada, en-</p><p>tre planos e morros, como um jogo de euforia e disforia em que retrato e paisagem</p><p>se relacionam de modo abrupto e desconexo. Da cidade dos dias de hoje, tomada</p><p>pela carência, abrem-se sentidos que desmontam o Rio antigo ocupado pela elite. Por</p><p>exemplo, como afirma Rejane Rocha, a Rocinha fora palco de corridas automobilísticas</p><p>do circuito da Gávea nos anos 1930. Hoje, eis um labirinto sem nexo, símbolo máximo</p><p>da desintegração das grandes cidades, palco de pobreza, de injustiças, de indigências.</p><p>Do Rio de Janeiro como simulacro de urbe (portanto, não civilizada, não humana, não</p><p>racional, apenas imagens superficiais que permitem uma leitura da forma sem fundo),</p><p>comunica-nos o poema digital de fortes ressonâncias. Observe-se a seguir:</p><p>é omnipresente</p><p>o simulacro</p><p>oco e alvo</p><p>que a urbe</p><p>estatui: christus</p><p>redemptor</p><p>hominis</p><p>no pináculo</p><p>da tentação</p><p>? ou</p><p>Página digital do poema Oratório, de André</p><p>Vallias. Disponível em: https://andrevallias.</p><p>com/oratorio/. Acesso em: 4 abr. 2020.</p><p>68</p><p>o astro</p><p>que segura</p><p>a rosa diminuta</p><p>na proa da nau</p><p>desgovernada? (VALLIAS, 2003)</p><p>Aliás, o texto pode ser lido em múltiplas direções. Como afirma Rocha (2016), como um</p><p>oratório, a poesia dá visibilidade às diversas facetas da cidade que seduz (cidade do</p><p>samba, da paisagem deslumbrante, do monumento) e que repele (com suas violência e</p><p>hostilidade). Está aqui um exemplo de que é necessário conhecer a tradição do verbo,</p><p>as imagens conectadas a espaços distópicos, os movimentos populares que dão con-</p><p>sistência ao viver cotidiano carioca. A literatura eletrônica é capaz, então, de congregar</p><p>e potencializar o universo de sentidos, pela tensão, pela contradição, pela atenção re-</p><p>dobrada que lhe será exigida.</p><p>Portanto, vemos que há muitas possibilidades de leitura no universo da produção di-</p><p>gital. Recomenda-se, nesse sentido, que se busquem formar leitores capazes de en-</p><p>xergar “um objeto simbólico manipulável, o qual está em equilíbrio entre o caos e a</p><p>ordem, a informação redundante e a informação relevante, entre o significado ambíguo</p><p>e o significado determinado” (GOICOECHEA, 2010, p. 359 apud KIRCHOF, 2013, p. 139).</p><p>Nas mãos de poetas que dominem as linguagens verbais e as não verbais, a poesia</p><p>digital poderá, por certo, explorar dimensões inimagináveis para o universo da palavra</p><p>exclusivamente escrita.</p><p>Para ampliar seu conhecimento veja o material complementar da Unidade 3,</p><p>disponível na midiateca.</p><p>MIDIATECA</p><p>69</p><p>Ler a poesia contemporânea brasileira é uma experiência de ricos matizes. Mui-</p><p>tas são as correntes e as trajetórias individuais, que se inserem em um panora-</p><p>ma que oscila — e faz largo uso das contradições nesse ir e vir — entre tradição</p><p>e modernidade, entre retenção e aceleração temporal progressista, entre o liris-</p><p>mo subjetivista e a técnica hiper-racional.</p><p>Os novos tempos — com seus impasses sociais e culturais insolúveis, como</p><p>desenvolvimento sem inclusão social, direitos políticos sem vivência da cida-</p><p>dania — refratam-se nas problemáticas da poesia contemporânea brasileira.</p><p>Em nossa unidade, detalhamos especificidades de autores e destacamos a mi-</p><p>gração da poesia do analógico para o digital. Constatada essa transformação,</p><p>muitos caminhos práticos se abrem, quer seja do ponto de vista da criação, da</p><p>crítica ou da leitura em ambientes de escolarização. Especificamente sobre os</p><p>caminhos a serem explorados na escola, algumas dificuldades são apontadas</p><p>por Alamir Aquino Correa:</p><p>Da leitura dos capítulos sobre ensino de literatura digital, sal-</p><p>tam interessantes argumentos como: (a) a relação comba-</p><p>tiva da literatura digital com o conjunto canônico, este</p><p>já a</p><p>exigir enorme esforço didático; (b) a condição ambígua des-</p><p>sa produção digital a navegar entre literatura, artes visuais</p><p>e performance; (c) a interdisciplinaridade necessária para</p><p>tratar de objeto complexo e híbrido; (d) ainda o maior espaço</p><p>para as chamadas disciplinas “normais”, com tradição de es-</p><p>pecialidade, ou seja, aquelas fundadas em estilos de época</p><p>ou no cânone de grandes autores; (e) a dificuldade do esta-</p><p>belecimento de uma experiência mais comum diante desse</p><p>objeto, por sua recursividade e multilinearidade; e (f) não há</p><p>fortuna crítica de maior porte, fragilizando a avaliação e o</p><p>ensino, a obrigar maior subjetividade e atividade por parte do</p><p>alunado, talvez um material complexo demais para vários de-</p><p>les. (CORRÊA, 2016, p. 242)</p><p>NA PRáTICA</p><p>70</p><p>Por suas palavras constatamos que os desafios são muitos para que as leituras</p><p>em espaços de escolarização se tornem habituais, criando repertório e estimu-</p><p>lando a formação de comunidade de leitores. Recomenda-se, também por isso,</p><p>uma leitura muito atenta aos textos verbais e multissemióticos, considerando-</p><p>-se seus problemas, seus impasses e suas contradições e relacionando-os à</p><p>crítica especializada, à tradição ensaística de leitura de poesia — que ainda pou-</p><p>co explorou os caminhos do universo computacional.</p><p>Nas perspectivas inventivas, críticas ou pedagógicas, os caminhos são vários.</p><p>Os nossos estudantes seguramente poderão responder de modo positivo aos</p><p>desafios dos novos tempos.</p><p>71</p><p>Resumo da Unidade 3</p><p>Foi possível observar, no estudo da Unidade 3, que a poesia vem explorando territórios</p><p>que eram impensáveis antes do Modernismo, como o encrespamento de sua relação</p><p>com a história e a sociedade; a relação complexa entre signos verbais e não verbais;</p><p>combinações multissemióticas caminhando para universos de sonoridade, texturas e co-</p><p>res; uma abertura incomensurável para o novo, inclusive para o campo de outras artes e</p><p>para os hibridismos, antes vistos como um território alheio à expansão da literatura e da</p><p>poesia. Nesse passo, analisamos as principais vertentes da poesia brasileira na contem-</p><p>poraneidade, com destaque de temas, procedimentos e indagações sobre a relação da</p><p>poesia com o universo da cultura digital, com a técnica e com outras artes. Especifica-</p><p>mente, foi possível ler a obra de escritores e criadores como Ferreira Gullar (1930-2016),</p><p>Augusto de Campos (1931), Haroldo de Campos (1929-2003) e Décio Pignatari (1927-</p><p>2012), entre outros, cujas trajetórias incorporam o espírito dos novos tempos.</p><p>A poesia de Ferreira Gullar; a poesia de Augusto de Campos; a poesia de Harol-</p><p>do de Campos; a poesia de Décio Pignatari; poesia digital.</p><p>CONCEITO</p><p>72</p><p>Referências</p><p>BOSI, V. Ferreira Gullar: o fogo procura sua forma. Estudos avançados, São Paulo, v. 31,</p><p>n. 89, p. 415-435, abr. 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_art-</p><p>text&pid=S0103-40142017000100415&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 5 abr. 2020.</p><p>CAPPARELLI, S.; GRUSZYNSKI, A. C. Poesia visual. São Paulo: Global, 2001.</p><p>CICERO, A. Prefácio. In: GULLAR, F. Poema sujo. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.</p><p>CORRÊA, A. A. Portabilidade, evanescência e rubricas: discussões em torno da literatura</p><p>digital na sala de aula. MATLIT: Materialidades da literatura, v. 4, n. 2, 2016. Disponível</p><p>em: https://digitalis.uc.pt/pt-pt/artigo/portabilidade_evanesc%C3%AAncias_e_rubricas_</p><p>discuss%C3%B5es_em_torno_da_literatura_digital_na_sala_de. Acesso em: 2 abr. 2020.</p><p>CORREA, T. Análise de “Pós-tudo”: metalinguagem na poesia concreta. Estudos semió-</p><p>ticos, v. 7, n. 2, p. 63-69, 2019. Disponível em: http://www.periodicos.usp.br/esse/article/</p><p>view/35251. Acesso em: 2 abr. 2020.</p><p>DALCASTAGNÈ, R. Um território contestado: literatura brasileira contemporânea e as no-</p><p>vas vozes sociais. Revista Iberical, Paris, n. 2, p. 13-17, 2012. Disponível em: http://iberi-</p><p>cal.paris-sorbonne.fr/wp-content/uploads/2012/03/002-02.pdf. Acesso em: 20 fev. 2019.</p><p>FRANCHETTI, P. Poesia e técnica: poesia concreta. Sibila, Revista de poesia e crítica</p><p>literária, a. 20, 28 ago. 2009. Disponível em: https://sibila.com.br/critica/poesia-e-tecni-</p><p>capoesia-concreta/3109. Acesso em: 2 abr. 2020.</p><p>ENTREVISTA COM ALFREDO BOSI SOBRE CRÍTICA LITERÁRIA. In: CORDEIRO, R. et al.</p><p>(orgs.). A crítica literária em perspectiva. Cotia: Ateliê Editorial, 2013, p. 307-314.</p><p>GOICOECHEA, M. Teaching Digital Literature in Spain. Reading Strategies for the Digital Text.</p><p>In: SIMANOWSKI, R.; SCHÄFER, J.; GENDOLLA, P. (orgs.). Reading Moving Letters – Digital</p><p>Literature in Research and Teaching: a Handbook. Bielefeld: transcript, 2010, p. 345-366.</p><p>GULLAR, F. Poema sujo. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.</p><p>73</p><p>KAVISKI, E. Literatura brasileira: uma perspectiva histórica. Curitiba: InterSaberes, 2014.</p><p>Biblioteca Virtual.</p><p>KHOURI, O. Noigandres e invenção. Revistas porta-vozes da Poesia Concreta. Facom,</p><p>n. 16, p. 20-33, 2. semestre 2006. Disponível em: http://www.faap.br/revista_faap/revis-</p><p>ta_facom/facom_16/omar.pdf. Acesso em: 2 mar. 2020.</p><p>KIRCHOF, E. R. Desafios para o ensino da literatura digital. Revista da Anpoll, n. 35, p.</p><p>127-142, Florianópolis, jul.-dez. 2013. Disponível em: https://revistadaanpoll.emnuvens.</p><p>com.br/revista/article/download/647/716. Acesso em: 2 abr. 2020.</p><p>LIMA, A. B. Poesia digital: textos poéticos nos meios digitais: origem, investigação e prá-</p><p>tica. In: ANAIS DO COLÓQUIO INTERNACIONAL VICENTE E DORA FERREIRA DA SILVA</p><p>E DO SEMINÁRIO DE POESIA (Poesia, Filosofia e Imaginário). v. 1, n. 1. Uberlândia: ILEEL,</p><p>2015. Disponível em: http://www.ileel.ufu.br/anaiscoloquiodoraevicente/wp-content/</p><p>uploads/2015/08/alexander-bezerra.pdf. Acesso em: 3 abr. 2020.</p><p>MACHADO, L. Crítica e poética plurais: Haroldo de Campos. In: CORDEIRO, R. et al. (orgs.).</p><p>A crítica literária em perspectiva. Cotia: Ateliê Editorial, 2013, p. 257-264.</p><p>MOREIRA, M. E.; DOVAL, C. C. Leituras de literatura brasileira contemporânea. Porto</p><p>Alegre: EdiPUCRS, 2015. Biblioteca Virtual.</p><p>PAIVA, M. G. O poema como morada: exílio em Ferreira Gullar. Belo Horizonte: Universi-</p><p>dade Católica de Minas Gerais, 2017. Disponível em: http://www1.pucminas.br/imagedb/</p><p>documento/DOC_DSC_NOME_ARQUI20170626131657.pdf. Acesso em: 28 mar. 2020.</p><p>PEDROSA, C. Poesia e crítica de poesia hoje: heterogeneidade, crise, expansão. Estudos</p><p>avançados, São Paulo, v. 29, n. 84, maio-ago. 2015. Disponível em: http://www.scielo.br/</p><p>scielo.php?pid=S0103-40142015000200321&script=sci_arttext. Acesso em: 21 fev. 2019.</p><p>PELEGRINI, S. de C. A. Manifestações culturais nos anos 60: um destaque à problemati-</p><p>zação da palavra na poesia concreta. Revista de História Regional, Universidade Esta-</p><p>dual de Ponta Grossa, v. 6, n. 1, p. 39-60, verão 2001. Disponível em: http://www.domi-</p><p>niopublico.gov.br/download/texto/pg000077.pdf. Acesso em: 1 abr. 2020.</p><p>74</p><p>ROCHA, R. C. “Monstro esperançoso”: a respeito de Oratório, de André Vallias. Estudos</p><p>de literatura brasileira contemporânea, n. 47, p. 157-184, jan.-jun. 2016. Disponível em:</p><p>http://www.scielo.br/pdf/elbc/n47/2316-4018-elbc-47-00157.pdf. Acesso em: 5 abr. 2020.</p><p>VALLIAS, A. Oratório. 2003. Disponível em: https://www.andrevallias.com/oratorio/load.</p><p>html. Acesso em: 3 abr. 2020.</p><p>WALTHER, E. Max Bense e a cibernética. In: KIRCHOF, E. R. (org.). Novos horizontes para</p><p>a teoria da literatura e das mídias: concretismo, cibercultura e intermidialidade. Canoas:</p><p>ULBRA, 2012, p. 37-40.</p><p>Literatura hoje, entre</p><p>experimentação e missão</p><p>UNIDADE 4</p><p>76</p><p>Evidentemente, há muitas portas de entrada para pensarmos a situação atual da litera-</p><p>tura em nosso país. Sabemos que, apesar de inúmeros revezes na produção nos dias de</p><p>hoje — devido a cortes nas áreas educacional e de produção cultural, impactando o fluxo</p><p>de bens culturais em nossa sociedade —, resistem nomes importantes, que cultivaram</p><p>um diálogo muito próximo com seu público, os quais contam com uma cadeia de pre-</p><p>paro e distribuição de produtos literários e artísticos e têm encontrado legitimação signi-</p><p>ficativa por meio de leitores</p><p>entusiastas. Estes acompanham suas produções literárias,</p><p>observam a atuação de jornalistas culturais e da mídia em geral e, eventualmente, sabem</p><p>quais são os nomes com boa recepção na academia.</p><p>Nesta unidade que encerra nossas reflexões sobre literatura contemporânea, daremos</p><p>destaque a escritores que exemplificam uma das tensões mais marcantes em nosso</p><p>campo literário: a dissonância entre missão (ou engajamento) e experimentação. As</p><p>vozes dissonantes, por vezes, encontram-se às margens do campo literário, de modo</p><p>que sua legitimidade para produzir literatura é permanentemente posta em questão,</p><p>tensionando, com sua presença, nosso entendimento do que é (ou deve ser) o literário.</p><p>Nessa linha, destacamos o nome de Conceição Evaristo e a produção híbrida do grupo</p><p>de rap brasileiro Racionais Mc’s, ambos com forte sentido de relevância social. No entan-</p><p>to, essas mesmas vozes dissonantes podem conviver com outras que dialogam com a</p><p>experimentação, a qual é bastante presente desde, pelo menos, o Modernismo brasileiro,</p><p>como Bernardo Carvalho.</p><p>INTRODUçãO</p><p>77</p><p>Assim, entre experimentação e missão, há um movimento pendular que tem — como bem</p><p>afirma Nicolau Sevcenko em seu clássico Literatura como missão (2003) — estimulado</p><p>nossas percepções e vivências literárias há mais de cem anos. Nesse contexto, vamos</p><p>conhecer as linhas gerais de importantes obras contemporâneas, oferecendo elementos</p><p>para que nosso estudante de Letras se sinta estimulado a acompanhar os debates que</p><p>ocorrem em nosso meio social.</p><p>Nesta unidade você será capaz de:</p><p>• Analisar, com base na tensão entre experimentalismo e crítica social, a he-</p><p>terogeneidade da ficção e da poesia brasileiras produzidas na atualidade,</p><p>destacando autores e obras presentes tanto na academia como em espaços</p><p>públicos amplos.</p><p>OBjETIVO</p><p>78</p><p>Conceição Evaristo: “escrevivências”</p><p>literárias</p><p>Para iniciar esta unidade dedicada à autora Conceição Evaristo, nossa representante do</p><p>Bildungsroman afro-brasileiro [romance de formação], nas palavras de Assis Duarte (2006),</p><p>passando pela literatura cerebral e crítica de Bernardo Carvalho e chegando à arte de resis-</p><p>tência do grupo Racionais Mc’s, discutiremos a definição do que é literatura, sabendo que</p><p>essa resposta pode ser aventada no terreno da especulação. A diversidade dos aspectos</p><p>aqui retomados pretende demonstrar o quanto a heterogeneidade é a tônica das expres-</p><p>sões artístico-literárias no Brasil do hoje. Os modos de leitura alteram-se, e a relevância</p><p>de certas obras, em detrimento de outras por vezes mais óbvias, apenas comprova que é</p><p>difícil — ou mesmo impossível — enquadrar as balizas da literatura em terrenos marcados</p><p>pela imobilidade, por um sentido “estético estático”, pelo a-historicismo.</p><p>Um dos mais importantes teóricos da literatura da contemporaneidade, o francês</p><p>Antoine Compagnon aponta para uma dificuldade de compreensão categórica e para</p><p>a demarcação de uma essência do que é o literário. Quando nos deparamos com</p><p>autores como Conceição Evaristo, Bernardo Carvalho e o grupo Racionais Mc’s, bastante</p><p>diferentes entre si, fica muito evidente que sua expressão literária, por princípio e definição,</p><p>é explorar as fronteiras do cânone de diferentes maneiras, recriando formas de cultivar</p><p>um público e de participar de um difícil debate com a coletividade e a tradição estética.</p><p>Para refletir</p><p>O que é literatura? Literariedade e preconceito</p><p>Na seção Literariedade ou preconceito, do capítulo A literatura, Antoine</p><p>Compagnon afirma em seu O demônio da teoria:</p><p>Ao procurar um critério de literariedade [conceito dos formalistas russos</p><p>segundo os quais a literatura pode ser definida por procedimentos que</p><p>causem estranhamento na recepção], caímos numa aporia a que a</p><p>filosofia da linguagem nos habituou. A definição de um termo como</p><p>literatura não oferecerá mais que o conjunto das circunstâncias em que</p><p>79</p><p>os usuários de uma língua aceitam empregar esse termo. É possível</p><p>ultrapassar essa formulação de aparência circular? Um pouco, porque</p><p>os textos literários são justamente aqueles que uma sociedade utiliza,</p><p>sem remetê-los necessariamente a seu contexto de origem. Presume-</p><p>se que sua significação (sua aplicação, sua pertinência) não se reduz</p><p>ao contexto de sua enunciação inicial. É uma sociedade que, pelo uso</p><p>que faz dos textos, decide se certos textos são literários fora de seus</p><p>contextos originais. [...] Retenhamos disso tudo o seguinte: a literatura</p><p>é inevitável petição de princípio. Literatura é literatura, aquilo que as</p><p>autoridades (os professores, os editores) incluem na literatura. Seus</p><p>limites às vezes se alternam, lentamente, moderadamente [...], mas é</p><p>impossível passar de sua extensão à sua compreensão, do cânone</p><p>à essência. Não digamos, entretanto, que não progredimos, porque o</p><p>prazer da caça, como lembrava Montaigne, não é a captura, e o modelo</p><p>de leitor, como vimos, é o caçador” (COMPAGNON, 1999, p. 44-46).</p><p>A formação clássica literária de Antoine Compagnon em território francês o coloca na de-</p><p>licada posição de refletir sobre a pluralidade de vozes, expressões e gêneros híbridos na</p><p>contemporaneidade. Sabemos que não é papel da universidade insistir em uma posição</p><p>elitista e excludente, mas também defendemos que há especificidades reflexivas, criati-</p><p>vas e humanistas das quais não podemos nos furtar. A literatura é movência, é potência.</p><p>Conceição Evaristo é um grande exemplo de uma autora que conquistou um espaço em</p><p>diálogo ativo, autêntico e franco com as formas estéticas consagradas, sua própria exis-</p><p>tência, a experiência de seus antepassados, suas memórias pessoais e coletivas e seu</p><p>contexto histórico-político, deixando abertos os efeitos da sociedade excludente, violenta</p><p>e patriarcal que tolhe os destinos, a criatividade e a existência de milhares de brasileiros</p><p>que estão — por diversos motivos — à margem.</p><p>Como afirma o autor Silviano Santiago em reportagem para a revista Exame em 2019,</p><p>Conceição Evaristo “traz de volta a ideia de que o livro tem a função e a literatura, missão</p><p>a cumprir” (O QUE ESPERAR..., 2019). A obra de Conceição Evaristo encarna diversas ten-</p><p>sões que perpassam produções contemporâneas, como a difícil relação entre a tradição</p><p>literária (que se pauta pelas qualidades intrínsecas ao objeto, sua chamada “literarieda-</p><p>de”) e a escolha feita, no calor da hora, por produtores, pelas instâncias de circulação</p><p>e de legitimação (como editoras, revistas literárias e universidades) e pelo público leitor.</p><p>A escrita comunicativa e sensível de Conceição Evaristo demonstra que há uma grande</p><p>permeabilidade às experiências literariamente trabalhadas em seus contos, romances e</p><p>poemas. Certamente seu trânsito para a academia não foi livre de contrariedade e reveses:</p><p>80</p><p>E então começa um outro problema, o nosso problema como pesqui-</p><p>sadores de literatura. Ao estudar um escritor (ou uma escritora) nessa</p><p>situação — uma Conceição Evaristo no início de carreira, por exemplo,</p><p>mulher, negra, pobre, moradora da periferia de Belo Horizonte, ex-em-</p><p>pregada doméstica — precisamos transferir para sua obra nossa própria</p><p>legitimidade como estudiosos. (DALCASTAGNÈ, 2012, p. 12)</p><p>As dificuldades, como pesquisadores e es-</p><p>tudiosos da literatura, para equacionarmos</p><p>a questão da legitimidade (o que inclui,</p><p>obviamente, nossa própria legitimidade</p><p>como potenciais estudiosos e pesquisado-</p><p>res de sua obra) aos poucos são vencidas,</p><p>o que constatamos pelos inúmeros tra-</p><p>balhos dedicados à autora, como artigos</p><p>científicos, teses e dissertações. Concei-</p><p>ção vem entrando no universo acadêmico</p><p>apresentando uma rica expressão literária,</p><p>que questiona e nos questiona diante de</p><p>uma sociedade marcada pela hierarquia,</p><p>pela agressividade, pela violência patriar-</p><p>cal não resolvida desde a formação escra-</p><p>vista, deixando marcas estruturais que são</p><p>vivenciadas cotidianamente por mulheres,</p><p>homens e crianças, principalmente nas</p><p>grandes periferias.</p><p>Nascida em 29 de novembro de 1946, mineira, Conceição Evaristo coloca no centro do</p><p>debate a condição</p><p>da mulher negra em sua plenitude, com sua interioridade rica de ma-</p><p>tizes e como sujeito inserido em um mundo contraditório e hostil. Seus personagens</p><p>são, em geral, afrodescendentes que recebem um tratamento complexo, não caricatural.</p><p>Sua perspicácia na construção de personagens ricos vem da convivência com sua mãe,</p><p>Joana, mulher que criou nove filhos com dificuldades e que — tal como Carolina Maria</p><p>de Jesus — colecionava cadernos achados e os preenchia com escritos diversos, de re-</p><p>flexões a anotações diárias (OCUPAÇÃO CONCEIÇÃO EVARISTO, 2017). Imersa em rica</p><p>oralidade, Conceição estudou para ser professora primária e seguiu para o Rio de Janeiro</p><p>em 1973, onde exerceu sua profissão e fez mestrado pela Pontifícia Universidade Católi-</p><p>ca do Rio de Janeiro e doutorado pela Universidade Federal Fluminense.</p><p>Maria da Conceição Evaristo de Brito (Belo Horizon-</p><p>te, 29 de novembro de 1946): escritora brasileira.</p><p>Foto: Richner Allan/Divulgação.</p><p>81</p><p>Sua atuação literária tomou forma por sua participação, na década de 1990, na histórica</p><p>série Cadernos negros, produzida pelo grupo Quilombhoje, ligado aos movimentos so-</p><p>ciais para a promoção dos direitos dos afrodescendentes e para a divulgação de suas</p><p>produções literárias, culturais e de seus modos de vida. Desde 1978, a série é um meio</p><p>consolidado para a expressão de vivências, das experiências coletivas e da visão de mun-</p><p>do de pessoas e comunidades marcadas pela histórica exclusão</p><p>O conjunto de sua obra já é destacável, incluindo títulos como Ponciá Vicêncio (2003,</p><p>romance), Becos da memória (2006, romance), Poemas da recordação e outros movi-</p><p>mentos (2008), Insubmissas lágrimas de mulheres (2011, contos), Olhos d’água (2014,</p><p>contos), Histórias de leves enganos e parecenças (2016, contos) e Canção para ninar</p><p>menino grande (2018, romance). As memórias — ou seus restos — são a principal ma-</p><p>téria-prima para Conceição Evaristo. Para a autora, é no encalço de suas sombras, ou</p><p>seus vestígios, que sua escrita se erige, ou suas “escrevivências” — palavra formada por</p><p>justaposição que remete a expressões como “escrita”, “vivência” e “sobrevivência” — ar-</p><p>quitetam-se. Para a autora:</p><p>[...] a memória é também vítima do esquecimento, invento, invento. In-</p><p>ventei, confundi Ponciá Vicêncio nos becos de minha memória. E dos</p><p>becos de minha memória imaginei, criei. Aproveitei a imagem de uma</p><p>velha Rita que eu havia conhecido um dia. E, ainda desses mesmos be-</p><p>cos, posso ter tirado de lá Ana e Davenga. Quem sabe Davenga não era</p><p>primo de Negro Alírio? E, por falar em becos da memória, voltei hoje de</p><p>manhã à Rua Albita.</p><p>Outra. Dali só reconheci a terra. Sim a terra, o pó, o barranco sobre o qual</p><p>está edificado o “Mercado Cruzeiro”, no final da rua. Observei que a edifica-</p><p>ção do prédio conservou na base parte do barranco sem cimentá-lo. Pude</p><p>contemplar o solo, base da base da construção. Em um ponto qualquer da-</p><p>quele espaço, literalmente está enterrado o meu umbigo. Sem que ninguém</p><p>percebesse alisei o chão e catei alguns fragmentos. (EVARISTO, 2009)</p><p>Para conhecer mais sobre os Cadernos negros, pesquise sobre a série no site</p><p>do coletivo cultural Quilombhoje.</p><p>Ampliando o foco</p><p>82</p><p>A caracterização de seus personagens sempre reforça elementos de dor, abandono e</p><p>solidão. O romance de estreia, Ponciá Vicêncio, pode ser caracterizado como a escrita</p><p>das perdas pessoais e coletivas que atravessam o povo afro-brasileiro. Para Assis Duarte</p><p>(2006), é possível arriscar que o romance encarna o procedimento do brutalismo poé-</p><p>tico. Um dos temas mais fortes é a busca das identidades pessoal e coletiva, tão bem</p><p>marcada na passagem seguinte:</p><p>Ponciá Vicêncio sabia que o sobrenome dela tinha vindo desde antes do</p><p>avô de seu avô, o homem que ela havia copiado de sua memória para o</p><p>barro e que a mãe não gostava de encarar. O pai, a mãe, todos continua-</p><p>vam Vicêncio. Na assinatura dela, a reminiscência do poderio do senhor,</p><p>de um tal coronel Vicêncio. O tempo passou deixando a marca daqueles</p><p>que se fizeram donos das terras e dos homens. E Ponciá? De onde teria</p><p>surgido Ponciá? Por quê? Em que memória do tempo estaria escrito o</p><p>significado do nome dela? Ponciá Vicêncio era para ela um nome que</p><p>não tinha dono. (EVARISTO, 2003, p. 27)</p><p>Ponciá Vicêncio, neta de escravos, é filha de um homem humilhado constantemente pelo</p><p>menino branco na condição de pajem, morto precocemente. Sua família, então, passa a</p><p>se resumir a Luandi, o irmão, e a Maria, sua mãe. Decide, então, como tantos sujeitos sem</p><p>perspectiva, emigrar para a cidade grande e sustentar sua família de longe. Constitui novo</p><p>núcleo familiar com um homem violento. Após diversos abortos, uma tristeza profunda a</p><p>acomete. Só se reergue quando reencontra sua mãe e seu irmão, núcleo que lhe oferece</p><p>a possibilidade de humanização. Nesse contexto, são perspicazes as palavras de Assis</p><p>Duarte (2006) quando afirma que “[...] a narrativa configura-se como um Bildungsroman</p><p>feminino e negro ao dramatizar a busca quase intemporal da protagonista, a fim de</p><p>recuperar e reconstituir família, memória, identidade” (DUARTE, 2006, p. 306).</p><p>Os gestos de resistência, com sua linguagem que reforça um espaço marcado pela etnici-</p><p>dade e pela identidade negra, avolumam-se a ponto de marcar uma pausa à sua errância,</p><p>com fio de esperança. Não é raro recordar-se de uma filiação da autora aos nomes de Ma-</p><p>ria Firmina dos Reis e de Carolina Maria de Jesus. Oferece-se um testemunho que perdu-</p><p>ra, legado às novas gerações, para formarem-se comunidades de leitores cada vez mais</p><p>conscientes das violências e das agruras que habitam o discurso, a literatura e a vida.</p><p>83</p><p>fronteiras e contaminações em Bernardo</p><p>Carvalho</p><p>Bernardo Carvalho, carioca nascido em</p><p>1960, é um autor contemporâneo de gran-</p><p>de visibilidade na cena pública brasileira.</p><p>Jornalista de formação e de profissão</p><p>(graduado pela Pontifícia Universidade</p><p>Católica do Rio de Janeiro e mestre pela</p><p>Escola de Comunicações e Artes da Uni-</p><p>versidade de São Paulo, com dissertação</p><p>sobre Wim Wenders), sedimentou uma</p><p>carreira literária exitosa, reconhecida pelo</p><p>público e pela crítica literária, tanto acadê-</p><p>mica como de ampla circulação.</p><p>Porém, esses atributos não o tornam um</p><p>escritor de fácil compreensão ou assimi-</p><p>lação: contra quaisquer facilidade e previ-</p><p>sibilidade, a cada livro se reinventa e cria</p><p>novos mundos, cuja organicidade só pode</p><p>ser confirmada a partir das balizas da ex-</p><p>perimentação sempre renovada. Entre</p><p>seus livros, estão a coletânea de estreia</p><p>Aberração (1993) e os romances Onze</p><p>(1995), Os bêbados e os sonâmbulos (1996), Teatro (1998), As iniciais (1999), Medo de</p><p>Sade (2000), Nove noites (2002, ganhador do Prêmio Portugal Telecom), Mongólia (2003),</p><p>O filho da mãe (2009), Reprodução (2013) e Simpatia pelo demônio (2016). Seus cenários</p><p>são múltiplos, estranhos e, tomados em seu conjunto, fortemente globalizados. Só para</p><p>citar alguns desses espaços ao redor do globo, temos Mongólia (que lhe deu os prêmios</p><p>da Associação Paulista dos Críticos de Arte – APCA e Jabuti); as localidades de Grózni, São</p><p>Petersburgo, Moscou e Vladivostok, presentes no livro trágico O filho da mãe; e o aeroporto</p><p>entre Brasil e China, de Reprodução, também premiado com o Jabuti.</p><p>Se o lugar do estrangeiro não é alhures, ele pode se encontrar a um passo de nós. Assim,</p><p>edificam-se romances que igualmente conduzem um discurso muito sensível às questões</p><p>da representação do outro e da construção identitária. Aqui falaremos brevemente sobre um</p><p>Bernardo Teixeira de Carvalho (Rio de Janeiro,</p><p>1960): escritor, tradutor e jornalista brasileiro.</p><p>Foto: Domínio público.</p><p>84</p><p>de seus romances mais fundados na experiência histórica de uma grande cidade brasileira: O</p><p>sol se põe em São Paulo (2007). Ele apresenta um narrador-protagonista fundamentalmente</p><p>deslocado: nem autenticamente do Japão, nem, em verdade, do Brasil, move-se por São Pau-</p><p>lo, em bairros como a Liberdade, pelo interior da cidade e por Tóquio, carregando segredos</p><p>da participação de japoneses na Segunda</p><p>Guerra Mundial. O enredo é sumarizado por Luiz</p><p>Guilherme Sakai (2011) do seguinte modo, tendo como base principal um restaurante do tra-</p><p>dicional bairro japonês de São Paulo: “Trata-se de Setsuko, que, no decorrer da narrativa, apa-</p><p>recerá com outro nome, Michiyo, e que deseja ter registrada a história dos relacionamentos</p><p>amorosos com Jokichi, seu marido e rico industrial, e com Masukichi, um ator de teatro cô-</p><p>mico japonês”. Há, portanto, um triângulo amoroso com inúmeros desdobramentos, encar-</p><p>nando as identidades múltiplas da pós-modernidade, para dialogar com Stuart Hall (1998).</p><p>Herdeiro daqueles que se exilaram de suas terras, os vestígios do exílio o definem como um</p><p>descendente errante, para falar com Stefania Chiarelli (2007), como a expressão de um ho-</p><p>mem cujo próprio discurso se trava, não se compõe coerentemente e, por fim, é indecifrável</p><p>no território que não lhe pertence e que o repele por meio de atitudes xenófobas, sentidas na</p><p>pele. Imagens infernais, medos e pesadelos sobrevêm de modo impactante ao buscar os fios</p><p>que unem seus movimentos em um mundo globalizado em confronto com sua formação</p><p>infantil claustrofóbica:</p><p>É difícil explicar, mas para mim aquilo era a própria imagem do inferno e</p><p>dos meus pesadelos de infância. A primeira coisa que me veio à cabeça</p><p>foram as horas de estrada debaixo de sol a pino que minha irmã e eu</p><p>éramos obrigados a suportar pelo menos uma vez por ano, no Ano-Novo,</p><p>até Bastos, para visitar os tios. Desde pequeno, guardei a imagem de um</p><p>Japão de brincadeira, como um parque infantil, ao mesmo tempo pobre</p><p>e irreal, um mundo de canteiros caiados construído por anões no interior</p><p>de São Paulo. E por maior que fosse o bom gosto e a discrição daquele</p><p>jardim nos fundos de um sobrado falso no Paraíso, só conseguia me</p><p>lembrar da miniatura do monte Fuji, de cimento, na entrada do museu</p><p>da imigração japonesa em Bastos. Era uma sensação de horror, de não</p><p>caber neste mundo e de já não ter os meios, nem materiais nem imagi-</p><p>nários, de escapar a ele. (CARVALHO, 2007, p. 27-8)</p><p>Em sua viagem ao Japão, o protagonista — tão familiarizado com uma São Paulo igual-</p><p>mente problemática — vivencia um turbilhão de sentimentos. Seus passos e seu modo de</p><p>estar no mundo denunciam sua condição estrangeira. Aquele poderia ser um momento</p><p>de intenso lirismo, mas suas origens lhe escampam, sua identidade — talvez nunca edi-</p><p>85</p><p>ficada — fissura-se. A convulsão vivida pela narração desdobrada entre narrador anôni-</p><p>mo, Setsuko e Michiyo, não se recompõe. As identidades fissuradas tornam-se, então, a</p><p>sustentação de uma existência precária, que é incorporada pelo texto e pelo contexto da</p><p>narrativa, o que leva Sakai (2011) a apontar o sentido do “ritual antropofágico” que Silviano</p><p>Santiago identifica nas narrativas contemporâneas latino-americanas (SANTIAGO, 2000).</p><p>O ímpeto inventivo de Bernardo Carvalho, mordaz e muitas vezes carregado de tintas pes-</p><p>simistas, não o separa do mundo que o cerca. Sua prosa concisa apresenta personagens</p><p>estranhos, bizarros, fracassados, cujas trajetórias são plenas de sentido no interior de</p><p>fronteiras estéticas muito claras. Fora dali, a estranheza oferece a tônica.</p><p>Segundo Daniel Augusto, do alicerce discursivo cuidadosamente concebido à sua disso-</p><p>lução, Bernardo Carvalho cria uma obra inovadora, pensada a partir de uma organização</p><p>formal muito clara:</p><p>O que é uma visada de alcance notável: parcela considerável dos bons</p><p>romances hoje, e da arte em geral, é feita de obras que dão sentido ao</p><p>mundo ao mesmo tempo que o dissolvem. É dessa experiência de tota-</p><p>lidade efêmera que os livros de Bernardo Carvalho tiram sua força e dão</p><p>seu arranjo particular: o que é sempre um corretivo eficaz em tempos de</p><p>literatura e realidade armadas pela paranoia. (AUGUSTO, 2004)</p><p>A falta de sentido, os delírios pessoal e coletivo, a solidão e a crise são aspectos que re-</p><p>tornam na escrita de Bernardo de Carvalho, sempre posta nas fronteiras tênues entre o</p><p>pessoal e o coletivo, a subjetividade e a objetividade, a ficção e a representação, a relação</p><p>entre a linguagem e a realidade representada pela narrativa. Nessa oscilação, poucos são</p><p>os gestos de amor e amizade; sobram os gestos de violência e barbárie, que — a despeito</p><p>da disforia que reverberam — recordam a importância de resistir em tempos de exceção,</p><p>pessimismo e quebra do sentido de existir, dos laços afetivos e das tênues redes que li-</p><p>gam uma coletividade em âmbitos local e global.</p><p>86</p><p>Vozes periféricas, vozes impuras: mal-estar</p><p>da sociedade no Racionais Mc’s</p><p>O fechamento de nossa disciplina enfocará as relações entre poesia e música no Racionais</p><p>Mc’s, grupo formado em 1988 por Paulo Eduardo Salvador (Ice Blue) e Pedro Paulo Soares</p><p>Pereira (Mano Brown), da Zona Sul de São Paulo, com Edivaldo Pereira Alves (Edi Rock) e</p><p>Kleber Geraldo Luis (DJ KL Jay), da Zona Norte. O grupo, extensamente premiado, ganhou</p><p>maior visibilidade quando foi anunciado, em 2018, que seu álbum Sobrevivendo no Inferno</p><p>(1997) seria leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp. A essa altura, a trajetória do</p><p>grupo — cujo primeiro álbum foi Raio X Brasil, de 1993 — já estava consolidada.</p><p>A discussão do valor literário, então, vem à tona quando comentamos sobre a produção</p><p>musical do grupo:</p><p>Racionais Mc’s: grupo brasileiro de rap. Foto: Divulgação.</p><p>87</p><p>Muitas perguntas podem ser feitas para que possamos pensar a centralidade do Racio-</p><p>nais Mc’s na passagem para o novo milênio. Os critérios de valoração são colocados,</p><p>nesse sentido, em perspectiva para que se possam agregar conceitos como expressão</p><p>subjetiva, história social, racismo estrutural, realidade periférica, desigualdade social, so-</p><p>ciabilidade de grupos marginalizados etc. Esses temas têm sido paulatinamente aborda-</p><p>dos em sala de aula para além dos contextos midiáticos em que já circulavam.</p><p>Nesse sentido, podemos aproveitar esse conjunto de questões para:</p><p>[...] refletir sobre nossos critérios de valoração, entender de onde eles</p><p>vêm, por que se mantêm de pé, a que e a quem servem... Afinal, o signifi-</p><p>cado do texto literário — bem como da própria crítica que a ele fazemos</p><p>— se estabelece num fluxo em que tradições são seguidas, quebradas</p><p>ou reconquistadas e as formas de interpretação e apropriação do que</p><p>se fala permanecem em aberto. Ignorar essa abertura é reforçar o papel</p><p>da literatura como mecanismo de distinção e da hierarquização social,</p><p>deixando de lado suas potencialidades como discurso desestabilizador</p><p>e contraditório. (DALCASTAGNÈ, 2012, p. 16-17)</p><p>Discursos contraditórios, complexos, desestabilizadores e certamente contra-hegemôni-</p><p>cos marcam as temáticas que circulam nas letras de rap. Dialogam, portanto, com uma</p><p>longa tradição da crítica literária que procura ver, nas relações entre texto e contexto, forma</p><p>e sociedade, as perspectivas de resistência em que sujeitos e meios sociais se engajam</p><p>para buscar novos valores estéticos, éticos e uma maior justiça social (ALVARENGA, 2019).</p><p>São exemplares, nessa perspectiva já consolidada pelo cânone crítico, os textos O direito</p><p>à literatura, de Antonio Candido (1995), e Literatura e resistência, de Alfredo Bosi (1996).</p><p>1 Quais são as conexões entre música e literatura?</p><p>2 Como estudá-las?</p><p>3 Quais caminhos percorrer para tirar das experiências híbridas de leitura o máxi-</p><p>mo grau de complexidade significativa?</p><p>4</p><p>Quais são as instâncias de legitimação que reforçam não só o valor acadêmico</p><p>do Racionais Mc’s, mas também sua potencialidade estética e suas relevâncias</p><p>política e ética para os debates na contemporaneidade?</p><p>88</p><p>Racionais MC’s na academia: entrada em seu tempo ou tardia?</p><p>No ano de 2019, abordando, entre outros assuntos, a entrada do álbum Sobre-</p><p>vivendo no Inferno no vestibular da Unicamp, houve um debate no Instituto de</p><p>Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo – IEB-USP sobre a obra do</p><p>Racionais Mc’s. A reportagem de Bianca Muniz fez um apanhado das principais</p><p>discussões ocorridas no evento:</p><p>Quando se trata do rap dentro da universidade, os</p><p>pesquisadores pos-</p><p>suem visões diferentes. ‘Para algumas formações culturais, o rap é</p><p>uma unidade distante da universidade’, relata Guto. Ele, que é um pes-</p><p>quisador do Sul e branco, comenta que Racionais foi reconhecido pela</p><p>academia muito recentemente. ‘É interessante perceber que ainda se</p><p>tem uma resistência muito grande em tratar Racionais como poesia,</p><p>como gênero literário. Mas devemos pensar que a resistência no Sul</p><p>é muito maior. Eles eram tratados como objeto de estudo em outros</p><p>lugares do Brasil, mas, no Sul, a resistência era forte’. Gabriela, que faz</p><p>parte do movimento negro, ressalta que a entrada do disco Sobrevi-</p><p>vendo no Inferno na lista de leituras obrigatórias da Unicamp não foi</p><p>surpresa para a comunidade acadêmica que estuda artistas negros.</p><p>‘É óbvia essa escolha. Óbvia, extremamente necessária, mas tardia’.</p><p>Apesar das falas dos outros pesquisadores, Guilherme discorda, dizendo</p><p>que a academia não descobriu o rap recentemente e que há produções</p><p>de pesquisa sobre o gênero desde os anos 90. ‘Foi a academia branca</p><p>[que] descobriu agora que pode e tem que entender o rap’. Mas, para ele,</p><p>o aumento de visibilidade para esses trabalhos ocorreu recentemente,</p><p>como resultado do aumento do acesso à universidade pelos negros, por</p><p>meio de ações afirmativas. Nesse sentido, a partir das reivindicações</p><p>de estudantes negros, a academia (predominantemente formada por</p><p>pesquisadores brancos) passou a discutir essas obras” (MUNIZ, 2019).</p><p>Ampliando o foco</p><p>Antonio Candido vê um sentido humanizador que tangencia as expressões literárias, ar-</p><p>tísticas e culturais dos homens vivendo em diferentes meios sociais. A capacidade de fa-</p><p>bulação indica, nesse sentido, um modo único, singular de organizar o caos da existência</p><p>subjetiva e da experiência histórico-social. Segundo ele, a literatura abrange “[...] todas as</p><p>criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade,</p><p>89</p><p>em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, até as formas mais</p><p>complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações” (CANDIDO, 1995, p.</p><p>174). O autor não aventa qualquer possibilidade de haver povos sem expressão literária:</p><p>“[...] a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens</p><p>em todos os tempos” (CANDIDO, 1995, p. 174).</p><p>Podem-se questionar os pressupostos de Antonio Candido por serem hierarquizadores</p><p>desde a concepção inicial (afinal de contas, ele afirma uma complexidade variável); po-</p><p>rém, não deixam de ser uma porta de entrada para a sensibilização a um debate que,</p><p>infelizmente, ainda tende ao elitismo, deixando de fora grandes obras que não seguem</p><p>as formas literárias reconhecidas pelo cânone. Para Candido, todos têm o direito à litera-</p><p>tura como potenciais leitores e produtores — o que é evidentemente um chamado para</p><p>a vivência democrática do saber estético-literário e dos elementos culturais produzidos</p><p>pelos seres humanos em diferentes épocas e espaços. Vista desse modo dilatado e de-</p><p>mocrático, a produção cultural da periferia deve, sim, adentrar o âmbito dos estudos lite-</p><p>rários e culturais, inclusive porque é capaz de denunciar, viver dialeticamente os proble-</p><p>mas, responder de modo criativo ao mal-estar que cerca nossa civilização. Leia, a seguir,</p><p>um trecho de letra Fim de semana no parque, do Racionais Mc’s:</p><p>[...] Eles não têm videogames</p><p>Às vezes nem televisão</p><p>Mas todos eles contam com São Cosme e São Damião</p><p>A única proteção</p><p>No último Natal</p><p>Papel Noel escondeu um brinquedo prateado</p><p>Brilhava no meio do mato</p><p>Um menininho de dez anos achou um presente</p><p>Era ferro com doze balas no pente</p><p>E o fim de ano foi melhor pra muita gente</p><p>[...]</p><p>Olha só aquele clube que da hora.</p><p>Olha aquela quadra, olha aquele campo, olha</p><p>Olha quanta gente, tem sorveteria, cinema, piscina quente</p><p>[...]</p><p>Tem corrida de kart, dá pra ver. É igualzinho ao que eu vi ontem na TV</p><p>Olha só aquele clube que da hora,</p><p>Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora</p><p>Nem se lembra do dinheiro que tem que levar pro seu pai [...]</p><p>(RACIONAIS MC’S, 1993)</p><p>90</p><p>É nítido como o rap tem forte vínculo com a oralidade. Elementos da cultura popular se</p><p>entrelaçam em um discurso multifacetado, que vê diversos ângulos da urbe, em sua qua-</p><p>se totalidade, hostil. A expressão “olha só” tem um forte elemento dêitico, mostrando —</p><p>como “in loco”, performaticamente — aquilo que ali está, a riqueza e a ostentação, perto e</p><p>longe, ao alcance da vista e distante da experiência pessoal marcada pela carência e pela</p><p>escassez. O contexto histórico-social é denunciado pela inversão de valores (a violência</p><p>suga mesmo as datas festivas, o imaginário infantil) e pela ausência de potencial cons-</p><p>trução de novos valores civilizatórios pelo ambiente escolar — aquela criança, de tanto</p><p>olhar “tudo do lado de fora / nem se lembra do dinheiro que tem que levar pro seu pai”. É</p><p>uma criança que perambula pelas ruas, que começa a frequentar um “círculo vicioso” que</p><p>pode a transformar em “rejeitada”, “humilhada”, “marginal”, “discriminada”. Como resistir</p><p>— para usar as palavras de Bosi (1996) — em um mundo tão fechado, tão marcado pela</p><p>aporia, sem lógica, sem saída, senão pela luta política e pela poética? Política e poética</p><p>entrelaçam-se, de modo que qualquer perspectiva crítica necessariamente imanente ao</p><p>texto demonstrará seu poder de resistência, tanto ética como estética (para detalhes,</p><p>ALVARENGA, 2019). Os álbuns subsequentes do grupo continuaram a explorar temáticas</p><p>correlatas, ora denunciando a exclusão, ora com uma perspectiva ambígua diante do</p><p>desejo consumista, ou mesmo denunciando a violência policial. Várias são as nuanças</p><p>de álbuns como Nada como um dia após o outro dia (2002) e Cores & valores (2014) e</p><p>outras produções em videoclipes e singles.</p><p>Para encerrar, retomamos as palavras da escritora e psicanalista Maria Rita Kehl, que</p><p>aponta na voz “ameaçadora do rap” um discurso que passa pelo “lugar comunitário dos</p><p>manos”, aconselhando, orientando, oferecendo exemplos para um amplo conjunto de</p><p>sujeitos sem pai, em busca de sociabilidades alternativas às tradicionais, concretizando</p><p>aquilo que a autora chamará de “fratria órfã” da periferia. Mas a necessidade de reconhe-</p><p>cimento e de referência formativa não recai apenas no pai; com a ausência deste, passa</p><p>a recair entre os irmãos, normalmente chamados por apelidos, como uma espécie de</p><p>grande família. A autora, encaminhando-se para a finalização de seu ensaio Radicais,</p><p>raciais, racionais: a grande fratria do rap, afirma:</p><p>Que a autoestima e a dignidade dos rapazes negros da periferia não de-</p><p>pendam da aceitação por parte da elite branca, não significa que não pro-</p><p>duzam outros laços, outras formas de comunicação, inclusive com grupos</p><p>mais ou menos marginais a esta própria elite. Neste caso, a identificação</p><p>que começou pela cor da pele ampliou-se para abrigar outros sentidos:</p><p>exclusão, indignação, repúdio à violência e às injustiças, etc. Não somos</p><p>“todos” pretos pobres da periferia, mas somos muitos mais do que eles</p><p>supunham quando começaram a falar. (KEHL, 1999, p. 102-3)</p><p>91</p><p>Lançamos perguntas de difícil equacionamento, entretanto convidamos o leitor (nosso</p><p>estudante de graduação em Letras) a aproveitar o fechamento de nossa disciplina para</p><p>se abrir às novas formas de literatura, arte e cultura em circulação. É necessário reforçar</p><p>o potencial de resistência que a arte tradicionalmente nos coloca; resistindo, seguiremos</p><p>nossa trajetória de leitura, questionamento, reflexão, sensibilização e humanização. Que</p><p>a escola também seja um espaço de liberdade e de conquista da cidadania literária no</p><p>novo milênio!</p><p>Poderíamos fazer inúmeros recortes, estimular o pensamento em diferentes</p><p>caminhos. Nesta unidade de encerramento da disciplina, pareceu-nos relevante</p><p>destacar que há uma produção literária impactante, academicamente aceita e</p><p>de ressonância em um público considerável que pode ser levada às escolas</p><p>básicas para a promoção da educação literária.</p><p>O diálogo com os estudantes certamente</p><p>do texto literário e sua circulação em nosso país.</p><p>INTRODUçãO</p><p>Nesta unidade você será capaz de:</p><p>• Compreender a literatura brasileira de meados do século XX, sublinhando, espe-</p><p>cificamente, a maestria da forma de escrita irônica, densa e reflexiva de Nelson</p><p>Rodrigues (1912-1980), Dalton Trevisan (1925) e João Antônio (1937-1996).</p><p>OBjETIVO</p><p>12</p><p>Nelson Rodrigues: especificidades da tragédia</p><p>brasileira</p><p>No primeiro tópico da disciplina nosso objetivo é</p><p>apresentar aspectos da produção literária de Nel-</p><p>son Rodrigues, pernambucano que viveu pratica-</p><p>mente toda sua vida, desde os anos formativos, na</p><p>cidade do Rio de Janeiro. Neste espaço, teremos a</p><p>oportunidade de lançar luz sobre a obra de um au-</p><p>tor multifacetado, oferecendo destaque para suas</p><p>peças – ricas em inovação formal e em referências</p><p>ao processo social brasileiro, permeado por para-</p><p>doxos – e para suas crônicas.</p><p>Nelson Rodrigues é reconhecido, no Brasil e no exte-</p><p>rior, como um dos principais dramaturgos em língua</p><p>portuguesa. Entretanto, antes de lançar-se para o</p><p>teatro, já era conhecido nacionalmente como repór-</p><p>ter policial, jornalista e cronista. Como profissional</p><p>da imprensa, colaborou com jornais como A Manhã, O Globo e Diários Associados. Em</p><p>gêneros ligados ao cotidiano e à produção jornalística, Nelson Rodrigues estreitava seus</p><p>laços com o público carioca. Morador da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, declara-</p><p>va que suas experiências diversificadas, transitando por diferentes classes sociais, e suas</p><p>observações das composições familiares cariocas renderam-lhe um olhar apurado para</p><p>destrinchar os conflitos típicos da classe média e desnudar o ranço patriarcal do brasileiro.</p><p>Um aspecto aprendido dessa experiência multiforme atenta ao cotidiano — que marcaria</p><p>sua escrita literária — é a sensibilidade para o emprego de expressões da oralidade, da</p><p>fala das ruas cariocas, com gírias e outras variações linguísticas raramente presentes,</p><p>àquela época, em espaços como jornais, revistas ou livros. Pode-se dizer que Nelson Ro-</p><p>drigues aprofunda, nesse sentido, a aprendizagem com uma linguagem mais prosaica, já</p><p>iniciada com os primeiros modernistas.</p><p>O escritor dedicou-se a diversos gêneros propriamente literários, como teatro, romance,</p><p>contos e crônicas. Com relação aos gêneros ficcionais e à crônica — com suas carac-</p><p>terísticas híbridas —, deixaria uma obra marcada por linhas temáticas, como a dinâmica</p><p>dos relacionamentos amorosos (convencionais ou não), as memórias e o futebol. De</p><p>Nelson Rodrigues (1912-1980): escri-</p><p>tor, jornalista, romancista, teatrólogo,</p><p>contista e cronista brasileiro.</p><p>13</p><p>seus romances, ficaram particularmente conhecidas obras como Meu destino é pecar</p><p>(1944), Núpcias de fogo (1948) e Asfalto selvagem: Engraçadinha, seus pecados e</p><p>seus amores (1959). O leitor pode, ainda, contar com as seguintes edições de contos: A</p><p>vida como ela é: O homem fiel e outros contos (1992) e A dama da lotação e outros</p><p>contos e crônicas (1992). Por sua vez, as edições de crônicas são vastas e misturam</p><p>observação e memórias. Desse gênero literário marcado pela hibridez, temos: O óbvio</p><p>ululante: primeiras confissões (1968), O reacionário: memórias e confissões (1977) e</p><p>À sombra das chuteiras imortais – Crônicas de futebol (1992).</p><p>Nesses livros ou em textos dispersos em periódicos é possível acompanhar, inclusive,</p><p>um Nelson Rodrigues afinado com seu tempo, crítico mordaz de atitudes de sujeitos e</p><p>de coletividades. É sua a invenção da expressão “complexo de vira-latas”, uma das mais</p><p>conhecidas nacional e internacionalmente quando se discorre sobre as posturas ambí-</p><p>guas, amedrontadas, covardes — e um tanto quanto “bovaristas”, para falar como Maria</p><p>Rita Kehl (2018). A expressão é sempre chamada à baila para significar a atitude pusilâ-</p><p>nime do Brasil e dos brasileiros, mesmo diante de situações em que claramente gozam</p><p>de prestígio e solidez.</p><p>No ano de 2018 a psicanalista e escritora Maria Rita Kehl lançou um instigante</p><p>livro que reúne uma rica produção ensaística dispersa em revistas científicas,</p><p>jornais, palestras etc. O eixo temático de seus escritos encontra-se — conforme</p><p>suas próprias palavras — na “questão dos restos mal elaborados da escravidão</p><p>na sociedade brasileira” (KEHL, 2018, p. 9). Segundo seu argumento principal, a</p><p>sociedade brasileira atualizaria, em diferentes momentos, desde o século XIX, o</p><p>mal de querer ser aquilo que não é, abrindo mão de enfrentar seus próprios dile-</p><p>mas e construir seus percursos autênticos. Desse modo, como uma espécie de</p><p>Madame Bovary — personagem do romance de Gustave Flaubert (1821-1880)</p><p>— dos trópicos, o brasileiro hesitaria entre ser racional, capitalista, republicano,</p><p>democrático ou — de outro modo — ser um representante de “arremedo das</p><p>aparências da civilização”, que atualizaria, na era do capitalismo avançado, a</p><p>escravidão moderna mais hedionda (cf. KEHL, M. R. O bovarismo brasileiro:</p><p>ensaios. São Paulo: Boitempo, 2018).</p><p>Ampliando o foco</p><p>14</p><p>Para compreender a conhecida expressão “complexo de vira-latas”, hoje comum em</p><p>diversas esferas sociais, inclusive acadêmica, deve-se remontar à Copa do Mundo de</p><p>1950. Apesar de sua reconhecida superioridade, o Brasil foi derrotado, àquela ocasião,</p><p>pelo Uruguai, por 2 x 1, em pleno Maracanã, no dia 16 de julho. Anos depois, às vésperas</p><p>da estreia do Brasil na Copa de 1958, precisamente no dia 31 de maio de 1958, Nelson</p><p>publicaria, na revista Manchete, a crônica que seria intitulada Complexo de vira-latas. Seu</p><p>ágil e perspicaz texto é finalizado do seguinte modo:</p><p>Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasi-</p><p>leiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em</p><p>todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os</p><p>maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por-</p><p>que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu</p><p>de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o</p><p>nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos</p><p>adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem:</p><p>— e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: —</p><p>porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.</p><p>Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de téc-</p><p>nica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.</p><p>O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem</p><p>futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso,</p><p>ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar,</p><p>como o chinês da anedota. Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-</p><p>-latas, eis a questão. (RODRIGUES, 1993, p. 52)</p><p>O desfecho do campeonato é conhecido: o Brasil venceu a Copa de 1958, sendo sagrado</p><p>campeão pela primeira vez. Crônicas como essa de Nelson são normalmente lembradas,</p><p>também, para defender a ideia de que o autor foi, além de um renomado dramaturgo,</p><p>um importante pensador do Brasil, capaz de elaborar sínteses literárias memoráveis e</p><p>de contribuir com a leitura de práticas inseridas no cotidiano do país, como o futebol.</p><p>Atividades como essa, por sua vez, alimentam reflexões e discursos ambíguos e proble-</p><p>máticos sobre o que é “ser brasileiro”, com grande impacto em um momento importante</p><p>de conquista de espaço no mundo.</p><p>Ao lado do brilhantismo presente em gêneros tipicamente ligados ao cotidiano, vê-se</p><p>também crescer a reputação de Nelson Rodrigues como dramaturgo. Embora tenha es-</p><p>treado com A mulher sem pecado (1941), foi com Vestido de noiva que alcançou fama e</p><p>reconhecimento na cena teatral, sob a direção de Zbigniew Ziembinski, em 1943.</p><p>15</p><p>Convidado para editar suas peças teatrais em uma única edição, Sábato Malgadi assim</p><p>as dividiu: peças psicológicas, peças míticas e tragédias cariocas. Como peças psico-</p><p>lógicas, figuram A mulher sem pecado (1941, com direção de Rodolfo Mayer); Vestido</p><p>de noiva (1943, direção de Zbigniew Ziembinski); Valsa</p><p>será mais produtivo se promover a</p><p>imersão em perspectivas que sejam vivenciadas por eles e por suas comunida-</p><p>des cotidianamente, ou seja, fatores como a experimentação artístico-literária</p><p>e a relevância social continuam firmes e influentes, podendo ser apresentados</p><p>aos estudantes. Fica-se, então, o sentido da literatura como objetos complexos,</p><p>híbridos e que participam de suas comunidades ativamente. São obras que</p><p>dificilmente se encaixariam em um modelo historiográfico-literário, fundado</p><p>na periodização da literatura, ou em um modelo de concepção pedagógico-li-</p><p>terária calcada nas escolhas e nas práticas docentes (SANTOS, 2017).</p><p>NA PRáTICA</p><p>Para ampliar seu conhecimento veja o material complementar da Unidade 4,</p><p>disponível na midiateca.</p><p>MIDIATECA</p><p>92</p><p>Podem-se, assim, enfocar essas obras segundo modelos concebidos de edu-</p><p>cação literária centrados nas escolhas e nos gostos dos estudantes, valorizan-</p><p>do seus saberes, suas vivências, sua experimentação e sua fruição estética.</p><p>Nesse sentido, a escola pode, na prática, buscar caminhos não institucionaliza-</p><p>dos, que fogem ao cânone já estabelecido, sem desmerecer a literatura canô-</p><p>nica, que também pode ser “apropriada” criativamente por seus leitores. À per-</p><p>gunta de Maria Lajolo “Será que é errado dizer que literatura é aquilo que cada</p><p>um de nós considera literatura?” (LAJOLO, 1982, p. 10 apud SANTOS, 2017, p.</p><p>278), o professor Oton Magno Santana dos Santos responde em sua tese:</p><p>Eu e os estudantes que participaram desta investigação concordamos</p><p>que não, pois a literatura marginalizada que lemos, em algum momen-</p><p>to das nossas vidas, foi a única possível, nem sempre no sentido físico,</p><p>mas principalmente no que diz respeito à dificuldade de apropriação.</p><p>Inclusive na própria escola parece haver um proposital distanciamento</p><p>entre a literatura que goza do status de cânone e o público discente.</p><p>Portanto, reivindico a cidadania literária a todas as literaturas que, de</p><p>algum modo, nos ajudam a escrever a nossa história de leitores e de</p><p>cidadãos. (SANTOS, 2017, p. 278-9)</p><p>Que essa cidadania literária seja cotidianamente construída, oferecendo-se</p><p>suporte, referências estéticas, conceitos e visões de mundo que permitam ao</p><p>aluno conhecer e fruir o objeto literário-estético contemporâneo em toda a sua</p><p>complexidade.</p><p>93</p><p>Resumo da Unidade 4</p><p>A Unidade 4 da disciplina Literatura Brasileira e Contemporaneidade enfocou a obra de</p><p>Conceição Evaristo, Bernardo Carvalho e do grupo de rap Racionais Mc’s, destacando</p><p>suas principais problemáticas, tensões e contradições. Desse modo, pretende-se ofere-</p><p>cer ao nosso leitor universitário condições para repensar a educação literária nas escolas</p><p>a partir do enfoque de obras contemporâneas, cuja legitimidade muitas vezes é cons-</p><p>truída a partir da dinâmica entre experimentação e missão ou, ainda, entre invenção e</p><p>engajamento.</p><p>Tensões literárias; literatura como missão; literatura e experimentação; Concei-</p><p>ção Evaristo; Bernardo Carvalho; Racionais Mc’s.</p><p>CONCEITO</p><p>94</p><p>Referências</p><p>ALVARENGA, T. A. de. O rap como resistência estética e ética: protagonismos periféricos</p><p>da poesia dos Racionais Mc’s em um projeto de letramento literário para o Ensino Médio.</p><p>Orientadora: Silvana Moreli Vicente Dias. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em</p><p>Letras – Português e Inglês) – Universidade Veiga de Almeida, Rio de Janeiro, 2019.</p><p>AUGUSTO, D. Um quiproquó metódico: os romances de Bernardo Carvalho. 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São Paulo: Companhia das Letras, 2003.</p><p>n.6 (1951, com Milton Rodrigues);</p><p>Viúva, porém honesta (1957, com Willy Keller); e Anti-Nelson Rodrigues (1974, direção</p><p>de Paulo César Pereio).</p><p>Fazem parte das peças míticas os seguintes textos: Álbum de família (1946, dirigida por</p><p>Kleber Santos); Anjo Negro (1947, dirigido por Zbigniew Ziembinski); Senhora dos afo-</p><p>gados (1947, com direção de Bibi Ferreira); e Doroteia (1949, com Zbigniew Ziembinski).</p><p>Por fim temos, no rol das tragédias cariocas: A falecida (1953, com direção de José Maria</p><p>Monteiro); Perdoa-me por me traíres (1957, com Léo Júsi); Os sete gatinhos (1958, com Willy</p><p>Keller); Boca de Ouro (1959, dirigida por José Renato); O beijo no asfalto (1960, com direção</p><p>de Gianni Rato); Bonitinha, mas ordinária (1962, com Martim Gonçalves); Toda nudez será</p><p>castigada (1965, com Zbigniew Ziembinski) e A serpente (1978, com Marcos Flaksman).</p><p>Escritor prolífico, Nelson Rodrigues alcançou fama logo após sua estreia. Sua segunda</p><p>peça, Vestido de noiva, revolucionou a linguagem do teatro no Brasil, até o momento</p><p>fundamentalmente tradicional, convencional e distante das pesquisas e das conquistas</p><p>estéticas ocorridas desde o primeiro Modernismo. A peça foi concebida para transcorrer</p><p>em três distintos planos, que se intercalam no palco: a realidade, a alucinação e a memó-</p><p>ria. Para o autor, embora houvesse possibilidade de ser bem-sucedida do ponto de vista</p><p>intelectual, esperava-se criar incômodo na plateia, chateá-la, agredi-la.</p><p>A peça inicia-se com o atropelamento de Alaíde, mulher de 25 anos, casada com o industrial</p><p>Pedro Moreira. Aos poucos, conforme o andamento das cenas nas quais ganham força os</p><p>planos da alucinação e da memória, percebe-se que ali está um personagem problemático,</p><p>ambicioso, ousado, delirante. Entretanto, na mesa de hospital, à beira da morte, totalmente</p><p>entregue ao acaso, mostra-se sem força para controlar seu destino. Com sua deturpada</p><p>autoimagem, suas tendências bovaristas ficam claras quando percebemos que transfere</p><p>para Madame Clessi (personagem do plano da alucinação, morta por um adolescente no</p><p>início do século) seus sentimentos de grandeza. Segundo Sábato Malgadi:</p><p>Como se processa a transferência? Informa-se que Alaíde descobriu, no</p><p>sótão da casa em que, solteira, passou a residir com a família, o diário de</p><p>Madame Clessi. Daí ao desejo de identificar-se ilusoriamente com a cor-</p><p>16</p><p>tesã foi só um passo. Acidentada, na alucinação, Alaíde vai à busca, em</p><p>primeiro lugar, da mundana. Percorre caminhos imaginários, até final-</p><p>mente encontrá-la. Os diálogos atingem alguns dos mais belos momen-</p><p>tos da mitologia personalíssima do dramaturgo. (MALGADI, 1993, p. 19)</p><p>Depois de Vestido de noiva — que explorava muitos temas praticamente inexistentes em</p><p>palcos brasileiros —, o autor lança-se em uma experiência mais chocante para o público</p><p>e para a crítica, com Álbum de família, de 1945. A peça — que traz uma sequência nada</p><p>realista de incestos ocorridos no interior de uma família, entre pai, mãe, filhos e filha — foi</p><p>censurada à época e somente liberada em 1965. Inaugura-se, então, o conjunto de peças</p><p>míticas, também conhecidas como “desagradáveis”. Segundo Nelson Rodrigues, as pe-</p><p>ças míticas serão as “obras pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a</p><p>malária na plateia”. (MAGALDI, 1993, p. 37). Como afirma Magaldi, nesse momento ocor-</p><p>re um exercício de “autenticidade absoluta”, pois aqui não há jogo de máscaras sociais,</p><p>mas sim personagens guiados por instintos primitivos, lances de uma tragédia radical-</p><p>mente distante de qualquer civilidade. O andamento desse conjunto de peças demonstra</p><p>bem que o autor não contemporiza.</p><p>São muitas as questões que Nelson Rodrigues levanta, até mesmo apontando para as</p><p>bases de processo modernizador carregado de tensões e contradições, como sugere</p><p>Adriana Facina:</p><p>Nelson desconfiava profundamente da capacidade da civilização em</p><p>produzir seres humanos melhores e mais felizes, pois a coerção da civili-</p><p>dade não conseguiria domar os instintos, especialmente os sexuais, que</p><p>tenderiam a gerar, entre os homens, mais canalhas do que santos. Por-</p><p>tanto, a redenção humana dependeria de uma educação de sentimen-</p><p>tos e desenvolvimento de talentos individuais que pudessem expressar,</p><p>como cultura, o que há de melhor, a metade santa de nossa coletividade.</p><p>Surge daí a sua visão do amor romântico como o sentimento capaz de</p><p>tornar bons os seres humanos, assim como a sua crença na capacidade</p><p>libertadora do futebol, que pode fazer cada brasileiro sentir-se “desagra-</p><p>vado de velhas fomes e santas humilhações”. (FACINA, 2004, p. 315)</p><p>As opções de Nelson Rodrigues — provocativas, reflexivas, irônicas — o levaram a certo</p><p>isolamento de seu público e da crítica, pelo menos no que diz respeito a suas peças.</p><p>Gêneros mais ligados ao cotidiano, como a crônica, ganham, no Brasil, uma enorme</p><p>17</p><p>contribuição com a escrita dinâmica e autoral de Nelson. Hoje, ele é considerado por</p><p>muitos o maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos e uma das vozes de maior</p><p>atuação, sobretudo na segunda metade do século XX, de modo que apreciar seu legado</p><p>é fundamental para quem deseja conhecer um pouco mais sobre os movimentos literá-</p><p>rios e artísticos brasileiros da era contemporânea.</p><p>18</p><p>Dalton Trevisan: inventários urbanos</p><p>Avançando um pouco no terreno</p><p>multifacetado da literatura contem-</p><p>porânea do século XX, apresenta-</p><p>mos, neste tópico, algumas linhas da</p><p>obra de Dalton Trevisan. Nascido em</p><p>1925, é um escritor cuja estreia está</p><p>muito ligada aos fluxos modernistas,</p><p>embora sua formação inicial tenha</p><p>ocorrido quando o movimento mo-</p><p>derno já tinha alcançado suas princi-</p><p>pais conquistas, como veremos. Seu</p><p>prestígio nas cenas literárias brasileira e mundial pode ser notado pelos vários prêmios</p><p>recebidos, como o Prêmio Portugal Telecom de Literatura (2003), o Prêmio Literário da</p><p>Fundação Biblioteca Nacional (2008, 2015) e o Prêmio Camões (2012), entre outros.</p><p>Pelos temas e figuras que desfilam em suas histórias ligadas a vampiros e a universos</p><p>sombrios, e também por sua aversão a transitar na arena pública — recusa-se a dar en-</p><p>trevistas, a comparecer a eventos —, Dalton Trevisan é conhecido também como “Vam-</p><p>piro de Curitiba”, figura esta que se torna uma espécie de personagem que perambula no</p><p>universo preferencial de suas narrativas: as ruas da capital paranaense.</p><p>Seu estilo seco, direto, elíptico, econômico, repetitivo, sem qualquer complacência</p><p>diante da miséria humana, foi notado por seus primeiros leitores críticos desde o iní-</p><p>cio de sua trajetória.</p><p>Do ponto da composição pode-se afirmar que Dalton Trevisan radicalizou as caracte-</p><p>rísticas dessa forma literária, como economia, tensão e concatenação bem articulada,</p><p>visando ao efeito único da narrativa curta (cf. GOTLIB, 1985; CORTÁZAR, 1975). Nesse</p><p>sentido, tende a um minimalismo pungente que “faz de cada detalhe um índice de ex-</p><p>tremo desamparo e da extrema crueldade que rege os destinos do homem sem nome</p><p>na cidade moderna” (BOSI, 1975, p. 17). Sua poética, segundo Bosi, não quer desnudar</p><p>as experiências do sujeito narrador, mas o fundo da miséria comum. Nesse contexto, o</p><p>espaço em que desfilam imagens seriadas e dessacralizadas, com enfoque de um hu-</p><p>mano dessubjetivado, situa-se sobretudo na distópica e nada amena cidade de Curitiba,</p><p>sua “província, cárcere, lar” literário.</p><p>Dalton Trevisan (1925): escritor brasileiro, famoso por</p><p>seus livros de contos. Foto: Reprodução/RPC.</p><p>19</p><p>O autor oficialmente fez sua estreia literária com o livro Novelas nada exemplares, em</p><p>1959. Antes, porém, realizou uma incursão que deixou marca no periodismo moder-</p><p>no do país, com a provocadora e irreverente revista Joaquim (1946-1948), ao lado de</p><p>Erasmo Pilotto e Antônio P. Walger. Pode-se dizer que esse foi seu espaço formativo,</p><p>em que exerceu a produção literária e a crítica combativa, em diálogo intenso com</p><p>as conquistas modernistas que, àquela altura, estavam em processo de franca sedi-</p><p>mentação. Ao longo de sua publicação, apresentou desenhos</p><p>de Poty Lazzarotto e</p><p>colaborações de intelectuais e escritores como Antonio Candido, Carlos Drummond</p><p>de Andrade, José Paulo Paes, Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Sérgio Milliet,</p><p>Wilson Martins, entre outros. A revista apresentava uma proposta de modernização</p><p>alternativa que aprofundava as conquistas do Modernismo das décadas de 1920 e</p><p>1930, articulando vozes altissonantes que, ao se opor ao Modernismo Paranista de</p><p>tendência local e provinciana no sentido restritivo (tendo como referência o conven-</p><p>cional Emiliano Perneta), procuravam romper com a tradição simbolista e positivista</p><p>então hegemônica desde fins do século XIX.</p><p>Os conflitos e tensões que emergem da revista indicam como os outsiders de Joaquim</p><p>buscaram “minar a esfera autorreferente” dos estabelecidos paranistas, para falar como</p><p>Norbert Elias (para saber mais sobre a relação conflituosa entre grupos, cf. ELIAS, 2000).</p><p>Os estabelecidos paranistas estariam imersos em um conservadorismo literário e po-</p><p>lítico que destoava — e muito — da ebulição revolucionária modernista, com seu tom</p><p>coloquial, mescla de gêneros e ironia não conformista, características exemplarmente</p><p>presentes nas poéticas de autores como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel</p><p>Bandeira e Drummond desde as décadas de 1920 e 1930. Referências úteis para acom-</p><p>panhar aspectos desse período formativo de Dalton Trevisan são trabalhos de autoria</p><p>de Miguel Sanches Neto, Luiz Claudio Soares de Oliveira e de Berta Waldman — esta,</p><p>pode-se afirmar, especialista incontornável quando se fala sobre o contista. Os críticos</p><p>dedicados à obra de Dalton Trevisan ressaltam a irreverência, mistura de compaixão</p><p>com repulsa, com que o autor lida com elementos cotidianos muito ligados ao chão</p><p>histórico. Essa dinâmica sócio-histórica pode ser notada, por exemplo, no modo como</p><p>o próprio escritor se coloca em sua relação com o público:</p><p>Notícia policial, frase no ar, bula de remédio, pequeno anúncio, bilhete de</p><p>suicida, o meu e o teu fantasma no sótão, confidência de amigo, a leitura</p><p>dos clássicos etc. O que não me contam eu escuto atrás da porta. O que</p><p>não sei eu adivinho... (TREVISAN, 1974, p. 9-10)</p><p>20</p><p>Para notarmos como o autor trabalha os elementos relacionados à sua cidade, vamos</p><p>dar um enfoque ao conto Minha cidade, publicado inicialmente no número 6 da revista</p><p>Joaquim e depois republicado, com alterações substanciais, em outras edições, como</p><p>no livro Mistérios de Curitiba (1968) e em Em busca da Curitiba perdida (1992). O texto</p><p>é construído com base em tensões claras entre literariedade e literalidade, experiência</p><p>pessoal e coletiva. Parte-se, então, de aspectos da província para compor uma obra</p><p>literária em que o espaço seriado surge como palco para a encenação de narrativas</p><p>curtas. Observem-se as diferenças entre ambas as edições nos trechos abaixo, com</p><p>supressões, acréscimos e reescritas substanciais:</p><p>Curitiba, que não tem pinheiros, esta Curitiba eu canto. Curitiba, em que</p><p>o céu não é azul, esta Curitiba eu canto. Não a Curitiba para o turista ver,</p><p>esta Curitiba eu canto [...]. (TREVISAN, 1946, p. 18)</p><p>Curitiba, que não tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba, onde o</p><p>céu azul não é azul, Curitiba que viajo. Não a Curitiba para inglês ver,</p><p>Curitiba me viaja [...]. (TREVISAN, 2000, p. 7)</p><p>Com a distância no tempo, ao resgate lírico da cidade, que parece mais forte na primeira</p><p>versão, acrescenta-se um olhar narrativo “desempenhando um papel de descobridor,</p><p>de pesquisador empírico das manifestações do real” (SANCHES NETO, 1998). Também</p><p>se aprofundam discursos de resistência, como a recusa do Modernismo de fachada,</p><p>de linhas retas, considerado arrojado para os padrões brasileiros pós-modernos, mas</p><p>não autêntico. Nesse sentido, Trevisan segue firme em um discurso afinado com o jul-</p><p>gamento que expoentes do Modernismo fazem com relação às suas trajetórias, com</p><p>aproximação e distanciamento críticos com relação a certos aspectos da vanguarda.</p><p>Eis um homem que tende a deixar-se conduzir livremente em meio às multidões des-</p><p>personalizadas, aprofundando o sentido histórico de sua experiência pessoal e coletiva.</p><p>A partir de 1974, com O pássaro de cinco asas, o escritor radicaliza mais ainda a redu-</p><p>ção da linguagem, com emprego da frase fragmentada, elíptica, enxuta, com períodos</p><p>coordenados e orações paratáticas. Segundo Berta Waldman:</p><p>[...] a medida de um escritor, principalmente nos países periféricos como</p><p>o Brasil, deriva, em grande parte, de um tipo de agudeza — da agudeza</p><p>para perceber que a complexidade do mundo contemporâneo também</p><p>se expressa ali, e que uma representação artística eficaz dele contribui</p><p>para a imagem do conjunto. (WALDMAN, 2007)</p><p>21</p><p>Na trilha de Berta Waldman, a linguagem de Trevisan reduplica os estereótipos sociais,</p><p>de modo que, na passagem do histórico ao ficcional, ficam evidentes as representações</p><p>da violência e da alienação em que homens e mulheres estão inseridos. Essas histórias</p><p>— com a crueldade das relações humanas, o grotesco de facetas pouco modernas e o</p><p>cotidiano violento — são ainda constantemente revistas e reescritas, de modo que há</p><p>também um movimento paródico (um modo de vampirização típico do autor) dos dis-</p><p>cursos que enfocam Curitiba e alcançam o universal, em um movimento dialético entre</p><p>estreitamento local e ubiquidade que só ocorre em grandes obras.</p><p>Para finalizar, Arnaldo Franco Junior faz uma leitura da obra literária de Dalton Trevisan</p><p>aproximando-a com a fotografia, flagrando na escrita uma espécie de obra aberta, sem-</p><p>pre receptiva a novas experimentações, criando-se um cânone que atenderia ao padrão</p><p>seriado. Segundo o crítico, encontra-se na obra de Trevisan:</p><p>a) ênfase documental, fait divers, apresentação naturalista de pedaços</p><p>de vida; b) ilusão de identidade entre coisa e representação: reprodutibi-</p><p>lidade técnica e serialidade, que elimina distinção entre original e cópia;</p><p>c) sentido criado pela repetição; d) relações intra e intertextuais: pedaços</p><p>de vida, simulacro. (FRANCO JUNIOR, 2010)</p><p>Essa leitura converge para o sentido fortemente realista da obra do autor, que dá aber-</p><p>tura para a fixação de inúmeros personagens marginais — doentes mentais, assassinos,</p><p>ladrões, cafajestes, mulheres e crianças violentadas, cafetinas etc.—, o espaço da livre-</p><p>circulação da barbárie, sem qualquer moderação e sentimento de culpa. São imagens</p><p>de degradação e de desagregação, sem um centro de convergência e equilíbrio. Desse</p><p>espaço de uma Curitiba captada por lentes ora afetivas, ora repulsivas, nascem as fa-</p><p>cetas várias de um rico inventário urbano, literariamente trabalhado por meio da escrita</p><p>límpida e impactante de Dalton Trevisan.</p><p>22</p><p>Peripécias malandras na escrita de joão</p><p>Antônio</p><p>João Antônio, escritor e jornalista, foi um dos nomes mais destacados de sua geração.</p><p>Suas aproximações com a imprensa marcaram-no desde o início de sua produção.</p><p>Nascido em 1937, começa o curso de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero em 1958,</p><p>abandonado poucos anos depois, em um período em que suas ocupações eram muito</p><p>precárias.</p><p>Sua obra mais conhecida, o livro de contos Malagueta, Perus e Bacanaço, de 1963,</p><p>lançou-o cedo ao centro da produção cultural brasileira. No entanto, sua gênese teve</p><p>muitos obstáculos. Conta-se que um incêndio tomou conta da casa de sua família,</p><p>onde residia. De lá, saíram apenas com a roupa do corpo. Os escritos de João Antônio,</p><p>como os manuscritos de Malagueta, Perus e Bacanaço, queimaram-se. Para rees-</p><p>crever o livro, ele teria se fechado na Biblioteca Municipal Mário de Andrade por longo</p><p>período, tendo como recurso apenas sua memória.</p><p>O bem-acabado livro Malagueta, Perus e Bacanaço desperta a atenção de importantes</p><p>críticos. Inclusive, Antonio Candido preparou belíssimo prefácio ao livro para uma segun-</p><p>João Antônio (1937-1996): jornalista e escritor brasileiro. Foto: Divulgação.</p><p>23</p><p>da edição que acabou não saindo. O texto foi divulgado posteriormente no número 19</p><p>da revista Remate de Males, dedicada inteiramente ao escritor.</p><p>O penúltimo parágrafo do</p><p>ensaio é eloquente:</p><p>Uma das coisas mais importantes da ficção literária é a possibilidade</p><p>de “dar voz”, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as</p><p>classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor da sua hu-</p><p>manidade, que de outro modo não poderia ser verificada. Isso é possível</p><p>quando o escritor, como João Antônio, sabe esposar a intimidade, a es-</p><p>sência daqueles que a sociedade marginaliza, pois ele faz com que exis-</p><p>tam, acima da sua triste realidade. Nos contos deste livro, mas sobretudo</p><p>nos finais, ele é um verdadeiro descobridor, ao desvendar o drama dos</p><p>deserdados que fervilham no submundo; dos que vivem das lambujens</p><p>da vida e ele traz com a força da sua arte ao nível da nossa consciência,</p><p>isto é, a consciência dos que estão do lado favorável, o lado dos que</p><p>excluem. Sob este aspecto, João Antônio faz para as esferas malditas</p><p>da sociedade urbana o que Guimarães Rosa fez para o mundo do sertão,</p><p>isto é, elabora uma linguagem que parece brotar espontaneamente do</p><p>meio em que é usada, mas na verdade se torna língua geral dos homens,</p><p>por ser fruto de uma estilização eficiente. (CANDIDO, 1999, p. 88)</p><p>Antonio Candido aponta que a força da escrita de João Antônio está no modo como</p><p>parece misturar-se com a realidade que retrata. Porém, não é mero relato espontâneo,</p><p>que brota de modo quase instintivo. O escritor teria encontrado um modo particular de</p><p>expressar-se literariamente. As cidades e seus vícios oferecem uma ambientação disfó-</p><p>rica para os malandros, que acabam fracassando.</p><p>O resultado de sua primeira incursão como escritor foi fora do comum. Ganhou inúmeros</p><p>prêmios e teve rápida ascensão profissional. Passou a trabalhar no Jornal do Brasil e,</p><p>posteriormente, transitou por veículos da imprensa como a revista Realidade, o jornal O</p><p>Pasquim, a revista Manchete, entre outros. O ritmo voltado para atender às necessidades</p><p>da grande imprensa muda inteiramente quando o autor decide aplicar-se apenas à produ-</p><p>ção literária em fins da década de 1960. De fato, após esse afastamento da redação, volta</p><p>a dedicar-se à literatura com afinco, e uma série de livros seus passa a circular nas pra-</p><p>teleiras das grandes livrarias, com periodicidade, tais como: Leão-de-chácara, de 1975;</p><p>Malhação do Judas carioca, de 1975; Casa de Loucos, de 1976; Lambões de Caçarolas</p><p>(Trabalhadores do Brasil), de 1977; Calvário e Porres do Pingente Afonso Henriques</p><p>de Lima Barreto, de 1977; Ô Copacabana!, de 1978; Dedo-duro, de 1982; Meninão do</p><p>24</p><p>caixote, de 1984; Abraçado ao meu rancor, de 1986; Zicartola e que tudo mais vá pro</p><p>inferno!, de 1991; Guardador, de 1992; Um herói sem paradeiro, de 1993; Patuleia, de</p><p>1999; Sete vezes rua, de 1996; e Dama do Encantado, de 1996.</p><p>Dentre seus vários títulos destacaria aqui o livro Abraçado ao meu rancor, que recebeu o</p><p>prefácio de Alfredo Bosi, intitulado Um boêmio entre duas cidades. O crítico apontou uma</p><p>“ânsia deambulatória” na escrita de João Antônio, de modo que a composição literária</p><p>comporta as oscilações e os antagonismos entre ordem e desordem, positivo e negativo</p><p>de uma sociedade contraditória e profundamente desigual. Entregues à própria sorte, es-</p><p>ses personagens vivem uma espécie de jogo irracional, que ilumina sua impotência e sua</p><p>humanidade contraditória. Ao mesmo tempo, aprofundam-se as relações entre matéria</p><p>narrada e sujeito, que transparecem por meio das escolhas narrativas realizadas no livro</p><p>Abraçado ao meu rancor, como se nota a seguir:</p><p>Carrego um peso, ainda que vago, permanente; e se me ponho nos táxis,</p><p>é com aborrecimento. Detestável ir a todos esses buracos, desentocaiar</p><p>vagabundos, localizar salões de sinuca e me mover do carro. Devia tro-</p><p>car de ônibus, que os bondes sumiram, o asfalto cobriu os trilhos como</p><p>cobriu os paralelepípedos. Eu que me mexa pelos trens suburbanos ou</p><p>pelos ônibus tão lentos desta cidade. Ruins, enormes, cheios onde se</p><p>fala pouco. Mas será, pelo menos, decente ou limbo com esta gente,</p><p>afinal uns pobres-diabos sem eira nem beira, sobrevivendo Deus sabe.</p><p>Diacho. Quando os conheci e gostei deles, quando me estrepei e sofri na</p><p>mesma canoa furada, a perigo e a medo, eu não tinha esses refinamen-</p><p>tos, não. Mudei. Sou outra pessoa; terei tirado de onde estas importân-</p><p>cias e lisuras? De teu pai não foi, mano. (ANTÔNIO, 2001, p. 76-77)</p><p>Aos poucos, cada vez mais a máscara autoral compartilha muitas das características</p><p>dos personagens das narrativas em terceira pessoa, os quais, em geral, estão sempre</p><p>à margem. A narrativa de Abraçado ao meu rancor é estruturada em primeira pessoa.</p><p>E, de fato, como parece transparecer no trecho acima, João Antônio aos poucos pare-</p><p>ce ter se despojado de bens materiais, vivendo uma vida simples, com pouco trânsito</p><p>em espaços públicos, preferindo distanciar-se de sentidos que o aproximassem das</p><p>convenções burguesas.</p><p>Ao longo das décadas continuou — é importante assinalar — a dar voz a personagens</p><p>marginalizados: operários, malandros, desempregados, jogadores de pelada, viciados de</p><p>todo tipo. Enfatiza, talvez como estratégia de comunicação com o público, que a criação</p><p>25</p><p>— mesmo quando em primeira pessoa — continua muito ligada às vivências do cotidiano,</p><p>inspirando humanidade, empatia, revolta diante da luta diária pela sobrevivência. Autor e</p><p>personagem aproximam-se por suas trajetórias de exclusão e de resistência às conse-</p><p>quências nefastas da marginalidade.</p><p>Apesar de parecer estar entregue à espontaneidade e aos estímulos diretos captados</p><p>por sua vida, o fato é que João Antônio aos poucos passou a lapidar sua imagem. Fa-</p><p>mília e trabalho são instâncias das quais o escritor participa, mas com distanciamento</p><p>crescente, na medida em que passa a viver de seu trabalho. É possível notar também</p><p>um crescente movimento no sentido de controle de sua trajetória, que iria culminar com</p><p>a doação de seu grande arquivo pessoal à Universidade Estadual Paulista de Assis (SP),</p><p>intermediada por seu único filho, Daniel Pedro. Livros com dedicatórias de amigos e co-</p><p>legas de ofício, como Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade, manuscritos,</p><p>primeiras edições, discos, extensa correspondência ativa e passiva — diferentes itens, de</p><p>grande interesse público, podem ser consultados e estudados no Acervo João Antônio,</p><p>em Assis. Segundo a pesquisadora Telma Maciel da Silva, nas cartas é possível notar</p><p>como o subjetivo, o histórico e o literário se fundem. Inclusive, missivas podem ter ele-</p><p>mentos que claramente aproximam-se dos contos. A seguir, é possível ler, em uma carta</p><p>enviada a Jácomo Mandatto, como o escritor sente a necessidade de se expressar de</p><p>modo irônico, reflexivo e inconformado:</p><p>O que sofri, Jácomo? Sei lá. Ninguém sabe. Um aviso do organismo? O</p><p>coração, o pulmão, o sangue, tudo está bom. Tensões, revoltas internas,</p><p>nojo, saco cheio com a situação geral, alguma estafa, é isso que tenho:</p><p>a consciência do fardo pesado que havemos de carregar neste país que</p><p>não é dirigido nem pela direita. É uma canalhocracia que nos dirige (leia-</p><p>-se: nos taxa, nos explora, nos arranca a pele). (Carta enviada por João</p><p>Antônio a Jácomo Mandatto, com datação em 1º de julho de 1980 –</p><p>apud SILVA, 2008, p. 155)</p><p>Para quem deseja conhecer aspectos da produção de João Antônio vale a pena conferir</p><p>o número 19 da revista Remate de males, publicada pelo Departamento de Teoria Lite-</p><p>rária da Unicamp, a qual apresenta importantes contribuições críticas, com ensaios de</p><p>Antonio Candido (anteriormente mencionado), Vilma Arêas, Fábio Lucas, Flávio Aguiar e</p><p>Antonio Arnoni Prado (cf. REMATE DE MALES, 1999). Há muitas vertentes a serem explo-</p><p>radas a partir da leitura crítica da obra do escritor.</p><p>26</p><p>A boa acolhida do escritor, ao longo dos tempos, tem se mantido, inclusive após sua</p><p>morte, ocorrida em 1996. Nesse contexto, para Bruno Zeni:</p><p>A tensão entre o que é factual e o que é ficção, entre marca histórica e</p><p>forma literária, guarda o segredo da riqueza textual do escritor e não há</p><p>qualquer boa leitura da obra</p><p>de João Antônio que fuja ao desafio de inter-</p><p>pretá-la a partir dessa espécie de paradoxo: a partir de uma prosa que se</p><p>aproxima do documento e do memorialístico João Antônio criou um es-</p><p>tilo ao mesmo tempo seco e afetivo, simples em seu apreço pela palavra</p><p>cotidiana e refinado na conjugação da oralidade com o talento de fazer</p><p>da variedade da fala um instrumento comum de narração e constituição</p><p>dos seus personagens. (ZENI, 2008, p. 77)</p><p>Esse modo de narrar equilibrado e próximo à vida cotidiana manterá um público muito</p><p>atento às novidades de autoria de João Antônio. Mais ainda, o sistema que se forma ao</p><p>redor de sua pessoa vai tornar ainda mais complexa a relação do autor com a crítica e</p><p>o público. O resultado disso é que o escritor continua a fascinar leitores e a instigar a</p><p>crítica especializada. Assim, não há como compreender os principais lances da Litera-</p><p>tura Brasileira Contemporânea se ignorarmos a centralidade de sua prática literária e</p><p>de seu pensamento.</p><p>Para ampliar seu conhecimento veja o material complementar da Unidade 1,</p><p>disponível na midiateca.</p><p>MIDIATECA</p><p>27</p><p>Na prática, o nosso estudante e futuro licenciado em Letras deverá conhecer e ler,</p><p>de modo crítico, obras e estilos autorais representativos da Literatura Brasileira de</p><p>meados do século XX até as primeiras décadas do século XXI, de modo a preparar</p><p>projetos didáticos com conteúdos especificamente voltados para a Escola Básica.</p><p>Quando enfocamos, por exemplo, o Ensino Médio, devemos recordar a importância</p><p>da obra de Nelson Rodrigues, revolucionária para o campo da dramaturgia brasileira.</p><p>Assim sendo, é fundamental não só ter consciência de como as obras se inserem na</p><p>dinâmica da literatura e da arte do país, mas também como podem ser produtivamen-</p><p>te abordadas em espaços de escolarização. Leia-se, abaixo, uma interessante abor-</p><p>dagem desenvolvida no contexto do Ensino Médio, sob a responsabilidade de João</p><p>Gabriel P. N. de Paula, Ibrahim Alisson Yamakawa e Mirian Hisae Yaegashi Zappone:</p><p>O texto dramático tem como essência a ação, a dinamicidade e a fluidez</p><p>garantindo uma leitura mais envolvente e motivadora para os estudantes</p><p>de Ensino Médio, que hoje acham em filmes de cinema e TV, na internet</p><p>e em outros meios de comunicação formas ficcionais mais atraentes de</p><p>rápido consumo. Imediatismo da sociedade — ninguém quer apostar em</p><p>algo cujos resultados são demorados e muitas vezes incertos. Conquan-</p><p>to, o teatro também tem o seu lugar na sociedade, e o gênero dramático</p><p>encontra-se difundido no meio social sob outras formas.</p><p>A teatralidade está presente em diferentes meios de comunicação sendo</p><p>que “através dos veículos de comunicação de massa, o drama transfor-</p><p>mou-se em um dos mais poderosos meios de comunicação entre os se-</p><p>res humanos” (ESSLIN, 1978 apud PASCOLATI, 2009, p. 93). Em oposição</p><p>aos gêneros literários frequentemente cultivados dentro do ambiente es-</p><p>colar, entre eles o romance, conto, crônica e poesia, o teatro, enquanto gê-</p><p>nero literário, tem uma particularidade que permite aproximar o estudante</p><p>de Ensino Médio da leitura de textos literários: a leitura dramática. (PAULA;</p><p>YAMAKAWA; ZAPPONE, 2012, p. 8)</p><p>A ampliação do senso estético e o desenvolvimento de um repertório amplo serão</p><p>centrais para a solidez da formação do futuro professor. A prática de sala de aula</p><p>deverá refletir a adequação de materiais didáticos, planos de aula, projetos inte-</p><p>gradores e sequências didáticas, em perspectiva interdisciplinar, para envolver um</p><p>público escolar cada vez mais globalizado, conectado e versado no uso das novas</p><p>Tecnologias da Informação e Comunicação.</p><p>NA PRáTICA</p><p>28</p><p>Resumo da Unidade 1</p><p>Na Unidade 1 estudamos aspectos da Literatura Brasileira de meados do século XX em</p><p>diante, com destaque para a maestria da forma de escrita irônica, densa e reflexiva de</p><p>Nelson Rodrigues (1912-1980), Dalton Trevisan (1925) e João Antônio (1937-1996). Obras</p><p>desses escritores, consideradas centrais no contexto da literatura produzida após a con-</p><p>solidação do movimento modernista, foram discutidas, apontando-se elementos de sua</p><p>formação literária e crítica que pudessem indicar a complexidade e o potencial de senti-</p><p>dos de suas obras.</p><p>Nelson Rodrigues (1912-1980); Dalton Trevisan (1925); João Antônio (1937-</p><p>-1996); violência e marginalidade na literatura brasileira.</p><p>CONCEITO</p><p>29</p><p>Referências</p><p>ANTÔNIO, J. Abraçado ao meu rancor. In: ANTÔNIO, J. Abraçado ao meu rancor. São</p><p>Paulo: Cosac & Naify, 2001, p. 67-126.</p><p>BOSI, A. Situação e formas do conto brasileiro contemporâneo. In: BOSI, A. O conto bra-</p><p>sileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix; Edusp, 1975.</p><p>BOSI, A. Um boêmio entre duas cidades. In: ANTÔNIO, J. Abraço ao meu rancor. Rio de</p><p>Janeiro: Guanabara, 1986.</p><p>BULHÕES, M. M. Jornalismo e literatura em convergência. São Paulo: Ática, 2007. Bi-</p><p>blioteca Virtual.</p><p>CANDIDO, A. Na noite enxovalhada. Remate de males, Campinas, n. 19, 1999. Disponível em: ht-</p><p>tps://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/issue/view/366. Acesso em: 18 fev. 2020.</p><p>DALCASTAGNÈ, R. Um território contestado: literatura brasileira contemporânea e as no-</p><p>vas vozes sociais. Revista Iberical, Paris, n. 2, p.13-17, 2012. Disponível em: http://iberical.</p><p>paris-sorbonne.fr/wp-content/uploads/2012/03/002-02.pdf. Acesso em: 20 fev. 2019.</p><p>DIAS, Â. M. Nelson Rodrigues e o Rio de Janeiro: memórias de um passional. Alea: Estudos</p><p>Neolatinos, v. 7, n. 1, Rio de Janeiro, jan.-jun. 2005. Disponível em: http://www.scielo.br/scie-</p><p>lo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-106X2005000100007. Acesso em: 16 fev. 2020.</p><p>ELIAS, N. Os estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.</p><p>FACINA, A. 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Desconstruídas as grandes narrativas e as separações</p><p>nítidas entre realidade e ficção, complexifica-se ainda mais o universo da criação artís-</p><p>tica e literária, em diálogo ativo com a sociedade e a história que lhe dão suporte.</p><p>Com o advento das Novas Tecnologias da Informação e Comunicação, outros textos</p><p>verbais, não verbais e híbridos, que trabalham extensamente com a ambiguidade en-</p><p>tre vida e obra, passam a circular na esfera pública. Assim, na esteira dos estudos de</p><p>Leonor Arfuch (2010), é possível enfrentar criticamente uma série de obras antes lidas</p><p>em especial no universo da cultura de massas ou da cultura digital, como entrevistas,</p><p>perfis, retratos, testemunhos, histórias de vida, relatos de autoajuda, talk shows, reality</p><p>shows e blogs, entre outros. Esses gêneros merecerão uma atenção nas próximas uni-</p><p>dades da disciplina.</p><p>Nesta unidade procuramos enfocar gêneros já reconhecidos pela tradição moderna que</p><p>voltam com força na contemporaneidade. Ao lado dos gêneros híbridos acima men-</p><p>cionados, juntam-se alguns gêneros autobiográficos, por assim dizer, canônicos, como</p><p>autobiografias, biografias, cartas, diários, memórias, crônicas etc. Esses — que outrora</p><p>tinham uma presença mais periférica — passam a receber uma atenção destacável, em</p><p>um campo antes dominado por gêneros considerados mais nobres no contexto da lite-</p><p>ratura produzida até, pelo menos, meados do século XX, como romance, novela, conto,</p><p>poesia e teatro.</p><p>INTRODUçãO</p><p>34</p><p>É nesse contexto de misturas, experimentações e vontade de imergir no cotidiano, na</p><p>vida comezinha, sem distanciá-las dos grandes movimentos históricos, que entram as</p><p>obras de autores brasileiros como Zélia Gattai (1916-2008), Caio Fernando Abreu (1948-</p><p>-1996) e Cristovão Tezza (1952). Vamos discorrer um pouco sobre suas produções e de-</p><p>senvolver alguns exercícios analíticos procurando demonstrar sua força crítica e reflexiva</p><p>no âmbito da literatura brasileira produzida nas últimas décadas.</p><p>Nesta unidade você será capaz de:</p><p>• Discutir aspectos relativos à ficção contemporânea brasileira, com destaque</p><p>para produções que tangenciam as escritas de si, misturando as fronteiras entre</p><p>ficção e realidade, memória e história, como diários, autobiografias, memórias e</p><p>autoficções, com destaque para as obras de Zélia Gattai (1916-2008), Caio Fer-</p><p>nando Abreu (1948-1996) e Cristovão Tezza (1952).</p><p>OBjETIVO</p><p>35</p><p>O memorialismo e as trajetórias brasileiras</p><p>em Zélia Gattai</p><p>A escritora Zélia Gattai nasceu na</p><p>cidade de São Paulo em 1916. Filha</p><p>de imigrantes italianos, cresceu em</p><p>uma São Paulo que se modernizava a</p><p>passos largos, tendo um olhar sensí-</p><p>vel para captar as especificidades de</p><p>uma formação marcada por aspectos</p><p>da tradição ítalo-brasileira. Com hu-</p><p>mor, leveza e sensibilidade, compõe</p><p>o retrato complexo de uma época em</p><p>plena transformação em seu primei-</p><p>ro livro, Anarquistas, graças a Deus</p><p>(1979). Depois dessa importante obra, surgem os seguintes títulos de sua autoria: Um</p><p>chapéu para viagem (1982), Pássaros noturnos do Abaeté (1983), Senhora dona do</p><p>baile (1984), Reportagem incompleta (1987), Jardim de inverno (1988), Pipistrelo das</p><p>mil cores (1989), O segredo da Rua 18 (1991), Chão de meninos (1992), Crônica de uma</p><p>namorada (1995), A casa do Rio Vermelho (1999), Città di Roma (2000), Jonas e a Se-</p><p>reia (2000), Códigos de família (2001), Jorge Amado: um baiano romântico e sensual</p><p>(2002), Memorial do amor (2004) e, fechando esse ciclo de produção vertiginosa, Vacina</p><p>de sapo e outras lembranças (2006).</p><p>Um dos fios condutores de sua obra literária são as memórias pessoais e familiares,</p><p>que se entrelaçam com ficção e história. A identificação de Zélia Gattai com a militân-</p><p>cia anarquista — como o próprio título de sua primeira obra já sugere — remonta tanto</p><p>à convivência com ela na vida privada como à sua circulação, sobretudo de seus pais,</p><p>nessa São Paulo em rápida mudança. O Movimento Operário Anarquista, muito atuante</p><p>nas primeiras décadas do século XX, deixou marcas nas trajetórias desses personagens</p><p>que vibram em suas memórias de estreia. Em especial entre 1917 e 1920, o Movimento</p><p>Operário Anarquista se fortaleceu e encontrou coesão ideológica e organização, tendo</p><p>alcançado importantes conquistas, em especial na Greve de 1917, apesar da grande re-</p><p>pressão por parte do governo paulista.</p><p>Zélia Gattai, caçula de cinco irmãos, com pai prestador de serviços, acompanhou esses</p><p>fluxos em tenra idade, tendo escrito as memórias dos deslocamentos familiares como</p><p>Zélia Gattai (1916-2008): escritora e memorialista.</p><p>Foto: Divulgação.</p><p>36</p><p>suas próprias memórias. O lastro entre as gerações é sugerido, por exemplo, pela estru-</p><p>tura dialogada de sua obra, dando voz a personagens silenciados pela morte. Vejamos</p><p>como a verossimilhança do relato é reforçada pelas escolhas da escritora Zélia Gattai,</p><p>que maneja bem a escrita ágil e permeada de recursos de forte comunicabilidade. Leia-</p><p>-se, por exemplo, um trecho do livro Cittá di Roma (2002):</p><p>As histórias que titio contava eram quase todas minhas conhecidas, ou-</p><p>vidas nos serões lá de casa, na versão de meus pais, mas, vez ou outra,</p><p>cabia-me um detalhe novo, por exemplo, o da bandeira brasileira,</p><p>que só</p><p>tio Guerrando lembrava.</p><p>[A VIAGEM]</p><p>A travessia de Gênova para o porto de Santos foi longa e penosa, contava</p><p>tio Guerrando. “Não posso esquecer. Amontoados e tristes como gado a</p><p>caminho do matadouro, os imigrantes enjoavam nos porões escuros e</p><p>quentes, ao lado das caldeiras do navio, um verdadeiro inferno. A gente</p><p>ia aguentando sem reclamar. Todo mundo tinha um medo insuportável</p><p>de ficar doente e acabar morrendo em alto-mar.</p><p>“Vocês sabiam, não é?”, explicava titio, “nos navios daquela época não ha-</p><p>via frigorífico para conservar os cadáveres, e os corpos de quem morresse</p><p>durante a travessia eram jogados no mar”. (GATTAI, 2002, p. 13-14)</p><p>Para refletir</p><p>A narrativa autobiográfica na Literatura Brasileira: relações entre indivíduo</p><p>e sociedade</p><p>Silviano Santiago, um dos grandes nomes da crítica literária brasileira no Brasil,</p><p>escreveu fartamente sobre a produção memorialística em nosso país. Em um</p><p>de seus textos mais importantes, intitulado Prosa literária atual no Brasil, pu-</p><p>blicado no livro Nas malhas da letra, ressalta que não é tão simples classificar</p><p>obras contemporâneas ou analisá-las do ponto de vista crítico. Quando há clara</p><p>tendência autobiográfica, inclina-se a rotulá-la como excessivamente subjetiva,</p><p>quando, na verdade, pode ser uma obra de seu tempo, capaz de refratar impor-</p><p>tantes questões filosóficas, históricas, políticas ou sociais. Leia-se:</p><p>A experiência pessoal do escritor, relatada ou dramatizada, traz como</p><p>pano de fundo para a leitura e discussão do livro problemas de ordem</p><p>37</p><p>Foi, porém, com Anarquistas, graças a Deus que a autora não só se firmou como uma</p><p>voz literária no Brasil de finais do século XX, como também renovou o gênero “memó-</p><p>rias”, o qual, em nossa tradição, sempre esteve presente — como exemplo, pode-se</p><p>conferir a belíssima trajetória literária de Pedro Nava —, mas não como face de uma</p><p>linha hegemônica.</p><p>A ensaísta Maria Luiza Tucci Carneiro inicia uma conhecida palestra sobre Zélia Gattai fa-</p><p>lando sobre o impacto de Anarquistas, graças a Deus em nosso sistema literário. Obser-</p><p>ve-se como a ensaísta estabelece como fios condutores de sua leitura a representação</p><p>de São Paulo e a utopia vivida por homens comuns, em busca de dias melhores e justiça</p><p>social. A sombra desses discursos retorna com força em finais do século XX, quando se</p><p>pensava que já estivessem superadas as percepções do anarquismo e do comunismo</p><p>como crime. Zélia Gattai, então, é um sopro de memória, “vida que explode”, responsável</p><p>por tecer uma estória complexa em que história, enredo e memória se entrecruzam em</p><p>delicada teia discursiva:</p><p>A leitura das memórias de Zélia Gattai, registradas em Anarquistas, gra-</p><p>ças a Deus, traz até nós o cotidiano fantástico de uma São Paulo que não</p><p>volta mais. Nas páginas deste livro — cuja primeira edição veio à público</p><p>em 1979 — a “vida explode”, como muito bem afirmou Jorge Amado,</p><p>também testemunho dos tempos em que ser anarquista ou comunista</p><p>era crime. Anarquistas, graças a Deus nos oferece a rara oportunidade</p><p>de desvendar, ao sabor das lembranças, a ação de um grupo de homens</p><p>e mulheres que, movidos por suas utopias, ajudaram a fazer história.</p><p>Mulheres de fibra, jovens atrevidos, filhos de imigrantes italianos — a</p><p>maioria anarquistas, antifascistas, anticlericalistas — sonhadores como</p><p>filosófica, social e política. Não há dúvidas de que, no palco da vida ou</p><p>da folha de papel, o corpo do autor continua e está exposto narcisisti-</p><p>camente, mas as questões que levanta não se esgotam na mera auto-</p><p>contemplação do umbigo, como quer uma crítica neoconservadora da</p><p>produção cultural do Brasil. Sobretudo nos melhores casos. A narrativa</p><p>autobiográfica é o elemento que catalisa uma série de questões teóricas</p><p>gerais que só podem ser colocadas corretamente por intermédio dela.</p><p>A peça de teatro não foi um meio eficaz que Sartre encontrou para expli-</p><p>car pontos teóricos da sua filosofia? (SANTIAGO, 1989, p. 31)</p><p>38</p><p>tantos outros anônimos que, malditos por suas ideias, foram conside-</p><p>rados “perigosos à ordem pública e à Segurança Nacional”. (CARNEIRO,</p><p>2002, p. 1)</p><p>A relação entre memória e história fica patente desde a estreia de Zélia. Questões como</p><p>paradoxos entre ética e estética, verdade e ficção, texto e contexto encontram em Zélia</p><p>uma zona em que a escrita literária é capaz de romper localismos puros, sectarismos</p><p>ou pendor narcisista exagerado. Mais ainda, Zélia — com voz sempre em “tom menor”</p><p>— mostra-se sensível à miséria social brasileira que a cerca, o que se coaduna com a</p><p>preocupação social de uma anarquista que compartilha, com seus familiares mortos, o</p><p>sonho de um mundo melhor e mais justo, para além do Oceano Atlântico.</p><p>39</p><p>Caio fernando Abreu: narrativa entre</p><p>evocação e resistência</p><p>Caio Fernando Abreu (1948-1996)</p><p>foi um escritor que operou na con-</p><p>tramão dos discursos, questionan-</p><p>do-se e enfocando seus medos e</p><p>angústias, com grande abertura para</p><p>a subjetividade. Jornalista e escritor</p><p>com obra reconhecida no Brasil e no</p><p>exterior, privilegiou gêneros como ro-</p><p>mance e conto. Nasceu em Santiago</p><p>do Boqueirão (RS) em 1948 e faleceu</p><p>precocemente em 1996, na cidade</p><p>de Porto Alegre.</p><p>Em 1968, em pleno recrudescimento do período ditatorial no Brasil, foi perseguido pelo</p><p>Departamento de Ordem Política e Social – Dops. Naquele momento, Hilda Hilst, que</p><p>morava em Campinas, escondeu-o em seu sítio. Após esse período recluso, saiu do Bra-</p><p>sil, exilando-se em países europeus como Espanha, França, Inglaterra, Países Baixos e</p><p>Suécia. Voltou para Porto Alegre em 1974. Já em 1983, mudou-se para o Rio de Janeiro;</p><p>depois, para São Paulo, em 1985.</p><p>O conjunto de sua obra é substancialmente escrito nesse período de repressão e incer-</p><p>tezas para a intelectualidade brasileira. Inclusive violências, pessimismos e perseguições</p><p>deixam marcas em inúmeras trajetórias e sujeitos políticos. Desmandos colocam a cul-</p><p>tura sob censura, de modo que esses sentidos carregados de negatividade, amargor e</p><p>acidez marcam fortemente o discurso literário.</p><p>Caio Fernando Abreu (1948-1996): jornalista, drama-</p><p>turgo e escritor brasileiro. Foto: Divulgação.</p><p>40</p><p>Enfocaremos, aqui, o livro Morangos mofados, de 1982, escrito em plena abertura eco-</p><p>nômica. Os 18 contos do livro são distribuídos nas seguintes partes: O mofo, Os moran-</p><p>gos e Morangos mofados. A dedicatória do livro é emblemática da família estética e cul-</p><p>tural com a qual o escritor quer ver-se ligado: John Lennon, Elis Regina, Henrique do Valle,</p><p>Rômulo Coutinho e de Azevedo e todos os amigos mortos; Caetano Veloso, Maria Clara</p><p>Jorge e Sônia Maria Barbosa, bem como seus amigos vivos. Clarice Lispector e Osman</p><p>Lins oferecem as epígrafes do livro.</p><p>A negatividade do livro apresenta-se sob uma chave dialética ao sugerir hermetismo e</p><p>alegoria representados por meio do “mofo” e sua podridão, que afetam toda uma geração</p><p>em situação claustrofóbica; dos “morangos” ácidos, que trazem vida e humor em doses</p><p>Para refletir</p><p>As consequências do regime militar de 1964 para o campo literário e artís-</p><p>tico nacional</p><p>De acordo com Mariza Veloso e Angélica Madeira, o regime militar de 1964,</p><p>em suas duas décadas de regime ditatorial, limitou profundamente as con-</p><p>dições de desenvolvimento cultural, artístico e literário no país. Segundo as</p><p>autoras:</p><p>No Brasil, com a implantação do regime militar de 1964, ocorrem re-</p><p>definições políticas e ideológicas que transformam, de modo radical,</p><p>as condições de produção cultural e artística. Assiste-se ao desman-</p><p>telamento dos grupos políticos, artísticos e científicos estabelecidos</p><p>e instala-se o controle rígido da produção cultural pela censura. Essa</p><p>ruptura política suscita diferentes respostas, reveladoras das posições</p><p>conflitantes e, muitas vezes, antagônicas, sustentadas pelos artistas e</p><p>intelectuais do período.</p><p>O campo intelectual sofre transformações profundas. Após o afas-</p><p>tamento e a aposentadoria compulsória de professores e pesquisa-</p><p>dores, que representavam alguma forma de ameaça ao novo regime,</p><p>as universidades</p><p>passam por uma reforma substantiva, visando prin-</p><p>cipalmente à sua especialização e à implantação de uma política de</p><p>pós-graduação eficaz: os grupos de pesquisa se institucionalizam e,</p><p>com a criação de associações científicas, a produção de saber se sis-</p><p>tematiza e profissionaliza. (VELOSO; MADEIRA, 2000, p. 183)</p><p>41</p><p>homeopáticas; e dos “morangos mofados”, quando é aventada pelo movimento dialético</p><p>uma solução, ainda que opaca. Os contos apresentam uma mistura de registros, com</p><p>lirismo e pendor narrativo; coloquialidade e formalidade; melancolia e leveza; fortes rela-</p><p>ções entre indivíduo, história e sociedade.</p><p>O conto de abertura do livro Morangos mofados, intitulado Diálogo, dedicado a Luiz</p><p>Arthur Nunes, mostra bem como os discursos são corrompidos a ponto de o trânsito</p><p>comunicativo ser totalmente bloqueado à compreensão. Não há dialogicidade, mesmo</p><p>com a estrutura dialogada do conto, com vozes que se presentificam formalmente, em</p><p>um contínuo. Apesar de todas as estratégias ali presentes, com alternância de vozes, pre-</p><p>valece o que Roman Jakobson chama de Função Fática da linguagem, cuja finalidade é</p><p>constituir, prolongar ou descontinuar a comunicação. Estamos aqui em um momento de</p><p>amarga solidão, de ruído perturbador que encontra correspondência nos tempos som-</p><p>brios e violentos da ditadura:</p><p>A: Você é meu companheiro.</p><p>B: Hein?</p><p>A: Você é meu companheiro, eu disse.</p><p>B: O quê?</p><p>A: Eu disse que você é meu companheiro.</p><p>B: O que é que você quer dizer com isso?</p><p>A: Eu quero dizer que você é meu companheiro. Só isso.</p><p>B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.</p><p>A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranoico.</p><p>B: Não é disso que estou falando.</p><p>A: Você está falando do quê, então?</p><p>B: Eu estou falando disso que você falou agora.</p><p>A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.</p><p>B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro. [...] (ABREU, 2019)</p><p>Vemos, assim, que o Diálogo é vazio na medida em que, apesar de um diálogo con-</p><p>vencional, da estrutura teatral, não há significação atuante, mas, sim, uma opacidade</p><p>constitutiva. O que resta é o vazio da experiência, o ruído, a incerteza. De fato, para a</p><p>intelectualidade, é um momento de grande angústia, fortemente marcado pelas dúvidas</p><p>com relação aos passos tomados pela redemocratização, em pleno governo de João</p><p>42</p><p>Figueiredo. Porém, abordar esse momento certamente não é algo simples, como bem</p><p>enfatiza Jaime Ginzburg ao falar do conto Os companheiros, de Morangos mofados:</p><p>Abordando vários elementos ligados às práticas de resistência, como os</p><p>codinomes, os esconderijos e a obscuridade, o melancólico texto elabo-</p><p>ra seu lamento de violência e, através de imagens como os morcegos e</p><p>o vento frio, propõe a continuidade da presença do temor e da incerteza.</p><p>(GINZBURG, 2005, p. 45)</p><p>As dúvidas vão pairar no ar, formando uma densa suspensão de desconfianças que não</p><p>se decantarão.</p><p>O livro de contos Morangos mofados é o quarto livro de Caio Fernando Abreu, que tam-</p><p>bém publicou outras coletâneas nesse gênero: Inventário do irremediável (1970), O ovo</p><p>apunhalado (1975), Pedras de Calcutá (1977), Os Dragões não conhecem o Paraíso</p><p>(1988) e Ovelhas Negras (1995). Também é autor de romances como Limite Branco</p><p>(1971) e Onde andará Dulce Veiga? (1990), além de peças de teatro, traduções e en-</p><p>saios diversos. Tornando mais complexa a relação do autor com a tradição e com as</p><p>formas que então circulavam no mundo à época de sua produção literária, importa dizer</p><p>que, segundo Nelson Luís Barbosa (2008), Caio Fernando Abreu não só trabalhou com</p><p>aspectos da memória e da autobiografia, mas também aprofundou suas experimenta-</p><p>ções estéticas ao tocar a autoficção — gênero literário eminentemente contemporâneo</p><p>trabalhado pelos teóricos franceses Serge Doubrovsky e Vincent Colonna, com base na</p><p>identificação entre autor, narrador e personagem — em diversas passagens, o que se</p><p>pode observar por meio do confronto de seus romances, contos e crônicas com sua cor-</p><p>respondência epistolar. Desse modo, há um amplo universo a ser explorado em leituras</p><p>críticas mais detidas de sua obra.</p><p>Após passagem pela França no início da década de 1990, a Convite da Casa dos Es-</p><p>critores, é diagnosticado portador de HIV, em um momento em que não há tratamento</p><p>possível. Passa seus últimos meses de vida ao lado de seus pais, cuidando de seu jardim.</p><p>Morre em Porto Alegre em 1996.</p><p>43</p><p>Cristovão Tezza: máscaras ficcionais entre</p><p>vida e arte</p><p>A obra de Cristovão Tezza, autor pa-</p><p>ranaense nascido em 1952, é bas-</p><p>tante diversificada. Seu romance O</p><p>filho eterno (2007) — colecionador</p><p>de prêmios diversos, como o Portugal</p><p>Telecom 2008, o São Paulo de Litera-</p><p>tura de Melhor Livro do ano 2008, o</p><p>Jabuti de Melhor Romance de 2008 e</p><p>o APCA de 2007 — é considerado por</p><p>muitos críticos seu principal livro. O</p><p>romance apresenta, em terceira pes-</p><p>soa (o que é um grande diferencial com relação à construção discursiva mais comum da</p><p>autoficção, em primeira pessoa), um enredo do qual fazem parte o pai — jovem professor,</p><p>que se dedica entusiasmadamente à atividade literária — e um filho com síndrome de</p><p>Down. Ao lado desse grande personagem que é o filho, ocorrem passos da formação do</p><p>profissional da escrita. Esse, portanto, lapida aos poucos seus recursos literários, com</p><p>altos e baixos, constituindo — ao lado do filho — o grande personagem da narrativa.</p><p>Observemos como Cristovão Tezza elabora uma narrativa ágil, sensível, com aspectos</p><p>dialógicos muito evidentes, de grande potencial comunicativo:</p><p>Súbito, o médico — por quem nunca sentiu simpatia, e portanto nada</p><p>espera dele — abre as portas basculantes, como sempre sem sorrir. Ne-</p><p>nhuma novidade na ausência de sorriso, daí porque, pai moleque, mal</p><p>ocultando a garrafinha de uísque, não se perturbou. O homem tirava as</p><p>luvas verdes das mãos, como quem encerra uma tarefa desagradável —</p><p>por alguma razão foi essa a imagem absurda, certamente falsa, que lhe</p><p>ficou daquele momento.</p><p>— Tudo bem? — ele pergunta, por perguntar: a cabeça já está no mês</p><p>seguinte, sete meses depois, um ano e três meses, cinco anos à frente, o</p><p>filho crescendo, a cara dele.</p><p>— É um menino. — Também nenhuma surpresa: eu tinha certeza de que</p><p>seria mesmo o filho da primavera, ele teria dito, se falasse. — A mãe está</p><p>muito bem. E desapareceu por onde veio. (TEZZA, 2007)</p><p>Cristovão César Tezza (1952): escritor brasileiro.</p><p>Foto: Divulgação</p><p>44</p><p>As expectativas sobre a chegada esperada do filho misturam-se com as posturas e os</p><p>pensamentos ambíguos diante do mundo. Aos poucos, revelando-se seus desafios, con-</p><p>fessa a mesquinhez de certas atitudes e perspectivas, como se tivesse desejado sempre</p><p>para si algo muito grande, porque especialmente preparado, resiliente, imbatível em suas</p><p>qualidades. Porém, coleciona fracassos. É com esses fracassos que precisa lidar, tendo</p><p>de fazer escolhas diante de uma jornada hostil e cheia de negativas. Como afirma Jus-</p><p>celino Pernambuco:</p><p>O filho eterno pôs à prova a capacidade de criação do artista e de con-</p><p>trole do objeto estético. Ele tinha em mãos um enredo pronto: tornara-se</p><p>pai de um filho com síndrome de Down. Não estava preparado para ser</p><p>pai, rejeitava essa ideia e, de repente, se vê diante da situação. Era um</p><p>jovem ainda desnorteado diante da vida, rebelde, sem profissão definida,</p><p>revoltado contra tudo, situado politicamente à esquerda na luta contra</p><p>o regime militar em curso no Brasil, sonhava ser escritor, mas por ora</p><p>só acumulara fracassos diante de editoras e concursos literários. (PER-</p><p>NAMBUCO, 2012, p. 190)</p><p>A humanização e o amadurecimento daquele pai ocorrem também porque não se furta</p><p>de sua “missão”, compreendida de um ponto de vista estético e ético. Aprende a viver um</p><p>dia após o outro, passando a colher os frutos de uma relação com a vida que implica</p><p>também aprender com os limites, com a vida que não domina. Nesse passo, cria uma</p><p>relação única com seu filho, de dedicação e — por que não? — superação, como notamos</p><p>no fechamento do livro:</p><p>— Hoje tem jogo, filho!</p><p>O menino sorri, exultando:</p><p>— Hoje tem?!</p>