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Goodwin (2010) cap 4 - Wundt e a

Capítulo sobre Wundt e a psicologia alemã: contextualiza o surgimento da psicologia experimental no século XIX, discute a formação universitária (Wissenschaft), a psicofísica de Weber e Fechner, a criação do laboratório de Wundt em Leipzig e contribuições de Ebbinghaus, G. E. e Oswald Külpe.

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<p>CAPÍTULO 4 WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA o livro que aqui apresento ao público é uma tentativa de demarcar um novo do- mínio da ciência. Wilhelm Wundt, 1874 VISÃO GERAL E OBJETIVOS DO CAPÍTULO Os Capítulos 2 e 3 descrevem o contexto em que a psicologia moderna surgiu no século XIX. Os filósofos, interessados nas mesmas questões fun- damentais sobre a mente e o comportamento humanos que ainda hoje ocupam os psicólogos, começaram a especular acerca da necessidade de analisar essas questões cientificamente. Ao menos um filósofo do século XIX, o britânico John Stuart Mill, chegou a propor o desenvolvimento de uma psicologia científica. Enquanto isso, os médicos e fisiólogos euro- peus avançaram muito no conhecimento da fisiologia do sistema nervo- so e, em particular, do cérebro. Este capítulo examina como essa fisiolo- gia experimental aliou-se ao questionamento filosófico para criar uma nova psicologia experimental na Alemanha no fim do século XIX. ca- pítulo começa com uma breve discussão de alguns dos aspectos da for- mação germânica que atraíram alunos norte-americanos e, em seguida, continua com uma análise de como a psicofísica de Gustav Fechner for- neceu um conjunto de métodos padronizados para o estudo da mente. A criação da "nova psicologia" e seu primeiro laboratório, fundado por Wi- lhelm Wundt, de Leipzig, ocupam o foco da parte intermediária do capí- tulo, que se encerra com a abordagem de outros três importantes psicó- logos alemães: Hermann Ebbinghaus, G. E. e Oswald Külpe. Depois da conclusão deste capítulo, você deve ser capaz de: Descrever como a filosofia da educação na Alemanha propiciou o de- senvolvimento das ciências, inclusive a psicologia Descrever os primeiros avanços da psicofísica com a obra de Weber Descrever os métodos que Fechner criou para a psicofísica e o modo como seu trabalho se relacionava à postura filosófica do materialismo Explicar por que Wundt, e não Fechner, é considerado o fundador da psicologia moderna Descrever como Wundt via a sua "nova psicologia", distinguindo entre seus dois tipos de abordagem da disciplina Descrever os tipos de pesquisas geralmente conduzidas no laboratório de Wundt em Leipzig Descrever a lógica do experimento da complicação e explicar por que ele foi tão valorizado na época</p><p>114 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA Comparar a descrição tradicional de Wundt e seu trabalho com revi- mais recentes e explicar por que houve discrepâncias Descrever os métodos criados por Ebbinghaus para o estudo da me- mória, suas conclusões e a importância de sua pesquisa Descrever as contribuições de G. E. à incipiente psicologia ex- perimental e comparar sua abordagem da memória à de Ebbinghaus Descrever as contribuições feitas por Oswald e seus alunos de Würzburg, especialmente sua explicação do conceito de introspecção A FORMAÇÃO NA ALEMANHA desenvolvimento de uma abordagem nova e mais científica da psicologia. A partir de Os estudantes norte-americanos sempre vi- meados do século, as universidades ram as universidades europeias como um a começar pela de Berlim, cultivaram uma meio de aprofundar sua formação. Mesmo filosofia da educação característica, conhe- hoje em dia, um semestre no exterior é uma cida como Wissenschaft.* Tratava-se de uma experiência valorizada. No sécu- abordagem que ressaltava a pesquisa lo XIX, a Alemanha era um local especial- mica e a liberdade no ensino, permitindo mente atrativo para os jovens acadêmicos; aos professores dedicar-se a seus interesses estima-se que entre 1820 e 1920 pelo me- e trabalhar sem medo de censura adminis- nos nove mil alunos norte-americanos ma- trativa ou política. Os alunos tinham a li- tricularam-se em alguma universidade ale- berdade de ir de uma universidade para ou- mã (Sahakian, 1975), geralmente para tra e, para receber um diploma, precisavam, estudar medicina ou alguma das ciências. antes de mais nada, ser aprovados em exa- No fim desse século, eles iam para lá a fim mes especiais e defender uma tese, e não de estudar psicologia. simplesmente concluir um determinado Uma das razões da popularidade das uni- currículo. versidades era a simples quantidade. Para os professores que viriam a criar a Entre o Congresso de Viena em 1815 e a nova psicologia muitos dos quais unificação promovida por Bismarck em você conhecerá neste capítulo, a conjuntu- 1871, a Alemanha não existia como "país", ra não poderia ser mais oportuna. o suces- mas era uma federação mais ou menos or- so dos fisiólogos (Capítulo 3) reforçou a ganizada de 38 "principados" autônomos da Wissenschaft na pesquisa, contri- (por exemplo, Bavária, Hanover, Saxônia) buindo diretamente para o crescimento de (Palmer, 1964). Naturalmente, nenhum uma nova abordagem experimental da psi- desses miniestados queria ficar por baixo cologia na Alemanha, especialmente em dos demais, e um dos meios para atingir es- Leipzig. Como ressaltou Blumenthal, os sa meta era ter sua própria universidade. métodos que os fisiólogos estavam desen- Assim, as universidades proliferaram entre volvendo, "que envolviam mensuração, re- os principados da federação, embora algu- plicabilidade, dados públicos e testes con- mas fossem pouco mais que um edifício trolados" (1980, p. 29), e aplicando ao com algumas salas de aula e uns poucos estudo do sistema nervoso talvez pudessem professores. Várias, porém, ganharam esta- ser aplicados também ao de outros aspectos tura internacional e alunos de to- do comportamento humano. Gradualmen- das as partes da Europa e também dos Esta- dos Unidos. As circunstâncias na Alemanha do sécu- Em tradução literal, o mesmo que (N. lo XIX foram especialmente propícias ao da T.)</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 115 te, o termo "fisiológico" passou a significar putação, ir para Leipzig tornou-se a opção "experimental" na Alemanha. Quando afir- mais em moda. Enquanto Wundt foi pro- mou que a nova psicologia era uma "psico- fessor titular, cerca de 35 alunos norte-ame- logia fisiológica", Wilhelm Wundt referia- ricanos concluíram teses de doutorado sob se a esse sentido mais do termo, que sua supervisão e inúmeros outros pelo me- implicava que a psicologia seria uma disci- nos tiveram contato com o ambiente plina baseada na metodologia mico de Leipzig (Benjamin, Durkin, Link, que ele queria dizer, ao usar a palavra "fi- Vestal e Accord, 1992). Antes de passarmos siológica", era que a maior parte dos méto- a Wundt e a sua influência no desenvolvi- dos utilizados nessa nova abordagem labo- mento da psicologia norte-americana, po- ratorial da psicologia provinha das técnicas rém, são necessários alguns preâmbulos im- inicialmente desenvolvidas pelos fisiólogos portantes. do século XIX (Greenwood, 2003). o estudante norte-americano da década de 1880 que quisesse aprender sobre essa NO LIMIAR DA PSICOLOGIA nova área do estudo tinha diversas opções EXPERIMENTAL: A PSICOFÍSICA (por exemplo, Göttingen, Heidelberg, Ber- lim: consulte o mapa da Figura 4.1). Mas, Há fortes razões para afirmar que a pesqui- como o laboratório de Wundt era o mais sa científica de temas psicológicos surgiu bem equipado e o que possuía melhor re- como extensão natural da pesquisa fisioló- FIGURA 4.1 Mapa da Alemanha, com localização das universida- des relevantes do ponto de vista da história da psicologia. EUROPA Milhas 0 50 100 50 DINAMARCA 0 50 100 150 200 MAR BÁLTICO MAR DO NORTE Hamburgo INGLATERRA HOLANDA Berlim Göttingen Halle BÉLGICA Leipzig ALEMANHA Bonn Frankfurt REPUBLICA CHECA Würzburg LUXEMBURGO Nuremberg Heidelberg FRANÇA Munique Freiburg Lago de Constância ÁUSTRIA</p><p>116 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA gica que estava sendo feita no século XIX. meiro como aluno e depois, de 1818 até a Adiante, neste mesmo capítulo, você en- aposentadoria, em 1871, como professor de contrará um exemplo disso, na relação en- anatomia e fisiologia. Na década de 1820, os tre os estudos fisiológicos de Helmholtz so- fisiólogos começaram a descobrir muita bre a velocidade do impulso nervoso e o coisa sobre as sensações visual e auditiva, método psicológico do tempo de reação. Na mas pouco se sabia dos demais sentidos. presente seção, analisamos a relação entre a Weber dispôs-se a corrigir esse desequili- pesquisa fisiológica dos processos senso- brio, tornando-se a maior autoridade no riais e o desenvolvimento da psicofísica, sentido do tato (Dorn, 1972). Suas duas que é o estudo da relação entre a percepção maiores contribuições: o mapeamento da de um estímulo ("psico-") e as dimensões sensibilidade relativa de vários locais da pe- físicas do estímulo percebido ("física"). A le e a demonstração de uma relação mate- psicofísica teve origem na pesquisa senso- mática entre o elemento psicológico e o fí- rial de Ernst Weber e foi definida claramen- sico, que posteriormente seria conhecida te pelo enigmático Gustav Fechner. como Lei de Weber. Limiares de Dois Pontos Ernst Weber (1795-1878) Para examinar a sensibilidade tátil, Weber Weber passou a maior parte de sua carreira usou uma técnica na qual tocava a pele com na Universidade de Leipzig, pri- um dispositivo simples, provido de duas FIGURA 4.2 Limiares de Ombro 100 dois pontos de vários locais entre o ombro e a ponta do dedo, extraídos de Boring (1942). 80 60 de 40 dos 20 dos Braço Antebraço Mão Dedo 0 0 20 40 60 80 100</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 117 pontas e parecido com um compasso de de- A Lei de Weber senho. A distância entre essas pontas era va- A segunda contribuição de Weber provinha riável, e a tarefa do observador vendado era do seu interesse pelo "sentido muscular", julgar se sentia uma ou duas pontas. Em que hoje chamaríamos de cinestesia. Ele qualquer área da pele, existe um limiar de queria saber qual a importância desse senti- dois pontos - o ponto em que a percepção do no julgamento do peso relativo dos ob- muda, passando da sensação de "um" para jetos (Heidbreder, 1933). Imagine duas ta- "dois" pontos. Nas áreas da epiderme em refas: na primeira, você está com a mão em que há maior sensibilidade, o polegar, por repouso sobre uma mesa e, então, são colo- exemplo, Weber descobriu que o limiar era cados dois cilindros de diferentes pesos em bastante baixo. Ou seja, as pontas não pre- sua palma. Sua tarefa é julgar qual dos dois cisavam estar muito afastadas para serem é mais pesado. Na segunda, os dois cilin- percebidas como duas, em vez de uma. Por dros estão na mesa e, desta vez, você levan- outro lado, nas áreas de menor sensibilida- ta cada um antes de fazer a mesma avalia- de, o braço, por exemplo, as pontas tinham ção. Ao conduzir esse experimento, Weber de estar mais separadas para serem percebi- descobriu que tanto ele quanto os demais das como duas. A Figura 4.2 mostra uma sé- observadores eram capazes de discriminar rie de limiares de dois pontos do ombro à com maior acerto quando levantavam os ci- ponta do dedo, extraída de um estudo pos- lindros, o que coloca em jogo o sentido terior (1870) de Vierordt (citado por Bo- muscular. o mais importante para a histó- ring, 1942, p. 478). ria da psicologia é que Weber descobriu Weber acreditava que os diferentes limia- também que a capacidade de discriminar os res de dois pontos decorriam de diferenças dois diferentes cilindros não dependia da no tamanho daquilo que denominou de sua diferença absoluta de peso, mas sim de "círculos sensoriais", mostrados como he- uma relação mais complexa. Essa relação xágonos em seu esboço, na Figura 4.3 (We- veio a ser conhecida como lei de Weber. ber, 1852, mostrado em Boring, 1942, p. Nos experimentos de levantamento de 476). Eles consistiam em áreas da pele que peso, Weber estava mais uma vez lidando as fibras ramificadas percebiam como um com limiares. Por exemplo, se os observa- único nervo sensorial. Weber pensou que se dores não conseguem distinguir entre 30 e as duas pontas do compasso tocassem a pe- 31 gramas e entre 30 e 32 gramas (acham le dentro do mesmo círculo sensorial, a per- que o peso é o mesmo), mas conseguem dis- cepção seria de um só ponto. Quando as duas pontas tocassem dois diferentes tinguir entre 30 e 33 gramas, então fica cla- los, seriam sentidos dois pontos. As áreas da pele que tinham maior sensibilidade pos- a' b' suíam círculos menores. Assim, o grupo de quatro círculos sensoriais da esquerda, na Figura 4.3, poderiam pertencer a uma área próxima do ombro, ao passo que o da direi- A B ta poderia estar mais perto da ponta do de- do. o sentido do tato na verdade é mais complexo que isso, mas o modelo de Weber teve a vantagem de gerar um volume consi- derável de pesquisas acerca do funciona- mento da percepção tátil. Além disso, em- a b bora não pensasse a respeito da pesquisa a b d nestes termos, Weber estava medindo even- FIGURA 4.3 Concepção de Weber dos sen- tos mentais (percepções). soriais, extraída de Boring (1942).</p><p>118 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA ro que algum tipo de limiar é ultrapassado Gustav Fechner (1801-1889) aos 33 gramas. Weber referiu-se à discrimi- A meta de Weber como fisiólogo era enten- nação entre 30 e 33 gramas como uma "di- der a natureza dos sentidos tátil e muscular ferença minimamente ou dmp. o que ele descobriu foi que a dmp depen- e, para isso, ele usou métodos que viriam a dia, não do tamanho absoluto da diferença ser conhecidos como psicofísicos. Seu cole- entre os pesos, mas da relação entre essa ga em Leipzig, o mais jovem Gustav Fechner, contudo, tinha uma meta ainda mais ambi- dmp e o menor dos dois pesos (chamado de ou EP). À medida que o ciosa: Fechner estava obcecado pela ideia de estímulo-padrão se tornava mais pesado, resolver o eterno problema mente-corpo de era necessário que a diferença entre os pe- uma maneira que derrotasse o materialismo e convenceu-se de que a psicofísica era o fosse maior para ser percebida. Ou seja, a lei de Weber é: dmp/EP=k. Portanto, os meio para tal. Embora tivesse se formado em medicina, ficado famoso como físico e, quan- observadores perceberão uma diferença en- do estava mergulhado em sua pesquisa pio- tre 30 e 33 gramas, mas não entre 60 e 63 neira em psicofísica, se considerasse um filó- gramas. Se o estímulo-padrão tiver 60 gra- mas, em vez de 30, não se detectará dife- sofo, Fechner poderia ser considerado o rença até que o segundo peso tenha pelo primeiro psicólogo experimental. Fechner (Figura 4.4) nasceu no sul da menos 66 gramas (3/30 = 60/60). Da mes- Alemanha em 1801, numa família luterana. ma maneira, se EP = 90 gramas, a dmp será Foi um garoto precoce, que aos 5 anos já es- de 9 gramas. Por conseguinte, a dmp é pro- porcional ao tamanho do EP. tava familiarizado com o latim e aos 16 já era aluno de medicina da Universidade de A importância da lei de Weber é tríplice. Leipzig, onde aprendeu fisiologia com We- Primeiro, como na pesquisa sobre o limiar ber. Embora se diplomasse médico em de dois pontos, ele estava sujeitando even- 1822, Fechner jamais exerceu a medicina. tos mentais à medição e à formulação mate- Na década de 1820, seus interesses giraram mática. Isso iria por fim tornar a psicofísica em torno da matemática e da física, nessa um elemento essencial da nova psicologia época, ele dava aulas (sem remuneração) de Wundt, a qual reivindicou o status de sobre essas disciplinas e mantinha-se tradu- ciência. A ciência exige medições objetivas, zindo textos de física e química do francês e a pesquisa de limiares preenchia perfeita- para o alemão. Também nessa época, ele mente esse requisito. Segundo, Weber mos- trou que não havia correspondência perfeita contribuiu com pesquisas originais na nova área da física da Seu trabalho (um a um) entre as alterações no mundo fí- sico e a experiência psicológica dessas alte- rações. o aumento de um peso em 3 gramas 1. A pesquisa de Fechner sobre a eletricidade reve- nem sempre produz a mesma sensação. Às la uma interessante relação com seu pai, um mi- vezes, a diferença é percebida (se EP = 30); nistro luterano cuja fé se estendia até a ciência. o velho Fechner tinha conhecimento dos famosos às vezes, não (se EP = 60). Por conseguinte, experimentos de Benjamin Franklin com a eletrici- para compreender como a mente organiza dade e de sua invenção do para-raios em 1787. Sa- suas experiências é preciso saber mais que as bendo que as torres das igrejas são alvos comuns dimensões físicas dos estímulos a que somos dos raios, ele instalou um, por precaução, na torre submetidos: é necessário também determi- da sua. Os fiéis acharam que seu pastor não estava nar como a mente percebe esses estímulos demonstrando muita fé em Deus nem em sua ca- físicos. Terceiro, a lei de Weber mostrou que pacidade de proteger a igreja, mas o pastor Fechner os eventos mentais e físicos poderiam ser observou que as leis da física também tinham de ser levadas em consideração (Boring, 1950). Apesar de matematicamente relacionados. Essa com- ter perdido o pai quando tinha apenas 5 anos, o jo- preensão foi mais plenamente desenvolvida vem Gustav aparentemente herdou dele o amor e por outro cientista de Leipzig. respeito pela ciência.</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 119 tornou-se um inválido atormentado por di- versos sintomas somáticos, de ansiedade e depressão, que era obrigado a passar longos períodos em total escuridão. Em suas pró- prias palavras, Minha situação [...] tornou-se ainda mais deprimente. Já que estava acostumado a usar a mente, tinha pouca habilidade na interação apenas social com as pessoas e não sabia fa- zer outra coisa senão trabalhar com o livro e a caneta, em pouco tempo estava sofrendo a tortura de um tédio mortal [...]. (Citado em Balance e Bringmann, 1987, p. 39) A volta de Fechner à normalidade come- çou em 1842 e concluiu-se por volta de mea- dos da década. Em grande parte, deveu-se a FIGURA 4.4 Gustav Fechner (1801-1889). seu empenho em recuperar o controle sobre a própria vida, mas foi facilitada também pe- destacou-se tanto que lhe valeu o cargo de la melhora progressiva da visão. Após a re- professor de física em Leipzig em 1834, ano cuperação, voltou sua atenção para questões em que Weber publicou sua pesquisa sobre filosóficas e em 1851 foi renomeado profes- a sensação do tato. sor da Universidade de Leipzig. Foi nesse Na década de 1830, os interesses cientí- período que ele mergulhou na questão da re- lação entre mente e corpo e se deixou con- ficos de Fechner ampliaram-se. Ele estudou sumir pela ideia de derrotar o materialismo. o fenômeno da persistência visual das ima- Como você viu no capítulo anterior, o mate- gens, ou seja, aquelas imagens que surgem rialismo, a crença de que todos os fatos têm após a percepção de uma luz forte e inter- causas que podem ser atribuídas a alterações mitente, descobrindo entre a intensidade da físicas e químicas, era a vertente preferida luz e a força da imagem residual uma rela- pela maioria dos fisiólogos mais jovens da ção que o levou a avaliar a qualidade desse época (por exemplo, Helmholtz). tipo de imagem quando provocada pela Fechner referia-se ao materialismo como mais forte de todas as fontes de luz: o sol. As Nachtansicht ou "visão da noite" e esperava observações, que começaram com rápidas poder por uma visão oposta Ta- olhadas em direção ao sol, foram tornando- gesansicht ou "visão do dia". Essa visão do se gradualmente mais longas e, embora dia derivava de um movimento idealista en- usasse filtros, Fechner acabou prejudicando tão popular na filosofia segundo o seriamente a própria visão. problema foi qual o universo como um todo tinha uma grave o suficiente para obrigá-lo a renunciar forma de consciência que ia além da cons- à cadeira de professor e aceitar da universi- ciência individual de cada um dos organis- dade uma aposentadoria por invalidez. mos que o compunham. Após a morte, a Se muito antes desse episódio Fechner já consciência pessoal fundia-se a essa cons- sofria de dores de cabeça e de uma ocasio- ciência cósmica. Para Fechner, isso queria nal impossibilidade de controlar os pró- dizer que, embora a mente e o corpo pu- prios pensamentos, a cegueira degringolou dessem ser considerados dois aspectos da numa neurose que se arrastou por muitos mesma realidade fundamental, a mente era anos (Balance e Bringmann, 1987). Fechner a característica primária e dominante dessa</p><p>120 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA realidade. Foi na busca de uma maneira de Partindo do princípio de que a unidade conceitualizar a relação exata entre a mente de medição psicológica poderia ser a dmp, e o corpo que ele criou a psicofísica. Poste- Fechner concebeu uma escala que tinha iní- riormente, ele diria que teve uma intuição cio no ponto em que a sensação era inicial- repentina, ao despertar na manhã de 22 de mente percebida, o qual chamou de limiar outubro de Ocorreu-lhe então que a absoluto. À medida que a intensidade do mente e o corpo poderiam ser unidos com estímulo cresce, ultrapassando esse limiar, a harmonia e com precisão matemática por pessoa por fim experimenta uma diferença meio da medição das sensações psicológicas minimamente seguida de ou- e dos estímulos físicos que as produziam. A tra, e assim sucessivamente. As dmps situa- intuição marcou o início de um trabalho in- das acima do limiar absoluto são os limia- tenso ao longo de uma década, culminando res da diferença. Considere o familiar na publicação, em 1860, de Elements of Psy- exemplo do interruptor de luz com contro- chophysics, geralmente considerado o pri- le de gradação (dimmer). Quando a luz está meiro livro de psicologia experimental. inteiramente apagada, naturalmente não há estímulo nem nenhuma sensação de luz. À Elements of Psychophysics, de Fechner medida que o interruptor é lentamente Fechner tinha conhecimento da pesquisa de acionado, por um breve período a sensação Weber sobre os limiares, mas só depois de sua continuará sendo zero, mas em seguida grande intuição de 22 de outubro de 1850 percebemos vagamente um princípio de percebeu sua importância. o que mudou, pa- claridade. Esse é o limiar absoluto. Se con- ra Fechner, foi a convicção de que as sensa- tinuarmos a acionar o interruptor, chegare- ções poderiam ser submetidas a mensuração mos a um ponto em que a luz se tornará exata, partindo do pressuposto de que as perceptivelmente mais forte que um segun- dmps eram subjetivamente iguais em magni- do antes. Esse é o limiar da diferença. tude. Assim, os pesos de 30 e 33 gramas são o pressuposto de Fechner da igualdade percebidos como apenas minimamente dife- das dmps foi quase imediatamente questio- rentes, da mesma maneira que os de 60 e 66 nado, e sua relação matemática revelou-se gramas. As diferenças em peso entre os dois verdadeira apenas em determinadas cir- pares de estímulos são 3 e 6 gramas, respecti- cunstâncias. Não importa. o verdadeiro le- vamente. Porém, de acordo com Fechner, gado de seus Elements of Psychophysics foi a psicologicamente a diferença entre 30 e 33 sistematização dos métodos usados para es- percebida como idêntica (ou seja, é subjetiva- tabelecer os limiares, os quais ainda hoje mente igual) à diferença entre 60 e 66. Esse são usados, tanto em laboratório quanto em pressuposto da igualdade subjetiva levou exames de visão e de audição. Eles são co- Fechner a reformular a lei de Weber como nhecidos como métodos dos limites, dos es- tímulos constantes e do Considere k log R sua utilização no contexto de um exame de audição destinado a estabelecer limiares ab- onde S é a sensação, o tamanho percebido solutos. No método dos limites, é apresen- do estímulo em dmps, k é uma constante e tado um estímulo que está bem acima do li- R é a medição física do estímulo. miar e, em seguida, sua intensidade é gradualmente reduzida até o sujeito indicar que já não consegue ouvi-lo. Essa é a cha- 2. Se você quiser impressionar o professor, mande- mada tentativa descendente, que é seguida lhe um cartão de "Feliz Dia de Fechner" no dia 22 de outubro. Até hoje, os psicólogos experimentais, principalmente os que estudam a sensação e a per- 3. Fechner os chamou de métodos da diferença mi- cepção, saem nesse dia para fazer um brinde a essa nimamente perceptível, casos certo e errado e erro intuição de Fechner. médio, respectivamente.</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 121 de uma tentativa ascendente, na qual o estí- lhelm Wundt, proclamasse alguns anos de- mulo é apresentado inicialmente abaixo do pois uma "nova psicologia". limiar, sendo sua intensidade aumentada aos poucos até o sujeito o escutar pela pri- meira vez. As tentativas descendentes e as- WUNDT ESTABELECE UMA cendentes são alternadas algumas vezes pa- NOVA PSICOLOGIA EM LEIPZIG ra que o limiar possa ser calculado como a média de todas elas. No método dos A breve citação que abre este capítulo foi ex- mulos constantes, são apresentados sons traída do prefácio de Principles of Physiologi- de intensidade variada em ordem aleatória, cal Psychology, publicado em dois volumes e a tarefa do sujeito é indicar se eles são ou entre 1873-1874 pelo alemão descrito com não ouvidos. Esse método resolve um pro- muita frequência como o "fundador" da psi- blema do anterior, que é a tendência do su- cologia experimental, Wilhelm Wundt. Afir- jeito de antecipar-se ao ponto em que está o mar, como fez Wundt, que se está fazendo limiar. No método do ajuste, o sujeito varia uma "tentativa de demarcar um novo domí- diretamente a intensidade do estímulo até nio da ciência" é o tipo de coisa que separa que ele atinja o limiar. Embora esses exem- os fundadores de seus plos envolvam limiares absolutos, todos os Sem dúvida, a obra de Fechner sobre a psi- três métodos podem ser usados também em cofísica assegura-lhe o lugar de primeiro experimentos com limiares de diferença. psicólogo experimental. Porém vimos que Dos três, o método do ajuste é o que toma ele tinha outros objetivos mais menos tempo, mas é o menos preciso; o dos Assim, como ressaltou Boring (1950), os estímulos constantes é o mais preciso de to- fundadores são promotores; eles podem não dos, mas também o que leva mais tempo ser os primeiros a atingir alguma coisa, mas (Goldstein, 1996). Nos exames reais de au- são os primeiros a proclamar o pioneirismo dição, normalmente é usado o método dos de suas realizações. Sua contribuição cientí- limites com tentativas descendentes, com adoção de algumas tentativas falsas ("pega- fica pode ser importante, mas seu principal talento está na capacidade de divulgação. E dinhas") para evitar que os sujeitos levan- Wundt tinha esse talento. tem a mão para indicar que "escutaram" o estímulo quando, na verdade, nenhum foi apresentado. Wilhelm Wundt (1832-1920): Boring (1963b) referiu-se a Fechner co- A criação de uma Nova Ciência mo "fundador acidental da psicofísica". Ele achava que o principal objetivo de Fechner A infância do fundador da psicologia expe- era filosófico: com sua visão do dia, derro- rimental é modesta em fatos dignos de no- tar o materialismo (a visão da noite). Infe- ta. A tendência ao excesso de devaneios e o lizmente, para Fechner, esse objetivo não desempenho caracterizaram seus foi atingido, e as implicações filosóficas de primeiros anos de escola, e só no final da sua obra foram em grande parte ignoradas. adolescência é que ele se interessou pelo ru- Felizmente, para a psicologia, os esforços mo de sua formação. Apesar do fraco de- de Fechner promoveram a criação de um sempenho acadêmico, conseguiu aos 19 programa de pesquisa e um conjunto de anos, utilizando contatos da família, entrar métodos que permitiram que outros vissem para a escola de medicina da Universidade aquilo que ele não viu: que os fenômenos de Tübingen. Depois de um ano, transferiu- psicológicos podiam ser submetidos à me- se para Heidelberg, onde afinal começou a todologia científica. Criando por acaso a mostrar-se um aluno promissor. Antes do psicofísica em 1860, Fechner abriu cami- fim de 1855, já se havia diplomado com dis- nho para que outro fisiólogo alemão, Wi- tinção em medicina na Universidade de</p><p>122 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 1879 Heidelberg e obtido o primeiro lugar num DATA-CHAVE exame de certificação promovido pelo go- Este ano marca a data normalmente asso- verno (Bringmann, Balance e Evans, 1975). ciada ao estabelecimento do laboratório de Nos anos que passou em Heidelberg, psicologia experimental de Wundt em Wundt viu crescer também o seu interesse Leipzig. pela ciência. o famoso químico Robert Os seguintes fatos também ocorreram: Bunsen (que inventou o aquecedor que le- va seu nome) causou-lhe uma impressão Thomas Edison patenteia a luz elétrica duradoura: quando afinal tornou-se profes- Tem lugar em Londres a primeira con- sor, Wundt copiou a técnica de Bunsen de versa telefônica exemplificar os tópicos das aulas por meio Ferdinand de Lesseps cria a Panama Ca- do uso frequente de demonstrações e mate- nal Company rial visual. Também foi Bunsen quem inspi- A Inglaterra amplia seu império derro- rou o primeiro projeto de pesquisa inde- tando os zulus numa breve guerra na pendente de Wundt, um exame dos efeitos África do Sul da restrição da ingestão de sal na composi- ção química de sua própria urina. Ao longo o escritor norte-americano Henry Ja- mes, irmão do psicólogo William James, desses anos, Wundt conduziu também pes- publica Daisy Miller quisas mais sofisticadas, entre as quais um estudo dos papéis desempenhados por di- Frank Woolworth abre em Utica, Nova versos nervos cranianos na respiração. Esse York, uma loja na qual nenhum artigo custava mais do que 5 centavos de dólar. estudo exigia o método da ablação em cães A loja faliu logo em seguida, o que o le- e coelhos vivos, procedimento que Wundt vou a tentar a sorte em Lancaster, Pen- considerava penoso. Porém o levou a cabo, silvânia, dessa vez acrescentando artigos animado com o apoio da mãe, que o assistia que custavam 10 centavos e assim dando nas cirurgias, realizadas na casa do próprio início à cadeia de lojas Woolworth, co- Wundt, e não na universidade (Bringmann, nhecida pela venda de mercadorias com Balance e Evans, 1975). Wundt conduziu preço entre 5 e 10 centavos ainda um experimento com a sensibilidade Mary Baker Eddy torna-se pastora da tátil em pacientes histéricos, no qual em- igreja de Cristo, em Boston pregava a técnica do limiar de dois pontos o primeiro Madison Square Garden (já de Weber; esse estudo foi a pesquisa que houve quatro) foi aberto em Nova York apresentou em sua monografia de conclu- Nasceram: são do curso de medicina. Depois de concluir a graduação em no- Joseph ditador soviético vembro de 1855, Wundt exerceu a medicina Albert Einstein, físico alemão por seis meses como assistente de clínica do Will Rogers, humorista e comentarista hospital da Universidade de Heidelberg. social norte-americano do qual se afirma Mas já começava a achar que a vida de pes- jamais ter conhecido alguém de quem quisador seria mais interessante que a de um não gostasse médico dedicado a prescrever receitas e con- Morreram: sertar ossos quebrados. Foi então para Ber- lim, onde passou um semestre estudando William Lloyd Garrison, abolicionista norte-americano, criador da American fisiologia experimental com o grande Johan- Anti-Slavery Society em 1833 nes (Capítulo 3) e, ao voltar para Heidelberg, estava decidido a tornar-se pro- Sir Rowland Hill, detentor do título fessor de fisiologia. Em fevereiro de 1857, graças à invenção do primeiro selo postal adesivo em 1837 conseguiu o cargo de Privatdozent, o qual, no sistema alemão, implicava que poderia</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 123 oferecer cursos, mas seu salário dependeria meou professor adjunto. Pela primeira vez inteiramente da matrícula dos alunos. o pri- na vida, Wundt faria parte do corpo docen- meiro curso de Wundt atraiu apenas quatro te efetivo e teria um salário independente alunos e, perto de chegar ao término, ele das matrículas dos alunos. Perto dos 40 caiu doente, provavelmente de tuberculose anos, finalmente adquiriu segurança finan- (Bringmann, Bringmann e Balance, 1980). ceira para casar com a noiva de muitos anos. Após quase um ano de recuperação, Wundt Nesse período, escreveu seu trabalho mais candidatou-se à vaga de assistente no labo- conhecido entre os psicólogos, os dois volu- ratório do respeitado Hermann Helmholtz mes de Principles of Physiological Psychology que acabava de assumir sua ca- (1873-1874/1910), cujo prefácio tem a frase deira em Heidelberg. E conseguiu o empre- citada na abertura deste capítulo. o livro, go, que viria a ter grande importância para que teve seis reedições, valeu-lhe o cargo de sua carreira. professor de "filosofia indutiva" da Univer- Wundt trabalhou arduamente como as- sidade de Zurique em 1874. Após apenas sistente de Helmholtz por seis anos, de um ano na Suíça, recebeu uma oferta seme- 1858 a 1864, mas seu trabalho foi muito lhante da mais prestigiosa Universidade de além da simples administração do Leipzig, a maior universidade alemã na épo- rio. Ele continuou a oferecer cursos como ca, e aceitou imediatamente. Wundt perma- Privatdozent e a publicar a uma frequência neceu em Leipzig até aposentar-se em 1917, segundo qualquer Além de três anos antes de sua morte. diversos artigos, Wundt publicou dois im- As pessoas tendem a associar Wundt ape- portantes livros que o destacaram como psi- nas a Leipzig, mas é importante lembrar cólogo experimental: Contributions to a que, ao ir para lá em 1875, ele já tinha qua- Theory of Sensory Perception, em 1862, e renta e tantos anos de idade e 17 de expe- riência científica em Heidelberg. Já havia Lectures on Human and Animal Psychology, também escrito três livros importantes e um ano depois. primeiro é digno de nota inúmeros artigos, mais do que a maioria dos porque marca a primeira vez em que Wundt professores escreve na vida inteira. Além advogou uma abordagem explicitamente disso, já havia anunciado que pelo menos experimental para questões psicológicas alguns aspectos da psicologia poderiam ser básicas. Assim, ele estava pensando na pos- experimentais e concebido um plano para sibilidade de a psicologia ser uma ciência estabelecer aquilo que rapidamente viria a muito antes do seu famoso pronunciamen- chamar-se a "nova psicologia". Assim, ao to em 1873-1874. segundo livro reiterava chegar a Leipzig, Wundt já havia realizado isso e descrevia parte da sua pesquisa inicial o que, para muita gente, representa o esfor- em psicofísica e tempo de reação. de uma vida inteira. No entanto, lá ele Wundt deixou o laboratório de Helm- ainda teria mais de quarenta anos extrema- holtz em 1864, mas permaneceu em Heidel- mente produtivos pela frente. berg por mais dez anos. Ele montou seu la- Nos anos que passou em Heidelberg, boratório particular e ganhava um salário Wundt criou uma vasta coleção particular decente com as aulas que ministrava e os di- de aparelhos de laboratório, tanto para suas reitos autorais da venda dos livros. Em próprias pesquisas quanto para demonstra- 1871, seus esforços finalmente foram re- ção de fenômenos diversos nas aulas (no es- compensados pela universidade, que o no- pírito de seu antigo professor de química, Robert Bunsen). Ao chegar a Leipzig, ele so- 4. Conforme uma estimativa, Wundt publicou licitou espaço para guardar esses equipa- 53.735 páginas ao longo de sua carreira, o que re- mentos. Embora, segundo os relatos tradi- presenta uma média de 2,2 páginas por dia (Boring, cionais, quando ele chegou em 1875 a 1950, p. 345)! universidade tenha disponibilizado uma sa-</p><p>124 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA FIGURA 4.5 Wundt, já idoso (centro), em seu laboratório de Leipzig. la, que afinal se tornou seu famoso labora- A Concepção de Wundt tório, cuidadosas pesquisas de arquivo da Nova Psicologia (Bringmann, Bringmann e Ungerer, 1980) "novo domínio da ciência" que Wundt revelam que Leipzig adiou a entrega dessa tentava "demarcar" em Principles of Physio- sala por um ano, apesar das repetidas soli- citações de Wundt. Seja como for, é notável logical Psychology correspondia a uma visão que a universidade tenha atendido ao pedi- delineada pela primeira vez doze anos an- do, pois a limitação de espaço era grande na tes, no livro que publicara em 1862 sobre a época. Assim, com uma sala de menos de percepção (Contributions to a Theory of Sen- 40 teve seu modesto começo aquele que sory Perception). Essa nova psicologia exigia seria o primeiro laboratório de psicologia o exame científico da experiência conscien- experimental e um modelo copiado dezenas te humana, por meio de métodos tomados de vezes. Wundt inicialmente o usou para de empréstimo à fisiologia experimental e demonstrações, mas, já em 1879, com seus suplementados por novas estratégias. Ob- alunos conduzia pesquisas originais no que serve que, hoje em dia, quando vemos um ele passou a chamar de Psychologisches Ins- livro sobre "psicologia fisiológica", costu- titut. o Instituto logo tornou-se um mamos pensar que ele se concentrará na re- atraindo alunos curiosos de toda a Europa e lação entre a biologia e o comportamento. também dos Estados Unidos. Com o passar Porém Wundt usou o termo "fisiológico" dos anos, novas salas foram anexadas e, em apenas para referência ao fato de que mui- 1897, foi construído um novo laboratório tos dos métodos de sua nova psicologia (o com base nas especificações do próprio tempo de reação, por exemplo) haviam sido Wundt. Um bombardeio dos Aliados o des- desenvolvidos em laboratórios de fisiologia truiu em 1943. Dentro em pouco, veremos (Greenwood, 2003). Ele poderia, da mesma como funcionava o laboratório de Wundt maneira, ter dito que seu livro era de "psi- (Figura 4.5), mas, antes, é preciso analisar cologia experimental". A nova psicologia de a visão que ele tinha da sua nova psicologia. Wundt possuía dois programas principais: o exame da experiência consciente "ime- diata", por meio de métodos experimentais de laboratório, e o estudo de processos</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 125 mentais superiores, por meio de métodos qual está sujeita a falhas. Wundt rejeitou a não laboratoriais. auto-observação por julgá-la mera especu- lação filosófica. A percepção interna, por o Estudo da Experiência sua vez, era como a auto-observação, mas Consciente Imediata constituía um processo muito mais estreito Para entender a distinção que Wundt traçou de reação imediata a estímulos controlados entre a experiência imediata e a experiência com precisão. problema da memória "mediata", usemos um exemplo simples. Se era reduzido pelo imediatismo da reação e você observar pela janela um termômetro pela utilização de observadores treinados colocado do lado de fora e a temperatura in- (Wundt e seus alunos) para reagir automá- dicada for 15°C, você não estará sentindo o tica e imparcialmente. Mas essa precisão ti- fenômeno da temperatura diretamente, nha um preço: a percepção interna só pode- pois ela estará sendo mediada por um ins- ria gerar dados científicos válidos se seus trumento científico. Por outro lado, se você resultados pudessem ser replicados. Para for para o lado de fora sem um casaco, terá Wundt, isso queria dizer que a pesquisa de uma experiência direta do frio. Essa será laboratório teria de limitar-se a uma estrei- uma experiência consciente imediata. Ou ta faixa de experiências. Na prática, elas se seja, não haverá entre você e as condições resumiam então a experiências senso- climáticas nenhum termômetro; você as vi- riais/perceptuais/atentivas básicas. Essas verá em primeira mão. Para Wundt, era es- experiências poderiam ser controladas por sa experiência consciente imediata que meio de aparelhos sofisticados, usados para deveria ser o tema de sua psicologia de la- apresentar estímulos aos observadores, os boratório. quais manifestariam reações simples a esses Wundt reconheceu o problema que há no estímulos. No laboratório de Wundt, esse estudo da consciência imediata. Examinar tipo de reação introspectiva "limitava-se em objetivamente a experiência mediata é sim- grande parte a julgamentos de tamanho, in- ples. Como a leitura da temperatura é um tensidade e duração de estímulos físicos, evento público, dois ou mais observadores suplementados às vezes por julgamentos podem concordar com ela, e aplicar méto- de simultaneidade e sucessão" (Danziger, dos científicos a partir daí é uma questão 1980, p. 247). Esse, naturalmente, é o tipo simples. Vários aspectos do ambiente po- de julgamento que é feito nos experimentos dem ser manipulados sistematicamente, e da psicofísica, os quais representavam boa os resultados sobre a temperatura podem parte da pesquisa conduzida no laboratório ser avaliados com uma certa precisão. Po- de Wundt. Como veremos em breve, o con- rém a descrição da experiência imediata é ceito que Wundt tinha da introspecção co- mais difícil. Como posso ter certeza de que mo percepção interna diferia muito da "in- sua experiência do frio é comparável à mi- trospecção experimental sistemática" usada nha? Aqui Wundt fez uma distinção crítica por dois de seus alunos mais famosos, Os- entre auto-observação e percepção interna. wald Külpe (que veremos neste mesmo ca- Essa distinção foi perdendo seu caráter com pítulo) e Edward B. Titchener (Capítulo 7). os anos, segundo Danziger (1980), pois am- bos os termos passaram a chamar-se intros- o Estudo dos Processos pecção. A auto-observação é a tentativa Mentais Superiores filosófica tradicional de analisar as expe- Embora acreditasse que a investigação de riências da vida por meio da introspecção laboratório se limitasse necessariamente à reflexiva. Mas ela não é sistemática e co- experiência consciente imediata de proces- mo, por definição, se processa algum tempo SOS mentais básicos, Wundt tinha em men- após a ocorrência do fato experimentado, te um objetivo mais amplo para sua psico- baseia-se demasiadamente na memória, a logia. Ele queria analisar outros processos</p><p>126 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA mentais, como a aprendizagem, o raciocí- cologia cognitiva (Blumenthal, 1975). nio, a linguagem e os efeitos da cultura, mas Wundt distinguia, por exemplo, entre a achava que, pelo fato de estarem tão imbri- ideia que uma sentença transmitia e sua es- cados na história pessoal, na história cultu- trutura e a maneira como o ouvinte a rece- ral e no ambiente social do indivíduo, esses bia e deduzia o sentido que o falante queria processos não poderiam ser controlados o dar-lhe. A relação que ele propunha entre a suficiente para o exame em laboratório. Em ideia a ser transmitida e a estrutura da sen- vez disso, poderiam ser estudados apenas tença é semelhante à distinção, feita poste- por meio de técnicas de observação induti- riormente pelo linguista Noam Chomsky, vas, comparações entre culturas, análises entre a estrutura superficial e a estrutura históricas e estudos de caso. profunda da gramática. E sua intuição de Wundt esteve toda a vida interessado nes- que o ouvinte não se lembra da sentença em ses processos mentais superiores, que ini- si, mas do seu sentido, é ratificada pelas cialmente delineou em detalhes em seu se- pesquisas posteriores sobre a memória que gundo livro mais importante (Lectures on envolvem a "essência" das mensagens Human and Animal Psychology, 1863). Deles transmitidas. ocupou-se inteiramente em seus vinte últi- mos anos de vida, período em que sua fama Dentro do Laboratório de Wundt de escritor prodigioso aumentou com a pu- blicação do colossal Volkerpsychologie. A Quando os alunos de Wundt começaram a obra contém análises detalhadas da língua e produzir pesquisas originais em Leipzig, da cultura e abrange tópicos que hoje seriam tornou-se necessário encontrar uma forma considerados parte da psicolinguística, da de publicá-las. Wundt resolveu o problema psicologia dos mitos e da religião, da psico- criando, em 1881, a revista Philosophische logia social, da psicologia forense e da antro- Studien. Essa foi a primeira publicação des- pologia. Dos dez volumes, três são dedicados tinada a relatar os resultados de pesquisas aos mitos e à dois à linguagem, dois experimentais em psicologia editada por à sociedade e um à cultura e história, um à Wundt nas duas primeiras décadas (de lei e um à arte (Blumenthal, 1975). 1881 a 1903). A revista tornou-se porta-voz Como outros pensadores de sua época, do trabalho dele e dos seus alunos, e seu Wundt acreditava que uma das implicações conteúdo revela o tipo de pesquisa que se da teoria da evolução era a possibilidade de fez em Leipzig nos vinte últimos anos do sé- organizar as culturas dentro de um conti- culo XIX. Segundo Boring (1950), que ana- nuum, das "primitivas" (por exemplo, a cul- lisou os cerca de cem estudos experimentais tura aborígine australiana) às "avançadas" nela publicados ao longo desse período, pe- (a presumivelmente). Assim, achava lo menos metade da pesquisa inseria-se na que seria possível chegar à compreensão da área da sensação e da percepção. Entre os evolução dos processos mentais humanos trabalhos restantes, a maior parte era de es- por meio do estudo dos mitos, religiões, lín- tudos de tempo de reação, seguidos de es- guas e costumes sociais de culturas diferen- tudos da atenção, do sentimento e da asso- tes em seu grau de sofisticação (Farr, 1983). ciação. Ele tinha especial interesse pela linguagem, e suas descrições bem poderiam valer-lhe o Sensação e Percepção título de fundador da moderna psicolin- A maioria das informações básicas sobre os guística. Muito do que escreveu sobre o te- sistemas sensoriais encontradas nos atuais ma foi ignorado na época, só vindo a ser re- cursos de sensação/percepção já era conhe- descoberto entre as décadas de 1950 e 1960, cida na virada do século, e parte da pesqui- quando a psicolinguística ganhou impor- sa foi conduzida no laboratório de Wundt. tância fundamental no surgimento da psi- Conforme mencionamos anteriormente, a</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 127 maior parte desses estudos de "percepção mo B, seus tempos de trânsito poderiam interna" era de natureza psicofísica, anali- tornar-se comparáveis por meio de uma sando tópicos como as capacidades de dis- equação pessoal: A = B + 0,12 segundo. tinção de cores apresentadas a diferentes o responsável pelo aperfeiçoamento do áreas da retina e de tons apresentados em procedimento do tempo de reação usado várias combinações de timbre e volume. Em pelos wundtianos foi o fisiólogo F. termos de percepção, os wundtianos estu- C. Donders (1818-1889). raciocínio de daram temas como as imagens residuais po- Donders foi que, se o tempo dos impulsos sitivas e negativas, o contraste visual e a nervosos podia ser medido e se a atividade percepção de tamanho, profundidade e mo- mental se compunha de impulsos nervosos, vimento (Boring, 1950). então seria possível medir com alguma pre- cisão diversos eventos mentais. Partindo do Cronometria Mental princípio de que os eventos mentais pode- Quando mediu a duração de um impulso riam ser somados, Donders criou o método nervoso e descobriu que era mais lento do subtrativo no fim da década de 1860. Pri- que se imaginava, Helmholtz (Capítulo 3) meiro ele mediu o tempo de uma reação abriu caminho para um método que viria a simples: pressionar uma tecla de telégrafo e ser chamado de cronometria mental no la- liberá-la o mais rápido possível após a per- boratório de Wundt e hoje é conhecido co- cepção de uma luz, por exemplo. o proce- mo tempo de reação. Wundt já conhecia es- dimento foi então "complicado" pelo acrés- sa pesquisa muito antes de ir para Leipzig. cimo de outras tarefas mentais. Por Ele havia sido assistente de Helmholtz em exemplo, o observador deveria reagir ape- Heidelberg logo após a realização dos estu- nas se visse uma luz vermelha; se a luz fos- dos sobre os impulsos nervosos e interessa- se de outra cor, ele não deveria esboçar ne- ra-se muito pela questão da medição da ve- nhuma reação. Esse "tempo de reação locidade mental na década de 1860. discriminativa" (TRD) compunha-se de tu- problema já havia sido colocado alguns do aquilo que havia no tempo de reação anos antes sob a forma de uma dificuldade simples (TRS) mais o evento mental de dis- prática encontrada pelos astrônomos. A criminar as cores. Assim, criação de tabelas para o cálculo da longitu- de exigia o conhecimento da posição preci- TRD = TRS + tempo de discriminação sa de diversas estrelas e planetas em mo- tempo de discriminação = TRD TRS mentos específicos do ciclo lunar (Sobel, 1995). A identificação dessas posições exi- De acordo com o mesmo princípio, o gia um complicado procedimento de medi- "tempo de reação eletiva" (TRE) exigia a li- ção do tempo que cada corpo celeste levava beração de uma determinada tecla se a luz para efetuar o "trânsito" de um lado da mi- fosse de uma certa cor e de outra tecla, no ra da lente do telescópio até o outro. jul- caso de uma cor diferente. Além do tempo gamento dessa medição naturalmente era de reação simples e do tempo exigido para feito por seres humanos e, apesar de serem discriminar entre as duas cores, o observa- todos astrônomos treinados, seus julga- dor tinha de escolher a tecla que liberar. As- mentos dos tempos dos trânsitos diferiam sim: devido a pequenas diferenças em seus tem- pos de reação. Para resolver o problema, TRE = TRS + tempo de discriminação fez-se a tentativa de "calibrar" um astrôno- + tempo de eleição mo em relação a outro por meio da deter- tempo de eleição = TRE minação da equação pessoal de cada um. (TRS + tempo de discriminação) Assim, se o astrônomo A fosse regularmen- tempo de eleição = TRE TRD te 0,12 segundo mais lento que o astrôno-</p><p>128 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA FIGURA 4.6 Experimento de tempo de reação em andamento na Clark University, Por razões óbvias, esse método foi cha- po de pesquisa exigia. No artigo, Cattell mado também de experimento da compli- descreve uma pesquisa feita com seu colega cação. No laboratório de Wundt foram rea- alemão Gustav Berger sobre os tempos de lizados diversos estudos que o utilizaram, reação simples, de discriminação e de elei- principalmente na década de 1880. Porém o ção. Essa pesquisa foi a base da tese de dou- método afinal foi descartado quando ficou torado apresentada por Berger a Wundt, so- claro que as pressuposições aditivas a ele bre os efeitos da intensidade do estímulo subjacentes eram demasiado simplistas. sobre o tempo de reação (Sokal, 1981b). Nos procedimentos acima mencionados, No primeiro experimento, Cattell e Ber- por exemplo, certas reações mais comple- ger deram tempos de reação simples a luzes xas deveriam ser mais longas que as menos de intensidade variável. experimento complexas, mas isso nem sempre se verifi- provavelmente foi montado de uma forma cava nos experimentos. Um dos alunos de parecida à que se vê na Figura 4.6 (foto ti- Wundt, Oswald Külpe (em quem nos dete- rada na Clark University em 1892). Con- remos adiante, neste mesmo capítulo), forme a descrição de Cattell, "o observador mostrou que alterar o procedimento acu- sentava-se, no escuro, e fixava o ponto em mulando discriminação e/ou eleição não que a luz apareceria por meio de um tubo apenas acrescenta mais elementos, mas mu- telescópico (1885/1948, p. 323). Cattell e da toda a experiência psicológica. Berger reagiram, cada um, 150 vezes a cada James McKeen Cattell (Capítulo 8), tal- um dos oito níveis de intensidade, desco- vez o mais conhecido dos alunos norte- brindo que o tempo de reação geralmente americanos de Wundt, foi um defensor en- diminuía à medida que a luz se tornava mais tusiástico do método do tempo de reação forte. Além disso, descobriram diferenças (Garrett, 1951). Ele iniciou a pesquisa individuais Cattell era quase sempre mais quando ainda estudava na Johns Hopkins, veloz. em Baltimore, e prosseguiu com ela após ir Berger e Cattell realizaram também outro para Leipzig, em 1883. A análise de um de experimento em que variavam a intensida- seus estudos (Cattell, 1885) ilustra muito de de um choque elétrico no antebraço es- bem a lógica do método do tempo de reação querdo, a fim de examinar o efeito no tem- e a grande atenção aos detalhes que esse ti- po de reação da mão direita. Mais uma vez,</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 129 o tempo de reação diminuía à medida que a o tempo é maior quando é necessário dis- intensidade aumentava, embora quando tinguir as cores antes de esboçar a reação. atingia o máximo "a reação provavelmente Podemos determinar esse tempo se, em vez era retardada porque o choque doía" (p. de reagirmos o mais rápido possível, o fizer- 325). Em seus resumos de dados, Cattell mos se ela for vermelha, mas não se for azul. anotou tanto a média quanto uma medida Assim, acrescentamos algo ao tempo simples de variabilidade (o desvio médio, um pre- de reação. Podemos ainda pedir ao sujeito cursor do atual Além disso, que levante a mão direita se a luz for verme- observe que há apenas dois observadores no lha e a esquerda, se for azul e, assim, tere- estudo: Berger e Cattell. Essa era uma situa- mos, além do tempo necessário à simples ção comum nos primórdios da psicologia reação e à distinção da cor, o tempo exigido experimental muito poucos participantes, para a opção entre dois movimentos. Os re- cada um contribuindo com um volume sultados dos experimentos realizados com grande de dados e nenhuma distinção níti- três intensidades de luz (V, III e I) são apre- da entre o que posteriormente se chamaria sentados na tabela. [Veja a Tabela (Cat- experimentador e sujeito. Além disso, não se tell, 1885/1948, p. 325) fazia a média dos dados de vários partici- pantes. Em vez disso, os dados de cada su- Como você pode ver, Cattell usou o sis- jeito eram relatados, e os demais sujeitos tema de Donders para chegar a seus tempos que porventura existissem serviam ao pro- de "percepção" (isto é, discriminação) e de pósito da replicação. "vontade" (isto é, eleição). Por exemplo, Depois de relatar os tempos de reação com Cattell como observador, quando a in- simples, Cattell descreveu a lógica do expe- tensidade do estímulo é V, rimento da complicação e, usando três das oito intensidades das luzes, apresentou os tempo de resultados do TR simples ("tempo de rea- discriminação = TRD TRS ção"), do TR com discriminação ("tempo de reação com percepção") e do TR com = 85 (isto é, 0,85 segundo) eleição ("tempo de reação com percepção e tempo de eleição = TRE - (TRS + tempo vontade"). Assim, o "tempo de percepção" de discriminação) equivale ao tempo de discriminação e o = 356 (189 + 85) "tempo de vontade", ao tempo de eleição. A = 82 (isto é, 0,82 segundo) seguir, sua descrição da lógica da complica- ção e dos dados: Como Külpe, Cattell posteriormente também criticou o experimento da compli- TABELA 4.1 Resultados de um experimento de complicação B[erger] C[attell] V III V III I Tempo de reação 189 218 273 189 209 303 Tempo de reação com percepção 238 293 373 274 328 417 Tempo de reação com percepção e vontade 287 320 393 356 388 495 Tempo de percepção 49 75 100 85 119 114 Tempo de vontade 49 27 20 82 60 78</p><p>130 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA cação, mas continuou vendo a utilidade do reação e fenômenos como o tempo de reco- método do tempo de reação na testagem de nhecimento de diferentes letras do alfabeto várias hipóteses acerca do processamento e o tempo de reação para associações ver- mental. Ou seja, ele por fim rejeitou o mé- bais (por exemplo, Cattell, 1886). Cattell todo da acumulação, mas manteve a ideia deixou também um relato minucioso do co- de que o tempo de reação poderia ser usado tidiano no laboratório de Wundt, parte do para comparar atividades mentais que dife- qual é transcrito a seguir no Close-Up des- riam em complexidade. Isso o levou a estu- te capítulo. dar as diferenças individuais no tempo de CLOSE-UP UM NORTE-AMERICANO EM LEIPZIG Em 1886, James McKeen Cattell (1860-1944) tornou-se o primeiro nor- te-americano a obter um Ph.D. em psicologia experimental em Leipzig sob a supervisão de Wundt (Benjamin, Durkin, Link, Vestal e Accord, 1992). Enquanto viveu em Leipzig, Cattell manteve um diário muito ri- em detalhes e escreveu frequentemente para os pais, nos Estados Uni- dos. Esse material foi cuidadosamente coletado, organizado e comentado pelo historiador da ciência Michael Sokal, que o publicou com o título de An Education in Psychology: James McKeen Cattell's Journal and Letters from Germany and England, 1880-1888 (1981b). livro constitui uma rica fon- te de informações sobre a vida nos primeiros anos do laboratório de Wundt em Leipzig. Cattell visitou Leipzig pela primeira vez numa viagem que fez pela Eu- ropa entre 1881 e 1882. Ele então passou o ano acadêmico de 1882-1883 na Johns Hopkins University, em Baltimore, estudando no laboratório criado por G. Stanley Hall (Capítulo 6). Retornou a Leipzig no outono de 1883 e obteve seu doutorado três anos depois. Aqui você conhecerá al- gumas de suas observações sobre o trabalho no laboratório de Wundt. A maior parte da pesquisa de Cattell tratava do problema do tempo de reação. Numa carta enviada aos pais em 1884, ele a descreve brevemente. Como outros que se dedicam à pesquisa básica que pode parecer banal aos não iniciados Cattell adota uma postura aparentemente defensiva, como se achasse que era necessário convencer os pais do valor do seu tra- balho: CARTA AOS PAIS, 8 DE OUTUBRO DE 1884 Na [minha eu determino o tempo exigido por processos mentais simples quanto tempo precisamos para ver, ouvir ou sentir alguma coisa para compreender, decidir, pensar. Talvez vocês não considerem isso as- sim tão interessante ou importante. Mas se quisermos descrever o mundo que é o objetivo da ciência -, sem dúvida o conhecimento preciso da men- te é mais importante que qualquer outra coisa. [...] Quando se está conven- cido que o conhecimento por si só vale a busca, certamente o conhecimen- to da mente é o melhor de todos. A importância da mente humana é infinitamente maior que a de qualquer outra coisa, pois de sua natureza de- pende o mundo inteiro.</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 131 Com relação ao meu trabalho em si certamente [...] é interessante sa- ber a rapidez com que o homem pensa pois é disso, e não do número de anos que ele vive, que depende a duração da sua vida. (p. 125) Ao que tudo indica, os pais de Cattell estavam preocupados com o ex- cesso de trabalho do filho durante sua permanência em Leipzig. Para tran- quilizá-los, ele descreveu um típico dia de pesquisa ao lado do colega Gustav Berger. Segundo Cattell, apenas parte do dia exigia o tipo de con- centração que poderia causar fadiga: CARTA AOS PAIS, 26 DE NOVEMBRO DE 1884 Berger voltou a trabalhar comigo esta manhã. Não acho que possa machu- car-me trabalhando se me exercitar [...] constantemente. Sem dúvida, ser- vir de sujeito nos próprios experimentos é cansativo, mas não faço isso o tempo todo. Quando um dia eu fico seis horas fazendo esse tipo de traba- duas eu passo cuidando dos aparelhos, preparando as coisas etc. Na verdade, é um trabalho bem fácil. E também, em duas das outras quatro ho- ras, meu colega é o sujeito e, aí, meu trabalho não tem nada de especial- mente difícil. Então, como vocês podem ver, eu só levo duas horas no tra- balho cansativo. Seria uma pena se, aos 25 anos, eu não tivesse condições de aguentar isso. (p. 141) A observação de Cattell sobre as duas horas dedicadas a cuidar dos apa- relhos indica a dificuldade inerente ao desenvolvimento de uma nova ciência. A maioria dos aparelhos vinha dos laboratórios de física ou fisio- logia ou tinha de ser inventada ali mesmo. Os problemas com eles eram uma fonte de irritação constante, como atesta a carta abaixo: CARTA AOS PAIS, 5 DE JANEIRO DE 1885 Berger chegou cedo hoje de manhã e começamos a trabalhar. Para variar, as duas baterias elétricas deram problema. Vocês não fazem ideia da con- fusão que esses aparelhos criam. A questão não é só conhecer física, mas ser um investigador original em física. Por exemplo, o Prof. Wundt achava que o campo magnético criado quando se passava uma corrente em torno de um pedaço de ferro maleável se estabelecia instantaneamente. Mas eu descobri que, com a corrente que ele usou, demora mais de um décimo de segundo. Todas as vezes que ele mediu deu esse tempo. Agora, o tempo ne- cessário à criação de magnetismo em ferro maleável simplesmente não tem nada que ver com psicologia. E, no entanto, se eu não tivesse dedicado um bom tempo a essa matéria, todo o meu trabalho estaria errado. E também é difícil encontrar quem faça os aparelhos da forma certa. [...] Tudo isso, ob- ter o aparelho e fazê-lo funcionar, é muito irritante quando se tem pressa. (pp. 151-52) Ao longo de toda a carreira, Cattell nunca pensou duas vezes antes de dizer o que achava, não tendo ficado conhecido nem pela modéstia nem pela tolerância. No comentário abaixo, feito perto do fim de sua estada em Leipzig, ele deixa claro o que pensava do laboratório de Wundt.</p><p>132 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA CARTA AOS PAIS, 22 DE JANEIRO DE 1885 Esta tarde trabalhei no laboratório de Wundt provavelmente pela última vez. laboratório de Wundt tem mais fama do que merece decididamente, o trabalho aqui é amadorístico. Só se trabalhou em duas áreas a relação entre o estímulo interno e a sensação [isto é, e o tempo do pro- cesso mental [isto é, tempo de reação]. Meu tema é a segunda comecei a trabalhar nela ainda em Baltimore [na Johns Hopkins], antes de ler uma pa- lavra escrita por Wundt e o que fiz lá era sem dúvida original. Tenho certe- za de que meu trabalho tem mais valor que tudo que foi feito por Wundt e seus alunos nessa matéria e, como disse antes, é uma das duas em que eles trabalham. E olhem que não acho que meu trabalho tenha nenhuma impor- tância especial só que, para mim, o de Wundt tem ainda menos. (p. 156) Reescrevendo a História: Um Hoje em dia, você só verá descrições co- Wilhelm Wundt Novo e Aperfeiçoado mo essas nas seções de capítulos que as usa- rem como exemplos de graves distorções ou No Capítulo 1, você viu que as histórias se simples erros. Nos anos de 1970, os histo- reescrevem constantemente, à luz de novas riadores começaram a analisar Wundt mais informações, novas maneiras de interpretar detidamente (por exemplo, Blumenthal, a informação, e assim por diante. A psico- 1975; Danziger, 1980; Leahey, 1979) e des- logia de Wundt é uma ilustração perfeita cobriram que os relatos tradicionais eram disso. Se você tivesse feito um curso de psi- problemáticos. Desde então, as histórias cologia há trinta anos, teria aprendido o se- passaram a apresentar descrições mais pre- guinte sobre Wundt: cisas da vida e da obra de Wundt. Colocam- se três questões: Como essas distorções Ele fundou a primeira "escola" de psi- ocorreram? Por que só foram descobertas cologia, chamada estruturalismo. recentemente? e que Wundt realmente o principal objetivo da escola de disse? Wundt era analisar o conteúdo da men- te reduzindo-a a seus componentes ou A Fonte do Problema elementos estruturais, tendo como mé- Parte da dificuldade decorre do fato de todo principal a introspecção dos con- Wundt haver escrito mais do que a maioria teúdos mentais. das pessoas ao longo da vida inteira. Além Ele na verdade não estava interessado disso, boa parte de sua obra não foi traduzi- na psicologia cultural; os dez volumes da do alemão. Por conseguinte, os que não de foram apenas um falam essa língua tendem a recorrer ao que passatempo secundário de um velho. se escreveu sobre Wundt, em vez de usar o filho intelectual de Wundt foi E. B. aquilo que ele próprio disse. A maioria dos Titchener, que disseminou o evangelho psicólogos norte-americanos conhece a his- do estruturalismo wundtiano nos Esta- tória da psicologia por meio de E. G. Bo- dos Unidos. ring, que, por sua vez, a aprendeu com Tit- Seu modelo da mente era semelhante chener, e aí está a raiz do problema. Como ao dos empiristas britânicos, ou seja, você verá no Capítulo 7, Titchener estudou ele não aceitava o conceito da mente dois anos com Wundt e obteve um Ph.D. como agente ativo, mas sim como re- em Leipzig em 1892. Depois ele seguiu car- sultado de experiências associativas reira acadêmica em Cornell, de onde divul- passivas. gou o evangelho do estruturalismo que é sua escola, não a de Wundt. Titchener tam-</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 133 bém traduziu vários dos livros do mestre e Até certo ponto, esse interesse pela história escreveu um longo obituário logo após a de Wundt é reflexo de um interesse maior morte deste (Titchener, 1921a). Em resu- pela história da psicologia. A segunda razão mo, Titchener tomou uma parte do trabalho é mais sutil e mostra outro motivo para que de Wundt e exagerou sua importância, ao a história seja continuamente reescrita. Co- mesmo tempo que minimizou ou ignorou mo você verá no Capítulo 14, na década de outras partes da sua obra. As distorções re- 1960, a psicologia cognitiva aconteceu. Ou fletem-se na forma como falava de Wundt seja, os psicólogos interessaram-se cada vez em suas aulas e nas traduções que fez de mais pelo estudo experimental dos proces- seus escritos. Não há nenhuma prova de mentais, tema que havia sido deixado de tentativa deliberada de distorção. Titchener lado nos Estados Unidos entre as décadas só estava enfatizando aquilo que tinha de 1930 e 1960, devido à influência do be- maior afinidade com seu próprio modo de haviorismo. Alguns estudiosos que conhe- pensar. Por exemplo, sua falta de interesse ciam a fundo a nova pesquisa cognitiva, no que não era psicologia experimental o principalmente Arthur Blumenthal e Tho- levou a fazer caso omisso do interesse de mas Leahey, perceberam relações entre a Wundt pela psicologia cultural, a ponto psicologia cognitiva dos anos de 1960 e a mesmo de chegar às espantosas afirmações, anterior psicologia wundtiana. Com efeito, no obituário que lhe dedicou, de que os dez alguns dos métodos da pesquisa cognitiva volumes de que custa- eram essencialmente cópias da pesquisa ram a Wundt mais de vinte anos de elabo- que havia sido feita em Leipzig, ainda que ração, eram pouco mais que "uma grata os novos pesquisadores aparentemente não ocupação para sua velhice" (Titchener, se dessem conta disso. Blumenthal e Leahey 1921a, p. 175) e de que "a ideia dominante começaram a examinar a obra de Wundt à na vida de Wundt [...] é a ideia de uma psi- luz da nova psicologia cognitiva e escreve- cologia experimental" (p. 175). ram artigos que mostravam as ligações en- Boring foi o mais famoso aluno de Tit- tre as duas (Blumenthal, 1975; Leahey, chener e o mais venerável dos historiadores 1979). A lição mais importante é que as his- norte-americanos da psicologia (veja o Clo- tórias às vezes são fortemente influenciadas se-Up do Capítulo 1). seu A History of Ex- pelo contexto histórico em que são produ- perimental Psychology, escrito em 1929 e re- zidas. Um dos efeitos da moderna psicolo- visado em 1950, foi o livro que informou gia cognitiva foi promover uma nova visão várias gerações de psicólogos e, até recente- de Wundt. Nos dias em que o behaviorismo mente, constituiu um modelo para outros imperava, esse reexame não poderia ter textos de história. Ele o dedicou a Titche- acontecido. ner, e o capítulo sobre Wundt contém mui- tas das distorções que Titchener perpetuou o Verdadeiro Wundt a respeito deste. A obra A visão tradicional, porém errônea, é que por exemplo, mal é mencionada. Wundt era um estruturalista. Mas agora não há dúvida de que uma das metas do seu A Redescoberta de Wundt trabalho de laboratório era identificar os Há duas razões para as ideias de Wundt co- elementos da experiência consciente meçarem a ser reexaminadas nos anos de diata. Afinal, ele era formado em medicina 1970. Primeiro, como você deve estar lem- e fisiologia e tinha uma propensão natural brado pelo que vimos no Capítulo 1, a his- para a classificação. Assim, entre seus es- tória da psicologia foi uma disciplina que critos experimentais havia descrições dos ganhou novo impulso sob a liderança de elementos básicos da consciência, que ele gente como Robert Watson a partir do fim dividiu em sensações e sentimentos. Além dos anos de 1960 e início dos anos de 1970. disso, cada um desses elementos poderia</p><p>134 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA ser subdividido em novas categorias. As nificativo. Wundt referia-se ao processo sensações, por exemplo, foram classifica- aperceptivo como uma das de acordo com dimensões como quali- conceito da apercepção de Wundt es- dade (por exemplo, as de diferentes cores), tava muito longe do associacionismo mais intensidade e duração. passivo. No entanto, ele reconheceu que al- Porém, a análise e a classificação eram as- guns elementos da experiência consciente pectos apenas secundários do sistema de de fato se combinam como associações pas- Wundt, sendo seu interesse por elas relati- sivas. Como diziam os associacionistas bri- Ele estava mais preocupado com a ma- tânicos, se vir John e Mary juntos com fre- neira como a mente organiza as quência suficiente, você logo vai pensar em cias com um ato da vontade. Wundt um quando vir o outro. Isso ocorre de ma- chamou seu sistema de voluntarismo para neira automática graças a uma associação indicar a natureza ativa da mente. Um dos que se forma passivamente. Por outro lado, conceitos centrais do seu sistema volunta- ocorre apercepção se, ao ver John e Mary, rista era o fenômeno da apercepção, termo você os colocar no foco de sua atenção e os que ele tomou emprestado do filósofo ale- perceber como um casal especial ou como mão Leibniz (Capítulo 2). Aperceber um duas pessoas que não combinam em evento é percebê-lo com toda a clareza e tê- Ou seja, você estará indo além das informa- lo sob o foco da atenção. Enquanto você ções dadas e percebendo-os de modo claro esta página, por exemplo, toda a sua aten- e significativo. ção e concentração (espero eu) estão nesta oração e no seu sentido. Ela está sendo o Legado de Wundt apercebida. As demais informações estão ocupando a periferia da sua atenção Como sua intenção era criar uma nova for- Wundt diria que elas estão sendo apreendi- ma de conceitualizar a psicologia, Wundt é das, mas não Assim, em qual- merecidamente considerado o primeiro quer momento dado, há informações que verdadeiro psicólogo da era moderna. Em- ocupam o foco da atenção e outras infor- bora seja difícil identificar um wundtiano mações que se encontram às margens. As entre os primeiros psicólogos norte-ameri- primeiras são apercebidas e as segundas, canos, ele teve forte influência sobre as ori- apreendidas. Além disso, a apercepção é um gens da psicologia nos Estados Unidos. Os processo que organiza ativamente as infor- norte-americanos que estudaram com mações em grupos que constituem um todo Wundt podem não ter se tornado discípulos significativo. Quando vemos a palavra seus, e Blumenthal (1980) sugere que a não percebemos três letras separada- maioria voltou para os Estados Unidos com mente, mas sim um único conceito que pa- pouco mais na bagagem que uma planta de laboratório e uma lista de equipamentos. ra nós tem sentido. A visão pode a princípio processar linhas e símbolos desprovidos de Entretanto, eles saíram de Leipzig conven- significado, mas a mente cria um todo sig- cidos de que havia algo de novo e emocio- nante no ar, algo do qual queriam fazer parte. A psicologia norte-americana rapida- 5. A diferença entre a apreensão e a apercepção foi mente assumiu contornos próprios, não componente-chave de uma importante teoria pro- wundtianos, porém boa parte de sua moti- posta por um dos mais famosos alunos de Wundt, vação provinha do exemplo deixado por o psiquiatra Emil Kraepelin (1856-1926). Kraepe- Wundt. lin criou o esquema para classificação de doenças mentais que deu origem à primeira descrição clara daquilo que hoje chamamos de esquizofrenia. Para maiores informações sobre Kraepelin, consulte o Close-Up do Capítulo 12.</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 135 A DIFUSÃO DA NOVA PSICOLOGIA processos da associação. Como você deve estar lembrado, vimos no Capítulo 2 que Não chega a ser surpreendente que Wundt eles consideravam a associação uma força não tenha detido o monopólio da nova psi- análoga à da gravidade na atração e ligação cologia. Como vimos no início deste capí- das ideias. Os filósofos britânicos conside- tulo, o ambiente da Wissenschaft criou um ravam a associação um componente essen- clima propício à criação de uma análise em- cial da estrutura organizacional da mente, pírica dos fenômenos psicológicos. Com mas divergiam quanto às suas leis básicas efeito, vários dos contemporâneos alemães (por exemplo, a contiguidade era suficiente de Wundt dedicaram-se a explorar essa no- para explicar as associações ou faziam-se va abordagem para compreensão da mente necessários outros princípios?). No caso de humana. Analisaremos três deles: Hermann Ebbinghaus, a proposta de Fechner para a Ebbinghaus, G. E. e Oswald Külpe. abordagem científica da mente aparente- mente promoveu um salto criativo. Se as sensações podiam ser medidas, por que não Hermann Ebbinghaus (1850-1909): outros processos mentais? Por que não a as- o Estudo Experimental da Memória sociação? Em algum momento do fim da Um dos efeitos indiretos de Elements of Psy- década de 1870, Ebbinghaus decidiu estu- chophysics, de Fechner, foi contribuir para o dar empiricamente a formação e a retenção lançamento do estudo experimental da me- das associações e em 1885 publicou Memo- mória. Isso ocorreu em meados da década ry: A Contribution to Experimental Psycholo- de 1870, quando o jovem filósofo alemão gy (1885/1964). Esse breve estudo (123 pá- Hermann Ebbinghaus topou com uma tra- ginas numa reimpressão de 1964), cujos resultados podem ser encontrados em di- dução inglesa do livro de Fechner num se- versos dos atuais livros-textos de psicologia bo de Paris. A eloquência de Fechner na de- geral, inaugurou uma tradição de pesquisa monstração de que a mente poderia ser que persiste ainda hoje. Como disse Ernest submetida a métodos científicos inspirou Hilgard na introdução a essa reimpressão de Ebbinghaus, que na época se dedicava ao 1964, o estudo experimental da problema filosófico da associação de ideias. aprendizagem e da memória, há uma fonte Pouco se sabe sobre os anos de formação que está acima de todas as demais: esta bre- de Hermann Ebbinghaus. Depois de con- ve monografia de Ebbinghaus" (Hilgard, cluir a escola secundária, ele estudou em di- 1964, p. vii). versas universidades e lutou por um breve Ebbinghaus (1885/1964) abriu seu livro período pela Alemanha na guerra franco- com uma consideração sobre as várias for- prussiana no início da década de 1870. Seus mas de memória e a dificuldade de estudar interesses acadêmicos passaram da história experimentalmente o seu processo, ressal- à filologia (o estudo histórico da língua) e tando que o pouco que se sabia sobre o te- daí à filosofia, na qual se doutorou pela Uni- ma provinha do senso comum e de exem- versidade de Bonn em 1873. Sua tese con- plos de "casos extremos e particularmente sistiu em uma análise da "Filosofia do in- espantosos" (p. 4). Quanto às questões fun- consciente de Hartmann". Ainda nos anos damentais acerca das relações exatas entre a de 1970, ele viajou pela Inglaterra e pela experiência e a memória, porém, "[a] essas França, descobriu o livro de Fechner no ca- e outras questões semelhantes ninguém po- minho e começou a pensar em como estu- de responder" (p. 5). Além disso, ele reco- dar a formação de associações. nheceu que, para poder estudar a formação Como filósofo, Ebbinghaus tinha pleno inicial de associações, seria preciso usar ma- conhecimento das análises que os associa- teriais com os quais não estivesse familiari- cionistas e empiristas britânicos faziam dos zado. Ebbinghaus percebeu que a memori-</p><p>136 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA zação de materiais com sentido, como tre- Não se sabe ao certo como Ebbinghaus chos de poesia ou prosa, seria um problema, chegou à ideia de usar sílabas sem sentido, pois eles já trariam consigo inúmeras asso- mas a análise de Hilgard (1964) é a que pa- ciações significativas que afetariam a velo- rece mais provável. Familiarizado com os cidade da aprendizagem. Num dos mais ex- pressupostos mecanicistas e atomísticos do traordinários atos de criatividade da empirismo/associacionismo britânico, Eb- psicologia, ele teve a ideia de usar materiais binghaus teria buscado a unidade mais sim- que, além de não se relacionarem uns aos ples possível que, ainda assim, permitisse outros de nenhuma maneira significativa, um grande número de estímulos. As letras e não tinham em si nenhum significado espe- os números existentes eram insuficientes, e cial. Ou seja, ele criou sílabas sem sentido, as palavras, demasiado significativas. As unidades compostas de três letras ou duas labas das palavras são a unidade consoantes com uma vogal no meio, perfa- vel mais simples da língua; portanto, seriam zendo um total de cerca de 2.300. uma opção lógica. o fato de Ebbinghaus ter Embora soubesse que algumas dessas sí- chamado seus estímulos de "sílabas" sem labas teriam sentido (isto é, soariam como sentido sugere que ele de fato estava pen- palavras completas), Ebbinghaus não esta- sando nessa redução a uma pequena unida- va muito preocupado com o fato. Além dis- de funcional. so, vale a pena lembrar que seu principal in- Depois de ter criado seu material, Eb- teresse era determinar como as associações binghaus (1885/1964) elaborou listas e, em entre sílabas inicialmente se formavam, e seguida, começou a memorizá-las. Ele as lia não a possível significação relativa de cada para si mesmo a um ritmo constante, com sílaba. Apesar de algumas sílabas poderem auxílio de um metrônomo ajustado para dar ter sentido, a probabilidade de que duas sí- 150 toques por minuto, posteriormente labas sucessivas estivessem significativa- substituído pelo tique-taque de um relógio. Ele considerava uma lista devidamente me- mente relacionadas uma à outra era remota. Gundlach (1986) chamou a atenção para o morizada "quando, à menção da primeira sílaba, a série fosse recitada na íntegra na fato de que uma das frases de Ebbinghaus foi traduzida para o inglês como "series of primeira tentativa, sem hesitação" (p. 23). Além disso, ele não fez "nenhuma tentativa nonsense syllables", ou série de sílabas sem de conectar as sílabas sem sentido por meio sentido, quando uma melhor tradução pro- da invenção de associações especiais de ca- vavelmente seria "meaningless series of syl- ráter mnemônico: a aprendizagem trans- lables", ou série não significativa de sílabas. correu com base exclusivamente na mera o fato de Ebbinghaus haver elegido como repetição do material com o intuito de gra- sua tarefa de memorização a aprendizagem vá-lo na memória natural" (p. 25). serial é mais uma indicação de sua intenção Como você certamente já deve ter perce- de analisar a concentração de associações bido, uma característica importante desse entre os elementos de uma sequência fixa. projeto é que Ebbinghaus era o único sujeito. A aprendizagem serial, na qual o desempe- Ele concluiu sua pesquisa após dois períodos nho correto requer a reprodução precisa de de um ano (1879-1880 e 1883-1884), tendo um conjunto de estímulos na ordem exata o segundo grupo de experimentos servido em que são apresentados, presta-se bem ao basicamente para replicar o primeiro. Além exame de associações existentes numa "sé- disso, a fim de adquirir proficiência na tare- rie não significativa de sílabas". fa, ele dedicou um "longo tempo" (Ebbing- haus 1884/1964, p. 33), de duração não es- 6. A frase aparece no final da página 24, no con- pecificada, à prática antes do início dos texto de uma comparação com a memorização de experimentos do primeiro período. Assim, poemas. por mais dois anos, Ebbinghaus dedicou boa</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 137 parte do seu tempo à memorização de listas é a imersão total no trabalho. Ebbinghaus de sílabas sem sentido (entre uma e duas ho- certamente é um exemplo disso. ras diárias em média), uma tarefa tediosa o Ebbinghaus descreveu os resultados de bastante, como ele mesmo admitiu, para oca- sua pesquisa em vários capítulos. Primeiro, sionalmente gerar "exaustão, dores de cabe- ele analisou a velocidade com que uma série ça e outros sintomas" (p. 55). Em apenas um de sílabas poderia ser memorizada enquan- dos grupos de experimentos, os que produ- to função do número de sílabas por lista. A ziram sua famosa curva do esquecimento classificação "rápida" equivalia ao número (veja adiante), ele memorizou mais de 1.300 de repetições necessárias para reprodução listas diferentes. Um dos atributos com que sem erros das sílabas da lista. Os resultados se costuma caracterizar os cientistas famosos são apresentados numa tabela (p. 47): Número de repetições Número de sílabas necessárias para Erro de uma série primeira reprodução provável sem erro (excluindo-se a mesma) 7 1 12 16,6 +/- 1,1 16 30,0 +/- 0,4 24 44,0 +/- 1,7 36 55,0 +/- 2,8 Aqui, duas coisas são dignas de nota. Em a facilidade de reaprender a lista 24 horas primeiro lugar, embora o fato de que listas depois era diretamente proporcional ao nú- mais longas precisem de mais repetições pos- mero de repetições originais. Além disso, sa ser lógico, essa era a primeira vez que al- descobriu que o desempenho de sua me- guém documentava, com precisão, a relação mória era melhor quando ele distribuía o exata entre a extensão do material a ser estudo ao longo do tempo que quando ten- aprendido e o esforço exigido para a apren- tava memorizar tudo de uma só vez. Ele dizagem. Em segundo, o esforço necessário chegou, inclusive, a fornecer a gradação da era pouco quando a lista era de apenas sete vantagem da prática distribuída sobre a prá- sílabas. Esse resultado tem sido recorrente na tica concentrada eram necessárias 68 re- história da psicologia experimental. A inves- petições em um dia para atingir efeitos tigação sistemática de George Miller (1956) iguais aos de apenas 38 repetições distri- desse "mágico número sete" tornou-se uma buídas ao longo de três dias. referência durante a ascensão da psicologia o mais famoso dos estudos realizados cognitiva (consulte o Capítulo 13). Você por Ebbinghaus voltava-se para a taxa de es- provavelmente se lembra de haver aprendido quecimento de informações que já haviam sobre o número "7 mais ou menos 2" no cur- sido aprendidas. Aqui, ele recorreu a um en- de psicologia geral, geralmente incluído genhoso procedimento que chamou de mé- na parte de memória, sob a rubrica de "capa- todo da economia, que lhe permitiu medir cidade da memória de curto prazo". a memória após a passagem do tempo, mes- Depois de demonstrar que as listas mais mo que nada pudesse ser lembrado depois longas demandam mais repetições, Ebbing- do intervalo. A lógica do método é descrita haus se pergunta se o aumento do número logo no início do livro: de repetições originais fortaleceria a memó- ria. Assim, repetiu listas de 16 sílabas 8, 16, Um poema é aprendido de cor e não volta a 24, 32, 42, 53 ou 64 vezes e descobriu que ser repetido. Suponhamos que após seis me-</p><p>138 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA ses ele tenha sido esquecido e que nenhum minutos, 15 minutos - ou 75% (15/20 X esforço consiga trazê-lo de volta à consciên- 100) do tempo de aprendizagem original cia, a não ser, talvez, fragmentos isolados, na eram economizados. melhor das hipóteses. Suponhamos que o Ebbinghaus relatou separadamente os re- poema seja novamente aprendido de cor. Tor- sultados de cada um dos 163 experimentos na-se evidente então que, embora tudo indi- (isto é, "testes duplos") que realizou ao lon- que que tivesse sido totalmente esquecido, de go dos diferentes intervalos de retenção. Os certo modo esse poema existe e de uma for- resultados desse estudo constam em quase ma que pode revelar-se eficaz. A segunda todos os livros-textos de introdução à psi- aprendizagem exige tempo perceptivelmente cologia do século XX. Eles são normalmen- menor ou número de repetições perceptivel- te apresentados em um gráfico como o da mente inferior ao da primeira. (p. 8) Figura 4.7 (embora em seu livro Ebbing- haus os tenha apresentado numa tabela). Para analisar os efeitos do tempo sobre a Os resultados são claros o esquecimento memória, Ebbinghaus memorizou listas de era muito rápido a princípio, mas depois sílabas, tentou reaprendê-las depois de de- ritmo diminuía. Assim, depois de apenas corrido um período predeterminado e apli- vinte minutos (1/3 de hora), a memória de cou seu método da economia para avaliar o Ebbinghaus retinha apenas cerca de 60% do resultado. Ebbinghaus registrou o tempo material aprendido; 40% se perdiam. De- total para a aprendizagem original das lis- pois de uma hora, perdiam-se 55% e, de- tas, que em geral consistia em cerca de vin- corrido um dia, cerca de 66%. te minutos, e o tempo para a reaprendiza- Um último exemplo do projeto de pes- gem. A aprendizagem original menos a quisa da memória de Ebbinghaus está em reaprendizagem fornecia uma medida da sua investigação das associações remotas. economia, que era convertida em porcenta- Quando as sílabas A, B e C devem ser apren- gem por meio da divisão pelo tempo da didas nessa sequência, formam-se associa- aprendizagem original. Assim, se esta levas- ções diretas entre A e B e entre B e C, mas se vinte minutos, e a reaprendizagem, cinco essas associações também se formam (re- 100 FIGURA 4.7 A curva do esquecimento de Ebbinghaus, construída com base em dados por ele apresentados numa tabela. 80 60 40 20 0.33 1 9 1 2 6 31 hora hora horas dia dias dias dias Tempo entre a aprendizagem e a reaprendizagem</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 139 motamente) entre A e C? Nesse caso, o con- da memória feita por Ebbinghaus no con- ceito de associação vai além da ideia de dois texto de sua época, uma avaliação mais ap- eventos contíguos. Ebbinghaus concebeu ta de sua relevância está na resenha retros- um procedimento inteligente para testar es- pectiva de On Memory que Roediger sas potenciais associações remotas. Primei- escreveu, exatos cem anos após sua publi- ro, aprendeu uma lista de 16 sílabas na or- cação: dem serial normal: Em suma, o corpus de resultados experi- LISTA mentais de Ebbinghaus é amplo. Conside- rando que ele só começou sua pesquisa no Em seguida, reaprendeu a lista saltando mesmo ano em que Wundt fundou seu labo- uma sílaba, da seguinte forma: ratório de psicologia e que, apesar de ter si- do o único sujeito de todos os experimentos LISTA B 3 5 7 9 11 13 2 4 6 8 10 que realizou, obteve resultados tão regulares e convincentes, seu feito é quase inacreditá- Por fim, reaprendeu a lista saltando duas sí- vel. (Roediger, 1985, p. 522) labas: Outras Contribuições de Ebbinghaus A pesquisa da memória foi a maior contri- buição de Ebbinghaus, mas não a única. Ele Caso estivesse havendo formação de asso- também foi pioneiro na área da testagem ciações remotas durante a aprendizagem mental, inventando em 1895 um teste de original das sílabas 1 a 16 (lista A), então a frases para completar cujo espírito era se- reaprendizagem das listas B e C seria mais melhante ao do teste de inteligência que Bi- rápida que a aprendizagem de uma nova lis- net viria a criar em seguida na França (con- ta de 16 sílabas, e foi exatamente isso que sulte o Capítulo 8). Ebbinghaus ocupou Ebbinghaus descobriu. Além disso, havia cargos acadêmicos nas universidades uma relação direta entre a facilidade da rea- de Berlim e Breslau, cujos laboratórios de prendizagem e o grau de distância das asso- psicologia criou, e de Halle, onde recons- ciações. truiu um laboratório que era inadequado. No Capítulo 13, você verá como se de- Em 1890, fundou a publicação Zeitschrift für senvolveu a moderna psicologia cognitiva. Psychologie und Physiologie der Sinnesorgane Uma de suas tendências recentes é a crítica (Revista de psicologia e fisiologia dos órgãos à estreiteza e ao artificialismo da "tradição dos sentidos). Enquanto os Philosophischen de Ebbinghaus". Para os atuais psicólogos Studien de Wundt eram essencialmente um cognitivos, quem memoriza na verdade es- meio de publicar os trabalhos realizados em tá processando ativamente informações, e seu laboratório de Leipzig, as páginas da não fortalecendo passivamente associações Zeitschrift de Ebbinghaus enchiam-se com com a repetição mecânica. Além disso, ho- as pesquisas de laboratórios de toda a Ale- je há mais na memória ecológica, manha. A variedade de interesses da revista que é a memória usada para eventos coti- e o prestígio de seus colaboradores gente dianos mais realistas, em vez de listas abs- como Helmholtz e G. E. levaram tratas. Um eminente pesquisador contem- um historiador a descrevê-la como "o órgão porâneo lamentou a "terrivel luta que nossa psicológico mais importante da Alemanha" área teve de empreender só para superar a (Shakow, 1930, p. 509). Além disso, Eb- sílaba sem sentido" (Kintsch, 1985, p. 461). binghaus escreveu dois conhecidos textos A crítica tem seu mérito, mas para o histo- de introdução à psicologia, inclusive a breve riador ela tem um tom claramente presen- versão (logo antes de sua morte repentina de tista. Por levar em consideração a pesquisa pneumonia em 1909) em que figura a famo-</p><p>140 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA sa frase de abertura, citada no início do Ca- ring na da visão de cores e o de Ebbinghaus pítulo 2: "A psicologia tem um longo passa- na da memória. No que se refere a esta últi- do, não obstante, sua verdadeira história é ma, foi um sucessor digno do vene- curta" (Ebbinghaus, 1908, p. 3). rável Ebbinghaus (Haupt, 1998). Durante a década de 1890, e seus alunos replicaram e explicaram muitos dos G. E. Müller (1850-1934): dados obtidos por Ebbinghaus, acrescen- o Protótipo do Experimentalista tando diversas melhorias metodológicas e Embora Wundt receba merecidamente os chegando a diferentes conclusões acerca da créditos pela fundação da psicologia experi- formação de associações. Enquanto Eb- mental, a psicologia de laboratório consti- binghaus concluiu que as associações for- tuía apenas uma pequena parte de seus inte- mavam-se automática e mecanicamente em resses. Este é um tema recorrente: muitos decorrência de estímulos como o número dos pioneiros da psicologia de laboratório de repetições e a extensão da lista e que o na verdade passaram pouco tempo dentro memorizador tinha um papel relativamente dele. Uma exceção é G. o experi- passivo no processo, acreditava que mentador dos experimentadores, que dedi- o indivíduo responsável pela formação das cou quarenta anos de sua vida profissional à associações tinha um papel mais ativo. A psicologia de laboratório na Universidade conclusão decorria de uma modificação no de Göttingen. De 1881 até sua aposentado- procedimento incluiu a introspec- ria, em 1921, teve um laboratório ção no processo, e seus observadores relata- que rivalizou com os demais laboratórios ram terem recorrido a diversas estratégias alemães em termos de qualidade da pesqui- ativas para aprender as sílabas sem sentido. sa produzida. Os estudos feitos no Viram-se, por exemplo, reunindo essas síla- rio eram conhecidos pela precisão, controle bas em grupos, organizando-as por diferen- experimental e atenção meticulosa aos deta- tes graus de sentido e, em geral, fazendo lhes. Se não é muito conhecido hoje bem mais que simplesmente associá-las por em dia, isso se deve ao fato de pouco do seu contiguidade. Esse resultado prefigurou a trabalho ter sido traduzido para o inglês. moderna forma de encarar a memória, que Além disso, grande parte de suas pesquisas postula que o aprendiz tem papel ativo no não chegou a inovar radicalmente; elas re- processo de memorização. plicavam e ampliavam sistematicamente as e seus alunos fizeram também al- pesquisas de outros. Assim, ele contribuiu gumas descobertas que foram além das de significativamente para ampliar o trabalho Ebbinghaus. Por exemplo, com Alfons Pil- de Fechner na área da o de He- zecker ele descobriu que, se uma segunda lista for aprendida entre a aprendizagem da lista 1 e a subsequente tentativa de reapren- 7. Não há nenhum parentesco com Johannes der essa mesma lista 1, a segunda lista in- ler, o famoso fisiólogo que você conheceu no Ca- 3. o sobrenome é muito comum na terfere com a reaprendizagem. Eles chama- Alemanha, assim como "Smith" nos países de lín- ram o de inibição retroativa, gua inglesa. dando início assim à longa linha de pesqui- 8. Segundo Boring (1950), E. B. Titchener suspen- sa que afinal produziu, na década de 1960, deu a publicação do segundo volume do seu famo- a teoria da interferência do esquecimento. so manual de laboratório (Capítulo 7) até que o Com outro aluno, Adolph Jost, des- manual de psicofísica de fosse publicado, cobriu que, se duas associações tiverem for- em 1903. Titchener teve de reescrever as partes re- lativas à psicofísica do seu livro depois do surgi- ça igual, a continuação da prática reforçará mento do de e, assim, o segundo volume do mais a mais antiga das duas que a associa- seu manual de laboratório só foi publicado em ção mais recente. Embora se baseasse em 1905, quatro anos depois do primeiro volume. indícios relativamente parcos, esse fenôme-</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 141 no posteriormente referido como lei de década de 1880. Em seguida, ele foi para Jost foi considerado importante enquanto Berlim, a fim de estudar história, e para parte da explicação da vantagem da prática onde um ano e meio no labora- distribuída sobre a prática concentrada, ou- tório de G. E. o convenceu de que tro fenômeno estudado no laboratório de sua carreira estava na psicologia. Külpe por (Woodworth, 1938). fim retornou a Leipzig e obteve um douto- Outra contribuição de ao estudo rado em 1887 sob a orientação de Wundt, experimental da memória foi a invenção do com quem permaneceu por mais sete anos, tambor de memória, que automatizava a ganhando a vida como Privatdozent e assis- apresentação de materiais de estímulo. tente do mestre no laboratório, onde suce- e seu assistente Friedrich Schumann deu a Cattell. Foi nesse período que ele co- engenhosamente modificaram um quimó- nheceu E. B. Titchener (Capítulo 7), que se grafo, um tambor ou cilindro rotativo ge- encontrava em Leipzig, e estabeleceu com ralmente usado para registrar dados (como este uma amizade que duraria toda a vida. o mostrado na foto do tempo de reação da Em 1894, Külpe foi convidado a ir para Figura 4.6). estímulos eram montados Würzburg, onde criou um laboratório por no tambor, que girava a uma velocidade fi- vezes considerado inferior apenas ao de xa, apresentando-os sucessivamente con- Wundt e certamente comparável ao de forme decorresse o tempo estabelecido ler em Göttingen. Foi em Würzburg que (Popplestone, 1987). Assim, o procedimen- Külpe criou uma psicologia experimental to tornou-se mais preciso. Os tambores de diferente o bastante para ser chamada de memória foram equipamento padrão dos la- "escola de Würzburg", a qual veio a inves- boratórios até os anos de 1990, quando a tigar temas e produzir resultados que o in- apresentação computadorizada de estímu- compatibilizaram tanto com seu mentor, los se tornou mais eficaz. Wundt, quando com o amigo Titchener. Wundt havia declarado os processos Um último ponto a destacar é que, embo- mentais superiores (como a memória e o ra a Universidade de Göttingen não forne- pensamento) fora da alçada da pesquisa de cesse diplomas avançados a mulheres, Mül- laboratório, pois os julgava demasiado com- ler acolheu em seu laboratório diversas plexos e influenciados pela língua e cultura distintas psicólogas norte-americanas, entre do sujeito para poderem ser adequadamen- as quais Christine Ladd-Franklin, de Co- te controlados. Em vez disso, deveriam ser lumbia (Capítulo 6), Lillien Martin, de Stan- investigados com métodos não laborato- ford, e Eleanor Gamble, de Wellesley. Como riais, ficando o laboratório restrito a temas você verá no Capítulo 6, as mulheres enfren- como a sensação/percepção e a cronometria tavam diversos obstáculos para obter forma- mental. No entanto, Ebbinghaus e ção acadêmica. Embora esse fosse o caso es- haviam conseguido controlar as condições pecialmente nos Estados Unidos, também se razoavelmente bem em seus estudos sobre a verificava na Europa. colocou-se memória. Todavia, caberia a Külpe desafiar muito à frente do seu tempo ao reconhecer seu antigo mentor diretamente ao estudar que as mulheres eram capazes de conduzir em laboratório processos mentais como o do pesquisas experimentais de alta qualidade. pensamento e ampliar significativamente o procedimento da introspecção. Oswald Külpe (1862-1915): Külpe publicou pouca pesquisa experi- A Escola de Würzburg mental em seu próprio nome, mas supervi- sionava seus alunos de perto e de uma ma- Depois de flertar com a história e a filosofia, neira que lhes resultava agradável. De Oswald Külpe interessou-se pela psicologia acordo com Robert Ogden, um dos seus ao fazer um curso com Wundt no início da alunos norte-americanos, Külpe</p><p>142 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA participava intimamente de tudo que se pas- vra que lhe ocorresse após ouvir a palavra- sava em seu laboratório. Para ele, era uma estímulo, a tarefa foi fracionada nas seguin- questão de princípio atuar como observador tes partes: "a preparação para o experimen- no trabalho experimental de seus alunos. No to, a aparição da palavra-estímulo, a busca caso do meu próprio estudo, [...] ele vinha da palavra-reação (se essa busca ocorresse) quase que diariamente ao laboratório e ali e, finalmente, o surgimento da palavra-rea- permanecia horas que só poderiam ser mui- ção" (Watt, 1904, citado por Sahakian, to cansativas, graças à tarefa de memorizar 1975, p. 162). sílabas sem sentido. Sua influência sobre os Külpe acreditava que estava aperfeiçoan- alunos jamais foi dominadora. Pelo contrá- do o procedimento da introspecção ao per- rio, juntos eles se dedicavam à tarefa comum mitir a sua aplicação aos processos mentais da descoberta (Ogden, 1951, p. 9) superiores, mas Wundt rejeitou a técnica de Würzburg, acusando-a de não ser outra coi- Para estudar os processos de raciocínio sa senão a auto-observação assistemática no laboratório, Külpe julgou necessário ex- que rejeitara anos antes. Assim, por julgar pandir o conceito wundtiano da introspec- que os resultados da pesquisa de Würzburg ção. Lembre-se de que Wundt distinguia baseavam-se em métodos precários, Wundt entre a "auto-observação"- na qual se vi- os descartou. Que resultados eram esses? vencia um evento e, então, descrevem-se de memória os processos mentais nele ocorri- Predisposições Mentais e dos e a "percepção interior", um procedi- Pensamentos sem Imagens mento introspectivo mais controlado, no A pesquisa de Würzburg sobre o pensa- qual estímulos simples são apresentados mento gerou diversos resultados surpreen- muitas vezes (isto é, replicados) e as reações dentes. Por exemplo, em um estudo de Nar- se verificam imediatamente após a apresen- ziss Ach, apresentaram-se aos observadores tação desses estímulos. Para Wundt, apenas pares de números depois de instruí-los a o segundo procedimento era aceitável em realizar alguma operação específica (por laboratório. Porém no laboratório de Külpe exemplo, adicioná-los ou Ach a introspecção, que veio a chamar-se in- mediu o tempo de reação e também solici- trospecção experimental sistemática, era tou introspecções detalhadas. o que ele mais como o conceito Wundtiano da auto- descobriu foi que o tempo de reação era 0 observação. Os observadores vivenciavam mesmo, independentemente do tipo de eventos mais complexos que no laboratório operação solicitado aos sujeitos, e que estes de Wundt e, em seguida, relatavam em de- relataram não detectar nenhuma percepção talhes os processos mentais envolvidos. Is- consciente das instruções em si depois do criava um potencial problema de memó- início da tarefa. Em outras palavras, depois ria porque, como assinalou posteriormente de receberem as instruções, sua mente se Woodworth (1938), a experiência mental "preparava" para funcionar de uma deter- de um evento de dez segundos pode exigir minada forma (por exemplo, somar), de dez minutos de descrição. Para contornar o maneira que, depois da apresentação do par fato de que o relato introspectivo de um de números, a adição se processava auto- evento complexo está sujeito à distorção da maticamente e sem mais reflexão. Assim, as memória, Külpe e seus alunos criaram um instruções criavam o que os pesquisadores procedimento chamado fracionamento, de Würzburg chamaram de tendência de- uma divisão da tarefa em suas partes com- terminante ou predisposição mental. Esse ponentes, cada uma das quais poderia ser conceito viria a ter importância para os psi- introvertida. Por exemplo, em um estudo cólogos gestaltistas alemães (Capítulo 9). A de Watt sobre associação de palavras no ausência de diferença no tempo de reação qual o sujeito deveria dizer a primeira pala- também era significativa, pois a usou</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA GERMÂNICA 143 para questionar a validade do pressuposto do conteúdo mental revelaria a existência subtrativo subjacente aos experimentos de dos elementos básicos da experiência cons- cronometria mental que tanta importância ciente (veja mais a respeito de Titchener no tinham no laboratório de Leipzig. Ele argu- Capítulo 7). Contudo, se alguns pensamen- mentou que, como as instruções criam uma tos ocorriam sem imagens, nem todo predisposição mental, o tempo de reação de pensamento poderia ser reduzido aos ele- discriminação não poderia ser igual ao tem- mentos. A controvérsia gerada pelos pensa- po de reação simples mais o evento mental mentos sem imagens jamais se resolveu, mas da discriminação. Em vez disso, o TRD re- seu efeito colateral mais importante foi le- sulta de um tipo de "predisposição" dife- vantar questões sobre a validade da intros- rente do TRS. pecção como método e contribuir para abrir Uma segunda descoberta importante, e caminho para um movimento novo e radical controversa, do laboratório de Würzburg na psicologia: o behaviorismo, sobre o qual diz respeito ao fenômeno do pensamento você aprenderá nos Capítulos 10 e 11. sem imagens. Segundo Titchener (e Wundt), a análise minuciosa dos processos do pensamento revela que o elemento es- EM PERSPECTIVA: sencial em todo raciocínio é algum tipo de UMA NOVA CIÊNCIA imagem. Segundo a descrição padrão de um experimento psicofísico de levantamento de A nova psicologia de laboratório que surgiu peso, por exemplo, o observador levantava na Alemanha logo chamou a atenção de vá- um peso e dele formava uma imagem cines- rios intelectuais norte-americanos, em par- tésica. Em seguida, levantava o segundo pe- ticular de William James, G. Stanley Hall e e comparava a sensação que tinha dele à James McKeen Cattell. Os três visitaram la- imagem do primeiro, para decidir se os pe- boratórios alemães ou, no caso de Cattell, SOS eram iguais ou diferentes. o processo de obtiveram um Ph.D. em um. Você terá mais julgamento abrangia os componentes senso- informações sobre esses pioneiros nos Ca- riais e imagéticos dos dois pesos. Contudo, pítulos 6-8. Inúmeros outros estudantes em um estudo de levantamento de peso rea- norte-americanos seguiram-lhes os passos, lizado por Karl Marbe, nenhuma sensação obtendo doutorados no laboratório de Leip- nem imagem ocorria no momento do julga- zig e em outros e voltando para casa entu- mento. Os observadores relataram sensa- siasmados com a ideia de tornar a psicolo- ções e imagens enquanto levantavam os pe- gia uma ciência. Além disso, com base no sos, mas o julgamento aparentemente espírito alemão da Wissenschaft, nos trinta transcorria de maneira automática e sem a últimos anos do século XIX criaram-se di- presença de imagens. Ou seja, o julgamento versas universidades nos Estados Unidos era um pensamento sem imagens. Além dis- (por exemplo, a Johns Hopkins) com labo- so, os observadores de Marbe relataram ou- ratórios que imitavam os alemães. Portanto, tros processos mentais ocorridos logo antes a psicologia norte-americana deriva do mo- do julgamento, mas tampouco esses pare- vimento iniciado por Wundt. Mais generi- ciam a sensações ou imagens. En- camente, se poderia dizer que a nova disci- tre esses processos estavam a hesitação, a plina teve como pais dois grupos distintos dúvida e a vacilação, coletivamente referidas os filósofos que você viu no Capítulo 2 e os como atitudes conscientes. fisiólogos, abordados no Capítulo 3. Mas às A potencial existência de pensamentos vezes a paternidade é algo meio delicado, e sem imagens, predisposições mentais e ati- no caso da psicologia há um terceiro envol- tudes conscientes representava uma ameaça vido a biologia darwiniana. Darwin e sua especialmente séria ao colega de Külpe, Tit- influência sobre a psicologia moderna são o chener, o qual acreditava que a análise de to- foco do Capítulo 5.</p><p>144 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA RESUMO A FORMAÇÃO NA ALEMANHA ser submetidos a controle e replicação experi- No século XIX, diversos alunos norte-america- mentais, os processos mentais superiores (por nos ingressaram nas universidades europeias, exemplo, a linguagem) deveriam ser estudados principalmente nas para estudar as ciên- por meio de métodos não laboratoriais (por cias. Na segunda metade do século, muitos alu- exemplo, a observação). nos foram para a Alemanha, em especial para No laboratório de Wundt, a maior parte da pes- Leipzig, para estudar a nova abordagem da psi- quisa dizia respeito aos processos sensoriais e cologia que ali estava sendo desenvolvida. perceptuais básicos. o laboratório produziu tam- o sistema educacional alemão promovia a filoso- bém um grande volume de estudos de "crono- fia da Wissenschaft, que enfatizava a originalida- metria mental", os quais procuravam medir 0 de da pesquisa e a liberdade Assim, tempo exigido por várias atividades mentais. Ja- mes McKeen Cattell, um aluno norte-americano criou-se um ambiente propício a novas ideias, entre as quais a de uma nova psicologia. e o primeiro assistente oficial de Wundt nesse la- boratório, conduziu muitos desses estudos de NO LIMIAR DA PSICOLOGIA "complicação", que empregavam o método de EXPERIMENTAL: A PSICOFÍSICA subtração desenvolvido por F. C. Donders. A recente pesquisa acadêmica histórica revelou A psicofísica é o estudo da relação entre os estí- sérias distorções nos relatos tradicionais das mulos físicos e a reação psicológica que provo- ideias de Wundt. Em vez de ser um estruturalis- cam. A primeira pesquisa na área foi conduzida ta que buscava reduzir a consciência a seus ele- por Ernst Weber, que investigou a sensibilidade mentos básicos, Wundt estava mais interessado relativa de várias áreas da superfície do corpo na capacidade que a mente apresenta de organi- usando o limiar de dois pontos. Nos experimen- zar ativamente as informações. Um dos seus tos em que os observadores comparavam dois pe- principais interesses estava no processo da aper- Weber descobriu que a capacidade de distin- cepção, isto é, a percepção ativa, atenta e signifi- guir entre eles dependia de diferenças relativas, e cativa de um evento. Wundt chamou seu sistema não absolutas, entre suas massas (lei de Weber). de voluntarismo, visando frisar a natureza ativa Gustav Fechner aprofundou a pesquisa de We- do processamento mental. ber, e seu Elements of Psychophysics é considera- do o primeiro texto de psicologia experimental. A NOVA PSICOLOGIA SE DIFUNDE Embora mais interessado em usar sua pesquisa Um dos mais importantes programas de pesqui- para derrotar o materialismo, Fechner é conheci- sa já levados a cabo na história da psicologia foi do por ter desenvolvido diversos métodos psico- o estudo da memória empreendido por Hermann físicos importantes, muitos dos quais estão em Ebbinghaus. Para investigar o desenvolvimento uso hoje em dia (limites, estímulos constantes e de novas associações entre estímulos não asso- ajuste), e pela sua precisão ao medir limiares ab- ciados, ele inventou sílabas sem sentido. Ebbing- solutos e diferenciais. haus mediu a retenção em termos do esforço "economizado" na reaprendizagem. Sua famosa WUNDT CRIA UMA NOVA curva do esquecimento mostrou que este se veri- PSICOLOGIA EM LEIPZIG fica a um ritmo muito rápido logo após a apren- Wundt é geralmente conhecido como fundador dizagem inicial, mas em seguida esse ritmo decai. da psicologia experimental. Ele deliberou-se a G. e seus alunos ampliaram considera- criar uma nova psicologia que utilizasse os méto- velmente a pesquisa existente na época sobre a dos experimentais da fisiologia e fundou o pri- visão de cores, a pesquisa de Fechner sobre a psi- meiro laboratório de psicologia experimental e a cofísica e a pesquisa de Ebbinghaus sobre a me- primeira publicação científica voltada especifica- mória. Acrescentando a introspecção aos experi- mente para a divulgação dos resultados da pes- mentos com as sílabas sem sentido, ele quisa da psicologia. argumentou que a memória era um processo ati- A nova ciência de Wundt envolvia o estudo da vo, e não o acúmulo passivo de força associativa. experiência consciente imediata sob condições foi o primeiro a identificar a inibição re- controladas em laboratório. Como não podiam troativa (isto é, o esquecimento em decorrência</p><p>WUNDT E A PSICOLOGIA 145 da interferência de eventos ocorridos entre a estudar o pensamento em laboratório e liberali- aprendizagem inicial e o desempenho) e o inven- zar o método da introspecção. Em suas pesqui- tor do tambor da memória. sas, eles encontraram indícios de predisposições Oswald Külpe e seus alunos criaram a escola de mentais, pensamentos sem imagens e atitudes psicologia de Würzburg, que desafiou Wundt ao conscientes. BIBLIOTECA SEDES/UVV/ES QUESTÕES PARA ESTUDO 1. Descreva a filosofia educacional da Wissens- de voluntarismo e mostre como o conceito de chaft que se desenvolveu na Alemanha ao lon- apercepção era importante para ele. go do século XIX. Quais foram as suas implica- 10. o que eram as sílabas sem sentido, por que Eb- ções para a psicologia? binghaus as usou e qual o objetivo geral do seu 2. Mostre como os três métodos psicofísicos de projeto de pesquisa? Fechner podem ser usados para determinar um 11. Em que consistia o método da economia e por limiar de dois pontos. que representava uma maneira tão criativa de 3. Descreva a lei de Weber e o conceito de dmp. estudar a memória? 4. Por que Wundt, e não Fechner, é considerado o 12. Descreva três das conclusões da pesquisa de fundador da moderna psicologia experimental? Ebbinghaus. 5. Descreva as contribuições de Wundt à psicolo- 13. Diga em que a visão da memória de gia antes de sua chegada a Leipzig. ler diferia da de Ebbinghaus. Por que 6. o conceito que Wundt tinha da psicologia é considerado o "protótipo" do experimenta- abrangia dois principais programas. Descreva lista? cada um deles. 14. Defina a versão de Külpe da introspecção e co- 7. Descreva como Wundt (e outros) usaram o mo essa ocorria nos processos mentais com- tempo de reação para medir a duração de vários plexos. eventos mentais. Em que aspecto o método era 15. Como a predisposição mental foi investigada falho? no laboratório de Külpe e quais as implicações 8. Descreva e critique o relato tradicional do "sis- das descobertas para o experimento da compli- tema" de Wundt. Como surgiram as distorções? cação? 9. Explique por que Wundt chamou seu sistema 16. Em que consistia um pensamento sem imagens e como foi estudado no laboratório de Külpe? LEITURA SUPLEMENTAR BLUMENTHAL, A. L. (1975). A reappraisal of Wi- famosos experimentos de Ebbinghaus; a edição da Do- lhelm Wundt. American Psychologist, ver possui um útil prefácio de Ernest Hilgard; uma 30, 1081-1086. boa resenha retrospectiva do livro pode ser encontra- da em Roediger (1985). Provavelmente o mais citado dentre os artigos surgi- dos nos anos de 1970 que apontavam os erros nos re- LEAHEY, T. H. (1981). The mistaken mirror: On latos tradicionais sobre Wundt; estabelece compara- Wundt's and Titchener's psychologies. Journal of ções entre a pesquisa e as teorias deste e conceitos the History of the Behavioral Sciences, 273-82. modernos da psicologia cognitiva. Descrição clara dos sistemas psicológicos de Wundt e EBBINGHAUS, H. (1964). Memory: A contribution to de Titchener, destacando suas diferenças e chamando experimental psychology (Trad. H. A. RUGER e C. a atenção para as falácias que se criaram com os A. BUSSENIUS). Nova York: Dover. (Obra origi- anos; mostra como as filosofias da ciência de Wundt e nalmente publicada em 1885) Titchener eram radicalmente diferentes (para Wundt, a estava na causalidade e para Titchener, na Relato breve (123 páginas) e de leitura muito fácil dos descrição).</p>

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