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<p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 1 de 146</p><p>MATERIAL DE APOIO</p><p>DIREITO CIVIL</p><p>DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 2 de 146</p><p>S U M Á R I O</p><p>1 Conceito de Obrigação...................................................................... 4</p><p>2 Dos Fatos Jurídicos........................................................................... 6</p><p>3 Negócio Jurídico............................................................................... 10</p><p>3.1 Classificação dos Negócios Jurídicos.......................................... 11</p><p>3.2 Elementos Constitutivos dos Negócios Jurídicos........................ 12</p><p>3.3 Elementos Essenciais Gerais....................................................... 13</p><p>3.4 Elementos Essenciais Especiais.................................................. 17</p><p>3.5 Elementos Acidentais.................................................................. 18</p><p>3.6 Vícios de Consentimento............................................................</p><p>3.6.1 Erro ou ignorância....................................................................</p><p>23</p><p>23</p><p>3.6.2 Dolo.......................................................................................... 26</p><p>3.6.3 Coação...................................................................................... 27</p><p>3.6.4 Estado de Perigo....................................................................... 28</p><p>3.6.5 Lesão........................................................................................ 29</p><p>4 Vícios sociais..................................................................................... 30</p><p>4.1 Fraude Contra Credores.............................................................. 30</p><p>4.2 Simulação.................................................................................... 31</p><p>5 Evolução Histórica das Obrigações................................................... 33</p><p>6 Fontes das Obrigações....................................................................... 34</p><p>6.1 Contratos..................................................................................... 34</p><p>6.2 Atos ilícitos................................................................................. 35</p><p>6.3 Lei................................................................................................ 35</p><p>6.4 Atos unilaterais............................................................................ 36</p><p>7 Elementos Constitutivos.................................................................... 49</p><p>7.1 Sujeitos........................................................................................ 50</p><p>7.2 Objeto.......................................................................................... 52</p><p>7.3 Vínculo Jurídico.......................................................................... 53</p><p>8 Distinções fundamentais entre direitos pessoais e reais.................... 54</p><p>9 Obrigações civis e obrigações naturais............................................. 57</p><p>10 Classificação das obrigações............................................................. 58</p><p>11 Modalidade das Obrigações no Código Civil................................... 62</p><p>11.1 Obrigação de dar (entregar)....................................................... 62</p><p>11.1.1 Obrigação de dar coisa certa propriamente dita..................... 64</p><p>11.1.2 Obrigação de restituir coisa certa........................................... 65</p><p>11.2 Obrigação de dar coisa incerta.................................................. 66</p><p>11.3 Obrigação de fazer..................................................................... 67</p><p>11.4 Obrigação de não fazer.............................................................. 70</p><p>11.5 Obrigações alternativa e cumulativas........................................ 71</p><p>11.6 Obrigações divisíveis, indivisíveis e solidárias......................... 74</p><p>11.6.1 Obrigações divisíveis............................................................. 74</p><p>11.6.2 Obrigações indivisíveis.......................................................... 75</p><p>11.6.3 Obrigações solidárias............................................................. 78</p><p>11.6.3.1 Solidariedade ativa.............................................................. 79</p><p>11.6.3.2 Solidariedade passiva..........................................................</p><p>11.6.3.3 Solidariedade mista.............................................................</p><p>79</p><p>79</p><p>12 Transmissão das Obrigações............................................................. 92</p><p>12.1 Da cessão de crédito.................................................................. 92</p><p>12.2 Da assunção de dívida............................................................... 95</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 3 de 146</p><p>12.3 Da cessão de contrato................................................................ 96</p><p>13 Adimplemento e extinção das obrigações......................................... 98</p><p>14 Formas especiais de pagamento e extinção das obrigações.............. 105</p><p>14.1 Do pagamento em consignação................................................. 105</p><p>14.2 Pagamento com sub-rogação..................................................... 110</p><p>14.3 Imputação do pagamento........................................................... 113</p><p>14.4 Dação em pagamento................................................................ 115</p><p>14.5 Novação..................................................................................... 117</p><p>14.6 Compensação............................................................................ 121</p><p>14.7 Confusão.................................................................................... 125</p><p>14.8 Remissão de dívidas.................................................................. 128</p><p>15 Inadimplemento das obrigações........................................................ 129</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 4 de 146</p><p>Todo direito encerra sempre uma ideia de obrigação. Pode-se dizer que não existe direito</p><p>sem obrigação e nem obrigação sem o correspondente direito: DIREITOS E DEVERES. Vários</p><p>são os conceitos apresentados pela doutrina acerca do tema de estudo.</p><p>1. CONCEITO DE OBRIGAÇÃO:</p><p>O Direito é o ordenamento das relações sociais. Só existe Direito porque há sociedade (ubi</p><p>societas, ibi jus). Assim, em princípio, para um único homem isolado em uma ilha, existirá Direito,</p><p>porém, quando esse homem receba a visita de semelhante. Isto porque, não mais estando o</p><p>indivíduo só, irá relacionar-se com outro homem, e essa relação poderá ser jurídica (regular fatos</p><p>que interessam para o Direito).</p><p>A doutrina ambientalista afirma que independente da convivência em sociedade, todos</p><p>devem respeito aos princípios e regras ambientais, mesmo que seja somente uma pessoa, uma vez</p><p>que a preservação deve sempre existir em atenção ao meio ambiente.</p><p>Nesse sentido, essa concepção histórica do direito somente em sociedade, pode ser</p><p>analisada sob outro enfoque, quando o ser humano mesmo vivendo sozinho em uma ilha, deve</p><p>preservar os valores e recursos ambientais (meio ambiente). É posição dos ambientalistas.</p><p>A obrigação que será estudada é uma relação jurídica, esta que é a vinculação entre duas</p><p>ou mais pessoas gerando direitos e deveres.</p><p>Segundo Arnoldo Wald a relação jurídica é o vínculo existente entre pessoas, em virtude</p><p>negócio jurídico – ou seja, nexo causal entre o meio</p><p>intimidativo e o ato realizado pela vítima.</p><p>- Temor justificado – na maioria das hipóteses se trata de ameaça ou chantagem.</p><p>Exemplos como a ameaça de morte, cárcere privado, desonra, mutilação.</p><p>O grau de ameaça ou de chantagem deve ser apreciado pelo Juiz, para o reconhecimento</p><p>(ou não) do defeito e a anulação do ato.</p><p>- Dano iminente – suscetível de atingir a pessoa da vítima, sua família, seus bens etc.</p><p>- Dano grave e sério – ameaça deve ser grave (se a ameaça for indeterminada ou</p><p>impossível não é capaz de anular o ato) e séria, capaz de assustar a vítima (ou paciente).</p><p>Observação – O dano pode atingir pessoa não pertencente à família da vítima, hipótese em</p><p>que o Juiz decidirá com equidade, se houve ou não a coação.</p><p>A coação exercida por terceiro, ainda que dela não tenha ciência o contratante, vicia o</p><p>negócio (anulável). Se a coação exercida por terceiro for previamente conhecida pela parte a quem</p><p>aproveitar, esta responderá solidariamente com aquele por todas as perdas e danos (Art. 154 CC).</p><p>Excluem a coação (ou seja, não se configura coação):</p><p>- Ameaça do exercício normal de um direito (exercício regular de direito). Exemplo: se</p><p>você não pagar a dívida, vou protestar o título e ingressar com uma ação de execução ou requerer</p><p>sua falência;</p><p>- Simples temor reverencial - o receio de desgostar os pais, ou pessoas a quem se deve</p><p>respeito e obediência também é incapaz de viciar o negócio.</p><p>A coação prevista no Código Civil (Arts. 151 a 155) refere-se à coação moral (anulação),</p><p>uma vez que a coação física (inexistência de vontade) causa a nulidade do negócio.</p><p>3.6.4 – ESTADO DE PERIGO (Arts. 156, CC)</p><p>Conceito – quando alguém, premido da necessidade de salvar-se, ou a pessoa de sua</p><p>família, de grave dano conhecido pela outra parte, assume obrigação excessivamente onerosa (Art.</p><p>156 do CC). A vítima não errou, não foi induzida a erro ou coagida, mas pelas circunstâncias de um</p><p>caso concreto, foi compelida a celebrar um negócio que lhe era extremamente desfavorável.</p><p>Tratando-se de pessoa não pertencente à família do contratante o Juiz decidirá segundo as</p><p>circunstâncias.</p><p>A pessoa temerosa de grave dano moral ou material (situação equiparada ao estado de</p><p>necessidade, mas que com ele não se confunde), acaba assinando contrato, mediante prestação</p><p>exorbitante.</p><p>Exemplo: um pai teve filho sequestrado, sendo o que bandido lhe pediu 100 mil reais para</p><p>o resgate. Um “amigo” sabendo do problema, se oferece para comprar suas joias; estes valem 500</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 29 de 146</p><p>mil, mas ele oferece por 100 mil, que é o valor do resgate. O que faria um pai nesta hora?? Acaba</p><p>vendendo as joias para o “amigo” (que amigo!!!!!!!!) por valor muito inferior ao mercado.</p><p>Posteriormente pode anular o negócio.</p><p>Outros exemplos: vítima de acidente automobilístico que assume obrigação exagerada para</p><p>ser salva de imediato; venda de imóvel por valor ínfimo para poder pagar cirurgia de filho, que</p><p>corre risco de morte.</p><p>É necessário, em todos os exemplos fornecidos, que a outra parte tenha conhecimento da</p><p>situação de desespero do primeiro e se aproveite dessa situação.</p><p>Realizado um contrato sob um Estado de Perigo, a sanção é a anulação – Arts. 171, II e</p><p>178, II do CC.</p><p>O prazo é decadencial (pois atinge o direito propriamente dito) de 04 anos.</p><p>A anulação se dá pela ofensa ao senso de justiça que deve estar presente nos contratos em</p><p>razão da sua função social; a parte agiu contra o princípio da boa-fé objetiva, pois se aproveitou da</p><p>situação de necessidade para tirar vantagem do negócio.</p><p>3.6.5 – LESÃO (Arts. 157, CC)</p><p>Trata-se de outra inovação do atual Código.</p><p>Este instituto tem o intuito de proteger o contratante em posição de inferioridade ante o</p><p>prejuízo por ele sofrido na conclusão do contrato, devido a desproporção existente entre as</p><p>prestações.</p><p>Decorre do abuso praticado em situação de desigualdade, punindo a chamada “cláusula</p><p>leonina” (alguns autores também chamam de cláusula draconiana) e o aproveitamento indevido na</p><p>realização do contrato.</p><p>Exemplo: pessoa está em vias de ser despejado e, premido pela necessidade de abrigar sua</p><p>família e não ver seus bens deixados ao relento, acaba realizando outro contrato por valor muito</p><p>acima do mercado, negócio esse que, se tivesse condição de meditar, jamais faria.</p><p>Conceito (Art. 157, CC) - prescreve que ocorre a lesão quando uma pessoa, sob premente</p><p>necessidade, ou por inexperiência, se obriga a prestação manifestamente desproporcional ao valor</p><p>da prestação oposta. Aprecia-se a desproporção das prestações segundo os valores vigentes ao</p><p>tempo em que o contrato foi celebrado.</p><p>Requisitos:</p><p>► Objetivo – manifesta desproporção entre as prestações recíprocas.</p><p>►Subjetivo – aproveitamento de necessidade, de inexperiência alheia ou premente</p><p>necessidade, levando-a a realizar negócio que lhe é prejudicial.</p><p>Ocorrendo a lesão, a sanção é a anulação do ato – Arts. 171, II e 178, II do CC. O prazo é</p><p>decadencial – atinge o direito propriamente dito – de 04 (quatro) anos.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 30 de 146</p><p>É importante acrescentar que não se decretará a anulação do negócio se for oferecido</p><p>suplemento suficiente, ou se a parte favorecida concordar com a redução do proveito (lesão especial</p><p>ou qualificada). Exemplo: a pessoa favorecida reconhece que exorbitou e concorda na redução da</p><p>prestação que lhe era extremamente favorável; evita-se assim, a anulação do ato.</p><p>Estado de Perigo x Lesão – diferença básica</p><p>Enquanto no estado de perigo o contratante, entre as consequências do grave dano que o</p><p>ameaça e o pagamento de uma quantia exorbitante, opta pelo último (com a intenção de minimizar</p><p>ou sanar o mal), na lesão o contratante, devido a uma necessidade econômica, realiza negócio</p><p>desproporcional; há uma situação de hipossuficiência de uma das partes e o aproveitamento desta</p><p>circunstância pela outra.</p><p>4. VÍCIOS SOCIAIS</p><p>No vício social, embora a vontade se manifeste de acordo com o desejo dos contratantes, a</p><p>intenção é sempre de prejudicar um terceiro.</p><p>4.1 – FRAUDE CONTRA CREDORES (Arts. 158 a 165, CC)</p><p>Constitui fraude contra credores a prática maliciosa, pelo devedor, de atos que desfalcam</p><p>seu patrimônio, com o fim de colocá-lo a salvo de uma execução por dívidas em detrimento dos</p><p>direitos creditórios alheios. Ressalvadas as hipóteses de credores com garantia real (exemplo: uma</p><p>casa em garantia do pagamento da dívida) os demais credores estão em idênticas condições no</p><p>recebimento de seus créditos.</p><p>Se o patrimônio do devedor não for suficiente para o pagamento de todos os credores</p><p>haverá um rateio (divisão). E, no caso de o devedor praticar atos com a finalidade de frustrar o</p><p>pagamento devido, ou tendentes a violar a igualdade entre os credores, ocorrerá a fraude contra</p><p>credores. Observe que não é a vontade que se encontra viciada; o vício reside na finalidade ilícita do</p><p>ato (portanto é um vício social).</p><p>São suscetíveis de fraude os negócios realizados:</p><p>- A título gratuito - doação de bens, perdão (remissão) de dívidas. Exemplo: Marta deve</p><p>uma determinada importância e não deseja pagá-la, tem bens para saldar a dívida; então começa a</p><p>“doar” seus bens. Basta a prática de um desses atos em estado de insolvência, para se presumir a</p><p>fraude. Não se exige má-fé. O ato pode ser anulado pelos credores quirografários.</p><p>- A título oneroso - se o negócio foi oneroso, saiu um bem do patrimônio do devedor</p><p>(exemplo: um imóvel), mas entrou outro bem (o dinheiro). Desde que insolvente ou for notória a</p><p>insolvência (exemplo: já havia protestos contra o devedor), ou há presunção</p><p>de que irá dissipar o</p><p>que recebeu (exemplo: venda do único imóvel além do bem de família em data próxima do</p><p>vencimento das obrigações e não há outros bens para solver o débito; parentesco próximo, amizade</p><p>íntima, o preço vil).</p><p>Será reputada uma venda fraudulenta se não houver dinheiro suficiente para pagar o</p><p>credor. Se houver sobra patrimonial que permita honrar seus débitos, não haverá fraude contra</p><p>credores. Se o comprador não tinha como saber o estado de insolvência do vendedor (estava de boa-</p><p>fé) não se anula o negócio (protege-se o comprador, pois como vimos nosso Código protege quem</p><p>age de boa-fé).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 31 de 146</p><p>- Pagamento antecipado das dívidas - por si só não é fraude. Mas se o devedor insolvente</p><p>paga dívida ainda não vencida em detrimento de outras que já se venceram, frustrando a igualdade</p><p>entre os credores, há fraude contra credores, sendo o primeiro pagamento anulado.</p><p>Alguns conceitos – algumas palavras que falamos acima são importantes para um melhor</p><p>entendimento da matéria:</p><p>- Credor Quirografário - é o credor sem garantias especiais. Ele conta apenas com a</p><p>garantia comum a todos os credores: o patrimônio do devedor.</p><p>- Insolvência - é um estado de fato e ocorre quando a soma do patrimônio ativo do</p><p>devedor é inferior à do passivo; o valor das dívidas excede o valor dos bens.</p><p>Ação Pauliana</p><p>Os atos eivados de fraude contra credores são anuláveis através de ação própria, chamada</p><p>de pauliana; é uma ação declaratória de ineficácia do negócio. Deve ser proposta pelos credores</p><p>quirografários (e que já o eram ao tempo da alienação fraudulenta) contra o devedor insolvente e</p><p>contra a pessoa que celebrou negócio jurídico com o fraudador ou contra terceiros adquirentes que</p><p>haja procedido de má fé.</p><p>O principal efeito desta ação é revogar o negócio lesivo aos interesses dos credores,</p><p>repondo o bem no acervo sobre o qual se efetuará o concurso de credores. O prazo decadencial para</p><p>o ajuizamento da ação é de 04 anos a contar da celebração do negócio (Arts. 171, II e 178, II do</p><p>CC).</p><p>Observação – vimos que os negócios jurídicos, quando praticados com determinados</p><p>vícios (erro ou ignorância essencial, dolo essencial, coação, lesão, estado de perigo etc.) podem ser</p><p>anulados. Mas, para que isso ocorra, é necessário ingressar com uma ação própria. A única ação que</p><p>tem um nome especial é a proveniente de fraude contra credores. Chamamos de “ação pauliana”.</p><p>Nos demais casos de anulação fala-se apenas em “ação de anulação”.</p><p>4.2 – SIMULAÇÃO (Arts. 158 a 165, CC)</p><p>Conceito - é a declaração enganosa da vontade, visando a obter resultado diverso do que</p><p>aparece, com o fim de criar uma aparência de direito, para iludir terceiros ou burlar a lei.</p><p>Exemplo: um homem, casado, possui uma amante; deseja doar um apartamento para a</p><p>amante; mas a lei não permite isso (nem a sua esposa deixaria); assim ele faz um contrato de</p><p>compra e venda, com escritura e registro, tudo aparentemente perfeito; mas na verdade, ele não</p><p>vendeu o bem, ele fez uma doação. Assim ele fingiu uma compra e venda, mas realizou uma</p><p>doação.</p><p>Não confundir a novidade do CC/2002 qual modificou o defeito da simulação que no</p><p>CC/1916 era ato anulável e passou a ser ATO NULO (Art. 167, CC).</p><p>Na simulação há um desacordo entre a vontade declarada e a vontade interna e não</p><p>manifestada. As partes fingem, criando uma aparência, uma ilusão externa, que oculta a real</p><p>intenção dos contratantes. Na simulação as duas partes contratantes estão combinadas (no exemplo</p><p>clássico que demos, o marido e a amante) e destina-se a iludir terceiros (a esposa ou os filhos).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 32 de 146</p><p>Desta forma o ato somente estará viciado (causando a nulidade) quando houver intenção de</p><p>prejudicar terceiros ou violar disposição de lei. A despeito do novo Código, a doutrina continua</p><p>classificando a simulação da seguinte forma:</p><p>1) Absoluta - ocorre quando a declaração enganosa de vontade exprime um negócio</p><p>jurídico, mas não há intenção de realizar negócio jurídico algum.</p><p>Exemplos: João, proprietário de uma casa alugada que, com a intenção de facilitar o</p><p>despejo contra seu inquilino, finge vendê-la a terceiro; não houve venda alguma; Lucas, casado com</p><p>Ana, emite um título de crédito (nota promissória) que na realidade não representa qualquer</p><p>negócio, feito em favor de um terceiro, com este combinado, com a intenção de prejudicar Ana, em</p><p>uma possível partilha numa separação (não há dívida alguma; tudo é fictício).</p><p>2) Relativa - ocorre quando uma pessoa, sob a aparência de um negócio fictício, pretende</p><p>realizar outro, que é o verdadeiro e diverso, no todo ou em parte, do primeiro. Há dois contratos: a)</p><p>o simulado (aquele que se declara, mas não se quer); b) o dissimulado (aquele que traduz a vontade</p><p>real das partes).</p><p>Neste caso, o que a lei determina é que o negócio dissimulado (ou seja, a vontade real do</p><p>contratante) será mantido, desde que válido na forma e na substância.</p><p>Exemplo: pai deseja doar um imóvel a um de seus filhos, mas não quer que este bem seja</p><p>trazido à colação quando de sua morte. Simula, então, uma compra e venda. Neste caso, se forem</p><p>obedecidos os requisitos legais da doação (negócio dissimulado, pois esta era a real intenção do pai</p><p>desde o início), ela será mantida. Note que neste caso o bem doado deve sair da parte disponível do</p><p>patrimônio do pai. Ou seja, ao contrário do que se pensa, um pai pode favorecer mais um filho em</p><p>detrimento de outro. Mas isso deve ser feito dentro da chamada “parte disponível” do pai.</p><p>Simulação X Reserva mental</p><p>Na reserva mental há a emissão de uma declaração unilateral de vontade não desejada nem</p><p>em seu conteúdo nem em seu resultado; o agente quer algo e o declara, conscientemente, coisa</p><p>diferente. Exemplo: uma pessoa que “empresta” dinheiro a outra pessoa que está desesperada, a</p><p>ponto de cometer um suicídio.</p><p>Na verdade, ela não quer fazer um contrato de mútuo (empréstimo), mas sim ajudar a</p><p>pessoa, doando o dinheiro. Ela quer ajudar essa pessoa doando o dinheiro, mas a outra não sabe que</p><p>é uma doação. Assim, ela finge que está emprestando, mas sabe que o devedor não terá condições</p><p>de lhe pagar o empréstimo. Portanto o “empréstimo”, na verdade foi “a fundo perdido”, ou seja,</p><p>uma doação. Outro exemplo: pessoa se casa, não com o intuito de contrair matrimônio, mas sim</p><p>para não ser expulsa do País etc.</p><p>O Art. 110, do CC prescreve: “a manifestação de vontade subsiste ainda que o seu autor</p><p>haja feito reserva mental de não querer o que manifestou, salvo se dela o destinatário tinha</p><p>conhecimento”. A reserva mental pode ser fraudulenta ou inocente, se houver ou não intenção de</p><p>prejudicar. Lembrando que na simulação há consenso entre os simuladores.</p><p>FINAL DA REVISÃO SOBRE NEGÓCIO JURÍDICO</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 33 de 146</p><p>DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>5. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Embora a parte das obrigações a que nos foi legada do Direito Romano de forma mais</p><p>estável, pois o direito de família e das sucessões, assim também de certa forma o direito das coisas,</p><p>ficaram presos a velhas instituições, precisamos ver que houve profunda evolução dentro das várias</p><p>fases do Direito que nos serviu de base. No Direito Romano, portanto, a teoria das obrigações</p><p>sofreu profunda evolução.</p><p>Devem ser destacados três momentos fundamentais na evolução do direito obrigacional:</p><p>fase pré-romana; fase romana; e fase moderna.</p><p>a) Fase pré-romana – A ideia de obrigação tinha caráter coletivo, comprometendo o</p><p>grupo inteiro, pois antes dos romanos não havia direito obrigacional, predominando</p><p>a desconfiança</p><p>mútua entre os grupos. Punia-se o grupo (comunidade) e não o individual.</p><p>Logo depois começou a prevalecer o caráter punitivo que acompanhava as obrigações,</p><p>evoluindo para as obrigações individuais, mantendo-se o aspecto punitivo de forma extremada, a</p><p>ponto de o próprio corpo do devedor responder pela obrigação.</p><p>Era comum nessa fase o devedor se tornar escravo do credor como forma de pagamento da</p><p>prestação devida, e em alguns casos mais extremos o não pagador era levado à morte em praça</p><p>pública.</p><p>No final dessa fase começa a surgir à noção de que a vontade individual poderia obrigar o</p><p>indivíduo, ganhando espaço os acordos, ajustes (contratos). “Palavra dada é palavra honrada”.</p><p>b) Fase romana – Nessa fase o conceito de obrigação já havia evoluído bastante,</p><p>entretanto ainda existia uma exagerada pessoalidade no vínculo, continuando ainda o devedor a</p><p>responder com seu próprio corpo (e não seus bens), podendo o mesmo ser reduzido à categoria de</p><p>escravo, cabendo ao credor, inclusive o direito de vender o devedor. Assim, o devedor que não</p><p>pagava passava a ser objeto.</p><p>O credor exercia um poder sobre o corpo do devedor NEXUM (espécie de empréstimo – do</p><p>verbo latim nectere, que significa ligar, prender, unir, atar).</p><p>Lex Poetelia Papiria do século IV a. C. foi a lei que suprimiu esse tipo de execução sobre a</p><p>pessoa do devedor, passando seus bens a garantir o cumprimento da obrigação. Dessa forma perdeu</p><p>prestígio a excessiva personalização da obrigação. Mesmo assim, a substituição para fazer recair a</p><p>execução sobre os bens do devedor foi lenta e ditada pelas necessidades da evolução da própria</p><p>sociedade romana.</p><p>O formalismo começa a ceder terreno à declaração de vontade. Nessa fase acrescenta-se</p><p>um elemento espiritual: o inadimplemento é pecado. As obrigações ganham um maior conteúdo de</p><p>moralidade, influenciadas pela igreja (questão religiosa) que pesou decisivamente para que os</p><p>princípios de ordem moral fossem acolhidos pelo Direito.</p><p>Ao final dessa fase, ficou mais evidente a regra da força obrigatória dos contratos,</p><p>influenciada pelo princípio do respeito à palavra dada nos contratos.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 34 de 146</p><p>c) Fase moderna – direito moderno – Na sua essência foi retomada a concepção romana,</p><p>com algumas atualizações. Pothier ao elaborar o Código Napoleônico (França - 1804) buscou suas</p><p>fontes no direito romano. O Código de Napoleão de 1804, que até os dias atuais é o Código Civil</p><p>francês, consagrou expressamente essa conquista iniciada ainda que precariamente no Direito</p><p>Romano, qual seja a de que os bens do devedor são uma garantia para os seus credores,</p><p>persistindo aos dias atuais.</p><p>Passou-se a adotar a impessoalidade das obrigações, a ponto de alguns autores defenderem</p><p>que a obrigação era uma relação que surge entre credor e o patrimônio do devedor. Juridicamente</p><p>essa colocação não é precisa, pois o direito cuida das relações entre pessoas, jamais entre sujeito e</p><p>objeto.</p><p>Atualmente é unânime a concepção de que a relação obrigacional se estabelece entre</p><p>pessoas e caso não cumprida é que se projetará sobre o patrimônio do devedor, através da execução.</p><p>Isso porque, passada a fase da antiguidade na qual o vínculo era estritamente pessoal, é sobre o</p><p>patrimônio do devedor que vai recair a satisfação do credor. Essa regra foi fundamental para a</p><p>construção teórica moderna do Direito das Obrigações, inclusive o brasileiro.</p><p>6. FONTES (ORIGEM) DAS OBRIGAÇÕES NO CÓDIGO CIVIL DE 2002</p><p>1. CONTRATO</p><p>2. ATO (DECLARAÇÃO) UNILATERAL DA VONTADE</p><p>3. ATO ILÍCITO</p><p>4. A LEI</p><p>6.1 Contrato – é acordo ou o ajuste entre as partes oriundo da vontade humana, com o</p><p>intuito de criar, modificar ou extinguir direitos.</p><p>O conceito dado dentro do método do Código Civil de 1916 de Clóvis Bevilácqua era de</p><p>que “o contrato é o acordo de vontades para o fim de adquirir, resguardar, modificar ou</p><p>extinguir direitos”.</p><p>O Código Civil italiano, de 1942, conceitua contrato como o acordo de duas ou mais</p><p>partes para constituir, regular ou extinguir, entre si, uma relação jurídica patrimonial.</p><p>O contrato constitui uma espécie de negócio jurídico, dependendo, para sua formação, do</p><p>encontro de uma ou mais vontades contrapostas, por ser ato regulamentador de interesses privados.</p><p>É, portanto, negócio jurídico bilateral ou plurilateral.</p><p>Exemplos de contratos mais comum celebrados na sociedade: compra e venda,</p><p>doação, prestação de serviços, locação, comodato, mútuo, transporte, depósito.</p><p>Para segurança jurídica o contrato deve ser assinado por 2 testemunhas para valer como</p><p>título executivo extrajudicial:</p><p>Código de Processo Civil/2015:</p><p>Art. 783. A execução para cobrança de crédito fundar-se-á sempre em título de obrigação</p><p>certa, líquida e exigível.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 35 de 146</p><p>Art. 784. São títulos executivos extrajudiciais:</p><p>III - o documento particular assinado pelo devedor e por 2 (duas) testemunhas;</p><p>6.2 Atos ilícitos – os atos contrários ao ordenamento jurídico, praticados com dolo ou</p><p>culpa em regra, e independentemente de culpa por exceção. Tem relação direta com o estudo da</p><p>Responsabilidade Civil. Ver Arts. 927, 186 e 187, do CC8.</p><p>6.3 Lei – pode-se dizer ainda que a obrigação resulta da vontade do Estado, numa</p><p>classificação subsidiária (quando não ocorrer um contrato, ato unilateral ou ato ilícito) por</p><p>intermédio da própria lei. Tem natureza de ato jurídico em sentido estrito.</p><p>Vale dizer que “a lei” é uma fonte geral das obrigações e as demais uma divisão contida na</p><p>lei.</p><p>Exemplos:</p><p>- Descoberta: Art. 1.233. Quem quer que ache coisa alheia perdida há de restituí-la ao</p><p>dono ou legítimo possuidor (descoberta).</p><p>- Pagar alimentos – pensão alimentícia. Art. 1.694. Podem os parentes, os cônjuges ou</p><p>companheiros pedir uns aos outros os alimentos de que necessitem para viver de modo compatível</p><p>com a sua condição social, inclusive para atender às necessidades de sua educação.</p><p>§ 1o Os alimentos devem ser fixados na proporção das necessidades do reclamante e dos</p><p>recursos da pessoa obrigada.</p><p>§ 2o Os alimentos serão apenas os indispensáveis à subsistência, quando a situação de</p><p>necessidade resultar de culpa de quem os pleiteia.</p><p>ATENÇÃO:</p><p>Princípio da Boa-fé Objetiva:</p><p>Trata-se um princípio estabelecido e enaltecido pelo atual Código Civil em consonância</p><p>com a Constituição Federal de 1988.</p><p>Segundo este princípio, as partes devem agir com lealdade, honestidade probidade e</p><p>confiança recíprocas, com o dever de cuidado, cooperação, informando o conteúdo do negócio e</p><p>agindo com equidade e razoabilidade: é a atuação que se espera de qualquer pessoa.</p><p>A expressão “boa-fé” deriva do latim bona fide, que significa boa confiança, ou seja, a</p><p>convicção de alguém que acredita estar agindo de acordo com a lei, isto é, a conduta normal</p><p>esperada pela sociedade (homem médio, ou como prefiro: pessoa média).</p><p>8 Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.</p><p>Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a</p><p>outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.</p><p>Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites</p><p>impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 36 de 146</p><p>Conforme dispõe o Art. 422 CC: “Os contratantes são obrigados a guardar, assim na</p><p>conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé”. Indispensável</p><p>salientar</p><p>que não existe o princípio da probidade, esta está inserida no princípio da boa-fé objetiva.</p><p>Portanto, a observância deste princípio deve estar presente no momento da elaboração, na</p><p>conclusão e execução de uma obrigação (oriunda de qualquer fonte – contrato, ato unilateral, ato</p><p>ilícito, lei), e até mesmo depois da obrigação.</p><p>Vale ressaltar que um contrato, além de sua função econômica de circulação de riquezas,</p><p>serve, também, de mecanismo para se atingir a justiça social, solidariedade, dignidade da pessoa,</p><p>que são objetivos primordiais de nossa sociedade, estabelecidos na Constituição Federal. Um</p><p>contrato deve ser útil e justo. A quebra deste dever gera a violação e consequentemente a</p><p>responsabilização.</p><p>6.4 Ato (declaração) unilateral da vontade – equiparáveis ao contrato, mas origina-se</p><p>exclusivamente pela manifestação unilateral da vontade, por exemplo, a gestão de negócio, a</p><p>promessa de recompensa, que adiante serão estudados em seus pormenores.</p><p>Como já foi estudado, a obrigação não nasce de um contrato, da prática de um ato ilícito,</p><p>da lei9 ou de uma declaração de vontade.</p><p>Desta feita, pode uma obrigação nascer em decorrência de uma conduta unilateral de</p><p>alguém, que se obriga ou obriga a outrem. Os atos unilaterais são fontes das obrigações, ou seja,</p><p>para surgir obrigações (devedor e credor) deve-se ter uma origem, uma causa no direito.</p><p>Cumpre diferenciar os atos unilaterais dos contratos, especialmente quanto à sua formação.</p><p>Nos contratos, a obrigação nasce a partir do momento em que for verificado o encontro de</p><p>vontades (acordo) entre as partes negociantes, em regra.</p><p>Nas declarações unilaterais de vontade ou atos unilaterais a obrigação nasce da simples</p><p>declaração de uma única parte, formando-se no instante em que o agente se manifesta com a</p><p>intenção de assumir um dever obrigacional. Sendo emitida a declaração de vontade, esta se torna</p><p>plenamente exigível ao chegar ao conhecimento a quem foi direcionada.</p><p>NATUREZA JURÍDICA: manifestação (ato) unilateral, diferenciando-se dos contratos:</p><p>bilateralidade de vontades contratual.</p><p>CONTRATOS</p><p>ATOS UNILATERAIS</p><p>ACORDO (AJUSTE) ENTRE AS PARTES –</p><p>VONTADE BILATERAL</p><p>VONTADE/DECLARAÇÃO UNILATERAL –</p><p>SEM AJUSTE ENTRE AS PARTES</p><p>Disciplina do CC/2002: destacados como em título com 04 modalidades:</p><p>9 Há obrigações que resultam diretamente da lei: alimentos, indenizar os danos causados por seus empregados, entregar</p><p>coisa alheia achada.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 37 de 146</p><p>☺ PROMESSA DE RECOMPENSA: Arts.</p><p>854 a 860, CC</p><p>☺ GESTÃO DE NEGÓCIOS:</p><p>Arts. 861 a 875, CC.</p><p>☺ PAGAMENTO INDEVIDO:</p><p>Arts. 876 a 883, CC.</p><p>☺ ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA:</p><p>Arts. 884 a 886, CC.</p><p>PROMESSA DE RECOMPENSA:</p><p>CONCEITO: Aquele que, por anúncios públicos, se comprometer a recompensar, ou</p><p>gratificar, a quem preencha certa condição, ou desempenhe certo serviço, contrai obrigação de</p><p>cumprir o prometido. Conceito este descrito pelo próprio legislador (Art. 854, CC)10.</p><p>Segundo Ricardo Fiúza, a promessa de recompensa pode ser definida como o ato</p><p>obrigacional de alguém que, por anúncio público, se compromete a recompensar, ou gratificar,</p><p>pessoa que preencha certa condição ou desempenhe certo serviço. É uma das formas de obrigação</p><p>resultante de declaração unilateral da vontade. Significa a aplicação do princípio da obrigatoriedade</p><p>da promessa feita a pessoa ausente.</p><p>NATUREZA JURÍDICA: duas correntes:</p><p>- O vínculo obrigatório somente se forma com a manifestação do terceiro (pessoa) que</p><p>preencheu a condição ou desempenhou o serviço, aceitando-a.</p><p>- Considera negócio jurídico unilateral: obriga aquele que emite a declaração de vontade</p><p>desde o momento em que ela se torna pública, independentemente de qualquer aceitação</p><p>(CC/2002).</p><p>Exemplos: feitas a quem encontrar um objeto (animal, carteira com documentos), ou</p><p>pessoa desaparecida, informações que levem a captura de criminosos, professor promete atribuir</p><p>nota 10 para quem não faltar suas aulas, quem levantar 10000 kg (peso).</p><p>Situação hipotética: caso em que alguém perdeu um animal de estimação, um cachorro.</p><p>Para recuperar o animal, o dono coloca uma faixa em uma avenida de grande circulação, oferecendo</p><p>uma recompensa. Alguém que conhece o cão e o seu dono, mas que no momento desconhece a</p><p>promessa, encontra o animal e o leva à casa do seu proprietário. Essa pessoa terá direito à</p><p>recompensa, pois agiu conforme os ditames da boa-fé objetiva (atuação da forma que se espera de</p><p>10 Recompensa para ser mais bem compreendida é preciso fazer menção ao direito real. Ela é atribuída a quem acha</p><p>COISA ALHEIA MÓVEL PERDIDA, que no CC/16 era chamada de INVENÇÃO, que era tratada como forma de</p><p>aquisição da propriedade de coisa móvel. No atual CC/02, não houve a extinção da invenção, mas, sim atribuição de</p><p>outra nomenclatura para DESCOBERTA e colocação em outro lugar dentro do código, agora está tratada no artigo</p><p>1.233 e 1.234, em seção dentro do capítulo DA PROPRIEDADE EM GERAL.</p><p>Quem acha coisa alheia móvel perdida tem direito a uma recompensa, que será arbitrada pelo juiz em valor não inferior</p><p>a 5% do valor da coisa encontrada (artigo 123410). Mas, essa recompensa pode ter sido prometida pelo dono da coisa</p><p>(não pode a promessa ser inferior ao mínimo que o código determina); quando há a promessa de recompensa, o dono</p><p>estará obrigando-se por ato unilateral.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 38 de 146</p><p>toda e qualquer pessoa). Também terá direito aos valores gastos com o cumprimento da tarefa,</p><p>como, por exemplo, as despesas feitas para a alimentação do animal, cuidados veterinários e</p><p>transporte.</p><p>REQUISITOS:</p><p>ESPECÍFICOS:</p><p>a) publicidade (pelo menos duas pessoas);</p><p>b) especificação da condição a ser preenchida ou do serviço a ser desempenhado;</p><p>c) indicação da recompensa ou gratificação.</p><p>GERAIS: para a validade do negócio jurídico (Art. 104, CC): sujeito capaz, objeto lícito,</p><p>possível, determinado ou determinável e forma não proibida em lei.</p><p>A pessoa que cumprir a tarefa prevista na declaração, executando o serviço ou satisfazendo</p><p>a condição, ainda que não esteja movida pelo interesse da promessa, poderá exigir a recompensa</p><p>estipulada (Art. 855 do CC). Esse dispositivo valoriza a eticidade e a boa-fé objetiva.</p><p>A promessa feita com publicidade é dirigida a qualquer pessoa. Se alguém apresentar</p><p>aquilo que foi publicamente pedido, o promitente (aquele que se obriga, por promessa, a dar, fazer</p><p>ou não fazer alguma coisa) vinculado por sua promessa tem de aceitar a prestação, ou cumprir o que</p><p>prometeu. Não é necessário que o serviço tenha sido realizado no interesse da recompensa. Basta</p><p>que corresponda às condições do anúncio, a não ser que o promitente haja, de modo expresso,</p><p>exigido um ato que se realize por causa de sua solicitação.</p><p>Com efeito, O executor é credor do devedor promitente, em caso de inadimplemento (ação</p><p>de cobrança, efeitos do inadimplemento, obrigação de fazer, não fazer).</p><p>EXECUTADO POR MAIS DE UMA PESSOA: Art. 857, 858, CC. Primeiro que</p><p>executou o serviço (concurso de beleza ou de força), se simultânea a execução (quota parte – se</p><p>indivisível: sorteio e aquele que ficar com a coisa dará ao outro a quota parte – quinhão).</p><p>Extrai-se que no caso da execução conjunta ou plúrima (vários sujeitos), sendo o ato</p><p>contemplado na promessa praticado por mais de um indivíduo, terá direito à recompensa o que</p><p>primeiro o executou (Art. 857 do CC). Entretanto, sendo simultânea a execução, a cada um tocará</p><p>quinhão igual na recompensa, caso seja possível a divisão (Art. 858 do CC). Se a estipulação tiver</p><p>como conteúdo um bem indivisível, deverá ser realizado um sorteio.</p><p>Aquele</p><p>que obtiver a coisa (vencedor) dará ao outro o valor correspondente ao seu</p><p>quinhão. Esse sorteio deverá ser realizado dentro das regras legais, da razoabilidade e do bom senso</p><p>(mais uma aplicação da eticidade, da boa-fé objetiva).</p><p>Exemplo: a recompensa do concurso é um carro no valor de R$ 20.000,00, ocorrendo o</p><p>sorteio, o credor que ficar com o carro, repassará ao outro credor o valor de R$ 10.000,00.</p><p>PUBLICIDADE: não é relevante o meio pelo qual a proposta é veiculada (imprensa</p><p>escrita ou falada, sala, auditório, parque, rua), dirigida a pessoas indeterminadas. Caso ocorra a</p><p>individualização estaremos diante de um contrato (acordo entre as partes).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 39 de 146</p><p>REVOGABILIDADE DA PROMESSA: o Art. 856, CC, assim dispõe: antes de prestado</p><p>o serviço ou preenchida a condição, pode o promitente revogar a promessa, contanto que o faça com</p><p>a mesma publicidade; se houver assinado prazo à execução da tarefa, entender-se-á que renuncia o</p><p>arbítrio de retirar, durante ele, a oferta. Parágrafo único. O candidato de boa-fé, que houver feito</p><p>despesas, terá direito a reembolso.</p><p>A promessa pode ser revogada antes de prestado o serviço ou cumprida a condição, desde</p><p>que seja dada à revogação a mesma publicidade dispensada à promessa. Se, contudo, for fixado</p><p>prazo para o cumprimento da tarefa, subentende-se que, durante esse período, o promitente renuncia</p><p>o direito à revogação.</p><p>Fica salvaguardado ao candidato de boa-fé o reembolso das despesas eventualmente feitas,</p><p>antes da revogação. Mais uma vez é valorizado no novo Código Civil o princípio da boa-fé, que</p><p>deve estar sempre presente nas relações obrigacionais.</p><p>Discute-se se haverá direito à recompensa se o candidato tiver executado a tarefa a</p><p>contento, não sabendo da revogação da estipulação. Pela valorização da boa-fé e pelo que consta do</p><p>Art. 855, é forçoso concluir que a resposta não pode ser outra que não a positiva.</p><p>Nesse sentido, vale citar o Código Civil português, que estabelece em seu Art. 459,</p><p>(parágrafo) 2: "Na falta de declaração em contrário, o promitente fica obrigado mesmo em relação</p><p>àqueles que se encontrem na situação prevista ou tenham praticado o fato sem atender à promessa</p><p>ou na ignorância dela".</p><p>OBJETO: necessário sua especificação, isto é, a condição a ser preenchida ou do serviço a</p><p>ser desempenhado.</p><p>RECOMPENSA OU GRATIFICAÇÃO: pode ser a entrega de um objeto (dar),</p><p>realização de uma atividade (fazer: realizar um tratamento médico – cirurgião plástico), não</p><p>necessariamente a entrega de dinheiro.</p><p>Observação: quando não indicada a recompensa/gratificação – caso concreto dependendo</p><p>do serviço, despesas, incômodos, dificuldades.</p><p>PROMESSA FORMULADA EM CONCURSO PÚBLICO: Art. 859, 860, CC. Fixação</p><p>de prazo (trabalhos literários, científicos e artísticos).</p><p>No caso de concursos que se abrirem com promessa pública de recompensa, é condição</p><p>essencial, para valerem, a fixação de um prazo, observadas também as regras analisadas</p><p>anteriormente (Art. 859 do CC).</p><p>Nesses concursos, é comum a nomeação de um juiz (árbitro), que irá avaliar os trabalhos.</p><p>A decisão dessa pessoa nomeada, nos anúncios, como juiz, obriga os interessados (Art. 859, §1°, do</p><p>CC).</p><p>Na falta dessa pessoa designada para julgar o mérito dos trabalhos que se apresentarem,</p><p>entender-se-á que o promitente da recompensa reservou para si esta função (§ 2°). Se os trabalhos</p><p>tiverem mérito igual, proceder-se-á de acordo com as regras vistas para a promessa de recompensa:</p><p>anterioridade, divisão e sorteio (§3°).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 40 de 146</p><p>Por fim, nos concursos públicos, as obras premiadas só ficarão pertencendo ao promitente</p><p>se assim for estipulado na publicação da promessa (Art. 860 do CC).</p><p>Para exemplificar, em concursos de monografias jurídicas os trabalhos pertencem aos seus</p><p>autores, em geral, aplicando-se as regras de proteção previstas na Lei de Direitos Autorais (Lei</p><p>9.610/1998). Porém, é possível convencionar que os direitos patrimoniais de exploração da obra</p><p>premiada passarão a pertencer àquele que idealizou o concurso.</p><p>Explica Ricardo Fiúza que no novo Código Civil, à feição do Código Civil de 1916, é feita</p><p>a distinção entre a promessa de recompensa a um ato qualquer ou atendimento de condições pedidas</p><p>por anúncio público, e o concurso, que sendo uma variedade dessa espécie, oferece particularidades</p><p>que reclamam disciplina adequada.</p><p>O concurso a que se refere esse artigo diferencia-se dos serviços de que trata o Art. 854,</p><p>pois, por exemplo, achar objetos perdidos ou mesmo denunciar criminosos, exige certo esforço ou</p><p>alguma astúcia, que difere, evidentemente, do certame, que exige além disso, capacidade técnica</p><p>(vestibular de ingresso a curso superior).</p><p>Quem se submete ao concurso de que fala esse artigo aceita a decisão da pessoa nomeada</p><p>no anúncio como julgadora do mérito dos trabalhos apresentados ou, na falta deste ao julgamento,</p><p>do anunciante, desde que essa decisão se ajuste às condições fixadas no anúncio.</p><p>GESTÃO DE NEGÓCIOS (Arts. 861 a 875, CC):</p><p>CONCEITO: Aquele que, sem autorização do interessado, intervém na gestão de negócio</p><p>alheio, dirigi-lo-á segundo o interesse e a vontade presumível de seu dono, ficando responsável a</p><p>este e às pessoas com que tratar.</p><p>Quando uma pessoa, sem autorização do interessado, intervém na administração de</p><p>negócio alheio, dirigindo-o segundo o interesse e a vontade presumível de seu dono.</p><p>É a administração oficiosa feita sem procuração.</p><p>Outro conceito: é a administração oficiosa (sem prévio acordo) de negócio alheio</p><p>(negócio em sentido amplo), ocorre quando alguém unilateralmente se apressa a cuidar do negócio</p><p>alheio, está assim gerando uma obrigação para terceiro (titular do interesse que oficiosamente está</p><p>sendo gerido pelo gestor) e não para si próprio.</p><p>PARTES: gestor e dono do negócio.</p><p>Na gestão de negócios há uma atuação sem poderes, uma hipótese em que a parte atua sem</p><p>ter recebido expressamente a incumbência. Na verdade, há no caso em questão um quase contrato.</p><p>Dessa forma, o gestor, que age sem mandato, fica diretamente responsável perante o dono do</p><p>negócio e terceiros com quem contratou.</p><p>A gestão, pela ausência de orientação dada pelo dono, não tem natureza contratual, pois</p><p>está ausente o prévio acordo de vontades. Dessa forma, poderá a gestão ser provada de qualquer</p><p>modo, eis que se trata de negócio jurídico informal (Art. 107 do CC).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 41 de 146</p><p>A posição do gestor é delicada, pois, além de não ter direito a qualquer remuneração pela</p><p>atuação (negócio jurídico benévolo/gratuito), deve agir conforme a vontade presumível do dono do</p><p>negócio, sob pena de responsabilização civil (Art. 861 do CC).</p><p>Conforme leciona Ricardo Fiúza, Gestão de Negócio é a administração não autorizada</p><p>(espontânea e à revelia) de negócios alheios, feita independentemente de mandato. A procuração, na</p><p>espécie, é espontânea e presumida uma vez que o gestor (administrador não autorizado) procura</p><p>fazer aquilo que o dono do negócio o encarregaria, se soubesse da necessidade da providência.</p><p>Exemplos: gestor de negócios o herdeiro de uma fazenda, que a administra sem oposição</p><p>dos demais herdeiros, e o condômino de coisa indivisível, que cuida do bem em comum como se</p><p>seu fosse e sem oposição dos demais, apenas prestando contas de sua gestão (recebimento de</p><p>alugueres, arrendamentos).</p><p>- Vizinhos que mantém as despesas do vizinho ausente; despesas de funeral no exterior,</p><p>alguém que presenciando estragos em prédio alheio, faz os reparos necessários a sua conservação;</p><p>socorre</p><p>alguém, levando-a ao hospital e paga as despesas.</p><p>PARA REFORÇAR A EXEMPLIFICAÇÃO:</p><p>EXEMPLO 01: vizinho que percebe que a casa do vizinho, que está viajando, não tem</p><p>como ter contato, está ruindo por um defeito; assim, o vizinho que fica providencia o conserto da</p><p>casa, criando para o dono da casa a obrigação de indenizá-lo.</p><p>EXEMPLO 02: dois amigos estão viajando, quando um deles morre e o outro cuida de</p><p>todas as despesas de traslado e tratamento do corpo; o amigo sobrevivente cria a obrigação de</p><p>indenização para os herdeiros.</p><p>OBJETIVO: evitar o prejuízo ao dono do negócio, com boa-fé.</p><p>PRESSUPOSTOS:</p><p>a) Negócio alheio (sem sentido técnico jurídico, mas interesse em sentido amplo);</p><p>b) Ausência de autorização do dono (Art. 861, CC), porém deve ser feita comunicação</p><p>do gestor ao dono (Art. 864, CC), sendo possível. É um negócio espontâneo e improvisado do</p><p>gestor, procedendo como o faria o próprio dono do negócio;</p><p>- O dono não deve ter até então, conhecimento do ocorrido, pois caso dê autorização:</p><p>MANDATO TÁCITO (Art. 656, CC);</p><p>c) Atuação do gestor no interesse e vontade presumida: o gestor faz exatamente o que o</p><p>dono do negócio desejaria, se estivesse presente;</p><p>d) Limitar a ação a atos de natureza patrimonial: exclui-se os de natureza familiar (pai,</p><p>filho, cônjuge);</p><p>e) Intervenção por necessidade ou utilidade: despachante que paga o imposto de cliente</p><p>de outro negócio, no último dia do prazo.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 42 de 146</p><p>Deve-se lembrar que se a gestão for iniciada contra a vontade manifesta ou presumível do</p><p>dono, responderá o gestor por caso fortuito (evento totalmente imprevisível) e força maior (evento</p><p>previsível, mas inevitável), conforme a regra constante do Art. 862 do CC.</p><p>Se os prejuízos da gestão excederem o seu proveito, poderá o dono do negócio exigir que o</p><p>gestor restitua as coisas ao estado anterior, ou que indenize o valor correspondente à diferença (Art.</p><p>863 do CC).</p><p>Nesses casos, a gestão perde sua característica de intervenção benevolente e de realização</p><p>da vontade presumida do dono do negócio. É considerada ato abusivo, e somente o seu sucesso</p><p>pode inocentar o gestor, cuja responsabilidade é maior.</p><p>Diante do princípio da boa-fé objetiva, que valoriza o dever anexo de informação, deverá o</p><p>gestor de negócio, assim que lhe for possível, comunicar ao dono a sua atuação, aguardando a</p><p>resposta se dessa espera não resultar perigo (Art. 864 do CC).</p><p>O gestor de negócio é um gestor oficioso que assume as funções de mandatário para</p><p>atender o dono do negócio, ou pela necessidade urgente de tornar uma providência (judicial ou</p><p>extrajudicial). Como não tem autorização para assim proceder, deve, desde logo, levar o fato ao</p><p>conhecimento do dono do negócio, que pode concordar com a continuidade da gestão ou</p><p>interrompê-la.</p><p>Se for necessária, todavia, uma ação pronta, por estar em perigo de serem prejudicados os</p><p>interesses do dono do negócio, não estará o gestor oficioso obrigado a esperar a sua resposta, não</p><p>aumentando, nessa hipótese, sua responsabilidade.</p><p>Exemplo: Pense-se o caso de Lucas viajou para outro país, com sua família, permanecendo</p><p>fora de sua residência por 10 dias. Na prática, quando a pessoa viaja não deixa uma procuração</p><p>(instrumento do contrato de mandato) para o vizinho apagar eventual incêndio que acometer a sua</p><p>casa. No dia seguinte, iniciou-se um incêndio da casa de Lucas, e o vizinho, Sr. João agindo como</p><p>gestor ao perceber o incêndio, invade a casa de Lucas arrebentando a porta. Para apagar o fogo que</p><p>começa a consumir um dos dormitórios, o Sr. João pega um tapete e consegue abafar as chamas,</p><p>tendo sucesso em sua empreitada, sem a intervenção do corpo de bombeiros.</p><p>Algumas regras do Código Civil de 2002 devem ser analisadas, para uma conclusão</p><p>concreta a respeito da atuação do gestor.</p><p>Primeiro, deve-se verificar se o gestor agiu da mesma forma como agiria o dono da</p><p>residência, ou seja, se empregou toda a diligência habitual. Em regra, o gestor somente deve ser</p><p>responsabilizado se tiver agido com culpa, havendo responsabilidade subjetiva11 (Art. 866 do CC).</p><p>Mas se na atuação o gestor se fizer substituir por outrem, responderá pelas faltas do</p><p>substituto, ainda que este seja pessoa idônea e sem prejuízo da eventual propositura de ação</p><p>regressiva (Art. 867 do CC).</p><p>A responsabilidade do gestor por ato de terceiro é objetiva (independente de culpa) e</p><p>solidária, aplicando-se os Arts. 932, III, 933 e 942, parágrafo único, do CC, por analogia. Se a</p><p>gestão for conjunta, prestada por várias pessoas, há regra específica, prevendo justamente a</p><p>11 Responsabilidade subjetiva quando o sujeito atua com culpa, responde pelo resultado (dano). Este assunto será mais</p><p>explorado no estudo sobre Responsabilidade Civil.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 43 de 146</p><p>responsabilidade solidária entre todos os gestores (Art. 867, parágrafo único, do CC). Na realidade,</p><p>quando o dono do negócio retoma, terá duas opções:</p><p>Primeira opção: concordando com a atuação do gestor, o dono deverá ratificar a gestão,</p><p>convertendo-se a atuação em mandato (Art. 869 do CC). Nesse caso, deverá ressarcir o gestor por</p><p>todas as despesas necessárias e úteis à atuação, com os juros legais desde o reembolso, respondendo</p><p>ainda pelos prejuízos que o administrador tiver sofrido com a gestão.</p><p>A utilidade ou a necessidade das despesas serão apreciadas de acordo com as</p><p>circunstâncias da ocasião em que se fizerem, o que traz a ideia de função social obrigacional (Art.</p><p>869, § 1. °, do CC).</p><p>A ratificação do dono do negócio retroage ao dia do começo da gestão, ou seja, tem efeitos</p><p>ex tunc (Art. 873 do CC).</p><p>Segunda opção: desaprovando a atuação do gestor, o dono poderá pleitear perdas e danos</p><p>havendo, em regra, responsabilidade subjetiva do primeiro (Art. 874 do CC). Em casos tais,</p><p>responderá o gestor por caso fortuito quando fizer manobras arriscadas, ainda que o dono</p><p>costumasse fazê-las ou quando preterir interesses do dono em detrimento de interesses próprios</p><p>(Art. 868 do CC). No entanto, só poderá recusar a ratificação se provar que a atuação não foi</p><p>realizada de acordo com os seus interesses diretos.</p><p>Falecendo o dono do negócio, as instruções devem ser prestadas aos seus herdeiros,</p><p>devendo o gestor, mesmo assim, agir com a máxima diligência, de acordo com as circunstâncias</p><p>fáticas do caso concreto (Art. 865 do CC).</p><p>O gestor do negócio assume obrigações de mandatário, devendo velar pelo negócio</p><p>enquanto o dominus negotii não toma providência; se este falecer, deve aguardar instruções dos</p><p>seus herdeiros. Responderá, porém, por perdas e danos se, sem motivo, suspender a gestão iniciada</p><p>acarretando prejuízo a terceiro e ao dono do negócio12.</p><p>Se o gestor se fizer substituir por outrem (Art. 867, CC), ficarão responsáveis pela gestão</p><p>os dois: o gestor e o substituto. Com o rigor da lei, o gestor deve ser mais cauteloso na escolha do</p><p>substituto; o substituto mais cuidadoso em aceitar tal desiderato; e o dono do negócio ficará mais</p><p>garantido. No parágrafo único está estatuída outra responsabilidade excepcional. No mandato, a</p><p>solidariedade não é presumida, deve resultar de estipulação expressa; na gestão, a solidariedade é</p><p>prescrita em lei.</p><p>Com o intuito de fixação do estudo, e visando a melhor didática, observem abaixo:</p><p>a) OBRIGAÇÕES DO GESTOR:</p><p>- Comunicar a gestão ao dono, aguardando a resposta, se dá espera não resultar perigo</p><p>(Art. 864, CC): cumpre ao gestor aguardar a resposta antes de qualquer outra providência, somente</p><p>poderá agir sem resposta, se a demora puder acarretar prejuízo.</p><p>Por consequência, o dono: 1. Desaprovará (Art. 874, CC); 2. Aprovará (expressa</p><p>ou</p><p>tacitamente), converterá em mandato; 3. Aprovará na parte já realizada, desaprovando o</p><p>12 Vale ressaltar que ninguém está obrigado a ser gestor de negócio, no entanto, uma vez iniciada deve o gestor dar</p><p>continuidade (boa-fé).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 44 de 146</p><p>prosseguimento; 4. Nesta desaprovação, poderá constituir procurador/representante que assumirá o</p><p>negócio no estado em que se encontra, extinguindo-se a gestão; 5. Assumirá a gestão.</p><p>- Diligência habitual: ressarcindo o dono diante de qualquer prejuízo decorrente de culpa</p><p>(Art. 866, CC).</p><p>- Não promover operações arriscadas, ainda que o dono costumasse a fazê-las (Art. 868,</p><p>CC): não estava obrigado a iniciar a gestão, mas se intervém em negócio alheio, tem que agir com</p><p>máxima diligência, para que não cause prejuízo com a sua intromissão.</p><p>b) RESPONSABILIDADE DO GESTOR:</p><p>- Se o negócio não é bem gerido, pode o gestor ficar responsável pessoalmente.</p><p>- Se a gestão foi iniciada contra a vontade do dono: responde o gestor até mesmo por caso</p><p>fortuito/força maior (Art. 862/868, CC), o que configura ato ilícito.</p><p>- Observação: erro do legislador parte final do 862, CC, seria: ainda quando se houve</p><p>abstido (deixado de agir) e não se houvesse abatido.</p><p>- Art. 866, CC: CULPA.</p><p>- Mais de um gestor: responsabilidade solidária (PU do Art. 867, CC).</p><p>c) OBRIGAÇÕES DO DONO:</p><p>- Indenizar o gestor nas despesas necessárias: se o dono quiser aproveitar da gestão, será</p><p>obrigado a ressarcir o gestor.</p><p>- Cumprir com obrigações contraídas em seu nome: Art. 869, 870, CC.</p><p>- Alimentos: Art. 871. Exemplo: se os pais abandonaram (desaparecerem) os filhos, estes</p><p>ficam responsável perante o gestor.</p><p>- Despesas do enterro: Art. 872.</p><p>DIFERENÇA PARA MANDATO TÁCITO:</p><p>- Gestão: não tem prévio ajuste entre as partes, por ser sempre gratuita e depender de</p><p>ratificação (aprovação, pelo dono, do comportamento do gestor).</p><p>- Mandato: com conhecimento e sem desaprovação do dono.</p><p>RATIFICAÇÃO DO NEGÓCIO: ex tunc (Art. 873, CC).</p><p>MEDIDA JUDICIAL: ação de cobrança.</p><p>PAGAMENTO INDEVIDO (Arts. 876 a 883, CC):</p><p>Solvens: que paga / accipiens: que recebe.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 45 de 146</p><p>Necessário entender o que seja justa causa em qualquer enriquecimento sem causa.</p><p>JUSTA CAUSA: todo aumento patrimonial tem por base o direito (justiça: dar a cada um</p><p>o que é seu). O aumento patrimonial de qualquer pessoa tem que ser justificado (causa) com base no</p><p>Direito.</p><p>CONCEITO: Todo aquele que recebeu o que lhe não era devido fica obrigado a restituir;</p><p>obrigação que incumbe àquele que recebe dívida condicional antes de cumprida a condição (Art.</p><p>876, CC).</p><p>Gênero (enriquecimento sem causa)</p><p>Espécie (Pagamento indevido).</p><p>Em havendo o pagamento indevido agirá a pessoa com intuito de enriquecimento sem</p><p>causa, visando ao locupletamento sem razão (AUMENTO PATRIMONIAL SEM</p><p>JUSTIFICATIVA NO DIREITO).</p><p>REQUISITOS:</p><p>- Pagamento com ausência de causa;</p><p>- Enriquecimento de um;</p><p>- Empobrecimento do outro. Este critério é dispensado para parte da doutrina.</p><p>Espécies:</p><p>a) indébito objetivo: quando o erro diz respeito à inexistência da obrigação.</p><p>Exemplo: pagamento enquanto condição suspensiva; alguém paga a outro pensando ser</p><p>devedor, mas já está extinta a dívida; a dívida foi paga a mais;</p><p>b) indébito subjetivo: dívida existente e o engano é pertinente a quem paga ou quem</p><p>recebe.</p><p>Exemplo: pagou a quem não era mais o legítimo credor.</p><p>MEDIDA JUDICIAL CABÍVEL: Ação de repetição de indébito (pedir a restituição).</p><p>Prova (Art. 877, CC): Àquele que voluntariamente pagou o indevido incumbe a prova de</p><p>tê-lo feito por erro.</p><p>- Quem pagou deve provar que o fez de forma indevida e por erro, pois a ausência de tal</p><p>comprovação pode levar a presumir tratar de uma liberalidade (doação).</p><p>- A jurisprudência começou a dispensar a prova do erro naquelas hipóteses em que o</p><p>solvens era colocado em situação na qual não teria outra saída senão o pagamento, como no caso de</p><p>tributos em que há sanção legal imediata pelo inadimplemento: paga e depois basta provar a</p><p>ilegalidade ou inconstitucionalidade.</p><p>- CDC (Art. 42, PU): O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição</p><p>do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e</p><p>juros legais, salvo hipótese de engano justificável. Assim, prova-se somente que o pagamento foi</p><p>indevido e que teve fundamento na cobrança equivocada do accipiens.</p><p>Exemplo: cobrança de taxas imobiliária, estacionamento por perda de ticket.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 46 de 146</p><p>Exceção - Súmula 322 do STJ: Para a repetição de indébito, nos contratos de abertura de</p><p>crédito em contracorrente, não se exige a prova do erro.</p><p>* Contrato de abertura de crédito em contracorrente: de um lado o banco e do outro o</p><p>cliente (partes do contrato). Exemplo: banco cobrou indevidamente determinada tarifa.</p><p>Obrigação de fazer e de não fazer (Art. 881): Se o pagamento indevido tiver consistido</p><p>no desempenho de obrigação de fazer ou para eximir-se da obrigação de não fazer, aquele que</p><p>recebeu a prestação fica na obrigação de indenizar o que a cumpriu, na medida do lucro obtido.</p><p>Exemplo: obrigação de fazer: João (pedreiro), por erro, construiu o muro de Lucas, quando deveria</p><p>ter construído o muro para Maria.</p><p>Boa-fé e má-fé (Art. 878): aos frutos, acessões, benfeitorias e deteriorações sobrevindas à</p><p>coisa dada em pagamento indevido, aplica-se o disposto neste Código sobre o possuidor de boa-fé</p><p>ou de má-fé, conforme o caso. Exemplo: Recebeu imóvel alheio de boa-fé, e alugou, terá direito a</p><p>estes frutos (aluguéis).</p><p>Também terá direito de retenção e indenização quanto às benfeitorias necessárias e úteis.</p><p>Já aquele que recebeu o imóvel, estando de má-fé, não terá direito a frutos. Quanto às benfeitorias,</p><p>terá somente direito de indenização quanto às necessárias.</p><p>Ao contrário do que alguns possam pensar, no caso de pagamento indevido não cabe</p><p>repetição em dobro do valor pago. Na realidade, por meio da actio in rem verso poderá o</p><p>prejudicado, em regra, pleitear o valor pago atualizado, acrescido de juros, custas, honorários</p><p>advocatícios e despesas processuais. Havendo má-fé da outra parte, essa induz a culpa, cabendo</p><p>ainda reparação por perdas e danos (prejuízos).</p><p>Entretanto, a lei consagra alguns casos em que cabe pleitear o valor em dobro.</p><p>Inicialmente, o Art. 940 da atual codificação traz a regra pela qual aquele que demandar por dívida</p><p>já paga, no todo ou em parte, sem ressalvar as quantias recebidas ou pedir mais do que for devido,</p><p>ficará obrigado a pagar ao devedor, no primeiro caso, o dobro do que houver cobrado e, no</p><p>segundo, o equivalente do que dele exigir, salvo se houver prescrição.</p><p>Outra regra importante consta do Art. 42, parágrafo único, do CDC (Lei 8.078/1990), pelo</p><p>qual, na ação de repetição de indébito, poderá o consumidor pleitear o valor pago em dobro. Como</p><p>exemplo, cite-se a costumeira cobrança abusiva de taxas por incorporadoras imobiliárias. Não</p><p>havendo fundamento para tal cobrança, caberá a referida ação de repetição de indébito.</p><p>Recebimento de imóvel (Art. 879): se o terceiro adquiriu o imóvel a título oneroso e de</p><p>boa-fé, o proprietário que o entregou indevidamente, não obterá sucesso na reivindicação.</p><p>Resumo:</p><p>- Se o pagamento indevido for bem imóvel, o proprietário, provado o erro, terá direito a</p><p>reivindicação:</p><p>a) sem o bem ainda se encontra em poder do accipiens;</p><p>b) se o accipiens o alienou a título gratuito;</p><p>c) se o alienou a título oneroso e o terceiro</p><p>adquirente agiu de má-fé.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 47 de 146</p><p>PARA FIXAR O ENTENDIMENTO:</p><p>A – Pagou</p><p>B – Recebeu</p><p>C – Terceiro</p><p>- Se A entregou indevidamente imóvel a B, este com boa-fé, este (B) transferiu para C</p><p>onerosamente, estando este com boa-fé, B restituirá para A o que recebeu de C, este fica com o</p><p>imóvel.</p><p>- Se A entregou indevidamente imóvel a B, este com boa-fé, este (B) transferiu para C</p><p>onerosamente, estando este com má-fé, B restituirá para A o que recebeu de C, acrescido de perdas</p><p>e danos.</p><p>- Se A entregou indevidamente imóvel diretamente a C (terceiro), oneroso/gratuito, este</p><p>com má-fé, caberá a que pagou por erro o direito de reivindicação.</p><p>NÃO PODE PEDIR DE VOLTA: conforme já abordado em obrigação natural.</p><p>- Art. 880: trata de recebimento de boa-fé de dívida verdadeira, paga por quem descobre,</p><p>posteriormente, não ser o devedor.</p><p>Exemplo: sócio que paga a dívida pensando ser da empresa, quando na realidade era do</p><p>outro sócio como pessoa natural e o credor recebe com boa-fé; paga a alguém que aparentava ser</p><p>herdeiro.</p><p>- Art. 882. Não se pode repetir o que se pagou para solver dívida prescrita, ou cumprir</p><p>obrigação judicialmente inexigível.</p><p>Exemplo: A devedor de B no valor de R$ 500,00, dívida esta de jogo de cartas. Se A paga</p><p>não pode entrar com a ação de repetição de indébito (pedir) de volta: dívida natural.</p><p>- Art. 883. Não terá direito à repetição aquele que deu alguma coisa para obter fim ilícito,</p><p>imoral, ou proibido por lei.</p><p>Exemplos:</p><p>- A ajustou com B para que este mate C, por 1.000,00;</p><p>- A pagou para B a quantia de R$ 200,00 para ficar numa fila de banco (imoral,</p><p>reprovável);</p><p>- A prestou serviços de prostituição para B por R$ 300,00. B ao pagar não pode pedir de</p><p>volta fim imoral (reprovação social).</p><p>- Pagar para alguém fazer um testamento conjuntivo (duas ou mais pessoas) – Art. 1.863,</p><p>CC.</p><p>ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA (Arts. 884 a 886, CC):</p><p>Conceito: aquele que, sem justa causa, se enriquecer à custa de outrem, será obrigado a</p><p>restituir o indevidamente auferido, feita a atualização dos valores monetários.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 48 de 146</p><p>Exemplos: não pagamento de despesas por parte do dono a quem encontrou um animal (da</p><p>descoberta) e teve que alimentá-lo, furto de um celular, lucro da intervenção que uma instituição</p><p>financeira cobra juros abusivos13, uma pessoa, de boa-fé, constrói em terreno alheio.</p><p>Observação: entende-se quando o Juiz indefere a reparação por danos morais está</p><p>evitando a constituição de enriquecimento sem causa. Entendimento que não deve prevalecer</p><p>porque o Magistrado não pode atuar nesse sentido e sim analisar se houve ou não a configuração do</p><p>dano.</p><p>Está baseado no princípio da eticidade, visando ao equilíbrio patrimonial e à pacificação</p><p>social.</p><p>Princípios: função social, boa-fé objetiva, evitar locupletamento (aumento de bens ilegal),</p><p>valorização do trabalho justo.</p><p>De acordo com o Direito Civil Contemporâneo, concebido na pós-modernidade e a partir</p><p>dos ditames sociais e éticos, não se admite qualquer conduta baseada na especulação, no</p><p>locupletamento sem razão.</p><p>Desse modo, o enriquecimento sem causa constitui fonte obrigacional, ao mesmo tempo</p><p>em que a sua vedação decorre dos princípios da função social das obrigações e da boa-fé objetiva. O</p><p>atual Código Civil brasileiro valoriza aquele que trabalha, e não aquele que fica à espreita</p><p>esperando um golpe de mestre para enriquecer-se à custa de outrem (Flávio Tartuce).</p><p>O CC/2002 é inimigo do especulador, daquele que busca capitalizar-se mediante o trabalho</p><p>alheio. Várias são as ações que têm como objetivo evitar o locupletamento sem razão, sendo a</p><p>principal a de repetição de indébito no caso de pagamento indevido, que é espécie de</p><p>enriquecimento sem causa, conforme anteriormente afirmado e explicado em aula.</p><p>Consigne-se que toda situação em que alguém recebe algo indevido visa ao enriquecimento</p><p>sem causa. Mas, em algumas situações, poderá haver conduta visando ao enriquecimento sem</p><p>causa, sem que tenha havido pagamento indevido. Cite-se a título de exemplo, a invasão de um</p><p>imóvel com finalidade de adquirir a sua propriedade.</p><p>MEDIDA JUDICIAL: ação in rem verso (locupletamento ilícito, repetição de indébito).</p><p>Pressupostos:</p><p>a) o enriquecimento do accipiens (de quem recebe);</p><p>b) o empobrecimento do solvens quem paga);</p><p>c) a relação de causalidade entre o enriquecimento e o empobrecimento;</p><p>d) a inexistência de causa jurídica prevista por convenção das partes ou pela lei;</p><p>e) a inexistência de ação específica.</p><p>Parágrafo único do Art. 884, CC: se o enriquecimento tiver por objeto coisa determinada,</p><p>quem a recebeu é obrigado a restitui-la, e, se a coisa não mais subsistir, a restituição se fará pelo</p><p>valor do bem na época em que foi exigido.</p><p>Todavia, destaque-se que de acordo com o Enunciado 35, aprovado na I Jornada de Direito</p><p>Civil do Conselho da Justiça Federal, "a expressão se enriquecer à custa de outrem do Art. 884</p><p>13 ENUNCIADO 620 DA VIII JORNADA DE DIREITO CIVIL – Art. 884: A obrigação de restituir o lucro da</p><p>intervenção, entendido como a vantagem patrimonial auferida a partir da exploração não autorizada de bem ou direito</p><p>alheio, fundamenta-se na vedação do enriquecimento sem causa.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 49 de 146</p><p>do novo Código Civil não significa, necessariamente, que deverá haver empobrecimento". A</p><p>doutrina atual vem e será esta a tendência, portanto, afastando tal requisito do empobrecimento, mas</p><p>ainda não é pacífico o entendimento.</p><p>Quando da III Jornada foi aprovado o Enunciado 188, também aplicável ao tema, com a</p><p>seguinte redação: "A existência de negócio jurídico válido e eficaz é, em regra, uma justa causa</p><p>para o enriquecimento". Pelo enunciado doutrinário, presente um contrato válido e gerando efeitos</p><p>que trazem o enriquecimento de alguém, em regra, não se pode falar em locupletamento sem razão.</p><p>Isso desde que o contrato não viole os princípios da função social e da boa-fé objetiva e não gere</p><p>onerosidade excessiva, desproporção negocial.</p><p>Art. 885. A restituição é devida, não só quando não tenha havido causa que justifique o</p><p>enriquecimento, mas também se esta deixou de existir.</p><p>- Exemplo: pagamento de uma taxa que deixou de existir por lei, e uma parte continua</p><p>cobrando.</p><p>- Exemplo: recebimento de aluguel, quando após o término do contrato de locação.</p><p>Art. 886. Não caberá a restituição por enriquecimento, se a lei conferir ao lesado outros</p><p>meios para se ressarcir do prejuízo sofrido.</p><p>JURISPRUDÊNCIA:</p><p>Tribunal de Justiça de Minas Gerais: "Ação de cobrança. Pagamento indevido. Enriquecimento</p><p>ilícito. Restituição. Recurso a que se nega provimento. O enriquecimento sem causa tem como</p><p>pressuposto um acréscimo patrimonial injustificado e a finalidade de restituição ao patrimônio de</p><p>quem empobreceu. Ele encontra seu fundamento no velho princípio de justiça suum cuique tribuere,</p><p>dar a cada um o que é seu. Nessa toada, em que pesem a alardeada boa-fé e a situação econômica</p><p>precária, com base simplesmente na concepção pura do enriquecimento sem causa, constata-se a</p><p>necessidade de o Apelante restituir os valores recebidos indevidamente ao Apelado" (TJMG,</p><p>Acórdão 1.0024.06.025798-7/001, Belo Horizonte, 13.a Câmara Cível, Rel.a Des.a Cláudia Maia, j.</p><p>10.05.2007, DJMG 25.05.2007).</p><p>Tribunal de Justiça de São Paulo: PROMESSA DE RECOMPENSA - Prêmio ao vencedor de</p><p>rodeio promovido pela apelada - Prova de que, antes de sua realização, a promessa teria sido</p><p>alterada, com comunicação aos participantes - Direito de o promitente assim proceder,</p><p>nos termos</p><p>da Lei Civil - Improcedência bem decretada, apelo improvido.</p><p>Tribunal de Justiça de São Paulo: Ação de prestação de contas. Improcedência na origem.</p><p>Apelação dos autores Falta de prova de mandato, gestão de negócios ou atuação do réu em qualquer</p><p>contrato em nome dos autores. Não veio aos autos instrumento de mandato algum; e sem a mínima</p><p>evidência de que o apelado tenha adquirido cotas de consórcio em nome dos apelantes, gerindo seus</p><p>negócios, por força de alegadas "procurações verbais", não se poderia chegar a solução diversas</p><p>daquela dada na origem. Cabia aos apelantes comprovar os fatos constitutivos de seu direito (artigo</p><p>333, I, do CPC); não faz sentido o pleito de que o juiz se investisse em função investigativa para</p><p>apurar fatos de seu interesse.</p><p>Tribunal de Justiça de Minas Gerais: APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO -</p><p>PACOTE DE VIAGEM - LOCAÇÃO DE VEÍCULO - PAGAMENTO ANTECIPADO</p><p>DESCONSIDERADO - NOVA COBRANÇA - PAGAMENTO - RESTITUÇÃO EM DOBRO -</p><p>REQUISITOS - DANOS MORAIS - MEROS ABORRECIMENTOS - INDEFERIMENTO</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 50 de 146</p><p>MANTIDO. Quem recebe PAGAMENTO INDEVIDO deve restituí-lo para obviar o</p><p>enriquecimento INDEVIDO. O direito à repetição em dobro requer a presença de dois requisitos:</p><p>que a quantia cobrada seja indevida e comprovação da má-fé do credor. Configurada a cobrança</p><p>indevida, bem como a má-fé do credor na hipótese sub judice, justifica-se a dobra legal. O mero</p><p>dissabor não pode ser alçado ao patamar do dano moral, mas somente aquela agressão que exacerba</p><p>a naturalidade dos fatos da vida, causando fundadas aflições ou angústias no espírito de quem ela se</p><p>dirige. Precedentes do STJ.</p><p>7. ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DAS OBRIGAÇÕES</p><p>São os requisitos fundamentais (indispensáveis) das obrigações. São eles:</p><p>- Sujeitos (ativo e passivo);</p><p>- Objeto; e</p><p>- Vínculo jurídico.</p><p>7.1 SUJEITOS (também chamado de elemento subjetivo ou pessoal) - partes (pessoas)</p><p>na relação obrigacional:</p><p>Sujeito ativo – é o credor, ou seja, aquele que pode exigir o cumprimento da obrigação. É</p><p>o participante da relação obrigacional que tem a expectativa de receber (espera) do outro uma</p><p>prestação e ele tem uma pretensão (exigir via Poder Judiciário o cumprimento forçado da obrigação,</p><p>executando o patrimônio do devedor) com relação ao devedor.</p><p>Sujeito passivo – é o devedor, ou seja, aquele que tem o dever de colaborar (cumprimento)</p><p>com o credor, lhe fornecendo a prestação devida. Espera-se que o devedor satisfaça, voluntária ou</p><p>por força coercitiva, a prestação ajustada entre ele e o credor.</p><p>Esta obrigação (ligação) entre o devedor e o credor advém de uma das fontes acima</p><p>estudadas. Não há relação obrigação sem que tenha iniciada por um dos tipos de fonte.</p><p>A sujeição do patrimônio do devedor só vai aparecer posteriormente:</p><p>- Com o cumprimento (adimplemento) da obrigação voluntária e satisfatoriamente; ou</p><p>- Com a intervenção do Estado, caso o devedor não cumpra (inadimplemento).</p><p>PATRIMÔNIO NO CUMPRIMENTO DA OBRIGAÇÃO:</p><p>CÓDIGO CIVIL - CC:</p><p>- Art. 391. Pelo inadimplemento das obrigações respondem todos os bens do devedor.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 51 de 146</p><p>- Art. 942. Os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam</p><p>sujeitos à reparação do dano causado; e, se a ofensa tiver mais de um autor, todos responderão</p><p>solidariamente pela reparação.</p><p>- Art. 947. Se o devedor não puder cumprir a prestação na espécie ajustada, substituir-se-á</p><p>pelo seu valor, em moeda corrente.</p><p>CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL - CPC:</p><p>- Art. 789. O devedor responde com todos os seus bens presentes e futuros para o</p><p>cumprimento de suas obrigações, salvo as restrições estabelecidas em lei.</p><p>Desse modo, não respondem os bens impenhoráveis:</p><p>CPC - Art. 833. São impenhoráveis:</p><p>I - os bens inalienáveis e os declarados, por ato voluntário, não sujeitos à execução;</p><p>II - os móveis, os pertences e as utilidades domésticas que guarnecem a residência do</p><p>executado, salvo os de elevado valor ou os que ultrapassem as necessidades comuns</p><p>correspondentes a um médio padrão de vida;</p><p>III - os vestuários, bem como os pertences de uso pessoal do executado, salvo se de</p><p>elevado valor;</p><p>IV - os vencimentos, os subsídios, os soldos, os salários, as remunerações, os proventos de</p><p>aposentadoria, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as quantias recebidas por</p><p>liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e de sua família, os ganhos de</p><p>trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, ressalvado o § 2º;</p><p>V - os livros, as máquinas, as ferramentas, os utensílios, os instrumentos ou outros bens</p><p>móveis necessários ou úteis ao exercício da profissão do executado;</p><p>VI - o seguro de vida;</p><p>VII - os materiais necessários para obras em andamento, salvo se essas forem penhoradas;</p><p>VIII - a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela</p><p>família;</p><p>IX - os recursos públicos recebidos por instituições privadas para aplicação compulsória</p><p>em educação, saúde ou assistência social;</p><p>X - a quantia depositada em caderneta de poupança, até o limite de 40 (quarenta) salários-</p><p>mínimos;</p><p>XI - os recursos públicos do fundo partidário recebidos por partido político, nos termos da</p><p>lei;</p><p>XII - os créditos oriundos de alienação de unidades imobiliárias, sob regime de</p><p>incorporação imobiliária, vinculados à execução da obra.</p><p>§ 1º A impenhorabilidade não é oponível à execução de dívida relativa ao próprio bem,</p><p>inclusive àquela contraída para sua aquisição.</p><p>§ 2º O disposto nos incisos IV e X do caput não se aplica à hipótese de penhora para</p><p>pagamento de prestação alimentícia, independentemente de sua origem, bem como às importâncias</p><p>excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais, devendo a constrição observar o disposto</p><p>no art. 528, § 8º , e no art. 529, § 3º .</p><p>§ 3º Incluem-se na impenhorabilidade prevista no inciso V do caput os equipamentos, os</p><p>implementos e as máquinas agrícolas pertencentes a pessoa física ou a empresa individual produtora</p><p>rural, exceto quando tais bens tenham sido objeto de financiamento e estejam vinculados em</p><p>garantia a negócio jurídico ou quando respondam por dívida de natureza alimentar, trabalhista ou</p><p>previdenciária.</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art528%C2%A78</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art529%C2%A73</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 52 de 146</p><p>A Lei nº 8.009, de 29 de março de 1990, dispõe sobre a impenhorabilidade do bem de</p><p>família, conceituando-o em seu Art. 1º: “O imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade</p><p>familiar, é impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal,</p><p>previdenciária ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam seus</p><p>proprietários e nele residam, salvo nas hipóteses previstas nesta lei”.</p><p>CONSTITUIÇÃO FEDERAL:</p><p>- Art. 5° LXVII - não haverá prisão civil por dívida, salvo a do responsável pelo</p><p>inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel;</p><p>O Supremo Tribunal Federal (STF) retirou a possibilidade de prisão do depositário infiel</p><p>(retirou os efeitos jurídicos da CF/88), uma vez que seguiu o Tratado de San Jose da Costa Rica,</p><p>este que somente admite a prisão devedor inadimplente de pensão alimentícia: Art. 6°, item 7.</p><p>Ninguém deve ser detido por dívidas. Este princípio não limita os mandados de autoridade</p><p>judiciária competente expedidos em virtude de inadimplemento de obrigação alimentar.</p><p>Os sujeitos podem ser pessoas naturais</p><p>(físicas) ou jurídicas, devendo ser determinados ou,</p><p>ao menos, determináveis. Não se considera, como capaz de gerar uma obrigação, um contrato em</p><p>que os sujeitos sejam indeterminados ou mesmo um contrato consigo mesmo.</p><p>Pode haver contrato em que, a princípio, um dos sujeitos seja indeterminado, mas no qual</p><p>existem elementos que permitam determinar o sujeito (exemplo: alguém coloca um anúncio</p><p>prometendo recompensa para quem encontrar um cachorro: de imediato não se sabe quem é o</p><p>credor da obrigação, mas a declaração traz elementos que podem determinar o sujeito ativo: quem</p><p>(pessoa) encontrar o cachorro).</p><p>Observação – é possível que os polos (passivo e/ou ativo) sejam ocupados por uma ou</p><p>várias pessoas (naturais ou jurídicas). Exemplo: “A” pode fazer um contrato de locação com “B”.</p><p>Neste caso há um Sujeito Ativo e um Sujeito Passivo. Mas “A” e “B”, sendo casados, podem fazer</p><p>um contrato de locação com “C” e “D”, que também são casados. Continua havendo dois polos</p><p>(Ativo e Passivo), porém em cada lado da relação obrigacional, há uma pluralidade de pessoas.</p><p>7.2 OBJETO (também chamado de elemento objetivo ou material) - É a prestação</p><p>economicamente apreciável que deverá ser cumprida pelo devedor. Consiste em dar, fazer ou não</p><p>fazer alguma coisa. É o ponto material sobre o qual incide a obrigação.</p><p>A maioria dos juristas entende que a prestação tem sempre um conteúdo patrimonial,</p><p>porque, caso contrário, seria impossível reparar perdas e danos em caso de descumprimento pelo</p><p>devedor.</p><p>Alguns autores não incluem a patrimonialidade da prestação como um de seus requisitos</p><p>essenciais, entretanto, como já dito anteriormente, se a obrigação não tiver valor patrimonial não</p><p>será amparada pelo Direito, porque não interessará ao mundo jurídico.</p><p>É por isso, que mesmo aqueles autores que não mencionam o valor econômico como um</p><p>dos requisitos da prestação, admitem sempre que a obrigação deve conter um conteúdo patrimonial,</p><p>uma vez que o Direito não pode agir sobre realidades puramente abstratas, pois, nesse caso, não</p><p>será jurídica, mas sim natural ou moral. Deve ser possível, lícita, determinada ou determinável e</p><p>economicamente apreciável.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 53 de 146</p><p>Estão excluídos os bens de natureza dos direitos da personalidade, uma vez que não</p><p>apresentam conteúdo patrimônio valorado economicamente.</p><p>Pode-se dizer que o objeto imediato da obrigação é a prestação, e o objeto mediato da</p><p>obrigação é aquele que se descobre com a pergunta o quê?</p><p>Requisitos essenciais do objeto estão interligados com o Art. 104, CC – Negócio Jurídico:</p><p>Possibilidade – porque havendo impossibilidade material, concomitantemente à formação</p><p>da relação obrigacional, a obrigação é nula, nem chegando a se formar, eis que jamais o devedor</p><p>poderá ser constrangido a cumprir a prestação. Prestação impossível. Exemplo: homem ir à lua,</p><p>comprar o oceano.</p><p>Liceidade – de lícito, em conformidade com o Direito. O objeto da prestação não pode ser</p><p>proibido por lei e nem repugnar à moral e aos bons costumes, ou a ordem jurídica como um todo.</p><p>Ressalte-se que a lei não pode estabelecer de forma precisa tudo o que é proibido ou permitido. Em</p><p>muitos casos será necessário o uso do bom senso. Exemplo de prestação ilícita: carregamento de</p><p>maconha, vender um filho, serviço de prostituição, negociação de escravidão.</p><p>Determinabilidade – O objeto deve ser determinado ou pelo menos determinável. A</p><p>determinação geralmente ocorre pelo gênero (espécie), quantidade e qualidade, mas nada impede</p><p>que a determinação seja feita posteriormente. Exemplo: um carro, um terreno, compra de safra</p><p>futura.</p><p>Patrimonialidade – (expressão econômica) - A prestação deve ter valor econômico, para</p><p>que, em caso de inadimplemento possa ser convertida em perdas e danos. Alguns autores não</p><p>mencionam a patrimonialidade como um dos requisitos do objeto, entretanto, cabe-nos ressaltar</p><p>que, se a obrigação não representar um valor econômico não interessará ao mundo jurídico no</p><p>direito obrigacional.</p><p>Ressalta-se que a patrimonialidade é acrescenta ao Art. 104, CC, no Direito das</p><p>Obrigações.</p><p>Ressalte-se que todos os requisitos apresentados são essenciais, de forma que a</p><p>ausência de um deles torna nula a obrigação.</p><p>7.3 VÍNCULO JURÍDICO (também chamado de elemento imaterial ou espiritual) –</p><p>porque disciplinado por lei, e assim sendo vem acompanhado por sanção. Se o devedor que</p><p>legalmente se obrigou, deixar de efetuar o pagamento, a lei abre as portas dos pretórios ao credor,</p><p>para que este, através da execução patrimonial do inadimplente, obtenha a satisfação do seu crédito.</p><p>Exemplo: podemos dizer que um contrato de locação de uma casa (ou qualquer outro</p><p>contrato) é o vínculo. É este contrato que irá ligar o locador (proprietário), o locatário (inquilino) e</p><p>o bem que está sendo alugado. Vejam que locador e locatário fazem parte do Elemento Subjetivo.</p><p>Já a casa é o Elemento Objetivo. E o contrato, propriamente dito é a fonte e o vínculo.</p><p>É o poder que o sujeito ativo tem de impor ao sujeito passivo uma prestação positiva (dar</p><p>e fazer) ou negativa (não fazer alguma coisa).</p><p>O Art. 389 do CC, que trata dos efeitos do inadimplemento, diz que o devedor responde</p><p>por perdas e danos no caso de descumprimento da obrigação, mais juros e honorários de advogado.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 54 de 146</p><p>O vínculo jurídico possui dois elementos: débito (dívida) e responsabilidade.</p><p>Dívida – é o elemento espiritual (moral/psicológico/mente), de foro íntimo do devedor que</p><p>tem o dever de prestar aquilo a que se comprometeu. Pressupõe atividade espontânea. É a existência</p><p>da dívida, da obrigação.</p><p>Responsabilidade – é o elemento imaterial. É representado pela prerrogativa conferida ao</p><p>credor de proceder à execução do patrimônio do devedor em caso de inadimplência, para satisfação</p><p>de seu crédito.</p><p>Embora o débito seja o primeiro aspecto que surge na obrigação, ele não pode existir sem a</p><p>responsabilidade, uma vez que esta garante aquele, porque a responsabilidade revela a garantia de</p><p>execução das obrigações pelo credor.</p><p>Esses dois elementos podem surgir em pessoas distintas, como no caso da fiança (Art. 818.</p><p>Pelo contrato de fiança, uma pessoa garante satisfazer ao credor uma obrigação assumida</p><p>pelo devedor, caso este não a cumpra). Nessa espécie de contrato o fiador responsabiliza-se pelo</p><p>débito de terceiro (não é o devedor principal).</p><p>Flávio Tartuce explica que é a aplicação da teoria dualista ou binária, de origem alemã,</p><p>pela qual a obrigação é concebida por uma relação débito e crédito. A teoria é atribuída, no Direito</p><p>Alemão e entre outros, a Alois Brinz: percebida a partir do estudo dos dois elementos básicos da</p><p>obrigação: o débito (Schuld) e a responsabilidade (Haftung), sobre os quais a obrigação se encontra</p><p>estruturada.</p><p>Existe a possibilidade de responsabilidade de alguém que não é o devedor principal:</p><p>quando a dívida é paga pelo fiador. A responsabilidade pode surgir posterior ao débito, de forma</p><p>autônoma, como no caso de garantia de dívida preexistente de outrem, que é o caso da fiança:</p><p>CC - Art. 818. Pelo contrato de fiança, uma pessoa garante satisfazer ao credor uma</p><p>obrigação assumida pelo devedor, caso este não a cumpra.</p><p>Vale ressaltar que pode haver débito sem responsabilidade, que é o caso das obrigações</p><p>naturais (obrigação incompleta): DEVEDOR PAGA SE QUISER, SEM POSSIBILIDADE DE</p><p>IMPOSIÇÃO (SANÇÃO) JURÍDICA. São as que se mostram desprovidas de qualquer sanção</p><p>legal, pelo que não pode ser exigida por ação judicial. É mero dever moral. Exemplo: dívida</p><p>prescrita ou dívida de jogo.</p><p>Essa bipartição do vínculo jurídico, em débito e responsabilidade existente</p><p>de norma legal ou contratual que cria direito e deveres, distinguindo-se daquelas de caráter moral ou</p><p>religioso, pela ausência de obrigatoriedade, estabelecendo que ao direito de uma das partes</p><p>corresponde ao dever jurídico da outra, com vínculo entre o titular do direito, denominado sujeito</p><p>ativo, e dever jurídico, chamado sujeito passivo.</p><p>Devemos nos limitar a estudar as obrigações que têm origem nas declarações de vontade</p><p>(contrato) e atos unilaterais (promessa de recompensa, gestão de negócios, pagamento indevido e</p><p>enriquecimento sem causa), na lei, no ato ilícito (responsabilidade civil) e que têm por objeto uma</p><p>prestação (objeto).</p><p>OB + LIGATIO = vinculação, liame, cerceamento da liberdade de ação</p><p>(ETIMOLOGIA1).</p><p>A todo instante na vida, por mais simples que seja a atividade da pessoa: compra e/ou</p><p>vende, aluga ou empresta, comete atos contrários ao Direito que causam danos, por exemplos.</p><p>Existe, portanto, um estímulo, gerado por um valor, para que seja por contraída uma obrigação.</p><p>Vale ressaltar que podem ser tratadas como forma geral de obrigação as de cunho não jurídico,</p><p>como as obrigações morais, religiosas ou de cortesia, mas não como obrigação jurídica porque</p><p>inexistem a característica de execução e sanção obrigatórias.</p><p>Todavia, o que diz respeito ao estudo propriamente proposto, trata-se de obrigação</p><p>jurídica, aquela protegida pelo Estado, que dá a garantia da coerção no cumprimento (não confundir</p><p>com abuso de direito), que depende de uma norma, uma lei, ou um contrato ou negócio jurídico, de</p><p>ato ilícito. Em toda obrigação existe a submissão a uma norma de conduta. A relação obrigacional</p><p>recebe desse modo à proteção do Direito: segurança jurídica aos envolvidos.</p><p>1 Origem da palavra.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 5 de 146</p><p>É no Direito Obrigacional que se posiciona uma situação fundamental: de um lado, a</p><p>liberdade do indivíduo, sua autonomia em relação aos demais membros da sociedade e, de outro</p><p>lado, a exigência dessa mesma sociedade ao entrelaçamento de relações, que devem existir</p><p>harmonicamente.</p><p>É absolutamente clássica a definição das Institutas de Justiniano: a obrigação é um vínculo</p><p>jurídico que nos obriga a pagar/dever algo (objeto), ou seja, a fazer ou deixar de fazer alguma coisa.</p><p>Sílvio de Salvo Venosa define obrigação como uma relação jurídica transitória de cunho</p><p>pecuniário, unindo duas (ou mais) pessoas, devendo uma (o devedor) realizar uma prestação a outra</p><p>(o credor).</p><p>Assim, pode-se conceituar obrigação como sendo a relação jurídica, de caráter</p><p>transitória, estabelecida entre devedor (sujeito passivo) e credor (sujeito ativo), e cujo objeto</p><p>consiste numa prestação econômica, positiva (dar e fazer) e/ou negativa (não fazer),</p><p>garantindo-lhe o adimplemento (cumprimento) por intermédio de seu patrimônio.</p><p>Confere-se assim ao sujeito ativo (credor) o direito de exigir do sujeito passivo (devedor) o</p><p>cumprimento de determinada prestação. Vejam que o conceito dado possui alguns elementos.</p><p>Washington de Barros Monteiro: obrigação é a relação jurídica, de caráter transitório,</p><p>estabelecida entre devedor e credor e cujo objeto consiste numa prestação pessoal econômica,</p><p>positiva ou negativa, devida pelo primeiro ao segundo, garantindo-lhe o adimplemento de seu</p><p>patrimônio.</p><p>Para Caio Mário da Silva Pereira: Obrigação é o vínculo jurídico em virtude do qual uma</p><p>pessoa pode exigir de outra uma prestação economicamente apreciável.</p><p>As obrigações são, no geral, apreciáveis em dinheiro. Essas modalidades de obrigações são</p><p>as que nos interessam no estudo de Direito Civil das Obrigações.</p><p>A obrigação é relação jurídica, e tem caráter transitório, porque essa relação nasce com a</p><p>finalidade de extinguir-se, em regra, com o seu cumprimento por parte do devedor. Uma vez</p><p>que o credor é satisfeito, extrajudicial ou judicialmente, a obrigação deixa de existir, pois o vínculo</p><p>jurídico desaparece.</p><p>Com os conflitos sociais, os interesses econômicos e as diferentes valorações dadas ao</p><p>direito obrigacional e a relação jurídica obrigacional, esta, hoje, não é mais entendida como uma</p><p>relação estática, bipolar, onde temos de um lado o credor e do outro o devedor, mas sim como uma</p><p>relação dinâmica e constante na sociedade.</p><p>A obrigação, hoje, portanto, é entendida como totalidade, como um processo, assim,</p><p>atualmente, a moderna doutrina examina a relação tanto sob o seu aspecto externo (débito e</p><p>crédito, credor e devedor), como no seu aspecto interno (vínculo que liga o credor ao</p><p>devedor).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 6 de 146</p><p>FIQUE ATENTO: ATENÇÃO PARA ESTUDO DOS NEGÓIOS JURÍDICOS DE</p><p>DIREITO CIVIL (PARTE GERAL) !!!!!!!!!!!!!!!!</p><p>LEMBRE-SE QUE O ESTUDO DE DIREITO CIVIL É CONTÍNUO, ONDE OS</p><p>CONTEÚDOS ESTÃO INTERLIGADOS, SENDO IMPORTANTE QUE O ALUNO (A)</p><p>FAÇA SEMPRE UMA REVISÃO DO ASSUNTO ESTUDADO NO SEMESTRE</p><p>ANTERIOR</p><p>2. DOS FATOS JURÍDICOS</p><p>Inicialmente, temos que diferenciar um fato comum ou fato não jurídico de um fato</p><p>jurídico. Há fatos que não interessam ao Direito. Exemplo: quando uma pessoa passeia por um</p><p>jardim, está praticando um fato comum, que não sofre a incidência do Direito. Se essa pessoa,</p><p>porém, andar sobre um gramado proibido, causando danos, o fato que era comum passará a</p><p>interessar ao Direito.</p><p>Fato Comum</p><p>Ação humana ou fato da natureza que não interessa ao Direito. Se não interessa ao Direito</p><p>somente necessitamos diferenciar quando é ou não jurídico.</p><p>Fato Jurídico (em sentido amplo – lato sensu)</p><p>Acontecimento ao qual o Direito atribui efeitos. Exemplo: um contrato de locação é um</p><p>fato jurídico (mais para frente veremos que ele é mais do que isso, é um negócio jurídico), pois</p><p>tanto o locador quanto o locatário assumem compromissos e ficam vinculados um ao outro (relação</p><p>jurídica). Deste vínculo surgem direitos e deveres para ambas as partes, surgem efeitos. Assim, por</p><p>enquanto, o que nos interessa estudar é o Fato Jurídico. Este sim causará reflexos no campo do</p><p>Direito.</p><p>Fatos Jurídicos pode ser conceituado como os acontecimentos, previstos em norma de</p><p>direito (sentido amplo), em razão dos quais nascem, se modificam, subsistem e se extinguem as</p><p>relações jurídicas.</p><p>Para efeito de facilitação dos elementos do Fato Jurídico seguem os principais efeitos:</p><p>Aquisição, Defesa, Modificação e Extinção de Direitos.</p><p>Aquisição de Direitos é a conjunção dos direitos com seu titular. Dessa forma, surge a</p><p>propriedade quando o bem se subordina a seu titular. (Exemplo: quando da compra de um</p><p>determinado objeto). Os direitos podem ser adquiridos de forma originária ou derivada:</p><p>- Originária o direito nasce quando o titular se apossa ou se apropria de um bem de</p><p>maneira direta, sem a participação de outra pessoa (exemplo: pescar um peixe em alto-mar, ficar</p><p>com uma coisa abandonada).</p><p>- Derivada se houver transmissão do direito de propriedade, existindo uma relação jurídica</p><p>entre o anterior e o atual titular (exemplo: vender um carro ou uma casa para outra pessoa – a</p><p>propriedade do carro ou da casa passou de uma pessoa para outra, daí ser considerada como</p><p>transmissão derivada).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 7 de 146</p><p>A aquisição ainda pode ser:</p><p>- Gratuita quando não há uma contraprestação na aquisição (exemplo: uma pessoa adquire</p><p>um bem por uma doação; neste caso não há uma contraprestação, o mesmo pode ocorrer na</p><p>herança).</p><p>- Onerosa quando há uma contraprestação na aquisição (exemplo: a pessoa adquire o bem</p><p>por meio de uma compra e venda se por um lado recebeu o bem, por outro lado pagou por este bem,</p><p>havendo, portanto, uma contraprestação na aquisição –</p><p>na obrigação,</p><p>fica bem definida nos casos de exceção à regra geral, como no caso citado acima, pois nessas</p><p>obrigações existe o débito, mas o credor não está legitimado a exigir seu cumprimento.</p><p>A obra de Clóvis do Couto e Silva, reeditada pela Fundação Getúlio Vargas, tem como</p><p>título “A Obrigação como um Processo”. Trata-se de uma das mais importantes obras do Direito</p><p>Obrigacional brasileiro. Segundo o autor, a relação obrigacional somente poderia ser</p><p>compreendia em seu aspecto dinâmico, tal como se dá em uma relação processual:</p><p>“A obrigação é um processo, vale dizer, dirige-se ao adimplemento, para satisfazer o</p><p>interesse do credor. A relação jurídica, como um todo, é um sistema de processos. Não seria</p><p>possível definir a obrigação como ser dinâmico se não existisse separação entre o plano do</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 55 de 146</p><p>nascimento e desenvolvimento e o plano do adimplemento. A distância que se manifesta, no</p><p>mundo do pensamento, entre esses dois atos, e a relação funcional entre eles existentes, é que</p><p>permite definir-se a obrigação (Clovis Couto e Silva).</p><p>8. DISTINÇÕES FUNDAMENTAIS ENTRE DIREITOS PESSOAIS E REAIS</p><p>Para adentrarmos com mais eficácia no estudo do direito das obrigações se faz necessário</p><p>precisar a sua amplitude. Cabe-nos ressaltar que somente os direitos de conteúdo econômico</p><p>(direitos de crédito), que são passíveis de circulação jurídica, poderão participar de relações</p><p>obrigacionais, descartando de imediato, por exemplo, os chamados direitos da personalidade</p><p>(direito à vida, ao nome, à honra, à privacidade, à imagem), conforme já ressaltado acima.</p><p>O fim da obrigação com o seu desenvolvimento (NASCER PARA SER CUMPRIDA E</p><p>POR FIM SER EXTINTA), seja qual for a sua modalidade, é o seu cumprimento, que representa o</p><p>meio normal de satisfação do interesse do credor.</p><p>Assim, entende-se que o cumprimento da prestação (atividade do devedor) é que interessa</p><p>ao credor e não somente a coisa em si (dinheiro, bem móvel ou imóvel) que constitui o objeto</p><p>imediato da obrigação, que é o próprio direito ao crédito.</p><p>Sequência da obrigação jurídica desejada:</p><p>NASCER POR UMA DE</p><p>SUAS FONTES</p><p>CUMPRIMENTO</p><p>ADIMPLEMENTO</p><p>EXTINÇÃO</p><p>Assim, pode-se afirmar que os direitos de crédito (pessoais, porque corresponde o dever de</p><p>prestar, de natureza pessoal) integram o estudo do direito das obrigações, pois o devedor se</p><p>compromete a dar, fazer ou não fazer alguma coisa e os direitos reais são aqueles que se traduzem o</p><p>poder jurídico de uma pessoa sobre uma determinada coisa (propriedade, usufruto, servidão), e</p><p>serão estudados no direito das coisas, mas que estão interligados.</p><p>Desse modo, o Direito pode ser dividido em dois grandes ramos: direitos não-</p><p>patrimoniais (que tratam dos direitos da personalidade, direito a vida, a liberdade, a honra etc.) e</p><p>direitos patrimoniais (que tratam dos direitos que envolvem valores econômicos).</p><p>O Direito das Obrigações e o Direito das Coisas integram os direitos patrimoniais.</p><p>Entretanto, apesar de integrarem o mesmo ramo, não podem ser confundidos, porque o primeiro</p><p>trata de direitos pessoais e o segundo trata dos direitos reais.</p><p>Direito pessoal é o direito do credor contra o devedor, tendo por objeto uma determinada</p><p>prestação. Forma-se uma relação de crédito e débito entre as pessoas.</p><p>Direito real é o poder, direto e imediato, do titular sobre a coisa, com exclusividade e</p><p>contra todos. Cria um vínculo entre a pessoa e a coisa (direito de propriedade), e esse vínculo dá ao</p><p>titular uma exclusividade (poder jurídico) em relação ao bem (erga omnes).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 56 de 146</p><p>Outras diferenças entre os direitos pessoais e os direitos reais podem ser expressos:</p><p>a) Quanto à formação</p><p>Direitos reais: têm origem na lei, não podem ser criados em um contrato entre duas</p><p>pessoas, sendo, por esse motivo, limitados. Seguem o princípio do numerus clausus (número</p><p>limitado), encontrando-se elencados no artigo 1.225 do Código Civil.</p><p>Direitos pessoais: não resultam apenas da lei, nascem de contratos, atos unilaterais e atos</p><p>ilícitos entre pessoas. Há vários contratos nominados pela lei (compra e venda, doação, prestação de</p><p>serviços), entretanto, é possível a criação de contratos inominados (cessão de crédito), pois, para</p><p>exsurgir um direito pessoal, basta que estejam presentes os requisitos de sua formação. Segue,</p><p>normalmente, o princípio do numerus apertus (número aberto, rol exemplificativo) (artigo 425 do</p><p>Código Civil).</p><p>b) Quanto ao objeto</p><p>Direito das coisas: o objeto é sempre um bem corpóreo (propriedade de um imóvel).</p><p>Direito pessoal: o objeto é a prestação de dar/entregar, fazer e/ou não fazer. Sempre que</p><p>duas pessoas celebram um contrato uma delas torna-se devedora de uma obrigação em relação a</p><p>credora.</p><p>c) Quanto aos sujeitos</p><p>Direito pessoais: os sujeitos são o credor e o devedor (sujeito ativo e sujeito passivo).</p><p>Direitos reais: costuma-se dizer que o direito real somente possui o sujeito ativo porque</p><p>este é ligado à coisa (de um lado o titular e do outro lado a coisa). A explicação, entretanto, é</p><p>didática.</p><p>Nos direitos reais, em princípio, o sujeito passivo é indeterminado porque todas as pessoas</p><p>do universo devem abster-se de molestar o titular (são direitos oponíveis erga omnes). No instante</p><p>em que alguém viola o direito do titular, o sujeito passivo se define.</p><p>d) Quanto à duração</p><p>Direitos pessoais: são transitórios, pois nascem, duram um certo tempo e se extinguem</p><p>(pelo cumprimento, pela compensação, pela prescrição, pela novação).</p><p>Direitos reais: são perpétuos, significa dizer que não se extinguem pelo não uso,</p><p>entretanto, extinguem-se pelas causas expressas em lei (por exemplo: desapropriação, usucapião em</p><p>favor de terceiros, perecimento da coisa, renúncia).</p><p>Resumindo!!!!</p><p>Relação Jurídica Obrigacional:</p><p>Sujeito Ativo</p><p>(credor)</p><p>Relação Jurídica</p><p>Obrigacional</p><p>Sujeito Passivo (devedor)</p><p>Relação Jurídica Real:</p><p>Titular do Direito Real Relação Jurídica Real Bem/Coisa</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 57 de 146</p><p>JURISPRUDÊNCIA</p><p>Julgado do STJ:</p><p>AÇÃO DE COBRANÇA. COTAS DE CONDOMÍNIO. LEGITIMIDADE PASSIVA.</p><p>PROPRIETÁRIO DO IMÓVEL, PROMISSÁRIO COMPRADOR OU POSSUIDOR.</p><p>PECULIARIDADES DO CASO CONCRETO. OBRIGAÇÃO PROPTER REM. DISSÍDIO</p><p>JURISPRUDENCIAL. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA. RECURSO NÃO</p><p>CONHECIDO.</p><p>1. As cotas condominiais, porque decorrentes da conservação da coisa, situam-se como</p><p>obrigações propter rem, ou seja, obrigações reais, que passam a pesar sobre quem é o titular da</p><p>coisa; se o direito real que a origina é transmitido, as obrigações o seguem, de modo que nada obsta</p><p>que se volte a ação de cobrança dos encargos condominiais contra os proprietários.</p><p>2. Em virtude das despesas condominiais incidentes sobre o imóvel, pode vir ele a ser penhorado,</p><p>ainda que gravado como bem de família.</p><p>9. OBRIGAÇÕES CIVIS E OBRIGAÇÕES NATURAIS</p><p>Obrigações civis – são as que apresentam os três elementos constitutivos já vistos, sujeito,</p><p>objeto e vínculo jurídico, sendo que o este último se decompõe em débito e responsabilidade.</p><p>Há um vínculo jurídico que sujeita o devedor a cumprir uma prestação em favor do credor.</p><p>Existe um liame entre o débito e a responsabilidade do devedor no caso de inadimplemento, o que</p><p>possibilita o credor a recorrer ao judiciário para executar o patrimônio do inadimplente,</p><p>independentemente de sua vontade.</p><p>Obrigações naturais – são aquelas que apresentam os três elementos, entretanto o vínculo</p><p>jurídico é imperfeito, pois existe o débito, mas não existe a responsabilidade. São aquelas</p><p>inexigíveis, uma</p><p>vez que não existe a garantia patrimonial.</p><p>O credor tem que esperar que o devedor pague espontaneamente a dívida.</p><p>Pode afirmar que na obrigação natural o devedor paga se quiser!!!!!!!!!!!!!</p><p>Entretanto apesar de existir o objeto falta-lhe a ação, pois o sujeito ativo não pode tornar</p><p>efetiva a prestação pelo fato de a mesma estar despida da execução forçada, ou porque a cobrança</p><p>dessa dívida repugnaria à consciência da coletividade (dívida de jogo) ou porque o credor deixou de</p><p>cobrar a dívida quando deveria (perdeu o prazo legal) e a mesma prescreveu (deixou de ser jurídica</p><p>e passou a ser natural).</p><p>As obrigações naturais ou imperfeitas são também chamadas de obrigações incompletas,</p><p>pois apresentam como característica essencial a particularidade de não serem judicialmente</p><p>exigíveis, contudo, se forem cumpridas espontaneamente o pagamento é tido por válido e não</p><p>caberá repetição, ou seja, poderá ser retido pelo credor. Exemplos: dívida de jogo e dívida prescrita.</p><p>• Não se deve confundir obrigação natural com dever de consciência. Aquele que dá esmola</p><p>age por solidariedade (dever de consciência), entretanto não existe qualquer débito anterior;</p><p>no caso da obrigação natural existia um débito anterior, embora agora ele seja inexigível.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 58 de 146</p><p>• No direito moderno, a única consequência jurídica das obrigações naturais é o direito do</p><p>credor de reter o que lhe for pago pelo devedor (Art. 882, do CC14).</p><p>• Entendo que são dois efeitos jurídicos na obrigação natural: o devedor pode dispor o seu</p><p>patrimônio e pagar voluntariamente, mesmo sabedor que não terá sanção, e o direito do</p><p>credor de retenção desse pagamento.</p><p>Artigos do Código Civil que tratam das obrigações naturais:</p><p>Art. 564. Não se revogam por ingratidão:</p><p>III - as que se fizerem em cumprimento de obrigação natural.</p><p>Art. 814. As dívidas de jogo ou de aposta não obrigam a pagamento; mas não se pode</p><p>recobrar a quantia, que voluntariamente se pagou, salvo se foi ganha por dolo, ou se o perdente é</p><p>menor ou interdito.</p><p>Art. 882. Não se pode repetir o que se pagou para solver dívida prescrita, ou cumprir</p><p>obrigação judicialmente inexigível.</p><p>10. CLASSIFICAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>A doutrina e o Código Civil apresentam diversas classificações no estudo das obrigações.</p><p>Destaca-se a classificação que se segue diante da análise do que seja a mais importante.</p><p>Quanto ao objeto:</p><p>É sempre uma conduta humana - dar, fazer ou não fazer alguma coisa - e se chama</p><p>prestação. Duas delas são positivas (dar e fazer) e uma é negativa (não fazer).</p><p>Quanto aos elementos constitutivos:</p><p>Leva em conta o número de sujeitos e o número de objetos. As obrigações, quanto aos</p><p>elementos constitutivos, podem ser simples e compostas (complexas).</p><p>Obrigação simples é aquela que tem um único sujeito ativo, um único sujeito passivo e</p><p>um só objeto. Basta que um desses elementos seja em número de dois para que a obrigação seja</p><p>composta.</p><p>Quando possui mais de um objeto, a obrigação é chamada de obrigação composta pela</p><p>multiplicidade de objetos; quando possuir mais de um sujeito, é chamada de composta pela</p><p>multiplicidade de sujeitos.</p><p>a) Compostas pela multiplicidade de objetos:</p><p>Podem ser cumulativas (também chamadas de conjuntivas) e alternativas (também</p><p>chamadas de disjuntivas).</p><p>14 Art. 882. Não se pode repetir o que se pagou para solver dívida prescrita, ou cumprir obrigação judicialmente</p><p>inexigível. Art. 564. Não se revogam por ingratidão: III - as que se fizerem em cumprimento de obrigação natural. Art.</p><p>814. As dívidas de jogo ou de aposta não obrigam a pagamento; mas não se pode recobrar a quantia, que</p><p>voluntariamente se pagou, salvo se foi ganha por dolo, ou se o perdente é menor ou interdito.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 59 de 146</p><p>Nas obrigações cumulativas, os vários objetos estão ligados pela conjunção e (exemplo: o</p><p>devedor obriga-se a entregar ao credor um automóvel e um animal).</p><p>Nas obrigações alternativas os vários objetos estão ligados pela disjuntiva ou (exemplo: o</p><p>devedor obriga-se a entregar ao credor um automóvel ou um animal).</p><p>Na obrigação alternativa, temos um único vínculo obrigacional, com múltiplas</p><p>prestações, porém efetuada a escolha, em princípio pelo devedor, individualiza-se a prestação e as</p><p>demais ficam liberadas. Caso pereça alguma das prestações, sem que tenha havido culpa por parte</p><p>do obrigado, o direito do credor fica circunscrito às coisas restantes, fenômeno este denominado</p><p>"concentração".</p><p>O nosso ordenamento não tratou a respeito de "obrigações facultativas", isto é, obrigações</p><p>que têm por objeto apenas uma obrigação principal, mas que confere ao devedor a possibilidade de</p><p>liberar-se mediante o pagamento de outra prestação prevista na avença, com caráter subsidiário.</p><p>Tem-se apenas uma prestação principal, verdadeiro objeto da obrigação, e uma acessória</p><p>ou subsidiária, tendo esta última apenas caráter liberatório do contrato.</p><p>Assim, obrigações facultativas quando, tendo um único objeto, o devedor tem a faculdade</p><p>de substituir a prestação devida por outra de natureza diversa, prevista subsidiariamente.</p><p>b) Compostas pela multiplicidade de sujeitos:</p><p>As obrigações podem ser divisíveis, indivisíveis e solidárias.</p><p>São divisíveis quando o objeto da prestação pode ser dividido entre os vários credores ou</p><p>os vários devedores.</p><p>São indivisíveis quando o objeto da prestação não pode ser dividido entre os vários</p><p>credores ou os vários devedores. Quando o objeto é indivisível e um só dos devedores é encontrado,</p><p>embora cada um deva cumprir sua quota-parte, esse terá de cumprir integralmente a obrigação,</p><p>tendo direito de regresso em face dos demais devedores.</p><p>Nas obrigações solidárias não se toma por base a divisibilidade ou não do objeto,</p><p>devendo-se observar se existe alguma cláusula contratual ou um dispositivo de lei que disponha</p><p>ser a obrigação solidária.</p><p>Quando a obrigação é solidária, cada devedor responde sozinho pela dívida integral. O</p><p>artigo 932 do Código Civil dispõe que os pais respondem pelos atos dos filhos menores; que o</p><p>patrão responde pelos atos dos seus empregados. A obrigação dessas pessoas é solidária (artigo 942</p><p>do Código Civil).</p><p>Quanto aos efeitos, há certa semelhança entre a indivisibilidade e a solidariedade, pois</p><p>nas duas, ainda que haja vários devedores, somente de um o credor poderá cobrar a obrigação</p><p>integral.</p><p>ATENÇÃO: DAS PERDAS E DANOS</p><p>É um dos efeitos do inadimplemento: PREJUÍZOS</p><p>Conceito:</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 60 de 146</p><p>Na terminologia técnica do Direito, perdas e danos exprime a expressão que evidencia</p><p>prejuízos a que uma pessoa tenha causado a outrem, por ato próprio ou alheio, mas de sua</p><p>responsabilidade.</p><p>No sentido jurídico, perdas e danos é o prejuízo efetivo e atual que promove o</p><p>desfalque ao patrimônio (dano emergente) mais ainda os lucros ou frutos que não possam ser</p><p>percebidos (lucros cessantes).</p><p>Código Civil:</p><p>Art. 402. Salvo as exceções expressamente previstas em lei, as perdas e danos devidas ao</p><p>credor abrangem, além do que ele efetivamente perdeu, o que razoavelmente deixou de lucrar.</p><p>Outras classificações:</p><p>Obrigações de meio: quando o devedor não está obrigado a chegar necessariamente ao</p><p>resultado e deve cumprir apenas com atuação/emprego a todos os meios ao seu alcance para</p><p>consegui-lo. Se não alcançar o resultado, mas for diligente nos meios, o devedor não será</p><p>considerado inadimplente (exemplo: obrigações dos advogados e dos médicos em geral).</p><p>Segundo doutrina dominante, a relação entre médico e paciente é contratual</p><p>e encerra, de</p><p>modo geral (salvo cirurgias plásticas embelezadoras), obrigação de meio e não de resultado.</p><p>Obrigação de resultado: quando o devedor se responsabiliza por esse mesmo resultado</p><p>acaso não consiga êxito. Se o resultado não for obtido, o devedor será considerado inadimplente.</p><p>Exemplo: médicos que executam cirurgia plástica de natureza estética (embelezadora), o</p><p>que constitui uma exceção ao exercício desses profissionais, a não ser que seja para correção de</p><p>doença: cirurgia estética reparadora.</p><p>Obrigações de execução instantânea: as contraídas para serem cumpridas</p><p>instantaneamente (exemplo: compra e venda à vista).</p><p>Obrigações de execução diferida: aquelas que devem ser cumpridas em momento futuro.</p><p>É diferida porque transferida para data futura (pagar em 30 dias).</p><p>Obrigações de prestações sucessivas: são cumpridas em vários atos, como ocorre com as</p><p>prestações periódicas (compra de um bem para pagar em 30 parcelas).</p><p>Obrigações condicionais: aquelas cuja eficácia está subordinada a um evento futuro e</p><p>incerto; geralmente aparecem com a partícula se (dar um carro se passar no vestibular).</p><p>Obrigações a termo: aquelas cuja eficácia está subordinada a um evento futuro e certo</p><p>(dar um carro no Natal).</p><p>Obrigações com encargo: aquelas sobre as quais pesa um determinado encargo (ônus).</p><p>Verifica-se nas doações e nos testamentos, que são chamados atos de liberalidade.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 61 de 146</p><p>Obrigações híbridas: as que constituem um misto de direito real e de direito pessoal</p><p>(exemplo: obrigação propter rem, que recai sobre uma pessoa em razão de sua condição de titular</p><p>de um determinado direito real).</p><p>JURISPRUDÊNCIA:</p><p>- STJ: CIVIL E PROCESSUAL - CIRURGIA ESTÉTICA OU PLÁSTICA - OBRIGAÇÃO</p><p>DE RESULTADO (RESPONSABILIDADE CONTRATUAL OU OBJETIVA) -</p><p>INDENIZAÇÃO - INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. I - Contratada a realização da cirurgia</p><p>estética embelezadora, o cirurgião assume obrigação de resultado (Responsabilidade contratual ou</p><p>objetiva), devendo indenizar pelo não cumprimento da mesma, decorrente de eventual deformidade</p><p>ou de alguma irregularidade. II - Cabível a inversão do ônus da prova. III - Recurso conhecido e</p><p>provido.</p><p>OBS.: Existe, na jurisprudência, entendimento no sentido de que a cirurgia para a correção de</p><p>miopia, por se tratar de procedimento médico, encerra OBRIGAÇÃO DE MEIO, e não de</p><p>RESULTADO (ou seja, havendo melhora na acuidade visual, a sua finalidade foi atingida, não</p><p>podendo o médico garantir a visão perfeita): “Por considerar que uma clínica não foi responsável</p><p>pelos danos no olho de um paciente, a 10ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais</p><p>reformou o entendimento de primeira instância e a dispensou de pagar indenização. Para o relator,</p><p>Pereira da Silva, a cirurgia no olho do paciente, para correção de miopia, “foi realizada com a</p><p>técnica certa, com destreza e zelo, sendo certo que a sequela decorreu por fatores pessoais do</p><p>paciente”. Ainda segundo o relator, “vale registrar que o contrato de prestação de serviços médicos</p><p>é, em geral, considerado de meio, como no presente caso, e não de resultado”. Assim, cabe a</p><p>indenização quando o serviço é prestado de forma negligente. Havia “um risco intrínseco ao</p><p>procedimento adotado, que na época era o único existente e adequado à doença”, afirmou. Mas, de</p><p>acordo com o desembargador, houve também uma redução da miopia de 13 para 3,5 graus. A</p><p>cirurgia custou R$ 420. Durante a recuperação, a região central da córnea ficou prejudicada e, com</p><p>isso, houve uma redução da visão do olho operado. O rapaz entrou na Justiça contra a clínica.</p><p>Alegou falha no procedimento cirúrgico. Já a clínica alegou ter informado sobre a possibilidade de</p><p>uma má cicatrização, que poderia gerar um corpo opaco no olho. Também argumentou que, após a</p><p>cirurgia, o paciente não compareceu mais ao local para aplicação de colírio. Cabe recurso. Leia a</p><p>decisão: APELAÇÃO CÍVEL 1.0707.01.044481-8/001” (Informação do Consultor Jurídico:</p><p>http://www.conjur.com.br/static/text/56944,1#null, acessado em 20 de setembro de 2008)</p><p>OBRIGAÇÕES PROPTER REM</p><p>No Direito Medieval surgiu uma terceira categoria de obrigações, que são as chamadas</p><p>obrigações propter rem (próprias da coisa). São obrigações no sentido estrito, mas sempre</p><p>vinculadas a um direito real acompanhando a coisa sempre que troca de proprietário ou possuidor,</p><p>ou seja, independente de quem seja: o obrigado é sempre o proprietário ou possuidor atual.</p><p>Exemplo: pagamento da taxa de condomínio.</p><p>As obrigações decorrem de um direito real, que muitas vezes é o de propriedade (principal</p><p>direito real), mas também pode decorrer da posse. Exemplo: é o inquilino quem paga as despesas</p><p>normais de conservação.</p><p>Também chamadas de obrigações reais porque são decorrentes da relação (poder) entre o</p><p>devedor e a coisa.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 62 de 146</p><p>A obrigação propter rem é aquela em que o devedor, por ser titular de um direito sobre</p><p>uma coisa, fica sujeito a determinada prestação que, por conseguinte, pode não derivar da</p><p>manifestação expressa ou tácita de sua vontade.</p><p>Exemplos de obrigações propter rem: a despesa do condômino de contribuir para a</p><p>conservação da coisa comum, a do proprietário de um apartamento, num edifício em condomínio de</p><p>pagar a taxa condominial, de não alterar a forma externa da fachada, a do proprietário de imóvel</p><p>incorporado ao patrimônio histórico e artístico nacional de não o destruir ou realizar obras que</p><p>modifiquem sua aparência, etc.</p><p>Em todos os exemplos citados verifica-se que o devedor está ligado à obrigação porque é</p><p>proprietário ou possuidor de um bem. Podem decorrer da comunhão ou copropriedade, do direito de</p><p>vizinhança, do usufruto, da servidão e da posse.</p><p>Características das obrigações propter rem: esta obrigação caracteriza-se pela presença</p><p>de três características básicas:</p><p>a) Ela prende o titular de um direito real, seja ele quem for, em virtude de sua condição de</p><p>proprietário ou possuidor da coisa. Não pode existir, portanto, fora das relações de direito real;</p><p>b) O devedor se livra da obrigação pelo abandono do direito real, ou seja, renunciando ao</p><p>direito de propriedade sobre a coisa o devedor se exonera; e</p><p>c) A obrigação se transmite aos sucessores a título singular do devedor, ainda que o novo</p><p>devedor não saiba de sua existência. Exemplo: se alguém recebe por herança um bem, que é parte</p><p>comum num condomínio, será esse novo dono que terá obrigação de contribuir para as despesas de</p><p>conservação da coisa.</p><p>Natureza jurídica da obrigação propter rem</p><p>É uma obrigação acessória mista, por vincular-se a direito real, objetivando uma prestação</p><p>devida a seu titular. A obrigação propter rem tem por objeto uma prestação específica e está</p><p>incorporada a um direito real. A pessoa do devedor pode variar, na dependência da relação da</p><p>propriedade ou da posse que venha a existir entre o sujeito e determinada coisa.</p><p>Obrigações Líquidas e Ilíquidas:</p><p>Líquida é a obrigação certa quanto à sua existência e determinada quanto ao seu objeto. A</p><p>prestação, pois, nesses casos, é certa, individualizada, a exemplo do que ocorre quando alguém se</p><p>obriga a entregar ao credor a quantia de R$100,00.</p><p>A obrigação ilíquida, por sua vez, carece de especificação do seu quantum, para que</p><p>possa ser cumprida. Exemplo de entregar a produção do mês de janeiro/2018. Não se sabe quantos</p><p>quilos dos produtos serão entregues, então é uma obrigação ilíquida.</p><p>11. MODALIDADES DAS OBRIGAÇÕES NO CÓDIGO CIVIL</p><p>11.1 OBRIGAÇÕES DE DAR:</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 63 de 146</p><p>Conceito – são aquelas onde</p><p>o devedor se compromete a entregar alguma coisa (móvel ou</p><p>imóvel) ao credor (tradição ou transcrição – transferência de domínio – entrega da coisa). Implica</p><p>na entrega de alguma coisa ao credor, seja transferindo-lhe a propriedade, a posse ou apenas o</p><p>uso/gozo.</p><p>O verbo dar deve ser entendido como o ato de entregar.</p><p>A obrigação de dar se desdobra em obrigação de dar coisa certa ou incerta, e em obrigação</p><p>de dar propriamente dita e obrigação de restituir.</p><p>IMPORTANTE: Há uma fundamental diferença entre ambas, pois na obrigação de</p><p>restituir, a coisa já pertence ao credor, apenas temporariamente está com o devedor. Como seu</p><p>nome já indica, caracteriza-se por envolver uma devolução. Exemplo: obrigação do depositário no</p><p>contrato de depósito, no qual ao término devolverá (restituirá) o objeto ao dono (depositante).</p><p>Regra básica: Art. 313 CC. - identidade da coisa devida – o devedor não se exonera com a</p><p>entrega de outra coisa, ainda que mais valiosa. Em contrapartida o credor não pode exigir coisa</p><p>diversa, ainda que menos valiosa.</p><p>Na clássica definição de Clóvis Beviláqua “é aquela cuja prestação consiste na entrega de</p><p>uma coisa móvel ou imóvel, seja para constituir um direito real, seja somente para facultar o uso, ou</p><p>ainda, a simples detenção, seja finalmente, para restituí-la ao seu dono”. A definição compreende</p><p>duas espécies de obrigações: a de dar, propriamente dita, e a de restituir.</p><p>O conceito pode ser resumido em uma única frase: é a obrigação de efetuar a tradição</p><p>(do latim tradere, que significa entregar; traditio = entrega do bem).</p><p>IMPORTANTÍSSIMO:</p><p>Somente com a entrega do bem, adquire-se a propriedade de bem móveis; já os bens</p><p>imóveis são adquiridos com o registro ou transcrição do título da escritura pública no Registro de</p><p>Imóveis (Art. 1.245, CC: Transfere-se entre vivos a propriedade mediante o registro do título</p><p>translativo no Registro de Imóveis. § 1o Enquanto não se registrar o título translativo, o alienante</p><p>continua a ser havido como dono do imóvel).</p><p>Conclui-se que no direito brasileiro o contrato apenas gera obrigação de dar, não</p><p>transferindo o domínio (propriedade).</p><p>Perecimento e deterioração da coisa:</p><p>Prevalece a regra res perit dornino, ou seja, a coisa perece para o dono; portanto, se a</p><p>coisa desapareceu antes da tradição, quem perde é o alienante.</p><p>Perecimento: havendo o perecimento (perda total) da coisa, deve-se verificar se houve</p><p>ou não culpa (IMPORTANTE) do devedor. Não havendo a culpa, resolve-se a obrigação (status</p><p>quo ante), sem qualquer responsabilidade. Se o perecimento ocorreu por culpa do devedor, haverá</p><p>obrigação de pagar o equivalente em dinheiro, mais perdas e danos, desde que provado o prejuízo.</p><p>Deterioração: é a perda parcial da coisa; também nesse caso deve-se observar se houve</p><p>ou não a culpa do devedor. Não havendo culpa, o credor poderá optar por desfazer o negócio, ou</p><p>ficar com a coisa mediante abatimento do preço avençado. Se houve culpa do devedor, as opções</p><p>continuam as mesmas, acrescidas do pedido de perdas e danos, desde que provado o prejuízo.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 64 de 146</p><p>Importante compreender o conceito de CULPA:</p><p>Culpa: Falta de CUIDADO, CAUTELA OU ATENÇÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!</p><p>Conceito: comportamento (conduta) humano contrário ao dever de cuidado imposto pelo</p><p>Direito, que causa dano a outrem porque o sujeito atuou com ação exagerada (imprudência) ou com</p><p>omissão (negligência), sem a intenção de provocar o prejuízo.</p><p>11.1.1 Obrigação de dar coisa certa propriamente dita (Art. 233 a 237 do CC):</p><p>Estabelece entre as partes um vínculo, através do qual o devedor se compromete a entregar</p><p>ou restituir ao credor um objeto perfeitamente determinado, considerando sua individualidade.</p><p>Exemplo: um cavalo de corridas, uma joia específica, uma determinada tela.</p><p>Pressupõe a lei que nenhuma outra coisa o interessa, ainda que de mais valor. Art. 313,</p><p>CC. O pagamento de qualquer outra coisa, ainda que mais valiosa depende de novo acordo entre as</p><p>partes, pois depende do consentimento do credor.</p><p>O intuito do credor é obter aquela coisa, objeto do contrato, que o agrada por suas</p><p>qualidades intrínsecas. Abrange os acessórios da coisa, a menos que expressamente se estipule em</p><p>contrário (Art. 233 CC). Exemplo: se “A” vender sua casa a “B”, presume-se que todos os</p><p>acessórios são vendidos juntos (piscina, por exemplo), a não ser que vendedor e comprador</p><p>estipulem o contrário ou circunstâncias do caso (alguém vendendo um carro com excelente</p><p>aparelhagem de som, que é um acessório pertença que não segue o carro – principal – mas que o</p><p>vendedor usa tal pertença na negociação com o som ligado).</p><p>a) Perda da coisa antes da tradição (Art. 234 CC):</p><p>Sem culpa do devedor: extingue-se a obrigação, voltando às partes à situação original.</p><p>Com culpa do devedor: responde este pelo equivalente e mais as perdas e danos (efeitos</p><p>do inadimplemento).</p><p>Observações: podem as partes estipular (em contrato) que o devedor responda por perdas</p><p>e danos diante de fortuito ou força maior (expressamente e por exceção) – mandamentos do Art.</p><p>393, CC. Se nada for estipulado, o devedor só responde em caso de culpa. O não cumprimento da</p><p>obrigação gera presunção de culpa, devendo o inadimplente provar que não houve essa culpa pelo</p><p>acordo contratual.</p><p>b) Deterioração da coisa antes da tradição (Arts. 235 e 236 do CC):</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 65 de 146</p><p>Sem culpa do devedor (Art. 235 CC): poderá o credor resolver (extinção) a obrigação ou</p><p>aceitar a coisa com redução do preço (renegociação do preço).</p><p>Com culpa do devedor (Art. 236 CC): poderá o credor resolver (extinção) o contrato,</p><p>exigindo o equivalente, ou aceitar a coisa como se encontra renegociando o preço, podendo num ou</p><p>noutro caso reclamar perdas e danos;</p><p>c) Os melhoramentos da coisa (Art. 237 CC):</p><p>Quem se beneficia é o dono (no caso o devedor) enquanto não houver tradição: se houver</p><p>aumento na coisa por fato que não dependa do devedor dono.</p><p>O devedor poderá exigir aumento no preço, resolvendo (extinção) a obrigação se o credor</p><p>não concordar; os frutos já percebidos são do devedor, e os pendentes do credor; se é um animal</p><p>que deve ser entregue, e antes da tradição fica prenhe (independente da vontade do devedor), cabe o</p><p>pedido de aumento de preço, pois o desdobramento ou dilatação da coisa equivale a melhoramento.</p><p>11.1.2 Obrigação de restituir coisa certa (artigos 238 e seguintes do CC):</p><p>Como já vimos a coisa já pertencia ao credor e estava na posse do devedor (tem o controle</p><p>de fato com relação à coisa) apenas temporariamente, devendo ser devolvida a seu dono quando</p><p>solicitada ou quando chegar o termo final do contrato. Os casos mais comuns são os de locação</p><p>(empréstimo remunerado), comodato (empréstimo gratuito de determinada coisa) e depósito</p><p>(guarda da coisa).</p><p>a) Perda da coisa antes:</p><p>Sem culpa do devedor (Art. 238 do CC): a obrigação simplesmente se resolve e o credor</p><p>sofre a perda.</p><p>Por culpa do devedor (Art. 239 do CC): o devedor responde pelo equivalente mais as</p><p>perdas e danos.</p><p>b) Deterioração da coisa (Art. 240 do CC):</p><p>Sem culpa do devedor: o credor terá que recebê-la no estado em que se encontrar, sem</p><p>qualquer indenização.</p><p>Por culpa do devedor: credor pode optar entre exigir o equivalente ou aceitar a coisa</p><p>como se encontra, em qualquer dos casos com o acréscimo de perdas e danos.</p><p>c) Os melhoramentos da coisa:</p><p>Sem despesa ou trabalho do devedor (Art. 241 do CC): o credor será simplesmente</p><p>beneficiado, não precisando pagar qualquer indenização ao devedor, porque ele é o dono da coisa.</p><p>Exemplo: obra da Prefeitura (asfaltamento) numa locação residencial.</p><p>Com trabalho ou despesa do devedor (Art. 242 do CC): ordena a lei que se observem os</p><p>preceitos relativos à posse. São hipóteses de benfeitorias realizadas em bem de terceiro, devendo ser</p><p>aplicados os Art. 1.219 a 1.222 quanto às benfeitorias e os Arts. 1.214 e 1.216 quanto aos frutos</p><p>(matéria de direito das coisas).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 66 de 146</p><p>As benfeitorias: estando de boa-fé o possuidor – será indenizado pelas benfeitorias úteis e</p><p>necessárias, podendo levantar as voluptuárias que não lhe forem pagas e desde que não prejudique a</p><p>estrutura do bem (Art. 1.219 do CC); estando de má-fé o possuidor, só será indenizado pelas</p><p>necessárias, perdendo às úteis e voluptuárias. Não tem direito à retenção (Art. 1.220 do CC).</p><p>Os frutos percebidos: estando de boa-fé o possuidor – terá direito aos frutos percebidos</p><p>(Art. 1.214 do CC). Os que estejam pendentes quando cessar a boa-fé pertencem ao credor devendo</p><p>ser restituídos, mas podem ser deduzidas as despesas de produção e custeio (Parágrafo único do Art.</p><p>1.214 do CC); estando de má-fé o possuidor – terá que indenizar o credor por todos os frutos</p><p>percebidos e até pelos que deixou de perceber, podendo requerer às despesas que efetuou com</p><p>produção e custeio (Art. 1.216 do CC).</p><p>Observação: o contratante que ocupa um imóvel em virtude de um contrato de locação,</p><p>por exemplo, está de boa-fé. Ao término da locação, contudo, quando deveria devolvê-lo, se não o</p><p>faz cessa a boa-fé e passa a responder pela má-fé.</p><p>A questão dos riscos – res perit domino (a coisa perece para o dono)</p><p>A regra geral para os riscos é A COISA PERECE PARA O DONO.</p><p>Quando se fala em risco, a questão é determinar quem sofre o prejuízo (de quem é o risco)</p><p>no caso da coisa se perder ou se deteriorar sem culpa do devedor (no caso de culpa é sempre o</p><p>culpado quem sofre o prejuízo).</p><p>Resumo das regras para quando a coisa se perde sem culpa do devedor:</p><p>Nas obrigações de dar (onde o devedor, antes da tradição é o dono), quem sofre o</p><p>prejuízo é o devedor (o dono); e</p><p>Nas obrigações de restituir (onde o credor é o dono) o prejuízo é do credor (mais uma</p><p>vez o dono).</p><p>11.2 Obrigação de dar coisa incerta (Arts. 243 a 246 do CC):</p><p>Tem por objeto a entrega de coisa não considerada em sua individualidade, mas no gênero</p><p>a que pertence, sendo fixada a quantidade.</p><p>Ela será mencionada através de referência a esse gênero e quantidade, pressupondo ser</p><p>indiferente ao credor receber uma ou outra, pois, em tese, todas são iguais. Considera-se</p><p>genericamente e não a coisa em si.</p><p>Exemplo: comerciante que vendeu X sacas de café, açúcar. Basta determinar a marca, não</p><p>importando se saiu deste ou daquele depósito. Exemplo: 500 sacas de arroz tipo 1 ou 2.</p><p>O devedor se libera da obrigação desde que entregue a quantidade e a qualidade avençada,</p><p>de acordo com o que foi acertado no contrato; no começo da relação obrigacional o objeto é</p><p>genérico, indeterminado, mas terá que ser determinável, indicado pelo gênero e quantidade (Art.</p><p>243 do CC).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 67 de 146</p><p>A escolha:</p><p>Para que a obrigação possa ser cumprida, a coisa precisará ser individualizada, o que é</p><p>feito através da escolha. O contrato deverá indicar a quem pertence o direito de escolha, se nada</p><p>indicar pertencerá do devedor (Art. 244, 1ª parte, do CC), pois o cumprimento da obrigação deverá</p><p>ser menos oneroso possível para o devedor.</p><p>O devedor deverá escolher um meio-termo de qualidade (Art. 244, in fine); segundo Silvio</p><p>Rodrigues, se for do credor o direito de escolha, este poderá escolher o de melhor qualidade que</p><p>houver; já Gustavo Bierambaum, citado pelo Ministro Cezar Peluzo, discorda e sustenta que</p><p>também credor que tiver a opção de escolha não poderá eleger o melhor dos bens disponíveis.</p><p>Sendo do credor o direito de escolha, será ele citado para fazê-la, sob pena de perder tal</p><p>direito havendo a inversão, passando o devedor a escolher a coisa a ser entregue (Art. 342 do CC).</p><p>A regra é de que o credor, depois de notificado, exerça a escolha determinada pelo juiz.</p><p>Considera-se a escolha feita quando as unidades a ser entregues são separadas do</p><p>patrimônio do devedor e colocadas à disposição do credor com o conhecimento deste. Se o contrato</p><p>determinar que a coisa deva ser colocada pelo devedor em um local específico, à disposição do</p><p>credor, estará cumprida a obrigação com o simples depósito no local estipulado.</p><p>Se a coisa a ser entregue ao comprador precisa ser contada, pesada, medida ou assinalada e</p><p>já estiver a sua disposição, ocorrendo a perda neste momento, mesmo que por caso fortuito,</p><p>correrão por conta deste (Art. 492, § 1º do CC). Feita à escolha, aplica-se às regras das obrigações</p><p>de dar coisa certa (Art. 245 do CC), pois uma vez individualizado o bem ou os bens eles se tornam</p><p>coisa certa, e tem que dar aqueles.</p><p>Os riscos (Art. 246 do CC):</p><p>Aqui vale a máxima romana de que o gênero não perece (genus nunquan perit). O</p><p>devedor não pode alegar que a coisa se perdeu, pois ainda que não possua coisas do mesmo gênero,</p><p>terá que consegui-las em outro lugar para entregá-las ao credor.</p><p>Exemplo: o café que o devedor mantinha em seu depósito para entregar ao credor</p><p>apodreceu, terá o devedor que arranjar outro em lugar diverso para entregar ao credor.</p><p>O bem pode ser substituído livremente por outro do mesmo gênero, assim não há como ser</p><p>extinta a obrigação por perecimento da coisa, porque o devedor poderá encontrar a coisa em outro</p><p>local.</p><p>O gênero limitado:</p><p>Teoria em que o gênero nunca perece sofre algumas limitações. Exemplo: nas obrigações</p><p>de entregar coisas oriundas de certo local, ou que sejam referentes a uma determinada época.</p><p>Qualquer delimitação que restrinja o gênero, como ocorre quando a obrigação a ser</p><p>cumprida seja entregar tantos livros de uma determinada edição, admite-se a extinção do gênero,</p><p>havendo impossibilidade absoluta para o cumprimento. Nesse caso, a obrigação se resolverá. Na</p><p>impede, é claro, que as partes acordem e nova edição seja entregue ao credor, mas isso é um novo</p><p>ajuste.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 68 de 146</p><p>Se o gênero se reduz a um número muito restrito de unidades, a obrigação deixa de ser de</p><p>dar coisa incerta e passa a ser alternativa. Exemplo: na obrigação de dar (entregar) uma das vacas da</p><p>fazenda do devedor, em virtude de uma enchente restaram apenas quatro vacas, a escolha terá de ser</p><p>feita entre as que sobraram.</p><p>11.3 OBRIGAÇÃO DE FAZER (Artigos 247 a 249 do CC):</p><p>É aquela onde a prestação do devedor consiste na observância de um determinado</p><p>comportamento, que pode ser a prática de um ato positivo ou um serviço, uma atividade, tarefa,</p><p>material ou imaterial, mas economicamente apreciável, donde decorre uma vantagem para o credor,</p><p>que pode ser um trabalho físico ou intelectual, científica ou a prática de um ato jurídico.</p><p>Exemplo: construir um edifício ou escrever um poema ou uma música. Qualquer atividade</p><p>humana lícita e possível pode ser objeto, tanto para a prestação de um trabalho quanto para a</p><p>promessa de contratar.</p><p>Os contratos de prestação de serviços estão inseridos como obrigação de fazer: construção</p><p>de uma casa, elaboração de um parecer, corte de grama, atividade de segurança condominial.</p><p>Obrigação de dar X obrigação de fazer:</p><p>- Em muitos casos essas duas modalidades se entrelaçam de tal forma que fica</p><p>difícil encontrar a distinção entre elas; o nosso Código Civil mantém tratamento</p><p>diferenciado entre as duas espécies.</p><p>- Segundo Washington de Barros Monteiro a questão básica consiste em verificar</p><p>se o dar é ou não consequência do fazer. Se o devedor primeiro</p><p>precisa</p><p>confeccionar a coisa para só depois entregá-la, a obrigação é de fazer. Em caso</p><p>contrário, será de dar.</p><p>- Já para Sílvio Rodrigues, a principal diferença é que na obrigação de dar existe</p><p>uma prestação de coisa, enquanto na obrigação de fazer encontra-se uma</p><p>prestação de fato.</p><p>- Há uma outra ideia que predomina na doutrina: na obrigação de dar é sempre</p><p>possível recorrer ao Poder Judiciário para penhorar, arrestar ou de qualquer</p><p>forma apreender a coisa in obligatione, a fim de entregá-la ao credor, enquanto</p><p>na obrigação de fazer é impossível alcançar uma execução específica, sem séria</p><p>ofensa à liberdade individual. Exemplo: um profissional que descumpre a</p><p>promessa de pintar o retrato do cliente, este não pode obter na justiça ordem</p><p>capaz de alcançar o resultado avençado, pois é impossível ao juiz mandar que um</p><p>oficial de justiça obrigue o devedor a pintar a tela, pois tal procedimento seria um</p><p>gravame à liberdade individual.</p><p>- Segundo a tese tradicional, o inadimplemento da obrigação de fazer conduz</p><p>sempre ao ressarcimento das perdas e danos; essa concepção é ultrapassada nos</p><p>casos em que a obrigação de fazer consiste na prestação de prestar uma</p><p>declaração de vontade, pois nesse caso, a pedido do requerente o juiz poderá</p><p>suprir a declaração de vontade.</p><p>Espécies de obrigações de fazer:</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 69 de 146</p><p>a) Fungíveis – Também denominadas de impessoais. São aquelas onde o</p><p>devedor pode ser substituído por outrem sem qualquer problema. Exemplo:</p><p>pintura de uma parede, o conserto do pneu de um carro.</p><p>b) Infungíveis – Também chamadas de personalíssimas ou intuitu personae.</p><p>São aquelas onde ao credor só interessa o cumprimento da prestação</p><p>pessoalmente pelo próprio devedor. Uma vez que se levam em conta as</p><p>qualidades pessoais do obrigado. Exemplo: confiar o patrocínio de uma causa</p><p>a um ilustre Advogado sem permitir substabelecimento.</p><p>Observações:</p><p>A infungibilidade deve ser ajustada pelas partes, mas esse ajuste pode ser tácito,</p><p>dependendo das circunstâncias do caso. No caso concreto, havendo dúvida, o juiz deverá decidir</p><p>pela fungibilidade, para atender ao princípio da execução menos onerosa para o devedor.</p><p>O Código Civil não contemplou claramente esta ideia de infungibilidade, no entanto, no</p><p>Art. 247 dispôs essa ideia. A infungibilidade é estipulada em favor do credor. A obrigação de fazer</p><p>infungível se extingue com a morte do devedor, enquanto a fungível se transmite por sucessão</p><p>hereditária.</p><p>Descumprimento da Obrigação de fazer:</p><p>Duas situações distintas: descumprimento em virtude de impossibilidade e recusa do</p><p>devedor ao cumprimento.</p><p>a) IMPOSSIBILIDADE (Art. 248 do CC): Sem culpa do devedor ou por culpa do</p><p>devedor:</p><p>- Sem culpa do devedor – a obrigação simplesmente se resolve, retornando às</p><p>partes a situação anterior (status quo ante). Há a devolução do valor pago.</p><p>Exemplo: cantor que perde a voz em razão de doença grave.</p><p>- Por culpa do devedor – responderá este por perdas e danos. A impossibilidade</p><p>deve ser absoluta. Em se tratando de mera dificuldade, a obrigação persiste (Art.</p><p>106 do CC). Exemplo: construtora que não constrói um prédio após receber o</p><p>dinheiro dos compradores, sem justificativa.</p><p>b) RECUSA DO DEVEDOR (Art. 247 e 249 do CC):</p><p>- Infungível a prestação – responderá o devedor por perdas e danos (Art. 247 do</p><p>CC). Exemplo: caso do cantor que não quer fazer o show. Não se admite o</p><p>constrangimento manu militari. A sanção ocorre sobre o patrimônio do devedor,</p><p>pois a sua liberdade individual sempre será respeitada.</p><p>- Fungível a prestação (Art. 249 do CC) – poderá o credor optar entre resolver</p><p>em perdas e danos ou mandar realizar o fato por terceiro, às custas do devedor.</p><p>• A execução por terceiro deve ser solicitada por intermédio do Judiciário. A</p><p>opção é do credor, não podendo ser alterada pelo Juiz.</p><p>• A realização por terceiro é uma flexibilização da regra de que ninguém pode ser</p><p>coagido a praticar um ato (nemo praecise cogi potest ad factum).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 70 de 146</p><p>• Na obrigação de pintar um carro, por exemplo, pode o credor escolher entre as</p><p>perdas e danos ou mandar pintar o carro em outra oficina, às custas do devedor.</p><p>Observações:</p><p>Não se admite o constrangimento físico para o cumprimento da obrigação quando a recusa</p><p>for infungível, por isso resolve-se com perdas e danos, pois o que se quer é que o devedor cumpra a</p><p>obrigação; quando a obrigação for fungível é possível fazer uso da multa diária (astreinte), e no</p><p>final, além da astreinte o devedor deverá cumprir com a obrigação ajustada.</p><p>Obrigação de prestar declaração de vontade:</p><p>Possível a execução específica, sem qualquer constrangimento do devedor; é a sentença</p><p>(decisão judicial) que funciona como substituta da declaração de vontade, conforme disciplina o</p><p>Código de Processo Civil/2015:</p><p>Art. 821. Na obrigação de fazer, quando se convencionar que o executado a satisfaça</p><p>pessoalmente, o exequente poderá requerer ao juiz que lhe assine prazo para cumpri-la.</p><p>Exemplo ocorre nos casos em que existe um contrato preliminar, com todos os requisitos</p><p>necessários ao contrato definitivo de compra e venda e a parte se recusa a assinar o contrato</p><p>definitivo.</p><p>11.4 OBRIGAÇÕES DE NÃO FAZER (NEGATIVA):</p><p>Conceito: é aquela onde o devedor assume o compromisso de se abster de um fato, que</p><p>poderia praticar livremente, não fosse o vínculo que o prende. Exemplo: proprietário que se</p><p>compromete a não construir seu muro além de certa altura, ou quando uma pessoa se compromete a</p><p>não vender determinado imóvel, a não ser para determinado credor.</p><p>Também conhecida como obrigação negativa, enquanto a obrigação de fazer é conhecida</p><p>como obrigação positiva. O devedor se abstém de fazer porque contraiu uma obrigação. Enquanto</p><p>está em vigor a obrigação de não fazer o devedor não poderá fazer o que acordou. Chama-se</p><p>obrigação CONTÍNUA.</p><p>Obrigação de não construir em frente da casa: obrigação de não fazer.</p><p>Obrigação de não cortar a árvore no contrato de locação: obrigação de não fazer.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 71 de 146</p><p>O devedor concorda em restringir a própria ação/conduta, assumindo o compromisso de</p><p>não praticar um ato que, normalmente, poderia praticar. O cumprimento ou adimplemento dessa</p><p>modalidade de obrigação ocorre de forma toda especial, ou seja, pela abstenção mais ou menos</p><p>prolongada de um fato ou de um ato jurídico.</p><p>A abstenção deve sempre se levar em consideração, é claro, a licitude da situação no</p><p>campo da moral e dos bons costumes.</p><p>Condição para sua validade:</p><p>A obrigação de não fazer será lícita e, portanto, válida, sempre que não envolver restrição</p><p>sensível à liberdade individual, porque o Estado repugna valorizar um vínculo quando seu objeto é</p><p>alcançar resultado que contrarie com os fins da sociedade, porque são imorais ou antissociais, e</p><p>assim sendo, o direito não lhes empresta força coercitiva.</p><p>Assim, seriam inválidas as obrigações de não casar, não trabalhar, não cultuar</p><p>determinada religião, não se alimentar.</p><p>Inadimplemento das obrigações de não fazer:</p><p>Os princípios aplicáveis aqui são semelhantes aos do descumprimento das obrigações de</p><p>fazer:</p><p>Sem culpa do devedor – simplesmente extingue-se a obrigação (Art. 250 do CC). Se o</p><p>devedor havia recebido algum adiantamento do credor deverá fazer a restituição.</p><p>Com culpa do devedor – terá o credor duas opções:</p><p>a) Exigir que o devedor o desfaça, sob pena de ser desfeito a sua custa (Art. 251 do CC).</p><p>Num e noutro caso, cabe as perdas e danos. Esta execução que é a específica será</p><p>sempre a</p><p>preferida; e</p><p>b) Perdas e danos – (Art. 389 do CC) - Esta solução somente será utilizada se for</p><p>impossível desfazer o ato. Exemplo: se a obrigação consistia em não cortar uma árvore e esta foi</p><p>cortada pelo devedor. Nessa hipótese não há meios para o desfazimento da obrigação negativa não</p><p>restando outra alternativa ao credor senão pleitear o pagamento das perdas e danos.</p><p>Observação: O Art. 389 do CC prevê além das perdas e danos o pagamento de juros e</p><p>atualização monetária mais honorários de advogado.</p><p>EM RESUMO:</p><p>MODALIDADE ADIMPLEMENTO INADIMPLEMENTO</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 72 de 146</p><p>(CUMPRIMENTO) (NÃO CUMPRIMENTO)</p><p>POSITIVA:</p><p>DAR (ENTREGAR)</p><p>FAZER</p><p>+</p><p>-</p><p>NEGATIVA:</p><p>NÃO FAZER</p><p>-</p><p>+</p><p>11.5 OBRIGAÇOES ALTERNATIVAS E CUMULATIVAS (Art. 252 a 256, CC):</p><p>A obrigação pode ter apenas uma ou várias prestações.</p><p>No primeiro caso tem-se a obrigação simples.</p><p>No segundo caso, as obrigações complexas, e dentre estas as obrigações podem ser</p><p>cumulativas (ou conjuntivas) e alternativas (ou disjuntivas).</p><p>Cumulativas ou conjuntivas: são aquelas onde todas as prestações devem ser cumpridas</p><p>pelo devedor. Na verdade, é como se existissem tantas obrigações quantas forem as prestações a</p><p>serem cumpridas, e a cada uma das prestações são aplicáveis as regras já estudadas, sendo</p><p>desnecessário o Código Civil estabelecer uma seção com essa modalidade.</p><p>Exemplo: em razão da compra de uma casa tenho que pagar R$ 10.000,00 + um cavalo +</p><p>um automóvel. O objeto é composto pela partícula e.</p><p>Alternativas ou disjuntivas – são aquelas onde o devedor se libera cumprindo apenas</p><p>uma das múltiplas prestações possíveis.</p><p>Exemplo: o vendedor que se obriga a substituir a televisão defeituosa ou a devolver o</p><p>dinheiro ao comprador. Cumprindo qualquer uma das duas estará livre o devedor. Exemplo: em</p><p>razão da compra de um automóvel pago R$ 10.000,00 ou um cavalo. O objeto composto pela</p><p>partícula ou.</p><p>Para Caio Mário da Silva Pereira é conceituada como “tipo obrigacional em que existe</p><p>unidade de vínculo e pluralidade de prestações, liberando-se, contudo, o devedor mediante o</p><p>pagamento de uma só delas” (grifo nosso).</p><p>Traços fundamentais das obrigações alternativas:</p><p>a) A pluralidade de prestações; e</p><p>b) A liberação do devedor pelo cumprimento de apenas uma delas.</p><p>Vantagens das Obrigações alternativas:</p><p>- Para o devedor – permite optar pela prestação que lhe for menos onerosa;</p><p>- Para o credor – dá maior segurança de que a prestação será efetivamente</p><p>cumprida;</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 73 de 146</p><p>- Nada obsta que uma das prestações alternativas seja de dar e a outra seja de</p><p>fazer, ou de não-fazer. Enfim, as diversas modalidades de prestações podem ser</p><p>combinadas entre si.</p><p>A concentração (a escolha)</p><p>A concentração implica numa escolha, através da qual ficará perfeitamente delineada a</p><p>obrigação a ser cumprida. As partes podem livremente estipular a quem caberá o direito de escolha.</p><p>Se outra coisa não se estipulou a escolha caberá ao devedor (Art. 252 CC).</p><p>O motivo é o mesmo das obrigações genéricas (de dar coisa incerta): é para o atendimento</p><p>ao princípio de que a execução possa ser a menos onerosa possível para o devedor (supõe-se que</p><p>este escolherá a prestação menos onerosa). Uma vez feita a escolha, somente a prestação escolhida</p><p>é devida, e a obrigação deixa de ser complexa e passa a ser simples.</p><p>O devedor não pode obrigar o credor a receber parte em uma prestação e parte em outra</p><p>(Art. 252, §1º CC). A mesma regra vale para o credor: se for este quem tiver o direito de escolha,</p><p>não poderá exigir que o devedor lhe pague parte em uma prestação e parte em outra. Mas nada</p><p>impede que as partes acertem (transijam).</p><p>A parte a quem cabe a escolha pode livremente mudar a prestação escolhida, desde que a</p><p>outra parte ainda não tenha tido conhecimento da escolha feita. Comunicada a escolha, contudo, ela</p><p>será irretratável unilateralmente.</p><p>Nada impede também que as partes entrem em acordo. Por isso é que se diz que a escolha</p><p>é uma declaração receptícia de vontade, isto é, é uma manifestação de vontade destinada à outra</p><p>parte. O direito de escolha transmite-se, em caso de morte, aos herdeiros do credor ou do devedor.</p><p>Em se tratando de prestações periódicas, a escolha poderá ser realizada em cada período,</p><p>no momento do cumprimento da prestação (Art. 252, § 2º do CC).</p><p>Exemplo: se o devedor se obriga a pagar ao credor, anualmente 100 sacas de feijão ou R$</p><p>1.000,00, a cada ano que passa ele poderá optar a forma que cumprirá a sua prestação, ora pela</p><p>entrega das 100 sacas de feijão ora pelo pagamento da quantia de R$ 1.000,00, pois a escolha que</p><p>fez num ano não o obriga a mantê-la no ano seguinte.</p><p>Sendo alternativa a obrigação e havendo pluralidade de optantes, se não houver</p><p>unanimidade entre eles, caberá ao juiz decidir a coisa a ser escolhida, se assinalar prazo para que o</p><p>façam e estes não o fizerem no termo estabelecido (Art. 252, § 3º do CC); se ficar estipulado no</p><p>contrato que caberá a terceiro realizar a escolha, se este não o fizer caberá ao juiz fazê-lo caso não</p><p>haja acordo entre as partes (Art. 252, § 4º do CC).</p><p>A impossibilidade de uma das prestações:</p><p>Se a escolha competir ao devedor: é irrelevante saber se houve culpa ou não pela</p><p>impossibilidade. De qualquer forma, concentra-se a obrigação na prestação remanescente (Art. 253</p><p>do CC); e sendo várias as prestações possíveis, persiste a alternatividade quanto às remanescentes.</p><p>Se a escolha competir ao credor: importante saber se houve ou não culpa do devedor:</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 74 de 146</p><p>Não havendo culpa do devedor – o credor simplesmente terá que se contentar com uma</p><p>das prestações remanescentes; e</p><p>Havendo culpa do devedor – o credor poderá escolher ou a prestação subsistente ou o</p><p>valor de qualquer das obrigações, além das perdas e danos (Art. 255, 1ª parte do CC).</p><p>A impossibilidade de todas as prestações:</p><p>Se não houve culpa do devedor: simplesmente extingue-se a obrigação (Art. 256 do CC).</p><p>Isto se o devedor não estava em mora. Havendo essa mora, não há tal efeito liberatório (Art. 399 do</p><p>CC), porque já deveria ter cumprido a obrigação e não o fez. Paga pelas perdas e danos.</p><p>Se houve culpa do devedor: a solução varia conforme a parte que detém o direito de</p><p>escolha:</p><p>Se a escolha pertencer ao devedor: ficará ele obrigado a pagar o valor da prestação que</p><p>por último se impossibilitou, acrescido de perdas e danos (Art. 254 do CC).</p><p>Se a escolha for do credor: este poderá reclamar o valor de qualquer das prestações,</p><p>acrescido de perdas e danos (Art. 255, 2ª parte do CC).</p><p>JUSRISPRUDÊNCIA:</p><p>- TJSP: Os acessórios de bem alienado fiduciariamente devem ser restituídos ao banco por ocasião</p><p>do cumprimento da liminar concedida em ação de busca e apreensão.</p><p>- TJSP: A ação de dar coisa certa é inadequada se o bem não foi identificado quanto a sua</p><p>quantidade e gênero.</p><p>- TJSC: A partir da tradição da mercadoria, sofre o comprador as consequências de sua perda ou</p><p>deterioração, tal como exprime o velho brocardo jurídico, res perit domino. Na comercialização de</p><p>açúcar para o mercado externo, o domínio aperfeiçoa-se, em termos de transferência, através de sua</p><p>entrega a bordo. A partir desse momento, os defeitos que apresentar por força do transporte, da</p><p>descarga e do armazenamento, não mais podem ser imputados ao vendedor.</p><p>- TJSP: Obrigação de fazer. Pedido judicial objetivando restabelecer o fornecimento de água na</p><p>unidade condominial do autor. Condomínio que, possuindo meios processuais e legais</p><p>para a</p><p>cobrança das cotas em atraso, não está legalmente autorizado a proceder a interrupção de serviço</p><p>essencial (fornecimento de água) ao condômino inadimplente.</p><p>- TJRS: Contrato. Obrigação de escritura de compra e venda de imóvel financiado. Tendo o</p><p>adquirente (comprador) satisfeito todas as suas obrigações – pagamento do preço e de prestações</p><p>atrasadas do financiamento – e faltando o alienante (vendedor) cumprir a transferência do</p><p>financiamento quando veio a falecer, resulta em benefício do primeiro a quitação pelo seguro do</p><p>saldo devedor do financiamento. Dever de o espólio outorgar a escritura definitiva.</p><p>- TJSP: Alienação fiduciária. Obrigação de devolver o bem em 24 horas ou o equivalente em</p><p>dinheiro. Veículo roubado. Uma vez perecido o bem, mantém-se a obrigação do pagamento do</p><p>equivalente. Perecimento do bem não extingue a obrigação, que é alternativa.</p><p>11.6 OBRIGAÇÕES DIVISÍVEIS, INDIVISÍVEIS E SOLIDÁRIAS (artigos 257 a 285 do CC</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 75 de 146</p><p>11.6.1 OBRIGAÇÕES DIVISÍVEIS:</p><p>Nesses tipos de obrigações somente interessa quando há multiplicidade de sujeitos</p><p>(obrigação composta); portanto, quando temos apenas um credor e um devedor, sua distinção é</p><p>irrelevante (obrigação simples).</p><p>Obrigação divisível é aquela cuja prestação é suscetível de cumprimento parcial, sem</p><p>prejuízo de sua substância e de seu valor. Assim, o que pode ser fracionado em partes homogêneas</p><p>e distintas, sem alteração das suas qualidades essenciais e sem desvalorização é considerado coisa</p><p>divisível.</p><p>Havendo pluralidade de credores ou de devedores, e sendo divisível a obrigação, esta se</p><p>divide em tantas obrigações autônomas quantas forem às partes (credores ou devedores) – concursu</p><p>partes fiunt -, e cada credor só poderá exigir a sua quota-parte, assim como cada devedor só estará</p><p>obrigado a pagar a sua quota, Art. 257 do CC.</p><p>EXEMPLO: Se três devedores se comprometem a entregar ao credor 03 mil tijolos, cada</p><p>um deles irá se desobrigar entregando cada um o milheiro que lhe compete, porque se nada for</p><p>estipulado em contrário, a lei presume que as partes dos devedores eram iguais:</p><p>DEVEDORES</p><p>OBJETO (PRESTAÇÃO) CREDOR</p><p>MARCOS (1.000 tijolos) Entregar:</p><p>LUIZ (1.000 tijolos) 3.OOO tijolos TÍCIO</p><p>ANA (1.000 tijolos)</p><p>CREDORES OBJETO (PRESTAÇÃO) DEVEDOR</p><p>MARCOS (1.000 tijolos) Entregar:</p><p>LUIZ (1.000 tijolos) 3.OOO tijolos TÍCIO</p><p>ANA (1.000 tijolos)</p><p>Para Ricardo Fiúza:</p><p>“São divisíveis as obrigações cujas prestações podem ser cumpridas parcialmente e cada</p><p>um dos devedores só estará obrigado a pagar a sua parte da dívida, assim como cada credor só</p><p>poderá exigir a sua porção do crédito”.</p><p>Complementa: “Diferentemente do que ocorre com as obrigações alternativas, aqui a</p><p>prestação é uma só, a pluralidade é dos sujeitos da obrigação; por fim, se houver um só credor e um</p><p>só devedor, a obrigação será sempre indivisível, já que nem o credor estaria obrigado a receber</p><p>pagamentos parciais, nem o devedor estaria compelido a fazê-los˝.</p><p>JURISPRUDÊNCIA: Embargos do devedor (recurso processual). Solidariedade.</p><p>Obrigação divisível. A decisão no processo de conhecimento apenas condenou as rés ao pagamento</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 76 de 146</p><p>da quantia em dinheiro. Não é possível presumir a solidariedade, esta resulta da lei ou do contrato.</p><p>Obrigação em dinheiro é divisível. Recurso provido (TJRS).</p><p>11.6.2 OBRIGAÇÕES INDIVISÍVEIS:</p><p>Diz-se indivisível a obrigação caracterizada pela impossibilidade natural ou jurídica de</p><p>fracionar a prestação, na qual cada devedor é obrigado pela totalidade da prestação e cada</p><p>credor só pode exigi-la por inteiro (Ricardo Fiuza). Também ocorre nas obrigações compostas</p><p>pela multiplicidade de sujeitos.</p><p>O novo Código inova o direito anterior, não, somente pelo acréscimo do conceito de</p><p>obrigação indivisível, como, sobretudo por deixar claro que a indivisibilidade não decorre apenas da</p><p>natureza da prestação (indivisibilidade física) ou da lei (indivisibilidade legal), mas também por</p><p>motivo de ordem econômica, posição que já era trilhada pela doutrina. Ou seja, é também</p><p>indivisível a prestação cujo cumprimento parcial implique a perda de sua viabilidade econômica.</p><p>Em suma:</p><p>Segundo Sílvio Rodrigues, a obrigação é indivisível quando indivisível for seu objeto. Seu</p><p>fracionamento alterará sua substância ou representa sensível diminuição de seu valor, e neste caso,</p><p>as obrigações de entregar tais objetos são consequentemente indivisíveis. Exemplos: um quadro,</p><p>uma espingarda, um animal.</p><p>VALE RELEMBRAR O ESTUDO SOBRE BENS (CIVIL – PARTE GERAL):</p><p>Dos Bens Divisíveis (Código Civil)</p><p>Art. 87. Bens divisíveis são os que se podem fracionar sem alteração na sua substância,</p><p>diminuição considerável de valor, ou prejuízo do uso a que se destinam.</p><p>Art. 88. Os bens naturalmente divisíveis podem tornar-se indivisíveis por determinação da</p><p>lei ou por vontade das partes.</p><p>ESPÉCIES DE INDIVISIBILIDADE:</p><p>Natural ou física – decorre da própria natureza do bem, pois a sua divisão implica</p><p>considerável perda de seu valor ou o bem se perde (Art. 87 do CC).</p><p>Exemplo: quadro, escultura, pistola (deixa de ser uma pistola).</p><p>Convencional – por convenção das partes. Normalmente é estabelecida em benefício do</p><p>credor, uma vez que poderá cobrar a totalidade da prestação de qualquer um dos devedores.</p><p>Podendo ser uma vantagem para os devedores, em relação às obrigações solidárias, se perder a</p><p>qualidade de indivisível que se resolverá em perdas e danos, transformando-se então em obrigação</p><p>divisível (Art. 263, CC).</p><p>Legal – decorre da lei, pouco importa que a prestação seja naturalmente divisível (Art. 88</p><p>do CC).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 77 de 146</p><p>Exemplos: servidão (Art. 1.386 do CC); herança antes da partilha (Art. 1.791, parágrafo</p><p>único), os lotes urbanos devem ter área mínima de 125m² e frente mínima de 5 metros (Lei n.</p><p>6.766/1979 – Art. 4°, II).</p><p>Observação: a indivisibilidade da obrigação seja qual for sua origem, representa sempre</p><p>vantagem para o credor, que podendo cobrar a dívida de qualquer dos coobrigados, certamente</p><p>cobrará do devedor com mais condições de saldar a dívida.</p><p>Exemplo: dois negociantes se comprometem a entregar um quadro para o credor, é claro</p><p>que satisfaz a obrigação receber de um deles uma parte ideal de cada negociante. Ao negociante</p><p>(credor) somente interessa a tela inteira e por esse motivo que esta obrigação é considerada</p><p>indivisível, permitindo ao credor demandar contra qualquer dos negociantes devedores para receber</p><p>sua tela.</p><p>DEVEDORES</p><p>OBJETO (PRESTAÇÃO) CREDOR</p><p>Entregar:</p><p>LUIZ 01 QUADRO TÍCIO</p><p>ANA</p><p>AS MODALIDADES DE OBRIGAÇÕES QUE PODEM SER DIVISÍVEIS OU</p><p>INDIVISÍVEIS:</p><p>- Tanto as obrigações de dar quanto às de fazer podem ser divisíveis;</p><p>- As obrigações de restituir são normalmente indivisíveis, porque o credor não está</p><p>obrigado a receber em partes a coisa que se achava em mãos do devedor, mas que sempre lhe</p><p>pertence;</p><p>- As obrigações de fazer são indivisíveis quando forem infungíveis ou tiverem por objeto</p><p>um trabalho completo. Exemplo: construção de uma casa ou confecção de uma estátua (estes</p><p>trabalhos podem ser compostos de partes, mas cada parte não é autônoma, somente existindo em</p><p>função do todo);</p><p>- As de fazer fungível podem ser divisíveis. Exemplo: 1000 camisas em 5 parcelas;</p><p>- As obrigações de não-fazer, via de regra, são indivisíveis: ou o devedor se abstém de</p><p>praticar o ato ou não.</p><p>CONSEQUÊNCIAS DA INDIVISIBILIDADE:</p><p>Na pluralidade de devedores:</p><p>Cada codevedor responde pelo total da obrigação, embora só deva</p><p>parte dela (Art. 259 do</p><p>CC). Não esqueça que dentro de cada polo ativo e passivo persiste a divisibilidade. O devedor</p><p>que paga o total da dívida, sub-roga-se (substitui) nos direitos do credor contra os demais</p><p>codevedores, descontada a sua própria parte (Art. 259, parágrafo único do CC).</p><p>Convertendo-se a obrigação em perdas e danos, cessa a indivisibilidade, passando cada</p><p>devedor a responder só pela sua parte (Art. 263 do CC), sendo em partes iguais se houver culpa de</p><p>todos (Art. 263, § 1º), ou só o devedor culpado, se apenas de um deles for a culpa pelo</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 78 de 146</p><p>inadimplemento, ficando os demais exonerados (Art. 263, § 2º) pelo acréscimo em relação ao</p><p>prejuízo, isto é, o devedor sem culpa deve pagar apenas sua quota (equivalente sem o acréscimo das</p><p>perdas e danos).</p><p>Se um dos devedores se tornar insolvente (quando as dívidas excederem ao valor dos bens</p><p>que possui), o credor poderá demandar qualquer dos outros pela dívida integral, e os devedores</p><p>sofrerão o prejuízo, dividindo entre si a quota do insolvente.</p><p>Em suma: Não pode o codevedor de prestação indivisível quitar parcialmente a dívida, ou</p><p>seja, mesmo não estando obrigado pela dívida toda, deve pagá-la integralmente, pois não pode</p><p>dividir a obrigação. Não se trata de solidariedade, como veremos mais adiante, em que o devedor</p><p>deve o todo.</p><p>Na pluralidade de credores:</p><p>Cada credor pode exigir a dívida inteira. Mas o devedor só se exonera se pagar a todos os</p><p>credores em conjunto ou a um se este estiver autorizado pelos demais, ou se o credor que recebeu</p><p>prestar caução (garantia) de ratificação dos demais (Art. 260 do CC).</p><p>Na falta de caução, o devedor não pagará a apenas um dos credores, e só oferecerá a coisa</p><p>devida a todos, conjuntamente. E se um só dos credores se recusar a receber, todos os credores</p><p>incorrerão em mora accipiendi (mora dos credores).</p><p>Essa caução nada mais é do que uma garantia oferecida pelo credor que recebe o</p><p>pagamento de que os outros cocredores o reputam válido e não cobrarão posteriormente do devedor</p><p>as suas quotas no crédito.</p><p>Os demais credores podem exigir sua parte em dinheiro daquele que recebeu o pagamento</p><p>integral (Art. 261 do CC). O credor não pode recusar o pagamento por inteiro, sob pena de ser</p><p>constituído em mora.</p><p>A remissão (perdão) do débito por parte de um dos credores não atingirá o direito dos</p><p>demais, pois a dívida não se extinguirá com relação aos outros. Entretanto os credores somente</p><p>poderão exigir a dívida do devedor descontada a quota do credor remitente (Art. 262 do CC),</p><p>transformando a obrigação em divisível.</p><p>Ocorrendo indivisibilidade o credor pode exigir de qualquer dos devedores o pagamento</p><p>integral da prestação, apesar de, a rigor, estes somente deverem parte da prestação. Entretanto, em</p><p>razão da indivisibilidade são obrigados a pagar a integralidade da prestação, podendo, este devedor</p><p>que pagar integralmente a dívida sub-rogar (substituir) contra o outro devedor e receber a outra</p><p>parte da prestação.</p><p>Em contrapartida, sendo vários credores e apenas um devedor, este, na hipótese de</p><p>indivisibilidade, se libera da dívida pagando integralmente a dívida a apenas um dos credores. Em</p><p>rigor, a pessoa que recebe o pagamento é credora apenas de uma parte, mas que em razão dessas</p><p>circunstâncias recebe a prestação por inteiro.</p><p>CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES:</p><p>- Na obrigação divisível, cada devedor se exonera pagando apenas a sua quota-parte, e</p><p>cada credor não tem direito a receber nada além de sua parcela.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 79 de 146</p><p>- Já na obrigação indivisível, cada credor pode exigir o total e cada devedor está obrigado</p><p>a pagar esse total a um dos credores. Isso é em razão da natureza de seu objeto da convenção ou da</p><p>lei, insuscetível de ser repartido.</p><p>No caso de solidariedade, ao contrário, a possibilidade de a prestação ser prestada ou</p><p>exigida por inteiro vem da própria lei, que assim que o determina, ou de convenção existente entre</p><p>as partes, como veremos em seguida.</p><p>Ressalta-se, que a questão da indivisibilidade da prestação somente é possível na hipótese</p><p>de haver pluralidade de credores ou de devedores, ou de ambos, porque, havendo um só credor e um</p><p>só devedor, é irrelevante indagar se a prestação é indivisível ou não.</p><p>11.6.3 OBRIGAÇÕES SOLIDÁRIAS:</p><p>CONCEITO</p><p>O conceito de solidariedade pode ser encontrado no artigo 264 do CC, senão vejamos:</p><p>“Há solidariedade, quando na mesma obrigação concorre mais de um credor (ativa), ou</p><p>mais de um devedor (passiva), cada um com direito, ou obrigado, à dívida toda”.</p><p>Assim:</p><p>Na solidariedade ativa cada um dos credores pode exigir do devedor comum o pagamento</p><p>integral da dívida.</p><p>11.6.3.1 SOLIDARIEDADE ATIVA:</p><p>Na solidariedade ativa cada credor pode exigir do devedor o pagamento integral ou parcial</p><p>da dívida.</p><p>11.6.3.2 SOLIDARIEDADE PASSIVA:</p><p>Na solidariedade passiva o credor pode escolher um ou alguns dos devedores para dele</p><p>exigir o pagamento integral ou parcial da dívida.</p><p>11.6.3.3 SOLIDARIEDADE MISTA:</p><p>Na solidariedade mista existem vários credores e vários devedores, e qualquer dos credores</p><p>pode cobrar a dívida de qualquer um dos devedores.</p><p>Ricardo Fiuza nos ensina que:</p><p>Obrigação solidária: é a obrigação quando a totalidade da prestação puder ser exigida</p><p>indiferentemente por qualquer dos credores de quaisquer dos devedores. Cada devedor deve o todo</p><p>e não apenas sua fração ideal, como ocorre nas obrigações indivisíveis.</p><p>Diferencia-se da indivisibilidade, visto que esta se relaciona ao objeto da prestação</p><p>(objetiva), enquanto a solidariedade se funda em relação jurídica subjetiva. Tanto é assim que,</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 80 de 146</p><p>convertida a obrigação em perdas e danos, desaparece a indivisibilidade (Art. 263, CC),</p><p>permanecendo, no entanto, a solidariedade (Art. 271, CC).</p><p>CARACTERÍSTICAS DA OBRIGAÇÃO SOLIDÁRIA:</p><p>São os seguintes elementos que caracterizam a obrigação solidária:</p><p>Multiplicidade de credores, ou de devedores, ou de ambos.</p><p>Corresponsabilidade dos interessados (sujeitos ativo e passivo) – no sentido de que o</p><p>devedor que paga a dívida por inteiro pode buscar junto aos demais devedores a quota de cada um.</p><p>O mesmo acontece com os sujeitos ativos. O credor que recebe o pagamento integral fica obrigado</p><p>a repassar a cota de cada um dos demais credores.</p><p>PRINCÍPIOS (REGRAS) COMUNS À SOLIDARIEDADE:</p><p>A) DA NÃO PRESUNÇÃO DE SOLIDARIEDADE:</p><p>O nosso ordenamento não admite a solidariedade presumida, pois ela somente resulta da lei</p><p>ou da vontade das partes, tendo em vista que a solidariedade importa um agravamento da</p><p>responsabilidade dos devedores, que passarão a serem obrigados ao pagamento total da dívida.</p><p>Assim, se a lei não impuser ou o contrato não estipular não se terá solidariedade, em</p><p>observação ao que dispõe o Art. 265 do Código Civil (importante).</p><p>JURISPRUDÊNCIA:</p><p>Processual civil. Recurso especial. Custas e honorários advocatícios. O Superior Tribunal</p><p>de Justiça (STJ) vem entendo ser inaplicável, em honorários advocatícios, o princípio da</p><p>solidariedade, salvo se expressamente consignado na sentença exequenda. Caso não haja menção</p><p>expressa no título executivo quanto à solidariedade das partes que sucumbiram (perderam) no</p><p>mesmo polo da demanda, vige o princípio da proporcionalidade, isto é, cada sucumbente somente</p><p>deve sua quota-parte (obrigação divisível). Assim, inaplicável o princípio da solidariedade na</p><p>condenação de custas e honorários advocatícios, pois o artigo 23 do CÓDIGO DE PROCESSO</p><p>CIVIL (CPC) é taxativo: “Art. 23. Concorrendo</p><p>diversos autores ou diversos réus, os vencidos</p><p>respondem pelas despesas e honorários em proporção”15.</p><p>O atual CPC/2015 estabelece: Art. 87. Concorrendo diversos autores ou diversos réus, os</p><p>vencidos respondem proporcionalmente pelas despesas e pelos honorários.</p><p>Desse modo, manteve-se os honorários em proporção (divisibilidade), salvo ajuste em</p><p>contrário reconhecido na sentença.</p><p>B) DA VARIABILIDADE DO MODO DE SER DA OBRIGAÇÃO NA</p><p>SOLIDARIEDADE:</p><p>Desde que esteja estabelecida no contrato, a solidariedade pode ser estipulada como</p><p>condicional ou a prazo para um dos cocredores ou codevedores, e pura e simples para outro, ou</p><p>ainda, pagável em local diverso para outro. Isso porque a solidariedade diz respeito à prestação e</p><p>não à maneira pela qual ela é devida: Art. 266 do CC.</p><p>15 No atual CPC/2015 encontra-se no Art. 87.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 81 de 146</p><p>O modo de ser da obrigação solidária pode variar de um codevedor ou cocredor para outro.</p><p>A obrigação pode até ser válida para um e nula para o outro, sem afetar a solidariedade.</p><p>Observa a Professora Maria Helena Diniz não ser “incompatível com a sua natureza</p><p>jurídica a possibilidade de estipulá-la como condicional ou a prazo para um dos cocredores ou</p><p>codevedores, e pura e simples para outro, desde que estabelecido no título originário.</p><p>Assim, o codevedor condicional não pode ser demandado (acionado) senão depois da</p><p>ocorrência do evento futuro e incerto, e o devedor solidário puro e simples somente poderá reclamar</p><p>reembolso do codevedor condicional se ocorrer a condição. “Como se vê, não há prejuízo algum à</p><p>solidariedade, visto que o credor pode cobrar a dívida do devedor cuja prestação contenha número</p><p>menor de óbices, ou seja, reclamar o débito todo do devedor não atingido pelas cláusulas apostas na</p><p>obrigação” (Curso de Direito Civil Brasileiro, p. 131).</p><p>Importante ressaltar, ainda, que esses diferentes modos de obrigações solidárias não são de</p><p>forma taxativa, mas meramente exemplificativa. Outras regras particulares podem ser estabelecidas</p><p>entre os credores e devedores. Dessa maneira, foi aprovado o seguinte Enunciado na IV Jornada de</p><p>Direito Civil: a solidariedade admite outras disposições de conteúdo particular além do rol previsto</p><p>no Art. 266 do Código Civil.</p><p>CONSEQUÊNCIAS JURÍDICAS DA SOLIDARIEDADE:</p><p>O pagamento parcial feito por um dos codevedores deverá ser rateado entre todos os</p><p>cocredores. A insolvência de um ou de alguns dos devedores em nada afetará os credores, se ainda</p><p>restar pelo menos um devedor em condições de pagar a dívida toda.</p><p>DEVEDOR INSOLVENTE: Art. 955. Procede-se à declaração de insolvência toda vez</p><p>que as dívidas excedam à importância dos bens do devedor.</p><p>FORMAS OU ORIGEM DA SOLIDARIEDADE:</p><p>Solidariedade legal – Quando surgir de um comando normativo expresso. Exemplos:</p><p>artigos 585 (comodato), 680 (mandato), 829 (fiança: com mais de um fiador), 942, (ato ilícito</p><p>praticado por mais de um autor), todos do Código Civil.</p><p>Solidariedade convencional - A solidariedade convencional pode surgir simultaneamente</p><p>com a obrigação, mas também pode surgir posteriormente, através de ato em separado. Deve ser</p><p>inequívoca (sem dúvidas), não pode ser presumida a partir de indícios e conjecturas. Deve ser</p><p>pactuada em contrato (um por todos, todos por um) ou em negócio jurídico unilateral, como, por</p><p>exemplo, disposição testamentária.</p><p>ATENÇÃO:</p><p>SEMPRE A SOLIDARIEDADE RESULTA DA LEI OU DA VONTADE DAS</p><p>PARTES, NUNCA HÁ PRESUNÇÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!</p><p>SOLIDARIEDADE ATIVA (ARTIGOS 267 E SS DO CC):</p><p>Existem vários credores e cada um deles pode exigir do devedor comum a prestação</p><p>integral e o devedor se exonera pagando a qualquer um dos credores (Art. 267 do CC). Uma vez</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 82 de 146</p><p>estabelecida a solidariedade, não pode qualquer dos credores, unilateralmente, voltar atrás,</p><p>revogando ou suprimindo a solidariedade. Somente com a concordância de todos os envolvidos é</p><p>que isso seria possível.</p><p>A Lei 8.245/91 (Lei de locações) criou no seu Art. 2º um caso de solidariedade ativa legal:</p><p>havendo mais de um locador ou mais de um locatário, entende-se que são solidários se o contrário</p><p>não se estipulou.</p><p>O devedor pode pagar a qualquer dos credores, a menos que um deles já tenha ajuizado</p><p>Ação de Cobrança (importante). Neste caso, o direito de escolha do devedor de escolher a qual dos</p><p>credores ele vai pagar cessa com o ajuizamento da ação.</p><p>É que, iniciada a demanda judicial ocorre o que chamamos de prevenção judicial, e o</p><p>devedor somente se libera pagando ao credor que é o autor da ação. Por outro lado, só a medida</p><p>judicial da ação de cobrança é que retira o direito de escolha do devedor. Não serve qualquer outra</p><p>manifestação do credor, seja amigável ou judicial (Art. 268 do CC).</p><p>Exemplo de solidariedade ativa: conta bancária conjunta (casal-credores) por permitir</p><p>que cada correntista saque todo o dinheiro depositado, todos podem movimentar livremente a conta.</p><p>Cada correntista pode sacar (credor), sem que o banco (devedor) possa recusar-se a permitir o</p><p>saque.</p><p>SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF): tem decidido no sentido de que, falecendo</p><p>um dos titulares de conta bancária conjunta, pode o outro ou um dos outros levantar o depósito a</p><p>título de credor exclusivo e direto e não a título de sucessor.</p><p>SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA (STJ): “a solidariedade decorrente da abertura</p><p>de conta bancária conjunta é solidariedade ativa, pois cada um dos titulares está autorizado a</p><p>movimentar livremente a conta; são, pois, credores solidários perante o banco. Porém, ainda que</p><p>marido e mulher, os co-titulares não são devedores solidários perante o portador de cheque emitido</p><p>por algum deles (marido e mulher) sem provisão de fundos”. Conclui-se que se o marido emitir um</p><p>cheque sem provisão de fundo, somente ele deverá ser inscrito no cadastro de inadimplentes.</p><p>O pagamento feito a um dos credores solidários extingue a dívida, liberando até o</p><p>montante pago (Art. 269 do CC). Se um dos credores recebeu parte da dívida, esta parte deverá ser</p><p>rateada entre todos. O dispositivo inova de forma substancial o direito anterior ao estabelecer que o</p><p>devedor poderá pagar parcialmente o débito, visto que a extinção da obrigação se dará na</p><p>proporção do que foi pago. O artigo avançou em relação ao seu correspondente no Código Civil de</p><p>1916 (Art. 900), em que só havia previsão para o pagamento total da dívida.</p><p>O devedor, se não houver sido cobrado pelo todo, pode pagar apenas uma parcela da dívida</p><p>a qualquer dos cocredores, uma vez que permanece a obrigação solidária em relação ao</p><p>remanescente. Qualquer dos demais cocredores poderá exigir do devedor o restante da dívida,</p><p>abatendo o que foi pago.</p><p>O credor que recebe passa a ser devedor dos demais credores, relativamente à parte de cada</p><p>um. A presunção é de que as partes têm quotas iguais, cabendo ao credor interessado provar que sua</p><p>quota-parte é maior do que a dos demais.</p><p>Falecendo um dos credores solidários, seus herdeiros somente poderão exigir e receber a</p><p>quota que lhe cabe no quinhão hereditário, exceto se a obrigação for indivisível (Art. 270 do CC). A</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 83 de 146</p><p>solidariedade desaparece para os herdeiros, mas permanece em relação aos demais cocredores</p><p>sobreviventes.</p><p>Ressalta Washington de Barros Monteiro que “os herdeiros do credor falecido não podem</p><p>exigir, por conseguinte, a totalidade do crédito e sim apenas o respectivo quinhão hereditário, isto é,</p><p>a própria quota no crédito solidário de que o de cujus era titular, juntamente com os outros</p><p>credores”.</p><p>o mesmo ocorre com a troca).</p><p>Defesa dos direitos - proteção de Direitos são atos que servem para resguardar os direitos;</p><p>o titular de um direito deve praticar atos conservatórios.</p><p>Exemplo: Direito de Retenção - uma pessoa possui um bem (que não é seu, mas está de</p><p>boa-fé nesta posse) e realiza neste bem benfeitorias necessárias (conserto dos alicerces, do telhado</p><p>de uma casa); posteriormente o real proprietário move uma ação contra o possuidor de boa fé e</p><p>ganha a ação; o possuidor deve ir embora; mas realizou benfeitorias, devendo ser indenizado; se a</p><p>outra parte não a indeniza, ela pode reter o bem até que seja indenizado (Art. 1.219, CC2).</p><p>Modificação (ou transformação) de Direitos os direitos podem sofrer modificações em seu</p><p>conteúdo, seu objeto e em seus titulares, sem que haja alteração em sua substância. A modificação</p><p>do direito pode ser objetiva ou subjetiva:</p><p>a) Objetiva atinge a qualidade ou quantidade do objeto ou o conteúdo da relação jurídica</p><p>(Exemplos: o credor de uma saca de feijão aceita o equivalente em dinheiro; uma pessoa está</p><p>devendo uma quantia e o credor aceita um terreno em substituição3).</p><p>b) Subjetiva substituição de uma das pessoas (sujeito ativo ou passivo) envolvidas na</p><p>obrigação, podendo ser inter vivos (contrato) ou causa mortis (testamento – exemplo: morre o</p><p>titular de um direito e este se transmite aos seus sucessores). No entanto, há direitos que não</p><p>comportam modificação em seu sujeito por serem personalíssimos.</p><p>Extinção de Direitos observem, com atenção, as principais hipóteses de extinção dos</p><p>direitos:</p><p>- Perecimento do objeto (anel que cai em um rio profundo e é levado pela correnteza) ou</p><p>perda das qualidades essenciais do objeto (campo de plantação invadido pelo mar).</p><p>- Renúncia – quando o titular de um direito, dele se despoja, sem transferi-lo a quem quer</p><p>que seja; ele renuncia a um direito que teria (exemplo: renúncia à herança).</p><p>- Abandono – intenção do titular de se desfazer da coisa não querendo ser mais seu dono.</p><p>- Alienação – que é o ato de transferir o objeto de um patrimônio a outro, de forma</p><p>onerosa (compra e venda) ou gratuita (doação).</p><p>- Falecimento do titular, sendo direito personalíssimo, e por isso, intransferível.</p><p>- Confusão – numa só pessoa se reúnem as qualidades de credor e devedor4.</p><p>- Prescrição ou decadência.</p><p>2 Art. 1.219. O possuidor de boa-fé tem direito à indenização das benfeitorias necessárias e úteis, bem como, quanto às</p><p>voluptuárias, se não lhe forem pagas, a levantá-las, quando o puder sem detrimento da coisa, e poderá exercer o direito</p><p>de retenção pelo valor das benfeitorias necessárias e úteis.</p><p>3 Será estudado mais adiante no estudo das obrigações, que se trata de Dação em Pagamento (Art. 356. O credor pode</p><p>consentir em receber prestação diversa da que lhe é devida).</p><p>4 Também será estudado adiante: Art. 381. Confusão - Extingue-se a obrigação, desde que na mesma pessoa se</p><p>confundam as qualidades de credor e devedor.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 8 de 146</p><p>CLASSIFICAÇÃO DOS FATOS JURÍDICOS</p><p>Divide-se em Natural (é um fato qualquer da natureza) ou Humano (é o praticado por</p><p>nós, os seres humanos). Cada um destes itens possui uma subdivisão.</p><p>Fato Jurídico Natural (em sentido estrito ou strito senso) é o acontecimento que ocorre</p><p>independentemente da vontade humana com produção de efeitos jurídicos, criando, modificando ou</p><p>extinguindo direitos. Podem ser divididos ou classificados em:</p><p>– Ordinários: são fatos que ocorrem naturalmente, normalmente. Exemplo: a morte, ela</p><p>ocorrerá independente de nossa vontade. Portanto é um fato natural. Lógico que é a morte por</p><p>causas naturais e não por consequência de um homicídio (crime que é um ato ilícito penal).</p><p>Da mesma forma são Fatos Jurídicos Naturais Ordinários: o nascimento, a maioridade, o</p><p>decurso de tempo que juridicamente se apresente sob a forma de prazo (intervalo de dois termos), a</p><p>(ou o) usucapião, a prescrição e a decadência.</p><p>– Extraordinários: são causas ligadas ao caso fortuito ou força maior (causa desconhecida</p><p>- exemplo: explosão de uma caldeira em uma usina, ou se conhece a causa, fato da natureza -</p><p>exemplo: raio que provoca um incêndio). Há uma imprevisibilidade, mas se tiver previsão é</p><p>inevitável. Em ambos o caso se configura uma inevitabilidade do evento e ausência de culpa pelo</p><p>ocorrido.</p><p>A tabela a seguir é de extrema importância (não esquecer !!!!!!!!!!!).</p><p>Para fins de melhor fixação do estudo, segue a tabela para não complicar e sim facilitar!!!</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 9 de 146</p><p>FATO</p><p>(ACONTECIMENTO)</p><p>DIVISÃO E SUBDIVISÃO EXEMPLOS</p><p>FATO COMUM</p><p>(NÃO JURÍDICO)</p><p>Acontecimento sem repercussão no Direito.</p><p>Uma folha caindo,</p><p>andar devagar ou</p><p>apressado.</p><p>FATO JURÍDICO</p><p>(Lato sensu/</p><p>Sentido amplo)</p><p>Acontecimento com repercussão no Direito.</p><p>FATO</p><p>NATURAL</p><p>(Em sentido</p><p>estrito ou</p><p>stricto sensu)</p><p>ORDINÁRIO</p><p>(Ocorre normalmente, naturalmente)</p><p>Nascimento,</p><p>maioridade, morte,</p><p>Prescrição,</p><p>decadência.</p><p>EXTRAORDINÁRIO</p><p>(Caso fortuito / força maior)</p><p>Enchentes,</p><p>inundações, queda</p><p>de árvores.</p><p>FATO</p><p>HUMANO</p><p>(ATO)</p><p>ATO</p><p>JURÍDICO</p><p>EM</p><p>SENTIDO</p><p>AMPLO</p><p>(Lícito,</p><p>voluntário)</p><p>ATO JURÍDICO</p><p>EM SENTIDO</p><p>ESTRITO</p><p>(Lei)</p><p>Reconhecimento de</p><p>um filho, pagamento</p><p>de pensão</p><p>alimentícia.</p><p>NEGÓCIO</p><p>JURÍDICO</p><p>(Partes)</p><p>Contrato,</p><p>Atos unilaterais,</p><p>testamento,</p><p>casamento.</p><p>ATO ILÍCITO</p><p>(Ilícito,</p><p>involuntário)</p><p>Em desacordo</p><p>com a ordem</p><p>jurídica:</p><p>civil, penal,</p><p>administrativa,</p><p>tributária.</p><p>Lesão que causa</p><p>dano a outrem por</p><p>culpa ou dolo</p><p>(acidente de trânsito)</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 10 de 146</p><p>3. NEGÓCIO JURÍDICO</p><p>Conceito: é uma espécie do gênero ato jurídico em sentido amplo. É o ato destinado à</p><p>produção de efeitos jurídicos, desejados pelo agente e tutelados pela lei. É toda ação humana, de</p><p>autonomia privada, com o qual o particular regula por si os próprios interesses, havendo uma</p><p>composição de interesses.</p><p>O exemplo clássico de negócio jurídico é o contrato. Qualquer tipo de contrato. Num</p><p>contrato as partes contratantes acordam/ajustam que devem conduzir-se de determinado modo, uma</p><p>em face da outra (direito e deveres). Exemplo um contrato de locação. Nele, uma das partes se</p><p>compromete a fornecer a outra, durante certo lapso de tempo, o uso e gozo de uma coisa infungível;</p><p>por outro lado a outra parte se obriga a remunerar este uso...</p><p>Os efeitos deste negócio devem ser totalmente previstos e desejados pelas partes: Qual o</p><p>valor da locação? Qual o prazo da locação? Qual o dia que deve ser efetuado o pagamento? Qual o</p><p>local em que o pagamento vai ser efetuado? O locatário deve pagar o IPTU? E o condomínio do</p><p>prédio? Quais as obrigações de cada parte durante o contrato? Todos estes itens (entre outros) são</p><p>os efeitos do contrato. Todos eles podem ser “negociados” entre os contratantes. O contrato</p><p>propriamente dito e os efeitos deste contrato devem ser previstos e desejados pelos interessados.</p><p>Guardadas as devidas proporções, o mesmo também pode ocorrer em um contrato de</p><p>compra e venda. E em todos os contratos de uma maneira geral.</p><p>Assim, negócio jurídico é o principal instrumento que as pessoas têm para realizar seus</p><p>interesses.</p><p>Lembrar que o contrato é apenas uma das várias espécies de negócio jurídico. O contrato é</p><p>um negócio jurídico bilateral (vontade de ambas as partes). Nos entanto, o negócio jurídico pode ser</p><p>também unilateral, como no caso de</p><p>Assim não acontecerá, todavia, nas hipóteses seguintes:</p><p>a) se o credor falecido só deixou um herdeiro;</p><p>b) se todos os herdeiros agem conjuntamente; e</p><p>c) se indivisível a prestação.</p><p>Complementa: em qualquer desses casos, pode ser reclamada a prestação por inteiro. Para</p><p>os demais credores, nenhuma inovação acarreta o óbito do consorte; para eles permanece intacto,</p><p>em toda a plenitude e em qualquer hipótese, o vínculo de solidariedade, com todos os seus</p><p>consectários. (Curso de direito civil, cit., p. 170).</p><p>Parece, no entanto, ser desnecessária a referência feita à obrigação indivisível. Qualquer</p><p>dos herdeiros do credor solidário poderá exigir a totalidade do crédito, não em decorrência da</p><p>solidariedade, mas pelo fato de ser indivisível a obrigação. Aplicar-se-iam, portanto, as regras dos</p><p>Arts. 258 a 263, CC.</p><p>A conversão da obrigação solidária em perdas e danos em nada afeta a solidariedade em</p><p>proveito de todos os cocredores, podendo qualquer dos credores exigir do inadimplente o</p><p>pagamento da obrigação (Art. 271 do CC).</p><p>Se um dos credores perdoar a dívida, extinta estará a obrigação (Art. 272 do CC),</p><p>entretanto esse credor responderá aos demais cocredores. Se o credor perdoou parte da dívida</p><p>deverá ser o primeiro a ficar com o prejuízo, pois os outros credores têm direito às quotas integrais.</p><p>Quando o credor solidário, por ato pessoal, libera o devedor do cumprimento da obrigação,</p><p>assume responsabilidade perante os demais cocredores, que poderão exigir do que recebeu ou</p><p>remitiu (perdoou) a parte que lhes caiba.</p><p>Nesse caso, só poderá exigir a sua quota e não mais a dívida toda, uma vez que a</p><p>solidariedade se estabelece apenas entre credor e devedor (ENTRE OS PÓLOS) e não entre os</p><p>diversos credores ou diversos devedores entre si. Nas relações dos credores solidários entre si, há</p><p>tantos créditos quantos são os credores, e a responsabilidade entre eles é sempre pro parte.</p><p>O devedor não poderá apresentar a um dos credores solidários as exceções (defesas)</p><p>pessoais que sejam oponíveis aos demais, como, por exemplo, incapacidade ou vício de</p><p>consentimento (Art. 273 do CC). O dispositivo vem deixar expressa a regra de que as defesas que o</p><p>devedor possa alegar contra um só dos credores solidários não podem prejudicar aos demais.</p><p>Observa, ainda, o Prof. Álvaro Vilaça Azevedo a impropriedade de utilizar a palavra</p><p>“exceção”, que tem significado técnico específico, previsto na lei processual. O melhor seria, na</p><p>opinião do mestre, utilizar o vocábulo genérico “defesa”. Existe um Projeto de Lei (PL 276/2207)</p><p>com o objetivo de substituir a expressão exceção por defesa.</p><p>O Código Civil/2002 foi modificado pelo CPC/2015 em seu Art. 274 para viger com a</p><p>seguinte redação: O julgamento contrário a um dos credores solidários não atinge os demais, mas o</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 84 de 146</p><p>julgamento favorável aproveita-lhes, sem prejuízo de exceção pessoal que o devedor tenha direito</p><p>de invocar em relação a qualquer deles.</p><p>SOLIDARIEDADE PASSIVA (ARTIGOS 275 A 285 DO CC):</p><p>O credor é livre para cobrar toda a dívida ou parte dela de um único ou de alguns</p><p>devedores. Neste último caso, continua credor em relação ao remanescente da dívida. Este é o</p><p>próprio princípio geral que domina a solidariedade passiva, é a própria essência do instituto. Se o</p><p>pagamento foi parcial os demais devedores continuam solidários (Art. 275 do CC).</p><p>A escolha de quem vai ser ou não acionado é do credor.</p><p>Lembre-se: sempre acionar o devedor em condições de solver o débito</p><p>(COM PATRIMÔNIO).</p><p>Se um dos devedores for acionado isoladamente, não pode requerer a citação dos demais</p><p>codevedores para se defenderem conjuntamente, apenas podendo fazê-lo para o exercício do direito</p><p>de regresso. A execução da sentença, no entanto, será apenas contra o devedor escolhido para a</p><p>ação de cobrança.</p><p>JURISPRUDÊNCIA:</p><p>O credor de devedores solidários tem a faculdade de escolher um deles para cobrança</p><p>parcial ou total do débito, restando ao que pagou a totalidade o direito de regresso contra os demais</p><p>devedores. (TJSC, 13.02.2006).</p><p>Na solidariedade passiva, cada um dos devedores está obrigado ao cumprimento integral</p><p>da obrigação, que pode ser exigida de todos conjuntamente ou apenas de algum deles.</p><p>Como a solidariedade passiva é constituída em benefício do credor, pode ele renunciar à</p><p>faculdade que tem de exigir a prestação por inteiro de um só devedor, podendo exigi-la,</p><p>parcialmente, de um ou de alguns. Só que nesta última hipótese permanece a solidariedade dos</p><p>devedores quanto ao remanescente da dívida. Nesse sentido é a doutrina consolidada.</p><p>Não importa se o credor escolheu apenas um dos devedores para acionar, pois isto não</p><p>libera os demais codevedores. Estes somente serão liberados por ocasião do pagamento integral da</p><p>dívida (Art. 275, parágrafo único).</p><p>Nada impede também que posteriormente o credor intente nova ação contra os demais</p><p>devedores. Mas se receber numa das ações deverá informar na outra ação, sob pena de responder</p><p>por litigância de má-fé. Isso porque, enquanto não for integralmente paga a dívida, mantém-se</p><p>íntegro o direito do credor em relação a todos e a qualquer dos outros devedores, não se podendo,</p><p>mesmo, presumir a renunciar de tais direitos do fato de já ter sido iniciada a ação contra um dos</p><p>devedores.</p><p>Cada herdeiro do devedor solidário só estará obrigado pela quota que corresponder ao seu</p><p>quinhão hereditário, exceto se indivisível a obrigação. Mas todos esses herdeiros reunidos são</p><p>considerados como um devedor solidário (Art. 276 do CC). Se quem morrer for o credor, em nada</p><p>se altera a situação dos devedores, que solidariamente continuam obrigados para com os herdeiros</p><p>do de cujus que, reunidos, o representam.</p><p>Se um dos devedores pagar parcialmente ou obtiver o perdão do credor, só será extinta a</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 85 de 146</p><p>dívida na parte correspondente à do devedor que pagou ou foi perdoado, assim no caso de</p><p>pagamento parcial somente poderá ser cobrado a dívida o valor debitando-se o valor já recebido ou</p><p>perdoado (Art. 277 do CC). O credor pode reservar solidariedade contra os demais devedores, mas</p><p>só poderá demandá-los abatendo do total da dívida a quota do credor remitido (ou que pagou).</p><p>ATENÇÃO: o credor ao perdoar deve tomar o cuidado para perdoar somente um ou</p><p>aqueles devedores que deseja perdoar, pois se informar que perdoa a dívida toda,</p><p>consequentemente, a dívida estará extinta.</p><p>O devedor que paga a dívida não está obrigado a dar ciência aos demais devedores. O</p><p>credor é que tem a obrigação de ressalvar o recebido, sob pena de lhe se aplicado a sanção do Art.</p><p>940 do CC (pagamento em dobro como indenização).</p><p>Cada um dos devedores não pode fazer com o credor qualquer estipulação que agrave a</p><p>situação dos demais devedores (Art. 278 do CC). A regra é que apenas os fatos favoráveis se</p><p>comunicam aos demais devedores, e não os atos prejudiciais, mas essa regra comporta exceção: a</p><p>interrupção da prescrição operada contra um dos devedores estende-se aos demais. E não só a</p><p>interrupção operada por iniciativa do credor, mas também aquela que deriva de iniciativa do próprio</p><p>devedor (Art. 202, VI do CC).</p><p>Se a prestação se impossibilitou por culpa de um dos devedores todos respondem pelo</p><p>equivalente (dívida toda), contudo, pelo valor das perdas e danos somente o devedor culpado</p><p>responderá; isso porque se as perdas e danos fossem suportadas por todos estar-se-ia admitindo que</p><p>um dos devedores, sozinho, pudesse agravar a situação dos demais (Art. 279 do CC).</p><p>Conforme ensina Hamid Charaf Bdine Junior16 o Art. 279, CC, diz respeito a questão de</p><p>perecimento ou deterioração do objeto da solidariedade,</p><p>que se houver culpa de todos, ou de ao</p><p>menos um, a solidariedade subsiste em relação ao equivalente da prestação, mas somente o</p><p>devedor/devedores culpados responderão pelas perdas e danos oriundos da perda total ou parcial.</p><p>Exemplo: A, B e C são devedores solidários por acordo com D na entrega de 60 cadeiras</p><p>equivalentes à R$ 6.000,00; caso as cadeiras sofram perecimento por culpa de “A” e prejuízos de</p><p>R$ 2.000,00, todos permanecem obrigados em pagar o valor de R$ 6.000,00 solidariamente</p><p>(equivalente), e pelas perdas e danos de R$ 2.000,00 somente “A” suportará o pagamento.</p><p>Se a impossibilidade for sem culpa, extingue-se a obrigação.</p><p>Pela mora responde todos os devedores perante o credor, mesmo que apenas um seja o</p><p>culpado. Contudo, este culpado, responderá aos outros codevedores pelo acréscimo da obrigação</p><p>(Art. 280 do CC).</p><p>Hamid Charaf Bdine Junior17 explica que se pode confundir com o Art. 279, CC, este cuida</p><p>exclusivamente da impossibilidade da prestação (inadimplemento absoluto), quando o Art. 280, CC,</p><p>trata de todos continuarem respondendo pelo equivalente da prestação mais juros de mora pelo</p><p>atraso (inadimplemento relativo – mora), porém o devedor culpado irá ressarcir o juros da mora ao</p><p>devedor/devedores que efetuou o pagamento.</p><p>16 PELUSO, Cezar. Código Civil Comentado. 3 ed. Editora Manole. p. 227.</p><p>17 PELUSO, Cezar. Código Civil Comentado. 3 ed. Editora Manole. p. 227.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 86 de 146</p><p>Exemplo: Marcos e João são devedores solidários de Ana (credora), cujo objeto consiste</p><p>na prestação de dar R$ 10.000,00, com ajuste expresso de que Marcos providenciaria a entrega do</p><p>dinheiro, porém ele esqueceu (negligente – culpa) e somente lembrou 10 dias depois do vencimento</p><p>que gerou um acréscimo de R$ 100,00 de juros. Sendo assim, Ana poderá cobrar de qualquer um</p><p>R$ 10.100,00 solidariamente. Se ela optar por João, este terá direito de cobrar a cota parte de</p><p>Marcos (R$ 5.000,00) mais R$ 100,00 a título de juros pela culpa de Marcos (R$ 5.100,00). R$</p><p>O devedor solidário que for demandado judicialmente poderá opor ao credor as exceções</p><p>pessoais e as comuns a todos. Entretanto não se aproveitará as defesas pessoais a outro codevedor.</p><p>Exemplo: O devedor pode alegar que o objeto é impossível ou ilícito, ou que houve a</p><p>compensação (espécie de pagamento) da dívida, mas jamais poderá alegar que outro devedor era</p><p>relativamente incapaz, porque essa exceção é pessoal daquele devedor que é incapaz (Art. 281 do</p><p>CC).</p><p>A solidariedade é um benefício instituído em favor do credor. Assim, este poderá lançar</p><p>mão a qualquer tempo desta solidariedade, mesmo quando se tratar de solidariedade legal (Art. 282</p><p>do CC). A dívida permanece, entretanto, despida da vantagem da solidariedade entre um, uns ou</p><p>todos os devedores.</p><p>Se apenas um ou uns devedores ficarem excluídos da solidariedade, se o credor acionar os</p><p>que não ficaram excluídos dela terá que abater do total do débito a parte devida destes que se</p><p>liberaram, sendo que estes deverão ser acionados separadamente (Art. 282, parágrafo único).</p><p>Se o devedor pagou a obrigação integralmente poderá demandar os demais devedores para</p><p>exigir-lhes as respectivas quotas, ou seja, este devedor que pagou sub-roga-se no crédito, passando</p><p>a ser credor dos demais devedores. Entretanto, a solidariedade não subsiste entre os devedores (Art.</p><p>283 do CC).</p><p>A cobrança se faz por meio de ação regressiva, e se algum devedor ficar insolvente, a</p><p>respectiva cota deste será dividida igualmente entre todos os demais codevedores, mesmo que este</p><p>codevedor tenha efetuado o pagamento da sua quota ou foi exonerado pelo credor, terá que</p><p>participar do rateio da quota do insolvente. Isto porque ele foi liberado pelo credor, diz respeito a</p><p>sua relação pessoal com ele. No entanto, o credor não pode ter ingerência nas relações internas entre</p><p>devedores (Art. 284 do CC).</p><p>ATENÇÃO:</p><p>► O DEVEDOR QUE FOI EXONERADO (LIBERADO) DA SOLIDARIEDADE,</p><p>VOLTA PARA CONTRIBUIR NA QUOTA DO DEVEDOR INSOLVENTE, PORÉM</p><p>AQUELE DEVEDOR QUE OBTEVE A REMISSÃO (PERDÃO), NÃO VOLTA PARA</p><p>DIVIDIR A QUOTA DO DEVEDOR INSOLVENTE; SENDO ASSIM, NESTE CASO, O</p><p>CREDOR SUPORTARÁ O PREJUÍZO.</p><p>O codevedor solidário que pagou a dívida que interessava somente ao outro buscará junto a</p><p>este interessado o valor da dívida integral. Exemplo: fiança locatícia (Art. 285 do CC). No caso de</p><p>serem vários os coobrigados (vários fiadores), e um deles pagar integralmente, ao acionar um outro</p><p>codevedor, este poderá defender-se na ação de regresso alegando que só há um outro codevedor</p><p>interessado na dívida, no caso o locatário, por exemplo, que pode ser até mesmo este codevedor que</p><p>pagou a dívida.</p><p>Se o fiador for cobrado judicialmente antes do locatário poderá invocar o benefício de</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 87 de 146</p><p>ordem e desde já indicar bens do devedor (locatário). Mas se o fiador for solidário, o credor poderá</p><p>cobrar diretamente dele e depois este vai atrás do devedor interessado com ação de regresso.</p><p>INDIVISIBILIDADE X SOLIDARIEDADE</p><p>- Na solidariedade, cada devedor é de fato devedor do total (DÍVIDA);</p><p>- Na indivisibilidade, pode ser cobrado de cada devedor o total, não porque há</p><p>solidariedade entre os devedores, mas porque a prestação devida não comporta execução</p><p>fracionada;</p><p>- Se a obrigação solidária se converter em perdas e danos, a solidariedade persistirá (Art.</p><p>271 do CC);</p><p>- Na obrigação indivisível, a conversão em perdas e danos extingue a indivisibilidade (Art.</p><p>263 do CC);</p><p>- Na obrigação solidária, falecendo um dos credores, poderá acabar a solidariedade, pois</p><p>seus herdeiros somente poderão cobrar a quota do crédito que corresponder ao seu quinhão</p><p>hereditário (Art. 270 CC); e</p><p>- A obrigação indivisível em nada é afetada pela transmissão hereditária.</p><p>Importante fazer o estudo das obrigações indivisíveis e solidárias com relação as</p><p>causas de suspensão e interrupção da prescrição (Direito Civil I – Parte Geral):</p><p>SUSPENSÃO:</p><p>Art. 201. Suspensa a prescrição em favor de um dos credores solidários (ATIVA), só</p><p>aproveitam os outros se a obrigação for indivisível.</p><p>INTERRUPÇÃO:</p><p>Art. 203. A prescrição pode ser interrompida por qualquer interessado.</p><p>Art. 204. A interrupção da prescrição por um credor não aproveita aos outros</p><p>(DIVISÍVEL COM VÁRIOS CREDORES); semelhantemente, a interrupção operada contra o</p><p>codevedor, ou seu herdeiro, não prejudica aos demais coobrigados (DIVISÍVEL COM VÁRIOS</p><p>DEVEDORES).</p><p>§ 1o A interrupção por um dos credores solidários aproveita aos outros</p><p>(SOLIDARIEDADE ATIVA); assim como a interrupção efetuada contra o devedor solidário</p><p>envolve os demais e seus herdeiros (SOLIDARIEDADE PASSIVA).</p><p>§ 2o A interrupção operada contra um dos herdeiros do devedor solidário</p><p>(SOLIDARIEDADE PASSIVA) não prejudica os outros herdeiros ou devedores, senão quando se</p><p>trate de obrigações e direitos indivisíveis.</p><p>§ 3o A interrupção produzida contra o principal devedor prejudica o fiador.</p><p>PRESCRIÇÃO:</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 88 de 146</p><p>A) Obrigação indivisível:</p><p>Vários devedores:</p><p>- Havendo prescrição da dívida, esta aproveita a todos os devedores;</p><p>- A suspensão ou interrupção da prescrição contra um dos devedores afetará todos os</p><p>demais.</p><p>Vários credores:</p><p>- Se um dos cocredores interromper a prescrição, esta a todos aproveitará.</p><p>B) Solidariedade:</p><p>- Se um dos credores solidários interromper a prescrição, tal interrupção aproveitará aos</p><p>outros. O mesmo ocorre com relação aos devedores solidários (Art. 204, § 1º do CC); e</p><p>- Ocorrendo suspensão da prescrição em favor de um dos cocredores</p><p>esta não beneficiará</p><p>os demais, exceto se tratar de obrigação indivisível (Art. 201 do CC).</p><p>Se se tratar de obrigação solidária passiva ou ativa, a interrupção efetuada contra o devedor</p><p>solidário envolverá os demais, e a interrupção aberta por um dos credores solidários aproveitará aos</p><p>outros, em razão de consequência da solidariedade prevista nos Arts. 264 a 285 do Código Civil,</p><p>pela qual os vários credores solidários são considerados como um só credor, da mesma forma que</p><p>os vários devedores solidários são tidos como um só devedor.</p><p>Além disso, a interrupção operada contra um dos herdeiros do devedor solidário não lesará</p><p>os outros herdeiros ou devedores, senão quando se tratar de obrigação ou de defeito indivisível. Isto</p><p>é assim porque a solidariedade ativa ou passiva não passa aos herdeiros (CC, Arts. 270 e 276); logo,</p><p>apenas serão atingidos os demais coerdeiros pela interrupção se houver indivisibilidade da</p><p>obrigação.</p><p>E, finalmente, a interrupção produzida pelo credor contra o principal devedor prejudicará o</p><p>fiador, independentemente de notificação especial, pelo simples fato de ser a fiança uma obrigação</p><p>acessória. Desaparecendo a responsabilidade do afiançado, não mais a terá o fiador; igualmente, se</p><p>o credor interrompe a prescrição contra o devedor, esta se interromperá também relativamente ao</p><p>fiador.</p><p>Portanto, fique atento: por óbvio, qualquer que seja a natureza da indivisibilidade</p><p>(natural, ordem econômica, legal ou convencional), se concorrerem dois ou mais devedores,</p><p>cada um deles estará obrigado pela dívida toda (Art. 259, CC-02, Art. 891, CC-16), eis que</p><p>não se admite o fracionamento do objeto da obrigação. Note-se, todavia, que o dever imposto</p><p>a cada devedor de pagar toda a dívida não significa que exista solidariedade entre eles, uma</p><p>vez que, no caso, é o objeto da própria obrigação que determina o cumprimento integral do</p><p>débito.</p><p>Por óbvio, se A, B e C obrigam-se a entregar um cavalo, qualquer deles, demandado,</p><p>deverá entregar todo o animal. E isso ocorre não necessariamente por força de um vínculo de</p><p>solidariedade passiva, mas sim, pelo simples fato de que não se poderá cortar o cavalo em três,</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 89 de 146</p><p>para dar apenas um terço do animal ao credor.</p><p>Com a sua peculiar erudição, CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA enumera os caracteres</p><p>distintivos das duas espécies de obrigação (indivisível e solidária):</p><p>a) a causa da solidariedade é o título, e a da indivisibilidade é, normalmente, a natureza da</p><p>obrigação;</p><p>b) na solidariedade, cada devedor paga por inteiro, porque deve integralmente, enquanto na</p><p>indivisibilidade, solve a totalidade, em razão da impossibilidade jurídica de se repartir em quotas a</p><p>coisa devida;</p><p>c) a solidariedade é uma relação subjetiva, e a indivisibilidade objetiva, em razão de que,</p><p>enquanto a indivisibilidade assegura a unidade da prestação, a solidariedade visa a facilitar a</p><p>satisfação do crédito;</p><p>d) a indivisibilidade justifica-se com a própria natureza da prestação, quando o objeto é,</p><p>em si mesmo, insuscetível de fracionamento, enquanto a solidariedade é sempre de origem técnica,</p><p>resultando da lei ou da vontade das partes;</p><p>e) a solidariedade cessa com a morte dos devedores, enquanto a indivisibilidade subsiste</p><p>enquanto a prestação suportar;</p><p>f) a indivisibilidade termina quando a obrigação se converte em perdas e danos, enquanto a</p><p>solidariedade conserva este atributo.</p><p>JURISPRUDÊNCIA – STJ:</p><p>NOTA PROMISSORIA/PROTOCOLO. AÇÃO DE COBRANÇA.</p><p>1. Obrigação é divisível, quando o objeto da prestação é soma de dinheiro, suscetível de</p><p>cumprimento parcial.</p><p>2. Correção monetária. Incide a partir da data do vencimento do título. Súmula 43 (STJ).</p><p>3. Honorários advocatícios: são distribuídos e compensados, se cada litigante foi em parte vencedor</p><p>e vencido. CPC, Art. 21.</p><p>CIVIL. ALIMENTOS. RESPONSABILIDADE DOS AVÓS. OBRIGAÇÃO</p><p>COMPLEMENTAR E SUCESSIVA. LITISCONSÓRCIO. SOLIDARIEDADE. AUSÊNCIA.</p><p>1 - A obrigação alimentar não tem caráter de solidariedade, no sentido que "sendo várias pessoas</p><p>obrigadas a prestar alimentos todos devem concorrer na proporção dos respectivos recursos."</p><p>2 - O demandado, no entanto, terá direito de chamar ao processo os corresponsáveis da obrigação</p><p>alimentar, caso não consiga suportar sozinho o encargo, para que se defina quanto caberá a cada um</p><p>contribuir de acordo com as suas possibilidades financeiras.</p><p>3 - Neste contexto, à luz do novo Código Civil, frustrada a obrigação alimentar principal, de</p><p>responsabilidade dos pais, a obrigação subsidiária deve ser diluída entre os avós paternos e</p><p>maternos na medida de seus recursos, diante de sua divisibilidade e possibilidade de fracionamento.</p><p>A necessidade alimentar não deve ser pautada por quem paga, mas sim por quem recebe,</p><p>representando para o alimentado maior provisionamento tantos quantos coobrigados houver no polo</p><p>passivo da demanda.</p><p>CONTA CONJUNTA E NATUREZA JURÍDICA DO DÉBITO.</p><p>CIVIL. PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR</p><p>DANO MORAL. INCLUSÃO INDEVIDA DO NOME DO CO-TITULAR DE CONTA</p><p>CONJUNTA EM REGISTRO DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO. CHEQUE SEM PROVISÃO</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 90 de 146</p><p>DE FUNDO EMITIDO PELA ESPOSA DO AUTOR. DANOS MORAIS CONFIGURADOS.</p><p>FIXAÇÃO DA INDENIZAÇÃO.</p><p>1. No pleito em questão, o recorrente mantinha conta conjunta com sua esposa, sendo que esta</p><p>emitiu um cheque sem provisão de fundos, acarretando a inclusão do nome do autor-recorrente no</p><p>cadastro de inadimplentes - CCF/Serasa.</p><p>2. A orientação jurisprudencial desta Corte é no sentido de que, em se tratando de conta conjunta, o</p><p>co-titular detém apenas solidariedade ativa dos créditos junto à instituição financeira, sem</p><p>responsabilidade pelos cheques emitidos pela outra correntista. "A co-titularidade da conta limita-se</p><p>à propriedade dos fundos comuns à sua movimentação, porém não tem o condão de transformar o</p><p>outro correntista em codevedor pelas dívidas assumidas pela emitente, ainda que cônjuge, pelas</p><p>quais ela deve responder escoteiramente" (Resp. 336.632/ES, Rel. Min. ALDIR PASSARINHO</p><p>JÚNIOR, DJ. 31.03.2003).</p><p>3. Precedentes: REsp. 602.401/RS, Rel. Min. CÉSAR ASFOR ROCHA, DJ.</p><p>28.06.2004; REsp. 13.680/SP, Rel. Min. ATHOS CARNEIRO, DJ. 15.09.1992; REsp. 3.507/ES,</p><p>Rel. Min. WALDEMAR ZVEITER, DJ. 10.09.90.</p><p>4. Destarte, constatada a conduta ilícita do banco-recorrido e configurado o dano moral sofrido pelo</p><p>autor, em razão da indevida inclusão de seu nome no rol de inadimplentes, deve-se fixar o valor do</p><p>ressarcimento. Verifica-se, conforme comprovado nas instâncias ordinárias, que o recorrente restou</p><p>indevidamente inscrito no CCF/Serasa durante 21 dias, ou seja, entre 20.12.00 a 09.01.01</p><p>(documentos de fls. 101/102). Quanto à repercussão do fato danoso, esta se limita aos danos</p><p>presumidos, vale dizer, in re ipsa, decorrentes do indevido registro.</p><p>5. Assim, consideradas as peculiaridades do caso em questão, e em atenção aos princípios de</p><p>proporcionalidade e moderação que informam os parâmetros avaliadores desta Corte em casos</p><p>assemelhados a este, fixo o valor indenizatório a título de danos morais em R$1.000,00 (um mil</p><p>reais).</p><p>SÚMULA 26 DO STJ: O avalista do título de crédito vinculado a contrato de mútuo (empréstimo</p><p>de dinheiro com juros) também responde pelas obrigações pactuadas, quando no contrato figurar</p><p>como devedor solidário.</p><p>STJ - DIRIETO CIVIL. SOLIDARIEDADE PASSIVA. TRANSAÇÃO COM UM DOS CO-</p><p>DEVEDORDES. OUTORGA DE QUITAÇÃO PLENA. PRESUNÇÃO DE RENÚNCIA À</p><p>SOLIDARIEDADE. DIREITO CIVIL. INDENIZAÇÃO. DANO EFETIVO. DANOS</p><p>MORAIS. ALTERAÇÃO PELO STJ. VALOR EXORBITANTE OU ÍNIFMO.</p><p>POSSIBILIDADE. DIREITO PROCESSUAL CIVIL. SUCUMBÊNCIA. FIXAÇÃO.</p><p>PEDIDOS FORMULADOS E PEDIDOS EFETIVAMENTE</p><p>PROCEDENTES. - Na</p><p>solidariedade passiva o credor tem a faculdade de exigir e receber, de qualquer dos codevedores,</p><p>parcial ou totalmente, a dívida comum. Havendo pagamento parcial, todos os demais codevedores</p><p>continuam obrigados solidariamente pelo valor remanescente. O pagamento parcial efetivado por</p><p>um dos codevedores e a remissão a ele concedida, não alcança os demais, senão até a concorrência</p><p>da quantia paga ou relevada.</p><p>- Na presente lide, contudo, a sobrevivência da solidariedade não é possível, pois resta apenas um</p><p>devedor, o qual permaneceu responsável por metade da obrigação. Diante disso, a consequência</p><p>lógica é que apenas a recorrida permaneça no polo passivo da obrigação, visto que a relação</p><p>solidária era constituída de tão-somente dois codevedores. - O acolhimento da tese da recorrente, no</p><p>sentido de que a recorrida respondesse pela integralidade do valor remanescente da dívida,</p><p>implicaria, a rigor, na burla da transação firmada com a outra devedora. Isso porque, na hipótese da</p><p>recorrida se ver obrigada a satisfazer o resto do débito, lhe caberia, a teor do que estipula o Art. 283</p><p>do CC/02, o direito de exigir da outra devedora a sua quota, não obstante, nos termos da transação,</p><p>esta já tenha obtido plena quitação em relação à sua parte na dívida. A transação implica em</p><p>concessões recíprocas, não cabendo dúvida de que a recorrente, ao firmá-la, aceitou receber da</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 91 de 146</p><p>outra devedora, pelos prejuízos sofridos (correspondentes a metade do débito total), a quantia</p><p>prevista no acordo. Assim, não seria razoável que a outra devedora, ainda que por via indireta, se</p><p>visse obrigada a despender qualquer outro valor por conta do evento em relação ao qual transigiu e</p><p>obteve quitação plena. - Os Arts. 1.059 e 1.060 do CC/02 exigem dano material efetivo como</p><p>pressuposto do dever de indenizar. O dano deve, por isso, ser certo, atual e subsistente. Precedentes.</p><p>- A intervenção do STJ, para alterar valor fixado a título de danos morais, é sempre excepcional e</p><p>justifica-se tão-somente nas hipóteses em que o quantum seja ínfimo ou exorbitante, diante do</p><p>quadro delimitado pelas instâncias ordinárias. Precedentes. - A proporcionalidade da sucumbência</p><p>deve levar em consideração o número de pedidos formulados na inicial e o número de pedidos</p><p>efetivamente julgados procedentes ao final da demanda. Precedentes. Recurso especial parcialmente</p><p>conhecido e, nesse ponto, provido. (REsp 1089444/PR, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI,</p><p>TERCEIRA TURMA, julgado em 09/12/2008, DJe 03/02/2009)</p><p>Se os alimentandos (credores) forem idosos, para ampliar a sua tutela, o STJ, aplicando o</p><p>Estatuto do Idoso, já entendeu haver inequívoca solidariedade passiva entre os devedores</p><p>(legitimados passivos):</p><p>Direito civil e processo civil. Ação de alimentos proposta pelos pais idosos em face de um dos</p><p>filhos. Chamamento da outra filha para integrar a lide. Definição da natureza solidária da obrigação</p><p>de prestar alimentos à luz do Estatuto do Idoso. - A doutrina é uníssona, sob o prisma do Código</p><p>Civil, em afirmar que o dever de prestar alimentos recíprocos entre pais e filhos não tem natureza</p><p>solidária, porque é conjunta. - A Lei 10.741/2003, atribuiu natureza solidária à obrigação de prestar</p><p>alimentos quando os credores forem idosos, que por força da sua natureza especial prevalece sobre</p><p>as disposições específicas do Código Civil. - O Estatuto do Idoso, cumprindo política pública (Art.</p><p>3º), assegura celeridade no processo, impedindo intervenção de outros eventuais devedores de</p><p>alimentos. - A solidariedade da obrigação alimentar devida ao idoso lhe garante a opção entre os</p><p>prestadores (Art. 12). Recurso especial não conhecido. (REsp 775.565/SP, Rel. Ministra NANCY</p><p>ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 13.06.2006, DJ 26.06.2006 p. 143).</p><p>SOLIDARIEDADE ENTRE O CONSTRUTOR E FINANCIADOR DO IMÓVEL.</p><p>Responsabilidade civil. Agente financeiro. Defeitos na obra financiada. Precedente da Corte.</p><p>1. Como já decidiu esta Terceira Turma, a "obra iniciada mediante financiamento do Sistema</p><p>Financeiro da Habitação acarreta a solidariedade do agente financeiro pela respectiva solidez e</p><p>segurança" (REsp nº 51.169/RS, Relator o Ministro Ari Pargendler, DJ de 28/2/2000).</p><p>PROCESSO CIVIL. EMBARGOS À EXECUÇÃO. BENEFÍCIO DE ORDEM. PENHORA.</p><p>MULTA POR LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ.</p><p>Não há benefício de ordem entre devedores solidários, pela própria natureza da obrigação.</p><p>SOLIDARIEDADE ATIVA.</p><p>Direito Civil e Direito Processual Civil. Mandado judicial. Instrumento de procuração em que</p><p>consta autorização para dois advogados agirem em conjunto ou separadamente. Procuração</p><p>solidária. Legitimidade ativa de cada procurador para a cautelar de arbitramento e para a ação de</p><p>execução dos honorários.</p><p>Constando do instrumento da procuração autorização para que os advogados possam agir em</p><p>conjunto ou separadamente, qualquer deles é parte legítima para pleitear o arbitramento dos</p><p>honorários, bem como para ajuizar a ação de execução da verba incluída na condenação por</p><p>arbitramento ou sucumbência.</p><p>Solidariedade e prescrição.</p><p>AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR ATO ILICITO. INTERRUPÇÃO DA PRESCRIÇÃO.</p><p>DEVEDORES SOLIDARIOS.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 92 de 146</p><p>CUIDANDO-SE DE OBRIGAÇÃO SOLIDÁRIA, A INTERRUPÇÃO DA PRESCRIÇÃO</p><p>EFETUADA CONTRA UM DOS DEVEDORES ENVOLVE OS DEMAIS E SEUS</p><p>HERDEIROS. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PROVIDO.</p><p>ACIDENTE DE TRÂNSITO. TRANSPORTE BENÉVOLO. VEÍCULO CONDUZIDO POR</p><p>UM DOS COMPANHEIROS DE VIAGEM DA VÍTIMA, DEVIDAMENTE HABILITADO.</p><p>RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DO PROPRIETÁRIO DO AUTOMÓVEL.</p><p>RESPONSABILIDADE PELO FATO DA COISA. - Em matéria de acidente automobilístico, o</p><p>proprietário do veículo responde objetiva e solidariamente pelos atos culposos de terceiro que o</p><p>conduz e que provoca o acidente, pouco importando que o motorista não seja seu empregado ou</p><p>preposto, ou que o transporte seja gratuito ou oneroso, uma vez que sendo o automóvel um veículo</p><p>perigoso, o seu mau uso cria a responsabilidade pelos danos causados a terceiros. - Provada a</p><p>responsabilidade do condutor, o proprietário do veículo fica solidariamente responsável pela</p><p>reparação do dano, como criador do risco para os seus semelhantes. Recurso especial provido.</p><p>(REsp 577.902/DF, Rel. Ministro ANTÔNIO DE PÁDUA RIBEIRO, Rel. p/ Acórdão Ministra</p><p>NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 13.06.2006, DJ 28.08.2006 p. 279).</p><p>12. TRANSMISSÃO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>12.1 DA CESSÃO DE CRÉDITO:</p><p>Conceito e noções gerais:</p><p>É a transferência que o credor faz a outrem de seus direitos sobre um crédito, na mesma</p><p>obrigação, com todos os acessórios. É semelhante à compra e venda, só que com relação aos</p><p>créditos. Isto porque a cessão tem por objeto bem incorpóreo (crédito), enquanto a compra e</p><p>venda destina-se à alienação de bens corpóreos.</p><p>RICARDO FIUZA: é um negócio jurídico através do qual o credor opera a transferência,</p><p>a um terceiro, do direito de crédito que tinha contra o devedor.</p><p>ORLANDO GOMES: é o negócio pelo qual o credor transfere a terceiro sua posição na</p><p>relação obrigacional.</p><p>A cessão de crédito é negócio jurídico, bilateral, em regra de caráter oneroso, (mas também</p><p>pode ser gratuito), através do qual o sujeito ativo de uma obrigação a transfere a terceiro, que era</p><p>estranho ao negócio original, independentemente da anuência do devedor</p><p>!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!</p><p>Os créditos, objeto de cessão, representam promessa de pagamento futuro, e assim, podem</p><p>ser objeto de negócio, uma vez que sempre haverá quem por eles ofereça um valor. A cessão pode</p><p>ser total ou parcial.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 93 de 146</p><p>As partes são o cedente (antigo credor) e o cessionário (o novo credor). O cedido</p><p>(devedor) é estranho ao negócio da cessão. O devedor não é parte na cessão, pois esta pode se</p><p>realizar sem a sua anuência, embora se lhe deva dar ciência dela, através de notificação que pode</p><p>ser judicial ou extrajudicial.</p><p>A cessão de crédito se trata de um dos mais importantes instrumentos da vida econômica</p><p>atual, principalmente na modalidade de desconto bancário, que é o mais comum, onde o</p><p>comerciante transfere seus créditos a uma instituição financeira.</p><p>Em regra, todos os créditos podem ser objetos de cessão, vencidos ou vincendos, constem</p><p>eles de título ou não, exceto se a isso se opuser a natureza da obrigação, a lei, ou acordo expresso</p><p>existente entre credor e devedor:</p><p>- Natureza da obrigação: direito personalíssimo.</p><p>- Lei: crédito penhorado.</p><p>- Acordo (ajuste) entre as partes.</p><p>Pressupostos de validade:</p><p>São os normais de qualquer ato jurídico previstos no Art. 104 do CC: capacidade das</p><p>partes, objeto lícito, e forma prescrita ou não proibida pela lei.</p><p>A capacidade é necessária porque ocorre uma alienação de um direito, por parte do</p><p>cedente, e uma aquisição onerosa por parte do cessionário. Assim, além da capacidade para os atos</p><p>jurídicos, é necessária a legitimação para praticar os atos de alienação. O objeto pode ser qualquer</p><p>crédito transmissível, se a isso não se opuser à natureza da obrigação, a lei, ou a convenção com o</p><p>devedor (Art. 286 do CC).</p><p>A natureza da obrigação, por exemplo, opõe-se à transmissão no caso dos direitos não</p><p>patrimoniais (os personalíssimos), como o direito ao nome. A lei se opõe à cessão em alguns casos</p><p>específicos: os créditos decorrentes de acidentes de trabalho, crédito de alimentos. A convenção</p><p>entre o credor e o devedor, existindo, também impedirá a cessão.</p><p>A forma é livre, entre cedente e cessionário, uma vez que a lei não impõe nenhuma forma</p><p>específica. Para valer contra terceiros tem que ser por escrito e com registro no Cartório de Títulos e</p><p>Documentos (Art. 288, do CC). Este artigo do Código Civil estabelece que a cessão será ineficaz</p><p>em relação a terceiros se não for celebrada mediante instrumento público. O Art. 288 do Código diz</p><p>que se for por instrumento particular revestido das solenidades do § 1º do Art. 654 do CC, a cessão</p><p>de crédito também se opera mediante terceiros.</p><p>Esse terceiro que o artigo menciona é a pessoa que não figurou no negócio entre cedente e</p><p>cessionário, que pode ser inclusive o próprio devedor cedido. A cessão de título de crédito é feita</p><p>através do endosso. Essas formalidades somente são exigidas para a cessão valer contra terceiros,</p><p>sendo desnecessárias em relação ao cedido.</p><p>O cessionário de crédito hipotecário poderá fazer averbar junto à matrícula do imóvel a</p><p>cessão de crédito para assegurar os direitos transferidos pela cessão (Art. 289 do CC).</p><p>Para valer contra o devedor é ainda necessário que seja o mesmo notificado da cessão</p><p>(Art. 290 do CC). Contudo, a notificação não é indispensável para que a cessão seja válida, mas é</p><p>indispensável para prender o cedido, vinculando-o ao cessionário. Isto porque, se não for notificado</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 94 de 146</p><p>poderá o devedor (cedido) pagar, validamente, o crédito ao cedente.</p><p>A notificação pode ser dispensada, desde que o cedido tenha efetiva ciência da cessão</p><p>(Art. 290 do CC, parte final). Essa notificação deve ser por escrito público ou particular, e deve</p><p>igualmente conter o ciente do devedor.</p><p>Se o cessionário exigir o pagamento do cedido, este não se desobriga simplesmente</p><p>alegando que não foi notificado, pois terá que provar que já efetuou o pagamento ao antigo credor</p><p>(cedente).</p><p>Pluralidade de cessões do mesmo crédito – Se maliciosamente, o cedente fizer cessão de</p><p>um mesmo crédito a vários cessionários, prevalecerá à cessão que tiver sido completada com a</p><p>entrega do título do crédito cedido (Art. 291 do CC).</p><p>Finalidade da notificação feita ao devedor:</p><p>É uma maneira induvidável de dar ciência ao devedor (cedido) da transmissão do crédito,</p><p>com o objetivo de vinculá-lo à nova relação jurídica, isto porque a própria lei (Art. 290, 1ª parte, do</p><p>CC) é clara quando determina que a cessão de crédito não tem eficácia em relação ao devedor,</p><p>senão quando a este notificada.</p><p>Com a notificação feita, ocorrem duas consequências importantes com relação ao cedido:</p><p>a) Anteriormente a notificação o devedor pode pagar o seu débito ao credor primitivo, e</p><p>este pagamento é válido (Art. 292, 1ª parte do CC), entretanto a partir do momento em que foi</p><p>intimado da transferência do crédito, não mais poderá fazê-lo, tendo em vista que a notificação</p><p>vincula o devedor à nova relação jurídica; e</p><p>b) No momento em que é notificado, o devedor pode opor, tanto ao cedente quanto ao</p><p>cessionário as exceções que lhe competirem como, por exemplo: já pagou a dívida, que ela se</p><p>compensou, ou a existência de vícios como erro, dolo ou coação.</p><p>Se o devedor não opor as exceções neste momento não poderá fazê-lo mais tarde, tendo em</p><p>vista que o seu silêncio é entendido como à anuência com os termos do negócio e demonstra seu</p><p>propósito de pagar ao cessionário a prestação devida, objeto da cedência (Art. 294 do CC).</p><p>Observação: As exceções oponíveis diretamente ao cessionário podem ser arguidas a</p><p>qualquer tempo, tendo em vista que este se apresenta ao devedor como um novo credor, e todo</p><p>devedor tem a faculdade de opor qualquer exceção contra a pretensão de seu credor. Assim, poderá</p><p>arguir compensação, por exemplo.</p><p>O importante é que independentemente do devedor (cedido) ter ou não conhecimento da</p><p>cessão, o cessionário pode exercer atos para conservar o direito cedido (cobrar antecipadamente a</p><p>dívida se o cedido se torna insolvente; se dívida estiver vencida, adentrar com ação de cobrança</p><p>interrompendo a prescrição, ou mesmo com o protesto do título em cartório). Isso ocorre porque o</p><p>cessionário, após a cessão, passa a possuir os mesmos direitos que possuía o credor anterior</p><p>(cedente) a quem substituiu na obrigação (Art. 293 do CC).</p><p>Efeitos da cessão e responsabilidade do cedente:</p><p>O principal efeito da cessão é a transferência da relação com todos os seus acessórios e</p><p>garantias (Art. 287 do CC). É uma mesma relação jurídica, não é uma nova dívida.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 95 de 146</p><p>O cedente é responsável pela existência do crédito, na cessão por título oneroso (Art.</p><p>295 do CC), e também responde pela existência da garantia. O cedente é responsável pela existência</p><p>da dívida à época do negócio, e dessa forma responde pelas perdas e danos no caso de o débito</p><p>inexistir em tal momento.</p><p>Importante observar que o cedente responde pela existência do débito e não pela</p><p>solvabilidade do devedor (Art. 296, do CC). Isto porque a cessão a título oneroso é negócio</p><p>especulativo, onde aquele que adquiriu o crédito pagou por ele, e geralmente paga menos que o seu</p><p>valor nominal, em busca de um proveito, e assim sendo corre o risco do negócio; entretanto, as</p><p>partes podem convencionar que o cedente responde também pela solvabilidade do devedor (Art.</p><p>297, do CC).</p><p>Esse ajuste envolve duas limitações:</p><p>a) O cedente garante a solvabilidade do devedor, entretanto essa garantia refere-se ao</p><p>momento da cessão. Ele não se torna um coobrigado ou avalista, e só responderá pela dívida que o</p><p>cedido não resgatou.</p><p>b) Se o cedente responder pela solvência do devedor, só responderá até o montante que</p><p>recebeu do cessionário e mais as despesas efetuadas (Art. 297 do CC). Isto porque no momento que</p><p>o cedente garante a solvabilidade do devedor o negócio não é mais aleatório, assim sendo, não</p><p>se</p><p>justifica por parte do cessionário um lucro excessivo cabendo apenas uma remuneração pelo risco.</p><p>Impedimento à cessão:</p><p>No caso do Art. 298 do CC → se o crédito tiver sido penhorado, tendo o credor (cedente)</p><p>conhecimento dessa penhora, não mais poderá transferi-lo. Se o devedor, não tendo ciência da</p><p>penhora, pagar ao cessionário estará livre, e o credor é quem responderá ao terceiro que penhorou.</p><p>12.2 DA ASSUNÇÃO DE DÍVIDA (CESSÃO DE DÉBITO)</p><p>Conceito e noções gerais:</p><p>A assunção de dívida é uma novidade introduzida pelo novo Código Civil de 2002,</p><p>entretanto, embora não estivesse expressamente no Código de 1916 a doutrina já falava sobre a sua</p><p>celebração, em virtude da autonomia da vontade e da liberalidade contratual.</p><p>A assunção de dívida ou cessão de débito é o negócio pelo qual o devedor transfere para</p><p>outra pessoa sua posição na relação jurídica, de modo que esta o substitua na obrigação.</p><p>Diferença entre cessão de crédito e assunção de dívida:</p><p>A grande diferença existente entre cessão de crédito e a assunção de dívida é que enquanto</p><p>naquela é irrelevante a anuência do devedor, devendo o mesmo apenas ser notificado da mesma</p><p>para que efetue o pagamento para o novo credor (cessionário), na assunção de dívida é essencial</p><p>que o credor concorde com a substituição, porque aqui o credor para receber a obrigação vai</p><p>depender da solvência do obrigado para receber a obrigação, e com certeza, para ele não será</p><p>interessante acordar com devedor com menos condições de resgatar o débito.</p><p>Prazo para consentimento e silêncio do credor:</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 96 de 146</p><p>Qualquer das partes envolvidas na assunção de dívida pode dar prazo ao credor para que</p><p>este consinta na assunção. Aqui, o silêncio deste não será entendido como consentimento, pois neste</p><p>caso, se nada falar entender-se-á como recusa à cessão de débito (Art. 299, parágrafo único do CC).</p><p>Também é necessária a anuência do fiador ou do terceiro proprietário de bem hipotecado.</p><p>Salvo assentimento expresso do devedor primitivo, consideram-se extintas, a partir da</p><p>assunção da dívida, as garantias especiais por ele originariamente dada ao credor; portanto, se nada</p><p>for dito, as garantias originais consideram-se extintas com a assunção de dívida (Art. 300 do</p><p>CC).</p><p>O Art. 301 expressa que, se a substituição do devedor vier a ser anulada o débito antigo</p><p>é restaurado com todas as suas garantias, salvo as garantias prestadas por terceiro (fiador) e</p><p>excetuando-se, neste caso a hipótese deste terceiro ter conhecimento do vício que infectava a</p><p>obrigação. O novo devedor não poderá opor ao credor as exceções que cabiam somente ao antigo</p><p>devedor (Art. 302 do CC).</p><p>Adquirente de imóvel hipotecado e assunção de dívida:</p><p>E, por último, o adquirente de imóvel hipotecado pode tomar para si a responsabilidade do</p><p>pagamento do crédito garantido. Neste caso, se o credor for notificado da transferência do débito e</p><p>em trinta dias não impugnar esta transferência o seu silencio será entendido como consentimento</p><p>(Art. 303 do CC) (IMPORTANTE!!!).</p><p>ASSUNÇÃO POR EXPROMISSÃO: mediante contrato celebrado entre o credor e o</p><p>novo devedor, sem a participação no antigo devedor.</p><p>ASSUNÇÃO POR DELEGAÇÃO: mediante contrato celebrado entre o devedor e o</p><p>terceiro.</p><p>12.3 DA CESSÃO DE CONTRATO:</p><p>Conceito e noções gerais:</p><p>Apesar de não ser regulamentado no Código Civil vigente, tem existência jurídica como</p><p>negócio inominado. É a transferência da inteira posição ativa e passiva, do conjunto de direitos e</p><p>obrigações de que é titular uma pessoa, derivados de um contrato de execução ainda não concluída</p><p>(Sílvio Rodrigues).</p><p>Possibilita a circulação do contrato, permitindo que um estranho (terceiro) ingresse na</p><p>relação contratual, substituindo um dos contratantes primitivos (exemplo: cessão de locação, de</p><p>compromisso de compra e venda, de mandato – em que por meio do substabelecimento o contrato-</p><p>base é transferido etc.).</p><p>Diferenças</p><p>Não se deve confundir cessão de crédito com cessão de contrato que compreende a</p><p>transferência de todos os direitos e obrigações.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 97 de 146</p><p>A cessão de crédito restringe-se exclusivamente à transferência de direitos, substitui uma</p><p>das partes na obrigação apenas do lado ativo e em um único aspecto da relação jurídica, o mesmo</p><p>ocorrendo pelo lado passivo na assunção de dívida.</p><p>Todavia, ao transferir uma posição contratual, há um complexo de relações que se</p><p>transfere: débitos, créditos, acessórios, prestações em favor de terceiros etc.</p><p>Na transferência da posição contratual, portanto, há cessões de crédito (ou pode haver) e</p><p>assunções de dívida, não como parte base do negócio, mas como elemento integrante do próprio</p><p>negócio.</p><p>Partes</p><p>Uma das partes (cedente), com o consentimento do outro contratante (cedido), transfere</p><p>sua posição no contrato a um terceiro (cessionário). Para melhor compreensão terminológica</p><p>utilizaremos o contrato cuja posição é cedida de contrato-base.</p><p>Por conseguinte, por intermédio desse negócio jurídico, há o ingresso de um terceiro no</p><p>contrato-base, em toda titularidade do complexo de relações que envolvia a posição do cedente no</p><p>citado contrato. Vale ressaltar novamente, que é indispensável para a atuação dessa transmissão o</p><p>consentimento do outro contratante, ou seja, do cedido.</p><p>Observa-se o vasto campo de sua aplicação: no campo de venda em geral, no contrato de</p><p>fornecimento, locação, transporte, empreitada, seguro, sociedade, financiamento para construção.</p><p>Parte da doutrina, filiada à teoria atomística, fragmentava a análise científica do instituto</p><p>sob exame, para concluir que, em verdade, a cessão da posição contratual não seria mais do que um</p><p>encadeamento de cessões múltiplas (crédito e débito), conjugadas, carecedoras de autonomia</p><p>jurídica.</p><p>Pablo Stolze não concorda com tal posicionamento, explica que, quando em um</p><p>determinado contrato (imagine uma promessa de compra e venda), uma das partes cede a sua</p><p>posição contratual, o faz de forma integrada, não havendo, pois, a intenção de transmitir,</p><p>separadamente, créditos e débitos.</p><p>Por conseguinte, afirma ser adepto da teoria unitária, defendida por jurista como PONTES</p><p>DE MIRANDA, SILVIO RODRIGUES, SÍLVIO VENOSA, dentre outros, segundo a qual a cessão</p><p>de contrato opera a transferência da posição contratual como um todo, sem que se possa identificar</p><p>a fragmentação dos elementos jurídicos componentes da posição contratual.</p><p>Requisitos</p><p>- A celebração de um negócio jurídico entre cedente e cessionário.</p><p>- Integralidade da cessão (cessão global): crédito e débito.</p><p>- A anuência expressa da outra parte (cedido).</p><p>Necessário se faz ressaltar que em contratos de natureza personalíssima não admitem</p><p>cessão. Por exemplo, se uma pessoa contrata um show com um artista famoso, este não poderá</p><p>ceder a sua posição contratual.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 98 de 146</p><p>As partes, no contrato, podem estabelecer cláusula contratual (expressa) na qual não</p><p>admita a cessão contratual, em assim sendo, não será permito tal cessão.</p><p>JURISPRUDÊNCIA</p><p>1) STF Súmula nº 411 - locatário autorizado a ceder a locação - sublocação do imóvel - o</p><p>locatário autorizado a ceder a locação pode sublocar o imóvel.</p><p>2) TRF4: CESSÃO DE CRÉDITO. NOTIFICAÇÃO AO DEVEDOR. AUSÊNCIA DE "FUMUS</p><p>BONI JURIS". - A prova documental indica que os autores tinham ciência da existência da cessão</p><p>de créditos à CEF, pois foram notificados da cessão dos créditos. - A cessão de crédito independe,</p><p>para sua validade, de qualquer consentimento do</p><p>devedor, sendo que a notificação do devedor é</p><p>realizada para que este tenha ciência de quem é o seu novo credor, a fim de prevenir que o antigo</p><p>credor venha receber indevidamente o pagamento. - Regular a cessão de créditos e existindo</p><p>débitos, não há ilegalidade nos registros em cadastros de devedores.</p><p>3) TJ/SP: DESAPROPRIAÇÃO - HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS - DISCUSSÃO QUANTO À</p><p>TITULARIDADE DOS CRÉDITOS - Cessão de créditos - Necessidade de habilitação dos</p><p>herdeiros do advogado falecido - Dúvidas quanto à regularidade dos contratos de cessão de crédito</p><p>trazidos aos autos? Impossibilidade de solução da controvérsia nos autos da ação de desapropriação,</p><p>devendo a questão ser dirimida pelas vias próprias. Recurso improvido.</p><p>13. ADIMPLEMENTO E EXTINÇÃO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>PAGAMENTO (304 a 333, CC)</p><p>NOÇÃO GERAL:</p><p>Tecnicamente, o termo pagamento significa o desempenho voluntário da obrigação</p><p>ajustada, pondo termo (extinção) à relação jurídica entre devedor e credor. Entretanto, de forma</p><p>mais ampla, é mais correto considerar pagamento como uma espécie do gênero adimplemento.</p><p>REQUISITOS ESSENCIAIS:</p><p>Para a validade do pagamento é necessária a existência de três elementos:</p><p>a) Preexistência da obrigação;</p><p>b) Presença da pessoa que paga, o solvens;</p><p>c) Presença da pessoa que recebe, o accipiens.</p><p>O primeiro elemento equivale à causa justificadora do pagamento, ou seja, o vínculo</p><p>obrigacional, sem o qual pode surgir a figura do pagamento indevido. O Art. 876 do CC afirma que</p><p>está sujeito à restituição todo aquele que receba o que não lhe era devido.</p><p>DE QUEM DEVE PAGAR</p><p>a) O devedor e o terceiro interessado:</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 99 de 146</p><p>O Art. 304 do CC diz que qualquer pessoa interessada na extinção da dívida poderá pagá-</p><p>la. O principal interessado, obviamente, é o devedor, entretanto, há outros (terceiros), que também o</p><p>são, como por exemplo, o fiador, o sublocatário. O interesse é jurídico está diretamente</p><p>relacionado à ligação ou não com o contrato ou com outra fonte da obrigação, nada tendo a ver com</p><p>interesses de ordem moral, sentimental, sexual.</p><p>No caso de recusa do credor em receber o pagamento, tanto o devedor quanto o terceiro</p><p>interessado podem valer-se da consignação em pagamento. O pagamento feito por terceiro</p><p>interessado gera uma consequência relevante, pois lhe concede o direito de sub-rogar-se em todos</p><p>os direitos do credor.</p><p>b) O terceiro não interessado:</p><p>A lei admite que mesmo terceiros não interessados possam efetuar o pagamento, desde que</p><p>o façam em nome e à conta do devedor, podendo, igualmente, valer-se da consignação judicial,</p><p>salvo se o devedor se opor (Art. 304, parágrafo único do CC).</p><p>Se o terceiro não interessado pagar em nome do devedor, a obrigação simplesmente se</p><p>extingue, não transformando o solvens (o que pagou) em credor do devedor, pois se entende que</p><p>houve uma liberalidade da parte do terceiro que pagou.</p><p>Se o terceiro não interessado pagar a dívida em seu próprio nome, terá o direito ao</p><p>reembolso pelo que pagou (Art. 305 do CC), mas não se sub-rogará nos direitos do credor. O</p><p>terceiro não interessado que paga a dívida em seu próprio nome, em caso de recusa do credor, não</p><p>dispõe de meios para coagir o credor a liberar o devedor.</p><p>Se este terceiro pagar antes do vencimento, somente terá direito ao reembolso no</p><p>vencimento (Art. 305, parágrafo único do CC). Se o devedor possuir meios para ilidir a dívida, isto</p><p>é, meios ou instrumentos para evitar a cobrança do débito pelo credor (vício de consentimento-erro,</p><p>dolo, coação), o pagamento feito por terceiro, com oposição ou desconhecimento do devedor não o</p><p>obriga a reembolsar aquele que pagou (Art. 306 do CC).</p><p>Sílvio Venosa afirma que se é o terceiro não interessado que paga em nome do devedor,</p><p>como o caso do pai que paga a dívida do filho:</p><p>“O faz por simples liberalidade, ou por mero espírito de filantropia, nada pode reaver; se o</p><p>faz, contudo, como gestor de negócios, terá então ação contra o devedor para reembolsar-se do que</p><p>pagou”.</p><p>c) O pagamento que transfere o direito de propriedade (Art. 307 do CC)</p><p>O pagamento nem sempre consiste na entrega de certa quantia em dinheiro, pois muitas</p><p>vezes pode ocorrer de efetuar a transmissão do domínio de uma coisa móvel ou imóvel.</p><p>Se o pagamento envolver a entrega de uma coisa móvel ou imóvel, com a transferência do</p><p>direito de propriedade, além da capacidade genérica para qualquer ato jurídico, há a necessidade de</p><p>que o solvens (aquele que paga) tenha capacidade específica (ou legitimação) para a alienação (Art.</p><p>307 do CC). Exemplo: O tutor não pode dar, em pagamento, imóvel de seu tutelado sem</p><p>autorização judicial.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 100 de 146</p><p>O pagamento feito por pessoa que não possui estas capacidades poderá ser tornado válido</p><p>se ratificado pelo proprietário ou se o devedor vier a se tornar proprietário posteriormente.</p><p>Ocorrendo essa validação, esta retroage à data em que o pagamento foi efetuado.</p><p>O parágrafo único do Art. 307, contudo, traz uma exceção a este princípio: no caso de</p><p>tratar-se de coisa fungível, entregue ao credor de boa-fé que a consumiu o pagamento será válido,</p><p>mesmo que o solvens não tivesse capacidade ou legitimação para efetuar este pagamento.</p><p>Vejamos:</p><p>• Se o devedor era menor e entregou em pagamento mercadoria ajustada, que foi</p><p>recebida e consumida (Exemplo: gênero alimentício, material escolar etc.) pelo credor</p><p>de boa-fé, o pagamento é válido e intocável.</p><p>• Se o devedor de coisa fungível (gênero alimentício, por exemplo), não tinha</p><p>legitimação para efetuar a entrega, pois não era seu dono, o pagamento, habitualmente</p><p>não valerá. Entretanto, se o accipiens recebeu de boa-fé a prestação e de boa-fé a</p><p>consumiu, o pagamento é considerado válido e a relação jurídica se extingue, nada</p><p>mais restando ao prejudicado senão reclamar contra a pessoa que, sem direito, efetuou</p><p>o pagamento.</p><p>Condições para esta validação:</p><p>a) Tratar-se de pagamento efetuado mediante coisa fungível.</p><p>b) Boa-fé por parte do accipiens no ato do recebimento da coisa.</p><p>c) Consumo da coisa pelo mesmo accipiens também de boa-fé.</p><p>DAQUELES A QUEM SE DEVE PAGAR</p><p>O pagamento deve ser efetuado ao credor ou a quem o represente (Art. 308, 1ª parte do</p><p>CC). O representante mencionado pode ser legal, judicial ou convencional:</p><p>Legal – porque a lei assim o determina. São os pais, os tutores e os curadores em relação</p><p>aos incapazes cujos bens administram.</p><p>Judicial – resultante de ação judicial. São os nomeados pelo juiz, como o depositário</p><p>judicial, e em alguns casos os oficiais de justiça.</p><p>Convencional – quando as partes assim ajustaram, ou os portadores de mandato. O</p><p>representante convencional pode ter mandato expresso ou tácito: expresso – quando possuir</p><p>instrumento de procuração, conferindo poderes ao mandatário para receber o crédito; tácito – o</p><p>portador da quitação, pois é entendido que está autorizado pelo credor a receber a prestação devida,</p><p>por exemplo, empregado ou cobrador do credor (Art. 311, CC).</p><p>Em caso de dúvida o devedor poderá se recusar a efetuar o pagamento, mesmo àquele que</p><p>possua a quitação em mãos, se tiver motivos para duvidar da autenticidade do mandato tácito, pois</p><p>quem paga mal será obrigado a pagar novamente (Art. 312 do CC).</p><p>Exceções:</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 101 de 146</p><p>Pode ocorrer que, tanto o pagamento efetuado diretamente ao credor não libere o devedor,</p><p>como o pagamento efetuado a terceiro venha a liberar o devedor.</p><p>a) Pagamento ao credor que não libera o devedor:</p><p>Primeira hipótese (Art. 310 do CC) – Quando</p><p>o credor era incapaz de quitar, e de tal fato</p><p>o devedor tinha conhecimento. A questão não diz respeito à prova de que o pagamento foi</p><p>efetuado, mas atinge a própria validade do pagamento, que se considera como se não realizado.</p><p>O Código considera válido o pagamento se o devedor conseguir demonstrar que o</p><p>pagamento efetuado se reverteu em benefício do incapaz (Art. 310, 2ª parte do CC). Nesta hipótese,</p><p>o pagamento será válido mesmo que a incapacidade do credor seja absoluta. Exemplo: O dinheiro</p><p>do pagamento foi utilizado para quitar as mensalidades da escola, ou pagou o aluguel da casa onde</p><p>o incapaz reside.</p><p>Segunda hipótese – (Art. 312 do CC) – Nos casos em que o devedor tomou ciência da</p><p>penhora feita sobre o crédito ou da impugnação a ele feita por terceiro.</p><p>Nestas hipóteses o pagamento não valerá contra o terceiro, que poderá torná-lo a exigi-lo</p><p>do devedor, e este terá que buscar a devolução junto ao credor, por meio de ação de regresso.</p><p>Exemplo: Se A deve para B um automóvel, e C apresenta impugnação (oposição) dessa relação e</p><p>crédito, A não deverá para B, sob pena de pagar para C.</p><p>Uma vez que o devedor toma ciência da penhora ou oposição de terceiro ao crédito, só se</p><p>exonera da obrigação depositando em juízo a quantia devida. No caso da oposição mencionada</p><p>basta que o credor do credor do devedor faça a notificação judicial. Não poderá o credor também</p><p>perdoar a dívida, conceder novo prazo, compensar etc., pois a penhora tira-lhe a disponibilidade</p><p>do crédito, em favor de seu credor exequente.</p><p>b) Pagamento a terceiro que libera o devedor:</p><p>As duas primeiras hipóteses estão no Art. 308, parte final do CC: quando o credor ratifica</p><p>o pagamento e quando o pagamento feito ao terceiro reverte em proveito do credor.</p><p>A terceira hipótese é quando o devedor paga ao credor putativo (Art. 309 do CC), ou</p><p>seja, paga para aquele que tem toda aparência (IMAGINÁRIO) de credor. O caso mais comum é</p><p>de herdeiro aparente (e que mais tarde se descobre que fora afastado por novo testamento, até então</p><p>desconhecido, ou que foi excluído da sucessão por indignidade – Art. 1.814 do CC).</p><p>É essencial que o solvens esteja de boa-fé, não tendo qualquer razão para suspeitar que o</p><p>accipiens não é o verdadeiro credor, porque é exatamente essa boa-fé que será protegida pela lei.</p><p>O devedor que pagou ao credor putativo estará livre, e só restará ao credor verdadeiro</p><p>buscar ressarcimento junto ao accipiens, pelo que por este foi indevidamente recebido.</p><p>Condição objetiva: O pagamento deve coincidir com a prestação avençada.</p><p>O OBJETO DO PAGAMENTO</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 102 de 146</p><p>O pagamento deve coincidir com a prestação devida e, no caso de obrigação cumulativa, o</p><p>devedor só se libera quando cumpre a integralidade do débito. A conversão da prestação em perdas</p><p>e danos não corresponde a pagamento no sentido técnico da palavra.</p><p>O credor pode rejeitar a substituição da coisa devida por outra, ainda que mais valiosa.</p><p>Para que o devedor possa se liberar neste caso é necessário que haja a concordância do credor (Art.</p><p>313 do CC).</p><p>Quando o credor recebe em pagamento um valor representado por um título de crédito,</p><p>cheque, por exemplo, a liberação do devedor só ocorre quando o credor efetivamente embolsar o</p><p>que lhe cabe. Se, por exemplo, o cheque for sem provisão de fundos considera-se como se o</p><p>pagamento não tivesse sido efetuado.</p><p>O credor não é obrigado a receber em parcelas, se assim, não foi convencionado (Art. 314</p><p>do CC), mesmo que a soma de todas as parcelas corresponda ao débito integral, pois mesmo que</p><p>haja um só devedor e um só credor, será irrelevante se a prestação é ou não divisível, uma vez que</p><p>nem o devedor está obrigado a pagar e nem o credor está obrigado a receber em partes, se assim não</p><p>se convencionou.</p><p>A obrigações que tem por objeto uma prestação em dinheiro deverá ser pagas em moeda</p><p>corrente no país no prazo de seu vencimento. No Brasil é vetado o pagamento em outra moeda que</p><p>não seja a corrente do nosso país. Sendo efetuado por meio de cheque, o pagamento somente terá</p><p>eficácia se ele tiver provisão de fundos (Art. 315 do CC).</p><p>É possível que as partes estipulem cláusula de atualização de valores monetários com o</p><p>objetivo de evitar a desvalorização da moeda, principalmente quando se tratar de contratos de</p><p>execução continuada ou diferida (trato sucessivo). Referida cláusula deverá ter por base a</p><p>atualização realizada por meio de índices oficiais regularmente estabelecidos (Art. 316 do CC).</p><p>É possível que a parte interessada peça judicialmente a correção judicial do contrato em</p><p>razão de desproporção manifesta entre o valor da prestação devida e o do valor do momento da</p><p>execução do contrato. Tal correção só será possível nos contratos de execução continuada, sendo</p><p>inadmissível nos contratos de execução imediata. Na medida do possível o juiz corrigirá o valor da</p><p>prestação atendendo o seu valor real (Art. 317 do CC).</p><p>Serão nulas quaisquer cláusulas que estipulem o pagamento da prestação em ouro ou</p><p>moeda estrangeira, bem como para compensar a diferença entre o valor desta e o da moeda</p><p>nacional, salvo os casos previstos em lei especial (Art. 318, CC).</p><p>Exemplo: Art. 2º do DL 857/69 que permite que os contratos de locação de bens móveis</p><p>possam ser pagos em moeda estrangeira, devendo para tal ser registrado previamente no banco</p><p>Central do Brasil. Entretanto, há jurisprudência no sentido de que esta regra somente era aplicável</p><p>nos contratos antigos, pois com o Plano Real os valores contratuais ficaram congelados.</p><p>A PROVA DO PAGAMENTO - A QUITAÇÃO</p><p>O devedor tem direito de receber a quitação regular pelo pagamento efetuado, podendo</p><p>reter o pagamento até que a quitação lhe seja entregue (Art. 319 CC). A quitação deverá conter os</p><p>elementos previstos no Art. 320 do CC. Esses elementos são:</p><p>1) O valor e a espécie da dívida quitada.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 103 de 146</p><p>2) O nome do solvens (devedor).</p><p>3) O tempo e o lugar do pagamento (data).</p><p>4) A assinatura do accipiens (credor ou seu representante).</p><p>5) Ser feito por instrumento escrito.</p><p>Alguns autores têm entendido que mesmo quando a quitação não contenha algum desses</p><p>elementos será ela válida se tal elemento puder ser deduzido do contexto.</p><p>Exemplo: Serpa Lopes aponta que está suprida a falta de menção ao valor se há a menção</p><p>que se trata de quitação plena até a data de sua feitura ou se menciona que se trata do saldo</p><p>remanescente da venda de certo imóvel ou que se refere aos débitos existentes.</p><p>A quitação terá sempre que ser escrita. A retenção ou a consignação do pagamento são</p><p>remédios que se apresentam em favor do devedor quando o credor se recusa a dar quitação e</p><p>também quando não a fornece com a forma prevista no Art. 320 do CC.</p><p>Nas dívidas cuja quitação consista na devolução do título:</p><p>Se o título se extraviar, o devedor pode reter o pagamento até que o credor lhe forneça</p><p>declaração de que o título foi perdido (extraviado) e acusando o recebimento (Art. 321 do CC).</p><p>A quitação não é o único meio de prova do pagamento, podendo ser usado qualquer</p><p>dos meios de prova em direito admitidos.</p><p>Presunções de pagamento</p><p>a) Quando o pagamento ocorrer em quotas periódicas e sucessivas, se o devedor tiver</p><p>em seu poder a quitação da última delas, presume-se, até prova em contrário, que todas as anteriores</p><p>foram pagas (Art. 322 do CC).</p><p>A presunção é juris tantum, ou seja, que se resulta do próprio direito até prova em</p><p>contrário. Nada impede que o credor receba o pagamento da última prestação e, na quitação desta</p><p>ressalve que as anteriores não estão pagas. Neste caso não se estabelece a presunção de pagamento.</p><p>b) Se a quitação se</p><p>refere ao valor principal e for feito ressalva quanto aos juros,</p><p>também não se estabelece a presunção legal (Art. 323 do CC), mas se o accipiens receber o valor</p><p>principal sem a referida ressalva presume-se que os juros estão liberados.</p><p>c) A entrega do título ao devedor firma a presunção do pagamento (Art. 324 do CC).</p><p>Neste caso, também ocorre a presunção juris tantum.</p><p>Se o credor quiser provar que não houve o pagamento terá que fazê-lo dentro de 60 dias</p><p>(Art. 324, parágrafo único do CC). Exemplo: cheque sem fundos.</p><p>Também pode ocorrer do credor argumentar que o título não foi entregue, mas</p><p>fraudulentamente apropriado pelo devedor. Neste caso, a Lei não estabelece qualquer prazo para a</p><p>prova do contrário. Exemplo: ocorreu um roubo ou furto dos documentos do credor e entre eles se</p><p>encontrava o título da dívida que posteriormente aparece com o devedor.</p><p>A questão das despesas com o pagamento</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 104 de 146</p><p>O Código Civil traz a presunção de que as despesas com o pagamento e a quitação correm</p><p>por conta do devedor (Art. 325 do CC). Como exemplo dessas despesas pode-se citar àquelas</p><p>necessárias para colocar a coisa à disposição do credor, e podem ser de natureza fiscal, relativa ao</p><p>transporte, à medida, pesagem, depósito.</p><p>Entretanto, se houver aumento nesses encargos por fato do credor, esse é que deverá</p><p>responder pelo acréscimo (Art. 325, 2ª parte do CC). Exemplo: se o credor mudar de endereço ou</p><p>falecer e deixar herdeiros em diferentes endereços.</p><p>Se a prestação a cumprir tiver por objeto um bem que se paga por peso ou medida, e o</p><p>contrato nada disser a respeito, presume-se que as partes pretenderam adotar a medida do lugar da</p><p>execução da convenção, isto porque há medidas e pesos que variam de lugar para lugar. Exemplo:</p><p>arroba em determinados lugares corresponde a 12 quilos, e em outros 15 quilos (Art. 326 do CC).</p><p>LUGAR DO PAGAMENTO</p><p>Quanto ao lugar do pagamento, as obrigações são classificadas em quérables e portables</p><p>(quesíveis e portáveis):</p><p>Quérables – são aquelas que devem ser cobradas pelo credor no domicílio do devedor.</p><p>Portables – são aquelas em que a prestação deve ser entregue pelo devedor no domicílio</p><p>do credor e de terceiro.</p><p>Se as partes nada convencionarem, as obrigações são quérables (regra), salvo se o</p><p>contrário resultar da lei, da natureza da obrigação, ou das circunstâncias do caso (Art. 327 do CC).</p><p>O domicílio é o atual do devedor, à época do pagamento, ainda que fosse outro ao tempo</p><p>em que se constituiu a obrigação. Nada obsta, contudo, que as partes estipulem que a prestação deva</p><p>ser paga no domicílio do credor.</p><p>A classificação de uma obrigação quérable ou portable é importante em virtude da</p><p>verificação da mora. Sendo quérable, se o credor não for atrás do devedor para receber, não</p><p>incorrerá o devedor em mora; o mesmo acontece na situação contrária.</p><p>Se o pagamento consistir na tradição de um imóvel, deve ser feito no lugar onde tal</p><p>imóvel se localiza (Art. 328, do CC). As prestações relativas ao imóvel a que se refere o Art. 328</p><p>são aquelas que, por sua natureza, não possam ser cumpridas em outro lugar.</p><p>Exemplo: pintura deste imóvel, obras de conservação. Já no caso de obrigações pessoais,</p><p>embora vinculadas ao imóvel, como o pagamento do aluguel, nada obsta que seja convencionado o</p><p>pagamento noutro lugar.</p><p>Se ocorrer motivo grave para que o pagamento não seja efetuado no lugar determinado no</p><p>contrato, o devedor poderá efetuá-lo em outro, desde que não cause prejuízo ao credor. Exemplo:</p><p>poderá consignar o pagamento ou realizar depósito em conta corrente (Art. 329 do CC).</p><p>Se o devedor efetuar, reiteradamente, o pagamento em local diverso do ajustado no</p><p>contrato, presume-se que o credor a ele renunciou (Art. 330, do CC).</p><p>O TEMPO DO PAGAMENTO</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 105 de 146</p><p>A obrigação só pode ser exigida pelo credor depois de vencida a obrigação. Quanto ao</p><p>tempo do pagamento deve se verificar se a obrigação é pura ou condicional.</p><p>Na obrigação condicional - aquela que deve ser cumprida sob condição - o pagamento só</p><p>é devido na data em que for implementada, cumprida a condição (332 CC). Exemplo: contratante</p><p>promete comprar a fazenda se esta vier a produzir X arrobas de café por ano. A obrigação será</p><p>exigível quando esse fato futuro e incerto ocorrer.</p><p>Na obrigação pura – denominação que se atribui a obrigação quando a prestação em que</p><p>se exibe o seu objeto não vem modificado por qualquer condição - há que se destacar duas</p><p>situações:</p><p>a) Se houve estipulação de época para o pagamento</p><p>Se for ajustada entre as partes a data do pagamento, considera-se vencida a obrigação se</p><p>nesta data não tiver sido cumprida. Entretanto, esta regra comporta duas exceções:</p><p>1) A primeira é no caso de prazo estabelecido em favor do devedor, em que nada obsta</p><p>que o devedor antecipe o pagamento, mesmo contra a vontade do credor, porque sendo o prazo em</p><p>favor do devedor ele decide quando quer pagar (vide artigo 133 do CC).</p><p>2) A segunda é no caso do Art. 333, que dispõe que nas situações ali elencadas é</p><p>permitido ao credor cobrar a dívida antecipadamente, antes de vencido o prazo. Essas situações</p><p>são:</p><p>I – No caso de falência do devedor, ou se executado o devedor abrir concurso creditório.</p><p>II – No caso dos bens do devedor, hipotecados ou empenhados, forem penhorados em</p><p>execução por outro credor.</p><p>III – Se as garantias reais ou fidejussórias dadas pelo devedor cessarem ou forem</p><p>insuficientes para o pagamento da dívida e o devedor intimado se negar a reforçá-las.</p><p>Havendo devedores solidários, só decorre no vencimento antecipadamente a dívida do</p><p>devedor que se enquadrar nas situações acima elencadas, uma vez que não atingirão os demais co-</p><p>devedores (Art. 333, parágrafo único do CC).</p><p>O não pagamento na data convencionada constitui automaticamente o devedor em mora,</p><p>sem que o credor precise tomar qualquer providência (Art. 397, do CC).</p><p>b) Se não houve tal estipulação, ou seja, não se ajustou termo de vencimento (Art.</p><p>331, do CC)</p><p>Se não se ajustou época para o pagamento, o credor poderá exigi-lo imediatamente (Art.</p><p>331, do CC). Não havendo termo a mora se constitui mediante interpelação judicial ou</p><p>extrajudicial (Art. 397, parágrafo único do CC).</p><p>14. FORMAS ESPECIAIS DE PAGAMENTO E EXTINÇÃO DE OBRIGAÇÕES</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 106 de 146</p><p>14.1 DO PAGAMENTO EM CONSIGNAÇÃO</p><p>Introdução e conceito:</p><p>Conforme o princípio da boa-fé objetiva, o devedor igualmente tem interesse no</p><p>cumprimento da obrigação para não ficar eternamente vinculado à obrigação e ter que suportar os</p><p>efeitos do inadimplemento, e assim sendo, tem o direito de efetuar o pagamento com o recebimento</p><p>regular da quitação.</p><p>O devedor tem o dever de pagamento e o direito de receber a quitação.</p><p>Após a quitação plena (total) o credor não pode demandar (acionar judicialmente) o</p><p>devedor, uma vez que a obrigação foi extinta com o pagamento, sob pena do credor suportar os</p><p>efeitos do Art. 940, do CC/2002, conforme acima já indicado: Aquele que demandar por dívida já</p><p>paga, no todo ou em parte, sem ressalvar as quantias recebidas ou pedir mais do que for devido,</p><p>ficará obrigado a pagar ao devedor, no primeiro caso, o dobro do que houver cobrado e, no</p><p>segundo, o equivalente do que dele exigir, salvo se houver prescrição.</p><p>Considerando a possibilidade de o devedor não conseguir esta quitação por fatos alheios à</p><p>sua vontade, e com isso não realizar o pagamento diretamente ao credor, o Código Civil previu esta</p><p>forma especial de extinção da obrigação. Tem cunho material</p><p>(Direito Civil) e processual (Direito</p><p>Processual Civil).</p><p>Para RICARDO FIÚZA: pagamento em consignação ou consignação em pagamento é o</p><p>depósito da coisa devida, à disposição do credor. Não é pagamento propriamente dito, mas produz</p><p>os mesmos efeitos extintivos da obrigação.</p><p>Na clássica definição de Serpa Lopes: “é o processo por meio do qual o devedor pode</p><p>liberar-se, efetuando o depósito judicial da prestação devida, “quando recusar-se o credor recebê-la</p><p>ou se para esse recebimento houver qualquer motivo legal impeditivo” (Curso de direito civil, cit. p.</p><p>246).</p><p>Da mesma forma que o credor tem direito de receber, o devedor tem direito de pagar.</p><p>Assim, da mesma forma que o credor pode forçar o devedor a pagar, também o devedor poderá</p><p>forçar o credor a receber. Para isto, criou-se modalidade especial de pagamento em consignação,</p><p>que consiste no depósito judicial ou extrajudicial da quantia ou coisa devida.</p><p>Consignação é o depósito judicial ou em estabelecimento bancário da coisa devida,</p><p>nas situações em que a lei permite tal depósito (Art. 334, do CC). É considerada como pagamento</p><p>indireto (espécie), uma vez que não é feito diretamente ao credor ou seu representante, mas judicial</p><p>ou extrajudicial.</p><p>Exemplo: se o credor se recusa a receber o pagamento, o devedor pode simplesmente não</p><p>fazer nada que não incorrerá em mora, uma vez que não foi sua a culpa. Entretanto, para sua</p><p>segurança, o devedor terá que efetuar o depósito judicial, evitando a necessidade de provar que não</p><p>foi moroso.</p><p>Dessa forma, a ação de consignação em pagamento representa um remédio (solução)</p><p>conferido ao devedor pela lei para cumprir sua obrigação.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 107 de 146</p><p>O pagamento em consignação constitui forma excepcional de extinção do vínculo</p><p>obrigacional e só pode ser admitido nas hipóteses expressamente previstas no texto legal, razão pela</p><p>qual o elenco de que trata o artigo em comento deve ser considerado taxativo (Art. 335, do CC) e</p><p>não meramente exemplificativo. É o entendimento de Ricardo Fiúza.</p><p>Em síntese, como muito bem resumiu o argentino Alfredo Colmo, caberá recurso à</p><p>consignação toda vez que o devedor não possa efetuar pagamento válido, ou seja, toda vez que</p><p>quiser pagar e não conseguir, por fato alheio a sua vontade.</p><p>Casos em que é cabível a consignação: São as situações elencadas no Art. 335, do CC</p><p>(taxativas):</p><p>a) Se o credor não puder, ou, sem justa causa, recusar receber o pagamento ou dar</p><p>quitação (inciso I).</p><p>Se o credor tiver motivo justo para a recusa (por exemplo, o valor é insuficiente para o</p><p>pagamento), a ação será julgada improcedente.</p><p>b) Se o credor não for nem mandar receber a coisa, no lugar, tempo e condições devidas</p><p>(inciso II).</p><p>Esta hipótese é destinada às dívidas quérables.</p><p>c) Se o credor for incapaz, desconhecido, ausente, ou estiver em lugar incerto ou de acesso</p><p>perigoso e difícil (inciso III).</p><p>Se, por exemplo, o credor inicialmente conhecido morre e não são conhecidos seus</p><p>herdeiros, ou se foi declarado ausente.</p><p>d) Se ocorrer dúvida sobre quem deva receber (inciso IV).</p><p>O exemplo clássico encontrado na jurisprudência é do inquilino que não sabe a qual dos</p><p>cônjuges deve pagar, por estarem em processo de divórcio e ambos pleitearem o recebimento do</p><p>aluguel.</p><p>e) Se pender litígio sobre o objeto do pagamento (inciso V).</p><p>Por exemplo, o depositário que, na ocasião em que deveria devolver o bem pertencente ao</p><p>credor, existe disputa judicial sobre a propriedade desse bem. Neste caso, se o devedor resolver</p><p>pagar a um dos litigantes, assumirá o risco de o pagamento ter sido mal feito, situação em que terá</p><p>que pagar novamente (Art. 344, do CC).</p><p>Requisitos de validade da consignação:</p><p>São os mesmos necessários à validade do pagamento, com relação às pessoas, ao objeto, ao</p><p>modo, ao tempo e ao lugar (artigos 336 e 337 do CC):</p><p>Quanto às pessoas: a consignação deve ser proposta pelo devedor, por terceiro</p><p>interessado, ou por terceiro não interessado em nome do devedor, e deve ser proposta contra o</p><p>credor ou seu representante. Exemplos: sublocatário, fiador, genro que paga dívida em nome do</p><p>sogro.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 108 de 146</p><p>Quanto ao objeto: a prestação oferecida deve ser integral, e deve ser aquela efetivamente</p><p>devida.</p><p>Quanto ao tempo: a consignação deve se realizar na época aprazada, ou se não o for, que</p><p>venha acompanhada dos encargos da mora.</p><p>Observação: sendo o prazo a favor do devedor, pode este consignar antes da data</p><p>combinada. Sendo o prazo em favor do credor, terá que aguardar o vencimento da obrigação, pois</p><p>só nesse momento lhe cabe a consignação.</p><p>Quanto ao lugar: a consignação deve ocorrer no lugar em que a prestação deveria ter sido</p><p>cumprida (Art. 337, do CC).</p><p>Prestações suscetíveis de serem consignadas:</p><p>Consignação é depósito de coisa, como expressamente afirma o Código Civil Brasileiro.</p><p>Logo só cabe a consignação nas obrigações de entregar coisa, sendo incabível nas de fazer e nas de</p><p>não fazer, que se esgotam apenas com a ação ou atuação do devedor. Assim, somente as</p><p>obrigações de dar podem ser objeto de consignação.</p><p>Faz-se necessário distinguir dentre as obrigações de dar as que se referem a objeto certo e</p><p>individualizado (coisa certa) das obrigações que só vêm definidas pelo gênero e quantidade (coisa</p><p>incerta).</p><p>Nas obrigações de dar coisa incerta a escolha das unidades que serão prestadas cabe, em</p><p>regra ao devedor, entretanto o contrato pode estipular o contrário. Neste caso, se o contrato estipular</p><p>que a escolha caberá ao credor, a solução para a consignação deve ser resolvida aplicando-se o Art.</p><p>342, do CC.</p><p>As obrigações ilíquidas não podem ser objeto de consignação, enquanto não se tornarem</p><p>líquidas.</p><p>JURISPRUDÊNCIA</p><p>AÇÃO DE CONSIGNAÇÃO EM PAGAMENTO – INÉPCIA DA INICIAL – Não havendo</p><p>clareza quanto ao valor ofertado e notícia de pretensão resistida, deve subsistir a sentença que</p><p>reconheceu a inépcia da inicial e extinguiu o processo. Negaram provimento. Unânime. (TJRS –</p><p>APC 70003469731 – 15ª C. Cív. – Rel. Des. Otávio Augusto de Freitas Barcellos – J. 20.02.2002)</p><p>Desistência do depositante (devedor), com o levantamento do depósito:</p><p>O Código prevê três situações em que o depositante possa requerer o levantamento do</p><p>depósito:</p><p>a) Antes de qualquer manifestação por parte do credor (Art. 338, do CC) – Neste caso,</p><p>a obrigação não se extingue, permanecendo exatamente como era antes, e o devedor pagará todas as</p><p>despesas.</p><p>b) Após ser julgada procedente o depósito (Art. 339, do CC) – Neste caso, não pode o</p><p>devedor fazer o levantamento nem mesmo com a concordância do credor. Se tal levantamento</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 109 de 146</p><p>ocorrer, no entanto, nenhum dos outros co-devedores e fiadores, que não concordaram com o</p><p>levantamento, ficará vinculado, a menos que expressamente aceite fazê-lo.</p><p>Observa-se que tal ato não fará ressuscitar a dívida, já extinta. Pode surgir outra obrigação,</p><p>mas que não terá ligação com a anterior, pois os que estavam vinculados na primeira dívida não</p><p>estarão necessariamente na segunda.</p><p>c) Após a manifestação do credor, aceitando ou contestando o depósito (Art. 340, do</p><p>CC) – Neste caso, somente com a concordância do credor. Este por sua vez, perderá a preferência e</p><p>a garantia que porventura tivesse, e ficarão livres os co-devedores e fiadores que não concordarem</p><p>com o levantamento.</p><p>Exemplo:</p><p>Depois de ter contestado, o credor poderá concordar com o levantamento. Perderá,</p><p>contudo, o direito sobre os co-devedores que não tiverem anuído. Suponhamos que A, B e C devam</p><p>um testamento, casamento e nos atos unilaterais5. Os efeitos de</p><p>um testamento estão correlacionados aos que deseja o testador; só que neste caso só funciona</p><p>apenas a sua vontade, por isso ele é unilateral (ao contrário dos contratos que é bilateral).</p><p>DISTINÇÃO – Negócio Jurídico e Ato Jurídico em Sentido Estrito</p><p>Não se deve confundir negócio jurídico com o ato jurídico em sentido estrito. Este não é</p><p>exercício de autonomia privada. Logo, o interesse objetivado não pode ser regulado pelo particular</p><p>e a sua satisfação se concretiza no modo determinado pela lei (pensão alimentícia, poder familiar).</p><p>Já no negócio jurídico, o fim procurado pelas partes baseia-se na autonomia privada6.</p><p>O ato jurídico em sentido estrito é um ato praticado pelo agente, com manifestação de</p><p>vontade, predeterminado pela norma, sem que o agente possa qualificar diferente a sua vontade.</p><p>Por exemplo, os efeitos decorrentes do poder familiar (administração da vida dos filhos menores</p><p>por parte dos pais).</p><p>O negócio leva em consideração o fim procurado pela parte ou partes e a esse fim a ordem</p><p>jurídica adapta os efeitos.</p><p>5 Os atos unilaterais serão estudados como fontes das obrigações: promessa de recompensa, enriquecimento sem causa,</p><p>gestão de negócios e pagamento indevido.</p><p>6 Autonomia privada: espaço para decibilidade dentro do ordenamento de realizar o negócio jurídico, comprar ou não,</p><p>vender ou não, locar ou não (seguir as possibilidades para decidir dentro dos princípios e das regras).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 11 de 146</p><p>Resumindo – no Ato Jurídico em Sentido Estrito a pessoa pratica uma conduta e os efeitos</p><p>estão da conduta são automáticos, independente da vontade de que o pratica (reconhecimento de um</p><p>filho, dupla paternidade); já o negócio jurídico a pessoa pratica uma conduta e os efeitos da conduta</p><p>são os desejados pelas partes.</p><p>Assim, o ato jurídico em sentido em estrito, por força da lei, é um ato não negocial, com</p><p>efeitos jurídicos determinados pela lei, com espaço restrito para a autonomia da vontade.</p><p>3.1 CLASSIFICAÇÃO DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS:</p><p>Quanto à manifestação de vontade:</p><p>Unilaterais - quando a declaração de vontade emana de uma pessoa na mesma direção</p><p>colimando um único objetivo; o ato se aperfeiçoa com uma única manifestação de vontade.</p><p>Exemplos: testamento, renúncia, desistência, promessa de recompensa.</p><p>Bilaterais – quando a declaração de vontade emana de duas manifestações de vontade, em</p><p>sentido oposto, mas coincidentes sobre o objeto.</p><p>Exemplos: perdão (“A” pode perdoar “B”; mas este perdão somente surtirá efeitos se “B”</p><p>aceitar o perdão), contratos como a compra e venda (comprador e vendedor), ou a locação (locador</p><p>e locatário).</p><p>Quanto às vantagens:</p><p>Gratuito – só uma das partes aufere vantagem, não havendo contraprestação; são atos de</p><p>liberalidade.</p><p>Exemplos: doação simples, comodato (empréstimo gratuito de bens não fungíveis).</p><p>Oneroso – ambos os contratantes possuem ônus e vantagens recíprocas.</p><p>Exemplos: locação, compra e venda.</p><p>Quanto ao tempo em que devam produzir efeitos:</p><p>Inter vivos – destinados a produzir efeitos durante a vida dos interessados.</p><p>Exemplos: locação, compra e venda, mandato, casamento.</p><p>Causa mortis – emitida para a criação do direito após a morte do declarante.</p><p>Exemplos: testamento, codicilo (este que é uma disposição de última vontade de pequenas</p><p>coisas, como roupas – ser enterrado com o uniforme da seleção brasileira).</p><p>Quanto a seus efeitos:</p><p>Constitutivos – se sua eficácia se opera ex nunc (ou seja, se efetiva a partir do momento da</p><p>conclusão do negócio.</p><p>Exemplo: contrato de compra e venda.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 12 de 146</p><p>Declarativos – se sua eficácia é ex tunc (ou seja, se efetiva a partir do momento em que se</p><p>operou o fato a que se vincula a declaração de vontade, retroagindo (voltando) no tempo.</p><p>Exemplo: reconhecimento de filho.</p><p>Ex nunc Nunca retroage seus efeitos</p><p>Ex tunc Retroage seus efeitos (tanto retroage)</p><p>Quanto às formalidades:</p><p>Solenes (formais) – obedecem a uma solenidade especial, a uma forma prescrita em lei</p><p>para se aperfeiçoarem.</p><p>Exemplos: casamento, testamento, compra e venda de um bem imóvel.</p><p>Não solenes (informais - forma livre – é a regra do Direito Civil7) – a lei não exige</p><p>formalidades especiais para seu aperfeiçoamento.</p><p>Exemplos: locação, compra e venda de bens móveis.</p><p>3.2 ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO NEGÓCIO JURÍDICO:</p><p>Alguns elementos do negócio jurídico são chamados de essenciais porque constituem</p><p>elementos de existência e validade. Outros são chamados de acidentais, pois são requisitos de</p><p>eficácia do negócio. O gráfico abaixo classifica os elementos constitutivos. Depois vamos analisá-</p><p>los um a um, a denominada “escada ponteana”, de autoria de Pontes de Miranda.</p><p>►PLANO DA EXISTÊNCIA:</p><p>Para ser válido, todo negócio jurídico deve antes existir com os seguintes elementos:</p><p>A) Partes (sujeitos)</p><p>B) Vontade</p><p>C) Objeto</p><p>D) Forma</p><p>Observação: o CC/2002 não adotou expressamente o plano da existência, vez que já inicia</p><p>no Art. 104 com o plano da validade.</p><p>►PLANO DA VALIDADE:</p><p>Essenciais – dizem respeito à validade do Negócio.</p><p>7 Art. 107. A validade da declaração de vontade não dependerá de forma especial, senão quando a lei expressamente a</p><p>exigir.</p><p>► PLANO DA EXISTÊNCIA</p><p>► PLANO DA VALIDADE</p><p>► PLANO DA EFICÁCIA</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 13 de 146</p><p>A) Gerais</p><p>1 – Capacidade das partes.</p><p>2 – Objeto lícito, possível fisicamente, determinado ou determinável.</p><p>3 – Vontade livre: consentimento/manifestação.</p><p>B) Especiais – forma prescrita ou não defesa em lei.</p><p>Vale ressaltar, mais uma vez, que o CC/2002 inicia o estudo do negócio jurídico com o</p><p>plano da validade.</p><p>►PLANO DA EFICÁCIA (EFEITOS):</p><p>1 – Condição: evento futuro e incerto.</p><p>2 – Termo: evento futuro e certo.</p><p>3 – Encargo: ônus.</p><p>3.3 ELEMENTOS ESSENCIAIS GERAIS (Art. 104, CC):</p><p>Como vimos acima, os requisitos de validade do negócio jurídico são: capacidade das</p><p>partes (elemento subjetivo), objeto lícito, possível, determinado ou determinável (elemento</p><p>objetivo), consentimento e forma prescrita ou não defesa em lei (Art. 104 do CC).</p><p>Os três primeiros são elementos gerais, comuns a todos os Negócios Jurídicos. Já o último</p><p>(a forma) é um elemento especial, pois diz respeito apenas alguns atos. Nem todos os negócios</p><p>jurídicos exigem uma forma especial, do contrário prevalece a liberdade das formas entre as partes.</p><p>Segundo Ricardo Fiúza, Elementos essenciais do ato negocial: os elementos essenciais são</p><p>imprescindíveis à existência e validade do ato negocial, pois formam sua substância; podem ser</p><p>gerais, se comuns à generalidade dos negócios jurídicos, dizendo respeito à capacidade do agente,</p><p>ao objeto lícito e possível e ao consentimento dos interessados; e particulares, peculiares a</p><p>determinadas espécies por serem concernentes à sua forma e prova.</p><p>A) CAPACIDADE DO AGENTE</p><p>Se todo negócio jurídico pressupõe uma declaração de vontade, a capacidade do agente é</p><p>indispensável. Os artigos 3º e 4º do Código Civil apresentam o rol das pessoas absoluta ou</p><p>relativamente incapazes.</p><p>Enquanto os absolutamente incapazes são representados em seus interesses por seus pais,</p><p>tutores e curadores, os relativamente incapazes (embora possam participar pessoalmente dos</p><p>negócios jurídicos) devem ser assistidos pelas pessoas a quem a lei determinar.</p><p>Art. 1.634. Compete a ambos os pais, qualquer que seja a sua situação conjugal, o pleno</p><p>exercício do poder familiar, que consiste em, quanto aos filhos: VII</p><p>R$ 100,00 a D. Imaginemos que, por uma razão qualquer, os devedores tenham consignado o</p><p>pagamento. Depois de contestada a ação, D admitiu que A levantasse o depósito. Isso significa que</p><p>D só terá direito de exigir o pagamento de A. Contra B e C não terá mais direitos, a não ser que</p><p>também eles tenham concordado com o levantamento efetuado por A.</p><p>Após a sentença, o devedor não mais poderá levantar o depósito se isto importar prejuízo</p><p>para os co-devedores, que, neste caso, ficarão desobrigados. Se A levantar o depósito, com a</p><p>anuência de D, após a sentença que deu a este ganho de causa, perderá ele, D, qualquer direito</p><p>contra B e C.</p><p>Despesas com o depósito (Art. 343, do CC):</p><p>As despesas com a consignação quando julgada procedente correrão por conta do credor</p><p>(réu na ação de consignação). Sendo julgada improcedente, correrão por conta do devedor (autor na</p><p>consignação).</p><p>Litígio sobre o objeto do pagamento:</p><p>Havendo litígio entre credor e terceiro com relação ao objeto do pagamento, e tendo o</p><p>devedor conhecimento da litigiosidade, somente se liberará se consignar o objeto da prestação.</p><p>Caso contrário assumirá o risco se efetuar o pagamento ao credor.</p><p>Possibilidade de o credor ajuizar a consignação em pagamento:</p><p>A ação de consignação é privativa do devedor que deseja obter a quitação da dívida;</p><p>entretanto, se a dívida se vencer havendo litígio entre os credores que se pretendam mutuamente</p><p>excluir, qualquer um dos credores poderá requerer que a consignação seja realizada pelo devedor</p><p>com o objetivo de garantir o recebimento de crédito exonerando-se o devedor. Exemplo: um casal</p><p>em ação de divórcio, onde tenham crédito oriundo de uma locação, pode um dos cônjuges requer</p><p>que o inquilino (devedor) deposite em juízo.</p><p>Após a consignação, terá o direito de receber a prestação o credor ou credores que o juiz</p><p>reconhecer como legítimo(s) detentor (es) do direito creditório. A sentença judicial determinará a</p><p>justa causa do depósito ou da recusa do devedor.</p><p>JURISPRUDÊNCIA</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 110 de 146</p><p>AGRAVO DE INSTRUMENTO – CONTRATO BANCÁRIO – CONSIGNAÇÃO EM</p><p>PAGAMENTO – CONCESSÃO DE LIMINAR – VEDAÇÃO DE INSCRIÇÃO EM</p><p>ÓRGÃOS CONTROLADORES DO CRÉDITO – PERMANÊNCIA DO BEM NA POSSE</p><p>DO DEVEDOR – PROVIDÊNCIA ACERTADA – DECISÃO MANTIDA – RECLAMO</p><p>RECURSAL DESATENDIDO – Pendente discussão judicial a respeito de contrato de leasing,</p><p>estando o obrigado a depositar os valores que entende corretos, arredados ou, quando menos,</p><p>suspensos estão os efeitos da mora, o que faz prematuro o lançamento do nome do obrigado nos</p><p>cadastros mantidos por organismos de restrição do crédito. Deferido em ação consignatória</p><p>interligada a contrato de arrendamento mercantil o depósito dos valores entendidos como corretos</p><p>pelo obrigado, com a descaracterização, em decorrência, de sua mora, requisitos inexistem a escorar</p><p>pleito de reintegração de posse em valor da credora, fazendo-se justa a decisão judicial que, nesse</p><p>contexto, assegura a permanência da posse em favor do consignante. (TJSC – AI 97.001131-8 – 4ª</p><p>C. Cív. – Rel. Des. Trindade dos Santos – J. 05.02.2001)</p><p>14.2 PAGAMENTO COM SUB-ROGAÇÃO</p><p>Conceito</p><p>Sub-rogação é a substituição de um credor por outro, na mesma relação obrigacional.</p><p>Altera-se o sujeito ativo da relação jurídica, porque o credor passa a ser outro. Todos os acessórios</p><p>são transmitidos para o novo credor.</p><p>A grande utilidade da sub-rogação é que, satisfazendo integralmente o credor, permite</p><p>que a dívida seja paga (com relação ao credor original) sem agravar a situação do devedor, que</p><p>continuará na mesma, mas poderá ter a chance de livrando-se daquela execução que seria imediata,</p><p>reunir condições para algum tempo mais tarde, vir a pagar.</p><p>No pagamento com sub-rogação ocorre a substituição de um credor por outro, por</p><p>imposição da Lei (sub-rogação legal, Art. 346) ou do contrato (sub-rogação convencional - acordo,</p><p>Art. 347).</p><p>Pagamento com sub-rogação: na clássica lição de Clóvis Beviláqua, é “a transferência</p><p>dos direitos do credor para aquele que solveu a obrigação ou emprestou o necessário para solvê-la.</p><p>A obrigação pelo pagamento extingue-se, mas em virtude da sub-rogação, a dívida, extinta para o</p><p>credor originário, subsiste para o devedor, que passa a ter por credor, investido nas mesmas</p><p>garantias, aquele que lhe pagou ou lhe permitiu pagar a dívida” (Código Civil comentado, cit., p.</p><p>147 e 148).</p><p>Trata-se, portanto, de pagamento não liberatório para o devedor, ainda que extintivo</p><p>da obrigação em relação ao credor originário.</p><p>Natureza jurídica</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 111 de 146</p><p>Predomina, na doutrina, a opinião de que o pagamento com sub-rogação é em verdade um</p><p>instituto autônomo, com características que lhe são próprias, não podendo ser enquadrado em</p><p>qualquer outro dos institutos jurídicos.</p><p>Espécies</p><p>a) Legal – é aquela que decorre diretamente da lei, ou seja, a lei prevê uma determinada</p><p>situação, e se a relação obrigacional se enquadrar nesta situação, automaticamente, de pleno direito</p><p>ocorre a sub-rogação, independentemente de qualquer manifestação de vontade das partes</p><p>envolvidas (Art. 346, do CC).</p><p>No caso da sub-rogação legal, a obrigação não se extingue com o pagamento, pois apenas</p><p>se altera o sujeito ativo da relação jurídica, porque o credor passa a ser outro, obedecendo a um</p><p>mandamento da lei, independente da vontade das partes. A dívida será considerada extinta em face</p><p>do antigo credor, remanescendo, todavia, o direito transferido ao novo titular do crédito.</p><p>Exemplo: O fiador, que é co-responsável pela dívida, porque se o devedor principal não</p><p>paga o débito no vencimento cumpre a ele fazê-lo. O legislador sabe que o fiador não é o principal</p><p>interessado, por esse motivo dá-lhe o direito de se sub-rogar nos direitos do antigo credor.</p><p>Casos de sub-rogação legal: são as hipóteses do Art. 346, do CC:</p><p>Inciso I – do credor que paga a dívida do devedor comum – tanto o sub-rogado (o solvens)</p><p>quanto o credor (o accipiens) deve ser credor do mesmo devedor.</p><p>Exemplo: O credor comum (quirografário – sem preferência no crédito) que paga a dívida</p><p>ao credor preferencial para ficar com a garantia que o hipotecário tem sobre o bem imóvel.</p><p>Inciso II – do adquirente do imóvel hipotecado, que paga ao credor hipotecário – Não é</p><p>comum isso acontecer, uma vez que as hipotecas são averbadas junto ao Cartório de Registro de</p><p>Imóveis, e ao comprador cabe buscar junto ao registro imobiliário as certidões negativas de ônus</p><p>reais sobre o imóvel que pretende adquirir. Assim, a garantia para o adquirente sub-rogado é inútil,</p><p>pois a garantia hipotecária fica representada pelo imóvel do próprio credor.</p><p>Exemplo A compra imóvel hipotecado de B e poderia pagar ao vendedor B, mas isso o</p><p>deixaria exposto a execução pelos credores hipotecários de B se estes não forem pagos pelo</p><p>devedor. Assim, o comprador A paga diretamente ao credor hipotecário liberando o devedor. O</p><p>dinheiro vai do comprador para o credor do devedor.</p><p>Também há sub-rogação (II – parte final) quando o terceiro que efetiva o pagamento para</p><p>não ser privado de direito sobre imóvel. “A” aceitou registrar uma hipoteca de seu terreno como</p><p>garantia de uma dívida entre “X”, credor, e “Y” devedor. “A”, sabendo que “Y” está sem condições</p><p>de pagar a dívida, efetua o pagamento ao credor “X”, ficando “A” sub-rogado e novo credor em</p><p>relação ao devedor “Y”, uma vez que seu terreno poderá ser vendido em leilão e para evitar a perda</p><p>da propriedade do bem (não se privado do direito de propriedade sobre o bem) adimple a obrigação.</p><p>Inciso III – do terceiro interessado que paga a dívida pela qual era ou podia ser obrigado no</p><p>todo ou em parte</p><p>– é o caso do devedor solidário que paga a dívida toda, ou do fiador que pagou a</p><p>dívida e se sub-roga nos direitos do credor.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 112 de 146</p><p>b) Convencional – é a que se origina em uma convenção, ou seja, decorre da vontade das</p><p>partes envolvidas. Sua manifestação é necessária quando não se apresentam os pressupostos da sub-</p><p>rogação legal (347 do CC).</p><p>Hipóteses de sub-rogação convencional: são as hipóteses do artigo 347 do CC:</p><p>Inciso I – por iniciativa do credor – quando o credor procura terceiro para reembolsar-se</p><p>do crédito, assumindo este sua posição na relação jurídica, com ou sem consentimento do devedor.</p><p>Neste caso, a própria lei manda que se aplique as regras pertinentes à cessão de crédito (Art. 348 do</p><p>CC). Considerando que o terceiro geralmente está com o intuito de especulação, tem-se entendido</p><p>que é mais viável celebrar diretamente a cessão de crédito, pois na sub-rogação inexiste tal</p><p>vantagem de especulação.</p><p>Inciso II – por iniciativa do devedor – quando o devedor procura terceiro e obtém</p><p>empréstimo da quantia necessária para solver a dívida, ajustando expressamente a sub-rogação</p><p>deste terceiro com relação à dívida existente, aliás, essa é a condição da sub-rogação convencional</p><p>procurada e consentida pelo devedor. Pode ocorrer com ou sem o consentimento do credor, eis que</p><p>será integralmente pago nada podendo reclamar.</p><p>✓ Em ambos os casos, o estabelecimento da sub-rogação tem que ser expresso, e</p><p>simultâneo ao empréstimo, e anterior ao pagamento. É que se não for assim, com o pagamento a</p><p>obrigação se extinguirá, e depois não será mais possível estabelecer a sub-rogação.</p><p>Condições para a eficácia da sub-rogação convencional:</p><p>a) Que o estabelecimento da sub-rogação seja simultâneo ao pagamento.</p><p>b) Que do ato figure que o empréstimo tem por finalidade quitar a dívida anterior.</p><p>c) Que deste ato figure, igualmente, que o pagamento sub-roga aquele que está</p><p>emprestando nos direitos do antigo credor.</p><p>Outras regras:</p><p>- Na sub-rogação legal, o sub-rogado só pode exigir do devedor aquilo que houver</p><p>desembolsado (Art. 350, do CC). Exemplo: contrato de seguro de automóvel por danos causados</p><p>por terceiros, quando a seguradora somente pode cobrar do autor do ato ilícito/terceiro (acidente de</p><p>trânsito) aquilo que suportar no contrato com o segurado, então, se previsão contratual de dano do</p><p>segurado em R$ 10.000,00 e este tiver prejuízos de R$ 13.000,00, somente a seguradora arcará com</p><p>R$ 10.000,00, sub-rogando-se nesse valor desembolsado18 junto ao causador do dano (terceiro).</p><p>- Na sub-rogação convencional prevalece o que as partes ajustarem.</p><p>- Transferem-se ao novo credor todas as características da dívida (ações, privilégios e</p><p>garantias). Entretanto, na sub-rogação convencional nada impede que as partes imponham restrições</p><p>ou maiores benefícios ao sub-rogado. No caso dos benefícios, são possíveis, desde que não haja</p><p>prejuízo a terceiros (Art. 349, do CC).</p><p>18 SÚMULA 188 DO STF: O segurador tem ação regressiva contra o causador do dano, pelo que efetivamente pagou,</p><p>até o limite previsto no contrato.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 113 de 146</p><p>- O sub-rogado (terceiro) não tem qualquer ação contra o sub-rogante (credor), para</p><p>reembolsar-se no caso de ser insolvente o devedor, pois não há garantia do credor ao solvens. A não</p><p>ser que, em se tratando de sub-rogação convencional, tal garantia seja estipulada. Contudo, se a</p><p>dívida original não existir, cabe ao sub-rogado ação contra o accipiens.</p><p>Efeitos da sub-rogação:</p><p>a) Transferir para a pessoa do sub-rogado todas as ações, privilégios e garantias do credor</p><p>primitivo em relação à dívida, contra o devedor principal e seus fiadores (Art. 349, do CC).</p><p>b) Na sub-rogação legal o sub-rogado não pode reclamar do devedor a totalidade da dívida,</p><p>mas somente àquilo que verdadeiramente desembolsou (Art. 350, do CC).</p><p>A sub-rogação parcial (Art. 351 do CC):</p><p>Ocorre quando terceiro efetua o pagamento de apenas parte da dívida, adquirindo</p><p>proporcionalmente os direitos do credor em relação ao devedor de acordo com o que foi</p><p>efetivamente desembolsado.</p><p>Neste caso, havendo sub-rogação parcial, o credor originário terá preferência sobre o sub-</p><p>rogado na cobrança da dívida restante, caso os bens do devedor não forem suficientes para pagar a</p><p>um e a outro.</p><p>JURISPRUDÊNCIA</p><p>SÚMULA 188 DO STF: O segurador tem ação regressiva contra o causador do dano, pelo que</p><p>efetivamente pagou, até o limite previsto no contrato.</p><p>STF. Seguro. Transporte marítimo de mercadorias. Ação regressiva da seguradora, sub-rogada nos</p><p>direitos do embarcador segurado, contra o transportador. Cláusula de limitação de responsabilidade</p><p>no conhecimento de transporte. Validade. Direito do Segurador que se limita ao que legalmente</p><p>pagou. Dec. 19.473/30, Art. 1º. Súmulas 161 e 188/STF.</p><p>TJMG. Responsabilidade civil do Estado. Acidente de trânsito. Ação de ressarcimento. Viatura da</p><p>Polícia Militar. Conduta imprudente do agente policial. Ausência de culpa do motorista particular.</p><p>Indenização devida ao segurador. Sub-rogação. Direito ao reembolso. CF/88, Art. 37, § 6º.</p><p>Existente a prova do pagamento do dano e operada a sub-rogação, evidente é o interesse processual</p><p>da seguradora.</p><p>CESSÃO DE CRÉDITO/SUB-ROGAÇÃO:</p><p>Na sub-rogação legal não há o propósito de lucro, pois a própria lei (Art. 350, do CC)</p><p>determina que o sub-rogado não pode exercer os direitos e ações do credor, senão até o limite de</p><p>seu desembolso, assim não há um caráter especulativo. A cessão de crédito, embora possa ser</p><p>gratuita, em geral encerra o propósito de lucro: onerosa.</p><p>Com relação à sub-rogação convencional a própria lei menciona que na hipótese do Art.</p><p>347, I do CC, será tratada como cessão de crédito (Art. 348 do CC).</p><p>A cessão de crédito está inserida no Código Civil como transmissão de obrigações, já a</p><p>sub-rogação como pagamento.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 114 de 146</p><p>Cessão de Crédito / Sub-rogação</p><p>1) Transmissão de obrigação. Efeito especulativo,</p><p>com valor diverso.</p><p>2) Necessidade de notificar o devedor.</p><p>3) Existe transmissão.</p><p>1) Pagamento da dívida.</p><p>2) Não há necessidade de notificar o</p><p>devedor.</p><p>3) Existe pagamento especial.</p><p>14.3 IMPUTAÇÃO DO PAGAMENTO</p><p>Conceito:</p><p>Imputar é determinar, declarar. Assim, imputação do pagamento é a operação por meio</p><p>da qual se determina, dentre dois ou mais débitos líquidos, vencidos e reciprocamente fungíveis,</p><p>existentes entre o mesmo credor e o mesmo devedor, a qual se refere um pagamento efetuado que,</p><p>sendo insuficiente para quitar a todos, é bastante para quitar mais de um deles, quando isoladamente</p><p>considerados.</p><p>A faculdade de imputar é extensiva ao terceiro que paga, nos casos em que tem o direito de</p><p>fazê-lo.</p><p>Requisitos:</p><p>a) A existência de dois ou mais débitos entre o mesmo devedor e o mesmo credor; e</p><p>b) Os débitos devem ser líquidos, vencidos e fungíveis entre si.</p><p>Líquida – é a obrigação certa quanto à sua existência e determinada quanto ao seu objeto.</p><p>Devem ser fungíveis entre si, de modo que não faça qualquer diferença para o credor receber uma</p><p>ou outra.</p><p>c) O pagamento oferecido deve ser bastante para quitar mais de um débito, se isoladamente</p><p>considerado, mas insuficiente para quitar todos.</p><p>Exemplos:</p><p>ANA deve a JOÃO dois débitos. Um no valor de R$ 2.000,00 e outro no valor de R$</p><p>3.000,00. ANA paga ao credor o valor de R$ 2.000,00. Neste caso não há o que se falar em</p><p>imputação, pois a quantia oferecida não é suficiente para pagar cada um dos débitos isoladamente,</p><p>mas apenas um deles, assim não</p><p>há o que escolher. O credor não é obrigado a receber em partes.</p><p>No mesmo exemplo acima, se o devedor oferecer R$ 5.000,00 ao credor, também não há o</p><p>que se falar em imputação, pois todas as dívidas podem ser quitadas com o valor oferecido.</p><p>Porém, se são três dívidas, uma no valor de R$ 500,00, outra de R$ 2.000,00 e outra de R$</p><p>1.500,00, e o devedor oferece ao credor R$ 2.000,00, poderá escolher se pretende quitar a dívida de</p><p>R$ 2.000,00 ou as outras duas.</p><p>Espécies de imputação:</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 115 de 146</p><p>a) Imputação feita pelo devedor (Art. 352 do CC):</p><p>É a regra geral, somente ocorrendo as outras espécies se o devedor não fizer valer o seu</p><p>direito de indicar qual dívida pretende quitar. Escolhida uma das dívidas pelo devedor, o credor não</p><p>pode recusá-la nem optar por outra das dívidas.</p><p>O devedor sofre duas limitações em seu direito de imputar:</p><p>- Se houver juros vencidos, não poderá imputar o pagamento sobre o principal, devendo</p><p>fazê-lo primeiro sobre o valor dos juros (Art. 354, do CC); e</p><p>- Se a dívida for superior ao pagamento oferecido, o devedor não pode nela imputar.</p><p>Entretanto, se o credor concordar em receber, mesmo sendo o pagamento menor do que a dívida</p><p>escolhida, nada impede que haja a imputação.</p><p>b) Imputação feita pelo credor (Art. 353 do CC):</p><p>Se o devedor nada disse, o direito de imputar transfere-se ao credor, devendo ser</p><p>exercido na quitação. Quando feita por dolo ou coação (nulidade relativa): vício de consentimento.</p><p>Depois que o credor oferece o recibo ao devedor, não pode mais fazer a escolha senão a fez ou</p><p>mudar a escolha já efetuada.</p><p>c) Imputação legal (Art. 355 do CC):</p><p>Deverá a imputação recair sobre dívidas líquidas e vencidas, e primeiramente sobre as mais</p><p>antigas. Se forem vencidas ao mesmo tempo essas dívidas, a imputação deve ser feita sobre as mais</p><p>onerosas, para proteger o devedor.</p><p>Para a determinação da mais onerosa, há algumas regras apresentadas pela doutrina:</p><p>1) A mais onerosa é a dívida que produz juros sobre a que não produz.</p><p>2) É mais onerosa a dívida que produz juros mais elevados, se ambas produzirem.</p><p>3) É mais onerosa à garantida por hipoteca ou outro direito real (carro, joias) do que aquela</p><p>que não o é, pois, o patrimônio do devedor sofre restrições.</p><p>4) A dívida que produz execução direta é mais onerosa do que a que requer ação ordinária.</p><p>5) A dívida reforçada por cláusula penal é mais onerosa do que aquela que não o é.</p><p>JURISPRUDÊNCIA</p><p>AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXIGIBILIDADE DE DUPLICATA. PAGAMENTO</p><p>APENAS PARCIAL, QUE NÃO ALCANÇA A TOTALIDADE DO DÉBITO. IMPUTAÇÃO</p><p>LEGAL DO PAGAMENTO - Cuidando-se de diversas duplicatas, saldadas parcial ou</p><p>integralmente em diversas oportunidades, sem que tenha havido imputação do pagamento por parte</p><p>do devedor, a imputação deve ser feita por indicação legal, o que faz presumir que tenham sido</p><p>pagas de acordo com a precedência dos respectivos vencimentos. (TJRS, 5 Câmara Cível).</p><p>14.4 DAÇÃO EM PAGAMENTO</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 116 de 146</p><p>Conceito:</p><p>Ação de dar com a função de extinguir a obrigação que devia ser cumprida por outra</p><p>prestação. É a entrega de uma coisa por outra, com a concordância do credor, para pagamento de</p><p>uma obrigação.</p><p>Regras gerais:</p><p>A dação em pagamento importa em solução da dívida. O credor de coisa certa não pode</p><p>ser obrigado a receber outra, ainda que mais valiosa (Art. 313, do CC), mas se concordar em</p><p>receber, nada obsta que assim seja feito, extinguindo a obrigação. Essa é exatamente a hipótese de</p><p>dação em pagamento, e por esse motivo é indispensável à concordância do credor.</p><p>A prestação oferecida para solver a obrigação pode ser qualquer uma (Art. 356, do CC):</p><p>coisa móvel ou imóvel, fatos abstenções, títulos de crédito, direitos (como o usufruto, por exemplo).</p><p>É princípio que se firma em lei.</p><p>O Código Civil de 1916, não permitia que essa coisa fosse dinheiro, entretanto com o</p><p>Novo Código, essa exceção foi retirada do artigo.</p><p>A dação em pagamento só se aperfeiçoa com a tradição (coisa móvel) ou com a transcrição</p><p>(coisa imóvel), havendo necessidade de dupla capacidade:</p><p>- Do solvens, é necessário que possa dispor da coisa a ser entregue com efeito liberatório.</p><p>- Do accipiens, deve ser capaz de prestar o necessário consentimento à substituição.</p><p>ATENÇÃO: para que o pagamento surta efeito jurídico é necessário que o credor consinta</p><p>na substituição da coisa.</p><p>Requisitos para que a dação em pagamento se ultime:</p><p>a) A entrega da coisa distinta da prevista inicialmente.</p><p>b) A concordância do credor em substituir o objeto da prestação.</p><p>c) A intenção de extinguir obrigação preexistente, sob pena de se constituir em uma</p><p>liberalidade, uma doação.</p><p>A coisa a ser entregue:</p><p>Nada obsta que o credor receba um objeto mais ou menos valioso do que o inicialmente</p><p>previsto. Entretanto, nada impede, que neste caso de o credor receber coisa menos valiosa do que a</p><p>devida, dê ao devedor quitação parcial.</p><p>A coisa a ser entregue ao credor pode ser entregue sem qualquer menção ao valor, mas se</p><p>as partes resolverem transacionar imóvel é indispensável mencionar o preço dessa coisa, porque</p><p>serão aplicáveis as regras referentes à compra e venda.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 117 de 146</p><p>Exemplo: pagamento das taxas respectivas (Art. 357, do CC). Isso, porque na realidade se</p><p>for entregue coisa corpórea é como se o devedor estivesse vendendo ao seu credor pelo valor do</p><p>crédito que possui com este.</p><p>Se essa coisa for título de crédito, as regras aplicáveis serão as da cessão de crédito, a</p><p>serem examinadas (Art. 358, do CC).</p><p>A evicção da coisa recebida:</p><p>Ocorrendo a evicção19 da coisa recebida, considera-se sem efeito a dação em pagamento e</p><p>restabelece-se a obrigação original, ressalvados direitos de terceiros (Art. 359, do CC). A lei não faz</p><p>qualquer distinção entre a evicção total e a parcial.</p><p>Quem sofrerá a perda, neste caso, será o solvens. A lei fala em restabelecimento da</p><p>obrigação original. Assim, todos os acessórios e todos os coobrigados voltam a ficar vinculados à</p><p>obrigação inicial.</p><p>Conceito de evicção:</p><p>"Evicção é a perda total ou parcial de uma coisa, em virtude de sentença que a atribui a</p><p>terceiro que não o alienante ou o adquirente" (Sílvio Rodrigues, DIREITO CIVIL, vol.2, pag. 211,</p><p>Saraiva,5ª ed.).</p><p>“O alienante é obrigado não só a entregar ao adquirente a coisa alienada, como também a</p><p>garantir-lhe o uso e gozo”. Pode suceder, entretanto, que o adquirente venha a perdê-la, total ou</p><p>parcialmente, por força de decisão judicial, baseada em causa preexistente ao contrato. É a essa</p><p>perda, oriunda de sentença fundada em motivo jurídico anterior, que se atribui o nome de evicção</p><p>(Washington de Barros Monteiro, Curso de Direito Civil – DIREITO DAS OBRIGAÇÕES, 2ª</p><p>PARTE,10ª ed., pág. 61, Saraiva).</p><p>Evicção – reivindicação da coisa ou do direito real em poder de outrem que detinha como</p><p>proprietário, por ter direito a ela.</p><p>Em resumo: pessoa que vendeu (alienante) não era o verdadeiro proprietário.</p><p>Evictor – pessoa que intenta a evicção para desapossar alguém daquilo que lhe pertence.</p><p>Evicto – pessoa que sofreu a evicção.</p><p>JURISPRUDÊNCIA</p><p>O débito relativo a prestações alimentícias pode ser saldado por dação de imóvel em pagamento.</p><p>(STJ – HC).</p><p>AÇÃO DE DAÇÃO EM PAGAMENTO – Faculdade do credor em aceitar em aceitar o</p><p>recebimento de coisa diversa da ajustada entre as partes – Recusa expressa do credor –</p><p>Inviabilidade da pretensão. A dação em pagamento se caracteriza pela aceitação do credor em</p><p>receber coisa que</p><p>não seja dinheiro, em substituição da pretensão que lhe era devida, podendo ser</p><p>conceituada como um acordo realizado entre o credor e o devedor em que o primeiro aceita em</p><p>19 Assunto específico de Direito Contratual.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 118 de 146</p><p>receber do segundo coisa diversa da ajustada entre as partes, sendo imprescindível, para seu</p><p>aperfeiçoamento, o consentimento do credor, hábil a liberar o devedor do pagamento da dívida.</p><p>Não sendo lícito compelir o credor a aceitar a dação em pagamento e havendo recusa expressa</p><p>deste, a pretensão inicial torna-se inviável. (TJMG, 7 Câmara Cível).</p><p>14.5 NOVAÇÃO:</p><p>Conceito:</p><p>Derivada do latim novatio, de novare (fazer novo, inovar), literalmente quer significar o</p><p>que é feito novo ou feito outra vez, em substituição ao que existe antes. Há novação quando as</p><p>partes, em um único ato, criam uma obrigação nova que extingue e substitui uma antiga.</p><p>Exemplo: seria o caso da obrigação de pagar R$ 10.000,00 de principal e R$ 1.000,00 de</p><p>juros e, no vencimento, as partes celebram uma nova dívida de R$ 11.000,00, incorporando os juros</p><p>ao capital.</p><p>A novação pode fundar-se (IMPORTANTE!!!)</p><p>- Na substituição da dívida;</p><p>- Na substituição do objeto da prestação; e</p><p>- Ou pela substituição das pessoas que figuram na dívida anterior.</p><p>Espécies:</p><p>A novação pode ser OBJETIVA ou SUBJETIVA.</p><p>A subjetiva pode ser passiva, quando há substituição da pessoa do devedor, ou ativa,</p><p>quando a substituição é da pessoa de credor.</p><p>O Art. 360, do CC, descreve as três hipóteses de novação:</p><p>a) Inciso I → novação objetiva – é o objeto da obrigação que se altera.</p><p>Assim se diz da novação que se opera entre os anteriores, credor e devedor, para a</p><p>substituição da dívida anterior por outra dívida, que extingue a primitiva. É chamada também de</p><p>novação real. Evidencia-se pela criação de uma nova obrigação que vem substituir e extinguir a</p><p>anterior, pelo que o ânimo de novar não pode ser presumido, mas deve fundar-se em atos</p><p>inequívocos ou ser expressamente declarado.</p><p>A prorrogação da dívida anterior não é entendida como novação, assim como qualquer</p><p>alteração para aumentar, diminuir ou modificar a dívida, pois que não praticou ato novo que viesse</p><p>a substituir e dar por extinta qualquer obrigação anterior.</p><p>Também se considera novação objetiva quando as partes alteram a causa da obrigação: um</p><p>contrato de compra e venda, por exemplo, que quando o vendedor deveria cumprir sua obrigação se</p><p>transforma em contrato de depósito.</p><p>b) Inciso II → novação subjetiva passiva – é a pessoa do devedor que se altera, podendo</p><p>ser com ou sem o conhecimento deste (Art. 362, do CC). Entretanto, é essencial sempre, que haja a</p><p>concordância do credor.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 119 de 146</p><p>Ocorre quando uma pessoa, estranha à dívida (terceiro), comparece perante o credor para</p><p>colocar-se em substituição ao primeiro devedor, obrigando-se por seu ato, a ser daí por diante o</p><p>principal e único pagador.</p><p>Na novação subjetiva passiva encontram-se presentes os institutos da delegação e da</p><p>expromissão:</p><p>- Há delegação quando o devedor indica terceira pessoa para pagar sua dívida, resgatar seu</p><p>débito, e com isso concorda o credor. Há uma espécie de transmissão do lado passivo da obrigação,</p><p>por vontade e deliberação do devedor, com anuência do credor.</p><p>- Há expromissão quando, mesmo sem o conhecimento do devedor, um terceiro assume o</p><p>débito, com a concordância do credor. Tal espécie encontra-se expressamente prevista no Art. 362</p><p>do CC.</p><p>E assim, se aceita a substituição pelo credor, o expromissor (principal pagador) toma o</p><p>cargo do devedor anterior, sem que possa alegar, quando exigível a obrigação, que é mero</p><p>substituto.</p><p>c) Inciso III → Novação subjetiva ativa - o credor é substituído por outro, nada mais</p><p>devendo o devedor ao antigo credor. Nesta hipótese, mediante nova obrigação, o credor primitivo</p><p>deixa a relação jurídica e um terceiro assume-lhe o lugar.</p><p>Ressalte-se que atualmente este tipo de novação deixou de ser vantajosa em função de</p><p>outros institutos conexos como a cessão de crédito, cessão de contrato e sub-rogação.</p><p>Pela novação, a dívida inicial se extingue e assim também ocorre com os seus acessórios,</p><p>pois sendo acessórios da coisa principal não pode sobreviver à extinção da obrigação primitiva (Art.</p><p>364, 1ª parte do CC);</p><p>Pressupostos:</p><p>Para que a novação ocorra é necessário:</p><p>a) A capacidade e legitimação das partes → como será criada uma obrigação nova,</p><p>pressupõe a capacidade das partes para assumir obrigação, assim como a emissão de vontade dessas</p><p>mesmas partes. Assim, os incapazes, dentro dos limites de sua incapacidade não podem assumir a</p><p>nova obrigação, a não ser por meio de seu representante legal. Se a nova obrigação não surge a</p><p>anterior não será extinta, não havendo novação.</p><p>Quanto à legitimação, mister se faz que o procurador esteja legitimado para fazer o novo</p><p>negócio, através de mandato expresso com poderes para novar.</p><p>b) Existência de uma obrigação anterior → se a novação objetiva extinguir uma obrigação</p><p>por meio da criação de outra, perderia completamente o sentido se não houvesse obrigação</p><p>preexistente (obrigação anterior válida). Isso porque a novação equivale a um pagamento, e para</p><p>haver pagamento deve necessariamente existir uma dívida.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 120 de 146</p><p>E essa obrigação antiga terá que ser válida, não se admitindo que seja nula ou já extinta</p><p>(Art. 367, do CC). As obrigações anuláveis podem ser novadas, e a novação serve para confirmá-</p><p>las.</p><p>c) Criação de uma nova obrigação → se é o surgimento dessa obrigação nova que provoca</p><p>a extinção da antiga, é curial que terá que haver o surgimento dessa nova, que terá que ser</p><p>necessariamente válida. Se a nova obrigação for nula, automaticamente se tornará ineficaz a</p><p>novação, persistindo a obrigação original.</p><p>Se a obrigação nova for anulável, a novação será válida, a menos que a nulidade venha a</p><p>ser decretada, senão haveria enriquecimento sem causa do devedor.</p><p>Exemplo: se o credor que concordou com a novação era menor púbere, e estava sem</p><p>assistência, o negócio pode ser anulado, restabelecendo a dívida anterior. Porém, se o responsável</p><p>validar a novação, logicamente, esta será válida.</p><p>d) A intenção de novar → é essencial, para que haja novação, que as partes queiram</p><p>extinguir a obrigação antiga e substituí-la pela nova. Não havendo esse animus novandi, a segunda</p><p>obrigação servirá apenas como ratificação da primeira (Art.361, do CC).</p><p>Aqui se verifica a intenção inequívoca, expressa ou tácita (mas em contrato) de ser extinta</p><p>a obrigação anterior pela nova, que prevalece como novo direito, sem qualquer vínculo à obrigação</p><p>extinta.</p><p>Nunca se presume a novação, devendo esta resultar clara da vontade das partes. No</p><p>entanto, pode a novação vir implícita. O critério mais usado, para averiguar a existência desse</p><p>elemento psicológico, é a incompatibilidade entre a obrigação (prestação) nova e a velha.</p><p>Efeitos da novação:</p><p>O principal é a extinção da dívida anterior e, por consequência, a extinção de todos os</p><p>acessórios e garantias que a ela se ligavam (Art. 364, 1ª parte do CC). Só que estarão liberados os</p><p>terceiros que não ratificarem sua vinculação.</p><p>Se houver garantia real oferecida por terceiro, não basta que as partes façam a ressalva,</p><p>para que as garantias continuem a existir na nova obrigação, é essencial que o terceiro o ratifique</p><p>(Art. 364 do CC).</p><p>Se a novação for ajustada entre o credor e apenas um dos devedores solidários, os demais</p><p>devedores solidários estarão liberados, e</p><p>somente sobre os bens do devedor que novou poderão</p><p>sobreviver às garantias da dívida (Art. 365, do CC).</p><p>O fiador ficará automaticamente liberado se não tomou parte no ajuste da nova obrigação,</p><p>pouco importando o que o devedor e o credor entre si ajustem (Art. 366, do CC).</p><p>Não há que falar em interrupção de prescrição, mas sim o nascimento, quando violado, de</p><p>um novo prazo prescricional. Havendo novação objetiva, o perecimento posterior do objeto não dá</p><p>ao credor o direito de perseguir o antigo.</p><p>A insolvência do novo devedor não defere ao credor a faculdade de ação regressiva contra</p><p>o antigo (Art. 363 do CC), salvo se houver convenção entre as partes nesse sentido.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 121 de 146</p><p>DIFERENÇAS:</p><p>Cessão de Crédito Novação</p><p>- O crédito primitivo subsiste, transmitindo-se</p><p>com todos os seus acessórios ao cessionário</p><p>(Art. 287 do CC).</p><p>- Na novação subjetiva ativa, além da</p><p>substituição do credor há um novo crédito</p><p>que substitui o anterior.</p><p>Cessão de Débito Novação</p><p>- É a mesma obrigação que subsiste,</p><p>alterando-se somente a pessoa do devedor.</p><p>- Na novação subjetiva passiva a dívida</p><p>anterior se extingue para ser substituída pela</p><p>subsequente, perecendo desta forma todas as</p><p>garantias e acessórios do débito anterior.</p><p>JURISPRUDÊNCIA</p><p>CONTRATO BANCÁRIO. NOVAÇÃO. REVISÃO DOS CONTRATOS EXTINTOS.</p><p>POSSIBILIDADE. A novação não impede a revisão dos contratos findos para afastar eventuais</p><p>ilegalidades. (STJ).</p><p>CIVIL. NOVAÇÃO. Se o ajuste subsequente não é incompatível com o contrato originário, só a</p><p>manifestação expressa das partes autoriza o reconhecimento da novação - inexistente no caso</p><p>concreto. Recursos especiais não conhecidos. (STJ).</p><p>DIREITO CIVIL. NOVAÇÃO. INOCORRÊNCIA. PAGAMENTO ORIGINARIAMENTE</p><p>PREVISTO EM DUAS PARCELAS. CHEQUE PRÉ-DATADO. RECURSO NÃO</p><p>CONHECIDO. I - Para a configuração da novação a doutrina reclama: a) - existência jurídica de</p><p>uma obrigação (obligatio novanda); b) - constituição de nova obrigação (aliquid novi); c) - animus</p><p>novandi. II - não se dá novação quando o negócio, diversamente do consignado, realizando-se de</p><p>outro modo, por conveniência das partes, previu originariamente o pagamento em duas parcelas, a</p><p>segunda das quais mediante cheque pré-datado. III - o recurso especial não se mostra hábil ao</p><p>exame de cláusula contratual e ao reexame da prova, em face da conclusão da instância ordinária de</p><p>que o pagamento se fez pro solvendo.</p><p>14.6 COMPENSAÇÃO</p><p>Conceito:</p><p>É a extinção de dívidas recíprocas pelo valor em que se igualem. Assim, a compensação é</p><p>um meio de extinção das obrigações e opera pelo encontro de dois créditos recíprocos entre as</p><p>mesmas partes, até onde se compensarem.</p><p>Exemplo: Se MARIA deve para ANA, e ANA também deve para MARIA, as duas dívidas</p><p>se extinguirão até onde forem iguais, o que ocorrerá pelo valor da menor.</p><p>Generalidades:</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 122 de 146</p><p>Na sistemática adotada pelo nosso Código Civil, a compensação é legal, operando-se ipso</p><p>jure (de acordo com a lei, pelo próprio direito), desde que atendidos determinados pressupostos, e,</p><p>como ocorre por força de lei, sem manifestação da vontade das partes, independe de capacidade</p><p>delas.</p><p>Por ser legal, essa compensação processa-se automaticamente decorrendo no instante em</p><p>que se constituírem créditos recíprocos entre duas pessoas. A compensação somente se opera nas</p><p>obrigações de dar.</p><p>Havendo mais de uma dívida compensável entre as mesmas partes, serão observadas as</p><p>regras da imputação do pagamento (Art. 379, do CC).</p><p>A compensação não pode ser declarada pelo juiz de ofício, devendo o interessado alegá-</p><p>la no momento oportuno do processo, como exceção. Uma vez declarada pelo juiz a compensação,</p><p>esta retroage (ex tunc) à data da coexistência dos débitos. O terceiro não interessado pode pagar,</p><p>mas não tem o direito de compensar, pois não é o devedor.</p><p>Efeitos:</p><p>Tendo em vista o fato de a compensação adotada pela nossa legislação ocorrer por força da</p><p>lei, importante salientar os efeitos que daí decorrem:</p><p>a) É irrelevante o problema de capacidade das partes – o que importa, neste caso, é que</p><p>nesta relação jurídica se apresentem duas partes, credoras e devedoras, reciprocamente, uma da</p><p>outra.</p><p>b) A compensação retroage à data em que a situação de fato se configurou – quando o</p><p>réu alega a compensação esta se opera no instante em que o réu, cobrado de uma prestação, tornou-</p><p>se credor do autor.</p><p>c) O efeito retroativo repercute nos acessórios do débito – os juros e garantias do</p><p>crédito cessam a partir do momento da coexistência das dívidas. Neste caso, o devedor cuja dívida</p><p>se extinguiu escapa dos efeitos da mora e da cláusula penal.</p><p>Vantagens:</p><p>Simplificação dos negócios – a compensação permite a extinção de duas obrigações, sem</p><p>que haja pagamento propriamente dito, evitando a inútil circulação de moedas.</p><p>Elemento garantia – cada uma das partes, que são credores e devedores recíprocos, tem</p><p>para assegurar o seu crédito o próprio débito pelo qual é responsável.</p><p>Espécies:</p><p>Parcial – quando os valores não são iguais. Neste caso, às dívidas se extinguem até onde</p><p>se igualam, ou seja, o valor maior se reduz à importância correspondente ao menor, subsistindo a</p><p>dívida quanto à parte não resgatada.</p><p>Total – quando os valores das dívidas forem iguais. Neste caso, ambos os créditos</p><p>desaparecem integralmente.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 123 de 146</p><p>Pressupostos:</p><p>a) Reciprocidade das obrigações – É essencial que o credor de certa pessoa seja,</p><p>concomitantemente, devedor dessa mesma pessoa. É considerado o requisito fundamental da</p><p>compensação, porque se trata de um meio de extinção de obrigações pelo encontro de direitos</p><p>opostos.</p><p>Algumas consequências devem ser observadas nesse pressuposto:</p><p>a.1) Art. 376, do CC – Se alguém assume obrigação em nome de terceiro, não haverá</p><p>compensação com o que o credor desse terceiro lhe dever. Isso porque esse fato não cria uma</p><p>reciprocidade das obrigações, que é requisito fundamental para que se opere a compensação, tendo</p><p>em vista que esse alguém não é o devedor original.</p><p>Exemplo: Lucas tutor de Mário. Lucas deve a José (credor), este credor é devedor de</p><p>Mário, denominado tutelado. Não pode Lucas (tutor) exigir a compensação do crédito de Mário</p><p>(tutelado) de sua dívida com José.</p><p>a.2) Art. 377, do CC – No caso de cessão de crédito, se o devedor a ela não se opuser, não</p><p>poderá opor ao cessionário a compensação que poderia opor ao cedente. Isso porque entre devedor-</p><p>cedido e o cessionário não existem prestações recíprocas.</p><p>Exemplo: Se A deve a B e B deve as dívidas se compensam. Mas se A cedeu seu crédito a</p><p>C, B deve opor-se, dando ciência a C da exceção (compensação) que iria opor ao cedente. Se B</p><p>silencia é como se renunciasse a compensação, de forma que B passa a ser devedor de C, embora</p><p>continue credor de A. Neste caso, como seu crédito e seu débito não são mais recíprocos,</p><p>impossível que haja compensação.</p><p>b) Liquidez das dívidas – a Lei brasileira só permite a compensação de dívida líquida,</p><p>isso porque seria inconcebível ocorrer a compensação sem que houvesse a certeza quanto ao</p><p>montante de uma das dívidas objeto da compensação (Art. 369 do CC).</p><p>c) Exigibilidade atual das prestações – para que haja a compensação, faz-se necessário</p><p>que as dívidas sejam exigíveis, quer dizer que as dívidas a serem compensadas devem estar</p><p>vencidas, isto porque, a rigor, enquanto não chega o termo de vencimento o devedor tem direito ao</p><p>prazo, não podendo ser compelido a abrir mão desse prazo por causa da compensação</p><p>(Art. 369 do</p><p>CC).</p><p>Por outro lado, o artigo 372, do CC, diz que, os prazos de favor (quando o credor dispensa</p><p>os juros e concede novo prazo) não podem ser obstáculos para que haja a compensação, ou seja, não</p><p>podem ser alegados pelo beneficiário para ilidir a compensação.</p><p>d) Fungibilidade dos débitos – mister se faz que as prestações a serem compensadas</p><p>sejam fungíveis entre si, ou seja, homogêneas, porque, caso contrário não haverá a compensação.</p><p>Exemplo: arroz e algodão são fungíveis, mas não se compensam porque não são homogêneos.</p><p>Compensação convencional:</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 124 de 146</p><p>O nosso código adotou a ideia da compensação legal, e para tanto indica pressupostos para</p><p>que ela se valide. Entretanto, o fato de a compensação legal não ocorrer não impede que as partes</p><p>ajustem o contrário, suprindo a falta de um ou mais requisitos e através de acordo de vontades</p><p>acertem a compensação. Nessa hipótese exige-se a capacidade das partes.</p><p>Sílvio Rodrigues diz que se trata de um novo negócio extintivo das obrigações, que atua</p><p>por força do acordo de vontades. A compensação pode surgir como a manifestação de vontade de</p><p>apenas uma das partes.</p><p>Exemplo: o credor de dívida vencida, que ao mesmo tempo é devedor de dívida vincenda.</p><p>Neste caso, pode ele renunciar ao prazo que lhe beneficia compensando uma obrigação com a outra</p><p>(Art. 372, do CC).</p><p>Quando a compensação ocorrer pela vontade das duas partes diz-se convencional, e</p><p>quando emanar da vontade de apenas uma diz-se compensação por vontade unilateral ou</p><p>compensação facultativa.</p><p>Dívidas não compensáveis (Art. 373 e 375, do CC):</p><p>Mesmo a lei determinando de plano a compensação quando ocorrer a existência dos</p><p>pressupostos previstos esta pode não ocorrer quer pela vontade das partes que assim determinaram,</p><p>de acordo com o que dispõe o Art. 375, do CC, quer pela determinação em próprio dispositivo</p><p>legal, onde o legislador excluiu do âmbito da compensação algumas espécies de relações descritas</p><p>no Art. 373 do CC, senão vejamos:</p><p>I – Se uma das dívidas se originou em furto, roubo ou esbulho (ato violento, em virtude</p><p>do qual é uma pessoa desapossada contra sua vontade, daquilo que lhe pertence ou está em sua</p><p>posse, sem que assista ao violentador qualquer direito ou autoridade, com que possa justificar o seu</p><p>ato) – é que o agente não pode ser beneficiado por sua própria torpeza. Entretanto, tem-se admitido</p><p>a compensação quando esta interessar a própria vítima, contudo, entende a doutrina que, neste caso,</p><p>a compensação é convencional e não legal.</p><p>II – Se uma das dívidas se origina de comodato, depósito ou alimentos – porque tanto</p><p>no comodato quanto no depósito há a obrigação de restituir uma coisa certa, e não será atendido o</p><p>requisito da fungibilidade recíproca das prestações. No caso de alimentos é porque admite a Lei</p><p>uma “prioridade” desses alimentos (obrigação personalíssima), em virtude de seu caráter de</p><p>sobrevivência.</p><p>III – Se uma delas for de coisa não suscetível de penhora – são as coisas impenhoráveis</p><p>como é o caso dos salários e o bem de família (Lei 8.009/90). Se fosse possível compensar dívida</p><p>de coisa impenhorável estar-se-ia admitindo o pagamento, por meio da alienação, de uma coisa que</p><p>a própria lei impede de alienar.</p><p>Renúncia à compensação (Art. 375, do CC):</p><p>A renúncia pode ser unilateral ou bilateral, também conhecida na doutrina como renúncia</p><p>convencional. A renúncia bilateral poderá ser feita a qualquer tempo, mesmo depois de operada a</p><p>compensação ipso jure, desde que não haja prejuízo para terceiros.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 125 de 146</p><p>É irrelevante para o nosso ordenamento jurídico permitir ou não a compensação se as</p><p>próprias partes assim o desejam. Dificuldade ocorrerá se esta compensação resultar em prejuízo</p><p>para terceiro.</p><p>Exemplo: quando um dos créditos vem garantido por hipoteca oferecido por terceiro. No</p><p>caso de compensação a dívida se extinguirá e com ela os seus acessórios, no caso, a hipoteca. Ora,</p><p>como o terceiro que ofereceu a hipoteca não pode ficar vinculado a compensação nesta forma é</p><p>vedada pela nossa lei.</p><p>A renúncia unilateral terá que ser prévia, senão o devedor que unilateralmente renunciasse</p><p>estaria sozinho ressuscitando ambas as dívidas. Deve ser comunicada ao credor quando do</p><p>estabelecimento da obrigação primitiva, e produz efeitos em relação aos terceiros que participaram</p><p>do ajuste mesmo dela tendo conhecimento.</p><p>A reciprocidade entre credor e devedor constitui um dos requisitos da compensação,</p><p>contudo, o Art. 371, segunda parte, admite uma exceção (Art. 371. O devedor somente pode</p><p>compensar com o credor o que este lhe dever; mas o fiador pode compensar sua dívida com a de</p><p>seu credor ao afiançado), assim o fiador sendo executado, poderá pleitear a compensação do valor</p><p>devido pelo credor ao devedor afiançado.</p><p>Exemplo: A é credor de B em R$ 10.000,00, e X é o fiador (obrigação 1), e na obrigação</p><p>2, B é credor de A em R$ 8.000,00. Desse modo, X (fiador) sendo cobrado pela obrigação 1 por</p><p>parte de A, poderá o fiador compensar o valor de R$ 8.000,00 que A deve para B na obrigação 2.</p><p>JURISPRUÊNCIA</p><p>APELAÇÃO CÍVEL. LOCAÇÃO. DESPESAS COM REPARAÇÃO DE DANOS DO</p><p>IMÓVEL. RESSARCIMENTO. Os danos materiais causados no imóvel pelo locatário, a quem se</p><p>presume ter recebido o bem em condições impecáveis, em face de ausência de provas em contrário,</p><p>devem ser reparados às custas do inquilino. Possível a compensação entre os débitos existentes</p><p>entre as partes, presentes os requisitos dos Arts. 368 e 369 do Novo Código Civil. (TJRS. 16</p><p>Câmara Cível).</p><p>CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS À EXECUÇÃO. COMPENSAÇÃO.</p><p>AUSÊNCIA DE LIQUIDEZ. IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO. É imprescindível para que se</p><p>opere a compensação a configuração do requisito da liquidez das dívidas, sob pena de inaplicação</p><p>do instituto. (TJMG).</p><p>14.7 DA CONFUSÃO</p><p>Conceito:</p><p>Derivado do latim confusio, de confundere, possui originalmente o sentido de reunião,</p><p>mistura, fusão. Na terminologia jurídica é usado no sentido de junção ou mistura. No Direito Civil,</p><p>confusão é a reunião, em uma única pessoa, das qualidades de credor e devedor numa mesma</p><p>relação obrigacional.</p><p>Reunindo em um só titular, os direitos e suas obrigações, a confusão é compreendida,</p><p>assim, como a junção, ligação e promove a extinção da obrigação e do direito. E isto porque, como</p><p>é claro, ninguém é obrigado a si mesmo.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 126 de 146</p><p>Tratando-se de confusão de dívidas, ou seja, de obrigações, é necessário que se opere uma</p><p>real fusão, por inteiro, das entidades opostas de devedor e credor, de modo a estabelecer a igualdade</p><p>de crédito e débito, ou de direito e obrigação, e assim anular a exigibilidade, que possa vir</p><p>exteriormente fundada no crédito ou no direito.</p><p>A confusão se dá mediante a igualdade que se estabelece em mãos de uma só pessoa,</p><p>extinguindo qualquer possibilidade de poder outra pessoa vir a exigir qualquer parcela do crédito ou</p><p>do direito. A identidade de posições tem que ser absoluta. Não há confusão se é o representante do</p><p>devedor que se torna credor.</p><p>Em relação à confusão de dívidas, ela não se confunde com o pagamento. A confusão não</p><p>é pagamento. Advém da passagem para as mãos de uma única só pessoa das qualidades de credor e</p><p>devedor, ocorrendo, na realidade, uma incompatibilidade lógica de persistência do vínculo.</p><p>Efeitos:</p><p>O principal efeito da confusão é a extinção da obrigação. Nesse aspecto há uma séria</p><p>divergência entre os autores, pois muitos afirmam que não há a extinção, mas tão somente uma</p><p>neutralização, uma vez que,</p><p>se vier a cessar a confusão, a obrigação se restabelece, com todos os</p><p>acessórios (Art. 384 do CC). Entretanto, a maioria dos autores entende que ocorre efetivamente a</p><p>extinção da obrigação, conforme determina o Art. 381, do CC.</p><p>Segundo Sílvio Rodrigues, em rigor a relação jurídica não se devia extinguir, mas tão só</p><p>neutralizar-se, pois a obrigação não foi cumprida nem se resolveu. Ela apenas deixou de ser exigida,</p><p>na prática, porque o credor não há de reclamá-la de si mesmo.</p><p>Já Sílvio de Salvo Venosa diz que atualmente não há como sustentar que a dívida não se</p><p>extinga, pois, o próprio código trata a confusão como meio de extinção da obrigação. A</p><p>possibilidade de a obrigação de restabelecer não inibe o efeito extintivo.</p><p>Espécies:</p><p>A confusão pode ser total ou parcial (Art. 382 do CC). Com relação às dívidas, permitir-</p><p>se-á que se evidencie uma confusão parcial, isto é somente relativa à parte do débito ou do crédito</p><p>que se igualou em mãos de uma só pessoa, pois que, referentemente a esta parte, em verdade, ela se</p><p>verificou, desde que fica livre de qualquer exigibilidade.</p><p>Exemplo: quando um dos herdeiros é também devedor do de cujus, e a parte que vai</p><p>herdar é insuficiente para quitar toda a dívida. Neste caso ocorrerá confusão parcial.</p><p>Ressalte-se que somente ocorrerá confusão quando ocorrer à partilha dos bens deixados.</p><p>Pode ser total a confusão quando esta diz respeito a dívida toda.</p><p>Fontes:</p><p>Em regra, a confusão deriva da sucessão, pois pode originar-se de uma transmissão</p><p>universal de patrimônio causa mortis, que é o mais comum.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 127 de 146</p><p>Não se deve confundir confusão com compensação. Na primeira ocorre a identidade de</p><p>pessoas, credor e devedor, com relação a um único débito. Na segunda, há a existência de dois</p><p>créditos que se eliminam.</p><p>A confusão e o interesse de terceiros:</p><p>Extinguindo-se a dívida, extintos também serão os acessórios, liberando, neste caso os</p><p>fiadores.</p><p>Requisitos:</p><p>Os requisitos para que ocorra a confusão são:</p><p>a) A reunião numa só pessoa das qualidades de credor e devedor.</p><p>b) Reunião dessas qualidades em relação a uma mesma obrigação.</p><p>c) Não haver separação de patrimônios. Exemplo: quando o diretor de uma empresa é</p><p>credor da pessoa jurídica. Nesse caso, há a separação de patrimônios, pois o diretor é pessoa natural</p><p>a empresa é pessoa jurídica. Assim, não há a confusão na mesma pessoa das qualidades de credor e</p><p>devedor.</p><p>A confusão e a solidariedade:</p><p>Havendo solidariedade entre os credores ou entre os devedores, se ocorrer a confusão na</p><p>pessoa de um deles a obrigação só se extingue até o valor da respectiva quota-parte no débito ou no</p><p>crédito. A obrigação subsiste quanto aos demais, mas naturalmente só pelo valor já descontado (Art.</p><p>383, do CC). Se houver codevedor insolvente, aquele que ficou liberado do pagamento do débito</p><p>em razão de ter ocorrido o instituto da confusão terá que ratear com os demais a cota-parte do</p><p>insolvente.</p><p>Obs.: Apesar de nada ter sido mencionado pelo Código Civil, a mesma regra é aplicável às</p><p>obrigações indivisíveis.</p><p>A cessação da confusão:</p><p>Cessando a confusão, a obrigação extinta revive com todos os seus acessórios (Art. 384, do</p><p>CC).</p><p>Ocorre quando o herdeiro é excluído da herança, quando por exemplo, por indignidade</p><p>(Art. 1.814, do CC).</p><p>Outra hipótese de cessação da confusão ocorre no fideicomisso (estipulação de última</p><p>vontade - testamentária), em virtude da qual o testador, constituindo uma pessoa como herdeiro ou</p><p>legatário, impõe-lhe a obrigação de, por sua morte ou sob certa condição, transmitir a outra pessoa,</p><p>por ele indicada, a herança ou o legado, quando o fiduciário era devedor do fideicomitente, há a</p><p>confusão no momento em que este falece, pois passando o patrimônio do falecido para as mãos do</p><p>fiduciário, este se enquadra nas qualidades de credor e devedor ao mesmo tempo. A dívida se</p><p>extingue.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 128 de 146</p><p>Entretanto, findo o fideicomisso, ocorre a transmissão do patrimônio do fiduciário para o</p><p>fideicomissário. Neste momento, o primeiro volta a adquirir a condição de devedor e o segundo a de</p><p>credor. A dívida que estava neutralizada ressuscita, readquirindo sua força obrigatória.</p><p>Dentro de tal conceito, o direito não se extingue pela confusão, apenas se neutraliza. O Art.</p><p>384, do CC, confirma isto ao determinar o restabelecimento da obrigação anterior, com todos os</p><p>seus acessórios em caso de cessação da confusão.</p><p>O restabelecimento do vínculo ocorre com o término da confusão ou porque a causa de que</p><p>procede é transitória, como caso do exemplo acima, ou porque adveio de relação jurídica ineficaz.</p><p>Essa segunda hipótese verifica-se no caso de anulação de testamento em que o herdeiro ou</p><p>legatário (legado – parte da herança deixada pelo testador a quem não era herdeiro) de um crédito é</p><p>o próprio devedor. No momento da abertura da sucessão a relação obrigatória se extingue, pois o</p><p>legatário é ao mesmo tempo credor e devedor de si mesmo. Entretanto, se porventura esse</p><p>testamento vier a ser anulado a sentença declaratória de anulação retroage à data do falecimento e o</p><p>crédito revive, acompanhado de todos os seus acessórios.</p><p>Dicionário do fideicomisso:</p><p>Fideicomitente – Aquele que dispõe de seus bens em favor do fiduciário, ficando expressa</p><p>em cláusula que em caso de morte deste segundo ou qualquer outra condição, após um certo</p><p>determinado tempo o patrimônio passará para as mãos de um terceiro.</p><p>Fiduciário – É a pessoa a quem o fideicomitente constitui como herdeiro ou legatário, com</p><p>a obrigação de restituir ou transmitir os bens da herança ou do legado, segundo cláusula disposta</p><p>pelo testador (fideicomitente), à pessoa por ele indicada no testamento, quando e como ali se</p><p>estipular.</p><p>Fideicomissário – É o terceiro, indicado pelo fideicomitente para receber os bens das</p><p>mãos do fiduciário, na forma indicada pelo fideicomitente.</p><p>14.8 DA REMISSÃO DE DÍVIDAS:</p><p>Conceito:</p><p>Remissão é o ato ou efeito de remitir, perdoar uma dívida. Não se confunde com remição,</p><p>que é ato ou efeito de remir, resgatar, que é instituto de direito processual.</p><p>Remissão, no Direito Civil, é o ato do credor que perdoa o devedor do pagamento da</p><p>dívida, podendo ser total ou parcial. É uma liberalidade do credor que consiste em dispensar o</p><p>devedor de pagar a dívida. Através da remissão o titular do direito, no caso o credor, fica</p><p>impossibilitado de exigir o cumprimento da obrigação.</p><p>Vários autores afirmam a natureza bilateral da remissão, uma vez que é importante a</p><p>anuência do devedor (ainda que tácita) de que aceita a remissão oferecida pelo credor, que pode</p><p>recusar a liberalidade, efetuando a consignação em pagamento.</p><p>Outros lhe afirmam a natureza unilateral, ou seja, independeria da aceitação do devedor,</p><p>entretanto o próprio código prevê no Art. 385 que a remissão deve ser aceita pelo devedor.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 129 de 146</p><p>Corresponde a uma redução de patrimônio do credor: logo lhe exige a capacidade genérica</p><p>e mais a de alienar.</p><p>Espécies: Total ou Parcial e Tácita ou Expressa:</p><p>Total ou Parcial:</p><p>Total: quando a remissão corresponder ao valor integral da dívida. Parcial: quando o</p><p>credor perdoar apenas parte da dívida. O credor não é obrigado a receber em parcelas o débito, mas</p><p>tem total liberdade para perdoar parte dela se assim o desejar.</p><p>Tácita ou Expressa:</p><p>Tácita: é a que consiste na entrega voluntária do título ao devedor, e só é cabível nas</p><p>hipóteses em que esse título da obrigação for instrumento particular (Art. 386, do CC.). A entrega</p><p>voluntária do documento pelo credor cria presunção de pagamento e prova a desoneração do</p><p>devedor, neste caso equivalendo à remissão tácita. Essa presunção não é absoluta, pois o ato pode</p><p>emanar de erro. Entretanto, feita a entrega do título, cabe ao credor provar que sua intenção não foi</p><p>de remitir a dívida.</p><p>Expressa é a que consiste em uma declaração formal e inequívoca do credor, no sentido de</p><p>que libera o devedor do pagamento. É imprescindível a expressa, quando o título da obrigação for</p><p>representado por instrumento público. Pode ser por ato inter vivos ou mortis causa (disposição</p><p>testamentária). Não se admite interpretação ampliativa. A intenção do credor deve ser clara e sua</p><p>interpretação restritiva.</p><p>Na remissão não há cumprimento da obrigação, a dívida apenas se extinguirá por ato de</p><p>mera liberalidade do credor.</p><p>A remissão e as garantias:</p><p>A entrega do objeto empenhado ao devedor faz presumir a renúncia do credor pignoratício</p><p>(aquele que tem seu crédito garantido por penhor) à garantia, mas mantém intacta a obrigação</p><p>principal (Art. 387, do CC.).</p><p>Isso porque com a entrega do objeto empenhado ao devedor a lei presume que há renúncia</p><p>apenas com relação à garantia, pois se quisesse perdoar a dívida ou devolveria o instrumento que a</p><p>constituiu ou o declararia expressamente.</p><p>Regra semelhante pode ser apresentada para qualquer espécie de contrato acessório: a</p><p>liberação do fiador extingue apenas a fiança, mantendo intacto o vínculo obrigacional com o</p><p>devedor principal.</p><p>A remissão e a solidariedade passiva:</p><p>Conforme estudado, a remissão concedida a um dos devedores solidários extingue a dívida</p><p>apenas com relação à quota do remitido (Art. 388, do CC.), e se o credor pretender cobrar um dos</p><p>outros devedores, terá que descontar a quota do que foi perdoado.</p><p>JURISPRUDÊNCIA</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 130 de 146</p><p>AÇÃO DE COBRANÇA. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE INTERNET. REMISSÃO DE</p><p>DÍVIDA. O ônus da prova da remissão da dívida incumbe à parte devedora pelo contrato, que a</p><p>alega. Sendo incontroversa a prestação do serviço, e não provada a remissão da dívida, justifica-se a</p><p>procedência da ação de cobrança e improcedência da apelação.</p><p>15. INADIMPLEMENTO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Conceito de inadimplemento: Consiste na falta da prestação devida ou a não satisfação</p><p>daquilo a que o devedor está obrigado na forma, lugar e prazo ajustado.</p><p>O inadimplemento refere-se propriamente ao contrato ou à obrigação não executada. O</p><p>inadimplemento da obrigação não libera o devedor do seu cumprimento.</p><p>Ao contrário, pode acarretar agravo da sua situação, uma vez que a lei prevê a cobrança de</p><p>juros e atualização monetária mais honorários de advogado.</p><p>Regra geral sobre o inadimplemento:</p><p>O Art. 389 do CC determinava que não cumprindo a obrigação, o devedor respondia por</p><p>perdas e danos. Essa era a redação do antigo Código. O atual incluiu aí além das perdas e danos</p><p>mais juros e atualização monetária, segundo índices oficiais regularmente estabelecidos, além dos</p><p>honorários advocatícios. Então, a consequência do inadimplemento da obrigação é que o devedor</p><p>deve reparar o prejuízo.</p><p>Deve ficar claro que se a prestação não for cumprida, e nem puder sê-lo de forma</p><p>proveitosa para o credor, apura-se qual dano foi causado pelo inadimplemento, impondo-se ao</p><p>inadimplente o dever de indenizar.</p><p>Distinção entre inadimplemento absoluto e inadimplemento relativo:</p><p>Inadimplemento absoluto – Ocorre quando a obrigação não foi cumprida total ou</p><p>parcialmente no tempo, lugar e forma convencionados e não mais poderá sê-lo, ou porque o</p><p>devedor não tem meios para fazê-lo ou porque o seu cumprimento fora do prazo não interessa mais</p><p>ao credor.</p><p>Inadimplemento relativo – Ocorre quando a obrigação ainda pode ser cumprida, mesmo</p><p>que a destempo, ou no lugar e pela forma não convencionada. O cumprimento da obrigação ainda é</p><p>útil para o credor. O devedor está em mora de cumpri-la. O que fará a diferença entre</p><p>inadimplemento absoluto e inadimplemento relativo é o critério da utilidade da prestação</p><p>para o credor.</p><p>Inexecução da obrigação de não fazer:</p><p>Se o devedor que se obrigar a não praticar determinado ato (obrigação negativa) e o faz</p><p>será considerado inadimplente a partir da data em que veio a executar o ato que deveria se abster.</p><p>Essa é a regra do Art. 390 do Código Civil.</p><p>Responsabilidade patrimonial:</p><p>Caso o devedor não cumpra a obrigação ajustada, o credor terá à sua disposição como</p><p>garantia do adimplemento o patrimônio do devedor. Mesmo que a obrigação tenha como objeto</p><p>uma prestação pessoal do devedor, a execução por inadimplemento pode atingir os seus bens (Art.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 131 de 146</p><p>391 do CC), conforme estudamos no início do semestre.</p><p>É o direito que o credor tem de atingir o patrimônio do devedor através da utilização da</p><p>máquina judiciária, buscando nos bens do inadimplente o quantum necessário à satisfação do</p><p>crédito e à composição do dano causado, na forma prevista pelo Art. 389 do Código.</p><p>Responsabilidade do devedor nos contratos gratuitos e onerosos:</p><p>Analisando o Art. 392, do CC, pode-se apurar que a inexecução da obrigação somente</p><p>conduzirá ao dever de ressarcir por parte do devedor se houve culpa deste pelo inadimplemento,</p><p>isso porque, se não houve culpa, o legislador entendeu e quis afastar do dever de reparar.</p><p>O devedor fica obrigado a restituir o valor da prestação mais os juros e atualização</p><p>monetária, mas fica desobrigado a reparar as possíveis perdas e danos.</p><p>Em se tratando de contrato benéfico (beneficiando economicamente uma das partes –</p><p>gratuito - sem contraprestação) responderá pelo inadimplemento culposo o contratante a quem o</p><p>contrato aproveitar, e responderá pelo inadimplemento doloso aquele a quem não favoreça (Art.</p><p>392, 1ª parte do CC).</p><p>Exemplo: contrato de comodato (empréstimo gratuito, de uso); o comodatário (aquele que</p><p>toma emprestado) responderá pelo ressarcimento dos danos que culposamente causar ao comodante</p><p>(aquele que empresta). Já o comodante, somente responderá pelas perdas e danos se tiver agido com</p><p>dolo (intenção), uma vez que, em regra, não tira nenhum proveito do contrato.</p><p>Se o contrato for oneroso cada uma das partes responderá por culpa, devendo indenizar o</p><p>contratante lesado, uma vez que ambos os contratantes têm deveres e obrigações a cumprir, salvo as</p><p>exceções legais (Art. 392, 2ª parte do CC).</p><p>Distinção entre caso fortuito e força maior: rever o assunto para reforçar a</p><p>aprendizagem</p><p>O Art. 393, do Código Civil, impõe que o devedor não responderá pelos prejuízos</p><p>resultantes de caso fortuito ou força maior, se expressamente não se houver por eles</p><p>responsabilizado. Confrontando os artigos acima citados deduz-se que a própria lei indica duas</p><p>excludentes de responsabilidade, onde tanto à ausência de culpa quanto o caso fortuito ou de força</p><p>maior excluem a responsabilidade do inadimplente.</p><p>Assim, não basta o devedor provar sua qualidade de pessoa que frequentemente é</p><p>cuidadosa para se eximir do dever de indenizar, mister se faz provar que no caso concreto tomou</p><p>todos os cuidados necessários e fez tudo que era possível para o cumprimento da obrigação na</p><p>forma ajustada.</p><p>No caso deste artigo, em sua segunda parte, diz que se de alguma forma o devedor</p><p>concorreu para que a prestação não se efetivasse ou se houver se comprometido contratualmente,</p><p>que mesmo em caso de fortuito ou força maior se responsabilizaria, fica ele obrigado a indenizar.</p><p>Caso fortuito / Força maior:</p><p>Da análise do parágrafo único, do Art. 393, do CC, entende-se que o legislador deu um</p><p>conceito único a essas duas expressões, sem a preocupação de sua distinção,</p><p>deixando essa</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 132 de 146</p><p>discussão para a doutrina.</p><p>Faz-se necessário verificar se houve nessas situações a ausência de culpa (rever o conceito</p><p>de culpa anteriormente estudado) e a inevitabilidade do evento.</p><p>Caso fortuito é no sentido exato de sua derivação (acaso, imprevisão, acidente), o caso</p><p>que não se poderia prever e se mostra superior as forças ou da vontade do homem para ser evitado.</p><p>Força maior é o fato que se prevê ou é previsível, mas que não pode se evitar, uma vez</p><p>que é mais forte que a vontade ou ação do homem.</p><p>Legalmente essas expressões são empregadas como equivalentes, e do mesmo modo a lei</p><p>civil os define como evento do fato necessário cujos efeitos não era possível evitar ou impedir.</p><p>Art. 393. O devedor não responde pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força</p><p>maior, se expressamente não se houver por eles responsabilizado.</p><p>Parágrafo único. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário,</p><p>cujos efeitos não era possível evitar ou impedir.</p><p>Daí, é que não se deve confundir o caso fortuito ou de força maior com os casos</p><p>impensados, de imprevidência, negligência, imprudência ou de imperícia, pois esses vieram pelas</p><p>circunstâncias que os determinaram. Eram evitáveis pela ação ou pela vontade do homem, e assim</p><p>sendo, obriga à reparação.</p><p>Sílvio Rodrigues diz que há caso fortuito quando a circunstância está ligada a sua pessoa</p><p>ou a sua empresa, como moléstia que a acometeu ou um defeito oculto numa máquina.</p><p>Já força maior é fato externo como os terremotos, as tempestades, as enchentes, as guerras,</p><p>os naufrágios ou quaisquer outros acontecimentos previsíveis ou não, mas inevitáveis. E para</p><p>completar o mesmo autor afirma que a força maior é mais excludente de culpabilidade do que o</p><p>caso fortuito.</p><p>DA MORA - Conceito de mora – Art. 394, do CC:</p><p>Ocorre a mora quando a obrigação não foi cumprida no tempo, no lugar ou na forma</p><p>ajustados, entretanto poderá ser cumprida e de forma proveitosa para o credor.</p><p>É o que se chama de cumprimento imperfeito da obrigação.</p><p>No sentido técnico-jurídico, mora é falta de execução ou cumprimento da obrigação</p><p>quando seria exigível, no lugar ou do modo avençados.</p><p>Para o Código Civil, a mora não é o simples retardamento no cumprimento (que é o mais</p><p>comum), mas sim o descumprimento fora do lugar e de forma diversa daquela ajustada.</p><p>A mora tem a função de imputar à pessoa que a provoca ou lhe deu causa a</p><p>responsabilidade pelos prejuízos que dela possam decorrer, seja do devedor em relação ao credor,</p><p>seja deste em relação do devedor, além das penas convencionadas, quando se trate de inexecução</p><p>dos contratos.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 133 de 146</p><p>Espécies: Do devedor (mora solvendi) / Do credor (mora accipiendi)</p><p>MORA DO DEVEDOR:</p><p>A mora do devedor (mora debitoris = mora debitória) é a que resulta da demora ou</p><p>retardamento no cumprimento ou execução da obrigação por fato ou omissão que lhe seja</p><p>imputável.</p><p>Vale lembrar que não só a demora no cumprimento leva o devedor a entrar em mora, pois</p><p>o não cumprimento no lugar e forma previamente ajustados igualmente o levam à mora, pois isso se</p><p>encontra consignado no Art. 394, do CC. Ocorre quando o devedor deixa de efetuar o pagamento na</p><p>forma, tempo e lugar devidos.</p><p>Essencial a culpa: o elemento culpa é elementar, pois o Art. 396, do CC diz que sem</p><p>culpa do devedor não há mora, quando estabelece que não havendo fato ou omissão imputável ao</p><p>devedor, este não incorrerá em mora. Daí é que se diz que a mora se distingue do retardamento.</p><p>Por isso a importância da compreensão entre culpa e caso fortuito ou força maior.</p><p>O retardamento é um dos elementos da mora, entretanto se ao retardar o cumprimento da</p><p>prestação não agiu com culpa, entende-se pela análise deste artigo que o devedor será exonerado da</p><p>mora, e a doutrina e a jurisprudência têm vários exemplos e casos concretos onde o devedor fica</p><p>liberado das consequências da mora em virtude de não se encontrar no comportamento do devedor</p><p>qualquer resquício de culpa.</p><p>Exemplo: é do herdeiro que não responde pela mora se não tinha conhecimento da dívida.</p><p>Elemento objetivo (retardamento) + elemento subjetivo (culpa).</p><p>A presunção de culpa deve estar presente sempre, entretanto esta presunção pode ser</p><p>afastada quando o devedor prova que não a teve, ou porque a culpa foi do credor ou porque o</p><p>retardamento ocorreu em função de caso fortuito ou força maior.</p><p>Consequências da mora do devedor – Art. 395 e 399, do CC:</p><p>O Art. 395 estabelece que o devedor responde pelos prejuízos a que a sua mora der causa,</p><p>assim, calculado o prejuízo há o dever de indenizar, pois somente após o devedor ser posto em mora</p><p>é que se anotam os efeitos dela decorrentes como os juros, atualização monetária, honorários de</p><p>advogado.</p><p>Duas consequências decorrem da mora do devedor:</p><p>a) Se, por causa da mora a prestação tornou-se inútil para o credor este poderá recusar o</p><p>seu cumprimento e exigir as perdas e danos (Art. 395, parágrafo único, do CC).</p><p>Aqui, o credor tem duas opções, pois ou aceita a prestação retardada acrescida dos</p><p>prejuízos acarretados pela mora ou prova que a prestação se tornou inútil em consequência da mora</p><p>e reclama todas as perdas e danos, porque aí ocorre o inadimplemento absoluto.</p><p>Exemplo: o vestido de noiva entregue após a data marcada do casamento. Neste caso a</p><p>encomenda tornou-se inútil. Deve-se considerar que não é o vestido que é inútil, no caso in</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 134 de 146</p><p>concreto, inútil é para o credor receber um vestido que seria utilizado em data anterior e contratado</p><p>exatamente para aquele propósito.</p><p>b) O Art. 399, do CC estabelece que se o devedor estava em mora responde pela</p><p>impossibilidade da prestação, mesmo que essa impossibilidade resulte de caso fortuito ou força</p><p>maior se estes ocorreram durante o atraso. Entretanto a segunda parte deste artigo diz que se a mora</p><p>ocorreu, mas prova a sua isenção de culpa e que mesmo que a coisa fosse entregue na data oportuna</p><p>a coisa se perderia, o devedor ficaria livre de responder pela mora.</p><p>Exemplo: na hipótese de uma enchente ter invadido os pastos do credor, de maneira que</p><p>afogaria o animal que o devedor estivesse obrigado a entregá-lo.</p><p>MORA DO CREDOR (mora credibitória) - Art. 394, do CC, 2ª parte:</p><p>A mora do credor (mora accipiendi) ocorre quando este deixa de ir ou se recusa a receber o</p><p>pagamento, sem justa causa.</p><p>Independe de culpa, tanto que basta a recusa diante da oferta do devedor que vem cumprir</p><p>a obrigação. O devedor tem que ofertar o pagamento na forma avençada e se encontrar em</p><p>condições de efetivá-lo, no instante da recusa.</p><p>Consequências da mora do credor – Art. 400, do CC:</p><p>Colocado o credor em mora, o artigo 400 do Código enumera os efeitos a que ele se</p><p>submete por seu ato sem justo motivo, são elas:</p><p>a) O devedor não responde pelos juros moratórios.</p><p>b) O devedor fica isento do encargo de conservação da coisa; no entanto, não pode agir</p><p>com dolo, pois se tiver intenção de causar o dano, responde pela perda.</p><p>Exemplo: a prestação a ser entregue era um animal, e propositalmente, vencida a prestação</p><p>o credor não buscou o animal, passa então a não o alimentar e este vem a morrer de fome. Neste</p><p>caso há dolo.</p><p>c) O credor fica obrigado a ressarcir as despesas empregadas na conservação da coisa. O</p><p>devedor não é obrigado a conservá-la, contudo se o faz tem direito ao reembolso das despesas.</p><p>Ressalte-se, que terá direito apenas às despesas empregadas na conservação,</p><p>e neste caso são as</p><p>benfeitorias necessárias.</p><p>d) Além das consequências acima o credor terá ainda que pagar preço mais alto, em caso</p><p>de variação.</p><p>Exemplo: se o credor se recusou a receber a mercadoria na data aprazada e o preço desta</p><p>aumentou o devedor pode pleitear o valor da variação.</p><p>Quando começa a mora (artigos 397 e 398, do CC):</p><p>É importante saber quando (momento) começa a mora.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 135 de 146</p><p>Para tanto é necessário saber se a prestação tem ou não prazo determinado para</p><p>cumprimento.</p><p>Sem prazo para cumprimento: se não foi marcada data para o pagamento o credor</p><p>poderá exigir o cumprimento da obrigação imediatamente. Mister se faz que o credor comunique ao</p><p>devedor que quer receber a prestação. A melhor forma para provar que se dirigiu ao devedor é</p><p>através da interpelação judicial (notificação). Assim, é a ela que o credor deverá recorrer para dar</p><p>ciência ao devedor.</p><p>Portanto, interpelação judicial é o meio hábil para prova de não-cumprimento das</p><p>obrigações. O interpelante, desejando prevenir responsabilidade, prove à conservação e ressalva de</p><p>seus direitos ou manifesta qualquer intenção de modo formal, faz por escrito a interpelação, em</p><p>petição dirigida ao juiz, onde requer a intimação de quem de direito. Trata-se de medida cautelar</p><p>específica, sendo que a mora do devedor inadimplente, não havendo prazo assinado, começa a partir</p><p>da intimação do inteiro teor da interpelação.</p><p>Mora “Ex persona” – Assim se diz da mora que é fixada pela interpelação (notificação)</p><p>judicial. Em regra, ocorre quando não há prazo designado para o cumprimento da obrigação e a</p><p>interpelação é o meio hábil, juridicamente, para que seja o devedor posto em mora, em virtude do</p><p>termo (prazo), que a interpelação lhe assina.</p><p>Dessa forma, a mora ex persona é a que se funda na interpelação judicial, quando, sendo as</p><p>obrigações pura e simples, têm o termo determinado pela interpelação. Assim, promovida a</p><p>interpelação judicial, dá-se a incursão do devedor em mora.</p><p>Com prazo para cumprimento: o simples fato de o devedor não cumprir a obrigação no</p><p>seu dia de vencimento está constituído em mora (em atraso culposo – inadimplemento com culpa).</p><p>Mora “Ex re”: é aquela em que o devedor é incurso em mora pela falta de cumprimento da</p><p>obrigação no dia de seu vencimento. Está constituído em mora pleno jure, sem que seja necessário</p><p>qualquer aprazamento, visto que nela tem o devedor dia sabido para cumprir a obrigação.</p><p>Nas obrigações negativas basta o devedor praticar o ato a que se obrigou a se abster que</p><p>estará automaticamente em mora (Art. 390 do CC):</p><p>Art. 390. Nas obrigações negativas o devedor é havido por inadimplente desde o dia</p><p>em que executou o ato de que se devia abster.</p><p>Quando a obrigação é positiva (dar e fazer), líquida (totalmente indicada), o devedor estará</p><p>em atraso (mora) no seu termo (prazo com evento futuro e certo – momento inicial e final</p><p>previamente determinados), por exemplo, um contrato parcelado em 3 vezes (30, 60 e 90) já se sabe</p><p>os dias de vencimento antecipadamente:</p><p>Art. 397. O inadimplemento da obrigação, positiva e líquida, no seu termo, constitui</p><p>de pleno direito em mora o devedor.</p><p>Quando a obrigação surgir de ato ilícito, por exemplo, num acidente de trânsito, o devedor</p><p>é considerado em mora desde o dia em que praticou o ilícito (Art. 398 do CC).</p><p>Art. 398. Nas obrigações provenientes de ato ilícito, considera-se o devedor em mora,</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 136 de 146</p><p>desde que o praticou.</p><p>Para fixar segue o quadro resumo:</p><p>MOMENTO INICIAL DA MORA (DO ATRASO CULPOSO)</p><p>SEM TERMO (PRAZO)</p><p>COM TERMO (PRAZO)</p><p>ATO ILÍCITO</p><p>MORA A PARTIR DA</p><p>INTERPELAÇÃO</p><p>(NOTIFICAÇÃO)</p><p>JUDICIAL: EX PERSONA</p><p>MORA APÓS O PRAZO</p><p>PREVIAMENTE</p><p>DETERMINADO: EX RE</p><p>DESDE O EXATO</p><p>MOMENTO QUE SE</p><p>PRATICOU O ILÍCITO</p><p>Purgação da mora (Art. 401, do CC):</p><p>Purgar a mora significa limpar, afastar as consequências da mora. Purgação da mora</p><p>entende-se a reparação ou emenda dela, em virtude do que se fica livre ou isento da falta e das</p><p>consequências que dela advêm. Por ela a mora se extingue.</p><p>A emenda ou purgação da mora é o comportamento espontâneo do contratante moroso</p><p>(credor ou devedor), através do qual ele se prontifica a reparar ou emendar a situação a que deu</p><p>causa, sujeitando-se aos efeitos dela decorrentes. Em regra geral, a purgação tem a eficácia de</p><p>liberar ou extinguir a obrigação, o encargo a responsabilidade que se atribuía a pessoa do devedor</p><p>ou do credor, conforme seja quem deu motivo à mora.</p><p>O artigo 401 do Código contempla as duas hipóteses nos seus incisos quando há a</p><p>purgação da mora:</p><p>Inciso I - O devedor purga a sua mora oferecendo ao credor a prestação mais a</p><p>importância dos prejuízos decorrentes até o dia da oferta. Esses prejuízos abrangem todas as perdas</p><p>experimentadas pelo credor, como juros legais, multa contratual.</p><p>A purgação da mora será impossível se a prestação, tornou-se inútil para o credor, porque</p><p>nesse caso, como já vimos, não há o que se falar em mora, mas sim em inadimplemento absoluto.</p><p>Até que momento pode ser purgada a mora do devedor?</p><p>A corrente dominante admite que a purgação da mora é possível mesmo que a ação já</p><p>esteja iniciada, podendo ser operada a qualquer tempo, desde que não cause danos à outra parte.</p><p>Esta situação é a mais comum, pois é costumeiro nos tribunais quando o devedor citado</p><p>para a ação oferece a prestação agravada dos juros, multa convencional e mais prejuízos, inclusive</p><p>as custas e honorários advocatícios. Neste caso, inútil seria o credor prosseguir no feito se o devedor</p><p>satisfez todos os prejuízos que o credor experimentou.</p><p>Inciso II - O credor purga a mora oferecendo-se para receber o pagamento da prestação e</p><p>sujeitando-se às consequências onerosas que porventura ocorreram em virtude da sua recusa. Desta</p><p>forma concorda em reembolsar o devedor das despesas empregada na conservação da coisa objeto</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 137 de 146</p><p>da prestação, bem como pagar a variação do preço.</p><p>Mora X inadimplemento total</p><p>Descumprimento relativo X descumprimento absoluto</p><p>O descumprimento da obrigação pode ser relativo ou absoluto. É relativo quando a</p><p>obrigação não foi cumprida no tempo, lugar e forma devida, mas poderá sê-lo e proveitosamente</p><p>para o credor. Neste caso ocorre a mora.</p><p>Quando a obrigação não foi cumprida e não poderá sê-lo proveitosamente para o credor</p><p>ocorre o inadimplemento absoluto. Há a mora quando a obrigação foi ou será cumprida com</p><p>imperfeição. No inadimplemento absoluto a obrigação não foi e nem poderá mais ser cumprida.</p><p>Semelhanças entre mora e inadimplemento total:</p><p>A semelhança entre os dois é nas duas situações o responsável responde pela reparação do</p><p>prejuízo. O devedor que não efetuar o pagamento ou o credor que não quiser receber na forma</p><p>ajustada responde pela reparação do prejuízo a que a sua mora der causa. O absolutamente</p><p>inadimplente igualmente é apenado pela sua conduta, obrigando-se a reparar as perdas e danos.</p><p>Diferenças entre mora e inadimplemento total:</p><p>Existe mora quando a obrigação, embora não cumprida, ainda pode sê-lo. O</p><p>inadimplemento absoluto é quando o descumprimento da obrigação se torna definitivo. Deve-se</p><p>entender que muitas vezes o devedor poderá honrar com a obrigação, entretanto este cumprimento</p><p>não interessa mais ao credor. Neste caso, ocorre o inadimplemento absoluto, pois a prestação não</p><p>terá mais nenhuma validade para o credor.</p><p>Exemplo: quando contrata um buffet para a realização de uma festa,</p><p>- representá-los judicial e</p><p>extrajudicialmente até os 16 (dezesseis) anos, nos atos da vida civil, e assisti-los, após essa idade,</p><p>nos atos em que forem partes, suprindo-lhes o consentimento;</p><p>O ato praticado pelo absolutamente incapaz sem representação é nulo: Art. 166. É nulo o</p><p>negócio jurídico quando: I - celebrado por pessoa absolutamente incapaz;</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 14 de 146</p><p>O ato realizado pelo relativamente incapaz sem assistência é anulável: Art. 171. Além dos</p><p>casos expressamente declarados na lei, é anulável o negócio jurídico: I - por incapacidade relativa</p><p>do agente;</p><p>Para não esquecer – incapacidade:</p><p>Absoluta (Art. 3º, CC) falta de representação → ato nulo, não produz efeitos.</p><p>Relativa (Art. 4º, CC) falta de assistência ato → anulável, produz efeitos até a</p><p>declaração de anulação.</p><p>Como todo ato negocial pressupõe uma declaração de vontade, a capacidade do agente é</p><p>indispensável à sua participação válida na seara jurídica. Para relembrar que a capacidade poderá</p><p>ser:</p><p>a) geral, ou seja, a de exercer direitos por si, logo o ato praticado pelo absolutamente</p><p>incapaz sem a devida representação será nulo (Art. 166, I, CC) e o realizado pelo relativamente</p><p>incapaz sem assistência será anulável (Art. 171, I, CC).</p><p>b) legitimação / específico, requerida para a validade de certos negócios em dadas</p><p>circunstâncias (exemplo: pessoa casada é plenamente capaz, embora não tenha capacidade para</p><p>vender imóvel sem autorização do outro (Art. 1.649, CC), exceto se o regime matrimonial de bens</p><p>for o de separação.</p><p>Espécies de Representantes (Arts. 115 – 120, CC):</p><p>a) Legais – a norma jurídica confere poderes para administrar bens alheios. Exemplos:</p><p>pais, tutores e curadores, em relação aos bens dos filhos, tutelados e curatelados, os síndicos em</p><p>representação ao condomínio.</p><p>b) Judiciais – nomeados pelo Juiz para exercer certo cargo em um determinado processo.</p><p>Exemplos: administrador judicial de uma falência, inventariante.</p><p>c) Convencionais – através de mandato, expresso ou tácito, verbal ou escrito. Exemplos: o</p><p>contrato de mandato (Art. 653, CC), procuração outorgada (fornecida) a um advogado para</p><p>patrocinar um processo judicial.</p><p>B) OBJETO LÍCITO, POSSÍVEL, DETERMINADO OU DETERMINÁVEL</p><p>O negócio jurídico válido deve ter em todas as partes que o constituírem, um conteúdo</p><p>legalmente permitido.</p><p>Além da capacidade das partes, para que o negócio jurídico se repute perfeito e válido,</p><p>deverá versar sobre um objeto lícito, conforme a lei, não sendo contrário aos bons costumes, à</p><p>ordem pública e à moral.</p><p>Exemplo: na locação de um imóvel para fins residenciais, este é o objeto do contrato.</p><p>Assim, eu não se pode desvirtuar o que foi pactuado e abrir naquele imóvel (que era para fins</p><p>residenciais), uma casa para exploração da prostituição (Código Penal: Art. 228. Induzir ou atrair</p><p>alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que</p><p>alguém a abandone / Art. 229. Manter, por conta própria ou de terceiros, estabelecimento em que</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 15 de 146</p><p>ocorra exploração sexual, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou</p><p>gerente).</p><p>Desta forma, se o objeto do contrato foi ilícito, nulo será o negócio jurídico, por exemplo,</p><p>na compra e venda de objeto roubado.</p><p>NÃO TORNAR AQUILO QUE É LÍCITO COMO SINÔNIMO DE LEI (SOMENTE</p><p>LEI PROPRIAMENTE DITA), E SIM LÍCITO AQUILO QUE ESTÁ EM</p><p>CONFORMIDADE COM O DIREITO, A MORAL E OS BONS COSTUMES.</p><p>Além disso, o objeto deve ser possível, realizável. Se o negócio implicar prestações</p><p>impossíveis, também será considerado nulo; a impossibilidade é física ou impossibilidade jurídica</p><p>que é similar à objeto ilícito porque contraria o ordenamento jurídico.</p><p>Exemplos: venda de herança de pessoa viva (impossível juridicamente ou ilícito - Art.</p><p>426, CC); ir à lua e voltar em 2 horas (impossibilidade física); compra e venda de um terreno em</p><p>marte (impossibilidade física).</p><p>Finalmente deve ser o mesmo determinado ou, ao menos, determinável, ou seja, deve ser</p><p>previamente conhecido e individualizado ou devem existir critérios que permitam sua futura</p><p>individualização (indicação de gênero e quantidade, ainda que não seja mencionada a qualidade).</p><p>IMPOSSIBILIDADE INICIAL (RELATIVA) - Art. 106, CC: A impossibilidade inicial</p><p>do objeto não invalida o negócio jurídico se for relativa, ou se cessar antes de realizada a condição a</p><p>que ele estiver subordinado.</p><p>Exemplos: contratação de uma empresa para construção de um muro durante 03 dias, no</p><p>segundo dia o pedreiro ficou doente, outro virá para conclusão; venda de um objeto, sem</p><p>inicialmente, ser o proprietário (dono), porém no momento da entrega do objeto, já havia adquirido</p><p>a propriedade dele.</p><p>“Falta de objeto lícito, possível, determinado ou determinável →</p><p>Negócio Jurídico Nulo”</p><p>C) CONSENTIMENTO – VONTADE LIVRE</p><p>A manifestação de vontade exerce papel importante no negócio jurídico, sendo um</p><p>elemento básico. Portanto, é necessário que esta vontade seja espontânea, livre de qualquer vício</p><p>(erro, dolo, lesão, coação moral, estado de perigo).</p><p>O consentimento pode ser expresso (se declarado por escrito ou verbalmente, mas de</p><p>maneira explícita) ou tácito (se resultar de um comportamento do agente que demonstre,</p><p>implicitamente, sua anuência, sua concordância com a situação), desde que o negócio, por sua</p><p>natureza ou por disposição legal, não exija forma expressa.</p><p>O Art. 110, CC, trata da Reserva mental:</p><p>Há reserva mental quando um dos contratantes reserva-se, secretamente, a intenção de</p><p>não cumprir o contrato. A reserva mental é combatida no Código Civil no seu artigo 110, onde</p><p>dispõe que "a manifestação de vontade subsiste ainda que o seu autor haja feito a reserva mental de</p><p>não querer o que manifestou, salvo se dela o destinatário tinha conhecimento".</p><p>http://pt.wikipedia.org/wiki/Código_Civil</p><p>http://pt.wikipedia.org/wiki/Vontade</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 16 de 146</p><p>Alguns doutrinadores a chamam de "Simulação Unilateral".</p><p>Exemplos:</p><p>- um autor declara que o produto da venda de seus livros será para fins filantrópicos, mas</p><p>faz isto unicamente para obter a simpatia e assim fazer com que a venda seja boa; não poderá depois</p><p>voltar atrás e não destinar o valor auferido para o fim anunciado, isto é, deverá dar a destinação</p><p>filantrópica;</p><p>- alguém vende imóvel supondo que a venda será anulada por vício de forma, por exemplo</p><p>a ausência de escritura pública; a venda do imóvel poderá até não estar concluída, mas a relação</p><p>obrigacional persistirá.</p><p>O silêncio pode importar em anuência, se as circunstâncias e os usos o autorizarem e não</p><p>for necessária a declaração de vontade expressa (Art. 111, CC). Ou seja, o silêncio somente terá</p><p>valor jurídico se a lei assim determinar.</p><p>Portanto, não é totalmente aceito o brocardo: “quem cala consente”. Mas em alguns casos</p><p>ele se aplica, como na hipótese da doação pura (Art. 539. O doador pode fixar prazo ao donatário,</p><p>para declarar se aceita ou não a liberalidade. Desde que o donatário, ciente do prazo, não faça,</p><p>dentro dele, a declaração, entender-se-á que aceitou, se a doação não for sujeita a encargo), onde o</p><p>silêncio do beneficiário é considerado como aceitação, concluindo o contrato.</p><p>Outro princípio básico relativo às declarações de vontade é de que se atenderá mais à</p><p>intenção nelas consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem (Art. 112, CC). Aqui está</p><p>presente o princípio da boa-fé (lealdade, honestidade, retidão, camaradagem, informação,</p><p>confiança).</p><p>Os negócios,</p><p>ora após a data da</p><p>realização desta não interessa mais ao credor que o buffet entregue os doces e salgados contratados.</p><p>Assim, só resta ao devedor reparar o prejuízo e arcar com as perdas e danos.</p><p>JURISPRUDÊNCIA</p><p>Súmula 43, STJ: incide correção monetária sobre a dívida por ato ilícito a partir da data do efetivo</p><p>prejuízo.</p><p>A Súmula 362, STJ: a correção monetária do valor da indenização do dano moral incide desde a</p><p>data do arbitramento (data da sentença). Observe o texto abaixo:</p><p>Súmula 362 determina o "dies a quo" da correção monetária dos danos morais.</p><p>A súmula 362, originada pelo projeto 775, relatado pelo ministro Fernando Gonçalves, tem o</p><p>seguinte texto: "A correção monetária do valor da indenização do dano moral incide desde a data do</p><p>arbitramento".</p><p>Entre os precedentes do novo resumo de entendimentos do Tribunal estão os recursos</p><p>especiais 657.026, 743.075 e o 974.965. No julgamento do 675.026, o relator, ministro Teori Albino</p><p>Zavascki, aponta que o reajuste em indenizações por dano moral deve ser da data em que o valor foi</p><p>definido na sentença e não na data em que a ação foi proposta. Para o ministro a última hipótese</p><p>seria corrigir o que já havia sido corrigido anteriormente.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 138 de 146</p><p>A nova súmula faz uma exceção à regra da súmula 43, que define que nas indenizações de</p><p>modo geral a correção da indenização deve contar da data do efeito danoso. Apenas no caso</p><p>indenização por dano moral, a correção se dá a partir da data do arbitramento.</p><p>NOTAS DA REDAÇAO</p><p>Reiteradas foram as discussões acerca do dies a quo da correção monetária decorrente de</p><p>condenação da parte ao pagamento de indenização por danos morais, ou seja, se a correção iniciaria</p><p>na data do evento danoso, da citação ou da prolação da sentença.</p><p>De início, em razão de o debate versar acerca da correção monetária dos danos morais, os</p><p>ministros entenderam que o enunciado da súmula n.º 43, do próprio STJ, não seria aplicável, pois</p><p>dispõe sobre hipótese de ato ilícito, definido pela legislação civil, litteris:</p><p>"Enunciado nº. 43 - Incide correção monetária sobre divida por ato ilícito a partir da data</p><p>do efetivo prejuízo."</p><p>Desta feita, consolidou-se o entendimento segundo o qual, nas indenizações por dano</p><p>moral, o termo inicial para a incidência da atualização monetária é a data em que foi arbitrado seu</p><p>valor, "tendo-se em vista que, no momento da fixação do quantum indenizatório, o magistrado leva</p><p>em consideração a expressão atual de valor da moeda" (trecho do voto do Ministro Luiz Fux no</p><p>REsp 743075/RJ ; 1ª Turma, DJ de 17.08.06).</p><p>Os ministros assim se posicionaram, pois, atualizar a indenização da época do fato ou da</p><p>citação seria o equivalente a "corrigir o que já está atualizado" (trecho da ementa do acórdão do</p><p>EDRESP 194625/SP; 3ª Turma, Min. Ari Pargendler, DJ de 05.08.02)</p><p>Nesse sentido, são os seguintes julgados: RESP 20.369/RJ , 3ª Turma, Min. Nilson Naves,</p><p>DJ de 23.11.92; RESP 376.900/SP , 3ª Turma, Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJ de</p><p>17.06.02; RESP 309.725/MA , 4ª Turma, Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, DJ de 14.10.02;</p><p>EDRESP 425.445/RJ , 4ª Turma, Min. Fernando Gonçalves, DJ de 03.11.2003; EDRESP</p><p>504144/SP , 3ª Turma, Min. Nancy Andrighi DJ de 25.02.2004; RESP 611.723 , 3ª Turma, Min.</p><p>Castro Filho, DJ de 24.05.04; RESP 566.714/RS , 4ª Turma, Min. Aldir Passarinho Júnior, DJ de</p><p>09.08.04.</p><p>DAS PERDAS E DANOS (Artigos 402 a 405, do CC):</p><p>Conceito: Na terminologia técnica do Direito, perdas e danos exprime a expressão que</p><p>evidencia prejuízos a que uma pessoa tenha causado a outrem, por ato próprio ou alheio, mas de sua</p><p>responsabilidade. No sentido jurídico, perdas e danos é o prejuízo efetivo e atual que promove o</p><p>desfalque ao patrimônio (dano emergente) mais ainda os lucros ou frutos que não possam ser</p><p>percebidos (lucros cessantes) – Art. (402 do CC). No Direito Romano - Três máxima: viver</p><p>honestamente, dá a cada um o que é seu, não causar dano ao outro.</p><p>Dano emergente corresponderá ao prejuízo efetivo ou o que realmente se perdeu, ou por</p><p>ato praticado ou por fato ocorrido. Cumpre ao credor provar o dano que experimentou e o fará</p><p>demonstrando que do inadimplemento resultou para ele determinada perda, evidenciando o</p><p>montante. Para tanto, terá direito a receber juros, custas e honorários advocatícios, sem prejuízo da</p><p>multa.</p><p>O parágrafo único do Art. 404 dispõe que se ficar provado que os juros da mora não foram</p><p>suficientes para cobrir o prejuízo o juiz poderá conceder indenização suplementar. Os danos</p><p>emergentes formam a estipulação dos prejuízos, que se titulam genericamente de perdas e danos.</p><p>Lucros cessantes (ou danos negativos) designarão os lucros que cessaram ou o que deixou</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/busca?s=jurisprudencia&q=titulo:REsp%20743075/RJ</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/busca?s=jurisprudencia&q=titulo:RESP%2020.369/RJ</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/busca?s=jurisprudencia&q=titulo:RESP%20376.900/SP</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/busca?s=jurisprudencia&q=titulo:RESP%20309.725/MA</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/busca?s=jurisprudencia&q=titulo:RESP%20611.723</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/busca?s=jurisprudencia&q=titulo:RESP%20566.714/RS</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 139 de 146</p><p>de ganhar ou lucrar, ou seja, além do que efetivamente perdeu, cabe ao credor o direito de ser pago</p><p>daquilo que razoavelmente deixou de ganhar. São os lucros de que fomos privados e que deveriam</p><p>vir ao nosso patrimônio e, não o foi em virtude de impedimento decorrente de fato ou ato, não</p><p>acontecido ou praticado por nossa vontade.</p><p>São, assim, os ganhos que eram certos ou próprios ao nosso direito, que foram frustrados</p><p>por ato alheio ou fato de outrem. Assim, não há lucro cessante quando efetivamente não ocorra</p><p>paralisação dos lucros, por que os cessantes eram lucros certos.</p><p>Duas restrições devem ser consideradas na fixação dos lucros cessantes:</p><p>a) Só se deve cogitar daqueles lucros resultantes direta e imediatamente do</p><p>inadimplemento (Art. 403 do CC), porque se não foram diretamente dele advindos não são</p><p>indenizáveis.</p><p>b) Só se computam os lucros que foram ou podiam ser previstos na data da obrigação, pois</p><p>o inadimplente não pode responder por possíveis ganhos excepcionais que seu contendor teria se</p><p>absolutamente imprevisíveis.</p><p>A ideia que se encontra na lei é a de impor ao culpado pelo inadimplemento o dever de</p><p>indenizar, reparar o prejuízo porventura sofrido, de modo que, em regra, o prejudicado não deve</p><p>experimentar lucro na indenização. A intenção é compor prejuízo, e por esta razão, se não houve</p><p>prejuízo não há o que se falar em reparação.</p><p>Contudo, ocorrendo dano, a indenização será a mais completa possível e deve incluir tudo</p><p>o que o credor efetivamente perdeu, bem como o que deixou de ganhar, e por este motivo é que a</p><p>indenização deve computar o dano emergente e o lucro cessante.</p><p>Observação: a diferença básica entre lucro cessante e dano emergente é que o primeiro é o</p><p>que deveria vir e o segundo diz respeito ao prejuízo efetivo, ou seja, uma diminuição efetiva ao</p><p>patrimônio.</p><p>Momento da fluência dos juros - Art. 405, do CC: o prazo (dies a quo) para a contagem</p><p>dos juros (moratórios) começa a contar a partir da data da citação inicial do processo.</p><p>JUROS LEGAIS:</p><p>Conceito:</p><p>Juro é o preço do uso do capital. Juros legais são os que a lei na disposição de reconhecer</p><p>igualmente o direito de cada um estabelece para certas e determinadas situações. Assim, os juros</p><p>podem ser exigidos em virtude de imposição ou determinação legal, embora não convencionados ou</p><p>contratados, implícitos.</p><p>Espécies:</p><p>Os juros podem ser compensatórios e moratórios. São compensatórios quando os juros</p><p>de uma forma geral, podem conter alguma cláusula duvidosa ou algum ponto</p><p>controvertido, sendo necessária uma interpretação. Pelo Código esta interpretação deve procurar se</p><p>situar mais na vontade real dos contratantes, procurando as consequências e os efeitos desejados por</p><p>eles, indagando sua real intenção, do que no sentido literal do negócio (que seria o exame</p><p>gramatical, de forma “fria” de um texto do contrato).</p><p>Além disso, os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé objetiva e os</p><p>usos do lugar de sua celebração (Art. 113, CC). Trata-se de referência à boa fé objetiva que</p><p>representa um dever de conduta das partes, de acordo com a lealdade, honestidade, confiança,</p><p>conforme acima já apontado.</p><p>Finalmente o Art. 114, do CC, estabelece que os negócios jurídicos benéficos (Exemplo:</p><p>uma doação pura e simples) e a renúncia (dispensar algo) interpretam-se estritamente, isto é, o Juiz</p><p>não poderá dar a estes negócios uma interpretação mais ampla. A hermenêutica do Juiz deve ficar</p><p>restrita ao que foi estipulado pelas partes. O Juiz não pode substituir as partes com sua vontade.</p><p>Um exemplo clássico disso é a fiança nos contratos de locação: sua natureza é gratuita,</p><p>portanto, é considerado um negócio jurídico benéfico; por tal motivo, se houver alguma dúvida</p><p>quanto a sua abrangência, esta deve ser resolvida fazendo-se uma interpretação restritiva, ou seja,</p><p>em favor daquele que prestou a fiança (o fiador), não se ampliando as obrigações do mesmo.</p><p>Conceito contrato de fiança: pelo contrato de fiança, uma pessoa garante satisfazer ao</p><p>credor uma obrigação assumida pelo devedor, caso este não a cumpra (Art. 818, CC).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 17 de 146</p><p>3.4 ELEMENTOS ESSENCIAIS ESPECIAIS:</p><p>Veremos agora o elemento essencial especial, que é a forma prescrita ou não defesa em lei.</p><p>Cuidado com esta expressão!</p><p>Forma prescrita é a determinada pela lei; forma não defesa em lei é a forma não proibida</p><p>pela lei. Forma é o meio pelo qual se externa a manifestação de vontade nos negócios jurídicos; é o</p><p>conjunto de formalidades, solenidades, para que o ato tenha eficácia jurídica.</p><p>Forma prescrita ou não defesa em lei</p><p>Em regra, a vontade pode se manifestar livremente, não havendo uma forma especial.</p><p>Pode-se recorrer à palavra falada, escrita, ao gesto e até mesmo ao simples silêncio.</p><p>O Art. 107 CC determina que: “A validade da declaração de vontade não dependerá de</p><p>forma especial, senão quando a lei expressamente a exigir”.</p><p>Todavia, em casos determinados, para maior segurança das relações jurídicas, a lei</p><p>prescreve a observância de forma especial. Forma especial (ou solene) é o conjunto de solenidades</p><p>(procedimentos) que a lei estabelece como requisito para a validade de determinados atos jurídicos.</p><p>Tem por finalidade garantir a autenticidade do ato, facilitando sua prova e assegurando a livre</p><p>manifestação de vontade das partes.</p><p>Nulo é o negócio jurídico quando não se revestir da forma prescrita em lei ou quando</p><p>preterir alguma solenidade que a lei considere essencial para sua validade (Art. 166, V, do CC).</p><p>Ante o que foi aqui falado sobre a forma dos negócios jurídicos em geral, concluímos que</p><p>eles podem ter:</p><p>1 – Forma Livre (ou geral) – para os contratos consensuais (também chamados de não</p><p>formais) pode ser usado qualquer meio de exteriorização da vontade (desde que não prevista forma</p><p>especial): palavra escrita ou falada, gestos e até mesmo o silêncio.</p><p>Exemplos: admite-se a forma verbal para a doação de bens móveis de pequeno valor (Art.</p><p>541, CC); mandato (Art. 656, CC); mútuo.</p><p>2 – Forma Especial (ou solene) – para os contratos formais ou solenes conjunto de</p><p>formalidades que a lei estabelece como requisito para a validade de certos atos.</p><p>Citamos alguns exemplos (entre outros) de negócios jurídicos que exigem uma</p><p>formalidade especial:</p><p>● casamento - para se casar é imprescindível todo um conjunto de formalidades, um rito</p><p>totalmente formal e adequado, inclusive quanto ao regime de bens escolhido.</p><p>● pactos antenupciais - deve ser escritura pública.</p><p>● herança - por meio de um testamento, com inúmeras formalidades essenciais.</p><p>● adoções - registro de pessoas naturais.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 18 de 146</p><p>● compra e venda e doações de imóvel - formalizado por uma escritura pública e</p><p>posterior registro.</p><p>● bem de família - escritura pública.</p><p>● testamento - deve ser feito por escrito, rito adequado e número de testemunhas</p><p>determinado.</p><p>● hipoteca - registro de imóveis criação de fundação escritura pública ou testamento.</p><p>● reconhecimento de filho - no próprio termo do nascimento, por escritura pública ou</p><p>particular, por testamento ou manifestação expressa e direta perante o Juiz.</p><p>Com efeito, quando a lei não determina, as partes estão livres quanto à forma</p><p>(exteriorização) do ato; no entanto, as partes podem ajustar uma determinada forma se a lei não</p><p>exigir, conforme admite o Art. 109, CC.</p><p>A previsão contratual de forma especial - a emissão da vontade é dotada de poder criador;</p><p>assim sendo, se houver cláusula negocial estipulando a invalidade do negócio jurídico, se ele não se</p><p>fizer por meio de escritura pública, esta passará a ser de sua substância. Logo, tal declaração de</p><p>vontade somente terá eficácia jurídica se o ato negocial revestir a forma prescrita contratualmente.</p><p>3.5 ELEMENTOS ACIDENTAIS – PLANO DA EFICÁCIA (Arts. 121 – 137, CC):</p><p>Os elementos acidentais do negócio jurídico são as cláusulas que se lhe acrescentam com o</p><p>objetivo de modificar uma ou algumas de suas consequências naturais, ou seja, na geração dos</p><p>efeitos jurídicos que lhe sejam próprios.</p><p>São elementos ditos acidentais porque o ato negocial pode estar perfeito sem eles; sua</p><p>presença é dispensável para a existência do negócio. Desta forma são declarações acessórias de</p><p>vontade. Um contrato pode ter ou não esses elementos.</p><p>São elementos acidentais:</p><p>● Condição</p><p>● Termo</p><p>● Modo ou Encargo</p><p>CONDIÇÃO</p><p>Condição (Art. 121, CC) é a cláusula que subordina o efeito do ato jurídico a evento</p><p>futuro e incerto. Exemplo: eu lhe darei o meu carro, se eu ganhar na loteria.</p><p>Antes de se realizar a condição, o ato é ineficaz (não produz efeitos). Os requisitos para a</p><p>condição são a futuridade e a incerteza. O titular de direito eventual (seja a condição suspensiva ou</p><p>resolutiva) pode exercer os atos destinados à conservação do direito (exemplo: requerer inventário,</p><p>pedir caução etc.).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 19 de 146</p><p>A condição pode ser classificada em:</p><p>1 – QUANTO AO MODO DE ATUAÇÃO:</p><p>a) Suspensiva (Art. 125, CC) - é a condição cuja eficácia (efeito) do ato fica suspensa até a</p><p>realização do evento futuro e incerto; protela-se, temporariamente, a eficácia do negócio.</p><p>Exemplo: eu lhe darei uma joia se você ganhar a corrida; enquanto você não ganhar, eu</p><p>não preciso entregar o bem, pois a condição suspende a doação.</p><p>Assim o efeito (eficácia) do negócio jurídico que é o recebimento da joia, fica suspenso</p><p>até a realização da condição (ganhar a corrida – futuro e incerto); por consequente, com a</p><p>efetiva realização da condição, ou seja, ganhou a corrida, negócio jurídico válido e com</p><p>produção dos efeitos: recebeu a joia.</p><p>Outro exemplo: eu lhe darei um carro, se você passar no concurso / exame de ordem.</p><p>- Enquanto não verificada (realizada, concretizada) a condição, ela é chamada de pendente</p><p>(suspensa).</p><p>- A ocorrência (ou o cumprimento) da condição é chamada de implemento.</p><p>- Quando a condição não é realizada, chamamos de frustração.</p><p>IMPORTANTE E NÃO ESQUECER:</p><p>“Pendente a condição, não há direito adquirido, mas uma expectativa de direito ou</p><p>um direito eventual”.</p><p>b) Resolutiva (Art. 127, CC) é a condição que subordina à ineficácia do negócio jurídico a</p><p>um evento futuro e incerto. É a condição cujo implemento extingue os efeitos do ato (resolver =</p><p>extinguir).</p><p>Exemplo: deixar de te dar uma mesada (certa quantia) caso repetir de ano. Enquanto a</p><p>condição não se realizar, vigorará o negócio jurídico. Verificada a condição, extingue-se o direito.</p><p>Exemplo: emprestar uma casa para outra pessoa residir enquanto for solteiro. Isto quer</p><p>dizer que no dia em que você se casar (condição) perderá o direito de usar a casa (efeito); portanto,</p><p>resolve-se, extingue-se o seu direito, ou enquanto cursar direito no Uninorte.</p><p>2 – QUANTO À PARTICIPAÇÃO DOS SUJEITOS:</p><p>a) Causal - se depender de força maior ou um acontecimento fortuito; ao acaso.</p><p>Exemplo: dar um anel de brilhantes se chover amanhã – chover amanhã é um</p><p>acontecimento futuro e imprevisível.</p><p>b) Potestativa - se decorrer da vontade de uma das partes. Subdivide-se em:</p><p>- Puramente potestativa - quando decorre de um capricho ou arbítrio do proponente;</p><p>decorre da vontade absoluta de uma das partes, segundo um critério exclusivo de sua conveniência.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 20 de 146</p><p>Exemplo: dar um carro se eu quiser. São proibidas pelo nosso Direito – Art. 122, CC.</p><p>- Meramente (ou simplesmente) potestativa - depende da prática de algum ato do</p><p>contraente e de um fator externo.</p><p>Exemplo: dar uma joia se você cantar bem; ou passar num concurso; pagar quando</p><p>revender a coisa.</p><p>Um dos contratantes tem poder sobre a ocorrência do evento, mas não um poder absoluto,</p><p>pois depende, ainda, de fatores ligados ao outro contratante. Por este motivo a cláusula é válida (ao</p><p>contrário da puramente potestativa em que decorre da vontade exclusiva, do puro arbítrio de uma</p><p>das partes).</p><p>Observação – pode haver uma combinação entre todas as espécies de condição. Exemplo:</p><p>a condição pode ser suspensiva e causal ao mesmo tempo, ou suspensiva e potestativa. Também</p><p>resolutiva e causal e resolutiva e potestativa.</p><p>3 – QUANTO À POSSIBILIDADE:</p><p>Física impossível - é a que não se pode efetivar por ser contrária à natureza (exemplos:</p><p>doação de uma casa condicionada à ingestão de 1000 litros de água; dar um carro se você filtrar</p><p>toda a água do mar ou retirar o sal; obrigação de trazer uma montanha para a praça principal de uma</p><p>cidade) ou à ordem legal (exemplo: dar um carro se você renunciar à pensão alimentícia,</p><p>recebimento de um benefício sob a condição de renúncia ao trabalho).</p><p>Importante:</p><p>a) Invalidam os Negócios Jurídicos: as condições físicas e juridicamente impossíveis,</p><p>quando suspensivas (Art. 123, I, CC), as condições ilícitas, ou de fazer coisa ilícita (Art. 123, II,</p><p>CC), bem como as condições incompreensíveis ou contraditórias (Art. 123, III, CC), por exemplo,</p><p>dou meu único carro para João se ele obtiver nota 8,0 em Direito Civil, a casa, se você nunca a</p><p>ocupar.</p><p>b) O CC/2020 considera como condições inexistentes as condições impossíveis quando</p><p>forem resolutivas e as de não fazer coisa impossível (Art. 124, CC).</p><p>4 – QUANTO À LICITUDE:</p><p>a) Lícita - quando não for contrária à lei, ou seja, ela é permitida ou tolerada por nosso</p><p>Direito. Exemplo: quando a filha voltar do exterior, o pai doará um carro.</p><p>b) Ilícita - quando for condenada pela norma jurídica, pela ordem pública, pela moral e</p><p>pelos bons costumes. Exemplo: dar uma joia se você deixar viver em adultério; ou, se você mudar</p><p>de religião; ou se você não se casar.</p><p>Condições não aceitas pelo nosso Direito:</p><p>■ não se casar - não pode haver essa condição;</p><p>■ exílio ou morada perpétua em determinado lugar - porém nada impede a condição de</p><p>que vá morar em outro lugar, como no interior do Estado.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 21 de 146</p><p>■ religião - a condição para mudança de religião atenta contra a liberdade de consciência</p><p>assegurada pela Constituição.</p><p>■ profissão - não pode haver condição para que não se exerça determinada profissão,</p><p>porém pode haver para que se siga certa profissão.</p><p>■ aceitação ou renúncia (dispensa) de herança – este ato deve ser puro e simples, sem</p><p>condições.</p><p>■ reconhecimento de filhos, emancipação – também não pode haver qualquer condição</p><p>para se reconhecer um filho (exemplo: alguém reconhece um filho, desde que não receba pensão</p><p>alimentícia ou renuncie o direito de eventual herança).</p><p>■ aquelas vinculadas aos direitos da personalidade – liberdade, dignidade, honra, vida,</p><p>respeito, igualdade.</p><p>TERMO</p><p>Termo é o dia em que começa e/ou se extingue a eficácia (efeito) do negócio jurídico.</p><p>Subordinando-se a um evento futuro e certo (embora a data deste evento possa ser determinada ou</p><p>indeterminada).</p><p>O termo pode ser classificado em:</p><p>◙ Inicial ou Suspensivo (dies a quo) - se fixar o momento em que a eficácia do negócio</p><p>deve iniciar, retardando o exercício do direito (exemplo: a locação terá início dentro de dois meses).</p><p>O termo inicial não suspende a aquisição do direito, que surge imediatamente, mas só se</p><p>torna exercitável com a superveniência do termo. O Termo suspende o exercício (efeito), mas não a</p><p>aquisição do direito. O exercício do direito fica suspenso até o instante em que o acontecimento</p><p>futuro e certo, previsto, ocorrer.</p><p>◙ Final ou Resolutivo (dies ad quem) - se determinar a data da cessação dos efeitos do</p><p>negócio, extinguindo as obrigações (exemplo: a locação se findará no prazo de 05 anos). Antes de</p><p>chegar o dia estipulado para seu vencimento, o negócio, subordinado a um termo final vigorará</p><p>plenamente e seu titular poderá exercer todos os direitos dele provenientes.</p><p>◙ Certo - quando estabelece uma data determinada do calendário (exemplos: a locação terá</p><p>início no dia 1º de janeiro do próximo ano, pagamento daqui a 30 dias, quando completar a</p><p>maioridade).</p><p>◙ Incerto - se se referir a um acontecimento futuro, mas com uma data incerta,</p><p>indeterminada, mas que ocorrerá, e não há uma condição. Exemplo: dar um imóvel quando fulano</p><p>falecer; o evento é futuro e certo (pois a morte é sempre certa), porém a data é incerta; um imóvel</p><p>para ser de outro após a morte de seu proprietário.</p><p>Não confundir termo com prazo:</p><p>- Prazo é o lapso de tempo compreendido entre a declaração de vontade e a superveniência</p><p>do termo em que começa o exercício do direito ou extingue o direito até então vigente. Ou seja,</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 22 de 146</p><p>prazo é o intervalo entre o termo inicial e o termo final. É contado por unidade de tempo (hora, dia,</p><p>mês e ano), excluindo-se o dia do começo (dies a quo) e incluindo-se o dia do vencimento (dies ad</p><p>quem), salvo disposição legal ou convencional em contrário.</p><p>Regras (Art. 132 e 133, CC):</p><p>► Se o vencimento se der em feriado ou domingo, prorroga-se até o primeiro dia útil</p><p>subsequente.</p><p>► Meado considera-se, em qualquer mês, o seu 15º dia.</p><p>► O prazo estipulado por mês (30 dias) ou por ano (12 meses), expira-se no dia de igual</p><p>número de início ou no imediato, se faltar essa correspondência.</p><p>► O prazo fixado por horas, conta-se de minuto a minuto.</p><p>► Nos testamentos presumem-se os prazos em favor do herdeiro. Nos contratos,</p><p>presumem-se em favor do devedor (salvo se do teor do instrumento ou das circunstâncias resultar</p><p>que se estabeleceu em benefício do credor, ou de ambos os contratantes).</p><p>Também pode haver uma combinação entre todas as espécies de Termo. Exemplo: o termo</p><p>pode ser inicial e certo; inicial e incerto; final e certo; final e incerto.</p><p>DOS DEFEITOS DO</p><p>NEGÓCIO JURÍDICO (Arts. 138 a 165, CC):</p><p>CONCEITO - Defeito é todo vício que macula (atinge) o ato jurídico, tornando-o passível</p><p>de anulação ou nulidade.</p><p>O defeito pode ser grave (vicia o ato de forma definitiva) ou leve (pode ser</p><p>remediado/convalidado pelo interessado). O legislador seleciona o que entende por anulação (leve)</p><p>ou nulidade (grave).</p><p>Pode-se dizer que um ato é válido, quanto ao consentimento: se “Maria faz algo que queria</p><p>fazer e isto não prejudica ninguém”. Às vezes ela pode ter feito algo que não era o que ela queria</p><p>fazer (e quantas vezes isso ocorre); quer comprar algo e se engana... ou é enganada.</p><p>Outras vezes, fez afeta a terceiros, prejudicando essas pessoas, que não foram partes do</p><p>negócio principal, mas que foram lesados com a sua conduta. É importante notar que em qualquer</p><p>uma destas duas situações (fez algo que não queria ou fez algo que ela queria, mas prejudicou</p><p>interesses de terceiros) surgem os defeitos relativos à vontade.</p><p>Assim sendo, se existe uma vontade, porém sem a correspondência com aquela que o</p><p>agente quer exteriorizar, sem ser uma vontade LIVRE, o Negócio Jurídico será viciado ou</p><p>deturpado, tornando-se anulável (defeito leve), se no prazo decadencial de 04 anos for movida ação</p><p>de anulação, do contrário, sem a anulação, produz os efeitos jurídicos.</p><p>São os chamados vícios de consentimento (erro, dolo, coação, estado de perigo e lesão).</p><p>Nestes casos há uma desavença entre a vontade real e a vontade declarada.</p><p>Existem outras hipóteses em que se tem uma vontade funcionando normalmente, havendo</p><p>até correspondência entre a vontade interna e a manifestação, mas, no entanto, ela se desvia da lei</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 23 de 146</p><p>ou da boa-fé. O que foi colocado no contrato infringe a lei e prejudica terceiros. Também são</p><p>passíveis de apresentarem defeitos. São os chamados vícios sociais (simulação e fraude contra</p><p>credores).</p><p>Conforme será visto, o vício o ato pode ser nulo, anulável ou até mesmo válido com vício.</p><p>Resumindo:</p><p>VÍCIOS (DEFEITOS)</p><p>VÍCIOS DE CONSENTIMENTO</p><p>VÍCIOS SOCIAIS</p><p>- ERRO OU IGNORÂNCIA</p><p>- DOLO</p><p>- COAÇÃO</p><p>- ESTADO DE PERIGO</p><p>- LESÃO</p><p>- FRAUDE CONTRA CREDORES</p><p>- SIMULAÇÃO</p><p>AUSÊNCIA DE VONTADE → NEGÓCIO JURÍDICO NULO</p><p>3.6 VÍCIOS DE CONSENTIMENTO:</p><p>Os vícios de consentimento estão vinculados a elementos psicológicos oriundo da</p><p>vontade do sujeito na realização de negócios jurídicos, que causam defeito na manifestação de</p><p>vontade.</p><p>3.6.1 - ERRO OU IGNORÂNCIA (Arts. 138 a 144, CC)</p><p>Este é o primeiro defeito relativo ao consentimento. O aluno que conseguir entender o seu</p><p>alcance não sentirá nenhuma dificuldade de entendimento dos demais defeitos. Por isso, muita</p><p>atenção!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!</p><p>Erro e Ignorância são sinônimos? O Código Civil equipara o erro à ignorância quanto aos</p><p>efeitos; ou seja, o Código não distingue um instituto do outro e afirma que as suas consequências</p><p>são idênticas no campo do Direito, porém a doutrina faz distinção entre o Erro e a Ignorância.</p><p>Conceito de erro - é a falsa noção que se tem de um objeto ou de uma pessoa. Ocorre</p><p>quando o agente pratica o ato baseando-se em falso juízo ou engano.</p><p>O Art. 138, CC, assim dispõe: são anuláveis os negócios jurídicos, quando as declarações</p><p>de vontade emanarem de erro substancial que poderia ser percebido por pessoa de diligência</p><p>normal, em face das circunstâncias do negócio.</p><p>Exemplo: Ana pensou que era uma blusa, mas é outro (camisa).</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 24 de 146</p><p>Já a ignorância é o completo desconhecimento acerca do objeto (blusa/camisa) ou da</p><p>pessoa. Assim, às vezes usamos a expressão “erro”, mas queremos nos referir ao erro e à</p><p>ignorância.</p><p>Importante notar que o ato somente será anulável se o erro ou a ignorância for essencial,</p><p>conforme veremos. Na verdade, o erro é um registro falso. A pessoa se engana sozinha. Ninguém a</p><p>induz a erro. Pode ser cometido por conta própria. O erro (ou a ignorância) pode ser classificado</p><p>em:</p><p>A) ESSENCIAL OU SUBSTANCIAL (também chamado de escusável ou real) - é o que</p><p>se refere à natureza do próprio ato; recai sobre circunstâncias e aspectos principais, relevantes do</p><p>negócio. O erro essencial pode recair sobre:</p><p>1) o próprio negócio – o erro recai sobre a modalidade de contrato que foi feito. Maria</p><p>pensou em fazer um contrato, mas fez outro. Exemplos: Maria emprestou uma blusa para Ana, mas</p><p>ela entende que houve uma doação do objeto; Luiz quer vender um livro, mas acaba doando; quer</p><p>alugar (o aluguel é oneroso), mas termina fazendo um comodato (que é um empréstimo gratuito) de</p><p>um imóvel.</p><p>2) o objeto principal da declaração de vontade – o erro recai sobre alguma qualidade</p><p>essencial do objeto do contrato. Exemplos: Lucas pensa estar comprando uma pulseira de ouro, mas</p><p>na verdade trata-se de uma liga de cobre, compra um cavalo de carga pensando se tratar de “puro-</p><p>sangue”, pensa comprar um quadro de um artista famoso, mas é uma cópia. Notem, mais uma vez,</p><p>que ninguém enganou. Ele errou sozinho (quando alguém engana se trata de outro defeito, como</p><p>veremos).</p><p>3) a qualidade essencial da pessoa – houve um erro em relação à pessoa. Neste caso o</p><p>erro pode incidir sobre o:</p><p>Casamento: Art. 1.557 (CC). Considera-se erro essencial sobre a pessoa do outro cônjuge:</p><p>I - o que diz respeito à sua identidade, sua honra e boa fama, sendo esse erro tal que o seu</p><p>conhecimento ulterior torne insuportável a vida em comum ao cônjuge enganado;</p><p>II - a ignorância de crime, anterior ao casamento, que, por sua natureza, torne insuportável</p><p>a vida conjugal;</p><p>III - a ignorância, anterior ao casamento, de defeito físico irremediável que não caracterize</p><p>deficiência ou de moléstia grave e transmissível, por contágio ou por herança, capaz de pôr em risco</p><p>a saúde do outro cônjuge ou de sua descendência;</p><p>São critérios subjetivos (depende da análise da pessoa) por isso é anulável.</p><p>Em ambas as situações o casamento pode ser anulado por “vício essencial sobre a pessoa”.</p><p>Testamento:</p><p>Exemplo – deixar uma joia para X, que salvou minha vida. Descubro, posteriormente, que</p><p>foi Z e não X quem salvou minha vida. Se eu soubesse que foi Z quem salvou minha vida, eu não</p><p>teria dado aquela joia a X. Eu a teria dado a quem realmente salvou minha vida, ou seja, Z.</p><p>Neste exemplo o erro é chamado de “erro quanto ao fim colimado ou por falsa causa”. Ele</p><p>somente vicia a declaração de vontade, quando expresso como razão determinante.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 25 de 146</p><p>4) erro de direito – O erro de direito é o engano quanto à existência ou interpretação da</p><p>norma jurídica. Como regra ele não admite escusa, não pode ser alegada. No entanto, admite-se o</p><p>erro de direito (e, por consequência, o negócio jurídico pode ser anulado) se o ato não implicar em</p><p>recusa à aplicação da lei e for o motivo único ou principal do Negócio Jurídico (Art. 139, III, CC).</p><p>Isto é, não pode o ato recair sobre a norma cogente (impositiva, de ordem pública), mas tão-</p><p>somente sobre normas dispositivas (ou seja, referentes a direitos que a pessoa poderia dispor).</p><p>Lembrem-se: “Ninguém pode se escusar de cumprir a lei alegando</p><p>que não a conhece” - Princípio da Obrigatoriedade</p><p>Explicando um pouco melhor. O erro, como regra, recai sobre uma situação de fato (como</p><p>vimos, um contrato propriamente dito, ou o objeto deste contrato, ou uma pessoa). É o erro de fato</p><p>sobre uma situação concreta.</p><p>Já o erro de direito é aquele que diz respeito à existência (ou não) de uma norma jurídica.</p><p>A pessoa supõe que uma lei não existe ou que não esteja mais em vigor.</p><p>Exemplo: firmar um</p><p>contrato de locação com base na lei antiga, pensando que ela ainda está vigorando.</p><p>O tema é polêmico exatamente porque não se pode alegar desconhecimento da norma.</p><p>Num caso concreto o Juiz fará análise e o seu convencimento será fundamental para indicar ou não</p><p>o erro de direito, pois tem previsão legal no Art. 139, III, CC.</p><p>Importante - Só o erro substancial, essencial, escusável, real,</p><p>anula o negócio jurídico.</p><p>O erro deve ser de tal forma que, caso a verdade fosse conhecida, o ato não seria realizado.</p><p>Mas o contratante que se achou em erro e promove a invalidade do contrato pode ser condenado a</p><p>ressarcir os danos que causar à outra parte por não ter procedido com a diligência necessária ao</p><p>prestar o seu consentimento.</p><p>Segundo Ricardo Fiúza, o erro é uma noção inexata sobre um objeto, que influência a</p><p>formação da vontade do declarante, que a emitirá de maneira diversa da que a manifestaria se dele</p><p>tivesse conhecimento exato. Para viciar a vontade e anular o ato negocial, deste deverá ser</p><p>substancial, escusável e real.</p><p>Escusável, no sentido de que há de ter por fundamento uma razão plausível ou ser de tal</p><p>monta que qualquer pessoa de atenção ordinária seja capaz de cometê-lo em face da circunstância</p><p>do negócio.</p><p>Real, por importar efetivo dano para o interessado. Não há o erro imaginário (sem dano</p><p>real, efetivo).</p><p>O erro substancial é erro de fato por recair sobre circunstância de fato, ou seja, sobre as</p><p>qualidades essenciais da pessoa ou da coisa. Poderá abranger o erro de direito (CC, Art. 139, III),</p><p>relativo à existência de uma norma jurídica dispositiva, desde que afete a manifestação da vontade,</p><p>caso em que viciará o consentimento.</p><p>B) ACIDENTAL - é o concernente às qualidades secundárias ou acessórias da pessoa ou</p><p>do objeto. Não vicia o ato; este continua válido, produzindo efeitos, por não incidir sobre a</p><p>declaração de vontade.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 26 de 146</p><p>Exemplo: comprar um carro de número de série diferente; compro uma casa pensando que</p><p>tem quatro janelas, mas só tem três; dor um relógio a uma pessoa pensando ser ela solteira, mas é</p><p>casada etc.</p><p>Também o chamado erro de cálculo (inexatidão material) não é causa de anulação do</p><p>negócio, mas de simples retificação (Art. 143, CC). Pode incidir sobre o peso, a medida, a</p><p>quantidade, o valor do bem etc. É uma espécie de erro acidental, não incidindo sobre a declaração</p><p>de vontade; não vicia o consentimento.</p><p>Exemplo: comprar 12 camisas, sendo que o valor de cada uma delas é de R$ 45,00; logo</p><p>deveria pagar R$ 540,00, mas acabei pagando somente R$ 450,00. É evidente que houve um erro na</p><p>elaboração aritmética dos dados do negócio, pois as partes sabiam do valor do negócio, errando</p><p>apenas no momento da realização do cálculo final.</p><p>3.6.2 - DOLO (Arts. 145 a 150, CC)</p><p>Conceito: é o artifício empregado por uma pessoa para enganar a outra. Segundo Clóvis</p><p>Beviláqua é o emprego de um artifício ou expediente astucioso para induzir alguém a prática de um</p><p>ato que prejudica e aproveita o autor do dolo ou a terceiro.</p><p>Classificação:</p><p>Dolus Malus (dolo mau) - consiste em manobras astuciosas para enganar alguém e lhe</p><p>causar prejuízo. Por isso é anulável. É desse dolo que trata o CC/2002.</p><p>O dolo mau pressupõe:</p><p>a) prejuízo para o autor do ato.</p><p>b) benefício para o autor do dolo ou uma terceira pessoa.</p><p>Dolus Bonus (dolo bom) - é um dolo tolerável, lícito, não induz anulabilidade, que</p><p>consiste em reticências, exageros nas boas qualidades da mercadoria ou dissimulações de defeitos.</p><p>É o artifício que não tem a finalidade de prejudicar ninguém. Não é anulável, desde que não venha a</p><p>enganar o consumidor, mediante propaganda abusiva. Exemplo: Maria, mãe de Luiz, incentiva-o a</p><p>tomar um remédio que não deseja ingerir e que lhe é necessário, o vendedor exagera nas qualidades</p><p>do produto (o melhor produto do mundo).</p><p>Não há normas absolutas que possibilitem diferenciar essas duas espécies de dolo, cabendo</p><p>ao órgão judicante, em cada caso concreto, levar em contar a inexperiência e o nível de informação</p><p>da vítima.</p><p>Dolo Principal, essencial ou substancial (dolus causam) é o que recai sobre aspectos</p><p>essenciais do negócio; aquele que dá causa ao negócio jurídico, sem o qual ele não se teria</p><p>concluído, acarretando, então, a anulabilidade do negócio jurídico. É preciso que haja uma relação</p><p>de causa e efeito entre a indução do erro e a prática do negócio</p><p>Dolo Acidental (dolus incidens) - leva a vítima a realizar o negócio, porém em condições</p><p>mais onerosas ou menos vantajosas, não afetando sua declaração de vontade. O negócio teria sido</p><p>praticado de qualquer forma, embora de outra maneira. Não anula o negócio, não é considerado um</p><p>vício de consentimento, apenas obriga a satisfação de perdas e danos ou uma redução da prestação</p><p>pactuada.</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 27 de 146</p><p>O dolo ainda pode ser:</p><p>Positivo (ou comissivo) - resulta de uma ação dolosa; são os artifícios positivos. Exemplo:</p><p>falsas afirmações sobre as qualidades de uma coisa: pode comprar este “cachorrinho” que eu</p><p>garanto... ele vai ficar bem pequeno... ele é da espécie “toy” ... passados alguns meses o</p><p>“cachorrinho” se torna um “cachorrão”.</p><p>Negativo (ou omissivo) - resulta de uma omissão dolosa, ocultação de algo que a parte</p><p>contratante deveria saber no momento da realização do contrato. Exemplo: seguro de vida omitindo</p><p>doença grave e vem a falecer dias depois; venda de um cachorrinho já doente que vem a morrer</p><p>logo depois da venda. Desta forma o silêncio pode ser considerado como um mecanismo de atuação</p><p>dolosa.</p><p>Observações Importantes:</p><p>Dolo x Erro - o erro deriva de um equívoco da própria vítima, sem que a outra parte tenha</p><p>concorrido para isso; já o dolo é intencionalmente provocado na vítima pelo autor do dolo. Em</p><p>outras palavras: no erro a pessoa erra sozinha; no dolo alguém enganou, isto é, a pessoa foi induzida</p><p>a cometer este erro pela conduta da outra parte.</p><p>Dolo recíproco - quando ambas as partes agem com dolo, configurando-se torpeza</p><p>bilateral, ocorre a neutralização do delito. Isto é, no caso de dolo recíproco não haverá a anulação</p><p>para nenhuma das partes. O ato é considerado válido.</p><p>3.6.3 – COAÇÃO (Arts. 151 a 155, CC)</p><p>Conceito - é a pressão física ou psicológica (moral) exercida sobre alguém para obrigá-lo a</p><p>praticar determinado ato. Na coação o agente sofre intimidação, oferecendo-se à vítima duas</p><p>alternativas: emitir a declaração de vontade que não pretendia originalmente ou não o fazer o ato e</p><p>sofrer as consequências decorrentes da concretização de uma ameaça ou de uma chantagem.</p><p>Na coação a vítima também é chamada de paciente.</p><p>Espécies:</p><p>Coação Física (vis absoluta) - é o constrangimento corporal que retira toda capacidade de</p><p>querer, implicando ausência total de consentimento, acarretando nulidade do ato (exemplo: amarrar</p><p>a vítima, segurar sua mão e fazê-la assinar contrato).</p><p>Coação Moral (vis compulsiva) - atua sobre a vontade, sem aniquilar-lhe o consentimento,</p><p>pois conserva ela uma relativa liberdade, podendo optar entre a realização do negócio que lhe é</p><p>exigido e o dano com que é ameaçada. (Exemplos: se Maria não assinar o contrato, Marcos vai</p><p>quebrar sua casa; empréstimo de uma casa diante da possibilidade de mostrar uma foto sua em uma</p><p>situação constrangedora).</p><p>Efeitos</p><p>Coação Física – não há consentimento algum - ausência de vontade “ato nulo”.</p><p>Coação Moral – há um consentimento viciado “ato anulável”,</p><p>DISCIPLINA: DIREITO DAS OBRIGAÇÕES</p><p>Professor Dr. Eriverton Resende</p><p>Primeiro Semestre/2024.1</p><p>Página 28 de 146</p><p>Requisitos para anulação da coação moral:</p><p>- Causa determinante do</p>