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O Fardo da Curadoria

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Olu Oguibe
6 concinnitas
Formas de pensar, Museo de Arte
Latinoamericano de Buenos Aires –
MALBA, Buenos Aires, 2004 (Vista geral
da exposição)
Foto: Ricardo Basbaum
7
O fardo da curadoria
ano 5, nœmero 6, julho 2004
O fardo da curadoria1
Olu Oguibe*
O artigo aborda o surgimento da figura do curador e seu
papel como agente cultural no contexto da história da
arte, desde meados do século XX até o cenário atual.
Tratando dos antecedentes históricos que envolvem a
questão da curadoria, o autor classifica e analisa possíveis
configurações para o trabalho do curador dentro do cenário
da arte contemporânea, suscitando contribuições e
obstáculos do impulso curatorial no processo de definição
do gosto e na intermediação entre os artistas, obras e
sociedade.
Curadoria, arte contemporânea, art establishment
Na segunda metade do século XX surgiu uma nova figura, na posição de
agente cultural influente, que acabaria por roubar de modo eficaz a posição
suprema da crítica e do historiador da arte no discurso da arte contemporânea.
A figura era a do curador, diretor ou comissário de exposições. Entre os anos
70 e 90, à medida que os acadêmicos e críticos se tornaram menos influentes
nas decisões sobre o destino da carreira do artista – especialmente na cultura
metropolitana –, o curador começou cada vez mais a definir a natureza e a
direção do gosto na arte contemporânea – tanto assim que, na virada para o
século XXI, o curador passa então a representar a figura mais temida e talvez
a mais odiada da arte contemporânea.
Antes do período mencionado, o curador era principalmente um
agente provinciano com uma referência estrutural l imitada,
etnocêntrica, e também excêntrica, sustentada pela autoridade da
qualif icação e especialização acadêmica. O curador de arte
contemporânea era um historiador da arte ou alguém com uma
qualificação em arte, história da arte ou estética, que na trajetória
de seu treinamento e carreira se interessou especialmente por um
aspecto do período ao qual se dedicou, destinando seu tempo ao
estudo do trabalho produzido de uma forma ou técnica específica,
tal como pintura, desenho ou gravura, e, geralmente, tinha uma
especialização em determinada área geográfica. Esse conhecimento
específico também condenou o curador ao vínculo e dependência
institucionais, além dos quais o único recurso possível era um emprego
na academia. Ao final do século XX, entretanto, a autoridade do
curador de arte contemporânea mudou sua base da qualificação
acadêmica e especialização erudita para habilidades empresariais.
* Olu Oguibe é artista, crítico e curador.
É professor associado de Arte e História da Arte
da University of Connecticut. Realizou projetos
de curadoria para importantes museus e galerias,
entre as quais a Tate Gallery, Londres e o Museo
de la Ciudad, Cidade do México. Seu trabalho
tem sido exibido ao redor do mundo, em
exposições individuais e coletivas, incluindo as
Bienais de Johannesburg, Havana e Busan. É
atualmente curador da seção “Americas” para a
Bienal de Luanda, em 2005. Seu mais recente
livro publicado é The Culture Game (University
of Minnesota Press, 2004).
Revisão Técnica de Ricardo Basbaum.
1 Rascunho de um ensaio apresentado no
simpósio internacional sobre arte
contemporânea, na Cidade do México, em 25
de janeiro de 2002. Gostaria de agradecer a Ery
Camara, Marta Palau, Guillermo Santamarina,
Miguel Angel Rios, Teresa Serrano e Sitac, que
em épocas diversas e com habilidades
diferentes tornaram possíveis minha visita e o
trabalho com pessoas no México.
Publicado com permissão do autor. (NE)
Olu Oguibe
8 concinnitas
Essas habilidades incluem desde um conhecimento mais amplo, mas
também superficial, da área de interesse – apesar de ainda dentro de
limites geográficos – até o domínio das idiossincrasias atuais do
jogo da cultura global. Hoje, o curador de arte contemporânea possui
um diploma em ciências sociais, é capaz de manter uma conversação
sobre diversos tópicos além da vida e idiossincrasias de um único
artista morto, goza da companhia de um amplo círculo de indivíduos
que trabalham em mais do que apenas nas artes visuais e facilmente
reivindica um lugar entre os mais visíveis “destaques da sociedade”
de sua geração. O curador da arte contemporânea é uma parte sólida
do circuito de moda Hugo Boss.
A profissão de curador na arte contemporânea foi diversificada e ampliada
para fora da estrita, e possivelmente obrigatória, associação institucional que
a caracterizou nas décadas anteriores. Novos espaços e áreas de prática
surgiram, incluindo, por exemplo, aqueles que hoje são ocupados de uma
forma mais significativa pelo curador independente ou viajante,2 o qual é
mais livremente conectado a galeria, museu ou coleção, podendo ainda agenciar
projetos de mercado ou consultoria para essas instituições, além de perseguir
projetos fora da esfera institucional. Isso significa que o curador agora pode
existir e atuar sem a reputação e o estigma da instituição, dependendo,
contudo, de instituições a fim de concretizar seus projetos.
É também possível hoje observar o curador em um número variado de
configurações ou papéis, cada qual com diferentes atitudes em relação ao
empreendimento da curadoria, estratégias variáveis de compromisso com a
arte contemporânea e diversas implicações para com o destino e direção da
arte e da prática artística, e das amplas estruturas e manifestações da cultura
contemporânea. Vamos analisar agora alguns desses aspectos.
A primeira e mais tradicional dessas configurações talvez seja a do curador
como burocrata, que se ajusta bem ao retrato convencional do curador
institucional já mencionado. Como autoridade e funcionário institucional, o
curador burocrata é fiel a dois fatores principais: primeiro, à instituição
empregadora; segundo, à arte, a qual define a área de especialidade e devoção.
Alguns argumentariam que existe um terceiro fator de lealdade: nomeadamente,
o público. Mas isso é discutível, já que o interesse institucional abrange e
ofusca essa preocupação, pois vê o público composto por patronos ou clientes
e, portanto, assume a responsabilidade por sua definição nos termos
corporativos apropriados. A fidelidade do curador ao público é, portanto,
predeterminada pela definição institucional de público espectador.3 Em sua
essência, o curador burocrata tem suas obrigações básicas determinadas por
exigências institucionais: ir ao encontro dos interesses do museu, galeria ou
coleção; localizar a melhor, mais promissora ou quase sempre mais popular
2 No original, “independent or roving curator”.
(NRT)
3 No original, “viewership”. (NRT)
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obra de arte para aquisição pela instituição; montar o mais popular ou o mais
bem sucedido display para a instituição e, relacionado a este último ponto,
especialmente hoje, atrair o maior público para o museu, galeria ou coleção e
tê-lo “formando filas ao redor do quarteirão” – para citar um funcionário do
Brooklyn Museum em Nova York. Em segundo plano em relação a tudo isso,
está a lealdade pessoal do curador à obra de arte, que pode tomar a forma de
uma defesa quase clandestina em que o curador burocrata luta para assegurar
que a atenção e os recursos das instituições sejam aplicados em trabalhos e
em artistas que são de seu interesse. Com efeito, quanto maior o poder que o
curador burocrata exerce dentro da instituição, maiores serão o interesse e o
compromisso da instituição para com aqueles trabalhos e artistas que o curador
apóia; e quanto mais poderosa for a instituição, é claro, maiores serão as
possibilidades de que tais trabalhos e tais artistas se tornem mais visíveis,
mais próximos da legitimação e mesmo de sua canonização. Além disso, o
fato de haver pouquíssimos curadores nessa posição de influência considerável
significa que o círculo de artistas com possibilidade de acesso a sua promoção
é particularmente pequeno, o que explica, de modo significativo,
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