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LITERATURA COMPARADA

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<p>Contexto e fundamentos teóricos da literatura comparada Prof. Rodrigo Jorge Ribeiro Neves Descrição Você vai entender o contexto e os principais fundamentos da literatura comparada como disciplina. Propósito A literatura comparada é um dos principais campos do saber não apenas dos estudos literários, mas também das Humanidades. Conhecer sua história e entender sua metodologia é fundamental, especialmente para o estudioso da língua, para a compreensão dos aspectos centrais da sociedade e da experiência humana. Objetivos Módulo 1 Surgimento e desenvolvimento da literatura comparada</p><p>Identificar o panorama histórico da literatura comparada como disciplina e campo do saber. Módulo 2 Fundamentos da análise comparatista Analisar os principais fundamentos conceituais do método comparatista. Introdução Há um ditado popular que diz: "Nada se cria, tudo se copia". Será verdade mesmo? Afinal, o que é a criação sem as referências que a antecederam? Se tudo já foi escrito e dito, e apenas estamos repetindo as mesmas palavras, então por que continuar criando? Seria a história da literatura, e, por extensão das artes, uma galeria interminável de cópias e imitações? Essas e outras questões estão entre os temas da literatura comparada, campo do saber que busca analisar as relações entre os textos de diferentes origens, formas e funções, a partir de um conjunto de métodos baseado na comparação. A literatura comparada, em princípio, lidava exclusivamente com a análise sincrônica e diacrônica de textos literários produzidos em línguas diferentes, sendo, portanto, mais vinculada ao estudo comparatista das chamadas literaturas vernáculas. Depois de algumas mudanças e crises, com o tempo a área de atuação da literatura comparada se ampliou e passou a abarcar outros tipos de textos, literários e não literários, bem como outros temas e questões, ainda que os elementos dispostos na comparação estejam no mesmo idioma. Como veremos, todo esse esforço foi fruto de um processo, marcado, especialmente, pelo Seminário Latino-americano de Literatura Comparada, que "veio ao encontro de uma demanda</p><p>reprimida, para usarmos um termo do mercado de produção. Isso porque em toda a América Latina - e não só no Brasil - praticava-se largamente o comparatismo, como forma natural de contrastar uma literatura nova com aquelas já consolidadas e de onde é oriunda" (CARVALHAL, 2012, p. 2). Neste conteúdo, estudaremos alguns dos principais aspectos que tratam do surgimento e da formação da literatura comparada, como os diálogos culturais com os países europeus no século XIX, o desenvolvimento da disciplina no século XX e a sua história aqui no Brasil. Também abordaremos os fundamentos da análise comparatista, considerando seus principais conceitos, como o de tradição, influência e intertextualidade. 1 - Surgimento e desenvolvimento da literatura comparada Ao final deste módulo, você será capaz de identificar 0 panorama histórico da literatura comparada como disciplina e campo do saber. Origens da literatura comparada: a Europa do séc. XIX Neste vídeo, falaremos sobre o contexto e os fatos históricos responsáveis pelo nascimento da literatura comparada no século XIX.</p><p>Para assistir a um vídeo sobre o assunto, acesse a versão online deste conteúdo. Vamos começar por uma cena que você, muito provavelmente, já presenciou ou até mesmo participou: a discussão acalorada diante de uma partida de futebol ao se comparar a equipe em campo, com a equipe, do mesmo clube, de décadas Você consideraria possível uma comparação razoável? A literatura comparada tem um princípio semelhante, especialmente se levarmos em conta algumas de suas principais tendências contemporâneas. Mas antes de chegarmos a essas tendências, talvez fosse mais adequado dar um salto para trás, lá para o início quando a ideia de comparação entre literaturas começa a surgir. Do que estamos tratando quando nos referimos à "literatura comparada"? que estamos comparando? Como comparamos? De onde e quando surgiu essa necessidade de comparação? Não entraremos no mérito ainda da comparação em si, mas da origem do método comparatista e qual seria sua finalidade. A literatura comparada surgiu em meados do século XIX, em um período de desenvolvimento de métodos científicos de comparação entre elementos semelhantes, seja na filosofia, nas ciências naturais ou na medicina. o objetivo era encontrar, a partir do método comparativo, alguns aspectos em comum que permitissem aos pensadores e cientistas encontrar leis gerais em torno de seus objetos de investigação. que há entre eles que permite funcionarem de um modo específico e não de outro? Há algum elo que explique essa relação? Conheça alguns dos principais títulos da época que faziam uso do comparatismo (CARVALHAL, 2006, p. 9): 1800 Lições de anatomia comparada, de Jorge Cuvier.</p><p>1804 História comparada dos sistemas de filosofia, de Joseph-Marie Degérando. 1833 Fisiologia comparada, de Henri- Marie Blainville. E a literatura? Onde entra nisso? Os estudos literários na época vão ser bastante influenciados pela tendência do método comparatista em outros campos do saber. E qual seria a especificidade da literatura? que ela tem que a distingue desses demais campos? Está bem na sua frente! Isso mesmo, a língua! A literatura, em síntese, é o modo como determinada língua funciona, portanto, se falamos de literatura comparada, os elementos de comparação partem das línguas diferentes nas quais as respectivas literaturas se manifestam. Um dos livros representativos dessa fase é o de Madame de Stäel (1766-1817), cujo título é Da Alemanha: da literatura considerada em suas relações com as instituições sociais, de 1800. Perceba que a palavra que remete ao método comparatista aqui é "relações".</p><p>Madame de Stäel. A literatura comparada nasceu na França, por volta de 1830 (COUTINHO; CARVALHAL, 1994), especialmente pelo fato de a literatura francesa, naquele período, exercer uma influência maior em relação às outras literaturas. E foi justamente nas universidades francesas que a literatura comparada surgiu como parte da grade de formação: em 1887, em Lyon, e em 1910, na Sorbonne. Mais ou menos no mesmo período, cabe destacar, o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe utilizou o termo weltliteratur, ou seja, "Literatura Mundial", para se referir à ideia de universalidade de uma obra literária a partir do momento em que se torna possível a sua tradução. Johann Wolfgang von Goethe.</p><p>Talvez para o leitor contemporâneo não passe de uma obviedade, já que existem traduções de livros de diversos idiomas diferentes, desde o inglês, espanhol e francês até o árabe, russo e persa. No entanto, essa noção de circulação de obras escritas em um idioma e traduzidas para outro, na realidade, passa a se desenvolver no ambiente cosmopolita europeu do século XIX, em um momento de consolidação dos Estados- nação e, portanto, de uma ideia de nacionalidade, iniciado no século anterior por influência do iluminismo. Para você ter uma noção da importância desse debate, há uma história curiosa envolvendo o Fausto, de Goethe, uma de suas obras mais famosas. Os versos foram traduzidos para o francês pelo poeta Gérard de Nerval, um admirador do trabalho do alemão. Dizem que Goethe achou seu Fausto bem mais bonito em francês do que em alemão. Seguindo nossa perspectiva de comparações literárias, o que Goethe teria dito da obra Mephisto, de Klaus Mann? Ou ainda, do filme homônimo, dirigido por István ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro - Hungria -, em 1982? Mephisto, István 1981. 0 desenvolvimento da disciplina ao longo do século XX Neste vídeo, falaremos sobre os autores que se tornaram referências no desenvolvimento da literatura comparada.</p><p>Para assistir a um vídeo sobre o assunto, acesse a versão online deste conteúdo. A literatura comparada veio mesmo para ficar. Não por acaso, até hoje ela não apenas ocupa parte importante da formação de todo profissional da área de letras, mas também de vários outros campos do saber. Em algumas instituições, por exemplo, há diálogos até mesmo com áreas como economia e medicina. A concepção metodológica comparatista surge no âmbito do desenvolvimento das principais vertentes científicas e filosóficas do século XIX, mas talvez o que não imaginaríamos é que a literatura comparada ocuparia um lugar de destaque como influenciadora também dessas vertentes durante sua fase de formação e consolidação, no século XX. Então, a literatura comparada assume de vez seu espaço como disciplina nos cursos das principais universidades na Europa e nos Estados Unidos, já apresentando uma série de referências bibliográficas fundamentais. Na época, havia uma discussão metodológica sobre quantos termos deveriam entrar na "equação" para se considerar literatura comparada, ou seja, quantos países entrariam na conta, já que o principal objeto de investigação ainda eram as literaturas vernáculas. Para os franceses, apenas dois países seriam analisados: um escritor alemão com um espanhol ou um francês com um inglês, por exemplo. No entanto, houve uma reação de pesquisadores das instituições norte- americanas. Ora, por que apenas dois países? Qual seria a diferença fundamental que permitiria apenas a comparação entre duas literaturas de idiomas distintos? alemão Henry H. H. Remak, professor de estudos germânicos e literatura comparada na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, foi um dos questionadores. interessante na indagação de Remak (1994) é que, ao confrontar essa noção fechada da disciplina, ele colocou em pauta uma nova dimensão metodológica que se abria para o diálogo não apenas com mais de uma literatura, mas também de outros campos do saber.</p><p>Henry H. H. Remak. Parece atual, não é? Sim, de certo modo essa concepção metodológica defendida por Remak, guardadas todas as devidas diferenças históricas e culturais, é bem próxima do que se faz hoje entre os comparatistas. Como síntese das principais discussões sobre o que pode a literatura comparada, podemos considerar: 66 Literatura comparada é a comparação de uma literatura com outra ou outras e a comparação da literatura com outras esferas da expressão humana. (REMAK, 1994, p. 175) Hoje em dia a literatura comparada não se restringe apenas às literaturas vernáculas. Dentro de uma mesma língua, você pode aplicar o método comparatista, até mesmo com um mesmo escritor. Bem, mas voltemos ao século XX e ao período de desenvolvimento da disciplina. Como vimos, a literatura comparada surge na França. Uma das publicações periódicas pioneiras do campo é a Revue de Littérature Comparée, fundada por Fernand Baldensperger e Paul Hazard, em 1921. É importante destacar, dessa época, a predominância de duas prescrições que vão dar forma à boa parte dos estudos comparatistas do século XX. Vamos conhecê-las!</p><p>REVUE LITTÉRATURE COMPARÉE F. BALDENSPERGER P. HAZARD . La nature des choses est plus per cette que of do not live is light and from each other's - 1922 Revue de Littérature Comparée, Fernand Baldensperger e Paul Hazard, 1921. A primeira prescrição teórico-metodológica apontava para a necessidade de haver um contato efetivo entre um autor e uma obra ou um autor e um país para que se possa comparar. o que isso quer dizer? Vamos lá: segundo essa regra (CARVALHAL, 2006) a comparação só faria sentido entre esses termos se, de algum modo, eles realmente tivessem dialogado. Essa noção foi fundamental para os primeiros estudos em torno de conceitos como fonte e influência de uma obra, ou de um conjunto de obras, sobre outras. A segunda prescrição vincula a literatura comparada com a história literária, relacionando a ocorrência de determinadas tendências literárias na história do Ocidente a partir da comparação entre as obras. Isso acabou abrindo espaço para a formulação de conceitos, como o de "escola" ou "movimento" na história da literatura, considerando que os estudiosos do campo passaram a identificar características entre obras que permitissem compreender, em uma perspectiva histórica, como determinado grupo de obras e autores se relaciona. historiador da literatura Ferdinand Brunetière, por exemplo (CARVALHAL, 2006), vai fazer uso dessa prescrição, ao pensar em uma história de grandes movimentos literários a partir da comparação entre eles. E isso vai exercer um papel importante também no Brasil. Vamos ver como funciona!</p><p>Gênese da literatura comparada no Brasil "Estudar literatura brasileira é estudar literatura comparada". Essa afirmação faz sentido para você? Por que estudar as obras escritas no nosso país são, necessariamente, uma forma de realizar estudos de literatura comparada? A resposta inicial é simples. Ora, se a literatura compara, ainda em sua fase dita clássica, consiste em estabelecer relações entre literaturas de países diferentes e sendo a nossa cultura resultante de culturas de outras nacionalidades, em especial a portuguesa e a francesa, então o método comparatista seria fundamental para entender a formação da nossa literatura. Aliás, essa parte final lembrou um título obrigatório na biblioteca de qualquer estudante de letras, Formação da literatura brasileira, de 1959, cujo autor é também o formulador da frase que abre esse parágrafo. Isso mesmo! Estamos falando de Antonio Candido, um dos críticos brasileiros mais importantes de nossa história. Antonio Candido. Nessa mesma obra, já revela sua honestidade literária, em relação à produção de nosso país, a quem tão bem representou. Veja!</p><p>66 Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; se não a amamos, ninguém o fará por nós. Se não lermos as obras que as compõem, ninguém as tomará do esquecimento, descaso ou incompreensão. Ninguém, além de nós, poderá dar vida a estas tentativas muitas vezes débeis, outras vezes fortes, sempre tocantes [...] (CANDIDO, 2000a, p. 10) A frase "estudar literatura brasileira é estudar literatura comparada", de Candido, saju no Diário de S. Paulo, em 18 de abril de 1946, depois republicado na revista Literatura e Sociedade, do Departamento de Teoria da Literatura e Literatura Comparada, da USP, unidade acadêmica que ele ajudou a fundar. Antes de comentarmos um pouco sobre o papel das instituições universitárias na consolidação da área no Brasil, vamos dar uma rápida passada no trecho em que Candido relaciona a nossa literatura ao método comparatista. Confira! 66 As literaturas jovens têm dessas surpresas: os golpes de ensaio revelam-se frequentemente golpes de mestre. Na falta de uma linha contínua de evolução, de uma longa tradição literária que se afina e apura nas mãos de gerações sucessivas, o ímpeto criador vai se</p><p>inspirar noutras tradições e noutras terras. Estudar literatura brasileira é, em boa parte, estudar literatura comparada. (CANDIDO, 2000b, p. 213) No clássico Formação da literatura brasileira, o crítico e professor paulista também parte dessa comparação para entender de onde surgiram os nossos autores e obras que deram o que hoje chamamos de "literatura brasileira". Nela, Candido aponta nossa literatura como um "ramo" da portuguesa, no sentido de ramagem, parte da folhagem de uma árvore, entenda: 66 Cada literatura requer tratamento peculiar, em virtude de seus problemas específicos ou da relação que mantém com outras. A brasileira é recente, gerou-se no seio da portuguesa e dependeu da influência de mais duas ou três para se constituir. A sua formação tem, assim, características próprias [...] (CANDIDO, 2000a, p. 9) Embora o Brasil como nação surja apenas no início do século XIX, Candido aponta o surgimento do que ele chama de "sistema literário" um pouco antes Mas, para identificar esses aspectos, ele precisou fazer uso da comparação como método de investigação. Nesse caso, um método comparatista dialético, ou seja, o resultado de um conflito de princípios opostos, ou ainda poderíamos formular da seguinte maneira: tese + antítese e síntese Método comparatista dialético: tese + antítese = síntese.</p><p>método comparatista dialético aparece em diversos outros ensaios fundamentais de Antonio Candido, como em Dialética da malandragem, no qual analisa a obra Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida. Não é demais lembrar que ele foi uma das figuras fundamentais na consolidação da disciplina em nosso país. Afinal, ele introduziu o estudo comparatista na USP, por meio da criação do setor respectivo e do ensino em cursos, além de ter orientado diversas teses e dissertações de literatura comparada. Isso tudo até os anos 1960 e 1970! Mesmo assim, havia muito a ser feito. E não somente do famoso eixo entre Rio e São Paulo, mas, ao falarmos do desenvolvimento da literatura comparada no Brasil, não podemos deixar de mencionar entidades do Sul do país. Desenvolvimento da literatura comparada no Brasil Neste vídeo, falaremos sobre como a literatura comparada nasceu e se desenvolveu no âmbito nacional. Para assistir a um vídeo sobre o assunto, acesse a versão online deste conteúdo. -0- Vamos refletir! Ainda que você deteste futebol, certamente já presenciou em rodas de amigos ou nos noticiários da TV as pessoas comparando a atuação de determinado time da atualidade com outro elenco mais antigo do mesmo clube. Em geral, isso se faz para exaltar as qualidades de um ou ressaltar os defeitos de outro. Alguns vão protestar, dizer que não tem como comparar times de momentos históricos distintos, com características diferentes e outros detalhes. No entanto, algo surgiu para que aquela comparação fosse estabelecida. No fim das contas, por mais que a conclusão seja de realidades completamente incompatíveis, há algo neles que despertará a atenção Não importa se cabe ou não cabe a comparação. Se ela foi realizada, ora! Então foi possível, ainda que discordemos de seus pressupostos.</p><p>Depois de toda a discussão e constatando que os times não são iguais, temos uma conversa recheada de análises que vão desde o contexto sociocultural em que cada grupo está inserido até as mudanças na forma como os jogadores passaram a jogar de acordo com suas posições no campo. Mas como a analogia da discussão no futebol pode nos ajudar a pensar a literatura comparada, depois de já termos sido apresentados a ela: como a mera opinião dos torcedores pode nos levar a uma área acadêmica tão importante? A resposta está na importância do papel institucional. A literatura comparada, como método de estudo e análise, é introduzida no Brasil por volta dos anos 1930, a partir de uma disciplina intitulada História Comparada das Literaturas Novo-Latinas, prevista no programa da recém-criada Faculdade Paulista de Letras e Filosofia. Já nos anos 1940, temos a primeira cadeira de Literatura Comparada em uma instituição universitária. Tasso da Silveira era o responsável pela disciplina na Faculdade de Filosofia do Instituto Lafayette. Além disso, instituição fundada em 1939, depois denominada de Faculdade de Filosofia e Letras do Estado da Guanabara, para, então, em 1950, ser incorporada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a Uerj. Tasso da Silveira. Tasso da Silveira também escreveu o primeiro manual voltado para o estudo de literatura comparada no Brasil.</p><p>66 Em literatura comparada procedem- se a comparações de caráter especial e com finalidade positiva. Com a finalidade, extremamente fecunda para a história do espírito, de verificar a filiação de uma obra ou de um autor a obras e autores estrangeiros, ou de um momento literário ou da literatura interna de um país a momentos literários ou a literaturas de outros países. (SILVEIRA, 1964, p. 15) Em 1986, foi realizado em Porto Alegre, RS, o Seminário Latino- americano de Literatura Comparada, organizado por docentes e pesquisadores da UFRGS, cujo papel na consolidação da disciplina é de grande destaque no cenário nacional. E a escolha da região Sul para realização do evento não foi aleatória, entenda: A ênfase no contexto latino-americano era estratégica. Situados em um estado de fronteira, vizinho ao Uruguai e à Argentina, os estudiosos de Porto Alegre tinham uma intenção clara, isto é, a de estimular a integração latino-americana e a de explorar as diferenças linguísticas e culturais existentes nos países do continente. o bilinguismo e o multiculturalismo já eram ali mesmo uma premissa natural, favorecendo o surgimento de estudos comparados. Além disso, consolidado que estava o hábito de confrontar a literatura brasileira com as europeias, faltava no Brasil multiplicar os campos de atuação comparatista em novos contextos, pois isso permitiria a construção</p><p>de um novo objeto e a consequente redefinição da própria disciplina. (CARVALHAL, 2012, p. 2) Naquele evento criou-se a Associação Brasileira de Literatura Comparada, a Abralic, que até hoje realiza eventos em diversos locais pelo Brasil. XVI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic), 19 de julho de 2019. Mesa do XVI Congresso Internacional da Abralic, composta por Cynthia McLeod, Cintia Schwantes, Conceição Evaristo e Amara Moira, 19 de julho de 2019. Sua primeira presidente foi a professora Tania Carvalhal, da UFRGS, uma das pioneiras nos estudos comparados em literatura, autora de diversos textos sobre a disciplina. Muitos deles estão aqui e você pode consultá- los nas referências bibliográficas. A turma da Abralic possibilitou o amadurecimento das pesquisas da área em uma perspectiva brasileira e latino-americana, trazendo, inclusive, nomes representativos de outras partes do mundo. Recomendação</p><p>Vale a pena conhecer as publicações da Abralic, disponíveis gratuitamente no formato digital, bem como os inúmeros eventos acadêmicos, lançamento de livros e premiações na área. Mãos à obra, isto é, às obras, já que é preciso compará-las! Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 A literatura brasileira conta com diversos autores. Um deles se destaca por um famoso e relevante texto em defesa da literatura publicada originalmente em 1959, que aponta a literatura brasileira como um ramo da literatura portuguesa. Quem é o autor de Formação da literatura brasileira: momentos decisivos? A Mário de Andrade B Silviano Santiago C Tania Carvalhal D Antonio Candido E Clarice Lispector Parabéns! A alternativa D está correta. livro Formação da literatura brasileira: momentos decisivos é a principal obra do crítico literário e professor de literatura comparada da USP, Antonio Candido, no qual o autor faz uso do método de análise comparatista para compreender as dinâmicas da formação da nossa literatura. Nessa obra, Antonio Candido oportuniza o</p><p>entendimento da origem dos autores e obras que originaram a literatura brasileira, já que essa é um "ramo da literatura portuguesa". A literatura brasileira é por ele comparada, nessa mesma obra, como um "ramo" da "árvore" da literatura portuguesa. Questão 2 Johann Wolfgang von Goethe foi um dos mais importantes nomes da literatura bem como do romantismo na Europa. Também foi ministro da Educação e da Cultura de Weimar. Sua obra mais famosa é Fausto. Também foi ele que criou o conceito de weltliteratur, muito importante para a compreensão da importância da literatura. A que se refere o conceito de weltliteratur? A Literaturas dos povos originários. Impossibilidade de comparar literaturas. C Literaturas alemã e inglesa. D Regionalismo literário. E Universalidade da obra literária. Parabéns! A alternativa E está correta. Weltliteratur é um termo alemão e significa "literatura mundial". A expressão foi cunhada por Johann Wolfgang von Goethe para se referir a uma ideia de universalidade de toda obra literária a partir da possibilidade de sua tradução, ou seja, um texto escrito em uma língua pode circular em qualquer outro lugar do mundo a partir do momento em que ele é traduzido para as línguas respectivas.</p><p>2 - Fundamentos da análise comparatista Ao final deste módulo, você será capaz de analisar os principais fundamentos conceituais do método comparatista. Os conceitos de tradição e fonte Agora que vimos alguns dos principais marcos históricos fundadores que deram origem à literatura comparada como disciplina, precisamos saber, afinal, como funcionam seus principais instrumentos analíticos. Para isso, temos que investigar os seus conceitos fundamentais para apreendermos os pressupostos teóricos e metodológicos que orientam o estudo de uma obra a partir da utilização do método comparatista. Vamos a eles! Tradição Para alguns, a palavra "tradicional" pode soar algo ultrapassado, que não serve mais e deve ser abandonado. Porém, o conceito de "tradição" é fundamental no método comparatista. o conceito de "tradição", de modo geral, aponta para um conjunto de obras que precedem historicamente um autor ou grupo de autores de determinada literatura.</p><p>poeta e crítico T. S. Eliot, em seu clássico ensaio Tradição e talento individual (1989), indica que a tradição se refere a tudo o que está no passado e cabe ao poeta do presente escrever consciente desse período e se dedicar a dar continuidade ao que os poetas antes dele escreveram, mas sem desconsiderar as questões de seu tempo. E assume que essa é uma tarefa complexa, veja: 66 Todavia, se a única forma de tradição, de legado à geração seguinte, consiste em seguir os caminhos da geração imediatamente anterior à nossa graças a uma tímida e cega aderência a seus êxitos, a "tradição" deve ser positivamente desestimulada. Já vimos muitas correntes semelhantes se perderem nas areias; e a novidade é melhor do que a repetição. A tradição implica um significado muito mais amplo. Ela não pode ser herdada, e se alguém a deseja, deve conquistá-la através de um grande (ELIOT, 1989, p. 9) Outro aspecto que merece nossa atenção é o fato de Eliot se referir ao "homem branco europeu do início do século XX". Ou seja, o conceito de tradição, por exemplo, nos países latino-americanos, em uma perspectiva pós-colonial, deve levar em conta não apenas a processos de continuidade, mas também de descontinuidade. Fonte Uma das palavras que nos ocorre quando pensamos em "fonte" é princípio. Se for no meio jornalístico, estamos falando de uma pessoa que nos confirmou uma informação essencial para uma notícia. Se a fonte disse, então as chances de veracidade são boas. Em geral, a fonte jornalística pertence ao nicho do tema da matéria que está sendo produzida, portanto, ela confere legitimidade ao evento. Se é verdade ou não, no fim das contas, aí já é outra história!</p><p>Em literatura, a fonte é um princípio e, de algum modo, atua na legitimidade de determinada obra em uma análise comparatista. Uma fonte literária refere-se ao texto literário em si como produto do trabalho criativo do autor e que se insere em dada tradição. Em uma perspectiva tradicional, as fontes são um conjunto de obras consideradas clássicas porque reúnem elementos que respondem a sua inscrição no tempo. Há autores, no entanto, como Jorge Luis Borges ou Machado de que subvertem essa ordem Jorge Luis Borges.</p><p>Machado de Assis. Se, para Eliot, a criação do presente está submetida às do passado, para Borges e Machado, é o contrário. Borges, por exemplo, em seu conto Pierre Menard, Autor do Quixote, traz bem clara essa posição ao apresentar as obras de Menard, escritor francês, do séc. XX, frente à obra de Cervantes, escritor espanhol, do séc. XVII. Para ele, o Quixote francês seria muito mais rico que o Quixote espanhol, exatamente porque Menard escreveria longe da tradição. Os conceitos de influência e originalidade Neste vídeo, falaremos sobre as principais características dos conceitos fundamentais de literatura comparada. Para assistir a um vídeo sobre o assunto, acesse a versão online deste conteúdo. -0-</p><p>Os conceitos de influência e originalidade também se apresentam para que possamos compreender o funcionamento de seus instrumentos analíticos. Para isso, resgatamos uma afirmação fundamental acerca da literatura comparada, que já apontamos acima: 66 A literatura comparada é o estudo da literatura além das fronteiras de um país específico e o estudo das relações entre, por um lado, a literatura, e, por outro, diferentes áreas do conhecimento e da crença, tais como as artes [...], a filosofia, a história, as ciências, a religião etc. Em suma, é a comparação de uma literatura com outra ou outras e a comparação da literatura com outras esferas da expressão humana (REMAK, 1994, p. 175) É exatamente nesse contexto que Henry H. H. Remak nos apresenta a afirmação de que a literatura comparada extrapola a comparação meramente com outra literatura; e chega ao que ele reforça como "a comparação da literatura com outras esferas da expressão humana". Por isso, é fundamental entendermos os conceitos de influência e originalidade, que são fundamentos para a realização da análise comparatista. Influência É uma das mais importantes nos estudos de literatura comparada e, até hoje, suscita uma série de discussões. Assim como nos fundamentos anteriores, a influência também se pauta em uma relação com o tempo. Ninguém é influenciado por aquilo que ainda vai existir. Toda influência, em certo sentido, aponta para o</p><p>modelo que a precede. conceito de influência foi apresentado pelo crítico russo Victor Zhirmunsky, em artigo de 1967, no qual ele considerava a influência como uma transformação social do modelo que a precede Para o crítico literário Harold Bloom, há o que se chama de "angústia da influência" Para ele, há nos poetas um conflito em face daqueles que os precederam e a poesia nasce dessa inquietação em tentar se desvencilhar de suas filiações, como se toda obra fosse resultado apenas de aspectos individuais e de sua trajetória. Além disso: 66 É certo que sua proposição se autolimita ao montar-se apenas com relação a grandes poetas. Além disso, não examina a possibilidade de que, na construção do poema, coexistam influências de outra natureza que não a poética. Ocupa- se apenas com os caminhos escondidos que vão de poema a poema [...] Os aspectos formais dos poemas ficam, nessa perspectiva, relegados. Para ele, tudo se reduz a um conflito de gerações e a uma série de mecanismos de defesa que, acionados, regem as relações intrapoéticas. (CARVALHAL, 2006, p. 60) No Brasil, por exemplo, essa noção foi objeto de crítica de ensaístas como Silviano Santiago e Roberto Schwarz, pois ela pressupõe uma relação de subalternidade, como se fôssemos "dependentes" culturalmente da tradição herdada pelos colonizadores. Originalidade</p><p>Quando se fala que algo é original, em primeiro momento atribuímos o sentido de "novo" ou "inovador", ou seja, algo que ninguém pensou até então Portanto, para o senso comum, ser original é ser único. A originalidade, pela raiz da própria palavra, nos remete à origem, a uma situação primitiva, em que nada surgiu antes dela. Uma obra não original seria aquela que, em síntese, repete o que outra já realizou. Portanto, a originalidade é um valor apreciado por aquele que inserir a obra em um lugar na história literária como precursora. Mais uma vez, Borges e Machado são exemplares no sentido de embaralhar certas noções tradicionais em literatura. o autor argentino, ao escrever o conto Pierre Menard, autor de Quixote, não apenas está confrontando a noção de autoria acerca da obra clássica espanhola, mas também apontando para o caráter criativo das leituras e releituras dela a partir do tempo. Machado de Assis, com Memórias póstumas de Brás Cubas, dialoga com a tradição ocidental e confere outro sentido à concepção de originalidade ao reler a obra de Laurence Sterne, A vida e opiniões de Tristram Shandy. Como se vê, assim como no futebol, na literatura também se deve dominar os fundamentos para se tornar um craque, seja do campo ou das palavras! A intertextualidade e seus desdobramentos Neste vídeo, falaremos sobre a profunda e necessária relação do conceito de intertextualidade na literatura comparada. Para assistir a um vídeo sobre o assunto, acesse a versão online deste conteúdo.</p><p>Diante de tantos conceitos e fundamentos teóricos distintos, há um elemento que parece enlaçar todos eles. Ora, qual é o principal objeto da literatura? texto! Sem texto, não há como existir literatura, certo? No terreno da comparação como método investigativo do texto é imprescindível que você busque estabelecer diálogos desse texto, seja com outro texto, com períodos históricos, com conceitos de outros campos do saber e até mesmo com outras artes. Se a literatura comparada é a disciplina que faz uso da análise comparatista como método, então, nessas diversas relações teórico- analíticas fica fácil encontrar aspectos intertextuais, ou seja, que estão entre um texto e outro. E aqui estamos considerando texto não apenas o literário, mas também o não literário. A intertextualidade é, portanto, uma qualidade do texto, seja ele de que natureza for, que estabelece diálogos com outros textos. conceito foi cunhado por Julia Kristeva, influenciada pelos russos Mikhail Bakhtin e Yuri Tynianov, em Introdução à semanálise, de Para ela, "todo texto é absorção e transformação de um em outro texto" (KRISTEVA, 2012, p. 142). Segundo Roland Barthes, orientador de Kristeva, o texto é como um tecido de citações (BARTHES, 1988). Julia Kristeva. Etimologicamente, a própria palavra texto quer dizer tecido, ou seja, assim como esse objeto, um texto é composto pela ligação com os fios dos outros textos, de outros períodos, assuntos, ideologias, culturas etc. A literatura comparada é necessariamente intertextual, pois é apenas por meio da relação entre os diferentes tipos de textos que o método de análise comparatista pode ser realizado, ou seja, ela:</p><p>66 [...] é uma forma específica de interrogar os textos literários na sua interação com outros textos, literários ou não, e outras formas de expressão cultural e artística. (CARVALHAL, 2006, p. 74) Falamos há pouco sobre algumas apropriações mais diretas, realizadas pelos próprios autores sabendo do efeito escolhido pelo confronto entre os textos, como em Borges e Machado. Graciliano Ramos, por exemplo, ao escrever um romance como Angústia (1936), estabelece relações não apenas com a tradição do romance realista no Brasil, mas também com a literatura, em especial Fiódor Dostoiévski. o personagem Luís da Silva, em muitos aspectos, nos remete ao narrador de Notas do subsolo. Graciliano leu Dostoiévski? Claro que sim. russo, aliás, era um de seus autores favoritos. Mas essa comparação se dá por meio da análise comparatista. Antonio Candido é um dos críticos que aponta as relações entre os dois autores. Graciliano Ramos.</p><p>Fiódor Confira os primeiros versos da canção Triste Bahia, do álbum Transa (1971), de Caetano Veloso: 66 Triste Bahia, oh, dessemelhante Triste Bahia, oh, quão dessemelhante Estás e estou do nosso antigo estado Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado Rico te vejo eu, já tu a mim abundante [...] (VELOSO, 1971, n. p.) Esses versos são parte também da primeira estrofe do poema de Gregório de Matos. Dois brasileiros, dois homens nascidos na Bahia. Um em Santo Amaro, em 1942, outro em Salvador em 1633 ou Perceba que aqui o método comparatista não se limita ao aspecto vernacular. A língua é a mesma, até mesmo o estado de nascença é o mesmo, embora, evidentemente, a Bahia dos anos 1940 não seja a mesma do período colonial. Aqui a comparação se dá entre gêneros textuais distintos e períodos históricos também diversos. Em comum temos a crítica aos mandos e desmandos da sociedade e seus dirigentes.</p><p>A relação de intertextualidade também é estabelecida entre imagens: a Mona Lisa, obra-prima de Leonardo da Vinci, por exemplo, é uma das pinturas mais relidas da história da arte. Não faltam referências a ela em qualquer período e pelos mais variados motivos. Na contemporaneidade, a cultura pop usa e abusa da intertextualidade, dialogando com tendências de tempos e culturas diferentes. Mona Lisa, Leonardo da Vinci, 1503-1519.</p><p>Mônica Lisa, Mauricio de Sousa, 1989. desfile das escolas de samba no carnaval também é uma expressão carregada de intertextualidade. É um festival de referências que, naquela unidade, criam uma linguagem única, mas, ao mesmo tempo, tão diversa e heterogênea. Aliás, a especificidade do carnaval é ser uma espécie de arte total, em que todas as expressões artísticas e culturais se encontram. Ou seja, um desfile de intertextualidades! Os textos em diálogo: paráfrase, paródia, pastiche, citação Neste vídeo, falaremos sobre as principais formas de relação intertextual (paráfrase, paródia, pastiche e citação) e sobre a importância dessas releituras para a literatura comparada.</p><p>Para assistir a um vídeo sobre o assunto, acesse a versão online deste conteúdo. Para que a relação entre os textos possa ser inteligível, é fundamental que tenhamos minimamente um método de estabelecimento do diálogo entre eles. Como ele é realizado? Em quais momentos? Qual é a função desse diálogo? Ele não muda apenas com os textos dialogados, mas também com o contexto, já que nenhum texto nasce no vazio. Como todo produto da sociedade, ele é resultante dos aspectos sociais, culturais e políticos nos quais está inserido. Para entender como isso se dá, vamos verificar algumas das principais formas de relação intertextual. Paráfrase Etimologicamente significa interpretação ou tradução livre. Também pode ser chamada de "metáfrase". É o famoso "diga com suas próprias palavras". Quem nunca precisou lidar com uma situação assim? Claro que em um espaço lúdico isso se torna um motivo a mais para brincar com os vários sentidos que uma mensagem pode carregar. Paráfrase é criar outro texto a partir daquele texto, provando que existem mil maneiras de se dizer a mesma coisa e que a interpretação é uma forma também de produção do próprio texto. Em um texto acadêmico, a paráfrase é uma forma eficiente não só de comunicar, mas também de você demonstrar que apreendeu o conteúdo referenciado. Paródia É outra forma de dizer um texto, ou seja, uma releitura, mas com o objetivo de criar, geralmente, um sentido diferente do original a partir de uma relação crítica com este.</p><p>o que vai distingue a paródia é o caráter cômico da imitação, o que reforça ainda mais a sua dimensão crítica. Portanto, na paródia, o jogo intertextual estabelece uma relação irônica com o texto original, recriando, por meio da linguagem, outra leitura acerca desse texto. Os chamados repentistas nordestinos fazem isso há tempos e com grande sofisticação. No modernismo e na poesia dos anos 1960 e 1970 no Brasil, a paródia também é um recurso bastante empregado. Um dos textos mais relidos da literatura brasileira é o poema Canção do exílio, de Gonçalves Dias. Dentre as paródias poéticas mais conhecidas, está a do poeta Antônio Carlos de Brito, o Cacaso. Compare seu texto Jogos florais com o original! Pastiche É um termo proveniente do século XVIII para se referir a óperas concebidas a partir de partes de outras, nem sempre do mesmo autor. Essa ideia nos ajuda a entender o conceito moderno da expressão. Realizar um pastiche, assim como acontece na paródia, é também imitar. Um texto busca refletir ou reler outro texto, modificando-o. No entanto, o pastiche não tem o intuito de ironizar o original, pois ele não se presta à crítica Claro que um texto pastichizado apresentará críticas a alguma coisa, afinal nenhum texto é neutro em relação aos aspectos literários ou extraliterários. Mas isso nada tem a ver com o texto original. o pastiche é uma espécie de homenagem, não no sentido de uma reverência solene, claro, e sim de reconhecimento da importância daquele texto para a compreensão de questões mais atuais. Um exemplo de pastiche é a obra Em liberdade, de Silviano Santiago, que imita o estilo de Graciliano Ramos. Citação</p><p>É a transcrição de um texto dentro de outro texto. Alguns trabalhos acadêmicos até parecem uma colcha de retalhos. E por quê? Pela quantidade enorme de citações! Então não é para fazer citações? Claro que sim! Deve! Mas, como todo diálogo, este também deve levar em conta não apenas um lado da crítico francês Antoine Compagnon nos lembra que escrever é um exercício de citação, pois o nosso discurso é carregado de referências a tudo o que lemos e ouvimos. Até mesmo os estereótipos e os clichês são citações! (COMPAGNON, 1996, p. 34) As citações diretas são aquelas em que as ideias de outra pessoa são inseridas em um texto e nós estabelecemos um diálogo com ela. Já as citações indiretas são as paráfrases. A citação é como uma colagem, por isso, é preciso ser econômico, especialmente se você estiver escrevendo um texto acadêmico. A não ser que você queira criar outra relação intertextual, como a deste conteúdo. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 "Pode-se dizer, então, que a literatura comparada compara não pelo procedimento em si, mas porque, como recurso analítico e interpretativo, a comparação possibilita a esse tipo de estudo literário uma exploração adequada de seus campos de trabalho e o alcance dos objetivos a que se propõe" (CARVALHAL, 2006. p. 8). A literatura comparada se expande cada vez mais e ocupa lugar e espaço pela grande relevância que tem na constituição literária. Assinale a alternativa que relacione dois conceitos fundamentais da literatura comparada. A Paródia e morfologia</p><p>Fonte e sintoma C Crítica e reescrita D Tradição e originalidade E Discurso e retórica Parabéns! A alternativa D está correta. A tradição e a originalidade fazem parte dos fundamentos do método de análise comparatista. A primeira se refere a um conjunto de obras do passado com os quais os autores do presente se relacionam. Já a originalidade trata do princípio de determinada obra, ou seja, seu caráter de origem e inovação em relação às precedentes. Questão 2 Leia o texto a seguir: Meu Deus, por que me abandonaste? Se sabias que eu não era Deus Se sabias que eu era fraco Adaptado de: Carlos Drummond de Andrade. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002. o trecho é uma das estrofes do "Poema de sete faces", do livro Alguma poesia, de Drummond. Ele realiza claramente um diálogo com outro texto, um clássico da literatura Ocidental, a Bíblia. Como se chama o procedimento intertextual empreendido pelo poeta mineiro? A Pastiche B Paródia</p><p>C Citação D Crítica E Metáfrase Parabéns! A alternativa A está correta. o poeta estabelece um diálogo com uma fala de Jesus Cristo em um dos momentos mais dramáticos de sua história, a crucificação. eu lírico imita o texto original, mas modifica-o, não com o intuito de satirizá-lo, mas de atualizar o sentimento de angústia expresso na frase bíblica para as questões que inquietam o homem moderno. Considerações finais A literatura comparada não é apenas uma maneira de lidar com os textos, mas também de como podemos lidar com o mundo. Ao surgir a partir de relações entre línguas e culturas diferentes, os estudos comparatistas demonstraram que as literaturas são a expressão do comum nas diferenças, ou das diferenças no comum. A literatura francesa, devido ao domínio cultural da França no século XIX, foi o ponto de partida para o surgimento da comparação como método de análise. No entanto, como toda expressão humana, a literatura também reflete aspectos sociais. No Brasil sustentou-se uma ideia de dependência por muito tempo, como se a nossa literatura fosse uma imitação das europeias. Por isso, os conceitos de influência, tradição, fonte e originalidade, quando aplicados aqui, devem ser colocados em uma perspectiva mais crítica. Os conceitos relacionados aos diferentes diálogos entre os textos são também ferramentas fundamentais para podermos constatar que nós também somos textos nesse vasto e infinito livro de folhas em branco, escritas, rasuradas e reescritas que é o mundo. E cada página que viramos se descortina em tantas outras pelas quais já passamos em algum momento, mas, como toda releitura, é como se fosse sempre a</p><p>primeira vez. Como diria Alberto Caeiro - heterônimo de Fernando Pessoa - em o Guardador de Rebanhos: "...Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do Mundo...". Explore + Confira as indicações que separamos para você! Leia os textos do livro Crítica cult, em especial o ensaio A teoria em crise, em que a autora Eneida Maria de Sousa, destaque no campo da análise comparatista, estabelece relações entre literatura comparada, teoria da literatura e crítica literária a partir do diálogo com os estudos culturais. Confira a peça Makunaimã, da editora Elefante, e compare com o romance Macunaíma, de Mário de Andrade. A peça é uma criação coletiva, envolvendo pessoas diversas, entre brancos, negros e indígenas, para discutir o legado do romance de Mário de Andrade em diálogo com o próprio Mário de Andrade! o vídeo o Rumor da língua - Roland Barthes resgata um trecho dessa obra de Barthes e apresenta a cena do filme de Michelangelo Antonioni, que o inspirou. Vale a pena conferir! No vídeo Literatura Fundamental 26 - A terra desolada, a professora Viviana Bosi, além de comentar o poema de T.S. Eliot, fala também sobre a vida e contexto histórico do autor. o conto Pierre Menard, autor do Quixote, de Jorge Luis Borges, apresenta-nos uma crítica literária acerca de Pierre Menard, mas destaca-se a sua forma irônica e humorada. Referências BARTHES, R. o rumor da língua. Tradução de Mário Laranjeira. Prefácio de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Brasiliense, 1988. BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. 43. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.</p><p>CALVINO, I. Por que ler os clássicos. Tradução Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. CANDIDO, A. Formação da Literatura Brasileira. 6 ed. Belho Horizonte: Itatiaia, 2000a. CANDIDO, A. Notas de crítica literária. Rodapé. Literatura e Sociedade, USP, v.5, n. 5, 2000b. CARVALHAL, T. Dez anos da Abralic (1986-1996): elementos para sua história. Organon, Porto Alegre, V. 10, n. 24, 2012. CARVALHAL, T. Literatura comparada. 4 ed. rev. e ampliada. São Paulo: Ática, 2006. COMPAGNON, A. o trabalho da citação. 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