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<p>© Kevin Lynch</p><p>Kristin Hannah é a autora multipremiada e bestseller de mais de vinte</p><p>romances, muitos dos quais publicados já pela Bertrand Editora, de que</p><p>destacamos As Inseparáveis (Firefly Lane, a série inspirada no romance, está</p><p>disponível em streaming na Netflix desde fevereiro), A Grande Solidão e o clássico</p><p>moderno O Rouxinol (editado em 43 línguas e cuja adaptação cinematográfica,</p><p>protagonizada por Dakota e Elle Fanning, estreará em breve) e Os Quatro Ventos.</p><p>O Rouxinol, aliás, foi eleito livro do ano (2015) pela Amazon, Buzzfeed, iTunes,</p><p>Library Journal, Paste, The Wall Street Journal e The Week, vencendo também o</p><p>Goodreads Choice Awards. Com Os Quatro Ventos, a autora reinventou</p><p>definitivamente o seu perfil e inscreveu o seu nome no grande épico norte-</p><p>americano.</p><p>Hannah, que começou por exercer advocacia antes de se dedicar à escrita, vive</p><p>com o marido no noroeste dos Estados Unidos.</p><p>Título: O Regresso</p><p>Título original: Home Front</p><p>1.ª edição em papel: janeiro de 2023</p><p>Autora: Kristin Hannah</p><p>Tradução: Ana Maria Pinto da Silva</p><p>Revisão: João Assis Gomes</p><p>Design da capa: Marta Teixeira</p><p>Imagens da capa: Shutterstock</p><p>© 2012 by Kristin Hannah</p><p>All Rights Reserved</p><p>[Todos os direitos para a publicação desta obra em língua portuguesa, exceto Brasil,</p><p>reservados por Bertrand Editora, Lda.]</p><p>Bertrand Editora</p><p>Rua Prof. Jorge da Silva Horta, n.° 1</p><p>1500-499 Lisboa</p><p>www.bertrandeditora.pt</p><p>editora@bertrand.pt</p><p>Tel. 217 626 000</p><p>ISBN: 978-972-25-4492-4</p><p>Este livro é dedicado aos</p><p>corajosos homens e mulheres das Forças Armadas americanas</p><p>e suas famílias, que tanto se sacrificam a fim de proteger e</p><p>preservar</p><p>o nosso modo de vida.</p><p>E, como sempre, aos meus heróis muito especiais,</p><p>Benjamin e Tucker.</p><p>Primeira Parte</p><p>À distância</p><p>Há coisas que se aprendem melhor na bonança,</p><p>outras na tempestade.</p><p>WILLA CATHER</p><p>PRÓLOGO</p><p>1982</p><p>Na sua perspetiva, algumas famílias eram como parques bem</p><p>cuidados, com bonitos canteiros de narcisos amarelos e grandes</p><p>árvores que se espraiam e proporcionam repouso do sol estival.</p><p>Outras — e isto sabia ela por experiência própria — eram campos de</p><p>batalha, sangrentos e sombrios, repletos de estilhaços e corpos</p><p>desmembrados.</p><p>Poderia ter apenas dezassete anos, mas Jolene Larsen já sabia o</p><p>que era a guerra. Crescera no meio de um casamento que era um</p><p>eterno conflito.</p><p>O Dia de São Valentim era o pior. O estado de espírito em casa</p><p>era sempre instável, mas, naquele dia, enquanto a televisão passava</p><p>anúncios sobre flores e chocolates e corações vermelhos em papel</p><p>lustroso, o amor era uma arma nas mãos negligentes dos seus pais.</p><p>Começava com eles a beber, claro. Sempre. Copos cheios de</p><p>bourbon, uns atrás dos outros. Isso era o começo. Depois surgiam</p><p>os gritos e as lágrimas, o arremesso de objetos. Durante anos,</p><p>Jolene perguntou à mãe porque não o abandonavam — ao pai —</p><p>simplesmente e fugiam, esgueirando-se durante a noite. A resposta</p><p>da mãe era sempre a mesma: Não posso. Amo-o. Às vezes chorava</p><p>ao proferir as palavras terríveis, por vezes a sua amargura era</p><p>palpável, mas, no final, pouco importava a maneira como soava a</p><p>voz dela; o que importava era a verdade trágica do seu amor</p><p>unilateral.</p><p>Lá em baixo alguém gritou.</p><p>Deve ser a mãe.</p><p>Depois ouviu-se um estrondo — alguma coisa grande fora</p><p>arremessada de encontro à parede. Uma porta bateu com força ao</p><p>fechar-se. Devia ser o pai.</p><p>Saíra de casa furioso (haveria alternativa?), batendo com a porta</p><p>atrás de si. Estaria de volta no dia seguinte ou depois, quando o</p><p>dinheiro lhe faltasse. Entraria com ar furtivo e embaraçado na</p><p>cozinha, sóbrio e arrependido, tresandando a álcool e a cigarros. A</p><p>mãe correria para ele e abraçá-lo-ia. Oh, Ralph… pregaste-me um</p><p>susto… Desculpa, dá-me mais uma oportunidade, por favor, tu sabes</p><p>o quanto te amo…</p><p>Jolene atravessava com cuidado o quarto com o teto bastante</p><p>inclinado, curvando-se para não bater com a cabeça num dos sólidos</p><p>e toscos barrotes de madeira. Só havia ali uma fonte de luz, uma</p><p>lâmpada dependurada das vigas como se fosse o último dente na</p><p>boca de um velho, frouxo e a abanar.</p><p>Abriu a porta, à escuta.</p><p>Já teria terminado?</p><p>Desceu devagar e com cuidado as escadas estreitas, ouvindo</p><p>ranger os degraus sob o seu peso. Foi encontrar a mãe na sala de</p><p>estar, sentada e arrasada no sofá, com um cigarro Camel aceso a</p><p>pender-lhe da boca. A cinza ia caindo, salpicando-lhe o colo.</p><p>Espalhados pelo chão viam-se os vestígios da luta: garrafas,</p><p>cinzeiros e pedaços de vidro.</p><p>Alguns anos antes, Jolene teria tentado fazer com que a mãe se</p><p>sentisse melhor. Todavia, demasiadas noites como aquela haviam-na</p><p>endurecido. Agora ficava impaciente com tudo aquilo, consumida</p><p>pelo drama que era o casamento dos pais. Nada mudava, e era</p><p>Jolene quem teria de limpar a confusão. Caminhou por entre os</p><p>pedaços de vidro, prestando atenção onde punha os pés e ajoelhou-</p><p>se ao lado da mãe.</p><p>— Dá-me cá isso — disse com uma voz cansada, retirando-lhe o</p><p>cigarro aceso da boca e colocando-o no cinzeiro colocado no chão ao</p><p>seu lado.</p><p>A mãe ergueu os olhos, com uma expressão triste, as faces</p><p>sulcadas pelas lágrimas.</p><p>— Como vou viver sem ele?</p><p>Como que em resposta, a porta das traseiras abriu-se com</p><p>estrondo. O ar frio da noite varreu a sala, trazendo consigo o cheiro</p><p>da chuva e dos pinheiros.</p><p>— Ele voltou!</p><p>A mãe empurrou Jolene para o lado e correu na direção da</p><p>cozinha.</p><p>Amo-te, querido, desculpa, ouviu a mãe dizer.</p><p>Jolene endireitou-se devagar e virou-se. Os pais estavam</p><p>entrelaçados num daqueles abraços cinematográficos, do tipo</p><p>reservado aos amantes que se reencontram depois de uma guerra. A</p><p>mãe agarrava-se a ele com desespero, segurando-o pela camisa</p><p>axadrezada de lã.</p><p>O pai cambaleava embriagado, como se estivesse amparado</p><p>apenas por ela, mas isso era impossível. Era um homem alto e</p><p>corpulento, com mãos enormes; a mãe era frágil e branca como a</p><p>cal. Fora dele que Jolene herdara a estatura.</p><p>— Não podes abandonar-me — soluçava a mãe, engolindo as</p><p>palavras.</p><p>O pai desviou o olhar. Por uma fração de segundo, Jolene</p><p>vislumbrou-lhe a dor nos olhos — dor e, pior ainda, vergonha,</p><p>derrota e arrependimento.</p><p>— Preciso de uma bebida — disse ele numa voz enrouquecida</p><p>por anos contínuos a fumar cigarros sem filtro.</p><p>O pai pegou na mão da mãe e arrastou-a pela cozinha. Com um</p><p>ar estupidificado, sorrindo como uma tola, a mãe caminhava aos</p><p>tropeções atrás dele, alheia ao facto de se encontrar descalça.</p><p>Só quando o pai abriu a porta das traseiras é que Jolene</p><p>percebeu.</p><p>— Não! — gritou, pondo-se de pé com dificuldade, correndo</p><p>atrás deles.</p><p>Lá fora, a noite de fevereiro estava fria e escura. A chuva</p><p>martelava no telhado e escorria em regatos por cima das caleiras. O</p><p>camião alugado do pai para o transporte de madeira, a única coisa</p><p>que lhe importava de verdade, estava parado como um inseto</p><p>gigantesco e negro no caminho de acesso. Jolene correu até junto</p><p>do alpendre de madeira, tropeçando numa motosserra e</p><p>endireitando-se logo em seguida.</p><p>A mãe parou junto à porta aberta do camião, no lado do</p><p>passageiro, e olhou para ela. A chuva empapava-lhe o cabelo,</p><p>colando-o ao longo das faces encovadas, fazendo-lhe escorrer o</p><p>rímel. Ergueu uma mão, pálida e trémula, e acenou.</p><p>— Sai da chuva, Karen — gritou-lhe o pai, e a mãe aquiesceu no</p><p>mesmo instante. Num segundo, ambas as portas se fecharam com</p><p>estrondo. O camião fez marcha-atrás, virou para a estrada e afastou-</p><p>se.</p><p>E Jolene estava outra vez sozinha.</p><p>Quatro meses, pensou melancólica. Só mais quatro meses para</p><p>acabar o secundário e poder sair de casa.</p><p>Casa. O que quer que isso significasse.</p><p>Mas o que iria fazer? Para onde iria? Não havia dinheiro para a</p><p>faculdade e, sempre que Jolene poupava dinheiro do seu salário, os</p><p>pais acabavam por descobrir e «pediam-lho emprestado». Nem</p><p>sequer tinha o suficiente para o primeiro mês de renda.</p><p>Não sabia dizer quanto tempo ali esteve de pé, a pensar, a</p><p>preocupar-se, a observar a chuva transformar o acesso à casa num</p><p>lamaçal; tudo o que sabia era que a dada altura tomou consciência</p><p>de um inacreditável e sobrenatural clarão de cor na noite.</p><p>Vermelho. A cor</p>
<p>azuis e posters de</p><p>rapazes de bandas que as adolescentes adoravam. A guerra entre a</p><p>infância e a adolescência era patente por todo o lado: na mesinha</p><p>de cabeceira via-se um amontoado de produtos de maquilhagem</p><p>(que Betsy não tinha autorização para usar fora de casa), um frasco</p><p>de vidro cheio de pedrinhas e berlindes, e um mata-moscas em</p><p>tempos muito apreciado que Seth lhe oferecera quando ela fizera</p><p>oito anos. Pilhas de roupa — experimentadas e postas de lado antes</p><p>das aulas do dia anterior — jaziam amontoadas pelo chão.</p><p>Betsy estava sentada em cima da cama, com ar furioso, os</p><p>joelhos fletidos e encostados ao peito.</p><p>Jolene sentou-se na beira da cama. Compadeceu-se da filha, que</p><p>tinha sido tão negligenciada pela transição escolar. Esta criança</p><p>traquinas, outrora alegre e confiante, perdera-se num oceano de</p><p>raparigas perversas e escolhas sociais impossíveis; nos últimos</p><p>tempos sentia-se tão insegura que nada fluía com facilidade e</p><p>nenhuma decisão podia prevalecer sem a aprovação das suas</p><p>congéneres. Nada tinha mais importância do que integrar-se e ser</p><p>aceite e era óbvio que nesse campo as coisas não corriam lá muito</p><p>bem.</p><p>— Porque não queres que eu vá à escola no dia das atividades</p><p>entre pais e filhos?</p><p>— É embaraçoso. Já te disse: ninguém que é fixe tem uma mãe</p><p>militar.</p><p>Jolene não queria que isso a magoasse e, na maioria das vezes,</p><p>era bem-sucedida. Era apenas uma minúscula ferroada, como a</p><p>picada de uma agulha.</p><p>— Não sabes o que é uma coisa embaraçosa — murmurou,</p><p>lembrando-se da sua própria mãe, tropeçando embriagada numa</p><p>reunião entre pais e professores, dizendo «Tu fizestes» numa voz</p><p>pastosa.</p><p>— A Sierra vai rir-se de mim.</p><p>— Nesse caso, não é lá grande coisa como amiga, pois não?</p><p>Porque não me contas o que está a acontecer, Bets? Tu, a Sierra e a</p><p>Zoe costumavam fazer tudo juntas.</p><p>— Não me deixas fazer nada. Elas podem usar maquilhagem e ir</p><p>ao centro comercial aos fins de semana.</p><p>O mesmo e velho argumento.</p><p>— És demasiado nova para usar maquilhagem. Treze anos foi a</p><p>idade que acordámos para usar maquilhagem e furar as orelhas.</p><p>Sabes muito bem disso.</p><p>— Como se eu tivesse concordado com alguma coisa — replicou</p><p>Betsy com amargura.</p><p>— Se elas não gostarem de ti porque não usas rímel…</p><p>— Não percebes nada de nada.</p><p>— Bets — disse a mãe na sua voz mais suave. — O que foi que</p><p>aconteceu?</p><p>A suavidade e o tom carinhoso foram a solução. A filha irrompeu</p><p>em lágrimas. Jolene esticou-se na cama e abraçou a filha,</p><p>embalando-a enquanto ela chorava. Era um desfecho há muito</p><p>esperado. Betsy chorou como se o seu coração estivesse a ser</p><p>despedaçado, como se alguém que amava estivesse a morrer. Jolene</p><p>abraçou-a com força, afagando-lhe o cabelo encaracolado.</p><p>— A Si-Si-erra levou cigarros para a escola na semana passada —</p><p>contou Betsy entre soluços. — Qua-quando lhe disse que isso era</p><p>contra as regras, ela cha-cha-mou-me fracassada e desafiou-me a</p><p>fumar um.</p><p>Jolene inspirou fundo para se acalmar.</p><p>— E tu fumaste?</p><p>— Não, mas agora elas não falam comigo. Chamam-me</p><p>mariquinhas.</p><p>Jolene tinha vontade de abraçar a filha até todos aqueles perigos</p><p>passarem, até ela ter idade suficiente para os enfrentar com</p><p>graciosidade e facilidade. Precisava agora de dizer o que devia fazer,</p><p>a perfeita atitude maternal, mas sentia-se deslocada, não estava no</p><p>seu elemento. Até ingressar no Exército — com as suas rígidas</p><p>regras de comportamento —, nunca se integrara em lugar algum. Os</p><p>miúdos da escola que frequentava sempre souberam que ela era</p><p>diferente — é provável que fosse por causa das roupas antiquadas</p><p>que usava ou de nunca ir a eventos, ou talvez fosse porque nunca</p><p>convidava ninguém para ir a sua casa. Quem sabe? Seja como for,</p><p>as crianças são implacáveis, como o Jedi; são capazes de pressentir</p><p>a mínima perturbação na Força. Jolene achara uma maneira, já</p><p>nessa altura, de compartimentar os seus sentimentos e soterrá-los</p><p>bem no fundo de si mesma.</p><p>Por conseguinte, não sabia o que era querer ser aceite com tanto</p><p>desespero a ponto de se sentir doente perante o mais ínfimo sinal</p><p>de desprezo. Numa situação normal, falaria agora com Betsy sobre a</p><p>força interior, sobre acreditar em si mesma, talvez até sobre dar um</p><p>certo desconto às amigas.</p><p>Todavia, fumar no recinto da escola mudava tudo isso. Se as</p><p>amigas, ex-amigas, de Betsy andavam a fumar, Jolene precisava de</p><p>se mostrar mais firme.</p><p>— Vou telefonar à mãe da Sierra…</p><p>— Oh, CÉUS, não vais fazer nada disso. Promete-me que não</p><p>vais. Se o fizeres, nunca mais te conto nada.</p><p>O medo nos olhos de Betsy era alarmante.</p><p>— Promete-me, mãe. Por favor…</p><p>— Está bem — disse Jolene. — Não vou dizer nada por agora.</p><p>Mas, querida, se a Sierra e a Zoe andam a fumar na escola, não vais</p><p>querer ir atrás delas e fazer a mesma coisa. Talvez estejas a precisar</p><p>de criar novas amizades. Como, por exemplo, as raparigas da tua</p><p>equipa de atletismo. Parecem ser simpáticas.</p><p>— Tu achas que toda a gente parece simpática.</p><p>— E então o Seth?</p><p>Betsy revirou os olhos.</p><p>— Por favor. Ontem ele levou a guitarra para a escola e pôs-se a</p><p>tocar à hora do almoço. Foi uma cena do mais triste que pode haver.</p><p>— Costumavas adorar ouvi-lo tocar guitarra.</p><p>— E depois? Agora já não gosto. As pessoas estavam a rir-se</p><p>dele.</p><p>Jolene fitou a filha; ela estava com um ar de total infelicidade.</p><p>— Ah, Betsy. Como podes ser tão má para o Seth? Sabes como</p><p>te dói quando a Sierra e a Zoe são más para ti.</p><p>— Se for amiga dele, ninguém vai gostar de mim.</p><p>— Vais ter de aprender a não ser como um lemingue, Bets.</p><p>— O que é isso? É um roedor? Estás a dizer que sou um roedor?</p><p>Jolene suspirou.</p><p>— Quem me dera poder fazer com que tudo isto fosse mais fácil</p><p>para ti. Mas só tu tens a possibilidade de fazer isso. Precisas de</p><p>mostrar o teu melhor lado, Betsy. Sê uma boa amiga e terás bons</p><p>amigos.</p><p>— Queres facilitar-me a vida? Não vás ao dia de atividades entre</p><p>pais e filhos.</p><p>E depois, assim sem mais nem menos, tudo voltou à estaca zero.</p><p>— Não posso fazer isso, e tu sabes. Comprometi-me. Dei a minha</p><p>palavra. Quando se faz uma promessa a alguém, essa promessa é</p><p>para se cumprir. A isso dá-se o nome de honra e a honra… e o</p><p>amor… são mais importantes do que qualquer outra coisa no mundo.</p><p>— ‘Tá bem, ‘tá bem. Faz o que tiveres de fazer.</p><p>— No ano que vem não me ofereço como voluntária. Então, que</p><p>tal?</p><p>Betsy olhou para a mãe.</p><p>— Prometes?</p><p>— Prometo.</p><p>Jolene tentou não dar muita importância ao facto de ter, por fim,</p><p>conseguido arrancar um sorriso relutante à filha, prometendo não</p><p>participar na vida dela.</p><p>O dia das atividades entre pais e filhos foi tão mau como era de</p><p>esperar. Betsy ficou mortificada quando a mãe apareceu na escola.</p><p>Jolene tentou ser o mais discreta possível, modulando a voz com</p><p>cuidado quando falou sobre o programa da escola de voo para onde</p><p>entrara quando saíra do secundário, aos dezoito anos. As crianças</p><p>adoraram ouvi-la falar das missões aéreas que realizara oficialmente,</p><p>como, por exemplo, o salvamento dos montanhistas no monte</p><p>Rainier no ano anterior durante um nevão. Fizeram-lhe perguntas</p><p>sobre óculos de visão noturna, sobre armas e treino de combate.</p><p>Jolene tentou amenizar o tema, incluindo o sangue-frio que é</p><p>necessário quando se pilota um helicóptero Black Hawk, mas nem</p><p>por um momento deixou de ver Betsy enterrar-se na cadeira,</p><p>esforçando-se ao máximo por desaparecer. No fim da palestra, a</p><p>filha foi a primeira a alcançar a porta. No outro lado do ginásio,</p><p>Sierra e Zoe estavam a apontar para Betsy e a rir-se.</p><p>Desde então, Betsy passara a estar cada vez mais inconstante e</p><p>temperamental. Gritava; chorava; revirava os olhos. Deixou de andar</p><p>normalmente, passando a caminhar batendo com os pés no chão.</p><p>Em todo o lado. A entrar e a sair das salas, a subir as escadas. As</p><p>portas deixaram de ser fechadas; eram batidas com força. Quando o</p><p>telefone tocava, precipitava-se para atendê-lo. Ficava</p><p>invariavelmente desiludida quando descobria que a chamada era</p><p>para outra pessoa. Ninguém lhe telefonava, o que para uma rapariga</p><p>de doze anos era o equivalente a ficar encalhada num banco de</p><p>gelo. Jolene podia estar a exagerar, mas andava preocupada</p>
<p>com a</p><p>filha. Qualquer coisa podia fazê-la explodir, atirá-la para uma</p><p>depressão cada vez mais profunda.</p><p>— E hoje é o primeiro encontro de atletismo. Sabes o que isso</p><p>significa. Uma potencial humilhação. Estou preocupada — disse</p><p>Jolene a Michael nessa manhã. O marido estava ao seu lado na</p><p>cama, a ler.</p><p>Esperou que Michael lhe respondesse, mas não tardou a perceber</p><p>que ele não tinha nada para lhe dizer ou então que não estava</p><p>sequer a ouvir.</p><p>— Michael?</p><p>— O que foi? Oh, isso outra vez. Ela está ótima, Jolene. Deixa de</p><p>tentar controlar tudo.</p><p>Pousou o jornal e levantou-se da cama, encaminhando-se para a</p><p>casa de banho e fechando a porta atrás de si.</p><p>Jolene suspirou. Como de costume, estava por sua conta tudo o</p><p>que dizia respeito aos assuntos familiares. Levantou-se da cama e foi</p><p>correr.</p><p>Quando regressou a casa, tomou um duche e vestiu-se</p><p>rapidamente, apanhando o cabelo húmido num rabo de cavalo e foi</p><p>acordar as filhas. Lá em baixo, na cozinha, serviu-se de uma</p><p>chávena de café e começou a preparar o pequeno-almoço.</p><p>Panquecas de mirtilos.</p><p>— Bom dia — disse Michael atrás de si.</p><p>Jolene virou-se e olhou para ele.</p><p>Michael sorriu-lhe. Foi todavia um sorriso fatigado, sem</p><p>vivacidade; não lhe chegou aos olhos escuros. Na realidade, nem</p><p>sequer era o sorriso característico dele, pelo menos não aquele que,</p><p>em tempos idos, a fazia render-se de uma maneira tão completa ao</p><p>amor.</p><p>Por um momento, sentiu-se fascinada ao ver como Michael era</p><p>atraente. O seu cabelo preto, ainda sem o menor vestígio de fios</p><p>grisalhos aos quarenta e cinco anos, era ondulado e estava húmido.</p><p>Era o tipo de homem que chamava a atenção; quando Michael</p><p>Zarkades entrava numa sala, toda a gente reparava — ele sabia</p><p>disso e adorava.</p><p>— Vais à competição de atletismo, não vais? Sei como andas</p><p>ocupado no escritório e por norma até costumo entender quando</p><p>chegas tarde a casa, mas tenta ir só desta vez. Acho que é</p><p>importante, está bem? Sabes como ela é menina do papá — disse</p><p>Jolene.</p><p>Michael fez uma pausa, com a chávena de café a escassos</p><p>centímetros da boca.</p><p>— Quantas vezes tencionas lembrar-me disso?</p><p>Jolene sorriu.</p><p>— Estou a ser um pouco obsessiva? Que grande surpresa. É só</p><p>porque é muito importante que estejas lá. A tempo e horas. A Betsy</p><p>anda fragilizada nos últimos tempos e eu…</p><p>Betsy gritou.</p><p>— Mãe!</p><p>E entrou a patinar na cozinha.</p><p>— Onde está a minha camisola cor de laranja com capuz? Preciso</p><p>dela!</p><p>Lulu vinha a correr ao lado da irmã, parecendo estremunhada e</p><p>com o cabelo em desalinho, agarrada ao seu inseparável cobertor</p><p>amarelo.</p><p>— Camisola com capuz, camisola com capuz.</p><p>— Cala-te — berrou Betsy.</p><p>O rosto de Lulu franziu-se. Arrastou-se até à mesa da cozinha e</p><p>subiu para uma cadeira.</p><p>— Lavei a tua camisola com capuz da sorte, Betsy — disse</p><p>Jolene. — Sabia que ias precisar dela.</p><p>— Oh! — disse Betsy, cedendo um pouco com o alívio.</p><p>— Pede desculpa à tua irmã — disse Michael do seu lugar na</p><p>bancada da cozinha.</p><p>Betsy murmurou uma desculpa enquanto Jolene ia até ao cesto</p><p>da roupa lavada buscar a camisola com capuz — um presente de</p><p>Michael que se tornara o talismã de Betsy. Jolene sabia que as duas</p><p>coisas estavam relacionadas — a origem do presente e a magia que</p><p>vinha com ele. Betsy precisava da atenção do pai, e por vezes</p><p>aquela camisola era tudo o que conseguia ter dele.</p><p>Betsy arrancou a camisola cor de laranja com capuz das mãos</p><p>dela e vestiu-a.</p><p>Jolene reparou no quanto a filha estava pálida e como tremia.</p><p>Lançou um olhar a Michael, para ver se ele também havia reparado,</p><p>mas o marido já retomara a leitura do jornal. Estava na cozinha com</p><p>elas, mas encontrava-se a quilómetros de distância dali. «Há quanto</p><p>tempo as coisas estavam assim?», interrogou-se de súbito.</p><p>Betsy dirigiu-se à mesa e sentou-se.</p><p>Jolene deu uma palmadinha no ombro da filha.</p><p>— Aposto que estás entusiasmada com o torneio. Falei com o teu</p><p>treinador e ele disse-me…</p><p>— Falaste com o meu treinador?</p><p>Jolene fez uma pausa, retirou a mão. É óbvio que voltara a meter</p><p>água.</p><p>— Ele disse-me que tens estado muito bem nos treinos.</p><p>— Inacreditável.</p><p>Betsy abanou a cabeça e baixou os olhos cravando-os nas duas</p><p>panquecas que estavam no prato.</p><p>— Quero panquecas de homens — berrou Lulu, irritada por não</p><p>ser o centro das atenções.</p><p>— É natural que estejas nervosa, Bets — disse Jolene. — Mas eu</p><p>já te vi correr. És a melhor velocista da tua equipa.</p><p>Betsy fitou-a com olhos faiscantes.</p><p>— Não sou a melhor. Estás a dizer isso só porque és minha mãe.</p><p>É como se fosse uma regra ou coisa parecida.</p><p>— A única regra que tenho é adorar-te — respondeu Jolene. — E</p><p>adoro. E sinto orgulho em ti, Betsy. É assustador encarar a vida de</p><p>frente, arriscar. Tenho orgulho em ti por tentares. Todos temos —</p><p>acrescentou propositadamente e as suas palavras visavam Michael,</p><p>que estava de pé encostado à bancada da cozinha, a ler o jornal.</p><p>Ao lado dele, pregado à parede, encontrava-se o calendário das</p><p>atividades de Jolene que enumerava todas as coisas que precisava</p><p>de fazer nessa semana e todos os lugares aonde tinha de ir.</p><p>«ENCONTRO DE ATLETISMO» estava escrito a vermelho em letras</p><p>garrafais assinalando aquele dia.</p><p>Betsy seguiu o olhar da mãe.</p><p>— Vais ao torneio, pai? Começa às três e meia.</p><p>Seguiu-se um silêncio, uma espera. Quanto tempo durou? Um</p><p>segundo? Um minuto? Jolene rezou para que Michael erguesse os</p><p>olhos, exibisse aquele sorriso cintilante e encantador, e prometesse.</p><p>— Michael? — chamou, imperativa.</p><p>Sabia até que ponto o trabalho dele era importante e respeitava</p><p>a sua dedicação. Era raro pedir-lhe que comparecesse a algum</p><p>evento familiar, mas esta primeira prova de atletismo era importante.</p><p>Michael ergueu os olhos, irritado com o tom de voz da mulher.</p><p>— O que foi?</p><p>— A Betsy estava a lembrar-te da competição de atletismo. É</p><p>hoje às três e meia.</p><p>— Oh, claro.</p><p>Michael pousou o jornal e lá estava ele, o tal sorriso que</p><p>arrebatara tantas mulheres, incluindo Jolene, levando-as ao céu.</p><p>Dirigiu-o a Betsy, em pleno, exibindo o seu belo rosto franzido numa</p><p>expressão de bom humor.</p><p>— Como podia esquecer-me do grande dia da minha princesa?</p><p>O sorriso de Betsy estendeu-se pelo seu rosto pequeno e pálido,</p><p>revelando o aparelho nuns dentes grandes e encavalitados.</p><p>Ele deu a volta à mesa, debruçou-se e beijou Betsy na cabeça,</p><p>despenteou o cabelo preto de Lulu e continuou a andar em direção à</p><p>porta, agarrando no casaco que estava pendurado nas costas da</p><p>cadeira e tirando a pasta de cima da bancada de azulejos.</p><p>Betsy sentiu-se radiante com a atenção dispensada pelo pai.</p><p>— Sabias…</p><p>Michael saiu de casa, fechando apressadamente a porta atrás de</p><p>si, interrompendo a frase de Betsy.</p><p>Ela deixou o corpo pender para a frente, como uma boneca de</p><p>trapos esvaziada do seu enchimento.</p><p>— O pai não te ouviu — disse Jolene. — Sabes como é quando</p><p>ele tem de ir apanhar o ferry.</p><p>— O pai devia ir fazer um exame aos ouvidos — replicou Betsy,</p><p>empurrando o prato para o lado.</p><p>CAPÍTULO 4</p><p>Michael estava de pé junto à janela do seu gabinete a olhar lá</p><p>para fora. Naquele dia frio e cinzento Seattle fervilhava sob um</p><p>pesado manto de nuvens. A chuva obscurecia a vista, suavizava os</p><p>duros contornos de aço dos arranha-céus. Bem lá em baixo,</p><p>estafetas de bicicleta serpenteavam por entre o trânsito como</p><p>colibris.</p><p>Atrás dele, o intercomunicador soou.</p><p>Foi até à secretária para atender.</p><p>— Diga, Ann. O que foi?</p><p>— Um tal Edward Keller ao telefone.</p><p>— Conhece-o?</p><p>— Não. No entanto, diz que é urgente.</p><p>— Pode passar a chamada.</p><p>Michael sentou-se à secretária. As chamadas urgentes de</p><p>desconhecidos constituíam um instrumento acessório na defesa</p><p>criminal.</p><p>O telefone tocou; ele atendeu.</p><p>— Michael Zarkades — disse apenas.</p><p>— Obrigado por atender o meu telefonema, doutor Zarkades.</p><p>Penso que seja o advogado nomeado pelo tribunal para defender o</p><p>meu filho.</p><p>— Quem é o seu filho?</p><p>— Keith Keller. Foi detido por matar a mulher.</p><p>O caso que o juiz Runyon atribuíra a Bill.</p><p>— Correto, senhor Keller. Estava apenas a estudar os factos para</p><p>tentar inteirar-me do caso.</p><p>Michael vasculhou por entre as pilhas de papéis e pastas que</p><p>tinha em cima da secretária,</p>
<p>à procura do processo Keller. Assim que</p><p>o encontrou, disse:</p><p>— Oh, muito bem. Na verdade, tenho uma entrevista marcada</p><p>com o seu filho hoje às duas horas.</p><p>Duas horas.</p><p>Merda.</p><p>A competição de atletismo.</p><p>— Estou preocupado com ele, senhor doutor. Gostaria de ir até aí</p><p>falar consigo, se não se importar. Precisa de saber como ele é bom</p><p>rapaz.</p><p>Homicida, não obstante.</p><p>— Sem dúvida de que precisarei conversar consigo em breve,</p><p>senhor Keller — disse Michael. — No entanto, preciso de falar</p><p>primeiro com o meu cliente. Deu o seu número de telefone à minha</p><p>secretária?</p><p>— Dei, sim.</p><p>— Ótimo.</p><p>— Doutor Zarkades? Ele é um bom rapaz. Não sei por que razão</p><p>fez aquilo.</p><p>Michael desejou que o homem não tivesse proferido aquela</p><p>última frase.</p><p>— Eu volto a ligar-lhe, senhor Keller. Obrigado.</p><p>Michael desligou o telefone e olhou para o relógio. Eram 12h27.</p><p>Tinha-se esquecido da reunião com Keller — devia tê-la cancelado</p><p>por causa da competição de atletismo.</p><p>Ainda ia a tempo. Ou então podia ir mais cedo. Esse tal Keller</p><p>não tinha a agenda propriamente cheia.</p><p>Tornou a olhar para o relógio. Se saísse agora, podia chegar à</p><p>prisão por volta das 12h45, conversar com o seu novo cliente e</p><p>ainda ter tempo para apanhar o ferry das 14h05.</p><p>A sala da cadeia estadual de King era escura e lúgubre. Não tinha</p><p>na parede um espelho com painel de vidro transparente na parte de</p><p>trás, como se via no CSI; em vez disso, havia dois candeeiros de</p><p>teto, verdes e em mau estado, sobre uma mesa toda marcada pelos</p><p>anos de uso, e um pequeno cesto de papéis metálico num dos</p><p>cantos. Nada que pudesse ser usado como arma. Os pés da mesa</p><p>estavam aparafusados ao chão de cimento.</p><p>Michael sentou-se na cadeira diante da mesa que o separava do</p><p>seu novo cliente, Keith Keller, que era jovem, com cabelo curto e</p><p>louro e um tipo de constituição física que sugeria o uso de</p><p>esteroides ou então um culturismo obsessivo. As maçãs do rosto do</p><p>rapaz eram proeminentes e os lábios pareciam ter sido mordidos.</p><p>O relógio de parede mantinha um registo contínuo dos minutos</p><p>que decorriam em silêncio.</p><p>Bem, não exatamente em silêncio.</p><p>Keith estava sentado, imóvel como uma estátua, com os seus</p><p>olhos cinzentos numa estranha — e perturbadora — fixação no</p><p>vazio.</p><p>Ficaram ali sentados sozinhos, os dois, durante mais de trinta e</p><p>cinco minutos. Keith não proferiu uma única palavra, mas respirava</p><p>ruidosamente, um tipo de respiração irregular e pesada.</p><p>Michael olhou de relance para o relógio, outra vez — 13h21 — e</p><p>depois baixou os olhos para a papelada que se encontrava em cima</p><p>da mesa de madeira à sua frente. Tudo o que dispunha até ao</p><p>momento era o relatório da detenção, o que não era minimamente</p><p>suficiente para articular uma base de defesa. De acordo com a</p><p>polícia, Keith pareceu ter ficado tresloucado, desatando a dar tiros a</p><p>tudo o que se mexia até que os vizinhos pediram ajuda. Quando a</p><p>polícia chegou, Keith barricou-se dentro de casa durante horas. A</p><p>dada altura, no meio de toda essa situação, ele — alegadamente —</p><p>matou a mulher com um tiro na cabeça. O relatório mencionava que</p><p>ameaçara suicidar-se antes de a equipa de operações especiais</p><p>conseguir capturá-lo.</p><p>Não fazia sentido. Keller tinha vinte e quatro anos e meio, sem</p><p>qualquer registo de crime. Ao contrário da maioria dos clientes de</p><p>Michael, Keller nunca fora preso em circunstância alguma antes</p><p>daquele incidente, nem mesmo por furto em lojas quando era</p><p>adolescente. Depois de terminar o secundário, alistou-se nos</p><p>fuzileiros e fora desmobilizado com louvor. Em seguida arranjou</p><p>emprego. Não se lhe conhecia ligação a qualquer gangue nem ao</p><p>consumo de drogas.</p><p>— Preciso de compreender o que aconteceu, Keith.</p><p>Keith continuou a fitar o mesmo ponto na parede que captara a</p><p>sua atenção nos últimos três quartos de hora.</p><p>E, a juntar a tudo isso, aquela respiração ruidosa e medonha.</p><p>Michael suspirou e olhou para o relógio. Se o rapaz não queria</p><p>ajudar-se a si mesmo, era lá com ele. Michael precisava de se ir</p><p>embora nesse momento, senão perderia o ferry — e o início da</p><p>competição de atletismo.</p><p>— Muito bem, Keith. Vou pedir ao tribunal que solicite uma</p><p>avaliação psiquiátrica. Não estará apto a comparecer em tribunal se</p><p>não puder participar na sua própria defesa. Preferia ir para um</p><p>hospital psiquiátrico em vez de ir para a prisão? A escolha é sua.</p><p>Silêncio absoluto.</p><p>Michael esperou mais um momento, na esperança de uma</p><p>resposta. Não obtendo qualquer reação do seu cliente, levantou-se e</p><p>juntou os papéis.</p><p>— Estou do seu lado, Keith. Não se esqueça disso.</p><p>Depois de guardar os documentos dentro da pasta, Michael</p><p>encaminhou-se para a porta. Estava prestes a premir o botão para</p><p>chamar o guarda, quando Keith falou.</p><p>— De que adianta? Sou culpado.</p><p>Michael deteve-se. De todas as coisas que o rapaz poderia dizer,</p><p>essa era provavelmente a menos produtiva. Um advogado de defesa</p><p>criminal não queria, na verdade, saber disso — limitava as defesas</p><p>que poderia proporcionar. Virou-se devagar, esperou ver Keith a</p><p>olhar para ele, mas o rapaz fitava os próprios dedos, como se o</p><p>segredo da imortalidade residisse na sujidade que havia debaixo das</p><p>unhas.</p><p>— Quando diz que é culpado…</p><p>— Matei-a com um tiro na cabeça.</p><p>A voz dele fraquejou depois de dizer isso. Ergueu os olhos.</p><p>Michael já se habituara a reconhecer o sofrimento profundo, e foi</p><p>capaz de o ver nos olhos daquele rapaz.</p><p>— Porque haveria de estar do meu lado?</p><p>Merda.</p><p>Agora teria de lhe explicar a relação entre advogado e cliente e o</p><p>conceito americano de jurisprudência, aquela história de que toda a</p><p>gente é inocente até que se prove o contrário. Olhou para o relógio.</p><p>13h37. Não tinha hipótese nenhuma de chegar a tempo do início da</p><p>competição de atletismo, mas podia chegar atrasado, não podia?</p><p>Voltou para a mesa, sentou-se e tirou um bloco de apontamentos</p><p>de dentro da pasta.</p><p>— Deixe-me explicar-lhe como isto funciona…</p><p>Às 14h20, Jolene parou em frente da loja de jardinagem da</p><p>sogra, a Green Thumb, e fez Lulu entrar.</p><p>Um sininho tilintou alegremente por cima das suas cabeças. A</p><p>loja pequena e estreita — em tempos uma antiga drogaria,</p><p>complementada com uma máquina de refrigerantes — era uma</p><p>pérola de referência para os jardineiros. A mãe de Michael, Mila,</p><p>abrira a loja há dez anos — só para se entreter —, mas nos meses a</p><p>seguir à morte de Theo tornara-se o seu santuário. A exemplo do</p><p>filho, Mila caracterizava-se por uma forte ética profissional e nos</p><p>últimos tempos passava longas horas naquele lugar.</p><p>— Yia Yia! — gritou Lulu, pulando livremente. Avançou pelo</p><p>interior da loja com o seu habitual entusiasmo. — Onde estás tu?</p><p>Mila apareceu afastando a cintilante cortina de contas de vidro da</p><p>sala das traseiras.</p><p>— Estarei eu a ouvir a voz da minha neta?</p><p>— Estou aqui, Yia Yia! — gritou Lulu.</p><p>Mila envergava a sua habitual roupa de trabalho: uma t-shirt que</p><p>lhe dava pelas coxas, um avental de sarja verde (concebido para</p><p>ocultar o seu peso) e calças de ganga enfiadas numas botas de</p><p>borracha cor de laranja. A maquilhagem carregada acentuava a</p><p>beleza impressionante do seu rosto — sobrancelhas arqueadas de</p><p>um negro-azeviche, olhos castanhos cintilantes e lábios carnudos</p><p>que exibiam um sorriso fácil. Tinha um ar tão grego como a sua</p><p>pronúncia e mimava as netas tanto quanto mimara o filho. Também</p><p>se transformara na mãe que Jolene sempre desejara.</p><p>Enquanto jovem mãe, Jolene passou horas acocorada na terra</p><p>negra e fértil com a sogra ao seu lado. A princípio achou que ia</p><p>aprender coisas sobre ervas daninhas e sobre a importância de um</p><p>sólido sistema de raízes e níveis de luz solar necessários para o</p><p>cultivo; com o tempo, apercebeu-se de que a sogra estava a dar-lhe</p><p>lições sobre a vida, o amor e a família. Quando chegou a hora de</p><p>Jolene e Michael comprarem uma casa onde pudessem criar a sua</p><p>própria família, Mila nunca pôs em causa a localização. Esta cidade</p><p>passara a ser um «lar» para Jolene a partir do momento em que</p><p>Mila a abraçara pela primeira vez e lhe sussurrara: És a mulher certa</p><p>para ele, mas já sabes isso, não sabes?</p><p>— Olá, Lucy Louida — disse Mila, pegando na neta ao colo,</p><p>baloiçando-a</p>
<p>nos seus braços fortes e sentando-a no balcão ao lado</p><p>da caixa registadora.</p><p>— Olá, Yia Yia — disse Lulu a sorrir. — Queres brincar ao jogo</p><p>das palmas?</p><p>— Agora não, kardia mou.</p><p>Jolene surgiu por trás da sogra e deu-lhe um abraço apertado.</p><p>Enquanto fosse viva, o aroma do perfume Shalimar lembrar-lhe-ia</p><p>sempre esta mulher.</p><p>Mila encostou-se para trás a receber o abraço. O seu cabelo</p><p>preto pintado — apanhado ao estilo de uma rapariga de outros</p><p>tempos — fez cócegas na cara de Jolene. Depois, bateu palmas com</p><p>as suas mãos roliças.</p><p>— Agora está na hora de ir ver a minha neta correr como o</p><p>vento. Estou pronta para sair.</p><p>Mila deu algumas instruções ao homem mais velho que era seu</p><p>assistente na loja e, num instante, encontravam-se a caminho da</p><p>escola, onde, por fim, o sol rompeu dissipando as nuvens.</p><p>A pista parecia uma colmeia fervilhante de atividade; à volta,</p><p>alunos, pais e professores preparavam a pista e o campo de futebol</p><p>para as provas. A equipa adversária estava reunida na extremidade</p><p>oposta do campo. Betsy encontrava-se junto da sua equipa debaixo</p><p>dos postes de marcação, vestida com o seu fato de treino azul e</p><p>dourado. Quando a família chegou, ergueu os olhos, acenou e</p><p>correu na sua direção.</p><p>Betsy sorriu.</p><p>— Olá, Yia Yia.</p><p>Jolene sorriu para a filha, que apenas por uma fração de segundo</p><p>pareceu orgulhosa por elas estarem ali para a ver correr. Sentiu um</p><p>pequeno nó na garganta. Aquele era um momento tão importante</p><p>para a filha; o primeiro torneio de atletismo da escola. Inclinou-se e</p><p>beijou-a.</p><p>— Oh, céus.</p><p>Betsy arquejou e recuou, tropeçando, com os olhos arregalados.</p><p>— Desculpa — disse Jolene, esforçando-se por não sorrir. —</p><p>Ninguém viu.</p><p>Mila riu-se.</p><p>— O horror. O horror. O teu pai também costumava detestar</p><p>quando eu o beijava em público. Também não ligava nada ao horror</p><p>que ele sentia. Dizia-lhe que tinha sorte em ter uma mãe que o</p><p>amava.</p><p>— Muito bem — disse Betsy.</p><p>Lançou um olhar à equipa e mordeu o lábio inferior com</p><p>nervosismo.</p><p>Jolene deu um passo em frente.</p><p>— Estás preparada para isto, Bets.</p><p>Ela ergueu os olhos, e nesse exato momento Jolene tornou a ver</p><p>a sua menina, aquela que adorava cavar a terra e apanhar lagartas.</p><p>— Vou perder. Quero que saibas. Posso até cair.</p><p>— Não vais cair, Betsy. A vida é como uma maçã. É preciso dar-</p><p>lhe uma boa dentada para desfrutar todo o seu sabor.</p><p>— Pois — retorquiu a filha, com ar infelicíssimo. — Seja o que for</p><p>que isso queira dizer.</p><p>— Quer dizer «Boa sorte» — explicou Mila.</p><p>— Vamos até às bancadas para assistir — disse Jolene.</p><p>— Onde está o pai? — perguntou Betsy.</p><p>— Quase a chegar — respondeu Jolene. — O ferry deve estar a</p><p>atracar neste momento. Boa sorte, querida.</p><p>Jolene pegou em Lulu ao colo apoiando-a na anca e levou-a até</p><p>às bancadas. É provável que estivessem perto de quarenta pessoas</p><p>na arquibancada, a maioria mães e crianças. Subiram até um lugar</p><p>ao centro e sentaram-se. Cerca de cinco minutos depois, Tami</p><p>apareceu, um pouco ofegante e corada.</p><p>— Perdi alguma coisa? — perguntou, deslizando para o lugar ao</p><p>lado de Jolene.</p><p>— Não.</p><p>Às três e meia em ponto, uma arma disparou e teve início a</p><p>primeira prova — a corrida da milha masculina.</p><p>Lulu gritou com o estampido. Pôs-se de pé num pulo e correu de</p><p>um lado para o outro na bancada, gritando:</p><p>— Olha para mim, mamã!</p><p>— Onde está o Michael? — perguntou Mila preocupada. —</p><p>Lembrei-o ontem.</p><p>— Tenho a certeza de que está a caminho — respondeu Jolene.</p><p>— É bom que esteja.</p><p>Tami lançou-lhe um olhar de quem entendia bem a aflição dela.</p><p>Jolene assentiu.</p><p>A corrida da milha terminou. Em seguida chamaram para a milha</p><p>feminina.</p><p>Jolene procurou o telemóvel, tirou-o da carteira e ligou o número</p><p>de Michael. Foi de imediato parar ao voice mail. Começou a bater</p><p>com os pés, nervosa.</p><p>Vá lá, Michael… vê se chegas a tempo…</p><p>Às 4h10, chamaram para a prova de Betsy — os cem metros</p><p>planos. Corredoras, aos seus lugares…</p><p>O telefone de Jolene tocou. Era Michael. Ela apressou-se a</p><p>atender.</p><p>— Se estiveres no parque de estacionamento, vais ter de correr.</p><p>Acabaram de chamar para a corrida dela.</p><p>— Estou na prisão — disse Michael. — O meu cliente…</p><p>— Nesse caso, vais perder a corrida — disse Jolene num tom</p><p>acutilante.</p><p>Lá em baixo, na pista, Betsy aproximou-se da linha de partida.</p><p>Curvou-se, colocou as palmas das mãos na pista, assentou os pés</p><p>nos blocos de partida.</p><p>— Bolas, Jo…</p><p>A pistola disparou o sinal de partida.</p><p>— Tenho de ir — disse Jolene, desligando-lhe o telefone de</p><p>súbito.</p><p>Pondo-se de pé, gritou por Betsy, que estava a correr bem,</p><p>impulsionando os braços e as pernas, dando tudo por tudo. Jolene</p><p>foi varrida por uma onda de orgulho que lhe trouxe lágrimas aos</p><p>olhos.</p><p>— Vai, Betsy, vai!</p><p>Betsy foi a segunda a cortar a linha de chegada. Depois, dobrou-</p><p>se para a frente, respirando com dificuldade, e, em seguida, ergueu</p><p>os olhos para as bancadas. Estava radiante, com um sorriso</p><p>triunfante, quando olhou para a sua família.</p><p>Aos poucos, o sorriso dela desfez-se. Reparou que Michael não</p><p>estava ali.</p><p>Logo depois, correu para junto dos outros membros da sua</p><p>equipa.</p><p>Jolene deixou-se cair lentamente no assento da bancada. Sabia</p><p>qual era a sensação de precisar da atenção dos pais e esta ser-lhe</p><p>negada; sabia até que ponto isso magoava. Nunca quis que as suas</p><p>filhas conhecessem essa mágoa. Sabia que estava a exagerar —</p><p>afinal de contas, não passava de um encontro de atletismo —, mas</p><p>era o começo. Durante quanto tempo iria Betsy lembrar-se daquilo?</p><p>Durante quanto tempo se sentiria magoada? E até que ponto teria</p><p>sido fácil para Michael fazer uma escolha diferente?</p><p>Havia outra corrida — a de duzentos metros — e Betsy deu tudo</p><p>por tudo, mas a sua sensação de triunfo desaparecera; assim como</p><p>o seu sorriso. Foi a quarta. Depois disso, as corridas sucederam-se e</p><p>Lulu não parava de andar de um lado para o outro nas bancadas,</p><p>Jolene, Mila e Tami limitaram-se a ficar sentadas.</p><p>— Não entendo — disse Mila por fim. — Lembrei-o por duas</p><p>vezes.</p><p>— Eu lembrei-o mais duas e dupliquei — disse Tami. — A única</p><p>justificação plausível para se ter esquecido seria um tumor no</p><p>cérebro. Desculpe, senhora Z., só estou a dizer…</p><p>— Michael é como o pai dele nestas coisas — recordou Mila. —</p><p>Implorei várias vezes ao Theo que comparecesse às atividades</p><p>escolares de Michael, mas ele estava sempre a trabalhar. O trabalho</p><p>deles é importante.</p><p>— A família também é — comentou Jolene em voz baixa.</p><p>Mila suspirou.</p><p>— Sim. Também dizia isso ao pai dele.</p><p>Lulu rodopiou em frente de Jolene, atirando-se para o assento.</p><p>Os seus olhos arregalaram-se numa expressão algures entre o «Vou</p><p>gritar ou adormecer a qualquer momento».</p><p>Quando o torneio terminou, às cinco e um quarto, Jolene agarrou</p><p>a mãozinha de Lulu e pôs-se de pé.</p><p>— Bom. Vamos embora.</p><p>Desceram os degraus das bancadas até ao campo, por onde os</p><p>atletas de ambas as escolas deambulavam.</p><p>— Lá está ela — exclamou Lulu, apontando para Betsy, que</p><p>estava sozinha, de pé, debaixo da trave da baliza de futebol.</p><p>Jolene puxou Betsy dando-lhe um abraço apertado.</p><p>— Estou muito orgulhosa de ti.</p><p>— Segundo lugar. Grande coisa — retorquiu Betsy, esquivando-</p><p>se. A mãe pôde ver a mágoa transformar-se numa casca quebradiça</p><p>de raiva. Parecia ser esse o estado normal de Betsy nos dias que</p><p>corriam — qualquer emoção violenta transformava-se em raiva.</p><p>— Nunca vi uma corrida assim, kardia mou. Eras como o vento.</p><p>Betsy nem sequer tentou sorrir.</p><p>— Obrigada, Yia Yia.</p><p>— E que tal se fôssemos todas comer uma piza e gelado? —</p><p>sugeriu Mila, batendo palmas.</p><p>— Claro — respondeu Betsy de mau humor.</p><p>Saíram juntas. Era óbvio para Jolene — e sem dúvida para Betsy</p><p>— que toda a gente estava a tentar falar ao mesmo tempo, na</p><p>esperança de disfarçar a ausência de Michael. Durante a hora</p><p>seguinte, fingiram, rindo um pouco alto demais, dizendo piadas que</p><p>não tinham graça. Jolene perdeu a conta às vezes que alguém dizia</p><p>a Betsy o quanto fora maravilhosa. As palavras embateram contra a</p><p>couraça da filha, não conseguindo arrancar-lhe nem mesmo um</p><p>ténue sorriso. Havia um lugar vazio à mesa e todas sentiram isso</p><p>vivamente.</p><p>Quando saíram</p>
<p>do restaurante e foram de carro para casa, Jolene</p><p>estava furiosa com Michael, mais do que alguma vez estivera.</p><p>Ele podia desapontá-la — que se lixe, era adulta, era capaz de</p><p>aguentar. Mas não iria deixar que destroçasse o coração da filha.</p><p>Mila foi a única que mencionou o problema. Antes de sair do</p><p>carro, virou-se para Betsy e disse:</p><p>— O teu pai queria ter estado presente. Eu sei que queria.</p><p>— Grande coisa — retorquiu Betsy.</p><p>Mila pareceu considerar uma resposta a esse comentário, mas,</p><p>em vez de dizer alguma coisa, sorriu com tristeza, soltou o cinto de</p><p>segurança e saiu do carro.</p><p>Jolene arrumou o carro na garagem e tirou Lulu da cadeirinha.</p><p>— Onde está o papá? — perguntou Lulu sonolenta.</p><p>— Estava muito ocupado para poder vir — respondeu Betsy num</p><p>tom cortante. — Não que me importe.</p><p>Dito isto, bateu com a porta do carro ao fechá-la e correu para</p><p>dentro de casa.</p><p>Jolene pegou em Lulu ao colo e subiu as escadas. Preparou a</p><p>filha mais nova para ir para a cama, leu-lhe uma história e</p><p>aconchegou-lhe os cobertores. Ela adormeceu antes mesmo de a</p><p>sua cabeça tocar na almofada.</p><p>Logo a seguir foi até ao quarto de Betsy, bateu à porta e entrou.</p><p>Betsy já se encontrava na cama, e a sua cara salpicada de</p><p>borbulhas estava rosada de tanto esfregar. O seu fato de treino azul</p><p>e dourado jazia num monte amarfanhado no meio do chão. A fita</p><p>vermelha que ganhara estava em cima da mesinha de cabeceira.</p><p>Jolene deitou-se na cama ao lado da filha. Betsy chegou-se para</p><p>o lado para arranjar espaço para a mãe e depois encostou-se a ela.</p><p>— Qual é a desculpa dele desta vez?</p><p>O que poderia Jolene dizer? Que a ética profissional de Michael e</p><p>o seu sentido do dever por vezes atropelavam a família? Não tinha</p><p>coragem de culpá-lo por isso: era uma das coisas que ambos tinham</p><p>em comum. E o marido aprendera isso com o pai. Os homens da</p><p>família Zarkades podiam desiludir as esposas e os filhos, mas nunca</p><p>abandonavam um cliente.</p><p>— Oh, minha querida, às vezes temos de perdoar às pessoas que</p><p>amamos. Apenas isso. E tu sabes como o trabalho do papá é</p><p>importante. As vidas das pessoas dependem dele.</p><p>— Seja como for, também não me importo — disse Betsy, mas os</p><p>seus olhos estavam marejados de lágrimas.</p><p>Jolene envolveu-a num abraço.</p><p>— É claro que te importas. Estás furiosa com ele e tens todo o</p><p>direito de estar. Mas o papá adora-te, Betsy.</p><p>— Tanto faz.</p><p>— Foste o máximo hoje, sabes isso, não sabes?</p><p>Sentiu Betsy descontrair-se um pouco.</p><p>— Mais ou menos.</p><p>Ficaram ali deitadas as duas durante bastante tempo, falando de</p><p>coisas sem importância. Por fim, Jolene beijou a filha na testa, deu-</p><p>lhe as boas-noites e foi para o andar de baixo.</p><p>Sentou-se na borda de tijolo fria, com a parede negra e vazia da</p><p>lareira atrás de si, e ficou a contemplar as mãos. Na sua mente,</p><p>estava a gritar com Michael, a descompô-lo por ter desapontado a</p><p>filha.</p><p>Desta vez, dir-lhe-ia tudo o que tinha a dizer. Captaria a atenção</p><p>dele e iria obrigá-lo a entender que havia momentos na vida que</p><p>podiam simplesmente perder-se. Demasiados e uma relação podia</p><p>afundar-se.</p><p>Já passava das nove horas quando ouviu o carro dele subir a rua.</p><p>Alguns instantes depois, Michael entrou na cozinha com ar</p><p>atormentado.</p><p>— Olá, Jo. Desculpa ter chegado tarde, mas, já que perdi a</p><p>competição de atletismo, pus-me a pensar, para quê ir a correr para</p><p>casa?</p><p>Ela pôs-se de pé.</p><p>— Com franqueza. Foi isso mesmo que pensaste?</p><p>— Tive de…</p><p>— Tiveste alguma coisa para fazer. Que grande surpresa. E</p><p>fazendo um balanço de necessidades, as tuas ganharam com larga</p><p>vantagem. Estou chocada.</p><p>— Caramba, Jo, foi sem querer. Se pelo menos tu me</p><p>escutasses…</p><p>— Feriste os sentimentos da tua filha — disse Jolene, avançando</p><p>em direção a ele.</p><p>Michael era um homem alto — um metro e oitenta, mas Jolene</p><p>era pouco mais baixa.</p><p>— Por que razão já não somos importantes para ti, Michael?</p><p>Verificou-se uma súbita mudança em Michael que deu um passo</p><p>à retaguarda, fitando-a com um olhar severo.</p><p>— Não comeces uma conversa que, certamente, não vais querer</p><p>ter.</p><p>— O que quer isso dizer?</p><p>— Não queres saber porque fiz isso e nem sequer me dás o</p><p>crédito de ter tido uma boa razão. Uma razão importante. Estou</p><p>cansado de definires todos os segundos da nossa vida. Vivemos aqui</p><p>porque era isso que tu querias. Estabeleces todas as regras… onde</p><p>moramos, onde vamos nas férias, como passamos os fins de</p><p>semana. Quando foi a última vez que me perguntaste o que eu</p><p>queria?</p><p>— Não te atrevas a tentar virar os factos dizendo agora que a</p><p>culpa é minha. Escolhemos esta casa juntos, Michael. Tu e eu,</p><p>naquela época em que fazíamos as coisas juntos. E se eu governo a</p><p>nossa família, é porque alguém tem de o fazer. Nos últimos tempos,</p><p>a única coisa com que pareces importar-te é com o teu trabalho.</p><p>— Nem sequer estás a ouvir-me. Estou a tentar dizer uma coisa.</p><p>— O que podes ter para dizer, Michael? A tua filha precisava de ti</p><p>hoje, só desta vez. Devias ter largado tudo o que estavas a fazer e</p><p>ter vindo a correr para cá. Mas não, voltaste a pôr-nos de lado.</p><p>Jolene não tencionava dizer nós; a sua intenção era dizer ela. «A</p><p>nossa filha.» Aquilo não se referia a eles.</p><p>— Bolas, Jo, é uma prova de atletismo, não é o casamento dela.</p><p>O meu pai não foi a todos os meus jogos, mas eu sabia que ele me</p><p>adorava.</p><p>— É esse o tipo de pai que queres ser? Como o teu? Ele estava</p><p>demasiado ocupado para comparecer à tua festa de finalista.</p><p>Jolene soube no mesmo instante que tinha ido longe demais;</p><p>percebeu isso pela forma como Michael ficou tenso.</p><p>— Desculpa. Não foi isso que quis dizer. Sei quanto o amavas,</p><p>mas…</p><p>— Não aguento mais — disse ele em voz baixa, abanando a</p><p>cabeça.</p><p>Jolene franziu o sobrolho.</p><p>— Aguentar o quê?</p><p>— Não quero mais isto.</p><p>— Que raio se está a passar, Michael? Meteste a pata na poça</p><p>hoje. Porque não podes…</p><p>Michael olhou para ela.</p><p>— Não te amo, Jo.</p><p>— O quê?</p><p>— Já não te amo.</p><p>— Mas…</p><p>Foi como se algo dentro dela estivesse a despedaçar-se, os</p><p>músculos a rasgar-se, separando-se dos ossos. Jolene agarrou-se à</p><p>borda da bancada para se apoiar. No meio do rugido que havia</p><p>dentro da sua cabeça, ouviu uma leve respiração reprimida. Virou-se</p><p>devagar, devagar, devagar, pensando: Por favor, meu Deus, não…</p><p>Betsy estava de pé na sala de estar, com a fita que ganhara pelo</p><p>segundo lugar na mão. Arquejou baixinho, arregalando os olhos</p><p>lentamente, compreendendo tudo. Depois, virou costas e correu</p><p>pelas escadas acima.</p><p>CAPÍTULO 5</p><p>Michael não conseguia acreditar que proferira aquelas palavras</p><p>em voz alta.</p><p>Já não te amo.</p><p>Não era sua intenção dizê-las; as palavras formaram-se com a</p><p>raiva e saíram-lhe inadvertidamente. No entanto, já ali se</p><p>encontravam, à sua espera, formando-se dentro de si. E até já</p><p>pensara nelas antes, com mais frequência do que gostaria de</p><p>admitir.</p><p>Podia dizer que lamentava e Jolene haveria de perdoar-lhe, talvez</p><p>não de imediato, mas em breve. A sua família, esta família, era tudo</p><p>para ela, e ela amava-o. Michael sabia disso, sempre o soubera; até</p><p>mesmo naquela noite, quando a magoou, Jolene continuava a amá-</p><p>lo.</p><p>Michael queria amá-la. Mas já não era a mesma coisa e já não</p><p>era suficiente para ele. Mesmo que voltasse atrás agora, recuperasse</p><p>aquelas palavras duras e as suavizasse, as moldasse em algo</p><p>diferente, nada mudaria. Continuaria a viver esta vida em que</p><p>demasiadas vezes se sentia encurralado pelas regras e regulamentos</p><p>dela, esmagado pela sua força.</p><p>Parecia não conseguir estar à altura de Jolene. Não era suficiente</p><p>para ela que ele amasse as filhas, tivesse uma carreira bem-sucedida</p><p>e fizesse o melhor que podia e sabia. Exigia mais, naquela maneira</p><p>silenciosa e própria que a caracterizava. Michael tinha de compensar</p><p>de alguma forma todo o amor que ela não recebera em criança — e</p><p>isso era demasiado para ele.</p><p>Estava farto de fingir ser o homem que ela queria. Estava na</p><p>altura — por fim — de descobrir quem queria ser.</p><p>A decisão libertou-o. Queria dizer-lhe tudo isso, fazê-la entender</p><p>para que pudesse sentir-se melhor; todavia este não era o</p><p>momento. Precisava de sair dali. Estava prestes a pegar nas chaves</p><p>do carro quando</p>
<p>Jolene lhe disse:</p><p>— Vai falar com a Betsy.</p><p>No meio de tudo isto, esquecera-se. Olhou para ela pela primeira</p><p>vez desde que lhe dissera «Já não te amo».</p><p>— Eu?</p><p>Jolene parecia uma daquelas estátuas de mármore do Museu do</p><p>Louvre. Já estava a retrair-se em termos emocionais, arrastando os</p><p>seus sentimentos de novo para dentro de si, onde ficariam em</p><p>segurança.</p><p>— É tua filha, Michael, e magoaste-a. Se existe alguma hipótese</p><p>de fazer com que ela se sinta melhor, essa hipótese está na tua</p><p>mão. Talvez ela possa perdoar-te.</p><p>Michael percebeu a ênfase que a mulher colocou no pronome.</p><p>— Não pedi o teu perdão, Jo — disse.</p><p>Notou o quanto essas palavras a magoaram.</p><p>— Pois não, Michael, não pediste. Queres o divórcio?</p><p>— Não sei. Talvez.</p><p>— Talvez.</p><p>Ele reparou na maneira como Jolene o olhou naquele momento.</p><p>No que tocava ao amor, ela era como uma alcoólica em recuperação,</p><p>de extremos. O amor ou estava ali presente, abrasador como fogo,</p><p>ou estava morto, apagado como cinzas, frio como gelo. Para ela não</p><p>havia meio-termo e não tinha paciência para a incerteza. A maneira</p><p>como o olhava fazia-o sentir-se pequeno, mesquinho, e quase a</p><p>odiava por isso. Jolene era sempre tão forte, mesmo agora, quando</p><p>acabara de lhe despedaçar o coração. Desejaria ele que Jolene</p><p>fraquejasse e lhe dissesse que o amava?</p><p>Afastou-se dela e subiu as escadas.</p><p>Parou em frente da porta do quarto de Betsy e em seguida</p><p>bateu.</p><p>— Vai-te embora, mãe.</p><p>Michael abriu a porta, dizendo:</p><p>— Sou eu.</p><p>Betsy viu o pai e desatou a chorar.</p><p>— Não te qu-quero a-aqui. V-Vai-te embora.</p><p>— Não chores, Baixinha — disse Michael.</p><p>Ao ouvir a alcunha de criança, não usada há tanto tempo, ela</p><p>chorou ainda mais.</p><p>Michael foi até à cama da filha, sentou-se de frente para ela.</p><p>Sentiu-se incapaz de se manter direito na presença dela; os seus</p><p>ombros descaíram como se a sua coluna tivesse começado a ceder.</p><p>— Betsy — disse em tom fatigado.</p><p>A filha fungou e olhou-o por entre as pestanas pesadas. Nos</p><p>olhos chorosos dela, Michael viu toda a extensão do que tinha feito,</p><p>do que havia dito. O seu amor por Jolene era apenas uma parte da</p><p>vida que tinham em conjunto, o esqueleto da família que</p><p>construíram; mas havia mais coisas. As filhas eram os nervos e os</p><p>músculos. O coração. Como podia o amor de um ser extirpado do</p><p>outro sem que tudo ruísse?</p><p>— Sinto muito não ter ido ver a tua corrida.</p><p>— Foi uma porcaria. Não ganhei — retorquiu ela, mas Michael viu</p><p>o desgosto nos seus olhos.</p><p>— Fizeste a corrida até ao fim, e é isso que importa. Vai haver</p><p>muitas ocasiões em que vais ganhar e perder ao longo da tua vida. E</p><p>é tudo isso que faz a pessoa que és. Estou orgulhoso de ti.</p><p>Betsy enxugou os olhos e perscrutou-o.</p><p>Michael pôde perceber o que ela estava a pensar. Suspirou e</p><p>passou uma mão pelo cabelo. Virando-se um pouco, saindo do mais</p><p>fundo de si, lançou um olhar pela janela.</p><p>— Os adultos discutem — acrescentou, demasiado envergonhado</p><p>para a encarar.</p><p>Estaria a mentir? Nem sequer sabia a resposta. Dez minutos</p><p>antes era muito claro para ele — desapaixonara-se da sua mulher.</p><p>Agora via que aquele momento fora apenas uma gota de água a cair</p><p>no oceano das suas vidas interligadas.</p><p>— Tu e a Lulu estão sempre a discutir, e continuas a gostar dela,</p><p>não é verdade?</p><p>— Mas tu disseste…</p><p>— Esquece isso, Betsy. Não falei a sério.</p><p>— Foi um erro?</p><p>Michael olhou finalmente para a filha.</p><p>— Um erro — repetiu, ouvindo as palavras como se fossem uma</p><p>coisa desconhecida. — Sinto muito que tenhas ouvido a nossa</p><p>discussão e lamento ter faltado à tua prova de atletismo. Perdoas-</p><p>me?</p><p>Betsy fitou-o durante tanto tempo que Michael pensou que a filha</p><p>iria dizer que não. No entanto, acabou por acenar solenemente que</p><p>sim com a cabeça.</p><p>Michael inclinou-se para a frente e puxou-a para os seus braços.</p><p>Sentiu a filha começar a chorar de novo, por isso abraçou-a, deixou-</p><p>a desabafar. Quando por fim ela se acalmou, Michael soltou-a e</p><p>levantou-se da cama, ficando de pé ao seu lado.</p><p>Betsy ergueu os olhos para o pai.</p><p>— Tu também amas a mãe, não amas?</p><p>Michael disse que sim — a resposta certa —, mas pôde perceber</p><p>pela tristeza nos olhos dela que demorara demasiado a dar a</p><p>resposta, que o silêncio a convencera mais do que as suas palavras.</p><p>Saindo do quarto, voltou a descer as escadas, preparando-se</p><p>para encarar Jolene, mas ela não estava ali em baixo, à espera. Já</p><p>tinha arrumado a sala e apagara as luzes.</p><p>Assim era Jolene, limpava e arrumava tudo mesmo quando a vida</p><p>à sua volta se desmoronava.</p><p>Jolene subiu as escadas e foi para o quarto sem se deixar abater,</p><p>embora não soubesse muito bem como conseguira fazer isso. De</p><p>alguma forma, o seu coração ainda batia e o cérebro continuava a</p><p>enviar sinais do tipo mais rudimentar — respira, levanta um pé,</p><p>avança.</p><p>Fechou a porta atrás de si sem fazer barulho, perguntando-se por</p><p>uma fração de segundo porque não bateu com a porta ao fechá-la.</p><p>Talvez um som como esse, um estrondo, a fizesse sentir melhor.</p><p>Pela janela viu a massa escura da noite e a Ursa Maior.</p><p>Pretendeu sentar-se na cama, mas falhou o alvo apenas por</p><p>escassos centímetros e por isso deslizou sentando-se no chão.</p><p>Ficou ali sentada, com os joelhos fletidos e encostados ao peito,</p><p>fitando a escuridão.</p><p>Já não te amo.</p><p>Doía tanto que pensou que o coração ia parar.</p><p>Reclinou-se, encostando-se à cama que partilhava com o marido.</p><p>Não queria pensar no assunto, nele, mas como poderia evitar</p><p>isso agora?</p><p>Michael modificara-a, completava-a. Ou pelo menos era isso que</p><p>achava.</p><p>No Exército encontrara-se; no ar descobrira a sua paixão. No</p><p>entanto, foi só quando conheceu Michael que a parte dela que</p><p>faltava começou lenta e cautelosamente a encaixar-se de novo no</p><p>lugar.</p><p>Tami encorajara-a a ir procurar o jovem advogado que a tinha</p><p>ajudado; a escola de pilotagem dera-lhe a confiança necessária para</p><p>fazer isso. Fora fácil encontrá-lo na firma Zarkades, Antham e</p><p>Zarkades.</p><p>Voltaste, disse Michael quando a viu de pé no átrio. Foram essas</p><p>as suas primeiras palavras. Disse aquilo a sorrir, como se os seis</p><p>anos de intervalo tivessem passado num instante. Jolene soube</p><p>nesse momento que também ele estivera à espera, à sua maneira.</p><p>Voltei, respondeu, nem um pouco surpreendida quando ele lhe</p><p>pegou na mão. Fora mais do que um começo; o amor era um mar</p><p>azul e profundo e ambos mergulharam nele. Jolene nunca soubera</p><p>como acreditar no amor, mas Michael arrebatara-a; tão simples</p><p>quanto isso. No primeiro beijo que trocaram, ela esqueceu o amor</p><p>que deveria ter sido um direito seu à nascença e começou a</p><p>acreditar nele e, desta vez, para sempre.</p><p>Algures ao longo do caminho, esqueceu-se de que o amor</p><p>possuía uma faceta obscura. Demasiados anos passados sob a clara</p><p>luz do amor cegaram-na. Entregou o seu coração a Michael,</p><p>embrulhou-o para presente e colocou-o nas mãos dele, nem sequer</p><p>se preocupando com a hipótese de ele deixar de ter isso em conta.</p><p>Mesmo depois de Michael ter vindo a afastar-se nos últimos anos e</p><p>passar cada vez mais horas no escritório, ela acreditava na</p><p>longevidade dos votos que haviam feito e arranjava sempre maneira</p><p>de desculpá-lo. Tal como Poliana, acreditando sempre.</p><p>Lá em baixo, ouviu uma porta fechar-se com estrondo, depois o</p><p>motor de um carro a trabalhar. Cambaleou até à janela e ficou ali de</p><p>pé a vê-lo afastar-se no carro, interrogando-se se ele voltaria.</p><p>Não voltou.</p><p>Jolene passou horas agitadas, impacientes e insuportáveis da</p><p>noite a fazer limpezas e a tratar da roupa. Aspirou, limpou o pó,</p><p>poliu as pratas e esfregou as sanitas — qualquer coisa que</p><p>mantivesse o seu pensamento longe das palavras dele: Já não te</p><p>amo.</p><p>Não que resultasse. Aquelas palavras mudaram a perceção da</p><p>sua vida, se não mesmo a sua maneira de ser.</p><p>Quatro palavras para mudar um mundo, para destruir o chão</p><p>debaixo dos pés de uma mulher. Aquela frase foi um tsunâmi,</p><p>varrendo tudo sem aviso, corroendo alicerces, deixando casas</p><p>esmagadas como sequela.</p><p>De manhã, sentia-se de tal modo exausta que mal se podia ter</p><p>de pé, e tão transtornada que nem se deu ao trabalho de fazer café.</p><p>Mais do que qualquer outra coisa, tinha vontade de fugir daquela</p>
<p>casa demasiado calma e meter-se no seu helicóptero voando para</p><p>longe. No entanto, à luz rosada e violácea do romper da aurora, foi</p><p>fazer uma corrida de mais de doze quilómetros, mas isso não</p><p>ajudou.</p><p>Quando voltou, tomou um longo banho, vestiu umas calças de</p><p>ganga coçadas e uma camisola cinzenta do exército, e depois foi</p><p>acordar Betsy. Bateu à porta e entrou.</p><p>— Olá, Betsy — disse, obrigando-se a sorrir.</p><p>Deveria ter conversado com a filha na noite passada — era isso</p><p>que uma boa mãe teria feito, uma mãe mais forte, mas teve medo</p><p>de se ir abaixo diante da filha, de chorar, de a assustar ainda mais.</p><p>— Não digas nada — pediu Betsy, aborrecida.</p><p>— Eu sei que o papá conversou contigo. Pensei…</p><p>— NÃO quero falar sobre esse assunto.</p><p>Jolene ficou em silêncio: de qualquer forma não sabia muito bem</p><p>o que dizer. Como se fala com uma criança acerca de coisas tão</p><p>próprias dos adultos? Nunca percebera bem quando deveria insistir</p><p>com Betsy e quando deveria recuar. Invariavelmente acabava por</p><p>insistir quando deveria fazer vista grossa. Era um dos seus defeitos:</p><p>era boa em persistência; quanto a desistir, nem tanto.</p><p>Uma coisa, porém, estava bem clara na sua cabeça: Betsy ficara</p><p>assustada e confusa e, por conseguinte, zangada. Não havia nada</p><p>que pudesse fazer para ajudá-la. Como poderia falar sobre o que ela</p><p>mesma não conseguia compreender?</p><p>Foi, no entanto, ter com a filha, levantou-a e abraçou-a. Foi</p><p>necessário um ato supremo de força de vontade para não dar voz</p><p>àquele abraço, mas conseguiu, deixou que as coisas tomassem o</p><p>seu curso.</p><p>Sentiu o suspiro perturbado de Betsy e entendeu o que a filha</p><p>estava a passar. Era terrível ver os pais a discutir. Sabia que ela não</p><p>esqueceria a noite anterior e que notaria a ausência de Michael</p><p>naquela manhã.</p><p>Lulu entrou no quarto, arrastando atrás de si a sua mantinha</p><p>amarela.</p><p>— Ei, também quero um abraço.</p><p>Jolene abriu um braço e Lulu precipitou-se para a frente,</p><p>aninhando o seu corpinho ao lado do da irmã. Ficaram assim mais</p><p>um tempo; depois Lulu afastou-se. Esfregou o cabelo preto</p><p>emaranhado, afastando-o dos olhos.</p><p>— Posso comer cereais com chocolate?</p><p>— Nada de cereais com chocolate. Isso é para manhãs especiais</p><p>— respondeu Jolene de forma automática.</p><p>— Hoje podia ser especial — chilreou Lulu.</p><p>— É exatamente o oposto de especial — retorquiu Betsy com</p><p>amargura.</p><p>— Porquê? — quis saber Lulu. Jolene suspirou.</p><p>— Vá lá, meninas. Vamos tomar o pequeno-almoço.</p><p>Enquanto desciam as escadas, Jolene sentiu os olhos de Betsy</p><p>postos em si. Na cozinha, ela parecia reparar em tudo — a forma</p><p>como as mãos da mãe tremiam um pouco quando foi buscar a</p><p>farinha e os ovos para preparar as panquecas, a maneira como não</p><p>parava de suspirar, o modo como abriu o frigorífico limitando-se a</p><p>olhar lá para dentro. Por fim, não conseguiu aguentar estar sob um</p><p>escrutínio tão minucioso. Serviu os cereais Cheerios às filhas.</p><p>— Onde está o papá? — perguntou Lulu, concentrando-se a</p><p>recolher a quantidade certa de Cheerios na colher.</p><p>— No trabalho — respondeu Jolene, perguntando-se o que iria</p><p>dizer se Michael também passasse essa noite fora de casa.</p><p>Betsy ergueu os olhos com brusquidão.</p><p>— O papá já saiu?</p><p>Jolene virou-se para se servir de mais café.</p><p>— Sabes muito bem como é quando o pai tem de apanhar o ferry</p><p>logo cedo — mentiu Jolene, sem olhar para a filha.</p><p>Esse momento pareceu arrastar-se; pôde sentir o olhar</p><p>desconfiado de Betsy nas suas costas.</p><p>— Despacha-te — ordenou. — Precisamos de sair dentro de vinte</p><p>minutos.</p><p>Assim que acabaram de tomar o pequeno-almoço, Jolene levou</p><p>as filhas para o andar de cima a fim de acabarem de se arranjar.</p><p>Saíram mesmo a tempo e perto das nove e um quarto encontrava-se</p><p>de novo em casa.</p><p>Arrumou o carro na garagem e depois encaminhou-se para a</p><p>casa do lado. Acenando a Carl, que estava a trabalhar numa</p><p>camioneta Ford, dirigiu-se à porta principal e abriu-a.</p><p>— Olá, Tam — cumprimentou, entrando.</p><p>Tami estava na sala de estar, com um roupão azul esfiapado e</p><p>chinelos de pele de carneiro, bebericando café de uma enorme</p><p>caneca térmica. Atrás de si, as paredes forradas com painéis de</p><p>madeira estavam repletas de dezenas de fotografias de família,</p><p>todas com molduras brancas. Mesmo ao centro encontrava-se o</p><p>retrato de Tami fardada.</p><p>— Olá, menina aviadora — disse Tami a sorrir.</p><p>Sentou-se no sofá azul axadrezado, pondo os pés calçados com</p><p>os chinelos em cima da mesinha de apoio em vidro.</p><p>Jolene olhou-a e, por um segundo, não foi capaz de falar, não foi</p><p>capaz de forçar as palavras a sair.</p><p>Tami franziu a testa e pousou a caneca do café.</p><p>— O que foi, Jo?</p><p>— O Michael disse que já não me ama — respondeu a amiga em</p><p>voz baixa.</p><p>— Não me digas que…</p><p>— Não me obrigues a repetir.</p><p>Tami avançou devagar, pôs os braços à volta da amiga e abraçou-</p><p>a. Jolene demorou um minuto para levantar os próprios braços e</p><p>agarrar-se a Tami, mas, assim que o fez, não foi capaz de a largar.</p><p>Sentia vontade de chorar, estava desesperada para encontrar uma</p><p>forma de libertar aquela mágoa, mas as lágrimas não chegaram.</p><p>— O que foi que lhe respondestes?</p><p>— Responder? — Jolene libertou-se do abraço. — Depois de um</p><p>«Não te amo», o que mais há para dizer?</p><p>Tami suspirou.</p><p>— Os casais discutem, Jo. Gritam, dizem coisas que não sentem,</p><p>saem de rompante, mas depois voltam. Está bem, o Michael disse</p><p>uma estupidez, mas de certeza que não falou a sério. Podes perdoá-</p><p>lo. Isso não é o fim.</p><p>Jolene detetou o sinal de mágoa na voz de Tami, sabia que a</p><p>amiga estava a lembrar-se da ligação que Carl tivera há dez anos.</p><p>— Eu sei o que significa perdoar as pessoas e amá-las apesar de</p><p>tudo, mesmo depois de nos terem magoado.</p><p>De facto sabia. Jolene passara a infância a perdoar aos pais, na</p><p>esperança de que no dia seguinte ou no mês seguinte eles</p><p>mudassem. Só que não mudaram e não a tinham amado. Começou</p><p>a melhorar quando aceitou essa verdade simples. Manteve-se</p><p>incólume, tornou-se incólume pelo simples facto de não precisar</p><p>mais do amor deles. Entendia o que Tami estava a dizer; caramba,</p><p>era o que ela própria teria dito se a situação fosse a inversa. Uma</p><p>frase não poderia pôr fim a um casamento. Contudo, também não</p><p>podia continuar sozinha. Não chegara a aprender isso com a sua</p><p>mãe?</p><p>— Ele não disse isso a sério. O Michael ama-te.</p><p>— Quero acreditar que não — redarguiu Jolene em voz baixa, e</p><p>era verdade.</p><p>Queria acreditar no marido e no amor dele por ela, mas a sua fé</p><p>tinha sido abalada. Tinha receio de voltar a confiar nele tão</p><p>cegamente. Se podia deixar de amá-la assim sem mais nem menos,</p><p>o que significaria tudo isso?</p><p>— Tenho a certeza…</p><p>Antes de Tami ter tempo para terminar a frase, o telefone tocou.</p><p>Tami dirigiu-se à cozinha e atendeu.</p><p>— Oh. Olá. Sim, comandante.</p><p>Virou-se para Jolene, articulou o nome «Bem Lomand» e depois</p><p>disse ao telefone:</p><p>— A sério? Entendo. E para quando, comandante? Assim tão</p><p>depressa? Oh. Muito bem, eu e a Jolene tratamos de contactar os</p><p>outros. Obrigada, senhor comandante.</p><p>Desligou o telefone devagar e virou-se de modo a encarar Jolene.</p><p>— Vai haver mobilização.</p><p>CAPÍTULO 6</p><p>Quando Jolene e Michael viram pela primeira vez a casa em</p><p>Liberty Bay, estava um lindo e soalheiro dia de julho. Tinham ido dar</p><p>um passeio de carro, desfrutando de algum tempo juntos depois de</p><p>uma tarde de churrasco em casa dos pais dele. Não andavam à</p><p>procura de casa.</p><p>Todavia, lá estava ela, logo ali numa curva da estrada, à espera</p><p>deles, uma tabuleta que indicava estar para venda espetada no</p><p>chão, casualmente, ao lado da caixa do correio. Uma pequena e</p><p>singular casa rústica a precisar de dedicação, um alpendre</p><p>deteriorado contornando a casa, cerca de doze mil metros</p><p>quadrados de erva que descia em cascata até à faixa negra de uma</p><p>sossegada estrada campestre. Do outro lado da rua, havia um</p><p>pequeno lote de terreno, mais um complemento do que outra coisa,</p><p>que se encontrava entre a estrada e o vasto crescente acinzentado</p><p>de areal.</p><p>Foi aquele pequeno pedaço de praia que os atraiu. A primeira</p><p>coisa que fizeram com a propriedade foi construir um varandim por</p><p>cima da areia. Construíram-no com as próprias mãos, ela e Michael,</p>
<p>rindo, conversando e sonhando o tempo todo.</p><p>Vamos fazer churrascos aqui fora no Quatro de Julho… e vamos</p><p>ensinar a Betsy a encontrar bolachas-do-mar… e vamos jantar em</p><p>pratos de papel enquanto o Sol se põe sobre a água…</p><p>Era apenas uma faixa estreita de terra coberta de erva ao longo</p><p>de uma fita serpenteante de asfalto, mas era o sonho de Jolene, o</p><p>seu pedaço de paraíso. O cheiro do mar e o som das ondas</p><p>confortavam-na. Sempre viera até ali para pensar, para recarregar</p><p>baterias. Em especial naqueles longos e estéreis anos entre Betsy e</p><p>Lulu, altura em que andou tão desesperada para gerar outro filho.</p><p>Ali, sozinha, mês após mês, chorara quando lhe aparecia o período.</p><p>E foi ali que veio agradecer a Deus quando as suas orações foram,</p><p>por fim, atendidas.</p><p>Agora, sentou-se numa das espreguiçadeiras de madeira que</p><p>ladeavam um braseiro de metal enferrujado. Estava a chover, mas</p><p>ela mal deu por isso. Fitou as águas calmas e acinzentadas,</p><p>salpicadas pelas gotas de chuva que caíam, e pensou: Como vão as</p><p>minhas filhas enfrentar esta situação? Como vou eu enfrentá-la?</p><p>Como vai o Michael lidar com isto?</p><p>Como um mundo podia mudar em apenas três horas…</p><p>Sempre souberam que ela podia ser mobilizada; pelo menos</p><p>desde o 11 de Setembro que o sabiam e, contudo, ela e Michael</p><p>nunca tinham falado sobre isso. Como podiam? Ele não queria saber</p><p>da carreira dela no Exército. Sempre que abordava o assunto de</p><p>outros soldados que eram mobilizados, ele desconversava e</p><p>começava a falar do absurdo que era enviar tropas para o Iraque.</p><p>Sabia o que Michael pensava, o que ele via — o lado obscuro do</p><p>Exército, os erros, a forma como as altas patentes descuravam os</p><p>soldados e os veteranos. No entanto, isso era política. Um outro</p><p>assunto, de alguma forma. Para ela, era diferente. A Guarda</p><p>Nacional também era a sua família.</p><p>Honra. Dever. Lealdade. Para Jolene eram mais do que meras</p><p>palavras; faziam parte dela. Sempre fora duas mulheres — mãe e</p><p>soldado —, e esta mobilização dividia-a ao meio, deixando uma</p><p>ferida ensanguentada e aberta entre as suas duas facetas.</p><p>Quem iria ajudar Betsy a atravessar o terreno rochoso da</p><p>adolescência? Quem lhe daria conselhos sobre rapazes perniciosos e</p><p>raparigas más e todos os outros miúdos de permeio? Quem iria levar</p><p>Lulu ao jardim de infância e lhe pegaria ao colo quando ela</p><p>acordasse, a soluçar, depois de um pesadelo?</p><p>E ali estava o risco. Jolene era piloto de helicópteros. Iria contar</p><p>a Michael e às meninas que não tinha licença para combater, que</p><p>ficaria longe do perigo, mas sabia que isso não era verdade. Os</p><p>helicópteros estavam constantemente a ser abatidos.</p><p>Havemos de voltar para casa, dissera Tami.</p><p>Jolene assentira com um aceno de cabeça, embora soubesse —</p><p>ambas o sabiam — que não era possível fazer promessas dessas. Em</p><p>todo caso, não importava. O dia de amanhã e o futuro não eram</p><p>coisas que pudessem controlar. Por agora, tinham um trabalho a</p><p>fazer, um trabalho para o qual haviam sido treinadas. Os civis não</p><p>compreendiam, talvez não pudessem, mas um soldado apresentava-</p><p>se sempre que era necessário. Mesmo que tivesse medo, mesmo</p><p>que as filhas precisassem dele. Estava na hora de Jolene</p><p>recompensar o Exército, de lhe retribuir tudo o que lhe dera; estava</p><p>na hora de servir o seu país.</p><p>Pousou uma mão no peito, sentindo os batimentos lentos e</p><p>cadenciados do coração. Fechou os olhos, ouvindo o ritmo cardíaco</p><p>misturar-se com a rebentação das ondas na praia coberta de seixos</p><p>e as exalações da sua respiração. As lágrimas faziam-lhe arder os</p><p>olhos, escorriam-lhe pelas faces, misturando-se com a água da</p><p>chuva. Imaginou o cenário completo — a despedida, a saudade, a</p><p>perda. Visualizou as filhas a chorar por ela, tentando alcançá-la,</p><p>incapazes de compreender a sua ausência.</p><p>Contudo, não tinha alternativa. Sentiu, então, uma espécie de</p><p>paz no seu íntimo, uma aceitação da situação e uma perceção de</p><p>quem era. Havia dado a sua palavra de que, se fosse chamada para</p><p>servir a pátria, iria.</p><p>Detestava ter de abandonar as filhas — detestava esse facto com</p><p>tal intensidade que poderia incapacitá-la se lhe cedesse; porém, não</p><p>tinha alternativa. Iria para o Iraque durante um ano, faria o seu</p><p>trabalho e depois voltaria para casa, para a sua família.</p><p>Era isso que lhes diria… aquilo em que acreditava.</p><p>Estava preparada, sempre estivera preparada, para aquele</p><p>momento. Há mais de vinte anos que andava a treinar para isso.</p><p>Uma pequena parte dela até queria ir, pôr-se à prova. Queria ir… só</p><p>não queria partir.</p><p>Retirou a mão do peito devagar, deixando-a cair no colo. A seus</p><p>pés, uma pequena coleção de bolachas-de-mar brancas e secas</p><p>encontrava-se disposta num padrão de folha de trevo, um lembrete</p><p>do verão anterior. Jolene curvou-se, arrancou uma, esfregando a</p><p>ponta do polegar sobre a superfície porosa. Em seguida, pôs-se de</p><p>pé.</p><p>Ia para a guerra.</p><p>À uma da tarde ligou para o jardim de infância e pediu para Lulu</p><p>ficar até mais tarde, em seguida telefonou a Michael para o</p><p>escritório. Ele obrigou-a a esperar o tempo suficiente para a levar a</p><p>pensar que não iria atender, até ouvir, por fim, a sua voz</p><p>preocupada.</p><p>— Olá, Jo. O que foi?</p><p>— Preciso que venhas para casa esta noite — disse-lhe. Michael</p><p>fez uma pausa; Jolene ouviu-lhe a respiração.</p><p>— Tenho imenso trabalho acumulado. Acho que vou dormir no</p><p>escritório esta noite.</p><p>— Não faças isso, por favor — insistiu ela, odiando a maneira</p><p>como o seu pedido soou. — Surgiu um imprevisto. Preciso de</p><p>conversar contigo.</p><p>— Acho que precisamos de passar um tempo afastados.</p><p>— Por favor, Michael. Preciso de falar contigo esta noite.</p><p>— Está bem. Vou apanhar o ferry das seis horas.</p><p>Durante as horas seguintes, Jolene tentou não pensar no futuro,</p><p>mas era impossível. À medida que se aproximava a hora de ir buscar</p><p>as miúdas à escola, sentiu-se desanimar. A ideia de ver as filhas —</p><p>olhar para elas, ver os seus sorrisos alegres e saber que o</p><p>sofrimento estava a caminho — era terrível. Não parava de perder o</p><p>equilíbrio, cambaleava, tropeçava. Na cozinha, contemplou a</p><p>fotografia emoldurada de Betsy com o uniforme da escola na</p><p>carrinha escolar amarela e foi obrigada, na verdade, a sentar-se.</p><p>Ajuda-me a superar isto, rezou mais de uma vez.</p><p>No jardim de infância, estacionou o carro em frente da porta e</p><p>entrou devagar, ouvindo o burburinho das gargalhadas agudas das</p><p>crianças antes mesmo de alcançar o portão que conduzia ao pátio</p><p>das traseiras.</p><p>— Mamã! — gritou-lhe Lulu, levantando as mãos e pondo-se de</p><p>pé atabalhoadamente.</p><p>Correu para Jolene, atirando-se para os braços dela.</p><p>— Tens alguma coisa nos olhos, mamã? — perguntou Lulu.</p><p>— Fiquei com areia na cara ao almoço e isso fez-me chorar, mas</p><p>estou ótima, Lucy Louida — disse Jolene, grata por a filha não ter</p><p>ouvido a sua voz enrouquecer.</p><p>Levou Lulu ao colo até ao carro, instalou-a com o cinto de</p><p>segurança no banco de trás e dirigiu-se ao outro lado da cidade, até</p><p>à escola. Como sempre, Betsy foi uma das últimas a sair. Evitava as</p><p>outras crianças, como se não quisesse ser vista. Depois correu para</p><p>o carro e entrou para o banco traseiro, batendo com a porta ao</p><p>fechá-la.</p><p>Jolene observou a filha pelo espelho retrovisor e sentiu uma</p><p>pontada de pânico. Ela está tão frágil neste momento…</p><p>— Vais ficar aí parada o resto do dia? — perguntou Betsy,</p><p>cruzando os braços.</p><p>Como é que Betsy vai superar o sétimo ano sem a mãe? O que</p><p>vai acontecer quando lhe aparecer o período? Quem vai ajudá-la?</p><p>— Mãe — protestou Betsy com rispidez —, estás morta e não te</p><p>lembras?</p><p>Jolene conduziu através de um mar de carros de pais à saída da</p><p>escola. Fez menção de entabular uma conversa, dizer alguma coisa,</p><p>mas sentiu um nó na garganta. Quando parou o carro junto à casa</p><p>de Mila, os olhos ardiam-lhe de lágrimas que não caíam.</p><p>A casa dos sogros era uma pequena moradia geminada em forma</p><p>de «L», do final dos anos 70. Era pequena em comparação com as</p><p>casas mais recentes que a ladeavam, mas o terreno era de uma</p><p>beleza estonteante. Situada num lote de terreno fundo e arborizado</p><p>junto à água, tinha vista para as plácidas águas de Lemolo Bay.</p><p>Gigantescas árvores perenes</p>
<p>guarneciam a paisagem; aqui e ali,</p><p>montículos de flores multicoloridas cresciam em torno dos seus</p><p>troncos toscos e castanhos. Mila transformara aquele pátio numa</p><p>obra de arte; todos os anos constava do calendário local sobre casas</p><p>e jardins como um magnífico exemplo da paisagem do Noroeste. A</p><p>água à sua frente era pouco profunda e transparente; no verão, era</p><p>quente o suficiente para se poder tomar banho.</p><p>— Porque estamos aqui? — perguntou Betsy.</p><p>Jolene não respondeu. Estacionou o carro diante da garagem e</p><p>deixou as filhas sair do carro. Antes mesmo de alcançarem a porta</p><p>principal, Mila surgiu contornando a casa. Acenou, exibindo um</p><p>sorriso luminoso, com uma grande camisa de flanela por cima de</p><p>umas calças de ganga enfiadas em botas de borracha de um tom</p><p>vivo de laranja. Um lenço multicolorido cobria-lhe o cabelo negro</p><p>ripado, estilo Liz Taylor, e umas grandes argolas de prata pendiam-</p><p>lhe das orelhas. Na mão esquerda empunhava um regador</p><p>esmaltado.</p><p>— Olá, meninas — cumprimentou.</p><p>— Desculpe ter ligado à última da hora — disse Jolene,</p><p>empurrando a porta do carro com a anca.</p><p>Mila sacudiu a terra das luvas de jardinagem; caiu-lhe sobre as</p><p>botas.</p><p>— Ora, querida, afinal para que serve a família?</p><p>Lulu saiu do carro e pôs a bandolete com orelhas de gato na</p><p>cabeça, miando em voz alta para chamar a atenção.</p><p>— Isso outra vez não — disse Betsy, empurrando a irmã ao</p><p>passar por ela.</p><p>A avó pousou o regador e olhou em redor.</p><p>— Huuummm. Onde está a minha neta, Jolene? Deixaste-a em</p><p>casa? No carro?</p><p>Lulu soltou uma risadinha.</p><p>— O que foi aquele barulho? — perguntou Jolene.</p><p>Lulu tirou a bandolete da cabeça.</p><p>— Cá estou eu! Yia Yia.</p><p>Mila pegou em Lulu ao colo e abraçou-a.</p><p>Por um momento, Jolene não foi capaz de dizer nada. O peso do</p><p>seu futuro comprimia-lhe o peito com tanta força que não conseguia</p><p>respirar.</p><p>Mila franziu a testa.</p><p>— Estás bem, Jo?</p><p>— Estou ótima. Eu e o Michael precisamos de conversar, só isso.</p><p>Venho buscar as meninas amanhã, se não se importar. Pode ser?</p><p>Mila chegou-se mais perto.</p><p>— Diz a esse meu filho que precisa de se esforçar mais. O</p><p>trabalho é importante, mas a família também. Tentei ensinar esta</p><p>lição ao pai dele, mas… — disse encolhendo os ombros. — Vais sair-</p><p>te melhor do que eu nesse aspeto.</p><p>Jolene só conseguiu acenar a cabeça. Parecia que se tinha</p><p>passado uma eternidade desde a prova de atletismo a que Michael</p><p>faltara. Quase deixou escapar «Vou ser mobilizada». Precisava de</p><p>contar a Mila, precisava de sentir o abraço de uma mãe, mas não</p><p>era capaz, ainda não se sentia capaz de ser confortada.</p><p>Murmurou uma despedida e voltou para o carro. Quando chegou</p><p>a casa, estava agoniada e sentia o estômago do avesso.</p><p>Aquela mobilização mudava tudo. Michael iria entender isso.</p><p>Fossem quais fossem os problemas que enfrentavam — enfrentaram</p><p>— teriam que ser postos de lado. Ela e Michael teriam de unir-se</p><p>agora, pelas filhas, pela sua família. E Jolene ia precisar dele agora,</p><p>ia precisar muito. O amor dele iria salvá-la enquanto estivesse fora,</p><p>iria aquecê-la à noite, tal como o amor das filhas iria trazê-la de</p><p>volta para casa.</p><p>Pensou no que Tami lhe dissera. Os casais discutem. Dizem</p><p>coisas que não sentem, saem de rompante.</p><p>Depois voltam.</p><p>Jolene queria acreditar que era assim, queria acreditar nisso,</p><p>muito embora nunca o tivesse experimentado. Queria perdoar</p><p>Michael e arranjar uma maneira de apagar a declaração dele do seu</p><p>cérebro, para que pudessem voltar a ser quem sempre foram.</p><p>Tudo o que deveria fazer era dar-lhe uma oportunidade.</p><p>Era capaz de fazê-lo; podia ser suficientemente forte para lhe</p><p>dizer que ainda o amava. Foram essas as coisas que disse para si</p><p>mesma enquanto esperava pelo marido.</p><p>Por fim, às sete horas, Michael entrou na cozinha e serviu-se de</p><p>imediato de um uísque.</p><p>— Olá — disse Jolene, levantando-se da pedra da lareira, onde</p><p>estava sentada.</p><p>Michael voltou-se. À luz de presença que havia por cima da</p><p>lareira, estava com um ar mais do que fatigado. Tinha o cabelo em</p><p>completo desalinho. E uma sombra violácea debaixo dos olhos, como</p><p>se tivesse dormido tão mal como ela na noite passada.</p><p>— Jo — disse Michael em voz baixa.</p><p>Havia uma delicadeza na sua voz que a surpreendeu e</p><p>entristeceu. Transportou-a, num piscar de olhos, para as pessoas</p><p>que em tempos ambos haviam sido.</p><p>Ansiou por isso — precisava disso, precisava dele.</p><p>— Vou ser mobilizada.</p><p>Michael ficou imóvel, parecia que tinha deixado de respirar.</p><p>— Estás a brincar, não é? — perguntou por fim.</p><p>— Claro que não estou a brincar. Quem brinca com o facto de ir</p><p>para a guerra?</p><p>A voz de Jolene fraquejou. Por uma fração de segundo, a sua</p><p>força vacilou. Percebeu o quanto estava desesperada para que ele</p><p>lhe pegasse ao colo e lhe dissesse que ultrapassariam tudo aquilo</p><p>juntos.</p><p>— Primeiro vou para Fort Hood, a fim de realizar treino de</p><p>combate, e depois embarco para o Iraque.</p><p>— Estás na Guarda Nacional, caramba. Não és um soldado a</p><p>sério.</p><p>Jolene recuou perplexa.</p><p>— Vou fazer-te um favor e esquecer que disseste isso.</p><p>— Não vais para a guerra, Jo. Nem pensar. Tens quarenta e um</p><p>anos…</p><p>— Agora lembras-te.</p><p>— Há pessoas a morrer lá.</p><p>— Tenho consciência disso, Michael.</p><p>— Diz-lhes que és mãe. Não podem estar à espera de que</p><p>abandones as tuas filhas.</p><p>— Os homens abandonam os filhos para ir para a guerra todos os</p><p>dias.</p><p>— Eu sei disso — disse Michael, cortante. — Mas tu és mãe.</p><p>— Antes disso já era um soldado.</p><p>— Isto não é o raio de um jogo, Jo. Não vais para a guerra. Diz-</p><p>lhes que agradeces, mas dispensas.</p><p>Ela olhou-o, incrédula.</p><p>— Podia ser levada a tribunal marcial por isso. Iria para a cadeia.</p><p>Não se diz «não» a uma coisa dessas.</p><p>— Então demite-te.</p><p>Michael realmente não a conhecia, para estar a dizer-lhe uma</p><p>coisa dessas. A honra não passava de uma palavra para ele; os</p><p>advogados estavam habituados a jogar brincando com as palavras.</p><p>Ele não fazia a mínima ideia do que significava uma exoneração</p><p>desonrosa.</p><p>— Dei a minha palavra, Michael.</p><p>— E onde fica o «sim» que disseste quando casámos? —</p><p>perguntou ele de súbito.</p><p>— Grandessíssimo filho da mãe — gritou-lhe Jolene. — Amei-te</p><p>durante todos estes anos. Adorei-te. E a noite passada dizes-me que</p><p>já não me amas, que talvez queiras o divórcio. E depois, porque és</p><p>um cretino egoísta que realmente não me conhece, dizes-me para</p><p>abandonar a Guarda Nacional.</p><p>— Que espécie de mãe seria capaz de abandonar os filhos?</p><p>Jolene inspirou bem fundo. Teria magoado menos se Michael lhe</p><p>tivesse dado uma bofetada.</p><p>— Como te atreves a dizer-me isso? Tu, que és a pessoa em</p><p>quem menos se pode confiar nesta família. Parte-se-me o coração</p><p>deixá-las, mas tenho de fazê-lo — replicou Jolene, e a sua voz</p><p>fraquejou. — Tenho de fazê-lo.</p><p>— Pois então vai para a guerra — disse ele.</p><p>— Fazes com que isso pareça uma escolha, Michael. Não há</p><p>escolha possível aqui. Ou vou para a guerra ou vou para a cadeia.</p><p>Como é possível que não compreendas isso? Estou a ser mobilizada.</p><p>— E ainda ficas surpreendida por eu estar furioso. Para começar,</p><p>nunca quis que fizesses parte do estúpido do Exército.</p><p>— Muito obrigada por minimizares o que faço.</p><p>— A guerra… e esta guerra em particular, é um desperdício, e eu</p><p>posso não ser o Colin Powell, mas sei que os helicópteros são alvos</p><p>importantes e que são abatidos. O que queres que diga? «Que</p><p>ótimo, Jolene. Vais partir para o Iraque, mas é melhor tomares</p><p>cuidado. Vou ficar à tua espera.»</p><p>— Por exemplo — retorquiu ela em voz baixa, e as forças</p><p>abandonaram-na. — Isso seria muito bonito.</p><p>— Bom, nesse caso, casaste com o homem errado.</p><p>— É mais do que óbvio. Vê as coisas pelo lado positivo, Michael.</p><p>Tu mesmo querias um tempo de afastamento.</p><p>— Vai-te lixar, Jo.</p><p>— Não. Vai-te lixar tu, Michael.</p><p>Dito isto, rodou nos calcanhares e saiu da sala. Não correu, muito</p><p>embora lhe tenha apetecido. Manteve o queixo erguido e os ombros</p><p>direitos enquanto subia as escadas, entrando no quarto.</p><p>Lá em baixo, uma porta bateu com estrondo. Fez-lhe lembrar os</p><p>tempos da sua infância e todas as discussões que ouviu de longe.</p><p>Nunca poderia imaginar que quando crescesse se transformaria</p><p>numa</p>
<p>esposa que ia ouvir o próprio marido sair de casa. Porém,</p><p>mesmo com a mágoa desse eco triste e patético, pensou: «Vai,</p><p>Michael, corre.»</p><p>Já devia estar à espera, afinal. Sabia muito bem o que era não</p><p>poder contar com alguém para ficar do seu lado, para ficar consigo.</p><p>E, contudo, mesmo sabendo disso, mesmo sabendo que estava</p><p>sozinha outra vez e que tinhas forças suficientes para aguentar,</p><p>sentiu-se dilacerada por dentro. Sentou-se na cama, incapaz de ficar</p><p>de pé por mais tempo.</p><p>Mais tarde, o soalho do lado de fora do seu quarto rangeu, e a</p><p>porta abriu-se. Michael estava ali de pé, parecendo ao mesmo tempo</p><p>zangado e derrotado. O cabelo estava completamente desgrenhado,</p><p>como se tivesse passado as mãos por ele vezes sem conta, e o mais</p><p>provável é que o tivesse feito. Era um hábito nervoso. Um copo com</p><p>bebida — uísque, por certo — pendia da outra mão. Deu por si a</p><p>olhar para aquela mão por um momento; os dedos dele eram</p><p>longos, elegantes. Muitas vezes dissera que o marido tinha mãos de</p><p>pianista, mãos de pintor. Adorava o que aquelas mãos eram capazes</p><p>de fazer ao seu corpo.</p><p>Todavia, aquelas mãos não eram calejadas, não estavam</p><p>habituadas ao trabalho manual. Eram as mãos de um pensador, ao</p><p>contrário das suas. Talvez tudo se resumisse a isso. Talvez devesse</p><p>ter previsto esta cena desenrolar-se no exato segundo em que ele</p><p>lhe pegou na mão pela primeira vez.</p><p>— Então sempre vais — disse Michael, e sua voz parecia</p><p>apagada, tocada pelo tipo de raiva acumulada que ela nunca lhe</p><p>ouvira antes.</p><p>— Tenho de ir — respondeu Jolene.</p><p>— Fará alguma diferença o facto de precisarmos de ti aqui?</p><p>— É claro que faz diferença.</p><p>Michael terminou a bebida e entrou no quarto. Pousando o copo</p><p>vazio na mesinha de cabeceira, sentou-se na cama ao lado dela,</p><p>mas não perto o suficiente para lhe tocar. Com um suspiro, deixou-</p><p>se cair para a frente. A massa ondulante de cabelo derramou-se</p><p>para diante. Ao vê-lo assim agora, o seu perfil bem definido, os</p><p>ombros descaídos, Jolene lembrou-se da semana em que o pai dele</p><p>estivera moribundo. Michael não fora capaz de ficar a ver Theo</p><p>daquela maneira, macilento, encovado e em sofrimento, ligado à</p><p>vida através de máquinas. Tentava sentar-se junto da cama, mas</p><p>nunca era capaz de ficar por muito tempo. Era muito frequente</p><p>Jolene ir encontrá-lo a passear pelos corredores, recriminando-se</p><p>pela sua fraqueza. Nesses momentos, ia até junto dele, tomava-o</p><p>nos braços e abraçava-o até ele conseguir respirar de novo. Para ela,</p><p>cuidar do marido quando ele sofria era uma segunda natureza.</p><p>Agora via, no entanto, o que nunca se atrevera a ver antes: este seu</p><p>amor era unilateral. Era ela quem amava, quem cuidava; ele era</p><p>quem se deixava amar, quem recebia os cuidados.</p><p>— Muito bem, então — disse Michael, por fim.</p><p>Jolene sentiu uma profunda sensação de alívio. Não se</p><p>apercebera até àquele preciso momento, em que a sua respiração</p><p>saiu de chofre, o quanto estava nervosa, sentada ao lado dele, à</p><p>espera.</p><p>— Quer dizer que vais esperar por mim — disse ela.</p><p>— Quanto tempo falta para partires?</p><p>— Duas semanas. Foi mais rápido do que o habitual.</p><p>Circunstâncias especiais.</p><p>— E vais estar fora durante um ano.</p><p>Jolene anuiu com um aceno de cabeça.</p><p>— Concedem-me uma licença ao fim de seis meses. Posso vir a</p><p>casa durante duas semanas.</p><p>Michael suspirou de novo.</p><p>— Vamos contar às meninas amanhã. E à minha mãe também.</p><p>— Claro — respondeu Jolene, mas aquela palavra pouco mais foi</p><p>do que um sussurro; havia tantas coisas mais para dizer, planos a</p><p>traçar, problemas a resolver, mas nenhum dos dois disse mais nada.</p><p>Ficaram sentados na cama onde tinham feito amor tantas vezes,</p><p>em silêncio, fitando cada um deles o vazio, até ser hora de apagar</p><p>as luzes.</p><p>CAPÍTULO 7</p><p>Na manhã seguinte, Michael e Jolene foram de carro até à casa</p><p>de Mila.</p><p>Michael estacionou em frente da casa e desligou o motor.</p><p>Pela primeira vez em toda a manhã, olhou para ela.</p><p>— Estás preparada para fazer isto?</p><p>Jolene viu a raiva acumulada nos olhos dele e isso fê-la sentir-se</p><p>privada de tudo e dolorosamente só. Não se deu ao trabalho de</p><p>responder. Abriu a porta e saiu do carro. Enquanto se</p><p>encaminhavam em direção à porta principal, não pôde deixar de</p><p>reparar até que ponto o marido se encontrava afastado dela.</p><p>Michael bateu à porta. Sem demora, ouviu-se o som de passos</p><p>no interior da casa. Depois, a porta abriu-se devagar e Mila apareceu</p><p>num roupão felpudo cor de rosa, com o seu cabelo preto em</p><p>completo desalinho. Atrás dela, a sala era uma amálgama de</p><p>paredes verde-claras, janelas com vista para o lago, e móveis de</p><p>palhinha dos anos 50 em soalhos de tábuas largas de pinho. As</p><p>almofadas demasiado encorpadas eram em tons esverdeados, cor de</p><p>rosa e branco.</p><p>— Oh, vieram cedo! — exclamou ela, desviando-se para os deixar</p><p>entrar para uma sala de estar apinhada de brinquedos, livros e DVD.</p><p>Lulu levantou-se de um pulo do sítio onde estava sentada, um</p><p>tapete de lã creme. Estava a usar a bandolete de gato na cabeça.</p><p>— Parece que alguém se tornou invisível — comentou Mila em</p><p>voz baixa, a sorrir.</p><p>Jolene franziu a testa pensativa e olhou em volta com grande</p><p>espalhafato.</p><p>— Huuummm… Mila, viu a Lulu por aí? O que será que aconteceu</p><p>à minha gatinha? Alguém viu a minha Lucy Louida?</p><p>Lulu soltou uma risadinha.</p><p>Michael franziu o sobrolho.</p><p>— Do que é que estão a falar? Ela está mesmo…</p><p>Lulu tirou a bandolete da cabeça e sorriu.</p><p>— Estou aqui, mamã!</p><p>Jolene correu para a frente e abraçou a filha.</p><p>— É claro que estás.</p><p>Encostou o nariz ao pescoço aveludado de Lulu, aspirando o</p><p>cheiro doce da sua menina, esforçando-se por guardá-lo na</p><p>memória.</p><p>— Mamã — choramingou Lulu, esperneando a fim de se libertar.</p><p>— ‘Tás a xufocar-me.</p><p>Jolene afrouxou o abraço que deu a Lulu, deixando-a serpentear</p><p>até ao chão.</p><p>— Estão com fome? — perguntou Mila, apanhando uma caixa</p><p>vazia de um DVD do chão, franzindo a testa e olhando a toda a volta</p><p>à procura do filme.</p><p>— Para falar a verdade, temos uma coisa para lhe contar e às</p><p>pequenas também — declarou Michael em tom firme.</p><p>— Oh! — Mila ergueu os olhos. — Aconteceu alguma coisa?</p><p>Ele afastou-se para o lado.</p><p>— As honras são todas da Jolene, mãe. Ela é que tem novidades.</p><p>Mila franziu o sobrolho.</p><p>— Jo?</p><p>— Onde está a Betsy? — indagou Jolene, sem conseguir elevar o</p><p>tom de voz.</p><p>Era capaz de pilotar helicópteros, disparar metralhadoras e correr</p><p>dezasseis quilómetros com uma mochila a abarrotar às costas, mas</p><p>a mera ideia de dizer aquelas poucas palavras às filhas fê-la sentir-</p><p>se sem forças.</p><p>— Eu vou chamá-la — disse Lulu e saiu da sala a correr e aos</p><p>gritos. — Be-t-sy! Vem cá!</p><p>Mila olhou de Jolene para Michael, e de novo para Jolene.</p><p>Então, Betsy entrou na sala de estar, a reboque de Lulu, com ar</p><p>sonolento e esfregando os olhos. Usava uma t-shirt enorme e</p><p>soquetes brancas.</p><p>— Porque me acordaram?</p><p>Jolene pegou em Lulu ao colo, carregou-a até ao sofá e depois</p><p>sentou-se.</p><p>— Senta-te, Betsy. Precisamos de conversar com vocês. É um</p><p>assunto importante.</p><p>Michael sentou-se no sofá ao lado de Jolene.</p><p>Betsy parou de repente.</p><p>— Vão divorciar-se?</p><p>— Elizabeth Andrea — disse Mila. — Porque estás a dizer uma</p><p>coisa d…</p><p>Michael suspirou.</p><p>— Obedece, Betsy. Senta-te.</p><p>A filha ajoelhou-se no tapete de lã cor de marfim em frente</p><p>deles, cruzando braços, de queixo levantado.</p><p>— O que é?</p><p>Estavam todos a olhar para Jolene. Esta quase perdeu a coragem</p><p>e olhou para o marido, que encolheu os ombros.</p><p>Encontrava-se sozinha nesta empreitada. Facto sem surpresas.</p><p>Com um suspiro, olhou para Betsy e depois para Lulu.</p><p>— Lembram-se daquela história que vos contei quando me alistei</p><p>no Exército? — perguntou. — Tinha dezoito anos e estava sem</p><p>rumo. Os meus pais tinham acabado de falecer. Sentia-me muito</p><p>sozinha. Nem podem imaginar o quanto me sentia sozinha. Seja</p><p>como for, vocês todos eram um sonho que eu tinha, mas, é claro,</p><p>nessa altura faziam parte do meu futuro.</p><p>Betsy suspirou com impaciência.</p><p>— Pai, posso voltar para a cama agora?</p><p>— Não estou a fazer isto bem — disse Jolene.</p><p>— Conta-lhes e pronto — ordenou Michael.</p><p>Lulu começou aos pulos no colo da mãe.</p><p>— Contar-nos o</p>
<p>do sangue, do fogo e da perda.</p><p>Quando o carro da polícia parou junto ao pátio de entrada da</p><p>casa, Jolene não ficou surpreendida. O que a surpreendeu foi o que</p><p>sentiu quando soube que os pais tinham morrido.</p><p>O que a surpreendeu foi a dificuldade que teve em chorar.</p><p>CAPÍTULO 1</p><p>Abril de 2005</p><p>No dia em que fez quarenta e um anos, tal como em qualquer</p><p>outro dia, Jolene Zarkades acordou antes de amanhecer. Com</p><p>cuidado para não incomodar o marido, saiu da cama, vestiu o fato</p><p>de treino, apanhou o longo cabelo louro num rabo de cavalo e saiu</p><p>de casa.</p><p>Estava um lindo dia de primavera com céu azul. As ameixoeiras</p><p>que ladeavam o caminho de acesso à sua casa estavam em flor.</p><p>Minúsculas flores cor de rosa flutuavam sobre o relvado de um verde</p><p>intenso. Do outro lado da rua, o estreito apresentava um profundo e</p><p>vibrante tom de azul. As montanhas Olympic cobertas de neve</p><p>erguiam-se majestosas em direção ao céu.</p><p>Visibilidade perfeita.</p><p>Correu ao longo da estrada da praia durante praticamente cinco</p><p>quilómetros e meio e depois regressou. Quando chegou ao caminho</p><p>que levava à casa, estava afogueada e ofegante. No alpendre,</p><p>contornou os móveis desemparelhados de madeira e verga e entrou</p><p>em casa, onde o aroma tentador do café se misturava com o cheiro</p><p>intenso a madeira queimada.</p><p>A primeira coisa que fez foi ligar a televisão na cozinha; já estava</p><p>sintonizada na CNN. Enquanto servia o café, aguardava com</p><p>impaciência pelas notícias sobre a Guerra do Iraque.</p><p>Não havia notícias de intensos combates naquela manhã.</p><p>Nenhum soldado — ou amigo — fora morto durante a noite.</p><p>— Graças a Deus — disse.</p><p>Com a caneca de café na mão, subiu as escadas, passou pelos</p><p>quartos das filhas e encaminhou-se para o seu. Ainda era cedo.</p><p>Talvez acordasse Michael com um longo e demorado beijo. Um</p><p>convite.</p><p>Quanto tempo se passara desde a última vez em que haviam</p><p>feito amor pela manhã? Quanto tempo desde que haviam feito amor,</p><p>para dizer a verdade? Não era capaz de se lembrar. O dia do seu</p><p>aniversário parecia uma ocasião perfeita para mudar tudo isso. Abriu</p><p>a porta.</p><p>— Michael?</p><p>A cama estava vazia. Por fazer. A t-shirt preta de Michael —</p><p>aquela com que dormia — jazia amarrotada no chão. Apanhou-a,</p><p>dobrou-a e guardou-a.</p><p>— Michael? — chamou de novo, abrindo a porta da casa de</p><p>banho.</p><p>O vapor saiu em borbotões, toldando-lhe a visão.</p><p>Tudo era branco — azulejos, sanita, tampos das bancadas. A</p><p>porta de vidro da cabina do duche estava aberta, revelando o</p><p>interior de azulejos vazio. Uma toalha húmida fora atirada para o</p><p>chão. A humidade perlava o espelho por cima do lavatório.</p><p>O marido já devia estar lá em baixo, se calhar no escritório. Ou</p><p>talvez estivesse a planear uma pequena surpresa de aniversário. Era</p><p>o tipo de coisas que ele costumava fazer…</p><p>Depois de um duche rápido, escovou o comprido cabelo molhado,</p><p>enrolou-o num coque e contemplou-se ao espelho. O seu rosto — a</p><p>exemplo de tudo nela — era firme e ossudo: possuía maçãs do rosto</p><p>salientes e grossas sobrancelhas castanhas que lhe acentuavam os</p><p>olhos verdes afastados e uma boca um pouco grande demais. A</p><p>maioria das mulheres da sua idade usava maquilhagem e pintava o</p><p>cabelo, mas Jolene não tinha tempo para coisas desse género.</p><p>Sentia-se à vontade com o cabelo louro de um tom entre dourado e</p><p>acinzentado, que escurecia um pouco todos os anos, e com a</p><p>pequena coleção de rugas que tinham começado a franzir-lhe os</p><p>cantos dos olhos.</p><p>Vestiu a farda de piloto e foi acordar as meninas, mas os quartos</p><p>delas também estavam vazios.</p><p>Já se encontravam na cozinha. A filha de doze anos, Betsy,</p><p>estava a ajudar a irmã de quatro anos, Lulu, a sentar-se direita à</p><p>mesa. Jolene deu um beijo na bochecha rechonchuda e rosada de</p><p>Lulu.</p><p>— Feliz aniversário, mãe — disseram as duas em uníssono.</p><p>Jolene sentiu um amor súbito e ardente por aquelas meninas e</p><p>pela sua vida. Sabia como eram raros os momentos como esse.</p><p>Porque não podia ter sido criada como elas? Virou-se para as filhas,</p><p>a sorrir — radiante, para dizer a verdade.</p><p>— Obrigada, meninas. Está um lindo dia para se fazer quarenta e</p><p>um anos.</p><p>— És tão velha — disse Lulu. — Tens a certeza de que és assim</p><p>tão velha?</p><p>Rindo, Jolene abriu o frigorífico.</p><p>— Onde está o vosso pai?</p><p>— Já saiu — respondeu Betsy.</p><p>Jolene virou-se.</p><p>— A sério?</p><p>— A sério — respondeu Betsy, observando-a com atenção.</p><p>Jolene forçou um sorriso.</p><p>— O mais provável é que esteja a planear uma surpresa para</p><p>depois do trabalho. Muito bem. Por mim, fazemos uma festa depois</p><p>das aulas. Só nós as três. Com bolo e tudo. O que me dizem?</p><p>— Com bolo! — gritou Lulu, batendo palmas de contentamento.</p><p>Jolene até podia ficar zangada e perturbada com o esquecimento</p><p>de Michael, mas de que adiantaria? A felicidade era uma escolha que</p><p>ela sabia como fazer. Optara por não pensar nas coisas que a</p><p>aborreciam; dessa maneira, elas desapareciam. Além do mais, a</p><p>dedicação de Michael ao trabalho era uma das coisas que mais</p><p>admirava nele.</p><p>— Mamã, mamã, depois do bolo brinca ao um-dó-li-tá! — gritou</p><p>Lulu, bamboleando-se na cadeira.</p><p>Jolene lançou um olhar à filha mais nova.</p><p>— Há aqui alguém que adora a palavra «bolo».</p><p>Lulu levantou a mão.</p><p>— Sou eu. Sou eu!</p><p>Jolene sentou-se ao lado de Lulu e estendeu as mãos na direção</p><p>dela. A filha encostou de imediato as palmas das suas mãos às da</p><p>mãe.</p><p>— Um-dó-li-tá, cara de amendoá, um segredo colorido, quem</p><p>está livre, livre…</p><p>Jolene fez uma pausa, observando a cara de Lulu iluminar-se de</p><p>expectativa.</p><p>— Está! — disse Lulu.</p><p>— Pim, pam, pum. Cada bola mata um. Da galinha prò peru.</p><p>Quem se livra é a minha Lu-lu.</p><p>Jolene deu uma última palmada nas mãos da filha e depois</p><p>levantou-se para preparar o pequeno-almoço.</p><p>— Vai-te vestir, Betsy. Saímos dentro de meia hora.</p><p>À hora marcada, entrou no carro com as filhas. Levou Lulu ao</p><p>jardim de infância, deixou-a à porta com um beijo afetuoso e depois</p><p>seguiu até à escola situada no alto de uma enorme ladeira relvada.</p><p>Entrando na faixa que conduzia à escola, abrandou e parou.</p><p>— Não saias do carro — ordenou-lhe Betsy de repente, num tom</p><p>ríspido, das sombras do banco traseiro. — Estás com o teu uniforme.</p><p>— Parece que nem no meu aniversário tenho uma desculpa.</p><p>Lançou um olhar à filha pelo espelho retrovisor. Nos últimos</p><p>meses, a sua adorável e dócil maria-rapaz transformara-se numa</p><p>pré-adolescente para quem tudo constituía um potencial embaraço</p><p>— em especial uma mãe que não era exatamente como as outras</p><p>mães.</p><p>— Quarta-feira é o dia de atividades entre pais e filhos —</p><p>lembrou Jolene.</p><p>Betsy gemeu.</p><p>— Tens mesmo de ir?</p><p>— A tua professora convidou-me. Prometo que me comporto</p><p>como uma pessoa civilizada.</p><p>— Não tem graça. Ninguém que é fixe tem a mãe na tropa. Não</p><p>vais usar a farda de piloto, pois não?</p><p>— Esse é o meu trabalho, Betsy. Acho que tu…</p><p>— Tanto faz.</p><p>Betsy agarrou na sua pesada mochila — ao que parece, não a</p><p>mais adequada; no dia anterior exigira uma nova — e saiu depressa</p><p>do carro, encaminhando-se para as duas raparigas que se</p><p>encontravam junto ao pau de bandeira. Eram elas quem importava</p><p>agora para Betsy, essas raparigas, Sierra e Zoe. Betsy ansiava</p><p>desesperadamente por se integrar no grupo delas. Pelos vistos, uma</p><p>mãe que pilota helicópteros para a Guarda Nacional, do Exército, era</p><p>francamente embaraçoso.</p><p>Quando Betsy se aproximou das velhas amigas, estas ignoraram-</p><p>na de propósito, virando-lhe as costas como um cardume de peixes</p><p>que se apressa a fugir do perigo.</p><p>Jolene agarrou-se com mais força ao volante do carro,</p><p>praguejando entredentes.</p><p>Betsy pareceu ficar abatida, envergonhada. Os seus ombros</p><p>descaíram, o queixo afundou-se no peito. Afastou-se à pressa, como</p><p>se tentasse fingir que, na verdade, não tinha acabado de dar de</p><p>caras com aquelas que considerava as suas melhores amigas.</p><p>Sozinha, encaminhou-se para o edifício da escola.</p><p>Jolene ficou ali sentada durante tanto tempo que alguém acabou</p><p>por buzinar-lhe. Sentia profundamente a dor da filha. Se havia</p><p>alguma coisa que ela entendia, era a rejeição. Não tinha esperado</p><p>uma eternidade para que os seus próprios pais a amassem?</p><p>Precisava de ensinar Betsy a ser forte,</p>
<p>quê?</p><p>Jolene respirou fundo.</p><p>— Vou para o Iraque para ajudar…</p><p>— O quê? — gritou Betsy, pondo-se de pé num salto.</p><p>— Hã? — disse Lulu.</p><p>— Oh, Jolene — sussurrou Mila, levando uma mão à boca.</p><p>Deixou-se afundar na poltrona estofada em tom esverdeado,</p><p>junto da janela.</p><p>— Nem pensar — disse Betsy. — Oh, meu Deus, ninguém tem</p><p>uma mãe na guerra. As pessoas vão ficar a saber?</p><p>— É essa a tua preocupação? — perguntou Michael.</p><p>Jolene estava a perder o controlo da situação.</p><p>— Mas tu és mãe — gritou Betsy. — Preciso de ti aqui. E se</p><p>morreres?</p><p>Os olhos de Lulu encheram-se de lágrimas.</p><p>— O quê?</p><p>— Isso não vai acontecer — respondeu Jolene, tentando manter</p><p>a voz firme. — Sou mulher. Eles não autorizam mulheres em</p><p>situações de combate. Vou transportar pessoas importantes de um</p><p>lado para o outro, transportar provisões. Vou estar em segurança.</p><p>— Não sabes. Não podes saber — retorquiu Betsy. — Diz-lhes</p><p>que não vais. Por favor, mamã…</p><p>Nesse momento, com essa pequena palavra, «mamã», Jolene</p><p>sentiu um aperto no coração. Teve vontade de envolver Betsy nos</p><p>seus braços, tranquilizá-la, mas que tipo de consolo poderia</p><p>oferecer-lhe? Esta era uma altura para ter força.</p><p>— Tenho de ir. É o meu trabalho — afirmou, por fim.</p><p>— Se fores, não te vou perdoar — protestou Betsy. — Juro que</p><p>não vou.</p><p>— Não estás a falar a sério — protestou a mãe.</p><p>— Gostas mais do Exército do que de nós — disse Betsy.</p><p>Ao lado de Jolene, Michael emitiu um som. Ela ignorou-o.</p><p>— Não, Bets — contestou em voz baixa. — Tu e a Lulu são o ar</p><p>que respiro. O sangue que corre nas minhas veias. Sem vocês, o</p><p>meu coração deixa de funcionar. Mas vou ter de fazer isto. Muitas</p><p>mulheres que trabalham às vezes têm de deixar os filhos…</p><p>— Está bem! — gritou Betsy. — Não sou estúpida. E essas mães</p><p>correm o risco de levar um tiro nessas viagens de trabalho?</p><p>— Vais voltar para casa, não vais, mamã? — perguntou Lulu,</p><p>mordendo o lábio inferior.</p><p>— Claro que vou — retorquiu Jolene. — Não volto sempre? E em</p><p>novembro venho a casa durante duas semanas. Talvez possamos ir à</p><p>Disneylândia nessa altura. Gostavam de ir?</p><p>— Odeio-te — disse Betsy saindo a correr da sala e batendo com</p><p>a porta atrás de si.</p><p>Mila pôs-se de pé devagar. Começou a encaminhar-se na direção</p><p>de Jolene, logo em seguida estacou, como se não conseguisse que</p><p>as suas pernas se mexessem normalmente.</p><p>— Quanto tempo vais estar fora? — perguntou, e a sua voz</p><p>vacilou com o esforço de parecer forte.</p><p>— Um ano — respondeu Michael.</p><p>Lulu franziu a testa.</p><p>— Quanto tempo é um ano? É assim como para a semana que</p><p>vem?</p><p>Jolene virou-se para o marido.</p><p>— Talvez devesses conversar com a Betsy.</p><p>— Eu? E que raio devo eu dizer-lhe?</p><p>Essa simples pergunta fez o mundo de Jolene desmoronar-se e</p><p>assustou-a tanto quanto tudo o resto que lhe estava associado.</p><p>Como iria ele comportar-se como pai? Poderiam as filhas contar com</p><p>ele enquanto a mãe estivesse ausente?</p><p>Ergueu-se. Tentou pôr Lulu no chão, mas a filha agarrou-se a ela</p><p>como uma lapa. Assim sendo, não disse nada a Michael nem a Mila,</p><p>limitou-se a sair da sala descendo o corredor até ao quarto de</p><p>hóspedes, levando Lulu ao colo. Não foi o ideal, tentar falar com as</p><p>filhas em conjunto, mas nada era ideal nesta situação.</p><p>Bateu à porta.</p><p>— Vai-te embora — berrou Betsy.</p><p>— É o que vou fazer — respondeu Jolene. — É por isso que</p><p>precisamos de conversar agora.</p><p>Esperou um momento, recompôs-se e entrou no quarto, forrado</p><p>com um papel de parede estampado da década de 70 e decorado</p><p>com uma coleção de móveis lacados em branco.</p><p>Betsy estava sentada numa das duas camas de vime com os</p><p>joelhos encostados ao peito. Tinha um ar francamente furioso.</p><p>— Posso sentar-me? — perguntou Jolene.</p><p>Betsy assentiu com um gesto obstinado de cabeça e desviou-se.</p><p>Jolene e Lulu sentaram-se ao lado dela. A mãe tinha vontade de</p><p>entrar diretamente no assunto, mas sabia que Betsy precisava de</p><p>digerir tudo aquilo, por isso aguardou em silêncio, afagando o cabelo</p><p>de Lulu.</p><p>Por fim, Betsy disse:</p><p>— As mães não devem abandonar os filhos.</p><p>— Pois não — concordou Jolene, sentindo a ferroada aguçada</p><p>daquelas palavras cravar-se bem no fundo de si. — Tens razão. E</p><p>sinto muito, querida. A sério.</p><p>— E se dissesses que não ias?</p><p>— Levavam-me a tribunal marcial e metiam-me na cadeia.</p><p>— Pelo menos estarias viva.</p><p>Jolene olhou para a filha. Lá estava ele, o medo que jazia por</p><p>baixo da fúria adolescente.</p><p>— É meu dever como mãe manter-vos em segurança, estar junto</p><p>de vocês e ajudar-vos a crescer.</p><p>— É isso mesmo que estou a dizer.</p><p>—Também é meu dever, porém, mostrar-vos que tipo de pessoa</p><p>devem ser, dar-vos um bom exemplo. Que tipo de lição iria ensinar-</p><p>vos se me furtasse a um compromisso que assumi? Se fosse uma</p><p>pessoa cobarde ou sem honra? Quando fazemos uma promessa,</p><p>somos obrigados a cumpri-la, mesmo que isso nos assuste ou nos</p><p>entristeça. Fiz uma promessa há muito tempo e agora chegou a hora</p><p>de a cumprir, mesmo que me despedace o coração deixar-te a ti e à</p><p>Lulu, e despedaça mesmo. Desfaz o meu coração.</p><p>Susteve as lágrimas. Nada em toda a sua vida a magoara tanto</p><p>como aquilo, nem mesmo no momento em que o marido lhe dissera</p><p>que já não a amava. Contudo, tinha de manter-se firme, tinha de</p><p>fazer com que a filha compreendesse.</p><p>— Vocês cresceram com amor e em segurança, por isso não</p><p>podem imaginar como é a sensação de se estar de facto sem</p><p>ninguém no mundo. Quando me alistei no Exército, não tinha nada.</p><p>Nada. Ninguém. Estava completamente sozinha no mundo. E agora</p><p>os meus amigos precisam de mim. Tami, Smitty, Jamie. O resto da</p><p>tripulação dos Raptors. Tenho de estar perto deles para ajudar. E o</p><p>país precisa de mim. Sei que vocês são muito novinhas para</p><p>entender tudo isto, mas acredito no ideal de manter a América em</p><p>segurança. Acredito mesmo. Tenho de cumprir a minha promessa.</p><p>São capazes de entender isto?</p><p>As lágrimas brotaram dos olhos de Betsy. O seu lábio inferior</p><p>tremia sem parar.</p><p>— Preciso de ti — afirmou numa voz baixa e calma.</p><p>— Eu sei — respondeu Jolene —, e eu preciso de ti, querida.</p><p>Tanto…</p><p>A voz de Jolene ficou embargada de novo; teve que pigarrear</p><p>para conseguir continuar.</p><p>— Mas havemos de manter-nos em contacto, por telefone e por</p><p>e-mail, e talvez eu escreva até algumas cartas bem à moda antiga.</p><p>Estarei de volta antes mesmo de darem pela minha falta.</p><p>Lulu puxou-lhe pela manga.</p><p>— Vens para casa antes de eu ir para a pré-primária, não vens?</p><p>Jolene fechou os olhos. Como iria conseguir fazer aquilo, com</p><p>toda a sinceridade?</p><p>— Mamã? — insistiu Lulu, com a voz a tremer.</p><p>— Não — respondeu Jolene por fim. — Para a pré-primária não,</p><p>Lulu, mas o teu papá vai estar em casa para tratar disso…</p><p>A filha começou a chorar.</p><p>Michael estava sentado no sofá, sozinho, e ergueu os olhos para</p><p>a mãe. Podia ver a preocupação nos olhos dela, a pergunta que não</p><p>queria calar. Mila perguntava-se por que razão o filho se encontrava</p><p>ali enquanto Jolene resolvia a situação sozinha.</p><p>Fitou-o por um momento demorado e avaliador. Depois saiu da</p><p>sala e regressou alguns minutos mais tarde, trazendo uma chávena</p><p>de café numa das mãos e um prato cheio de baclavas na outra.</p><p>Claro. Comida. A resposta dela para tudo.</p><p>Mila pousou a chávena e o prato junto de Michael e depois</p><p>sentou-se no sofá ao seu lado. Pôs uma mão no joelho do filho.</p><p>— Quando eu era nova… durante a guerra… foi uma época</p><p>terrível para a Grécia. O meu pai, os meus tios e os meus primos</p><p>tinham partido. Muitos deles não voltaram. Contudo, a família</p><p>continuou forte e a fé manteve-nos unidos.</p><p>Michael anuiu com a cabeça. Ouvira as histórias da mãe durante</p><p>toda a sua vida. A Segunda Guerra Mundial parecia-lhe distante,</p><p>quase incompreensível; agora pensava nos parentes que perdera</p><p>debaixo do fogo do inimigo. Antigamente não passavam de nomes</p><p>num livro. Sem pensar, Michael pegou num baclava e começou a</p><p>comer. Céus, como desejava que o pai ali estivesse.</p><p>— Vou mudar-me para tua casa e cuidar das meninas.</p><p>— Não, mãe. Não há quarto para ti e, além disso, tens o Green</p><p>Thumb. Vou contratar alguém.</p><p>— Ai isso é que não vais. Não quero que as minhas meninas</p><p>sejam criadas por uma desconhecida.</p>
<p>Vou contratar outro</p><p>empregado a tempo parcial para a loja.</p><p>— A loja não pode dar-se a esse luxo.</p><p>— Pois não, mas eu posso. Passo por tua casa todos os dias de</p><p>semana depois das aulas. Vou buscar a Lulu ao jardim de infância e</p><p>esperar a Betsy à saída da carrinha. Vai correr tudo bem. Podes</p><p>contar comigo, e as meninas irão contar contigo.</p><p>— Todos os dias, mãe? É uma grande empreitada.</p><p>Mila sorriu-lhe.</p><p>— Sou uma mulher forte, caso ainda não tenhas reparado.</p><p>Preciso ajudar-te, Michael. Deixa-me.</p><p>Ele não soube o que responder: ainda não conseguia ter uma</p><p>perceção correta do quanto o seu mundo havia mudado.</p><p>— No entanto, tudo isto são pormenores, não o assunto mais</p><p>importante — disse Mila olhando para o filho. — Devias estar junto</p><p>dela agora, a explicar às tuas filhas que elas vão ficar bem.</p><p>— E achas que elas vão ficar bem?</p><p>— Não é com as tuas filhas que devias estar a preocupar-te neste</p><p>preciso momento, Michael. A vez delas há de chegar. Tudo a seu</p><p>tempo.</p><p>— E a Jo? — disse Michael. — Achas que ela vai ficar bem?</p><p>— Ela é uma leoa, a nossa Jolene.</p><p>Michael só conseguiu anuir com um aceno de cabeça.</p><p>— Já estás a desapontá-la. O teu pai era assim, Deus tenha a sua</p><p>alma em descanso. Era um homem egoísta. Este é um momento em</p><p>que deves olhar para além de ti.</p><p>Mila tocou na face do filho, passando os nós dos dedos pela sua</p><p>pele tal como havia feito tantas outras vezes na juventude.</p><p>— Trata de te sentires orgulhoso dela, Michael.</p><p>Ele sabia que deveria inclinar a cabeça a concordar e dizer que se</p><p>sentia orgulhoso da mulher, mas não conseguiu fazê-lo.</p><p>— Farei o que tem de ser feito — optou por dizer, e percebeu que</p><p>havia desiludido a mãe.</p><p>Quantas mais pessoas iria deixar ficar mal antes de tudo aquilo</p><p>terminar?</p><p>Michael passou o fim de semana a contemplar a mulher como se</p><p>fosse de longe. Betsy alternava entre mostrar-se ardentemente</p><p>furiosa e desesperadamente pegajosa. Lulu estava tão confusa que</p><p>ficou agitada e nervosa e chorava por tudo e por nada. Ele não era</p><p>capaz de suportar aquilo, mal podia olhar para a dor nos olhos das</p><p>filhas, mas Jolene era uma guerreira, forte como aço. Via a maneira</p><p>cuidadosa como ela tratava as miúdas, o seu carinho. A sua dor só</p><p>se revelava quando as filhas não estavam a olhar; as lágrimas</p><p>brotavam-lhe dos olhos verdes e, quando isso acontecia, ela</p><p>apressava-se a virar as costas, enxugando o choro com as costas da</p><p>mão.</p><p>Fora deitar as filhas há uma hora. Que Deus lhe perdoasse, mas</p><p>Michael deixou que ela se ocupasse de tudo sozinha.</p><p>Nesse momento, ele encontrava-se na sala de estar, de pé diante</p><p>da lareira. Chamas brilhantes cor de laranja e azuis dançavam ao</p><p>longo de uma pilha de troncos, emitindo vagas de calor, e contudo</p><p>ainda sentia frio. Estava gelado, para dizer a verdade.</p><p>Lançou um olhar na direção da cozinha. Pela janela por cima do</p><p>lava-louça pôde ver a luz do luar deslizando sobre a baía.</p><p>— Elas já estão a dormir — disse Jolene, entrando na sala. —</p><p>Agora podemos conversar.</p><p>Ele teve vontade de lhe dizer: «Não, não quero conversar, não</p><p>sobre este assunto, ainda não, já não quero.» Sabia que era egoísta</p><p>e mesquinho da sua parte, mas irritava-o ver-se ali deixado como o</p><p>«Senhor Mãe». Nem poderia contar isso a ninguém. Passaria a ser</p><p>considerado um idiota se admitisse que não queria aceitar aquela</p><p>tarefa que lhe caíra no colo, nem sequer sabia se conseguiria</p><p>cumpri-la. Como iria gerir um escritório de advocacia com dezasseis</p><p>pessoas, defender os seus clientes e cuidar das pequenas coisas do</p><p>dia a dia decorrentes do facto de criar duas filhas sozinho? Levá-las</p><p>à escola. Visitas de estudo. Refeições. Tratar-lhes da roupa. Tarefas</p><p>domésticas.</p><p>Só de pensar nisso sentia-se esmagado.</p><p>— Como vou conseguir fazer uma coisa dessas? — perguntou,</p><p>virando-se para a mulher. — Tenho um trabalho em que pensar.</p><p>— A tua mãe vai ser de uma grande ajuda. Disse que iria</p><p>contratar alguém para ficar na loja, e isso é perfeito. Não quero uma</p><p>ama para tomar conta das meninas. Iriam ficar demasiado</p><p>assustadas e confusas — afirmou Jolene. — Em especial a Betsy; ela</p><p>anda frágil nos últimos tempos, e os miúdos podem ser cruéis. Vai</p><p>precisar de ti, Michael. Vão as duas. Terás de estar de facto</p><p>presente. Eu quero…</p><p>— Tu queres.</p><p>Ele já estava a perder a paciência com essa frase.</p><p>— Clássico, Jo. És tu que vais partir. Mas não sem antes me</p><p>dizeres como queres que eu trate das coisas enquanto estiveres</p><p>fora.</p><p>— Não as coisas, Michael. As minhas filhas.</p><p>Michael distinguiu a maneira como a voz dela fraquejou ao dizer</p><p>aquilo e percebeu até que ponto as suas palavras a haviam</p><p>magoado. Não há tanto tempo assim, iria ter com ela, tomá-la-ia nos</p><p>braços e pedir-lhe-ia desculpa. Agora, limitou-se a ficar ali de pé, a</p><p>cabeça inclinada, olhando insensível para o chão de tacos de</p><p>madeira sob os seus pés calçados com peúgas. O eco daquela</p><p>palavra — divórcio — pairou como fumo entre ambos.</p><p>Jolene esperou durante bastante tempo. A respiração dela soava</p><p>como ondas a rebentar na praia, descontínua e irregular. Michael</p><p>podia senti-la a julgá-lo. Depois, em silêncio, ela saiu da sala.</p><p>Na segunda-feira de manhã, Tami apareceu depois de chegar da</p><p>escola e tocou a buzina do carro.</p><p>Jolene desceu a rua e entrou na grande carrinha branca da</p><p>amiga.</p><p>Olharam uma para a outra; nesse olhar — sem palavras —</p><p>revelaram os seus medos, as suas esperanças, as suas</p><p>preocupações.</p><p>Tami suspirou.</p><p>— Como foi?</p><p>— Brutal — respondeu Jolene. — E para ti?</p><p>— Consegui sobreviver a custo.</p><p>Fez marcha-atrás com a carrinha e afastou-se da entrada da</p><p>casa. Num instante, já iam a acelerar pela estrada interestadual em</p><p>direção a Tacoma.</p><p>— O Seth tentou agir com indiferença quando lhe contei —</p><p>contou Tami após um silêncio invulgar que se arrastara durante</p><p>quilómetros. — Perguntou-me o que aconteceria se eu não voltasse.</p><p>Ainda nem sequer tem treze anos. Não deveria ter de fazer à mãe</p><p>uma pergunta deste género.</p><p>— A Betsy ficou furiosa. Disse que não me perdoaria se a</p><p>abandonasse. Disse que gosto mais do exército do que dela.</p><p>— O Carl chorou — disse Tami em voz baixa depois de mais outro</p><p>longo silêncio. — Nunca o tinha visto chorar. Foi como… — A voz</p><p>dela fraquejou. — Caramba, isto é difícil.</p><p>Jolene engoliu em seco, tentando desfazer o nó na garganta.</p><p>— O que é pior — perguntou em voz calma —, um homem que</p><p>chora quando vamos para a guerra ou um que não chora?</p><p>A partir daí, mantiveram-se ambas em silêncio. Os quilómetros</p><p>passaram depressa, e, daí a pouco, encontravam-se na unidade,</p><p>conduzindo até ao posto de controlo.</p><p>Cada uma mostrou a sua identificação, fizeram um sinal de</p><p>cabeça ao soldado e seguiram até ao aquartelamento.</p><p>No átrio exterior à sala de instrução na pilotagem do Black Hawk</p><p>encontraram vários membros da unidade, sentados em cadeiras ao</p><p>longo da parede. Ninguém dizia grande coisa, com exceção dos</p><p>homens mais jovens, que pareciam entusiasmados e ansiosos.</p><p>Smitty — o jovem, jovem Smitty, com o aparelho nos dentes,</p><p>borbulhas e despreocupada alegria de viver — estava a sorrir, indo</p><p>de homem para homem, perguntando como era o combate, dizendo</p><p>que iria dar cabo de uns quantos lá no Iraque. Jolene perguntava-se</p><p>como estaria a mãe dele a sentir-se neste exato momento…</p><p>As duas amigas encostaram-se à parede de blocos de cimento,</p><p>aguardando a sua vez.</p><p>A porta da sala de instrução abriu-se. Jamie Hix saiu. O seu</p><p>cabelo com corte militar — curto e louro-escuro — contrastava com</p><p>a testa larga e bronzeada. Rugas finas irradiavam-lhe dos cantos dos</p><p>olhos cinzentos — eram rugas novas, dos dias que se seguiram ao</p><p>anúncio da mobilização da equipa. Sem dúvida que estava a pensar</p><p>no seu filho pequeno. Iria a ex-mulher usar esta mobilização para</p><p>lhe retirar o filho?</p><p>— É a tua vez, Jo — disse.</p><p>Com um aceno de cabeça, Jolene entrou na sala de instrução,</p><p>onde encontrou um homem fardado sentado a uma comprida</p><p>secretária com papéis espalhados à sua frente.</p><p>— Chefe Zarkades? — disse, erguendo os olhos a fim de fitá-la.</p><p>— À vontade. Sente-se. Sou o capitão Reynolds. Jeff.</p><p>Jolene sentou-se numa cadeira de frente para ele, com as</p>
<p>costas</p><p>muito direitas, as mãos no colo.</p><p>O oficial empurrou uma pilha de papéis na direção dela.</p><p>— O seu plano de família foi apresentado e está em ordem. As</p><p>suas filhas, Elizabeth Andrea Zarkades e Lucy Louida Zarkades,</p><p>ficarão ao cuidado do seu marido, Michael Andreas Zarkades. É</p><p>assim?</p><p>— Sim, senhor.</p><p>— Pelo que vejo, a sua sogra também está disponível.</p><p>— Sim, meu capitão.</p><p>O oficial olhou para o papel, tamborilando com a caneta.</p><p>— A mobilização pode complicar um casamento. Há algum</p><p>motivo de preocupação quanto a este plano?</p><p>— Não, senhor — respondeu Jolene.</p><p>O capitão ergueu os olhos.</p><p>— Fez testamento?</p><p>— Sim, senhor. Sou casada com um advogado, meu capitão.</p><p>— Ótimo — continuou ele, pondo-lhe de novo â frente a pilha de</p><p>papéis. — Assine e date o seu plano de família. Assim como a</p><p>adenda das disposições de funeral. Presumo que queira que Michael</p><p>seja notificado no caso da sua morte. Mais alguém?</p><p>— Não, senhor.</p><p>— Então, muito bem, chefe. É tudo. Está dispensada.</p><p>Jolene pôs-se de pé.</p><p>— Obrigada, meu capitão.</p><p>— Oh, chefe? Recomendamos que escreva cartas… aos seus</p><p>entes queridos.</p><p>Jolene assentiu com uma inclinação de cabeça. Cartas.</p><p>Despedidas. Eles recomendavam que escrevesse cartas onde</p><p>dissesse adeus às pessoas que mais amava neste mundo. Tentou</p><p>imaginar isso… Betsy a abrir uma carta um dia num futuro vago,</p><p>vendo a caligrafia da mãe, lendo as suas últimas palavras — e como</p><p>seriam elas, essas derradeiras palavras, escritas agora, antes de</p><p>saber tudo o que tinha para dizer, antes de passarem aqueles</p><p>tempos juntos? Lulu choraria, lamentar-se-ia, gritaria «O quê? Ela foi</p><p>para onde?» e a sua cara pequenina ficando enrugada, lágrimas a</p><p>formar-se nos seus olhos escuros ao mesmo tempo que tentava</p><p>perceber o que aquilo significava.</p><p>— Cuide de si, chefe. Que Deus a abençoe.</p><p>As duas semanas seguintes passaram tão depressa que Jolene</p><p>quase esperava ouvir um estrondo sónico a ecoar algures atrás de</p><p>si. Escreveu, reviu e voltou a escrever pelo menos uma dúzia de</p><p>listas de coisas a fazer, encheu um dossiê de três argolas com todo o</p><p>tipo de informações de que se ia conseguindo lembrar. Cancelou a</p><p>assinatura das revistas que não iria receber, contratou o filho de um</p><p>vizinho para lhe cortar a relva no verão e verificar o gerador no</p><p>próximo inverno, e pagou o máximo possível de contas adiantadas.</p><p>Fazia tudo isso à noite; durante o dia estava na unidade,</p><p>preparando-se para ir para a guerra. Ela e a sua equipa voaram</p><p>tantas horas que começaram a respirar quase em uníssono. Por</p><p>alturas do dia primeiro de maio, ela e o resto da unidade já estavam,</p><p>na verdade, ansiosos por partir. Já que iam fazer aquilo, então</p><p>queriam ir. Era a única maneira de começarem a contar o tempo que</p><p>faltava para o regresso.</p><p>Em casa, a vida era uma série infindável de momentos dolorosos</p><p>e despedidas prolongadas. Cada olhar, cada abraço, cada beijo</p><p>assumia o peso do desgosto. Jolene não sabia quanto tempo mais</p><p>seria capaz de suportar aquilo. Sempre que olhava para as suas</p><p>meninas, sentia um nó na garganta.</p><p>E depois havia Michael.</p><p>Naquele curto espaço de tempo de que dispunham juntos, ele</p><p>afastou-se ainda mais, passava cada vez mais tempo no escritório.</p><p>Era raro apanhá-lo a olhar para ela; quando isso acontecia detetava-</p><p>lhe o ressentimento nos olhos e Michael apressava-se a desviar o</p><p>olhar. Tentou conversar com ele sobre todo aquele assunto, a</p><p>mobilização, os sentimentos dela, os sentimentos dele, o seu medo,</p><p>mas a cada tentativa deparava com retraimento até que, por fim,</p><p>exausta, Jolene desistiu.</p><p>Parecia ter-lhe dito a verdade: já não a amava.</p><p>Às vezes, a meio da noite, quando se encontrava deitada na</p><p>cama ao lado dele, incapaz de dormir, com medo de lhe tocar e</p><p>ansiando por que ele lhe tocasse, Jolene interrogava-se se, de facto,</p><p>ela própria ainda se importaria. Gostaria de lhe dar o benefício da</p><p>dúvida, interpretar a frieza dele como receio e preocupação, mas, no</p><p>fim, o seu otimismo deixou-a ficar mal. Precisava dele agora, talvez</p><p>pela primeira vez, e ele desapontara-a. Tal como os pais dela.</p><p>Naquela noite, depois de um longo dia passado na unidade,</p><p>depois de horas a preparar-se para a partida, Jolene arrumou o jipe</p><p>na garagem, ficando sentada no escuro durante os minutos</p><p>necessários para reunir forças. Quando se sentiu segura de não</p><p>fraquejar, saiu do carro e entrou em casa.</p><p>O lar estava inundado por uma luz dourada e pelo aroma de</p><p>borrego estufado em tomate e especiarias. Um travo de canela</p><p>adoçava o ar. Ainda conseguiu ouvir as meninas a falar algures, mas</p><p>as vozes delas silenciaram-se. Parecia que ninguém tinha grande</p><p>coisa a dizer nos dias que corriam. Andavam todos a suster a</p><p>respiração para a última despedida. Betsy aceitara o facto</p><p>especialmente mal; começou a dramatizar, a ter birras, a bater com</p><p>as portas. Alguém da sua turma brincou com ela por ter uma mãe</p><p>que ia combater «nessa estúpida guerra» e Betsy quase teve um</p><p>colapso nervoso. Chegou a casa implorando-lhe para abandonar o</p><p>Exército.</p><p>Jolene pendurou o casaco num cabide no vestíbulo e dirigiu-se</p><p>para a cozinha, onde foi encontrar Mila a lavar a louça do jantar.</p><p>Michael ainda estava no escritório — nos últimos tempos era raro</p><p>chegar a casa antes das dez da noite.</p><p>Às 20h10, o Sol estava a começar a pôr-se; a vista da janela</p><p>parecia um quadro de Monet, toda ela pedaços de bronze, ouro e</p><p>lavanda sobrepostos uns sobre os outros.</p><p>Jolene surgiu por trás de Mila, aspirando uma lufada do champô</p><p>com aroma de rosas quando lhe tocou no ombro.</p><p>— Olá, Mila. Mussaca?</p><p>— Claro. É o teu prato favorito.</p><p>Aquilo bastava para que Jolene começasse a sentir-se</p><p>melancólica naqueles dias. Apertou com carinho o braço da sogra.</p><p>— Obrigada por ter vindo esta noite.</p><p>— O teu prato está no frigorífico. Precisa de cerca de três</p><p>minutos no micro-ondas — recomendou Mila, enxugando o último</p><p>prato e pousando-o em cima da bancada da cozinha. — Como foi o</p><p>treino hoje?</p><p>Jolene retraiu-se.</p><p>— Ótimo. Não poderia estar mais preparada para lidar com o que</p><p>vou encontrar por lá.</p><p>Mila virou-se, olhando para ela.</p><p>— Podes fingir com a Betsy, com a Lulu e até com o meu filho, se</p><p>quiseres, mas não comigo, Jo. Não preciso da tua força. És tu que</p><p>precisas da minha.</p><p>— Então, isso quer dizer que estou com um bocadinho de medo?</p><p>— Estás a esquecer-te, Jo, que eu já vivi no meio de uma guerra.</p><p>Na Grécia. Os soldados salvaram as nossas vidas. Estou orgulhosa</p><p>do que vais fazer, e vou fazer tudo para que as tuas filhas também</p><p>sintam orgulho em ti.</p><p>Foi tão importante escutar aquelas palavras tão simples.</p><p>— E o seu filho? — perguntou Jolene por fim.</p><p>— Ele é um homem e está com medo. Isso não é uma boa</p><p>combinação. No entanto, Michael ama-te. Disso eu tenho a certeza.</p><p>E tu também o amas.</p><p>— Será suficiente?</p><p>— O amor? É sempre suficiente, kardia mou.</p><p>Amor. Jolene deu voltas e mais voltas com essa palavra na sua</p><p>mente, perguntando-se se Mila tinha razão, se o amor era suficiente</p><p>em alturas como esta.</p><p>— Vamos ficar à espera de que voltes para casa, sã e salva. Não</p><p>te preocupes connosco.</p><p>Jolene sabia que não tinha escolha no que respeitava a este</p><p>assunto. Teria de abrir mão das pessoas que amava e deixá-las ali.</p><p>Podia sentir saudades da sua família, mas a emoção e a saudade</p><p>teriam de ser enterradas bem fundo.</p><p>— Vou conseguir — murmurou.</p><p>Durante toda a vida, conseguira compartimentar as suas</p><p>emoções. Sabia como encerrar o medo e a saudade dentro de uma</p><p>caixa e guardá-la bem longe.</p><p>— Tenho de conseguir.</p><p>— O meu filho vai estar à altura da ocasião — disse Mila. —</p><p>Nesse aspeto, é como o pai. Michael nunca se esquivará ao seu</p><p>dever. Não vai desapontar-te.</p><p>— Como pode estar certa disso?</p><p>Mila sorriu-lhe.</p><p>— Estou.</p><p>CAPÍTULO 8</p><p>Durante a primeira semana de maio, Michael dedicou-se ao caso</p><p>de Keller, contestando a acusação formal de homicídio em primeiro</p><p>grau e dispondo-se a descobrir tudo o que pudesse sobre o caso.</p><p>Mas o seu cliente continuava sem falar. Keith dissera-lhe «Sou</p><p>culpado» naquele dia na entrevista na cadeia e depois refugiara-se</p><p>no mutismo anterior, respondendo a cada uma das perguntas de</p><p>Michael</p>
<p>com um olhar vazio. De vez em quando balbuciava «Eu</p><p>matei-a», mas ficava-se por aí. O que se revelou de pouca valia.</p><p>Entretanto, em casa, Jolene não deixava de lhe entregar listas de</p><p>coisas a fazer. Sempre que chamava a sua atenção, metralhava-o</p><p>com alguma tarefa: não te esqueças de revestir os canos em</p><p>novembro… de fertilizar as plantas… de limpar as grelhas da</p><p>churrasqueira. Era assim que ela preenchia as noites que passavam</p><p>juntos. Durante o dia estava na unidade, preparando-se para partir</p><p>para a guerra. Michael sentia que ela começava a ficar ansiosa por</p><p>partir. Na noite anterior, dissera-lhe querer «ir, fazer aquilo para</p><p>despachar o assunto mais depressa e poder regressar».</p><p>Em breve veria realizado o seu desejo.</p><p>Dentro de dois dias despedir-se-ia da sua mulher, vê-la-ia entrar</p><p>num autocarro militar e desaparecer.</p><p>Michael queria ser estoico, forte e verdadeiro. No entanto, ficara</p><p>a saber uma coisa acerca de si próprio no decurso do último mês:</p><p>era egoísta. Também estava preocupado, assustado e furioso.</p><p>Verdade seja dita, acima de tudo, estava furioso. Estava zangado por</p><p>Jolene ter escolhido o Exército em detrimento da família; zangado</p><p>por ela não ter desistido anos antes; zangado por não ter hipótese</p><p>de escolha em nada deste assunto.</p><p>Fora assistir ao ridículo encontro de grupo de prontidão familiar</p><p>que Jolene lhe havia recomendado. Que desastre fora aquilo. Andara</p><p>atrasado o dia inteiro, e a chegada à reunião não constituiu exceção.</p><p>Estava ofegante quando finalmente lá chegou, um pouco aflito,</p><p>remexendo nos papéis dentro da sua pasta, procurando o nome do</p><p>contacto quando entrou na sala.</p><p>Mulheres. Foi o que viu. Devia haver pelo menos cinquenta</p><p>mulheres na sala; a maioria delas estava ocupada a acalmar crianças</p><p>que gritavam e choravam. Num cavalete podia ler-se num enorme</p><p>cartaz: «Apoie o Seu Soldado.» Em baixo havia uma lista de pontos</p><p>cruciais. Apoio Humanitário. Telefonemas. Solidão. Sexo. Ajuda</p><p>Financeira. Como se ele fosse falar com estas desconhecidas sobre</p><p>os problemas com que se deparava devido à mobilização da mulher.</p><p>Assim que entrou, todas as mulheres que se encontravam na sala</p><p>ergueram os olhos. O silêncio pairou na sala.</p><p>— Peço desculpa — balbuciou Michael —, enganei-me no local —</p><p>e saiu.</p><p>Não fazia a mínima intenção de se sentar naquela sala, a ouvir</p><p>aquelas mulheres a falar sobre ser uma boa esposa enquanto os</p><p>seus soldados se encontravam ausentes.</p><p>Em todos os lugares onde ia, parecia que as notícias o</p><p>precediam. Odiava a forma como as pessoas olhavam para ele ao</p><p>saberem que Jolene ia para o Iraque. A tua mulher vai partir para a</p><p>guerra? Podia vê-las a franzir a testa, imaginando-o de avental, a</p><p>bater a massa para um bolo numa tigela cromada. Os seus amigos</p><p>liberais e intelectuais não sabiam como interpretar a novidade. Não</p><p>tardavam a desviar a conversa para George W. e para a política que</p><p>se escondia por detrás da guerra, chegando à conclusão de que ela</p><p>ia arriscar a vida para nada. E que raio deveria ele retorquir acerca</p><p>de tudo aquilo?</p><p>Estava consciente de que podia apoiar os combatentes e não a</p><p>guerra. Essa era a atitude que deveria assumir, a atitude honrada,</p><p>mas não podia fazer isso quanto à sua mulher. Não podia obrigar-se</p><p>a apoiar a decisão que ela tomara.</p><p>Jolene também estava consciente disso, reconhecia a raiva e o</p><p>ressentimento dele. Conheciam-se demasiado bem para ocultar tais</p><p>emoções contaminadas. Sem o amor para protegê-los, ficavam</p><p>ambos tão expostos e feridos como vítimas de queimaduras; cada</p><p>toque doía.</p><p>Por conseguinte, não olhava para ela, nunca lhe tocava, e</p><p>afundava-se em trabalho. Foi assim que sobreviveu durante as</p><p>últimas duas semanas. Ausência. Saía cedo para trabalhar e ficava</p><p>no escritório até tarde. À noite, ficavam ambos afastados na cama,</p><p>respirando no escuro, não dizendo nada, sem se tocarem. Nenhum</p><p>dos dois dormia muito, mas ambos fingiam encontrar consolo ali,</p><p>naquele lugar. Jolene tentara tocar-lhe apenas uma vez, querendo</p><p>fazer amor, dizendo-lhe em voz baixa: Vou partir, Michael. Ele voltara</p><p>costas, demasiado zangado com ela para se aventurar num ato de</p><p>intimidade. Na manhã seguinte, viu a dor e a humilhação nos olhos</p><p>dela, e isso envergonhou-o, mas não podia mudar a maneira como</p><p>se sentia.</p><p>Sentado à secretária ouviu o intercomunicador tocar. Era a</p><p>secretária a dizer-lhe que o procurador do condado de King havia</p><p>chegado para a reunião.</p><p>— Mande-o entrar — disse Michael, endireitando-se na cadeira.</p><p>Brad Hilderbrand, o procurador público, entrou no gabinete.</p><p>Michael conhecia-o bastante bem: por debaixo da aparência</p><p>aduladora de político batia o coração de um hipócrita. Brad fora</p><p>eleito para ser implacável com o crime e ainda mais implacável com</p><p>os criminosos, e fazia bem o seu trabalho porque acreditava na linha</p><p>política do seu partido.</p><p>— Michael — cumprimentou ele a sorrir, estendendo a mão.</p><p>Apertaram as mãos. Michael pôde adivinhar no sorriso de Brad o</p><p>prenúncio de sarilhos.</p><p>— Quero informá-lo de que apareceu uma testemunha no caso</p><p>Keller — declarou Brad. — No melhor interesse de um total</p><p>esclarecimento…</p><p>— E de um possível acordo judicial.</p><p>— Queríamos que tivesse acesso às informações o mais depressa</p><p>possível. Keller confessou. Foi por isso que fiz questão de vir</p><p>pessoalmente.</p><p>— A sério?</p><p>O procurador atirou um dossiê para cima da secretária.</p><p>— Aí dentro encontra-se o depoimento de Terry Weiner. Trata-se</p><p>do companheiro de cela do Keller.</p><p>O bufo do tribunal. Cada vez mais popular junto dos</p><p>procuradores e da polícia.</p><p>— Deixe-me ver se entendo. Está a sugerir que Keith Keller, que</p><p>durante as últimas semanas na prisão não falou com o pai, nem com</p><p>o advogado, nem com o psiquiatra nomeado pelo tribunal, de</p><p>repente desabafou com o companheiro de cela.</p><p>— Ele disse-lhe, e cito: «A cabra não se calava, por isso dei cabo</p><p>dela.»</p><p>— Em resumo, direto ao ponto, e fácil de lembrar. Estou a ver. E</p><p>deixe-me adivinhar, a pretensa testemunha foi solta.</p><p>— Ele só estava preso por posse de droga.</p><p>— Um toxicodependente. Perfeito.</p><p>Michael pegou no dossiê e abriu-o, passando os olhos pelo</p><p>depoimento.</p><p>— Preciso de uma cópia do auto de detenção da testemunha.</p><p>— Vou dar ordens para que lhe enviem uma.</p><p>— Esta pequena obra de ficção é tudo o que tem?</p><p>— Já é o bastante, Michael, e ambos sabemos disso —</p><p>respondeu Brad, fazendo uma pausa significativa, a olhar para ele.</p><p>— Fiquei a saber da sua mulher. Vai para a guerra, hã? Não sabia</p><p>que era de uma família militar.</p><p>— Uma família militar? Não propriamente.</p><p>— A sério? Parece estranho. Seja como for, suponho que vá ficar</p><p>muito ocupado com as miúdas.</p><p>Teria detetado um tom de regozijo na voz de Brad?</p><p>— Não se preocupe comigo, Brad. Consigo levar as miúdas à</p><p>escola e ir buscá-las, fazer o jantar e, mesmo assim, dar-lhe a si</p><p>uma coça valente em tribunal.</p><p>A seguir ao jantar, Jolene estava de pé na cozinha junto ao lava-</p><p>louça, com as mãos mergulhadas em água quente e cheia de</p><p>detergente, contemplando a vista do seu próprio pátio. Era uma</p><p>vista lindíssima à noite — um céu salpicado de estrelas, ondas</p><p>envoltas na luz do luar, cercas que pareciam reluzir de dentro para</p><p>fora. Sabia que, se fechasse os olhos, evocaria milhares de</p><p>recordações desenroladas ao longo daquela mesma panorâmica,</p><p>ouviria as gargalhadas das filhas, sentiria uma mãozinha a puxar</p><p>pela sua.</p><p>Adeus. Proferiu essa palavra na sua mente muitas vezes nas</p><p>últimas duas semanas. Evocando vistas, recordações, momentos,</p><p>fotografias, pessoas. Passara horas a tentar memorizá-los a todos</p><p>para poder levá-los consigo, um álbum de recortes na sua mente de</p><p>toda a vida que ia deixar para trás… a vida que ia ficar à sua espera.</p><p>Retirou as mãos da água, enxugou-as e deixou escorrer a água</p><p>do lava-louça. Depois, devagar, abandonou a cozinha vazia.</p><p>A sala de estar encontrava-se bem iluminada — com todas as</p><p>lâmpadas ligadas e um fogo a bailar na lareira gradeada — e a</p><p>televisão transmitia uma série que ninguém estava a ver. Desligou a</p><p>televisão e odiou o silêncio súbito, por isso tornou a ligá-la. Subindo</p><p>as escadas, reparou no rangido dos degraus</p>
<p>e prosseguiu. Betsy</p><p>estava no quarto, a fazer os trabalhos de casa, e Lulu já estava a</p><p>dormir. Parou à porta do quarto de Betsy e passou as pontas dos</p><p>dedos pela porta de carvalho. Tencionava entrar, sentar-se junto da</p><p>filha mais velha e tentar fazê-la entender de novo esta sua</p><p>mobilização. Todavia, havia mais qualquer coisa a fazer naquela</p><p>noite — algo que já adiara durante o máximo de tempo de que fora</p><p>capaz.</p><p>Dirigiu-se ao seu quarto, acendeu a luz, e fechou a porta. Ali de</p><p>pé, olhando para o quarto que partilhava com o marido, foi</p><p>assaltada pelas recordações. É essa cama, Michael, vamos comprá-</p><p>la… vê só como é robusta, podemos fazer bebés nessa cama… E a</p><p>cómoda que haviam descoberto numa venda de garagem há muito</p><p>tempo, e o tapete oriental que fora a primeira compra de valor que</p><p>fizeram.</p><p>Com um suspiro, encaminhou-se até à cómoda e tirou a</p><p>videocâmara da gaveta das meias. Montando-a num tripé que havia</p><p>comprado, focou a objetiva, fixando-a na grande cama de casal, e</p><p>depois premiu o botão de gravar. Subiu para a cama, aconchegou as</p><p>almofadas à sua volta, obrigou-se a sorrir, como se esta fosse uma</p><p>vulgar história contada à hora de dormir.</p><p>— Olá, Lulu.</p><p>A sua voz sucumbiu. Inspirou fundo, e tentou de novo.</p><p>— Estou a fazer esta gravação para ti.</p><p>Empunhou o livro favorito de Lulu, O Professor Wormbog à</p><p>procura de Zipperump-a-Zoo. Abrindo o grande livro colorido,</p><p>começou a ler a história em voz alta, imitando todas as vozes e</p><p>imprimindo todo o dramatismo como muito bem lhe apetecia. Assim</p><p>que acabou, fechou o livro e olhou para a câmara, com as lágrimas a</p><p>picar-lhe os olhos.</p><p>— Lucy Louida, adoro-te até ao infinito. Dorme com os anjos,</p><p>pequenina. Estarei de volta quando menos esperares.</p><p>Desceu da cama e desligou a câmara. Retirou a videocassete e</p><p>pôs outra. Desta vez, sentou-se aos pés da cama e olhou</p><p>diretamente para a câmara.</p><p>— Betsy — começou em voz baixa. — Nem sei muito bem como</p><p>me despedir de ti. Sei o quanto precisas de mim neste momento.</p><p>Estás a enfrentar muitas dificuldades na escola e quero dar-te todos</p><p>os conselhos de que possas vir a precisar para vencer na vida, mas</p><p>não temos tempo para isso, pois não? Como é possível não termos</p><p>tempo? — Suspirou. — Sei que estás furiosa comigo, Baixinha, e</p><p>sinto muito por isso. Só espero que um dia venhas a compreender.</p><p>Talvez até sintas orgulho de mim, como eu sinto orgulho de ti. Tenho</p><p>tanto orgulho de ti. És forte e linda, esperta e leal. Vais ter muitos</p><p>obstáculos para enfrentar enquanto eu estiver ausente, e vai ser</p><p>difícil. Sei que vai ser difícil. Mas vai correr tudo bem.</p><p>Jolene fechou os olhos apenas por um momento, pensando que</p><p>havia muito mais coisas que tinha vontade de dizer. Durante os dez</p><p>minutos seguintes, deu à filha os melhores conselhos que podia,</p><p>sobre rapazes, raparigas, aulas, o aparecimento do período e o uso</p><p>de maquilhagem. Quando chegou ao fim, estava exausta. Havia</p><p>muito mais coisas… mas não havia tempo.</p><p>— Adoro-te, Betsy, até ao infinito. E sei que também me adoras.</p><p>Eu sei — limitou-se a acrescentar, e sorriu.</p><p>Levantando-se com uma expressão fatigada, dirigiu-se à câmara</p><p>e voltou a mudar a videocassete. Desta vez, seria para Michael;</p><p>porém, quando se sentou aos pés da cama, fitando aquela pequena</p><p>objetiva escura, sentiu uma onda de desolação. Depois de todos os</p><p>anos que haviam passado juntos, não fazia a mínima ideia do que</p><p>lhe dizer agora e não fazia ideia se ele iria sequer ouvir isso ou dar-</p><p>lhe importância. Levantou-se e desligou a câmara. Colocou as duas</p><p>videocassetes em cima da cómoda, escrevendo «LULU» numa delas</p><p>e «BETSY» na outra.</p><p>E então.</p><p>Foi até à escrivaninha que se encontrava no canto do quarto,</p><p>lembrando-se do dia em que a descobriu, como Michael se tinha rido</p><p>e lhe dissera: É a coisa mais feia que já vi, quantas vezes não terá já</p><p>sido pintada? E Jolene pegara-lhe na mão, puxara-o até ao móvel e</p><p>dissera-lhe: Observa com mais atenção, amor.</p><p>Sentou-se à escrivaninha e abriu a gaveta de baixo. Dentro dela</p><p>estava o cofre metálico verde que comprara de propósito para a sua</p><p>mobilização. Retirou-o e pousou-o em cima do tampo da</p><p>escrivaninha em mogno polido. Depois pegou em papel de carta que</p><p>comprara naquela semana e dispôs-se a cumprir a tarefa de</p><p>escrever as derradeiras cartas. Com alguma sorte, nunca seriam</p><p>lidas.</p><p>Para a minha adorada Elizabeth Andrea, escrever esta</p><p>carta é a coisa mais difícil que alguma vez tive de fazer. Não</p><p>porque não saiba o que hei de dizer (muito embora não saiba,</p><p>de facto), mas por não conseguir suportar a ideia de que a</p><p>vais ler, de que terei morrido, de que agora saberás qual é a</p><p>sensação de ser uma menina sem mãe…</p><p>Jolene escreveu, escreveu e escreveu, por entre lágrimas, até</p><p>não ser capaz de encontrar nem mais uma palavra para dizer. E,</p><p>mesmo assim, ainda não era o suficiente. Quando terminou, tinha as</p><p>mãos a tremer. A carta para Lulu também não se revelou mais fácil;</p><p>a cada palavra escrita, Jolene pensou numa criança que se</p><p>esqueceria da mãe quase por completo…</p><p>Michael, escreveu por fim na sua terceira carta, fazendo uma</p><p>pausa, com a caneta suspensa por cima do papel, as lágrimas a</p><p>escorrerem nesse momento, caindo no papel em pequenas gotas</p><p>cinzentas. Amei-te, desde o início até ao fim. Toma conta das nossas</p><p>meninas… ensina-as a lembrarem-se de mim.</p><p>Dobrou as cartas, meteu cada uma delas no respetivo sobrescrito</p><p>e colocou-as no cofre metálico juntamente com a carteira e a carta</p><p>de condução.</p><p>Em seguida, guardou o cofre e fechou a gaveta, ficando ali</p><p>sentada a contemplar a noite, sentindo-se vazia. Pôs-se de pé —</p><p>cambaleava, sem forças nos joelhos — e dirigiu-se ao roupeiro, onde</p><p>foi encontrar a enorme mochila verde fornecida pelo Exército.</p><p>Atirando-a para cima da cama, começou a arrumar as suas coisas.</p><p>Estava tão determinada em encontrar as coisas que incluíra na</p><p>lista e a dobrar os uniformes que não ouviu bater à porta, mas, de</p><p>repente, Betsy encontrava-se a seu lado, fitando a mochila aberta e</p><p>cheia de uniformes de camuflagem para o deserto e de combate,</p><p>botas cor de areia e t-shirts na característica cor verde do Exército.</p><p>— Olá, Bets — disse à filha.</p><p>Betsy encaminhou-se inexpressiva até junto da cama, com o</p><p>olhar fixo no pequeno molho prateado de chapas de identificação</p><p>que se encontrava ao lado da mochila. Pegou nelas e examinou o</p><p>pedaço retangular de aço que registava os factos da folha de serviço</p><p>de Jolene.</p><p>— A Sierra disse que vais matar pessoas — murmurou Betsy,</p><p>numa voz melosa. — E depois o Todd riu-se e disse: «Não vai nada,</p><p>as mulheres não podem disparar. Toda a gente sabe disso.»</p><p>— Betsy…</p><p>— Uma vez vi um filme em que um soldado foi identificado pelas</p><p>chapas. É para isso que elas servem? Para te identificarem?</p><p>Os olhos de Betsy ficaram marejados de lágrimas.</p><p>— Não me vai acontecer nada, Betsy.</p><p>— Não devias ir.</p><p>Jolene engoliu em seco. Teve vontade de puxar Betsy para os</p><p>seus braços, dar-lhe um abraço bem apertado e jurar que ficava em</p><p>casa.</p><p>— Quem me dera não ir.</p><p>— Jura que vais voltar para casa sã e salva.</p><p>— Oh, Betsy… — Jolene esforçou-se para encontrar as palavras</p><p>certas, para arranjar uma maneira de fazer uma promessa</p><p>impossível de ser cumprida a uma menina que nunca se esqueceria</p><p>do que iria ser dito naquele exato momento. — Adoro-te tanto…</p><p>A filha tinha um ar atormentado. Emitiu um som estrangulado,</p><p>irrompeu em lágrimas e disse:</p><p>— Isso não é uma promessa!</p><p>Logo depois atirou as chapas de identificação para o chão, saiu</p><p>do quarto a correr e bateu com a porta atrás de si.</p><p>Jolene curvou-se devagar a fim de apanhar as suas chapas de</p><p>identificação. Colocou-as ao pescoço e suspirou fatigada. Ia</p><p>completar a mochila e depois iria ter com Betsy, e tentar — mais</p><p>uma vez — fazer com que a filha entendesse.</p><p>Aquela era a última noite que passariam juntos. Jolene estivera</p><p>durante o dia com as filhas. Deixou Betsy faltar às aulas. As três</p><p>foram ao cinema, foram patinar no gelo e depois almoçaram no Red</p><p>Robin.</p><p>Naquele momento, o Sol começava a pôr-se.</p><p>Jolene tinha um plano para aquela última noite juntos. Queria ir</p><p>jantar ao Crab Pot. Precisavam</p>
<p>— ela precisava — de uma última</p><p>recordação perfeita para transportar consigo como se fosse um</p><p>amuleto durante a separação que estava iminente.</p><p>Durante anos, o Crab Pot fora o restaurante preferido de «todos</p><p>eles». Nos dias quentes e sossegados do verão do Noroeste tinham</p><p>ido lá, passeado ao longo da praia na maré baixa, fazendo muitas</p><p>vezes corridas pelo caminho. Eram concedidos prémios, em geral um</p><p>cone de gelado com duas bolas, para o primeiro a encontrar um</p><p>berlinde, uma bolacha-do-mar, uma pedra branca perfeita.</p><p>Antigamente, Michael costumava ir com elas. Transportava baldes</p><p>de cores vivas, pás de plástico, braçadas de toalhas de praia e sacos</p><p>de protetores solares. Contudo, nos meses que se seguiram à morte</p><p>do pai, ele mudara. Se pudesse recuar no tempo só por um</p><p>segundo, apenas o suficiente para se lembrar, talvez pudesse dar-lhe</p><p>a única coisa de que ela precisava naquela noite: a família toda junta</p><p>antes de partir. Jolene precisava de saber que Michael iria fazer um</p><p>bom trabalho com as meninas, e que estaria à sua espera quando</p><p>regressasse, que ainda teria um marido para quem voltar.</p><p>— Vá lá, meninas — disse ela. — Vamos jantar ao Crab Pot.</p><p>Apenas Lulu se animou.</p><p>— Está demasiado frio — disse Betsy, selecionando as canções</p><p>no seu iPod, ajustando os auriculares. — Ninguém vai ao Pot a não</p><p>ser no verão. Só os velhos vão lá.</p><p>Michael apontou o controlo remoto para a televisão, saltitando</p><p>pelos vários canais. Em silêncio, encolheu os ombros.</p><p>Essa anuência já era suficiente para Jolene.</p><p>— Perfeito. Vamos, então. Vão buscar os casacos. Pode estar frio</p><p>lá fora.</p><p>Ela passou os dez minutos seguintes a verificar casacos, botas e</p><p>mantas para todos. Colocou, numa previsão otimista, quatro</p><p>cadeiras de praia na parte de trás do jipe, e dez minutos depois</p><p>seguiam pela estrada sinuosa que contornava a linha costeira.</p><p>O Crab Pot era uma instituição local. Construído há cinquenta</p><p>anos por um pescador norueguês, era um edifício pequeno e com</p><p>aduelas de madeira situado numa imaculada faixa de terra entre a</p><p>estrada e a areia. Um terraço gasto e cinzento contornava a casa,</p><p>decorado com mesas de piquenique e rodeado por uma vedação</p><p>revestida por redes de pesca e com iluminações de Natal</p><p>penduradas. No verão, toalhas de plástico vermelhas e brancas</p><p>cobriam as mesas, mas na época baixa, quando apenas os</p><p>residentes locais apareciam, as mesas encontravam-se</p><p>desguarnecidas.</p><p>Lá dentro, o soalho irregular era composto por uma grossa</p><p>camada de areia, trazida, segundo se dizia, da costa agreste perto</p><p>de Kalaloch. As paredes de madeira mal se viam por debaixo de</p><p>pedaços multicoloridos de recordações — fotografias, licenças de</p><p>pesca expiradas, notas de dólar. Qualquer coisa que as pessoas</p><p>quisessem adicionar era bem-vinda. Havia inclusive alguns sutiãs e</p><p>cuecas pregados entre os recortes de jornal.</p><p>Lulu sabia exatamente para onde ir. Dirigiu-se em passo de</p><p>marcha para o dito lugar como se fosse dona daquilo tudo; foi até à</p><p>janela ao pé da caixa registadora e, em seguida, apontou para cima.</p><p>— Estes somos nós — disse para quem quer que pudesse estar a</p><p>ouvi-la.</p><p>Havia apenas alguns clientes no restaurante e nenhum deles</p><p>levantou os olhos.</p><p>A empregada de mesa, uma mulher de cabelo branco que</p><p>trabalhava ali desde sempre, disse:</p><p>— Claro que são, Lulu. Também é a tua fotografia que eu prefiro.</p><p>Lulu ficou radiante.</p><p>A empregada — Inga — conduziu-os a uma mesa perto da porta.</p><p>— Querem o costume? — perguntou, tirando uma caneta do</p><p>cabelo.</p><p>Era só para fazer vista; nunca alguém vira Inga anotar qualquer</p><p>pedido com aquela caneta.</p><p>— Isso mesmo — respondeu Jolene, tentando parecer bem-</p><p>disposta. — Duas sapateiras-do-pacífico, duas doses de manteiga</p><p>derretida e duas doses de pão de alho.</p><p>Todos ocuparam os seus lugares nos bancos corridos — Michael e</p><p>Betsy num dos lados, Lulu e Jolene no outro. Durante toda a</p><p>refeição, Jolene tentou manter uma conversa animada, mas, na</p><p>verdade, assim que começaram a tirar os guardanapos de plástico,</p><p>sentiu-se desalentada. Na realidade, apenas ela e Lulu falaram.</p><p>Michael e Betsy comunicaram quase em exclusivo por intermédio de</p><p>encolher de ombros e de uns quantos grunhidos. Estavam ambos</p><p>infelizes nesta última noite e faziam questão de que Jolene soubesse</p><p>disso. Pelo menos foi isso que ela imaginou. Michael estava a pagar</p><p>a conta quando os Flynn entraram no restaurante.</p><p>— Bonito — disse Betsy, inclinando-se para a frente no lugar,</p><p>deixando o cabelo cair-lhe para a cara.</p><p>— Tami!</p><p>Jolene pôs-se de pé e contornou a mesa, abraçando a amiga com</p><p>força. Devia ter adivinhado que iriam aparecer ali todos juntos.</p><p>Afastando-se, sorriu e disse:</p><p>— Foto já!</p><p>Tami, Seth e Carl juntaram-se de imediato, passaram os braços</p><p>em torno uns dos outros e sorriram com ar alegre para a câmara.</p><p>Jolene captou a imagem com a velha e pesada Polaroid que o Crab</p><p>Pot reservava para uso dos seus clientes. Era outra parte da</p><p>tradição: cada visita incluía uma foto de família a ser pregada na</p><p>parede.</p><p>— Já está — disse.</p><p>Os Flynn juntaram-se à volta deles, vendo a fotografia a ser</p><p>revelada. Quando ficou pronta — e ficou ótima —, Carl pregou-a na</p><p>parede junto à porta.</p><p>— É a vossa vez — disse Tami, tirando a máquina das mãos de</p><p>Jolene.</p><p>Jolene reuniu a família, pôs o braço à volta de Betsy (como</p><p>estava magra a filha mais velha, como estava pele e osso) e de Lulu</p><p>(o seu bebé). Michael ficou atrás dela. Quando Tami disse «olh’ó</p><p>passarinho», todos sorriram.</p><p>Flash.</p><p>Então Betsy e Michael afastaram-se, saindo do restaurante.</p><p>Jolene ficou ali de pé, a vê-los sair.</p><p>Tami pegou-lhe na mão, apertando-a.</p><p>— Então, pronto — disse num sussurro.</p><p>A amiga abanou um pouco a cabeça, obrigou-se a sorrir. Foram</p><p>até ao terraço, ainda de mãos dadas. Nesse momento, já estava</p><p>escuro. Uma lua cheia iluminava os cumes aguçados, recortados e</p><p>cobertos de neve das montanhas e enviava feixes de luz através das</p><p>ondas.</p><p>Na ponta do terraço, Carl estava ao lado de Michael. Mesmo dali,</p><p>era fácil ver até que ponto os dois se sentiam constrangidos ao pé</p><p>um do outro, dois homens que não tinham nada em comum, exceto</p><p>a amizade das respetivas mulheres. As mãos de Michael estavam</p><p>enfiadas bem fundo nos bolsos; balançava ao de leve nas pontas</p><p>dos pés. O ar fresco da noite despenteava-lhe o cabelo preto.</p><p>Seth foi até à praia com Lulu. Acocoraram-se à beira da água,</p><p>contemplando algo. Jolene podia perceber que Betsy também queria</p><p>ir com eles, mas conteve-se.</p><p>— Vai lá, Betsy — incitou-a Jolene baixinho.</p><p>Demorou um bocado, mas a filha começou por fim a mexer-se,</p><p>desceu os degraus do terraço e atravessou a praia. Assim que ela se</p><p>aproximou, Seth ergueu os olhos e sorriu com timidez.</p><p>—O que vão eles fazer sem nós? — perguntou Jolene em voz</p><p>baixa.</p><p>— O que vamos nós fazer sem eles? — foi a resposta de Tami.</p><p>Ficaram ali de pé até sentirem o ar frio a entrar-lhes pelas</p><p>narinas e a brisa a soprar forte, até Carl e Michael deixarem de fingir</p><p>que tinham algo a dizer um ao outro. Então, os Flynn entraram no</p><p>restaurante e Jolene e a família voltaram para casa.</p><p>Quando estacionaram o carro e entraram na casa quente e</p><p>dourada, o estado de espírito tornara-se solene. Até mesmo Lulu</p><p>parecia ter sido atingida.</p><p>— Mamã — disse Lulu assim que entraram na sala de estar. —</p><p>Vais voltar para o meu aniversário, não vais?</p><p>Betsy revirou os olhos.</p><p>— Não volto a tempo do teu aniversário, Lulu. Mas o papá vai</p><p>tratar de tudo para garantir que terás uma bonita festa.</p><p>— Oh! — Lulu enrugou a cara pensativa. — E se eu perder um</p><p>dente? Vens a casa por causa disso, não vens?</p><p>Michael sentou-se e ligou a televisão.</p><p>Betsy emitiu um som de pura frustração e abandonou a sala. O</p><p>som dos passos dela nas escadas reverberou por toda a casa.</p><p>— E então as histórias à hora de dormir? Quem mas vai ler? —</p><p>perguntou Lulu, franzindo a testa.</p><p>— Lulu, querida, guarda os brinquedos. Eu já volto.</p><p>Sentindo-se trémula e abalada, seguiu Betsy escadas acima e</p><p>bateu à porta do quarto dela.</p><p>— Vai-te embora — gritou-lhe a filha.</p><p>— Não estás a falar a sério — disse Jolene. — Não esta noite.</p><p>Houve então uma</p>
<p>longa pausa.</p><p>— Está bem. Podes entrar.</p><p>Jolene entrou no quarto e foi até à cama.</p><p>Betsy não se desviou para o lado, mas, de qualquer maneira,</p><p>Jolene sentou-se. Pôs um braço em torno da filha e puxou-a para</p><p>junto de si.</p><p>— Estou a tentar, mãe — disse Betsy, por fim.</p><p>— Eu sei.</p><p>— Nas notícias…</p><p>— Não vejas as notícias, Betsy. Não vai ajudar em nada.</p><p>— O que vai ajudar, então?</p><p>Jolene suspirou.</p><p>— Fazemos o seguinte. Vamos sincronizar o alarme dos nossos</p><p>relógios. Dessa maneira, quando os alarmes dispararem,</p><p>pensaremos uma na outra nesse segundo.</p><p>— Está certo.</p><p>Em silêncio, regularam os alarmes.</p><p>— Não devia ter dito aquilo sobre as chapas de identificação… —</p><p>observou Betsy, com a voz trémula.</p><p>— Está tudo bem, Betsy.</p><p>— Vou sentir a tua falta — disse a filha passado um minuto. —</p><p>Não sei porque ando a ser tão má para ti…</p><p>— Eu sei, querida. Também já tive doze anos. E, neste momento,</p><p>tens muita coisa com que te preocupar.</p><p>Beijou a filha no rosto.</p><p>Ficaram ali sentadas as duas, abraçadas uma à outra, durante</p><p>bastante tempo. No silêncio, Jolene sentiu-se como se estivesse</p><p>incompleta, destroçada. Como poderia partir no dia seguinte,</p><p>afastar-se da sua família, despedir-se das suas filhas?</p><p>Queria falar com Betsy de tudo o que ela teria de saber ao longo</p><p>da vida — por uma questão de segurança; preveni-la quanto a sexo,</p><p>rapazes, drogas e maquilhagem, quanto a política social, admissões</p><p>à faculdade e escolhas prejudiciais. Porém, era demasiado cedo — e</p><p>demasiado tarde.</p><p>Por fim, beijou-a na face e perguntou-lhe:</p><p>— Estás pronta para voltar a descer? — e levantou-se.</p><p>— Não me apetece ver televisão. Acho que vou ler — disse Betsy.</p><p>Jolene quase não tinha coragem para argumentar contra isso. Na</p><p>verdade, também não tinha muita vontade de voltar lá para baixo.</p><p>— Está bem.</p><p>Desceu as escadas, onde foi encontrar Michael a ver televisão</p><p>com Lulu sentada ao seu lado no sofá a bombardeá-lo</p><p>obstinadamente com perguntas, querendo saber quanto tempo a</p><p>mamã ia ficar fora.</p><p>— Vem cá, Lucy Lou — disse Jolene, acolhendo a filha entre os</p><p>seus braços. — Está na hora do teu banho.</p><p>Subiu as escadas com a filha, deu-lhe um banho demorado e</p><p>repleto de brincadeiras, e depois preparou-a para ir para a cama.</p><p>Ao olhar em volta procurando o livro da noite passada, viu Lulu</p><p>pular da cama, pôr na cabeça a bandolete cinzenta com orelhas de</p><p>gato, suja e velha, e voltar a enfiar-se na cama.</p><p>Então a Lulu queria brincar. Jolene voltou-se para a cama e parou</p><p>de repente.</p><p>— Oh, não. Lulu, onde foi que te meteste? Será que as fadas te</p><p>roubaram?</p><p>Lulu emitiu um som e tapou a boca com uma das mãos.</p><p>— O que foi isto? Terá sido o vento? — perguntou Jolene</p><p>encaminhando-se até junto da janela, e abrindo-a. — Lulu, estás aí</p><p>fora?</p><p>Ela tirou a bandolete e irrompeu em lágrimas.</p><p>— Quero ficar inbisíbel ‘té voltares para casa.</p><p>— Oh, Lulu — disse Jolene, deitando-se na cama estreita da filha</p><p>e tomando a sua bebé nos braços.</p><p>— Quem vai encontrar-me se te fores embora?</p><p>Jolene apertou a filha ainda com mais força, pensando em todas</p><p>as coisas que iria perder.</p><p>Lulu ia entrar para a pré-primária, andaria na carrinha e faria</p><p>novos amigos, tudo isso sem a mãe junto dela.</p><p>— Adoro-te, Lucy Louida. Lembra-te disso, está bem?</p><p>— Está bem.</p><p>Lulu aconchegou-se debaixo dos cobertores e fechou os olhos.</p><p>Pouco depois, estava a dormir.</p><p>Jolene beijou-a na face e saiu do quarto. À saída tirou um dos</p><p>ganchos de cabelo de plástico amarelo de Lulu da cómoda e enfiou-</p><p>o no bolso.</p><p>Enquanto descia as escadas, foi surpreendida pelo silêncio da</p><p>casa.</p><p>— Michael?</p><p>Não obteve resposta. Indo de sala em sala, não conseguiu</p><p>encontrá-lo em lugar nenhum, mas o carro dele estava na garagem.</p><p>Por fim, vislumbrou qualquer coisa lá fora, na frente da casa.</p><p>Abeirou-se da janela da cozinha e olhou lá para fora. A luz do</p><p>luar incidia sobre um vulto sentado no cais.</p><p>Jolene calçou as botas que estavam sempre à porta do vestíbulo.</p><p>Puxando o fecho da parca, saiu de casa e caminhou ao longo da</p><p>vedação descendo até à estrada principal.</p><p>Do outro lado da estrada, desceu os degraus de madeira até ao</p><p>cais. A lua cheia iluminava-lhe o caminho. Jolene pisou qualquer</p><p>coisa que emitiu um som agudo e quebradiço.</p><p>— Parece que me descobriste — disse Michael, levando uma</p><p>garrafa aos lábios.</p><p>Jolene sentou-se na cadeira ao lado dele. Michael acendera o</p><p>lume no braseiro de metal ali ao lado e uma lufada de calor chegou</p><p>até ela.</p><p>— Suponho que vais dizer-me que embebedar-me é uma péssima</p><p>ideia.</p><p>Jolene suspirou. Como haviam chegado a tal ponto e como iriam</p><p>fazer para encontrar o caminho de volta?</p><p>Não iriam encontrar.</p><p>Jolene estendeu a mão e disse:</p><p>— Posso? — E tirou-lhe a garrafa, bebendo um gole do uísque</p><p>amargo.</p><p>A bebida queimou-a por dentro à medida que descia.</p><p>— Deves estar aborrecida — disse Michael.</p><p>Jolene anuiu com um aceno de cabeça. Por norma mantinha-se</p><p>longe do álcool, tanto por causa do histórico da sua família como</p><p>pela sua carreira militar. Se fosse apanhada a conduzir sob o efeito</p><p>do álcool seria penalizada, e nunca faria algo que pudesse pôr em</p><p>risco a sua capacidade de voar.</p><p>— Sou humana, Michael. Na verdade, embebedar-me parece-me</p><p>ótimo neste momento.</p><p>— Estou assustado, Jo — sussurrou Michael. — Não sei se vou</p><p>conseguir dar conta de tudo.</p><p>Jolene aguardou que ele dissesse mais alguma coisa, talvez lhe</p><p>estendesse a mão. Como não o fez, virou-se a fim de o encarar.</p><p>De perfil, as feições dele realçavam-se à luz do luar, estava com</p><p>um ar distante e frio. Reparou na maneira como franzia os lábios</p><p>numa expressão de censura, como se a mínima brandura pudesse</p><p>arrasá-lo, e detestou o facto de ir deixá-lo agora numa altura em</p><p>que o casamento de ambos atravessava uma fase conturbada.</p><p>Precisava de acreditar que Michael ainda a amava, ou que poderia</p><p>vir a amá-la de novo.</p><p>— Olha para mim — disse-lhe.</p><p>Michael bebeu mais um longo gole de uísque e depois virou-se</p><p>para a mulher.</p><p>Estavam próximos o suficiente para se beijarem; bastaria o mais</p><p>leve movimento da parte de um deles, mas nenhum se curvou na</p><p>direção do outro.</p><p>— Não te magoes por lá, Jo — disse Michael, com o olhar fixo.</p><p>Jolene pôde entrever um sinal de carinho nas palavras dele, um</p><p>carinho que julgava já não existir, e isso encheu-a de uma doce e</p><p>terna esperança. Talvez pudessem consertar as coisas, talvez um</p><p>momento perfeito permitisse pô-los de novo no caminho certo.</p><p>Precisava tanto dele naquele momento que não conseguia sequer</p><p>aguentar essa sensação; tinha de conseguir levar o amor dele</p><p>consigo.</p><p>Devagar, pôs uma mão em torno do pescoço de Michael e puxou-</p><p>o para mais perto de si, beijando-o, mas, apesar de o coração dela</p><p>ter disparado e de a paixão se ter inflamado dentro de si, sentiu-o</p><p>retrair-se. Foi como beijar um estranho.</p><p>Afastou-se, humilhada.</p><p>— Toma conta das minhas meninas — sussurrou-lhe.</p><p>No entanto, Michael já estava a beber outra vez, contemplando a</p><p>rebentação das ondas.</p><p>— É uma pena achares que precisas de me recomendar uma</p><p>coisa dessas — retorquiu.</p><p>Jolene pôs-se de pé e voltou para casa, sozinha.</p><p>CAPÍTULO 9</p><p>Michael acordou sozinho. A dada altura, muito antes do raiar do</p><p>dia, ouviu Jolene mexer-se e saltar da cama. Sem acender as luzes,</p><p>vestiu o seu camuflado, pegou na mochila e saiu do quarto,</p><p>fechando a porta devagarinho. Michael fingiu estar a dormir. Mais</p><p>tarde, ouviu uma buzina apitar lá fora; Tami viera buscar Jolene.</p><p>Depois disso, continuou deitado. Achou que não voltaria a</p><p>adormecer, mas acabou por fazê-lo e foi acordado mais tarde pelo</p><p>despertador tinindo ao lado da cama.</p><p>Muito bem, este era O Dia. Acordou as pequenas e depois tomou</p><p>um longo duche quente.</p><p>Não fazia a mínima ideia do que vestir para uma cerimónia de</p><p>mobilização, por isso optou pelas clássicas calças de fazenda</p><p>antracite e por uma camisola de caxemira, mas quando olhou para o</p><p>espelho, viu um desconhecido. Os seus olhos escuros apresentavam</p><p>um ar espectral e as olheiras confirmavam o facto de que não</p><p>dormia bem há várias semanas.</p><p>— Pai?</p><p>Betsy entrou no quarto, usando umas meias brancas até aos</p><p>joelhos, uma comprida camisola</p>
<p>cor de rosa bem apertada na</p><p>cintura por um largo cinto prateado e umas botas Ugg. O seu longo</p><p>cabelo louro pendia em caracóis até ao meio das costas.</p><p>Parecia que ia fazer uma audição para algum programa da</p><p>Disney, onde as pessoas desatavam a cantar a qualquer momento.</p><p>— Estás a pensar que vais vestida dessa maneira? — perguntou</p><p>Michael.</p><p>— Não podes dizer-me o que hei de vestir.</p><p>— Porque não? Sou teu pai.</p><p>Betsy revirou os olhos.</p><p>— Vim dizer-te que a Lulu não vai connosco.</p><p>— O que queres dizer com isso? Ela tem quatro anos.</p><p>— Eu sei que idade ela tem, pai. Só disse que ela não vai. E está</p><p>a usar a bandolete.</p><p>Michael não fazia a mínima ideia que diferença uma bandolete</p><p>podia fazer.</p><p>— Ótimo.</p><p>Michael suspirou — já estava exausto e mal passava das onze da</p><p>manhã.</p><p>— Anda — disse para Betsy e atravessou o corredor.</p><p>O quarto de Lulu parecia ter sido saqueado. Havia brinquedos e</p><p>roupas por toda a parte; a roupa de cama tinha sido arrancada e</p><p>jazia numa pilha do meio do chão.</p><p>Lulu estava sentada num canto, usando a sua bandolete do</p><p>Halloween de gatinha cinzenta, com as pernas magrinhas fletidas e</p><p>encostadas ao peito. Tinha os olhos vermelhos e húmidos de chorar</p><p>e as suas faces estavam manchadas.</p><p>Michael olhou para o relógio. Estavam atrasados.</p><p>— Levanta-te, Lulu. Não temos tempo para estes disparates.</p><p>Temos que ir despedir-nos da tua mãe.</p><p>Quando Michael estendeu a mão para a agarrar, Lulu gritou:</p><p>— Não podes ver-me!</p><p>O pai franziu o sobrolho.</p><p>Betsy agarrou-lhe no pulso.</p><p>— A Lulu fica invisível quando tem a bandolete na cabeça.</p><p>— Oh, por amor de Deus…</p><p>— Lulu — chamou Betsy numa voz cantarolada. — Onde estás?</p><p>Temos que ir embora.</p><p>Lulu não respondeu.</p><p>Michael sentiu-se já tremendamente deslocado e sem saber o</p><p>que fazer, quando Jolene ainda nem sequer tinha partido.</p><p>— Eu sei o quanto a Lulu deve estar com medo de dizer adeus,</p><p>mas a mamã precisa dos nossos beijos para se manter em</p><p>segurança — insistiu Betsy.</p><p>Lulu irrompeu em lágrimas. Tirou a bandolete da cabeça e pôs-se</p><p>de pé.</p><p>— Não quero que ela se vá embora. A mamã volta para o jantar?</p><p>Betsy pegou na mão da irmã.</p><p>— Não.</p><p>— Para o meu aniversário? — perguntou Lulu esperançosa,</p><p>agarrada à bandolete com orelhas de gato, suja e velha.</p><p>Era, pelo menos, a décima quinta vez que fazia esta pergunta.</p><p>— Vá lá — disse Michael num tom fatigado. — Vamos ter de</p><p>mudar a tua roupa, Lulu.</p><p>— Não! — gritou ela, afastando-se do pai de rompante. — Quero</p><p>o meu fato de gatinha!</p><p>— Devias ceder, pai. Confia em mim — aconselhou Betsy.</p><p>— Muito bem — concordou Michael, a suspirar.</p><p>Pegou em Lulu ao colo e os três saíram de casa dirigindo-se para</p><p>o carro.</p><p>Seguiram viagem num silêncio pesado e constrangedor.</p><p>Quando foram buscar a mãe de Michael, ela tentou preencher o</p><p>silêncio com tagarelice, mas a sua alegre pretensão para o otimismo</p><p>não tardou a desvanecer-se. Michael ligou o rádio e deixou que Clint</p><p>Black falasse por todos.</p><p>Junto à guarita de segurança, Michael parou o carro e entregou a</p><p>sua identidade e a da mãe a um rapaz fardado com um ar muito</p><p>sério.</p><p>— Pode seguir, senhor — disse o guarda por fim, devolvendo-lhe</p><p>os documentos.</p><p>A unidade era uma colmeia em atividade. Havia carros, camiões e</p><p>soldados fardados por todo o lado. Betsy leu as instruções e</p><p>orientou-os até junto de uma zona de estacionamento, onde</p><p>encontraram uma tabuleta sobre a cerimónia de mobilização que iria</p><p>decorrer no hangar.</p><p>Os quatro estavam silenciosos quando se encaminharam para o</p><p>hangar, que era um edifício enorme e aberto dos lados cheio de</p><p>helicópteros, aviões de carga e aviões de porte mais pequeno. Um</p><p>dos lados fora desimpedido de aeronaves e filas de cadeiras</p><p>metálicas haviam sido aí colocadas. Ao longo da parede do fundo,</p><p>tinham disposto um estrado de madeira. Havia um ecrã gigantesco à</p><p>sua esquerda. Uma enorme faixa estendia-se entre dois postes.</p><p>Dizia: «FIQUEM EM SEGURANÇA RAPTORS.»</p><p>Dois helicópteros Black Hawk encontravam-se no centro do</p><p>hangar; estavam apinhados de crianças e de pais. À frente deles,</p><p>uma mesa comprida oferecia panfletos sobre várias coisas, desde a</p><p>perturbação de stresse pós-traumático passando pela prevenção do</p><p>suicídio aos acampamentos de verão para as crianças.</p><p>Escolheram lugares na fila da frente. Lulu sentou-se aninhada no</p><p>colo de Michael, chuchando no polegar — já nem sequer fingia que</p><p>deixara de o fazer. Durante os trinta minutos seguintes, o local</p><p>encheu-se de pessoas — na sua maioria mulheres, crianças e</p><p>homens de idade — que empunhavam cartazes e flores. Perto dos</p><p>helicópteros, reuniu-se uma equipa de reportagem; uma mulher</p><p>bonita de fato azul falava para um microfone.</p><p>Depois, a porta lateral abriu-se e a multidão ficou em silêncio.</p><p>Uma música começou a tocar; cinco soldados avançaram marchando</p><p>em fila única, usando camuflados, botas cor de areia e boinas</p><p>garbosamente inclinadas para o lado, tocando instrumentos. Quando</p><p>a composição terminou, a banda formou um alinhamento ao longo</p><p>da parede. Ficaram de pé, muito direitos e de queixo erguido, em</p><p>sentido defronte de uma fileira de bandeiras.</p><p>Sobre o estrado, um homem fardado aproximou-se do microfone</p><p>e deu as boas-vindas a todos naquele dia tão importante. Em</p><p>seguida, virou-se e deu uma ordem: as gigantescas portas do</p><p>hangar começaram a abrir-se muito, muito devagarinho, revelando</p><p>por fim os soldados fardados, todos os setenta e seis que faziam</p><p>parte da esquadrilha dos Raptors.</p><p>Estavam lá fora, de rostos impenetráveis, parecendo prontos para</p><p>partir. Lá estava a sua mulher, na fila da frente, tão alta, com um ar</p><p>tão forte no meio da sua outra família. A subtenente-chefe 3</p><p>Zarkades. Mal a reconheceu. Era a oficial responsável por uma</p><p>aeronave de quarenta milhões de dólares e inúmeras vidas.</p><p>Um soldado foi colocar-se na frente das tropas, disse algo que</p><p>culminou em «Apresentar armas!» e os Raptors fizeram continência</p><p>e marcharam até ao hangar.</p><p>Minhas senhoras e meus senhores, queiram fazer o favor de se</p><p>levantar para ouvir o hino nacional!</p><p>Michael observava tudo aquilo como se fosse de muito longe. No</p><p>fim do hino nacional, os membros da unidade que estavam a ser</p><p>mobilizados reuniram-se e ficaram de pé, de pernas afastadas e</p><p>mãos atrás das costas, enquanto o comandante da base apresentava</p><p>o orador. Dois homens fardados levaram a cabo um cerimonial com</p><p>uma bandeira — enrolaram-na, colocaram-na dentro de um estojo e</p><p>guardaram-na. Só voltaria a ser retirada quando as tropas</p><p>regressassem da guerra.</p><p>O governador do estado de Washington subiu ao pódio. O hangar</p><p>estava em silêncio, com exceção dos bebés que choravam nos</p><p>braços das mães.</p><p>— Os corajosos homens e mulheres que se encontram aqui à</p><p>minha frente são conhecidos de todos vós — começou o governador</p><p>por dizer. — São nossos irmãos, nossas irmãs, nossos vizinhos,</p><p>nossos pais, nossos filhos e nossos amigos. São os nossos heróis.</p><p>Para os soldados, e para as suas famílias, e para todos quantos</p><p>estão a apoiar as nossas tropas, não há palavras que consigam</p><p>exprimir de forma adequada a profundidade e a amplitude da nossa</p><p>gratidão. Nós que ficamos em casa, os protegidos, estamos cientes</p><p>da vossa coragem e do vosso sacrifício e extremamente gratos.</p><p>O governador levantou os olhos das suas anotações e inclinou-se</p><p>para mais perto do microfone.</p><p>— Aqui à minha frente estão os membros da Companhia Charlie</p><p>que vão ser mobilizados hoje. Podemos todos sentir-nos orgulhosos</p><p>da sua prontidão em servir este nosso grande país e buscar consolo</p><p>na certeza de que cada soldado está pronto, está treinado, está</p><p>preparado para ser bem-sucedido neste esforço. Mas nós nesta sala</p><p>sabemos que se pede a estes soldados e a vós, as suas famílias,</p><p>algo mais além da coragem. Tive o privilégio de falar em particular</p><p>com muitos dos bravos soldados do nosso estado, e a pergunta que</p><p>sempre lhes faço é a seguinte: «Qual é a sua maior preocupação</p><p>com esta mobilização?» Não ficarão surpreendidos em saber que</p><p>nenhum deles expressou preocupação com a sua segurança pessoal.</p><p>Eles preocupam-se convosco. Dizer adeus aos entes queridos é o ato</p><p>mais difícil para qualquer soldado.</p><p>O governador</p>
<p>fez uma pausa.</p><p>— Não há palavras que nós, uma nação agradecida, possamos</p><p>dispensar à Companhia Charlie a não ser «obrigado» — afirmou,</p><p>olhando para as tropas. — A vossa disponibilidade em colocar-vos no</p><p>caminho do perigo de modo a proteger-nos aqui em casa é</p><p>comovedora. Agradecemos-vos e rezamos para que regressem em</p><p>segurança. Que Deus abençoe esta unidade e que Deus abençoe a</p><p>América.</p><p>Um soldado gritou:</p><p>— Primeiro-sargento. Faculte os guerreiros às suas famílias.</p><p>O que quer que tenha sido dito a seguir perdeu-se na torrente de</p><p>aplausos. A assistência estava de pé, batendo palmas e gritando,</p><p>apressando-se a correr aos magotes na direção das tropas.</p><p>Michael não conseguiu mexer-se. Olhou para os soldados que</p><p>passavam por ele, em busca das suas famílias; nenhum deles</p><p>parecendo estar com medo. Exibiam um ar orgulhoso. Forte. Seguro.</p><p>Mais adiante, avistou Jolene e Tami a avançarem juntas. Uma</p><p>equipa de reportagem estava a falar com elas. Quando se</p><p>aproximou, ouviu a repórter dizer:</p><p>— Duas grandes amigas, duas mulheres que pilotam Black</p><p>Hawks. É uma história fantástica…</p><p>Jolene retorquiu:</p><p>— Não é tão invulgar como possa pensar. Com licença, minha</p><p>senhora.</p><p>Colocou-se fora do alcance da câmara e encaminhou-se na</p><p>direção de Mila, que abria caminho por entre a multidão.</p><p>Para todos os lugares para onde olhava, Michael via amargura e</p><p>coragem. Viu um homem de uniforme, com um bebé ao colo que</p><p>não teria mais do que um mês de vida. O soldado contemplava o</p><p>seu bebé com toda a atenção, os olhos húmidos, como se estivesse</p><p>a tentar imaginar todas as mudanças que iriam verificar-se naquele</p><p>pequeno rosto enquanto estivesse fora. A seu lado, uma mulher</p><p>grávida abraçava o marido, soluçando, prometendo que ficaria bem</p><p>sem ele.</p><p>E lá estava Jolene, abraçando a sua mãe com tanta força que</p><p>parecia que ambas iriam fundir-se uma na outra.</p><p>Lulu agarrou-se ainda com mais força ao pescoço de Michael.</p><p>— Despacha-te, papá. Ela pode ir-se embora.</p><p>Michael encaminhou-se até junto da mulher. Não estava à espera</p><p>de nada disto. Como era possível? Orgulhava-se da sua inteligência,</p><p>mas estivera enganado, cego pelo egoísmo ou pela política, ou então</p><p>pelo intelectualismo. Durante anos, assistiu às reportagens</p><p>noticiosas sobre a guerra global ao terrorismo e acompanhou</p><p>imagens de soldados no deserto, refletindo sobre a política que tudo</p><p>isso implicava, em relação às armas de destruição maciça e à</p><p>declaração de guerra de George W. e a justificação para armar e</p><p>enviar tropas. Discutiu o assunto com os colegas — enquanto ficava</p><p>quentinho, seguro e protegido no seu país. Discutiu o custo real da</p><p>guerra.</p><p>Não sabia absolutamente nada. O preço da guerra estava aqui,</p><p>nesta sala. Tinha a ver com famílias que se desfaziam e bebés que</p><p>nasciam sem os pais em casa, e crianças que se esqueciam do rosto</p><p>das mães. Tinha a ver com soldados — alguns deles da sua idade e</p><p>outros com idade suficiente para serem seus filhos — que voltariam</p><p>para casa feridos… ou que nem sequer voltariam para casa.</p><p>A sua mulher ia partir para a guerra. Guerra. Como foi possível</p><p>que não tivesse entendido a parte mais importante de tudo aquilo?</p><p>Jolene podia morrer.</p><p>— Respira fundo — disse-lhe Jolene em tom suave.</p><p>Michael fitou-a, com os olhos brilhantes de lágrimas que tentava</p><p>reprimir.</p><p>— Como podes fazer isto? Algum de vocês…</p><p>Lulu esticou-se para fora do colo do pai, na direção de Jolene,</p><p>com os braços estendidos.</p><p>— Não me deixes, mamã. Eu porto-me bem. Nunca mais fico</p><p>«inbisíbel».</p><p>Jolene puxou a filha mais nova para si e abraçou-a com ímpeto e</p><p>desespero.</p><p>— És a melhor menina do mundo, Lucy Lou…</p><p>Pregou um pequeno emblema com asas douradas no fato dela.</p><p>— Quando olhares para estas asas, saberás que estou a pensar</p><p>em ti, Lulu. Fica combinado?</p><p>Michael estendeu o braço, pegou na mão da mulher. Deveria ter</p><p>feito isso antes, dizer-lhe que ia ficar à sua espera e que podia</p><p>contar com ele. Jolene agarrou na mão dele com tanta força que</p><p>doeu. Apeteceu-lhe abraçá-la, mas não se atreveu. Se chegasse</p><p>perto dela o suficiente para a beijar, poderia ir-se abaixo e ser o</p><p>único homem na sala a chorar. As filhas não tinham necessidade de</p><p>assistir a uma cena dessas.</p><p>Betsy recuou, com os braços cruzados, com a anca um pouco</p><p>para a frente, a boca cerrada e os lábios comprimidos com força.</p><p>— Vou mandar vídeos e e-mails. Vou telefonar tantas vezes</p><p>quantas puder — prometeu Jolene a todos eles.</p><p>— Vamos ficar bem — disse-lhe Mila, abraçando-a, e pegando em</p><p>Lulu ao colo. — Não te preocupes connosco.</p><p>Jolene aproximou-se de Betsy, afagou-lhe a face, obrigou-a a</p><p>olhar para cima.</p><p>— Já acertei o relógio. E tu?</p><p>— Sete horas — respondeu Betsy com firmeza, desviando o olhar.</p><p>Jolene curvou-se, fitando-a bem no fundo dos seus olhos.</p><p>— Adoro-te até ao infinito.</p><p>Fez uma pausa. Michael sabia que ela estava à espera. Pensou</p><p>«Responde-lhe de volta, Bets», mas o silêncio limitou-se a pairar ali</p><p>no ar, até que Jolene se endireitou, com um ar insuportavelmente</p><p>triste.</p><p>Atrás deles, uma voz no altifalante, pedia que os soldados se</p><p>dirigissem para os autocarros. A multidão começou a movimentar-se</p><p>como uma onda, acumulando-se junto às portas.</p><p>E depois encontraram-se no exterior, soldados eretos com</p><p>mochilas às costas, no meio das suas famílias chorosas e crianças de</p><p>braços estendidos. Uma fila de autocarros aguardava na pista.</p><p>— Vou portar-me bem — disse Lulu, chorando copiosamente.</p><p>Jolene beijou as filhas, deu-lhes um abraço bem apertado e</p><p>depois… soltou-as.</p><p>Michael ficou a vê-la avançar na sua direção. Por uma fração de</p><p>segundo só existiam os dois na sua mente — nem crianças, nem</p><p>soldados, nem bebés a chorar. Tudo à volta deles era uma mancha</p><p>de som e de fúria.</p><p>Não sabia o que fazer nem o que dizer. Não podia reconstituir</p><p>com um beijo ou um afago um casamento destruído, mas sentiu-se</p><p>envergonhado com tudo o que havia feito para terem chegado</p><p>àquela situação, e era demasiado tarde para repará-la.</p><p>— Michael — disse Jolene, e este sentiu as lágrimas arder-lhe nos</p><p>olhos. — Cuida bem de ti.</p><p>Era tão curta, essa despedida; mais uma prova dos escolhos</p><p>onde haviam encalhado.</p><p>— Cuida tu bem de ti. Volta para…</p><p>— Elas?</p><p>— Trata apenas de voltar para casa.</p><p>Ele tomou-a finalmente nos braços, envolvendo-a num abraço</p><p>bem apertado. Só quando Jolene se afastou, Michael se apercebeu</p><p>de que ela não havia retribuído o seu abraço.</p><p>Com um derradeiro olhar de angústia, Jolene desapareceu por</p><p>entre a multidão de soldados e entrou para o autocarro.</p><p>Betsy gritou «MÃE!» e correu a todo o comprimento do</p><p>autocarro, acompanhando o andamento deste. A sua voz soou</p><p>sumida no meio da confusão.</p><p>Michael pegou numa Lulu chorosa ao colo e tentou acalmá-la,</p><p>mas a criança estava histérica.</p><p>Na última fila de bancos do autocarro, Jolene baixou a janela.</p><p>Contemplou a família; o sorriso que lhes enviou vacilou assim que o</p><p>autocarro se afastou.</p><p>E depois desapareceu da vista.</p><p>— Não lhe disse que a adorava — observou Betsy, irrompendo</p><p>em lágrimas.</p><p>Nos meses anteriores à partida da mulher, Michael havia dormido</p><p>no «seu lado» da cama. Vira o rio de algodão branco amarrotado</p><p>entre ambos como uma terra de ninguém onde a paixão</p><p>desaparecera e morrera. Agora, nessa manhã em que acordou</p><p>verdadeiramente sozinho, percebeu como tudo isso era falso.</p><p>Durante todas aquelas noites tivera uma esposa a seu lado, uma</p><p>companheira com quem partilhara a sua vida. Sozinho era diferente</p><p>de separado, infinitamente diferente. Na noite passada estendera a</p><p>mão com bastante frequência à procura dela e só encontrara o</p><p>vazio.</p><p>O seu primeiro pensamento quando acordou: «Ela foi-se</p><p>embora.»</p><p>Endireitou-se e sentou-se na cama. A seu lado, em cima da</p><p>mesinha de cabeceira encontrava-se a «bíblia» dela, o dossiê de três</p><p>argolas que continha a lista interminável das suas novas</p><p>responsabilidades. Nela, Jolene incluíra tudo o que achava que ele</p><p>iria precisar — garantias de eletrodomésticos, receitas, listas de</p><p>mecânicos, empregadas de limpeza e baby-sitters. Pegou-lhe e</p><p>abriu-o na secção «Agenda de Planeamento Diário.»</p><p>Fazer o pequeno-almoço. (Havia um plano</p>
<p>de refeição, elaborado</p><p>com todo o cuidado, para cada manhã.)</p><p>Vestir as meninas. Verificar que lavam os dentes.</p><p>Levar a Betsy à carrinha da escola. Chegada: 8h17.</p><p>Deixar a Lulu no jardim de infância. 8h30. Fornecera-lhe um</p><p>endereço, o que o irritou, porque Jolene partira do princípio de que</p><p>ia precisar dele e também porque, na verdade, ia.</p><p>Atirou os cobertores para trás e levantou-se, cambaleando até à</p><p>casa de banho. Depois de um duche quente e demorado, Michael</p><p>sentia-se pronto para começar o seu dia. Vestiu umas calças de lã</p><p>azul-marinho e uma camisa Armani branca e imaculada, e saiu do</p><p>quarto.</p><p>Ao percorrer o corredor às escuras, bateu na porta dos quartos</p><p>das filhas, gritando-lhes para se levantarem.</p><p>Lá em baixo, fez uma cafeteira de café, percebendo tarde de</p><p>mais que havia feito o suficiente para dois. Depois ficou ali em pé,</p><p>esperando com impaciência. Assim que o café ficou pronto, pegou</p><p>na cafeteira de vidro e serviu-se de uma chávena.</p><p>Só que o café não estava pronto; escorreu da máquina,</p><p>salpicando a placa aquecedora que estava por baixo. Voltou a</p><p>empurrar a cafeteira para o seu lugar, ignorando a chiadeira</p><p>fumegante, e examinou a lista.</p><p>Hoje era dia de pequeno-almoço com panquecas em forma de</p><p>«palhaço».</p><p>Ah.</p><p>Em vez disso, esquadrinhou os armários, encontrou cereais, e</p><p>pousou-os com estrondo em cima da mesa. Dispondo umas tigelas e</p><p>colheres ao lado, foi buscar o jornal ao alpendre e sentou-se a lê-lo.</p><p>Quando voltou a olhar para o relógio eram 8h07.</p><p>— Merda.</p><p>Largou o jornal e correu pelas escadas acima, abrindo a porta do</p><p>quarto de Betsy.</p><p>A filha ainda estava a dormir.</p><p>— Caramba, Betsy, levanta-te.</p><p>Betsy sentou-se na cama devagar, a pestanejar, lançou um olhar</p><p>sonolento para o relógio que se encontrava na mesinha de cabeceira</p><p>e depois gritou.</p><p>— Não me acordaste a horas!</p><p>A expressão horrorizada estampada na cara dela teria sido</p><p>engraçada numa outra altura. Michael sabia como Betsy era rigorosa</p><p>e meticulosa, tal como a mãe; detestava que a apressassem.</p><p>— Bati na porta e gritei — disse Michael, batendo palmas. —</p><p>Toca a andar.</p><p>— Não tenho tempo. Não tenho tempo.</p><p>Betsy saltou da cama e olhou para o espelho.</p><p>— O meu cabelo — gemeu.</p><p>— Tens cinco minutos para estar à mesa e tomar o pequeno-</p><p>almoço.</p><p>— Sem tomar duche? — De novo o horror. — Não podes estar a</p><p>falar a sério.</p><p>— Oh. Estou a falar muito a sério. Tens doze anos. É possível que</p><p>estejas assim tão suja? Anda.</p><p>Betsy fitou-o atónita.</p><p>— Despacha-te.</p><p>Michael desceu o corredor até ao quarto de Lulu. Como de</p><p>costume, a filha mais nova estava a dormir de pernas e braços</p><p>esticados e abertos em cima dos cobertores com um jardim</p><p>zoológico completo de animais de peluche amontoados à sua volta.</p><p>Michael atirou os brinquedos para o lado e beijou-a na face,</p><p>afastando-lhe o cabelo emaranhado.</p><p>— Lulu, querida, está na hora de acordar.</p><p>— Não quero — disse ela, afastando-se do pai e voltando-se para</p><p>o outro lado.</p><p>— Está na hora de ires para o jardim de infância.</p><p>— Não quero.</p><p>Michael acendeu a luz e foi até à cómoda da filha. Abriu a gaveta</p><p>de cima e tirou uma roupa interior diminuta com flores cor de rosa,</p><p>umas calças de veludo cotelê amarelas com elástico na cintura e</p><p>uma camisola verde.</p><p>— Vamos, Lulu, tens de te vestir.</p><p>— Essas são roupas de verão, papá. E não combinam. Vai buscar</p><p>a camisola amarela.</p><p>— É isto que vais vestir.</p><p>— Não é não.</p><p>— Ai isso é que é.</p><p>— A mamã deixa-me escolher…</p><p>— Vem cá, Lucy — disse Michael com rispidez.</p><p>Franzindo a cara, Lulu levantou-se da cama e arrastou-se até</p><p>junto do pai. Não parou de se queixar enquanto Michael a vestia.</p><p>— Pronto — disse ele quando acabou. — Linda como um quadro.</p><p>— Estou feia.</p><p>— Longe disso.</p><p>Esticou a mão para agarrar no par de asas que estava em cima</p><p>da cómoda.</p><p>— Prega-me o alfinete, papá. Significa que ela está a pensar em</p><p>mim. Au! Picaste-me.</p><p>— Desculpa — murmurou Michael.</p><p>Em seguida, pegou na filha ao colo e desceu as escadas com ela</p><p>até à cozinha. Uma vez aí, sentou-a na cadeirinha e encheu-lhe uma</p><p>tigela com cereais.</p><p>— Hoje é dia de panquecas de palhaço — informou-o Lulu</p><p>resoluta, contemplando as suas asas. — Vai ver ao calendário.</p><p>— É dia de cereais de chocolate.</p><p>— Isso é para ocasiões especiais. A mamã vai voltar para casa?</p><p>— Hoje não.</p><p>Michael deitou o leite na tigela.</p><p>Betsy entrou a correr na cozinha e estacou de repente.</p><p>— Não posso ir para a escola assim — gritou, gesticulando com</p><p>os braços com dramatismo. — Olha só para o meu cabelo.</p><p>Na verdade, estava com ar de quem havia sido submetida a uma</p><p>terapia de eletrochoques.</p><p>— Põe uma bandolete ou faz uma trança.</p><p>Os olhos de Betsy arregalaram-se só com a ideia, e o seu rosto</p><p>empalideceu.</p><p>— Já estás a arruinar a minha vida.</p><p>— A mamã ainda não vai voltar para casa — disse Lulu e desatou</p><p>a chorar.</p><p>— Come — disse Michael num tom cortante para Lulu; para Betsy</p><p>disse: — Senta-te. Já.</p><p>Lá fora, ouviu uma chiadeira de travões, o chocalhar de um</p><p>motor velho. Michael olhou pela janela da cozinha e avistou a</p><p>mancha amarela de uma carrinha da escola parar ao fundo da rua.</p><p>— Estou atrasada — berrou Betsy. — Estás a ver?</p><p>Michael correu até à porta das traseiras e abriu-a de par em par,</p><p>gritando:</p><p>— Espere…</p><p>Mas era tarde de mais. A carrinha já estava a afastar-se.</p><p>Michael bateu com a porta ao fechá-la.</p><p>— A que horas começam as aulas? Isso não constava do raio da</p><p>lista.</p><p>Betsy fitou-o.</p><p>— Quer dizer que nem sequer sabes?</p><p>— Come. Depois vai lavar os dentes. Saímos dentro de dois</p><p>minutos.</p><p>— Vou faltar à primeira aula — disse Betsy. — Ooooh, isso é que</p><p>vou. A Zoe está na sala. E a Sienna também. Quando elas virem o</p><p>meu cabelo…</p><p>— Tu vais para a escola. Eu tenho de apanhar o ferry.</p><p>Michael olhou para o relógio de parede e fez uma careta. Ia</p><p>perder o ferry, o que significava que ia faltar à primeira reunião do</p><p>dia.</p><p>Betsy cruzou os braços.</p><p>— Estou em greve de fome.</p><p>— Ótimo — disparou Michael. — Fica com fome.</p><p>Michael agarrou nos pratos e colocou-os dentro do lava-louça,</p><p>com cereais, leite e tudo. No vestíbulo, encontrou as botas de</p><p>borracha cor de rosa de Lulu e pegou nelas.</p><p>Na cozinha, Betsy não se mexeu. Ficou sentada na cadeira, com</p><p>ar revoltado, o queixo espetado e os olhos semicerrados.</p><p>— Não vou entrar atrasada. Toda a gente vai ficar a olhar para</p><p>mim — disse.</p><p>— Quem pensas tu que és, a Madonna? Um dia de cabelo</p><p>desastroso não impede que vás à escola. Vai buscar a mochila.</p><p>— Não.</p><p>Michael olhou para ela.</p><p>— Vai buscar a mochila e apronta-te, Betsy, senão levo-te para</p><p>dentro da sala da primeira aula pela mão.</p><p>Betsy abriu a boca horrorizada e depois fechou-a de chofre.</p><p>— Como queiras. Eu vou.</p><p>Michael lançou um olhar da cozinha para a sala de estar, onde</p><p>Lulu estava deitada toda enrolada no sofá, com a sua mantinha e</p><p>uma orca de peluche, a ver o vídeo de Jolene a ler-lhe uma história.</p><p>— Lulu, vem cá para poder calçar-te as botas. Lulu. Vem cá.</p><p>— Ela está a usar a bandolete — disse Betsy com afetação.</p><p>Michael entrou na sala de estar em passo de marcha e pegou em</p><p>Lulu ao colo. Face a esse movimento, a bandolete escorregou-lhe da</p><p>cabeça.</p><p>— Sou «inbisíbel»! — gritou ela.</p><p>Michael levou-a ao colo aos berros e aos guinchos até ao carro e</p><p>instalou-a na cadeirinha com o cinto de segurança. Betsy, silenciosa</p><p>e furibunda, entrou para o lado da irmã.</p><p>Lulu irrompeu em lágrimas.</p><p>— Quero a minha mamã!</p><p>— Eu sei — retorquiu Michael, pondo o motor do carro a</p><p>trabalhar. — Não é o que queremos todos?</p><p>A primeira semana sem Jolene quase levou Michael ao</p><p>desespero. Não fazia a mínima ideia do quanto havia para fazer em</p><p>casa e com as filhas. Se a sua mãe não fosse dona de uma energia</p><p>tão ilimitada, teria sido obrigado a contratar alguém para o ajudar a</p><p>tempo inteiro. A mãe salvara-lhe a vida, não restavam dúvidas.</p><p>Jolene inscrevera Lulu no ATL, onde podia ficar até às quatro da</p><p>tarde. Isso significava que a mãe podia trabalhar até quase às</p><p>quatro, depois ia buscar Lulu e chegava a casa de Michael mesmo a</p><p>tempo de esperar por Betsy, para que esta nunca chegasse a casa e</p><p>a encontrasse vazia — uma das regras mais rígidas de Jolene.</p><p>Quando</p>
<p>a escolher a felicidade.</p><p>Ninguém nos pode magoar se não o permitirmos. Um bom ataque</p><p>era a melhor defesa.</p><p>Por fim, afastou-se com o carro. Evitando o tráfego matinal da</p><p>cidade, foi pelas ruas secundárias para chegar a Liberty Bay. Cortou</p><p>na via de acesso ao lado da sua e dirigiu-se à casa vizinha — uma</p><p>pequena moradia branca pré-fabricada colada a uma oficina de</p><p>automóveis — e buzinou.</p><p>A sua melhor amiga, Tami Flynn, saiu de casa, já fardada, com o</p><p>longo cabelo preto enrolado num austero coque. Jolene era capaz de</p><p>jurar que no rosto largo e cor de café de Tami não se via uma única</p><p>ruga. Tami jurava que isso fazia parte da sua herança nativa</p><p>americana.</p><p>Ela representava a irmã que Jolene nunca tivera. Eram</p><p>adolescentes quando se conheceram — duas raparigas de dezoito</p><p>anos que se alistaram no Exército porque não sabiam que outro</p><p>rumo dar às suas vidas. Ambas tinham terminado o secundário e</p><p>foram admitidas na escola de pilotagem, entrando para o programa</p><p>de formação para pilotos de helicóptero.</p><p>A paixão por voar aproximara-as; uma perspetiva comum sobre a</p><p>vida criara uma amizade tão forte que nunca vacilava. Passaram dez</p><p>anos juntas no Exército e depois foram transferidas para a Guarda</p><p>Nacional quando o casamento — e a maternidade — tornaram difícil</p><p>o serviço no ativo. Quatro anos depois de Jolene e Michael se terem</p><p>mudado para a casa em Liberty Bay, Tami e Carl compraram o</p><p>terreno do lado.</p><p>Tami e Jolene haviam até engravidado ao mesmo tempo,</p><p>partilhando aqueles nove meses mágicos, acautelando os receios</p><p>uma da outra com mãos ternas. Os seus maridos não tinham nada</p><p>em comum, por isso não se tornaram um desses casais de melhores</p><p>amigos que viajavam juntos, mas isso não constituía um problema</p><p>para Jolene. O que mais lhe importava era o facto de que ela e Tami</p><p>sempre estariam ali para se ajudarem uma à outra. E estavam.</p><p>Estar na posição «seis horas à retaguarda» significa que um</p><p>helicóptero está atrás de nós,. O que na verdade quer dizer: Estou</p><p>aqui para o que precisares. Cubro a tua retaguarda. Foi isso que</p><p>Jolene encontrou no Exército, na Guarda Nacional e em Tami. Estou</p><p>a cobrir a tua retaguarda.</p><p>A Guarda Nacional dera a ambas o melhor dos dois mundos —</p><p>mães a tempo inteiro que continuavam a servir o país, permaneciam</p><p>no Exército e pilotavam helicópteros. Voavam juntas pelo menos</p><p>duas manhãs por semana, assim como durante os fins de semana</p><p>de treino. Era o melhor emprego a tempo parcial do Planeta.</p><p>Tami entrou para o lugar do passageiro e fechou a porta com</p><p>força.</p><p>— Feliz aniversário, menina aviadora.</p><p>— Obrigada — respondeu Jolene com um sorriso. — O meu dia,</p><p>a minha música.</p><p>Aumentou o volume do som do leitor de CD e «Purple Rain» de</p><p>Prince ressoou através dos altifalantes.</p><p>Foram a conversar durante todo o caminho até Tacoma, sobre</p><p>tudo e sobre nada; quando não estavam a falar, estavam a entoar</p><p>canções da sua juventude — Prince, Madonna, Michael Jackson.</p><p>Passaram por Camp Murray, sede da Guarda Nacional, e dirigiram-se</p><p>para Fort Lewis, onde eram recolhidos os aparelhos da corporação.</p><p>No vestiário, Jolene foi buscar o pesado saco de voo cheio de</p><p>equipamento de sobrevivência. Colocando-o ao ombro, foi atrás de</p><p>Tami até ao balcão de apresentação, confirmou o seu período</p><p>adicional de voo de treino; inscreveu-se para receber o pagamento e</p><p>depois dirigiu-se para a pista, colocando o capacete enquanto ia</p><p>caminhando.</p><p>A tripulação já lá estava, preparando o Black Hawk para o voo. O</p><p>helicóptero parecia uma enorme ave de rapina em contraste com o</p><p>límpido céu azul. Jolene fez um sinal com a cabeça para o</p><p>comandante, efetuou uma rápida inspeção ao aparelho, deu as</p><p>instruções à tripulação e, logo em seguida, subiu para o lado</p><p>esquerdo da cabina de pilotagem, ocupando o seu lugar. Tami</p><p>entrou, subiu para o assento da direita e colocou o capacete.</p><p>— Painel de comandos e disjuntores, verificado — disse Jolene,</p><p>pondo o helicóptero a trabalhar.</p><p>Os motores rugiram ganhando vida; as enormes pás do rotor</p><p>começaram a movimentar-se, devagar a princípio e depois girando</p><p>com rapidez, com um lamento agudo.</p><p>— Chefe de operações. Raptor oito-nove, autorização para</p><p>descolagem — disse Jolene para o microfone. Em seguida, mudou as</p><p>frequências. — Torre de Controlo. Raptor oito-nove, pronto para a</p><p>partida.</p><p>Deu início ao sofisticado ato de equilíbrio que era necessário para</p><p>fazer um helicóptero descolar. O aparelho elevou-se devagar. Jolene</p><p>manuseava os comandos com perícia — as mãos e os pés em</p><p>constante movimento. Subiram até ao céu azul e sem nuvens, onde</p><p>o firmamento as rodeava por todos os lados. Bem lá em baixo, as</p><p>árvores em flor exibiam uma espetacular paleta de cores. Um fluxo</p><p>de pura adrenalina percorreu-a. Céus, como adorava aquilo lá em</p><p>cima.</p><p>— Ouvi dizer que fazes anos, chefe — disse o comandante,</p><p>através do intercomunicador.</p><p>— É verdade — respondeu Tami, a sorrir. — Porque achas que é</p><p>ela quem tem os comandos?</p><p>Jolene sorriu para a melhor amiga, adorando aquela sensação,</p><p>precisando dela como precisava de ar para respirar. Não se</p><p>importava de envelhecer, nem de ficar com rugas, nem de abrandar</p><p>o ritmo.</p><p>— Quarenta e um anos. Não consigo imaginar melhor maneira de</p><p>passar este dia.</p><p>A pequena cidade de Poulsbo, no estado de Washington,</p><p>estendia-se ao longo das margens de Liberty Bay. Os primeiros</p><p>colonos escolheram esta zona por lhes fazer lembrar a sua terra</p><p>natal nórdica, com as suas frias águas azuis, altas montanhas e</p><p>luxuriantes encostas verdes. Anos mais tarde, esses mesmos</p><p>fundadores tinham começado a construir as suas lojas ao longo de</p><p>Front Street, embelezando-as com toques escandinavos. Viam-se</p><p>telhados com rebordos rendilhados e decorações com volutas por</p><p>todo o lado.</p><p>Segundo a lenda da família Zarkades, as decorações atraíram a</p><p>mãe de Michael de imediato, pois jurava que assim que desceu Front</p><p>Street pela primeira vez soube logo ser ali que desejava morar.</p><p>Dezenas de lojas singulares — incluindo a que a sua mãe possuía —</p><p>vendiam aos turistas as mais belas bugigangas feitas à mão.</p><p>Situava-se a menos de dezasseis quilómetros do centro de</p><p>Seattle, em linha reta, se bem que esses poucos quilómetros</p><p>tivessem sofrido uma irritante mudança. Em determinada altura,</p><p>durante os últimos anos, Michael deixara de ver o encanto</p><p>norueguês da cidade e começara a reparar melhor no longo e</p><p>sinuoso percurso de carro desde a sua casa até ao terminal do ferry</p><p>em Bainbridge Island e no para-arranca típico do meio da semana.</p><p>Havia dois itinerários possíveis entre Poulsbo e Seattle — por</p><p>terra e por água. A viagem de carro demorava duas horas. O trajeto</p><p>de ferry era uma travessia de trinta e cinco minutos desde as</p><p>margens de Bainbridge Island até ao terminal no cais de Seattle.</p><p>O problema com o ferry era o tempo de espera. Para conduzir o</p><p>carro para bordo, era preciso ir para a fila bem cedo. No verão,</p><p>muitas vezes ia de bicicleta para o emprego; em dias de chuva como</p><p>aquele — que eram frequentes no Noroeste — ia de carro. E naquele</p><p>ano o inverno fora particularmente longo e a primavera chuvosa. Dia</p><p>cinzento após dia cinzento, ficava sentado dentro do seu Lexus no</p><p>parque de estacionamento a contemplar a luz do dia arrastando-se</p><p>ao longo da superfície ondulante do estreito. Depois, embarcava,</p><p>estacionava o carro no ferry e subia ao convés superior.</p><p>Hoje, Michael estava sentado a uma pequena mesa de fórmica a</p><p>bombordo do ferry, com o trabalho espalhado à sua frente; o</p><p>depoimento de Woerner. Notas autocolantes estendiam-se como</p><p>teclas de piano amarelas ao longo das margens, cada uma delas</p><p>sublinhando um testemunho de veracidade questionável feito pelo</p><p>seu cliente.</p><p>Mentiras. Michael suspirou só de pensar em reparar os estragos.</p><p>O seu idealismo, em tempos tão vivo e intenso, fora perdendo o</p><p>brilho e o fulgor devido aos anos passados a defender os culpados.</p><p>Noutros tempos, teria falado com o pai sobre o assunto, e o pai</p><p>analisaria os prós e os contras, fazendo questão de recordar a</p><p>Michael que o trabalho que ambos realizavam fazia a diferença.</p><p>Somos o último baluarte, Michael, sabes bem disso — os</p><p>paladinos</p>
<p>Michael chegava por volta das seis, em geral a sua mãe já</p><p>havia começado a preparar o jantar e já tratara da roupa. Carregava</p><p>aos ombros uma grande parte do fardo do filho.</p><p>Ainda assim, Michael não andava a sair-se muito bem. Betsy era</p><p>um turbilhão de emoções contraditórias; ele nunca parecia capaz de</p><p>prever a reação da filha às coisas mais simples. Betsy podia irromper</p><p>em lágrimas sem qualquer razão e ficar furiosa como uma vespa</p><p>cinco segundos mais tarde. E Lulu também não era muito mais fácil</p><p>de lidar. Teimava em usar a bandolete com orelhas de gato cinzenta,</p><p>suja e velha, durante quase todo o tempo. Jurava que ia ficar</p><p>«inbisíbel» até Jolene voltar para casa, e quando Michael ignorava o</p><p>jogo e pegava nela ao colo, Lulu gritava-lhe como uma possessa e</p><p>soluçava dizendo que sentia saudades da sua mamã.</p><p>E depois havia o caso Keller, que estava a revelar todos os</p><p>indícios de se tornar um desastre. Keith continuava sem falar com</p><p>ninguém, nem mesmo com o psiquiatra nomeado pelo tribunal.</p><p>Michael renunciou ao direito do seu cliente em ter um julgamento</p><p>rápido, mas nesse momento a capacidade deste para aguentar um</p><p>julgamento era uma preocupação legítima.</p><p>O intercomunicador soou.</p><p>— Michael? Está aqui o senhor Keller para falar consigo.</p><p>— Mande-o entrar.</p><p>Michael fechou o processo e abriu um bloco de papel.</p><p>Edward Keller entrou no gabinete devagar, parecendo nervoso.</p><p>Era um homem corpulento com cabelo preto cortado à escovinha e</p><p>um bigode preto e farfalhudo estilo Tom Selleck. Exibia um ar pálido</p><p>e suado na sua camisa axadrezada e calças de ganga Wrangler.</p><p>Michael pôs-se de pé e estendeu a mão.</p><p>— Como está, Ed? O meu nome é Michael. É ótimo poder</p><p>finalmente conhecê-lo.</p><p>Ed apertou-lhe a mão.</p><p>— A minha mulher não quis vir. Tentou… mas ainda não</p><p>consegue falar sobre este assunto. Emily era como uma filha para</p><p>nós. É difícil…</p><p>— Compreendo — afirmou Michael e, de facto, compreendia.</p><p>Vivia num mundo de crime e de vítimas; já presenciara vezes</p><p>sem conta como o desgosto pode tornar-se terrível quando se</p><p>descobre que um ente querido cometeu um crime hediondo. Ed e a</p><p>sua mulher eram as vítimas esquecidas num caso como este.</p><p>— Ele recusa-se a falar comigo — explicou Ed. — Limita-se a ficar</p><p>ali sentado, a olhar para a parede.</p><p>— Sendo direto, Ed, esse é o nosso problema real neste</p><p>momento. A única pessoa que fala é o procurador e não gosto do</p><p>que ele anda a dizer. Acusaram Keith de homicídio em primeiro grau</p><p>e afirmam ter uma testemunha disposta a declarar que Keith</p><p>confessou o assassínio.</p><p>Ed estava com um ar infelicíssimo. O homem enterrou-se na</p><p>cadeira.</p><p>— Era um rapaz tão bom. Popular. Simpático. O tipo de miúdo</p><p>que nos pergunta se precisamos de ajuda para transportar as</p><p>compras e como foi o nosso dia. Namorou com imensas raparigas,</p><p>populares do tipo líderes de claque, e divertiu-se no secundário, mas</p><p>quando conheceu Emily, percebeu de imediato que ela era a</p><p>rapariga certa.</p><p>— Quando foi que as coisas começaram a correr mal?</p><p>— Que coisas?</p><p>— O casamento.</p><p>— Oh. Nunca correu mal.</p><p>— Ed — disse Michael com calma. — Alguma coisa correu mal.</p><p>Olhando para as próprias mãos, Ed baixou os olhos.</p><p>— Fizemos a nós mesmos essa pergunta milhões de vezes. Será</p><p>que ele parecia deprimido? Alguma vez os ouvimos discutir? Alguma</p><p>vez ele disse que se sentia infeliz? A nossa família analisou tudo e</p><p>considerou todas as situações possíveis. Os dois tinham um</p><p>casamento feliz; é isso que achamos. Emily mal podia esperar que o</p><p>meu filho regressasse do Iraque. Escrevia-lhe todos os dias.</p><p>Michael ergueu os olhos bruscamente.</p><p>— Iraque? Não há aqui qualquer menção nos documentos que</p><p>possuo especificando que ele esteve destacado no Iraque. Só a</p><p>informação de que era um fuzileiro dispensado que recebeu um</p><p>louvor.</p><p>— Ele realizou duas missões. Quando regressou da segunda vez,</p><p>já não era o mesmo.</p><p>— O que quer dizer com isso?</p><p>— Todos percebemos que tinha mudado. Se alguém o assustava,</p><p>e isso era muito fácil de acontecer, era capaz de se virar tão</p><p>depressa que ficávamos sem fôlego. Sei que não dormia bem. Emily</p><p>contou-me que ele começou a ter uma arma carregada perto da</p><p>cama. Que Deus me ajude, eu disse-lhe que um homem precisa de</p><p>proteger a sua família.</p><p>Michael anotou «perturbação de stresse pós-traumático» e</p><p>sublinhou.</p><p>— Sabe se ele alguma vez bateu na Emily?</p><p>— Nos últimos dias, antes de… o senhor sabe, interroguei-me</p><p>sobre isso mesmo. O Keith andava tão irascível e transtornado. Num</p><p>jantar de família, explodiu com o irmão por uma ninharia. E a</p><p>expressão nos olhos dele assustou-nos a todos. Não era o nosso</p><p>Keith. Quando lhe perguntei o que se passava, disse-me que bebera</p><p>demasiado café, mas não acreditei nele. Penso que o que quer que</p><p>lhe tenha acontecido no Iraque é a razão que o levou a matar Emily.</p><p>Michael acrescentou «O que aconteceu no Iraque?» às suas</p><p>notas. «Redução de aptidões?»</p><p>— Ele procurou ajuda?</p><p>— Ele tentou. O VA1 mandou-o embora com uma receita de</p><p>Prozac.</p><p>Michael tamborilou com a caneta sobre a secretária, a pensar. O</p><p>que então queria dizer que o seu cliente tentara obter ajuda do</p><p>Exército e esta lhe fora negada. Isso era bom. E nada de</p><p>surpreender.</p><p>— Muito bem, Ed. Vou pesquisar um pouco com base no que</p><p>acabou de me contar, mas preciso conversar com Keith, e preciso</p><p>que ele converse com um psiquiatra. E preciso que isso aconteça o</p><p>mais depressa possível.</p><p>— Ele não vai…</p><p>— Se ele não fizer isso, Ed, vai para a cadeia. Provavelmente,</p><p>apanhará prisão perpétua.</p><p>Ed pareceu ficar afetado com o que Michael lhe disse, tal como</p><p>era a sua intenção. No silêncio que se seguiu, Michael suspirou.</p><p>— Não quero assustá-lo, mas não posso ajudar o seu filho se ele</p><p>não falar comigo. Há sempre duas versões em todas as histórias. E</p><p>eu preciso da dele.</p><p>— Vou convencê-lo a falar — declarou Ed.</p><p>Michael fitou-o.</p><p>— Faça isso, Ed, e depressa.</p><p>1 Veterans Affairs — Departamento federal dos Estados Unidos criado em 1989 para dar</p><p>resposta às necessidades dos veteranos de guerra. (N. da T.)</p><p>CAPÍTULO 10</p><p>A primeira semana passada em Fort Hood transcorreu por entre</p><p>uma confusão de sessões de formação, obrigações, burocracia e</p><p>palestras. Já se haviam passado tantos anos desde os seus dias</p><p>ativos no Exército que Jolene até se esquecera da quantidade de</p><p>burocracia que a vida militar comum implicava, de todo o tempo que</p><p>num dia se passava a «apressar-se para esperar». Ela passara os</p><p>últimos sete dias a ir de uma fila para outra — ou, pelo menos, era</p><p>isso que parecia. Ficavam na fila para mantimentos, para palestras,</p><p>para assinar papelada. Havia a Prova de Aptidão Militar e mais</p><p>exames médicos, testes e vacinas, acertos fiscais e atualização de</p><p>dados pessoais.</p><p>O dia começava cedo em Fort Hood. O pequeno-almoço era às</p><p>04h30. Logo a seguir havia lições sobre tudo e mais alguma coisa</p><p>que precisassem de saber sobre o Iraque: aranhas e escorpiões,</p><p>dispositivos explosivos improvisados, assédio sexual, armamento</p><p>químico. A lista prosseguia interminável. A pior de todas as filas era</p><p>junto dos telefones. Jolene fora aconselhada a deixar o seu</p><p>telemóvel em casa, uma vez que não iria funcionar no Iraque. Seguir</p><p>esse conselho fora um erro. Da maneira como as coisas estavam,</p><p>passava grande parte do seu tempo livre na fila para telefonar para</p><p>casa. Era muito frequente acontecer que, quando chegava a sua vez</p><p>de usar o telefone, já era demasiado tarde para falar com as filhas.</p><p>As poucas conversas que tivera com Michael foram curtas e formais.</p><p>Nenhum deles dissera «Amo-te» antes de desligar. A seguir, Jolene</p><p>ficava a sentir-se mais solitária do que antes de fazer as chamadas.</p><p>Agora, a Companhia Charlie andava no exterior debaixo do sol</p><p>abrasador do Texas, a todo o vapor, caminhando ao longo de uma</p><p>estrada poeirenta da cor de sangue pisado. Jamie ia à frente. Um</p><p>falcão solitário voava em círculos por cima das cabeças deles com</p><p>curiosidade, perguntando-se sem dúvida por que razão aqueles</p><p>adultos fardados e de capacete, com espingardas M-16 e pistolas 9</p><p>mm andavam a correr por ali com aquele calor. Continuavam a</p><p>desviar-se para a berma da estrada</p>
<p>a treinar a deteção de</p><p>dispositivos explosivos improvisados.</p><p>Jolene sabia que era importante, vital até, mas eram uma</p><p>unidade de aviação que ia proporcionar apoio — retaguarda — a</p><p>uma brigada de combate da aviação. Se desse por si numa estrada</p><p>na cidade de Sadr ou em Bagdade, num Humvee, algo deveria ter</p><p>corrido bastante mal e, nesse caso, um dispositivo explosivo</p><p>improvisado seria apenas uma das suas preocupações.</p><p>E estava um sol abrasador.</p><p>Quando terminaram esse exercício e chegaram à carreira de tiro,</p><p>ela estava a transpirar tanto debaixo do capacete que o suor lhe</p><p>escorria para os olhos.</p><p>— Zarkades, mexe-te e vem já para aqui!</p><p>— Entendido, comandante.</p><p>Jolene apressou-se a ocupar o seu lugar na carreira de tiro e</p><p>ergueu a sua carabina. Fazendo pontaria, puxou o gatilho.</p><p>— Belo tiro, chefe. Mais dez como esse e pode começar o treino</p><p>de fogo real.</p><p>Durante as quatro horas seguintes, Jolene fez o que lhe</p><p>mandaram: pôr-se de pé, sentar-se, rastejar, disparar, correr. Depois,</p><p>ela e Tami atravessaram a unidade, na esperança de que as linhas</p><p>telefónicas estivessem um pouco menos ocupadas àquela hora.</p><p>Estavam enganadas. Já viram na fila pelo menos quarenta</p><p>soldados, de pé debaixo de um sol tórrido, a ler, a conversar, a ouvir</p><p>música.</p><p>Jolene abrandou o passo.</p><p>— Bolas.</p><p>Estava prestes a dar meia-volta quando viu Smitty acenar-lhe.</p><p>Era o quarto da fila. Mesmo com poeira e suor a escorrer-lhe pela</p><p>cara, parecia jovem o suficiente para ser seu filho.</p><p>— Olá, Smitty — cumprimentou Jolene, encaminhando-se para</p><p>ele.</p><p>O rapaz sorriu, revelando o aparelho nos dentes.</p><p>— Olá, chefe.</p><p>Tami apareceu ao lado de Jolene.</p><p>— Vais telefonar à tua mãe ou existe alguma namorada a</p><p>suspirar por ti?</p><p>— Estou a guardar este lugar para vocês — respondeu Smitty.</p><p>Diante do ar espantado das duas, explicou: — Acabei de me lembrar</p><p>de que a minha namorada ainda está no emprego. Só posso</p><p>telefonar-lhe daqui a uma hora. E além disso — acrescentou,</p><p>dirigindo a ambas um sorriso embaraçado —, se fosse eu, gostaria</p><p>de saber notícias da minha mãe.</p><p>Smitty recuou, deixando um lugar vago na fila.</p><p>— Tens a certeza de que não queres ligar para ninguém? —</p><p>perguntou Jolene. — E os teus pais?</p><p>— Não. Hoje foram visitar a minha avó.</p><p>Jolene olhou para Tami, que lhe dirigiu um sorriso rasgado.</p><p>— És o máximo, Smitty — comentou Tami.</p><p>As mulheres entraram na fila; Smitty afastou-se, a assobiar.</p><p>Assim que o telefone ficou livre, Tami avançou e fez a sua</p><p>ligação. Enquanto Jolene ouvia o som monocórdico da voz da amiga,</p><p>batia com o pé impaciente, roçava os dedos pelo tecido áspero das</p><p>calças; e depois, por fim, chegou a sua vez. A amiga desligou e ela</p><p>avançou; pegando no auscultador antiquado, quente de tantas</p><p>mãos, ligou para casa.</p><p>Betsy atendeu e disse:</p><p>— Está lá?</p><p>E depois gritou:</p><p>—É a mãe.</p><p>Jolene encostou-se à parede do edifício aquecida pelo sol,</p><p>tentando ignorar a fila de soldados atrás de si, mas era impossível.</p><p>Podia ouvi-los a andar de um lado para o outro, a falar, a rir.</p><p>— Olá, Bets. Como foi a tua semana? Desculpa não ter</p><p>conseguido telefonar ontem. Mantiveram-nos ocupados durante todo</p><p>o dia e toda a noite.</p><p>Betsy lançou-se na descrição de uma história acelerada sobre um</p><p>trauma na escola. Fora a última a ser escolhida para as equipas de</p><p>voleibol em Educação Física. Sierra e Zoe estiveram por detrás da</p><p>cena de humilhação, tinham-lhe apontado o dedo e riram-se à</p><p>gargalhada até Betsy as mandar calar aos gritos e receber depois</p><p>uma falta de comportamento por causa da sua explosão.</p><p>— Eu! Tive uma falta de comportamento, fiquei de castigo e a</p><p>culpa foi toda delas. Podes telefonar ao meu professor de Educação</p><p>Física para me tirar do castigo?</p><p>Jolene dispunha de dez minutos ao telefone e Betsy já consumira</p><p>seis desses minutos a contar a sua história.</p><p>— Oh, querida, não posso fazer isso, mas se tu…</p><p>— Já percebi tudo. Estás demasiado ocupada. Não te preocupes</p><p>com isso, mãe. Lulu! É a tua vez!</p><p>— Não sejas assim, Betsy — protestou Jolene, e nesse momento</p><p>a culpa que sentia aflorou de novo. — Dispomos de tão pouco</p><p>tempo para conversar.</p><p>— Isso é óbvio.</p><p>— Vou mandar-te um e-mail assim que puder, está bem?</p><p>— Já te disse, mãe, não te preocupes com isto. Não preciso de ti.</p><p>A Lulu já está aqui.</p><p>— Betsy. Adoro-te.</p><p>Ouviu-se apenas uma respiração do outro lado da linha; depois,</p><p>Lulu atendeu o telefone, parecendo um rato que inspirara hélio. No</p><p>final de uma história sobre algo que fizera para a mãe com macarrão</p><p>e cordel, disse:</p><p>— Quero que me leias uma história esta noite.</p><p>— Não posso, amor.</p><p>Lulu irrompeu em lágrimas.</p><p>— Papá, ela ainda não vai voltar para casa…</p><p>— Olá, Jo — disse Michael um segundo mais tarde, parecendo</p><p>tão cansado como ela se sentiu de repente.</p><p>— A Lulu não se despediu nem disse «Gosto muito de ti».</p><p>— Ela está transtornada, Jo. Vai ficar ótima. Como estás?</p><p>Jolene mantinha-se ao telefone há onze minutos. Os soldados</p><p>atrás de si começavam a ficar impacientes.</p><p>— Ela está a ter pesadelos outra vez? Se estiver, precisa da</p><p>mantinha amarela e da fita de cabelo cor de rosa.</p><p>— Tem dó, Jo. Achavas que as pequenas iriam dizer adeus à</p><p>mãe, vê-la marchar para a guerra, e que ficaria tudo bem?</p><p>Atrás de Jolene alguém gritou:</p><p>— Vá lá, minha senhora. Todos nós temos família.</p><p>Havia tantas coisas que queria dizer e tempo nenhum para dizê-</p><p>las. O silêncio de Michael mexeu-lhe com os nervos.</p><p>— Vou enviar um e-mail à Betsy esta noite. Consegues que ela o</p><p>leia antes de ir para a escola?</p><p>— Claro. Então, já acabou o tempo, não é?</p><p>— Já.</p><p>— Gostei de falar contigo, Jo — disse Michael numa voz que</p><p>Jolene mal conseguiu ouvir.</p><p>Ela sussurrou-lhe:</p><p>— Adeus.</p><p>E desligou então o telefone. Outro soldado avançou a seguir,</p><p>pegando no auscultador.</p><p>Jolene afastou-se; sentiu Tami surgir ao seu lado. Iniciaram a</p><p>caminhada de volta para a caserna.</p><p>— A Betsy passou dez minutos a falar-me sobre o seu dia e a</p><p>pedir-me que telefonasse ao professor de Educação Física para a</p><p>tirar do castigo — contou Jolene.</p><p>Tami riu-se em voz baixa.</p><p>— Quer dizer que vamos partir para a guerra e as questões</p><p>maternas continuam mais ou menos na mesma. E o Michael?</p><p>— Perguntou-me porque havia eu de achar que as meninas</p><p>estariam bem se eu ia partir para a guerra?</p><p>— Ainda nem sequer estamos na guerra.</p><p>Jolene suspirou.</p><p>— Como está o Seth?</p><p>— Adora-me, sente a minha falta e tem orgulho em mim. Pelo</p><p>menos é isso que diz. Pelo que Carl me disse, Seth não dorme,</p><p>desligou a sua Xbox e já não quer jogar videojogos… não quer ver</p><p>personagens fictícios a explodir e a ir pelos ares. E quando penso na</p><p>quantidade de vezes que lhe disse para desligar aquela consola</p><p>idiota…</p><p>— Como vamos superar tudo isto? — perguntou Jolene, em tom</p><p>sereno.</p><p>Tami não tinha resposta para tal pergunta. Na caserna, pegaram</p><p>na bolsa de toilette e dirigiram-se para os chuveiros. Depois,</p><p>seguiram para o refeitório e sentaram-se ao lado de vários membros</p><p>da Companhia Charlie, incluindo Jamie e Smitty. Foram envolvidas</p><p>pelo cheiro do molho que aquecia na chapa há demasiado tempo e</p><p>do milho-doce cozido e reduzido a puré. O zumbido das vozes dos</p><p>soldados era como um motor a jato.</p><p>Smitty enfiava puré de milho na boca a uma velocidade</p><p>alarmante, falando ao mesmo tempo sobre a carreira de tiro. Jamie</p><p>olhava fixamente para a comida, espetando o rolo de carne com o</p><p>garfo. Parecia estar muito longe de todos eles; Jolene entendia o</p><p>seu distanciamento.</p><p>— Precisamos de nos concentrar na nossa tarefa, Jo — disse</p><p>Tami. — Agora, antes de tudo, somos soldados. É assim que tem de</p><p>ser, senão…</p><p>— Vamos morrer — acrescentou Jolene em voz baixa.</p><p>Sabia que a amiga tinha razão; pensara a mesma coisa várias</p><p>vezes. Sem dúvida que era isso que ocupava os pensamentos de</p><p>Jamie nesse momento. O objetivo dos jogos de guerra era, afinal de</p><p>contas, a guerra. Jolene precisava de colocar os sentimentos pela</p><p>sua família num compartimento e escondê-lo.</p><p>— Não sei como vou deixar de sentir saudades deles. Sinto-me</p><p>culpada o tempo todo. Estou sempre a pensar que, se ao menos</p><p>fosse capaz de dizer-lhes a coisa certa ao telefone, ficaríamos bem.</p><p>—</p>
<p>Eu e o Carl falámos sobre isto antes da minha partida. Disse-</p><p>me que eu tinha que deixar de ser uma parte dele e começar a ser</p><p>uma parte disto. Disse-me saber que eu o amava e que o meu</p><p>trabalho e o meu dever eram pensar em mim e nos homens e</p><p>mulheres â minha volta — contou Tami olhando para Jolene. —</p><p>Daqui a duas semanas vamos estar no terreno, Jo. Vais ter de te</p><p>desligar de Poulsbo. Confia no Michael para manter tudo e todos</p><p>unidos.</p><p>— Confiar no Michael… — murmurou Jolene sem entusiasmo.</p><p>— Não tens alternativa.</p><p>Jolene sabia que a amiga estava certa, mas desprender-se era</p><p>mais fácil de dizer do que de fazer. Sabia qual era a sensação de ver-</p><p>se abandonada em criança; embora sendo a situação diferente,</p><p>muitíssimo diferente, não tinha a certeza de que as filhas</p><p>conseguissem de facto entender porque as abandonara.</p><p>— Como é que os homens conseguiram durante todos estes anos</p><p>partir para a guerra e deixar os filhos para trás?</p><p>— Tinham as esposas — respondeu simplesmente Tami.</p><p>A altas horas da noite, depois de Tami ter adormecido, Jolene</p><p>abriu o computador portátil. Estava muito cansada, tinha dificuldade</p><p>em manter os olhos abertos, mas precisava de escrever à filha.</p><p>Querida Betsy,</p><p>Sinto muito não poder ajudar-te com o teu castigo. E também</p><p>não vais querer ouvir o que tenho para te dizer sobre o assunto. A</p><p>questão essencial é que infringiste as regras. Existe sempre uma</p><p>consequência para as atitudes que tomamos. É possível que</p><p>aprendas isso bem cedo. É claro que a Sierra e a Zoe se portaram</p><p>mal por te terem espicaçado e são más por terem gozado contigo.</p><p>Contudo, é a maneira como vais reagir que vai fazer a pessoa que</p><p>és.</p><p>Tenho muitas coisas para te dizer a esse respeito, e custa-me</p><p>imenso não estarmos juntas. Pressupõe-se que mães e filhas se</p><p>aninhem no sofá e conversem sobre tudo e mais alguma coisa. E em</p><p>breve também nós faremos o mesmo. Vais ver. Até lá, gostaria de</p><p>saber como dizer-te o que hás de fazer para ultrapassar os</p><p>momentos difíceis na escola. Sei muito sobre meninas más.</p><p>Quando tinha a tua idade, ninguém gostava de mim. Era sempre</p><p>a menina com as roupas sujas e velhas e não tinha dinheiro para o</p><p>almoço. Tinha demasiada vergonha para convidar alguém a ir lá a</p><p>casa, por isso não fazia amigos. Era terrível. Solitário. Não quero isso</p><p>para ti.</p><p>Conheço a sensação de ser ignorada e humilhada. Por isso,</p><p>ignorava essas raparigas também e isso fazia-me sentir muito mal</p><p>comigo mesma.</p><p>Sabes o que foi que me ajudou? Alistar-me no Exército, e não foi</p><p>porque eles me ensinaram a voar (ou, pelo menos, não foi só por</p><p>causa disso), mas porque foi aí que conheci a Tami.</p><p>No início tinha receio de falar com ela. A Tami mostrava-se tão</p><p>segura. Não parecia importar-se que fôssemos as únicas mulheres</p><p>na escola de pilotagem. Durante a primeira semana ignorei-a porque</p><p>achava que ela não iria gostar de mim. E sabes que mais?</p><p>A Tami estava À ESPERA de que eu falasse com ela.</p><p>Foi então que aprendi até que ponto um sorriso pode ser</p><p>importante. Deixar as pessoas saberem que estamos prontas a ser</p><p>suas amigas e, se nos derem uma oportunidade, temos de</p><p>aproveitá-la — sem ter medo. No caso da Tami, bastou-me arranjar</p><p>coragem para lhe dizer «olá» e sentar-me ao lado dela na messe.</p><p>Nunca se sabe quando uma frase, um olá, podem mudar a nossa</p><p>vida.</p><p>Quem me dera poder estar aí para te dizer como és linda,</p><p>inteligente e talentosa, mas, por agora, estas palavras num ecrã</p><p>azulado terão de ser suficientes. Sê forte, Betsy. Acredita em ti e</p><p>tudo vai correr bem.</p><p>Adoro-te até ao infinito.</p><p>Não era suficiente. Nem de perto, nem de longe. Mas era o que</p><p>havia, tudo o que conseguia dizer naquela altura.</p><p>No dia seguinte ia escrever a Lulu.</p><p>Jolene bocejou e clicou em «enviar».</p><p>Na última quinta-feira de maio, Michael acordou cedo e tomou o</p><p>pequeno-almoço. Achava que se conseguisse antecipar as coisas,</p><p>estar em sintonia com as miúdas, tudo correria bem. Desde a</p><p>partida de Jolene, andava sempre atrasado — atrasado para as</p><p>reuniões, atrasado para apanhar o ferry, atrasado para jantar. Havia</p><p>sempre qualquer coisa que corria mal. Hoje, estava determinado a</p><p>ter uma manhã agradável e tranquila.</p><p>Percebeu que desperdiçara o seu tempo quando Betsy entrou na</p><p>cozinha usando mais maquilhagem do que uma corista de Las</p><p>Vegas.</p><p>— Deves estar a brincar comigo — disse Michael, pousando o</p><p>jornal.</p><p>Betsy virou-lhe as costas.</p><p>— O quê? — perguntou ela, abrindo a porta do frigorífico.</p><p>— Não vais com essa maquilhagem para a escola.</p><p>Betsy olhou-o de frente.</p><p>— Que maquilhagem?</p><p>— Uso óculos para ler, Betsy. Não sou cego. Vai lavar a cara.</p><p>— Senão o quê?</p><p>— Senão… — Michael semicerrou os olhos. — Vou oferecer-me</p><p>como voluntário para ajudar na tua turma hoje. História. Vocês não</p><p>andam a estudar a Constituição?</p><p>— Não eras capaz.</p><p>— Experimenta.</p><p>Betsy fitou o pai durante um longo minuto, depois bateu com o</p><p>pé no chão e saiu da cozinha em passo de marcha. Quando voltou,</p><p>estava francamente insuportável, batendo com as portas dos</p><p>armários, resmungando entredentes, sendo má para Lulu, que</p><p>chorou durante quase todo o pequeno-almoço, sempre a perguntar</p><p>quando iria a mamã voltar.</p><p>No escritório, Michael tratou de pôr em dia todo o trabalho que</p><p>não fizera nas últimas semanas, mas havia demasiadas coisas</p><p>pendentes. Entre gerir a firma e defender os seus clientes, estava</p><p>assoberbado de trabalho, pura e simplesmente. Naquele momento,</p><p>ditava um requerimento de investigação sobre a folha de serviço</p><p>militar de Keith Keller. Algo que deveria ter feito há várias semanas.</p><p>Chamou a secretária pelo intercomunicador.</p><p>— Ann? Tivemos alguma notícia de Keith Keller?</p><p>— Não, Michael.</p><p>— Obrigado.</p><p>Deu uma vista de olhos pelos papéis que se encontravam</p><p>espalhados em cima da secretária. Quando estendeu a mão para</p><p>pegar numa caneta, o telemóvel tocou.</p><p>— Olá, Michael — disse-lhe a mãe. — Desculpa estar a ligar-te</p><p>para o emprego, mas acabei de furar um pneu. Estou junto ao</p><p>Centro Comercial de Tacoma para aquela exposição de artigos de</p><p>jardinagem. Não consigo chegar a horas de ir buscar a Lulu ao apoio</p><p>nos tempos livres, nem de estar em tua casa a tempo de receber a</p><p>Betsy.</p><p>— Estás bem?</p><p>— Estou ótima. Estou ótima. Só estou à espera do reboque. Hoje</p><p>é a vez de Sarah Wheller ir buscar as miúdas à escola. Vai deixar a</p><p>Betsy em casa depois do treino de atletismo. Por volta das cinco</p><p>horas. E é preciso ir buscar a Lulu às quatro.</p><p>Michael olhou para o relógio. Eram 15h33. O ferry seguinte</p><p>partiria dentro de doze minutos. Se o perdesse, Betsy chegaria a</p><p>casa e encontrá-la-ia vazia — uma situação inadmissível, segundo a</p><p>lista de tarefas prioritárias de Jolene. Embora, para falar a verdade,</p><p>a razão por que uma miúda de doze anos precisava de ter alguém</p><p>em casa para a receber quando chegasse da escola fosse algo que o</p><p>ultrapassava.</p><p>— Está bem, mãe. Obrigado.</p><p>— Desculpa obrigar-te a fazer isto. Ora bolas, o meu telemóvel</p><p>está a dar sinal. Estarei a ficar sem bateria? Michael? Estás a ouvir-</p><p>me?</p><p>— Estou a ouvir, mãe. Não há problema. Obrigado.</p><p>Desligou o telemóvel, juntou a papelada de trabalho de que iria</p><p>precisar e saiu do gabinete.</p><p>— Deixei-lhe umas coisas que ditei em cima da secretária. E</p><p>tente ligar outra vez ao pai de Keller, lembre-lhe de que preciso</p><p>mesmo de falar com o filho — recomendou a Ann quando passou</p><p>pela mesa dela. — Tenho o telemóvel ligado, se precisar de alguma</p><p>coisa.</p><p>—A sua marcação das dezasseis e um quarto…</p><p>— Cancele-a. Tenho de sair já — respondeu ele por cima do</p><p>ombro sem parar de andar.</p><p>Lá fora, uma chuva constante caía de um céu com nuvens</p><p>baixas. Os faróis dos carros reluziam com a chuva, assemelhando-se</p><p>a uma fiada de bolas amarelas e desfocadas saltitando por ruas</p><p>molhadas. À medida que se afastava do escritório com o carro, sinais</p><p>vagos de néon comprovavam o passado violento da cidade —</p><p>armeiros, livrarias para adultos e bares escuros e sórdidos. Seguiu o</p><p>trânsito naquele característico para-arranca até ao terminal do ferry,</p><p>praguejando sempre que os semáforos ficavam vermelhos, e</p><p>olhando para o relógio.</p><p>Percebeu que estava em sarilhos quando</p>
<p>viu a fila para comprar</p><p>os bilhetes. De repente, lembrou-se de que era a quinta-feira</p><p>anterior ao fim de semana do feriado do Memorial Day. Os turistas</p><p>andavam em rebanhos, encaminhando-se já a esta hora para</p><p>Bainbridge Island e para a belíssima península Olympic.</p><p>Tamborilando com os dedos no volante forrado a cabedal, Michael</p><p>avançou a passo de caracol, atrás do carro que seguia à sua frente</p><p>até chegar a sua vez de comprar o bilhete.</p><p>— A que horas sai o ferry? — perguntou com ar sério.</p><p>— Às dezoito e vinte.</p><p>— Merda.</p><p>Michael efetuou um cálculo rápido: se esperasse pelo ferry, não</p><p>chegaria a casa antes das 19h20.</p><p>Contudo, podia dar a volta com o carro; muito embora a</p><p>península Kitsap ficasse apenas a trinta e cinco minutos de ferry da</p><p>Baixa de Seattle, também se poderia ir por Tacoma e chegar a</p><p>Poulsbo pelo continente. Poderia estar em casa dentro de pouco</p><p>menos de duas horas. E eram apenas 15h45. Já teria passado por</p><p>Tacoma à hora de ponta.</p><p>— Obrigado.</p><p>Michael saiu da fila e voltou com o carro para a cidade. Em</p><p>menos de trinta minutos, seguia como um foguete pela I-5 Sul.</p><p>Pegou no telemóvel e ligou à mãe, que não atendeu. O mais certo</p><p>era ter ficado sem bateria. Em seguida, ligou para o apoio nos</p><p>tempos livres e disse à professora que iria chegar um pouco</p><p>atrasado para buscar Lulu.</p><p>Dezasseis horas.</p><p>Mas não estaria em casa quando Betsy chegasse.</p><p>Sabia o que Jolene iria dizer, o olhar de desapontamento que lhe</p><p>lançaria, mas só chegaria uns minutinhos atrasado — quinze ou</p><p>vinte. Betsy tinha doze anos, céus; podia ficar sozinha em casa</p><p>durante quinze minutos. Trinta, no máximo.</p><p>Aumentou o volume da música — um concerto dos U2 — e</p><p>concentrou-se em conduzir por entre a chuva torrencial. Seguia a</p><p>bom ritmo até chegar a Narrows Bridge. Os enormes separadores</p><p>verdes pareciam gigantescos escadotes no meio da chuva que caía.</p><p>E então o trânsito parou. Michael pôde ver, ao longe, o clarão das</p><p>luzes vermelhas de uma ambulância.</p><p>— Merda — praguejou, pegando no telefone. Ligou para casa e</p><p>deixou uma mensagem a Betsy: «Estou preso no trânsito, Betsy.</p><p>Espera com calma e não saias daí. Chego aí assim que puder. Às seis</p><p>horas o mais tardar. Liga-me para o telemóvel, se quiseres.»</p><p>Ficou sentado… e sentado. e sentado no meio de uma</p><p>aglomeração de automóveis, com a chuva a escorrer pelo para-</p><p>brisas, toldando-lhe a visão. Sentiu durante todo esse tempo a</p><p>tensão arterial a subir, mas não havia nada que pudesse fazer. Às</p><p>17h40, tornou a ligar para casa: «Caramba, Betsy, atende.» Uma vez</p><p>que a filha não atendia, desligou o telefone e discou o número da</p><p>mãe. Também ela não atendeu, por isso deixou-lhe outra</p><p>mensagem.</p><p>Eram quase 18h20 quando retiraram as barreiras e o trânsito</p><p>recomeçou a andar. Michael pisou o acelerador — com demasiada</p><p>força — e voou para casa. Tinha uma dor de cabeça lancinante</p><p>quando estacionou o carro no parque do apoio nos tempos livres. No</p><p>interior da pequena casa bem cuidada, foi encontrar a professora à</p><p>sua espera.</p><p>— Peço desculpa — disse Michael, afastando o cabelo da cara. —</p><p>Houve um acidente na Narrows. Uma coisa feia. Vim o mais</p><p>depressa que pude.</p><p>A professora assentiu com um aceno de cabeça.</p><p>— São coisas que acontecem. Eu sei. No entanto, a Lulu está</p><p>transtornada.</p><p>Então, a professora afastou-se para lhe dar passagem.</p><p>Através de uma porta aberta, Michael viu Lulu sentada</p><p>completamente sozinha numa sala de recreio de cores vivas rodeada</p><p>de bonecas e animais de peluche.</p><p>— Estás atrasado — disse Lulu, erguendo os olhos para o pai. —</p><p>Todas as outras mamãs já cá estiveram.</p><p>— Eu sei. Desculpa.</p><p>Michael ajudou-a a vestir o casaco, despediu-se da professora e</p><p>levou Lulu para o carro.</p><p>Lulu não lhe dirigiu a palavra durante todo o trajeto até casa,</p><p>mas, na realidade, a última coisa que iria preocupá-lo naquele</p><p>momento era uma birra ou o amuo de uma criança de quatro anos.</p><p>Em casa, deu-lhe uma palmadinha no rabo e recomendou-lhe</p><p>que fosse uma boa menina.</p><p>— Betsy! Já cheguei — gritou Michael, fechando a porta atrás de</p><p>si. — Sei que estás furiosa, mas desce e vem falar comigo.</p><p>Pousou a pasta em cima da mesa da cozinha e afrouxou o nó da</p><p>gravata.</p><p>— Betsy? — berrou de novo.</p><p>— Ela não está aqui — disse Lulu, entrando na cozinha.</p><p>— O quê? — exclamou Michael, olhando para baixo. — O que</p><p>queres dizer com isso?</p><p>Lulu ficou ali de pé, parada, agarrada à sua mantinha amarela</p><p>puída.</p><p>— A Betsy não está em casa.</p><p>— O quê?</p><p>Falou tão alto que Lulu pareceu ficar assustada. Passou pela filha</p><p>a correr e subiu as escadas; empurrou a porta do quarto de Betsy,</p><p>gritando o nome dela.</p><p>Nenhuma resposta.</p><p>Percorreu a casa toda numa correria, aos gritos, até perceber, por</p><p>fim, que Betsy não estava lá.</p><p>Lá em baixo, Lulu estava a chorar.</p><p>— Ela desapareceu. Oh, não… alguém a roubou.</p><p>— Ninguém roubou a tua irmã — resmungou Michael zangado,</p><p>ao mesmo tempo que se dirigia para o telefone e ligava para casa da</p><p>mãe. Assim que ela atendeu, Michael disse:</p><p>— Porque não ouves as mensagens? A Betsy está aí contigo?</p><p>— O quê? Acabei agora mesmo de chegar a casa. O que foi que</p><p>aconteceu?</p><p>— Cheguei tarde a casa — respondeu Michael, praguejando</p><p>baixinho. — A Betsy não está aqui.</p><p>Michael desligou a chamada antes mesmo da mãe ter tempo</p><p>para responder. O medo apoderou-se dele, intenso e profundo.</p><p>— Vou telefonar às amigas dela — disse Michael, voltando a</p><p>pegar no telefone, e fazendo uma pausa depois. — Lulu, para de</p><p>chorar, caramba. Quem são as amigas da Betsy?</p><p>Lulu choramingou.</p><p>— Não sei. Ela desapareceu.</p><p>Michael telefonou para a escola e ouviu a mensagem gravada</p><p>depois das horas de expediente.</p><p>Com uma praga, desligou o telefone.</p><p>— Se calhar ela fugiu — disse Lulu.</p><p>Michael foi até ao alpendre. A chuva caía com intensidade;</p><p>empapava a relva, acumulada em poças lamacentas no acesso à</p><p>casa. Pensou na baía, na água fria e profunda e no fascínio que</p><p>exercia sobre as crianças.</p><p>— Betsy! Onde estás?</p><p>Quanto mais gritava pelo nome da filha, mais Lulu chorava e</p><p>mais Michael entrava em pânico. Onde diabos tinha a cabeça? Devia</p><p>ter deixado o carro na Baixa e ido a pé até ao maldito ferry e</p><p>apanhado um táxi. Ou então podia ter telefonado a Carl. Porque não</p><p>terá pensado nisso naquele momento? Bolas. E se algum tipo estava</p><p>a vigiar Betsy quando ela saiu da carrinha, e a seguiu até uma casa</p><p>vazia?</p><p>Gritando o nome dela outra vez, pegou em Lulu como se ela</p><p>fosse uma bola de râguebi e correu por entre a chuva em direção à</p><p>casa do vizinho. Tranquilizando a filha mais nova ao mesmo tempo</p><p>que corria, conseguiu chegar a casa de Carl e Tami em menos de um</p><p>minuto. Bateu com força na porta.</p><p>Carl abriu a porta.</p><p>— Michael, o que foi?</p><p>Michael afastou a chuva dos olhos.</p><p>— A Betsy não está em casa e já lá deveria estar. Pensei que</p><p>talvez tivesse vindo para cá.</p><p>Carl abanou a cabeça devagar, e Michael sentiu o estômago</p><p>contrair-se. Por uma fração de segundo sentiu-se capaz de vomitar.</p><p>Seth entrou na sala de estar, mascando uma pastilha elástica.</p><p>Empunhando um exemplar em mau estado de Um Estranho numa</p><p>Terra Estranha, usava umas calças de ganga justas, umas botas de</p><p>lona e uma t-shirt coçada de Gears of War. Tinha o cabelo preto</p><p>afastado do rosto estreito, apanhado como o de um samurai.</p><p>— Há crise?</p><p>— A Betsy não está em casa — disse Carl. — O Michael está</p><p>preocupado.</p><p>— Aposto que sei onde ela está — disse Seth.</p><p>— A sério! — exclamou Michael. — Onde?</p><p>Seth atirou o livro para cima do sofá.</p><p>— Espere aqui.</p><p>Passou por Michael como uma seta e saiu de casa.</p><p>Michael e Lulu foram atrás dele até à rua. Carl pegou num</p><p>guarda-chuva e reuniu-se a eles junto à caixa do correio. Seth parou</p><p>a meio da rua, olhou para os dois lados e depois atravessou,</p><p>descendo até à praia.</p><p>Ela não tem autorização para se aproximar da água sozinha. A</p><p>chuva embatia com força no guarda-chuva aberto, abafando o som</p><p>da respiração deles.</p><p>Minutos depois — minutos que se assemelharam a horas —, Seth</p><p>apareceu com a Betsy a seu lado. Vinham a subir o carreiro da praia</p><p>que conduzia à estrada. Estavam os dois ensopados até aos ossos.</p><p>O alívio de Michael foi tão grande</p>
<p>que quase caiu de joelhos.</p><p>— Betsy, graças a Deus.</p><p>À medida que se aproximava, pôde ver como a filha estava</p><p>zangada, magoada.</p><p>— Como foste capaz?</p><p>— Desculpa, Betsy.</p><p>Betsy afastou o cabelo molhado da cara.</p><p>— Devias estar em casa quando eu chego.</p><p>— Eu sei. Eu sei.</p><p>— Nunca devo chegar a casa e encontrá-la vazia.</p><p>— Desculpa. Mas acho que já tens idade suficiente para chegares</p><p>a casa sozinha.</p><p>— Aaahh!</p><p>Betsy empurrou o pai ao passar por ele e entrou em casa de</p><p>rompante, batendo com a porta ao fechá-la atrás de si.</p><p>Michael olhou para Seth agradecido.</p><p>— Obrigado, Seth.</p><p>— É aquela árvore enorme junto ao cais dos Harrison. Ela vai</p><p>sempre para lá quando está chateada.</p><p>— Oh. Bom. Obrigado.</p><p>Michael sentiu-se envergonhado por o filho do vizinho conhecer</p><p>Betsy melhor do que ele próprio. Virou-se e entrou em casa. Uma</p><p>vez lá dentro, embrulhou Lulu num toalhão e pô-la diante da</p><p>televisão antes de subir até ao quarto de Betsy.</p><p>Betsy estava de costas para ele. A água da chuva escorria-lhe</p><p>pelos cabelos molhados, escurecendo-lhe a blusa. Estava a olhar</p><p>pela janela.</p><p>— Desculpa, Bets. Se ao menos me tivesses ouvido…</p><p>Betsy rodou nos calcanhares ficando de frente para o pai.</p><p>— Não percebes? Pensei que tivesses morrido.</p><p>— Oh.</p><p>Como não se lembrara disso? Jolene devia saber do medo de</p><p>Betsy e protegia-a. É claro que Betsy deveria sentir-se aflita em</p><p>relação a perder o pai, sobretudo quando a mãe não se encontrava</p><p>ali.</p><p>— Desculpa, Betsy. Meti os pés pelas mãos. Não volta a</p><p>acontecer. Está certo?</p><p>Os olhos de Betsy encheram-se de lágrimas. Enxugou-as com</p><p>impaciência.</p><p>— Estarei sempre aqui para o que precisares.</p><p>— Pois.</p><p>Lá em baixo, o telefone tocou.</p><p>Um momento depois, Lulu guinchou:</p><p>— É a mamã!</p><p>Betsy empurrou Michael ao passar por ele e correu pelas escadas</p><p>abaixo.</p><p>Com relutância, Michael foi atrás dela. Esta não era uma boa</p><p>hora para um telefonema.</p><p>— Mãe — disse Betsy, encostando o telefone ao ouvido, com ar</p><p>furioso. — O pai não estava em casa quando cheguei hoje.</p><p>Esqueceu-se de mim. Se tu estivesses aqui, isto não teria</p><p>acontecido.</p><p>Lulu atirou-se a Betsy.</p><p>— Dá cá isso! Eu estava a falar com ela…</p><p>Betsy empurrou a irmã. Lulu caiu de rabo e desatou aos gritos.</p><p>— Quero falar!</p><p>— Betsy — disse Michael —, deixa a Lulu falar também.</p><p>Betsy fez uma careta, mas deixou a irmã participar da conversa.</p><p>Sentaram-se as duas juntas, à mesa, atropelando-se a falar.</p><p>Suspirando, Michael foi até à cozinha e serviu-se de uma bebida.</p><p>Dez minutos depois, Betsy veio entregar-lhe o telefone.</p><p>— Ela quer falar contigo, pai. Não tem tempo para nós. Como</p><p>sempre.</p><p>Ele pegou no telefone e foi até à sala, sentando-se.</p><p>— Olá, Jo.</p><p>— A sério, Michael? Esqueceste-te dela?</p><p>— Se queres mesmo afligir-me, não te incomodes, Jolene. Já me</p><p>sinto suficientemente mal.</p><p>Então, houve uma pausa.</p><p>— Assustaste-a, Michael.</p><p>— Diz-me alguma coisa que eu ainda não saiba.</p><p>Outra pausa.</p><p>— Partimos amanhã — disse Jolene. — Para o Iraque.</p><p>— Já se passou um mês?</p><p>— Já, Michael.</p><p>No meio da loucura que foram aquelas quatro semanas, ele</p><p>esquecera-se da data, quase se esquecera de que a mulher ia partir</p><p>para a guerra. Na realidade, não se tinha esquecido, claro; esse</p><p>facto fora uma sombra, raras vezes vislumbrada na confusão febril</p><p>dos seus dias. Até àquele momento, Jolene esteve em segurança,</p><p>por conseguinte, era mais fácil pensar em si mesmo.</p><p>— Não sei como vão ser as comunicações em Balad, nem quanto</p><p>tempo vamos lá ficar. Vou dando notícias conforme puder —</p><p>adiantou ela e fez uma pausa. — Michael, seria fantástico se as</p><p>meninas pudessem mandar-me cartas ou e-mails se tivermos</p><p>Internet.</p><p>Michael pensou nos dias que ela ia passar no Iraque, como uma</p><p>parte dela ficaria vazia sem as filhas. Era algo embaraçoso que</p><p>tivesse de lhe pedir uma coisa dessas. Em especial sabendo como</p><p>era difícil para Jolene pedir favores, a ele ou a quem quer que fosse.</p><p>— Vou tratar disso — prometeu.</p><p>— Obrigada. Bom. Agora preciso de desligar, os nativos estão a</p><p>ficar impacientes.</p><p>— Jo?</p><p>— Sim?</p><p>— Toma atenção — recomendou. — E tem cuidado contigo.</p><p>Jolene suspirou.</p><p>— Adeus, Michael.</p><p>— Adeus.</p><p>Tudo o que ele queria era chegar à bancada da cozinha, pegar na</p><p>sua bebida e acabar de bebê-la. Até achou ideal a hipótese de se</p><p>embebedar.</p><p>Em vez disso, ligou para a pizaria local, encomendou o jantar e</p><p>subiu as escadas.</p><p>A porta do quarto de Betsy estava aberta. Espreitou lá para</p><p>dentro, viu que a filha não estava ali e percorreu o corredor até à</p><p>casa de banho.</p><p>Betsy encontrava-se a mirar-se ao espelho, escarafunchando na</p><p>cara.</p><p>— Não me parece que seja aconselhável espremeres essas coisas</p><p>— disse Michael.</p><p>Betsy voltou-se, gritou «SAI DAQUI» e bateu com a porta</p><p>fechando-a na cara do pai.</p><p>Michael ficou ali de pé durante bastante tempo, à espera de que</p><p>a filha mudasse de ideias e pedisse desculpa.</p><p>Nada.</p><p>Por fim, desceu as escadas outra vez e foi encontrar Lulu a ver</p><p>de novo o vídeo de despedida de Jolene.</p><p>Michael gemeu.</p><p>A piza chegou, ele pagou ao rapaz e pousou a caixa em cima da</p><p>mesa, gritando:</p><p>— Jantar.</p><p>— A piza é para os aniversários, papá. Não é jantar — explicou</p><p>Lulu com um suspiro.</p><p>Passou por ele e subiu para a mesa no preciso momento em que</p><p>a mãe de Michael entrava em casa, parecendo irritada.</p><p>— Nunca mais te atrevas a desligar-me o telefone na cara,</p><p>rapazinho. A Betsy está bem?</p><p>— Está em casa — respondeu Michael. — Não sei até que ponto</p><p>está bem ou não.</p><p>— Graças a Deus. De hoje em diante…</p><p>— Por favor, mãe. Grita-me amanhã. Foi um dia infernal.</p><p>A mãe ergueu os olhos e fitou-o.</p><p>— Precisas de te esforçar mais, Michael — disse-lhe ela com toda</p><p>a calma.</p><p>— Pois. Já sei disso.</p><p>Antes que ela pudesse dizer-lhe mais alguma coisa que o fizesse</p><p>sentir pior do que já estava, Michael saiu da cozinha e entrou no</p><p>escritório, onde, felizmente, reinava o silêncio. Fechou a porta e</p><p>deixou-se tombar na cadeira atrás da secretária.</p><p>Não pensou que seria capaz de fazer aquilo. E aquilo era tomar</p><p>conta das suas filhas.</p><p>Que raios se passaria com ele? Qual seria o seu problema? Como</p><p>podia ser tão bem-sucedido num tribunal, no seu escritório e com os</p><p>seus clientes, mas ser um fracasso completo com a sua própria</p><p>família?</p><p>Suspirou. A mulher fora-se embora há menos de um mês, e ele</p><p>já estava cansado de se sentir um autêntico fracasso na sua própria</p><p>casa.</p><p>CAPÍTULO 11</p><p>Na manhã seguinte, Betsy ainda não falava com o pai. Michael</p><p>acordou cedo, tomou o pequeno-almoço e levou as filhas à escola a</p><p>tempo e horas. Quando se sentou, por fim, à secretária — tarde —,</p><p>já estava cansado. Mas, pelo menos ali, sentiu-se competente.</p><p>Às onze horas, atendeu a chamada de que estava à espera.</p><p>Keith solicitara uma reunião. Finalmente.</p><p>Michael pegou nos apontamentos que possuía e saiu do</p><p>escritório. Quinze minutos mais tarde, chegou à cadeia estadual de</p><p>King e sentou-se numa sala de visitas lúgubre.</p><p>Keith entrou na sala, vestindo o macacão cor de laranja, o</p><p>uniforme dos presos, com os pulsos algemados à frente, correntes</p><p>nas pernas raspando e tilintando no chão de pedra.</p><p>— Deixe-nos a sós — disse Michael para o guarda. — E tire-lhe</p><p>as algemas.</p><p>— Doutor…</p><p>— Tire-lhe as algemas — repetiu Michael. — Estou ciente dos</p><p>riscos.</p><p>O guarda franziu o sobrolho, mas fez o que Michael lhe pediu,</p><p>depois saiu da sala e montou guarda do lado de fora da porta.</p><p>Keith sentou-se à mesa em frente de Michael, muito direito e</p><p>hirto. À pálida luz que pendia do teto, parecia surpreendentemente</p><p>jovem e imberbe. O cabelo crescera, e o corte militar parecia agora</p><p>uma coroa loura recortada a emoldurar-lhe o rosto.</p><p>— O meu pai diz que tenho de falar consigo.</p><p>— Estou a tentar tirá-lo da cadeia. A propósito, não está a</p><p>facilitar em nada a minha tarefa.</p><p>— Alguma vez pensou que eu não mereço ser salvo?</p><p>— Não — respondeu Michael com firmeza. — Não pensei. E o seu</p><p>pai também não. Nem a sua mãe, que, segundo sei, passa as noites</p><p>a chorar.</p><p>— Golpe baixo.</p><p>Michael abriu o bloco de apontamentos e pegou numa caneta.</p><p>— Já sabe o motivo por que estou aqui, Keith. Você prometeu ao</p><p>seu pai que me contaria o que aconteceu naquele dia. E ouvi dizer</p><p>que</p>
<p>vocês, os militares, são exímios em cumprir promessas.</p><p>— Matei o amor da minha vida — disse Keith e, por fim, viu-se</p><p>emoção nos seus olhos. — Devo ter matado.</p><p>— Como disse? O que quer dizer com «Devo ter matado»?</p><p>— Sou doido — respondeu Keith em voz baixa. — Devo ser. Não</p><p>me lembro de ter disparado contra a minha própria mulher. Isso</p><p>parece-lhe racional?</p><p>Michael observou o seu cliente. Para dizer a verdade, era a</p><p>primeira boa notícia que recebera sobre este caso. Detestava ser</p><p>analítico o suficiente para ouvir a dor na voz de alguém e pensar</p><p>«Ótimo!», mas era esse o seu trabalho, analisar a mágoa e o</p><p>desgosto em busca da razão. Apesar de a lei ser um conjunto</p><p>codificado de regras, a justiça estava longe de ser perfeita. Em</p><p>tribunal, havia sempre espaço para a ambiguidade, para a emoção,</p><p>para a compaixão.</p><p>— Conte-me o que aconteceu, Keith. Minuto por minuto.</p><p>Keith fitou a parede com um ar inexpressivo. Michael viu aquele</p><p>olhar vazio regressar aos olhos do rapaz.</p><p>— Ela queria ir a Pike Place. Eu sabia que não era boa ideia, mas</p><p>não sabia porquê, não era capaz de dizer porquê. E o senhor sabe,</p><p>eu amo… amava a Emily, e fazíamos o que ela queria, em especial</p><p>depois de eu ter regressado do Iraque.</p><p>— Porquê nessa altura especificamente?</p><p>— Era difícil conviver comigo. Andava sempre irritado com ela e</p><p>isso assustava-a. Mesmo assim, fomos até ao mercado.</p><p>Keith fez uma pausa de tal maneira prolongada que Michael já</p><p>estava prestes a fazer-lhe outra pergunta, quando ele recomeçou a</p><p>falar.</p><p>— Estava um dia de sol. O mercado encontrava-se apinhado de</p><p>gente. Pianistas, malabaristas, ilusionistas, lançadores de peixes,</p><p>vagabundos. Não se podia dar um passo sem que alguém</p><p>esbarrasse em nós ou corresse à nossa frente ou tentasse vender-</p><p>nos alguma coisa.</p><p>Keith olhou para baixo, contemplando as suas mãos trémulas.</p><p>— Comecei a ficar impaciente, irritadiço e tenso. Por conseguinte,</p><p>bebi um shot de tequila pura no Athenian, mas não foi suficiente</p><p>para me acalmar. Estava muito nervoso. Tenho-me sentido bastante</p><p>nervoso nos últimos tempos. Nesse dia, todos os movimentos me</p><p>assustavam, deixavam-me o coração a martelar no peito. E havia</p><p>imensos movimentos. Não parava de pensar que as pessoas</p><p>andavam atrás de mim. Por isso, enquanto a Emily estava a escolher</p><p>umas flores, voltei outra vez ao Athenian, e bebi mais uns quantos</p><p>shots.</p><p>— Quantos?</p><p>— Muitos — respondeu Keith e suspirou. — Eu sei que beber não</p><p>ajuda em nada. Era um dos assuntos pelos quais eu e a Emily</p><p>discutíamos. Ela achava que eu bebia de mais e me tornava violento.</p><p>E pude sentir isso precisamente naquele dia, ficar violento.</p><p>— Bebia muito antes de ir para o Iraque?</p><p>Keith encolheu os ombros.</p><p>— Acho que não.</p><p>— E depois de vir?</p><p>— Imenso. Por vezes isso fazia com que a gritaria na minha</p><p>cabeça acalmasse. Mas naquele dia não ajudou.</p><p>— Só fez piorar.</p><p>Keith abanou a cabeça.</p><p>— Íamos a sair do mercado… Nessa altura eu já estava furioso e</p><p>bastante embriagado. E, de repente, veio um sem-abrigo que me</p><p>saltou à frente surgindo do nada. A Emily disse que ele só ia a</p><p>passar, mas não foi isso que me pareceu. Ou seja, ele apareceu de</p><p>repente e era um tipo sebento e mal-encarado com cabelo preto</p><p>comprido e uma barba como a de Cristo, e então bati-lhe com força</p><p>e o homem caiu. Vi o sangue a jorrar-lhe do nariz. Emily começou a</p><p>gritar que já não me conhecia e depois veio uma espécie de tremor</p><p>que me impedia de ficar quieto. Do que me lembro a seguir é de ver</p><p>a Emily caída no chão da nossa sala de estar. — No seu colo, as</p><p>mãos enclavinhavam-se e soltavam-se. — Foi como se eu tivesse</p><p>acordado no pesadelo de outra pessoa. Havia sangue por toda a</p><p>parte, em mim, na parede, na Em. Metade da cabeça dela tinha</p><p>simplesmente… desaparecido. Curvei-me e tentei fazer-lhe</p><p>respiração boca a boca e compressões no peito. Eu não parava de</p><p>gritar e de chorar o tempo todo. Foi só quando vi a arma… a minha</p><p>arma… que percebi o que tinha feito.</p><p>— E isso é tudo aquilo de que se recorda.</p><p>— É isso mesmo.</p><p>— Muito bem. Vou precisar que converse com um psiquiatra. Faz-</p><p>me esse favor, Keith?</p><p>— Claro. No entanto, não vai fazer diferença nenhuma. Não</p><p>preciso de um médico para me dizer que estou doido.</p><p>Michael olhou para o seu cliente, a pensar: «Este miúdo precisa</p><p>da minha ajuda.» Sabia até que ponto a situação jogava contra eles,</p><p>e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se confiante. Este podia</p><p>ser o tipo de caso que fazia a diferença. Michael desejou que o pai</p><p>ali estivesse para se inteirar de todos os pormenores.</p><p>— Vou marcar o encontro.</p><p>Querida Mãe,</p><p>NÃO vais acreditar nisto. O pai comprou-me um telemóvel.</p><p>Só para mim. Ontem estava no refeitório e pousei-o em cima</p><p>da mesa ao almoço e devias ter visto a cara da Sierra. Foi DE</p><p>MAIS para ela. Não se aguentava. Só quem anda no</p><p>secundário tem telemóvel. Disse à Sierra que podia fazer uma</p><p>chamada se quisesse e ela fez, e depois foi para a sala de</p><p>aulas comigo. Disseste-me que um sorriso pode fazer toda a</p><p>diferença — talvez tivesses razão. Talvez ela queira voltar a</p><p>ser minha amiga. Tenho imensas saudades dela. Bem, agora</p><p>tenho de ir, o pai já está a gritar por mim. Como sempre. Ele</p><p>é totalmente stressado. Ontem esqueceu-se de pôr o lixo lá</p><p>fora antes de passar o camião. Toda a gente sente saudades</p><p>tuas. Beijinhos e abraços, Betsy.</p><p>Querida Betsy,</p><p>Fico muito contente por saber do teu telemóvel. Vai ser</p><p>uma coisa boa para casos de emergência. Cuida bem dele e</p><p>usa-o com prudência. Não seria eu se não te dissesse isto,</p><p>mas se tiveres de subornar alguém para que goste de ti, essa</p><p>pessoa não é lá uma grande amiga, mas podemos conversar</p><p>mais sobre o assunto numa outra altura. Vou partir</p><p>FINALMENTE para o Iraque hoje. Escrevo-te outra vez assim</p><p>que aterrar. Adoro-te até ao infinito.</p><p>Mãe</p><p>P.S.: Espero que estejas a ajudar o pai nas coisas da</p><p>casa…</p><p>Quando Jolene saiu do avião de carga saltando para a areia plana</p><p>de Balad, foi como entrar numa fornalha. Minúsculos grãos de areia</p><p>deslocavam-se de forma invisível com o vento quente, infiltrando-se</p><p>em tudo — olhos, ouvidos, narinas, cabelo, garganta. Teve vontade</p><p>de tapar a boca e o nariz como forma de se proteger, mas ficou ali</p><p>de pé, direita, com os olhos lacrimejantes, à espera.</p><p>Havia muito por que esperar: por ordens, por mantimentos, por</p><p>transporte. A viagem parecia ter demorado uma eternidade. Desde o</p><p>Texas até à Alemanha, depois até ao Kuwait, até Tallil, até Al Kut,</p><p>até, finalmente, à Base Aérea de Balad.</p><p>O vento soprava por toda a base aérea, quente como fogo. Daí a</p><p>pouco, Jolene começou a transpirar. Depois do que lhe pareceram</p><p>horas de espera, atribuíram-lhe a ela e a Tami uma pequena</p><p>caravana com paredes forradas de painéis de madeira que estavam</p><p>cravejadas de buracos de tachas e de pregos pelos anteriores</p><p>inquilinos. Duas camas desconjuntadas e um par de cabides de</p><p>metal constituíam o único mobiliário.</p><p>Jolene deixou cair a pesada mochila no chão: levantou-se uma</p><p>nuvem de pó à volta dela. O pó, segundo já sabia, era um dos</p><p>inúmeros fatores novos da sua vida. Sentou-se na cama estreita,</p><p>com a roupa de cama áspera e acabada de receber nas mãos, e a</p><p>almofada que trouxera de casa. A cama rangeu debaixo dela.</p><p>— Precisamos de algumas fotografias e posters — disse Tami,</p><p>tossindo ao mesmo tempo que se sentava na sua cama. — Talvez do</p><p>Keanu ou do Johnny.</p><p>Jolene suspirou e olhou para a amiga. A caravana estava quente,</p><p>cheirava a pó e aos homens que ali tinham vivido antes delas. O</p><p>vento sibilava lá dentro, fustigava as janelas e as portas, tentando</p><p>entrar.</p><p>De repente soou uma sirene.</p><p>Jolene foi a primeira a chegar à porta. Abriu-a para Tami, agarrou</p><p>no pulso da amiga e puxou-a. A sirene e os altifalantes</p><p>encontravam-se num mastro mesmo do lado de fora da caravana, e</p><p>o aviso repetido — «DIRIJAM-SE PARA OS BÚNQUERES!» — soava tão</p><p>alto que Jolene não conseguia ouvir mais nada.</p><p>Havia dezenas de búnqueres de cimento por toda a base aérea.</p><p>Jolene e Tami correram para o mais próximo e entraram.</p><p>Não havia ali mais ninguém. Sentaram-se no chão, às escuras,</p><p>enquanto os morteiros rebentavam</p>
<p>e explodiam por todo o lado.</p><p>Começaram a chover pedaços de cimento. Algures ali perto, um</p><p>míssil embateu com força e explodiu. O cheiro acre do fumo</p><p>infiltrou-se pelas fendas da porta.</p><p>E depois tudo terminou.</p><p>Jolene pôs-se de pé, não se admirando ao descobrir que tinha as</p><p>pernas um pouco trémulas.</p><p>— Reparaste que somos as únicas aqui? — disse Tami. — Onde</p><p>está toda a gente?</p><p>Jolene abriu a porta. A luz do sol, brilhante como uma explosão</p><p>estelar, cegou-as. Fumo negro pairava no ar, fazendo-lhes arder os</p><p>olhos. Para onde quer que olhasse, via tropas agindo como se nada</p><p>tivesse acontecido. Andavam de bicicleta entre as várias caravanas,</p><p>faziam fila para as casas de banho portáteis, jogavam futebol. Virou-</p><p>se para Tami.</p><p>— Disseram-nos que chamavam a Balad a «cidade dos</p><p>morteiros». Suponho que agora já sabemos porquê.</p><p>A sirene soou de novo. Um fogo de morteiro estoirou à esquerda</p><p>delas e uma parede de cimento explodiu. O fumo deslocou-se na</p><p>direção de ambas.</p><p>— Vai ser preciso uma boa adaptação a isto — comentou Tami</p><p>quando o ambiente tornou a ficar calmo.</p><p>Jolene olhou para a melhor amiga e percebeu que ambas</p><p>estavam a pensar a mesma coisa. Durante o próximo ano, podiam</p><p>ser mortas a qualquer segundo em qualquer dia — enquanto</p><p>estivessem sentadas na caravana, a jogar às cartas ou a tomar</p><p>duche.</p><p>Como enfrentar o facto de se saber que a qualquer momento</p><p>podemos ser mortos, mutilados, desfeitos em pedaços? Pior do que</p><p>o medo dela, era a preocupação em relação às filhas. Pela primeira</p><p>vez, Jolene pensou realmente: «E se não voltarmos para casa?</p><p>Como vão as minhas filhas sobreviver sem mim?»</p><p>Nessa noite, após um longo dia passado a preencher papelada, a</p><p>conhecer os homens e as mulheres com quem iria prestar serviço e</p><p>a escutar palestras intermináveis sobre os mais variados assuntos,</p><p>desde os escorpiões que se podiam encontrar na base aérea, até ao</p><p>uso de rádios de sobrevivência, Jolene conseguiu, por fim, chegar</p><p>aos chuveiros às onze horas. Uma vez que havia poucas mulheres na</p><p>base aérea, as filas para o duche não eram longas, mas uma mulher</p><p>não entrava ali no escuro sozinha. O exército evoluíra muito — mas</p><p>não o suficiente. A companhia de «colegas de batalha» era</p><p>encorajada.</p><p>Depois do duche, Jolene e Tami regressaram à sua caravana em</p><p>silêncio.</p><p>Uma vez lá dentro, Tami deixou-se cair na cama e não tardou a</p><p>adormecer profundamente.</p><p>Jolene passara bastante do ponto de exaustão, mas estava</p><p>demasiado excitada para dormir, por isso foi buscar o computador</p><p>portátil e começou a escrever uma mensagem para casa. Ainda não</p><p>estava ligada à Internet, isso poderia até demorar algum tempo,</p><p>mas podia teclar a carta naquela noite e pensar depois numa</p><p>maneira de enviá-la do centro comunitário no dia seguinte. Precisava</p><p>de estabelecer contacto com a família já, e este era o único meio</p><p>que tinha disponível para isso.</p><p>Imaginou-os com todo o pormenor, por inteiro; a família, a sua</p><p>família, reunida no sofá, com a mensagem como um meio de uni-</p><p>los. Betsy lê-la-ia em voz alta.</p><p>A base aérea foi bombardeada quatro vezes hoje e mal</p><p>acabámos de chegar.</p><p>Jolene imaginou a reação deles a essa notícia, e sabia como</p><p>tinham de ser as mensagens que enviasse para casa.</p><p>Meus amores, escreveu, sentindo tão profundamente a falta</p><p>deles que lhe era difícil prosseguir. Inspirou fundo.</p><p>Foi um longo voo até aqui, e tenho de admitir que me</p><p>sinto cansada. Betsy, nem podes acreditar como isto aqui é</p><p>plano, e como tudo é da mesma cor, como o trigo seco. E é</p><p>quente, muito quente. Acho que estava a transpirar antes</p><p>mesmo de desembarcar do avião.</p><p>Eu e a Tami partilhamos o mesmo quarto numa pequena</p><p>caravana. É mais ou menos assim que imagino a vida na</p><p>faculdade. Por isso, precisamos de fotografias e de posters</p><p>para torná-la mais acolhedora. Podes ajudar-nos? Quando</p><p>puder envio umas fotos…</p><p>Jolene escreveu tudo o que se lembrou de dizer. Quando se lhe</p><p>acabou o ânimo, fechou o computador portátil e guardou-o no</p><p>cacifo. Foi então que reparou no diário cor de rosa que Betsy lhe</p><p>havia oferecido no seu aniversário. Pegou nele, pousou-o no colo e</p><p>abriu-o. Tencionara devolver este diário a Betsy quando voltasse</p><p>para casa, mas, menos de vinte e quatro horas depois, percebeu</p><p>que isso não iria acontecer. Precisava de um sítio onde pudesse ser</p><p>sincera porque, a partir daquele momento, era a chefe Zarkades e</p><p>não podia manifestar medo nem hesitação, da mesma maneira que</p><p>não podia contar a verdade à família.</p><p>Abriu o diário e escreveu.</p><p>MAIO DE 2005</p><p>Este diário destina-se a ti, Betsy. Era minha intenção</p><p>anotar todos os meus sentimentos e sensações por aqui, para</p><p>que, ao voltar a casa, pudesse dar-to, ou seja, aqui está tudo</p><p>o que pensei enquanto estivemos afastadas. Pensei que podia</p><p>dar-te todos os conselhos de que irias precisar, que eu seria</p><p>sensata e prestável. A mãe perfeita, mesmo a um mundo</p><p>inteiro de distância.</p><p>A verdade, porém, é que ser tua mãe é despedaçar o meu</p><p>coração. Tenho de arranjar maneira de saber como ser forte,</p><p>como pôr o meu amor por ti e por Lulu de parte. Se não</p><p>conseguir fazer isso, não serei de utilidade para ninguém.</p><p>Aqui, entre estas páginas que me ofereceste, tenho de</p><p>falar comigo mesma. Com um pouco de sorte, escrever sobre</p><p>o meu medo vai amenizá-lo. Talvez um dia to entregue,</p><p>quando tiveres idade suficiente para não me julgar com</p><p>demasiada severidade.</p><p>A base aérea foi atacada quatro vezes hoje. À quarta vez,</p><p>quando a sirene soou, eu e a Tami olhámos uma para a outra,</p><p>encolhemos os ombros e ficámos na caravana. Continuei a</p><p>guardar as minhas coisas, mas era capaz de ouvir o silvo dos</p><p>mísseis e os morteiros a explodir, e pensei se iria ter</p><p>oportunidade de me despedir das minhas filhas, mas depois</p><p>tudo acabou.</p><p>Acabou.</p><p>Esta é uma palavra que parece surgir cada vez com mais</p><p>frequência na minha vida nestes últimos tempos. Tal como</p><p>aconteceu com o meu casamento.</p><p>Acabou.</p><p>Sinto-me tão sozinha aqui, sem o Michael. Às vezes finjo</p><p>que ele ainda está à minha espera aí em casa. Que ele ainda</p><p>me ama.</p><p>Depois acordo ao som das bombas. Estou na guerra há um</p><p>dia e eis o que penso: vou morrer aqui.</p><p>Porque não pensei nisso antes?</p><p>Michael saiu do escritório por volta do meio-dia e conduziu até à</p><p>zona norte da cidade. Chegou à rua pretendida e confirmou o</p><p>endereço que lhe haviam dado. Espreitou pela janela do seu lado do</p><p>carro, franzindo o sobrolho. Sim, era este o lugar.</p><p>O consultório do psiquiatra não inspirava confiança. Situava-se</p><p>numa casa em estado precário de meados do século XX num troço</p><p>duvidoso de Aurora Avenue. Os carros circulavam pela rua em fila,</p><p>buzinando.</p><p>Michael estacionou entre uma carrinha enferrujada e um carro de</p><p>motor elétrico, verde-cintilante. Seguindo um passeio rachado até</p><p>um alpendre algo decadente, parou junto à porta principal e bateu.</p><p>A porta foi aberta quase de imediato por um homem de idade,</p><p>magro, com cabelo grisalho que lhe dava pelos ombros e rosto</p><p>alongado e enrugado. Num fato azul aos quadrados, fora de moda</p><p>há pelo menos duas décadas, e camisa verde-lima, parecia um</p><p>cruzamento entre Ichabod Crane e um roqueiro britânico de</p><p>segunda categoria. Talvez tivesse perto de setenta anos, mas havia</p><p>nele algo de estranhamente jovem.</p><p>Michael desejou que não fosse ele o psiquiatra. Os jurados</p><p>gostavam que os seus peritos tivessem ar de peritos.</p><p>— Você deve ser Michael Zarkades — disse o homem,</p><p>estendendo-lhe a mão. — Christian Cornflower. A maioria dos meus</p><p>pacientes chama-me «Doutor C». Entre.</p><p>O psiquiatra desviou-se para dar passagem a Michael. Na sala</p><p>principal, uma mulher jovem com cabelo roxo e uma argola de prata</p><p>no nariz estava sentada a uma secretária antiga branca, os dedos</p><p>digitando num teclado de computador ao mesmo tempo que falava</p><p>ao telefone. Acenando-lhe com a cabeça ao passar, o psiquiatra</p><p>conduziu Michael através de um gabinete repleto de cadeiras</p><p>estofadas e confortáveis e mesas de carvalho antigas. Um papel com</p><p>padrão de rosas forrava as paredes, que se encontravam decoradas</p><p>também com bordados a ponto de cruz, ostentando frases concisas</p><p>do género «Hoje é o primeiro dia do</p>
<p>resto da tua vida».</p><p>Por fim, chegaram ao que deveria ter sido em tempos usado</p><p>como o principal quarto de dormir da casa. Uma grande janela</p><p>enquadrava os ramos de uma belíssima e velha macieira, revestida</p><p>de folhas de um verde-vivo e salpicada por frutos diminutos. Aqui as</p><p>paredes eram forradas por painéis de madeira da década de 70,</p><p>decoradas com mais bordados e diplomas emoldurados das</p><p>universidades de Harvard, Johns Hopkins e Berkeley.</p><p>O psiquiatra sentou-se a uma secretária de mogno antiga.</p><p>Michael sentou-se numa confortável poltrona estofada de veludo</p><p>vermelho, de frente para a secretária.</p><p>— Devo confessar-lhe, doutor Cornflower, que o senhor me foi</p><p>muitíssimo bem recomendado. Estou no momento a defender um</p><p>rapaz…</p><p>— Keith Keller.</p><p>Michael franziu o sobrolho.</p><p>— Não lhe disse o nome do cliente ao telefone.</p><p>Christian encolheu os ombros com eloquência.</p><p>— Posso ter o ar de quem andou por Woodstock… coisa que,</p><p>infelizmente, perdi… mas não se deixe enganar pela minha</p><p>aparência e pela minha conduta. Sou um homem perspicaz, Michael.</p><p>Você assumiu a defesa aparentemente impossível de Keith Keller,</p><p>que matou a mulher com um tiro na cabeça, barricando-se depois</p><p>dentro de casa durante horas, ameaçando suicidar-se. Passou na</p><p>televisão, caramba. Uma equipa de operações especiais forçou-o a</p><p>sair, todo salpicado de sangue, com as câmaras a filmar tudo. Toda a</p><p>gente sabe que foi ele que fez isso. Sabia que se você fosse</p><p>inteligente, e tinha esperanças de que fosse, mais cedo ou mais</p><p>tarde acabaria por vir bater à minha porta.</p><p>— Então porquê?</p><p>— Especializei-me em perturbação de stresse pós-traumático.</p><p>Assim que soube que Keith Keller foi um antigo fuzileiro, dei uma</p><p>vista de olhos ao caso dele. Realizou duas missões no Iraque —</p><p>continuou o psiquiatra abanando a cabeça. — O VA é absolutamente</p><p>criminoso na sua negligência em ajudar as tropas que regressam do</p><p>Iraque. Quando esta maldita guerra terminar, vamos acabar por ter</p><p>centenas de milhares de soldados com traumas muito sérios</p><p>tentando apanhar e colar os cacos das suas vidas. O que aconteceu</p><p>com Keith vai tornar-se, por desgraça, demasiado comum, caso não</p><p>comecemos a ajudar estes jovens.</p><p>Michael pegou num bloco de apontamentos.</p><p>— Continue.</p><p>— Estive no Vietname. 1967. Assisti em primeira mão à maneira</p><p>como os homens bons podem ser engolidos pela guerra. E, no</p><p>Vietname, pelo menos podíamos ir para outro lugar a fim de</p><p>desopilar e dar vazão às emoções. No Iraque, não há segurança em</p><p>nada nem em lugar nenhum. A mulher que sorri e acena pode</p><p>mandar pelos ares o soldado que tenta ajudá-la a atravessar a rua.</p><p>De vez em quando, isso também acontecia no Vietname; no Iraque</p><p>é prática comum. As estradas estão pejadas de dispositivos</p><p>explosivos improvisados que matam quem quer que passe. As</p><p>bombas encontram-se no meio de montes de lixo, em animais, em</p><p>pessoas, em valas. Não se está em segurança em lado nenhum. Os</p><p>nossos soldados estão a regressar com casos extremos de</p><p>perturbação de stresse pós-traumático.</p><p>— O caso extremo de perturbação de stresse pós-traumático</p><p>pode diminuir a capacidade de pensamento racional de uma pessoa?</p><p>— Com certeza. É essa a pergunta que deve ser feita. Não se</p><p>trata de um tipo ao acaso que mata a mulher a tiro e que afirma ser</p><p>doido. Keith Keller serviu o seu país, e, muito embora tenha</p><p>regressado sem quaisquer danos físicos, isso pode não ser o fim da</p><p>discussão. No entanto, teria de conversar com ele para poder fazer</p><p>um diagnóstico rigoroso.</p><p>— Pode dizer-me mais sobre a perturbação de stresse pós-</p><p>traumático, como funciona?</p><p>— É muito possível que Keith nem sequer soubesse que estava a</p><p>matar a mulher. Pode ter-se sentido suficientemente desorientado a</p><p>ponto de não saber onde se encontrava nem o que estava a fazer.</p><p>Não posso afirmar isso em termos específicos, é claro, não sem</p><p>antes conversar com ele. Mas posso dizer com total autoridade que</p><p>muitos dos nossos soldados estão a regressar a casa com uma</p><p>devastadora perturbação de stresse pós-traumático, e que esta</p><p>doença pode causar o colapso de um soldado. Segundo a opinião</p><p>geral, Keith Keller parecia ser um bom homem antes da guerra.</p><p>Michael tamborilou com a caneta no bloco de apontamentos,</p><p>considerando as possibilidades. Cornflower acabara de lhe entregar</p><p>de bandeja uma defesa para homicídio em primeiro grau, mas era</p><p>arriscado. Os jurados possuíam uma relutância notória em aceitar</p><p>uma defesa baseada em capacidades diminuídas. E odiavam</p><p>insanidade.</p><p>Christian uniu as pontas dos dedos, comprimindo-as.</p><p>— Trata-se de um autêntico transtorno psiquiátrico e há décadas</p><p>que assim é considerado. Uma pessoa pode estar literalmente</p><p>incapacitada por essa perturbação. O que sucede ali… bem… você</p><p>deve saber melhor do que ninguém.</p><p>Michael franziu o sobrolho.</p><p>— O que quer dizer com isso?</p><p>— Soube que tem militares na família. A sua mulher é piloto de</p><p>helicópteros e está em serviço no Iraque neste momento, não está?</p><p>— Não há dúvida de que fez os trabalhos de casa.</p><p>— Gosto de saber com quem falo. A sua mulher conta-lhe muita</p><p>coisa?</p><p>Michael não gostou da forma como o psiquiatra estava a</p><p>examiná-lo. Mexeu-se incomodado na cadeira e mudou de posição.</p><p>— Ela acabou de lá chegar, mas eles não autorizam mulheres em</p><p>situações de combate. Essencialmente, ela vai transportar por lá</p><p>figuras importantes.</p><p>— Ah — disse o psiquiatra, fitando Michael intensamente. Depois</p><p>sorriu. — Ela é mãe. O seu instinto é proteger. Claro.</p><p>Fez uma pausa.</p><p>— É claro o quê?</p><p>— Eis o que você precisa saber: alguns lugares-comuns são</p><p>verdadeiros, e a guerra é, sem dúvida, um inferno. Trata-se de ter</p><p>medo o tempo todo e quando não se tem medo é porque se está</p><p>tão cheio de adrenalina que é possível, literalmente, rebentar. Trata-</p><p>se de ver as pessoas que amamos… que amamos muitíssimo ir pelos</p><p>ares e ficar aos bocadinhos mesmo ao nosso lado. É ver uma perna</p><p>perdida numa vala e pegar nela e pô-la num saco porque nenhum</p><p>homem… ou parte de um homem, nosso amigo… pode ser deixado</p><p>para trás. Trata-se da noite negra da alma, Michael. Ali não há linha</p><p>da frente. A guerra está por todo o lado, todos os dias, onde quer</p><p>que se vá. Alguns são capazes de lidar com isso melhor do que</p><p>outros. Não sabemos porquê, mas sabemos o seguinte: a mente</p><p>humana não é capaz de absorver com segurança ou sanidade esse</p><p>tipo de carnificina, de incerteza e de horror. Eu, pelo menos, não sou</p><p>capaz. Ninguém volta da guerra a mesma pessoa.</p><p>— Concorda em encontrar-se com Keith? Fazer uma avaliação do</p><p>seu caso? Vou precisar de um diagnóstico para poder avançar com</p><p>uma defesa baseada em perturbação de stresse pós-traumático.</p><p>— Claro que sim — respondeu Christian. — Ficaria honrado em</p><p>poder ajudar esse rapaz.</p><p>«Honrado». Era uma palavra que Michael já não ouvia há muito</p><p>tempo associada a um dos seus clientes. Muitos deles eram culpados</p><p>como o diabo. Tinha orgulho em fazer parte do sistema de justiça</p><p>criminal — uma parte importante —, mas era raro sentir orgulho em</p><p>defender um cliente individual.</p><p>Isso fê-lo pensar em Jolene, para quem a honra era tão</p><p>importante. Ela teria gostado que ele aceitasse este caso. Michael</p><p>pôs-se de pé, apertou a mão do doutor Cornflower e disse:</p><p>— Obrigado.</p><p>No caminho para casa, pensou em Keith, e nesta nova defesa… e</p><p>no que havia acontecido a este rapaz outrora bom e decente no</p><p>Iraque.</p><p>O que teria acontecido com ele por lá?</p><p>E depois pensou: Jolene, o que está a acontecer contigo?</p><p>Chegou tarde a casa, como de costume, e percebeu pela</p><p>expressão na cara de Betsy que a filha tinha estado a contar os</p><p>minutos, e a somá-los a fim de o recriminar. A ideia de mais uma</p><p>tirada angustiada e temperamental de adolescente, coisa que ele</p><p>merecia, aliás, era mais do que conseguia suportar.</p><p>A sua mãe surgiu à porta da cozinha.</p><p>— Não tive qualquer problema em ficar mais uma hora. Não te</p><p>preocupes com isso.</p><p>— Obrigado, mãe.</p><p>Mal acabou de dizer estas palavras, o telefone tocou.</p><p>Algures, Betsy gritou — gritou mesmo:</p><p>— Eu atendo!</p><p>Michael ouviu passos ressoando como trovões pelas escadas</p><p>abaixo.</p><p>Michael sorriu pesaroso, acompanhando a mãe até</p>
<p>à porta das</p><p>traseiras.</p><p>— Obrigado mais uma vez, mãe.</p><p>Mila deu-lhe um beijo na face.</p><p>— A propósito, chegou um e-mail de Jolene. A Lulu está ansiosa</p><p>por lê-lo, mas eu fiz questão de lhe recordar as regras… Nada de lê-</p><p>lo até tu chegares a casa… E, além disso, ela está um pouco…</p><p>excitada.</p><p>Michael beijou a mãe e ficou a vê-la encaminhar-se para o carro.</p><p>Pensou, não pela primeira vez, que nunca teria conseguido enfrentar</p><p>tudo aquilo sem ela. Assim que a mãe se foi embora, Michael dirigiu-</p><p>se à cozinha e serviu-se de uma bebida.</p><p>Lulu entrou na cozinha em passo de marcha.</p><p>— Recebemos um e-mail da mamã. Podemos lê-lo agora?</p><p>— Posso tomar uma bebida e mudar de roupa primeiro?</p><p>— Não, papá. Estou à espera HÁ QUE TEMPOS.</p><p>Michael lançou um olhar ao calendário de Jolene, reparando que</p><p>o jantar daquela noite deveria ser frango assado com arroz. Pensou</p><p>que estaria incluída uma lata de sopa de cogumelos.</p><p>— Muito bem. Vai chamar a tua irmã. Espero-vos junto ao meu</p><p>computador.</p><p>Lulu correu pelas escadas acima. Segundos depois, estava de</p><p>volta, com a sua carinha todo enrugada, as faces vermelhas.</p><p>— A Betsy está ao telefone.</p><p>— Diz-lhe para desligar.</p><p>— Ela não quer.</p><p>— Bom, podemos esperar…</p><p>— NÃONÃONÃONÃO! — choramingou Lulu.</p><p>Os seus olhos encheram-se de lágrimas.</p><p>Michael sabia que, aqui, era o chefe, mas, para ser franco, a ideia</p><p>de uma birra de Lulu era mais do que conseguiria enfrentar naquele</p><p>momento. Com um suspiro, Michael subiu as escadas e foi encontrar</p><p>Betsy no quarto dela, a falar ao telefone.</p><p>— Podes ligar-lhe mais tarde, querida? Vamos ler a carta da mãe</p><p>antes que a tua irmã comece a levitar.</p><p>Betsy voltou costas ao pai e continuou a falar.</p><p>— Betsy — disse Michael num tom de aviso.</p><p>— Sai daqui, pai. Estou ao TELEFONE.</p><p>Michael tirou-lhe o telefone da mão, dizendo:</p><p>— Ela volta a ligar-te daqui a dez minutos — e desligou o</p><p>telefone.</p><p>Poder-se-ia pensar que Michael tinha carregado no botão</p><p>vermelho de uma arma nuclear. Betsy gritou «Era a Sierra!» tão alto</p><p>que ele ficou momentaneamente surdo.</p><p>— Vamos ler a carta agora. Desce.</p><p>Deixou-a ali parada, tão furiosa que quase deitava fumo pelas</p><p>orelhas, e desceu as escadas dirigindo-se para o seu escritório.</p><p>Ali, sentou Lulu na sua cadeira diante da secretária e</p><p>encaminhou-se para o sofá a fim de esperar por Betsy. Não demorou</p><p>muito tempo. Desceu as escadas a tropel batendo com os pés e</p><p>entrou no gabinete de rompante como a Rainha de Copas, a</p><p>resmungar: Bem, onde está essa estúpida mensagem?</p><p>Betsy empurrou Lulu para o lado e sentou-se; Lulu subiu então</p><p>para o colo da irmã, dizendo:</p><p>— Lê, Betsy.</p><p>Betsy procurou o e-mail e abriu-o.</p><p>Uma fotografia encheu o monitor do computador. Nela, Jolene e</p><p>Tami estavam de pé em frente de uma espécie de banca de mercado</p><p>ao ar livre, abraçadas uma à outra. Tudo parecia enevoado, um</p><p>pouco descorado, como se estivesse a chover ou soprasse bastante</p><p>vento. Mas não se podia negar que os sorrisos de ambas eram</p><p>alegres.</p><p>— Mamã — disse Lulu apontando para Jolene.</p><p>Betsy foi descendo com o rato e começou a ler a carta em voz</p><p>alta.</p><p>— Foi um longo voo até chegar aqui…</p><p>… e tenho de admitir que me sinto cansada.</p><p>Betsy, nem podes acreditar como isto aqui é plano, e como</p><p>tudo é da mesma cor, como o trigo seco. E é quente, muito</p><p>quente. Acho que estava a transpirar antes mesmo de</p><p>desembarcar do avião.</p><p>Eu e a Tami partilhamos o mesmo quarto numa pequena</p><p>caravana. É mais ou menos assim que imagino a vida na</p><p>faculdade. Por isso, precisamos de fotografias e de posters</p><p>para torná-la mais acolhedora. Podes ajudar-nos? Quando</p><p>puder envio umas fotos…</p><p>Esta noite jantámos nas instalações do refeitório. Lulu,</p><p>havia a tua sobremesa preferida — tarte de pêssego. Não era</p><p>tão boa como a da Yia Yia Mila, mas fez-me pensar em casa.</p><p>Somos aquilo que se costuma chamar «reserva» (uma</p><p>palavra do Exército para designar uma espécie de substitutos)</p><p>para o 131.º batalhão. Toda a gente que conhecemos é</p><p>fantástica. Tenho a certeza de que iremos fazer muitos</p><p>amigos.</p><p>Bem, pessoal, é melhor ir dormir um pouco.</p><p>Penso em vocês o tempo todo e adoro-vos até ao infinito.</p><p>BEIJOS E ABRAÇOS</p><p>Mãe</p><p>P.S.: Boa sorte no teste de Matemática, Bets. Estou certa</p><p>de que vais arrasar. Tenho orgulho em ti!</p><p>— Lê outra vez — pediu Lulu. — A minha parte. Papá, obriga-a a</p><p>ler outra vez — choramingou.</p><p>— Pronto, já li. Grande coisa. Está calor — disse Betsy, virando-se</p><p>para olhar para Michael. — Já posso voltar lá para cima e telefonar</p><p>agora à Sierra?</p><p>— Como queiras — respondeu Michael, mal escutando o que a</p><p>filha dizia.</p><p>Enquanto Betsy passou por ele a correr como uma flecha,</p><p>Michael levantou-se da cadeira e foi pôr-se em frente do</p><p>computador.</p><p>Contemplou a fotografia das duas mulheres fardadas a sorrir para</p><p>a câmara.</p><p>— Ela parece feliz — disse Lulu.</p><p>Michael pensou em tudo o que descobrira naquele dia e não</p><p>conseguiu enquadrar naquela fotografia aquilo que ficara a saber.</p><p>Pensou nas descrições de guerra que tinha ouvido, no facto de se</p><p>encontrarem partes do corpo dos amigos, em explosivos</p><p>improvisados na berma das estradas e em chuva de estilhaços.</p><p>Duas mulheres, grandes amigas, a sorrir para a câmara.</p><p>Michael compreendeu de súbito o que Cornflower quisera dizer.</p><p>Ela é mãe. O seu instinto é proteger.</p><p>Esta fotografia era uma mentira, a exemplo de tudo o que Jolene</p><p>lhe contara sobre a sua mobilização. Ali não há linha da frente,</p><p>dissera Cornflower. Por conseguinte, não havia lugares seguros.</p><p>Jolene — sempre a heroína, sempre a mãe — estava a dourar a</p><p>pílula em relação à sua vida, de modo a provar que eles não</p><p>precisavam de se preocupar com nada. Plantara as sementes bem</p><p>cedo. Eles não autorizam mulheres em situações de combate. Vou</p><p>transportar figuras importantes de um lado para o outro, transportar</p><p>provisões. Vou estar em segurança.</p><p>Michael engolira essa história porque quisera. Olhara para o outro</p><p>lado. Não devia tê-lo feito, céus. Tinha obrigação de saber que se</p><p>tratava de uma guerra. Talvez fosse por causa do jogo político</p><p>acerca de armas imaginárias de destruição maciça ou da propaganda</p><p>enganosa em torno de Saddam Hussein. Não sabia a razão que o</p><p>levou a imaginar esta guerra como sendo de pouca importância,</p><p>talvez uma guerra que terminaria em breve e que registaria poucas</p><p>baixas entre os soldados americanos.</p><p>Vira as fotografias nos noticiários. Soldados caminhando lado a</p><p>lado com crianças iraquianas, entregando-lhes água, posando para</p><p>fotografias, e lera sobre bombistas suicidas, mas de alguma maneira</p><p>imaginara as duas coisas como sendo distintas. Permitira-se</p><p>acreditar em Jolene quando ela lhe contou que ficaria longe dos</p><p>combates.</p><p>Como ela deveria achá-lo idiota.</p><p>Andava tão ocupado a pensar em si mesmo, a sentir-se furioso</p><p>com a maneira como a escolha dela causara impacto na sua vida,</p><p>que mal ponderara sobre a verdade do local onde a mulher se</p><p>encontrava e o que ela estava a fazer.</p><p>Como se sentiria Jolene, deitada na cama à noite, sozinha e</p><p>longe de casa, sabendo que a qualquer momento uma bomba podia</p><p>atingir a sua caravana e que podia morrer?</p><p>O mês de junho passou por Michael a correr; os dias sucediam-se</p><p>como a chuva quando caía, desaparecendo no chão aos seus pés.</p><p>Em casa, pensava no trabalho; no escritório, pensava em casa.</p><p>Andava sempre a correr e chegava quase sempre atrasado. «Peço</p><p>desculpa» era a sua nova frase alternativa. Proferira-a mais vezes</p><p>nas últimas semanas do que durante os últimos anos.</p><p>No final do ano letivo, Michael foi forçado a repensar a sua</p><p>agenda. A mãe continuava a ser de uma enorme ajuda com as</p><p>miúdas, mas o verão era a época mais movimentada no Green</p><p>Thumb e ela não podia passar tanto tempo em casa dele como até</p><p>aí. Por conseguinte, Michael encurtara a sua semana laboral para</p><p>quatro dias. De sexta-feira a domingo, trabalhava a partir de casa,</p><p>debatendo-se para conciliar as exigências da sua condição de pai</p><p>com as de advogado. Quando não estava na mercearia a fazer</p><p>compras ou a preparar o jantar ou a lavar a louça, escrevia relatórios</p><p>e efetuava pesquisas para os seus casos. Enviava as filhas para o</p><p>maior número possível</p>
<p>de visitas de estudo e acampamentos, mas</p><p>mesmo assim continuava a não ter tempo para conseguir fazer tudo.</p><p>Levá-las de carro de um lugar para outro — ou arranjar outra pessoa</p><p>que as levasse — consumia um tempo absurdo. Na semana anterior,</p><p>Michael admitira, por fim, que não conseguia dar andamento a tanto</p><p>trabalho quanto deveria. Delegara a maioria dos casos menos</p><p>importantes aos sócios.</p><p>Isso deixava-lhe mais tempo para trabalhar na defesa de Keller.</p><p>Naquele dia, a sua intenção era trabalhar nas perguntas do</p><p>depoimento dos polícias que prenderam Keith, assim como nas do</p><p>bufo da cadeia.</p><p>Acordou cedo e desceu para preparar o pequeno-almoço. Às dez</p><p>horas, ia deixar as filhas no Green Thumb, onde iriam «ajudar» a</p><p>avó até à altura de ir buscá-las às duas horas. Não tinha muito</p><p>tempo para trabalhar, mas, nos dias que corriam, era tudo com que</p><p>podia contar.</p><p>As perguntas de Lulu começaram logo de manhã: Hoje está sol,</p><p>papá. Podemos ir à praia? A mamã leva-nos quase sempre à praia</p><p>quando está sol. Eu podia construir um castelo de areia. Sabes como</p><p>se faz um castelo de areia, papá? As perguntas atingiram-no com</p><p>tanta rapidez que Michael murmurou qualquer coisa e afastou-se,</p><p>optando por beber o café de pé, em frente à televisão.</p><p>Outro erro. A CNN noticiava que um bombista suicida matara seis</p><p>pessoas num mercado em Bagdade.</p><p>O telefone tocou.</p><p>Lulu gritou «Eu atendo!» numa voz tão estridente que o mais</p><p>provável era os cães das redondezas desatarem a correr.</p><p>Michael viu Lulu correr para o telefone, atender e dizer:</p><p>— Mamã?</p><p>Depois o seu sorriso desvaneceu-se e descaiu os ombros. Voltou</p><p>a pousar o auscultador e esgueirou-se de novo para a cozinha,</p><p>subindo para a sua cadeirinha.</p><p>— É a Sierra — disse carrancuda. — A Betsy está a falar com ela.</p><p>Quinze minutos depois, Betsy desceu as escadas a galope.</p><p>— Vou ao centro comercial com a Sierra ver um filme.</p><p>Michael inclinou-se para a frente e desligou a televisão.</p><p>— Será que podias reformular isso sob a forma de uma pergunta,</p><p>se fazes favor?</p><p>— Claro. Dás-me algum dinheiro?</p><p>Michael voltou-se, preparado para insistir, «Será que não querias</p><p>dizer: “Pai, posso ir ao centro comercial, por favor?”», mas assim</p><p>que pôs os olhos na filha, essa pergunta irónica ficou suspensa no</p><p>ar.</p><p>Betsy tinha tanta maquilhagem que podia entrar como figurante</p><p>no filme Festival Rocky de Terror, e a roupa que vestia era</p><p>igualmente inaceitável: botas Ugg cor de rosa, uma saia de ganga</p><p>curtíssima e uma camisola branca que lhe dava pelo umbigo.</p><p>— Que raio é isso que estás a usar?</p><p>Betsy fitou-o com um olhar penetrante.</p><p>— Uh. Roupa.</p><p>— A tua mãe nunca te deixaria sair de casa nessa figura.</p><p>— Ela não está aqui.</p><p>— E o que é isso que tens na cara?</p><p>— Nada.</p><p>— Estás a usar maquilhagem.</p><p>— Não. Não estou.</p><p>Michael não podia acreditar que Betsy fosse capaz de estar ali</p><p>diante dele a mentir descaradamente.</p><p>— Ai não estás? Pareces Tootsie à espera de um grande plano.</p><p>— Seja lá o que for que isso queira dizer.</p><p>— Quer dizer, minha menina, que não vais sair de casa nessa</p><p>figura.</p><p>— Ai isso é que saio. O irmão da Sierra vem buscar-me dentro de</p><p>meia hora.</p><p>— O irmão da Sierra? E que idade tem ele?</p><p>— É mais velho.</p><p>— Bem, espero que queiras dizer que é um senhor mais velho,</p><p>porque nenhum rapaz de dezoito anos vai levar-te ao centro</p><p>comercial.</p><p>— Estás a arruinar a minha vida.</p><p>— Eu sei. Já disseste isso antes. Dá-me o número de telefone da</p><p>Sierra para eu falar com a mãe dela. Se te vestires como um ser</p><p>humano, eu mesmo vos levo às duas ao centro.</p><p>— Prefiro morrer.</p><p>— A sério? Bom, eu penso o mesmo em relação à ida ao centro</p><p>comercial. É contigo, miúda.</p><p>Michael encolheu os ombros e tornou a ligar a televisão,</p><p>mudando de canal. Um anúncio fazendo propaganda ao novo filme</p><p>de Spielberg, Guerra dos Mundos, preenchia o ecrã.</p><p>Guerra. Estava por toda a parte. Betsy bateu com o pé.</p><p>Michael ignorou-a. Nas últimas semanas, até podia não ter</p><p>aprendido tudo o que precisava saber sobre como ser pai de uma</p><p>pré-adolescente, mas aprendera algumas lições inestimáveis: não</p><p>ceder. E usar idêntica pressão. Oh, e tentar manter a calma. Dois</p><p>malucos juntos não eram presságio de um bom dia.</p><p>— Certo. Vou tirar a maquilhagem que não estou a usar.</p><p>— E vais mudar de roupa.</p><p>— Aaagh! — berrou Betsy, subindo as escadas a correr.</p><p>Michael pôde ouvi-la a bater com os pés no chão lá em cima.</p><p>Michael abanou a cabeça. Tanto drama.</p><p>Entrou na cozinha, onde Lulu estava sentada à mesa da cozinha,</p><p>ajoelhada numa almofada que ela mesma colocara em cima de uma</p><p>das cadeiras. O seu livro para colorir A Minha Mamã Combate pela</p><p>Liberdade estava aberto à frente dela, a par de um conjunto de lápis</p><p>de cor, dispostos num monte emaranhado como no jogo do micado.</p><p>Acrescentava com toda a fúria riscas vermelhas à bandeira</p><p>americana.</p><p>— Por que razão não temos uma bandeira pendurada lá fora,</p><p>papá? — perguntou Lulu. — A mamã foi-se embora.</p><p>Michael deteve-se. Como era possível que nunca tivesse pensado</p><p>nisso antes? Todas as coisas que ficara a saber por Cornflower e</p><p>Keller voltaram a acorrer-lhe à mente.</p><p>Eram a família de um militar.</p><p>Estava sempre a ouvir isso; as pessoas diziam-lhe isso e ele não</p><p>atribuía importância, pensando que não era bem assim; a minha</p><p>mulher só está na Guarda Nacional. Uma vez que ELE não era</p><p>militar, nunca lhe parecera algo muito real, e era bem certo que</p><p>nunca gostara da dedicação da mulher ao Exército nem a apoiava.</p><p>Ainda assim, eram a família de um militar e a sua mulher estava</p><p>na guerra. E uma criança de quatro anos apercebera-se da verdade</p><p>desse facto antes dele.</p><p>Despenteou o cabelo de Lulu com uma festa, observando a filha</p><p>enquanto ela coloria uma cena de uma rapariga a dizer adeus a uma</p><p>mulher fardada.</p><p>— Vamos acrescentar mais uma — disse Michael em voz baixa.</p><p>Betsy voltou a entrar na cozinha continuando a bater com os pés,</p><p>surgindo atrás do pai.</p><p>— Já estou com um ar suficientemente medonho. Posso ir agora?</p><p>Michael virou-se.</p><p>Betsy vestia uns calções de ganga que, na sua opinião, eram</p><p>demasiado curtos, mas não o suficiente para desencadear outra</p><p>discussão, uma t-shirt onde se lia «Oops! I Did It Again» e</p><p>havaianas. Retirara a maior parte da maquilhagem, mas ainda trazia</p><p>rímel azul e blush.</p><p>Acharia ela que ele não conseguia ver?</p><p>— E então? — perguntou Betsy, e, nesse momento, a voz dela</p><p>fraquejou.</p><p>Michael pôde perceber o quanto isso era importante para ela, e</p><p>sentiu-se perdido. Os jogos que estas raparigas pré-adolescentes</p><p>jogavam entre si pareciam-lhe ridículos. Betsy podia passar de um</p><p>sorriso para um fuzilamento numa questão de segundos, tudo isso</p><p>com base num qualquer comentário feito em voz baixa por parte de</p><p>uma antiga amiga. Nem pensar que alguém pudesse rir-se do cabelo</p><p>dela.</p><p>— Vá lá, pai, é a Sierra. Esperei taaanto pelo telefonema dela.</p><p>Preciso ir. Por favooor.</p><p>Mesmo que o considerassem cobarde, não podia negar aquele</p><p>pedido à filha. Parecia incrivelmente desesperada e solitária, e</p><p>Michael sabia agora até que ponto aquela reviravolta no</p><p>relacionamento com Sierra era importante para Betsy.</p><p>— Estás linda, Betsy. E podes ir ao centro comercial. Deixa-me só</p><p>ligar à mãe da Sierra.</p><p>— Eu já liguei. Foi muito embaraçoso dizer que o meu pai não</p><p>queria deixar-me ir com o Tod.</p><p>— Pavoroso — concordou Michael.</p><p>— Seja como for, a senhora Phillips vem buscar-me dentro de dez</p><p>minutos. Então, dás-me algum dinheiro?</p><p>— Quanto queres?</p><p>— Cinquenta.</p><p>— Dólares?</p><p>— Muito bem — disse Betsy suspirando com dramatismo. —</p><p>Vinte e cinco.</p><p>Michael vasculhou o bolso e tirou a carteira. Enquanto contava as</p><p>notas, Betsy guinchou.</p><p>— Chegaram! Dá-me o dinheiro, pai. Agora! Depressa! Eles</p><p>podem ir-se embora.</p><p>— Vou acompanhar-te ao carro.</p><p>— Não!</p><p>Michael sorriu.</p><p>Betsy fez uma careta.</p><p>— Como queiras.</p><p>Michael acompanhou a filha à saída de casa e até ao fundo da</p><p>rua, onde uma carrinha azul aguardava.</p><p>Não restavam dúvidas de que era uma mulher que estava ao</p><p>volante.</p><p>— Toma, Betsy — disse Michael, dando-lhe trinta dólares.</p><p>Ela arrebatou-lhos da mão como uma ave de rapina agarra a sua</p><p>presa e murmurou algo que podia ser considerado</p>
<p>da liberdade. Não deixes que os maus te derrotem. Nós</p><p>protegemos os inocentes protegendo os culpados. É assim que as</p><p>coisas funcionam.</p><p>Preferia que me calhassem mais inocentes, pai.</p><p>Não preferíamos todos? Todos ansiamos por isso. Por aquele</p><p>caso, aquele que fará a diferença. Sabemos, melhor do que a</p><p>maioria das pessoas, qual é a sensação de salvar a vida de alguém.</p><p>De marcar a diferença. É isso que fazemos, Michael. Não percas a</p><p>fé.</p><p>Michael contemplou o lugar vazio à sua frente.</p><p>Já há onze meses que ia sozinho para o emprego. Lembrava-se</p><p>do dia em que o pai estava ao seu lado, saudável, bem-disposto e a</p><p>falar da lei que adorava. Depois adoeceu. Estava a morrer.</p><p>Ele e o pai tinham sido sócios durante quase vinte anos,</p><p>trabalhando lado a lado, e o facto de o perder abalara Michael</p><p>profundamente. Lamentava o tempo que não haviam aproveitado;</p><p>acima de tudo, sentia-se sozinho de uma maneira que constituía</p><p>uma novidade para ele. A perda também o obrigara a olhar para a</p><p>sua própria vida e não gostara do que viu.</p><p>Até à morte do pai, Michael sempre se sentira afortunado, feliz;</p><p>agora, não sentia nada disso.</p><p>Tinha vontade de falar com alguém sobre o assunto, partilhar a</p><p>sua perda. Mas com quem? Não podia falar com a mulher. Não com</p><p>Jolene, que acreditava que a felicidade era uma escolha que se fazia</p><p>e que um sorriso era uma careta virada de pernas para o ar. A sua</p><p>infância turbulenta e desagradável tinha-a deixado impaciente com</p><p>as pessoas que não escolhiam ser felizes. Nos últimos tempos, isso</p><p>enervava-o, todos os otimistas lugares-comuns de que «tudo vai</p><p>melhorar». Por ter perdido os pais, Jolene julgava entender o que</p><p>era o desgosto, mas não fazia a mínima ideia de como era alguém</p><p>estar a ir-se abaixo. Como havia de saber? Era dura como uma</p><p>pedra.</p><p>Michael tamborilou com a caneta em cima da mesa e lançou um</p><p>olhar pela janela. O estreito apresentava hoje um tom cinzento</p><p>plúmbeo, parecendo desolado, misterioso. Uma gaivota pairou sobre</p><p>uma corrente de ar invisível, numa animação aparentemente</p><p>suspensa.</p><p>Não devia ter cedido perante Jolene, há tantos anos, quando ela</p><p>implorara pela casa em Liberty Bay. Dissera-lhe que não queria</p><p>morar tão longe da cidade — ou tão perto dos seus pais, mas no fim</p><p>acabara por ceder, influenciado pelas lindas súplicas dela e pelo</p><p>sólido argumento de que iriam precisar da ajuda da mãe dele para</p><p>tomar conta das crianças. No entanto, se não tivesse cedido, se não</p><p>tivesse perdido a contenda sobre onde-iremos-morar, não estaria ali</p><p>sentado no ferry todos os dias, sentindo saudades do homem que</p><p>costumava estar ali consigo…</p><p>Quando o ferry abrandou, Michael pôs-se de pé e recolheu os</p><p>seus papéis, arrumando outra vez o depoimento na pasta preta de</p><p>pele de cordeiro. Nem sequer olhara para os documentos.</p><p>Embrenhando-se no meio da multidão, Michael desceu as escadas</p><p>até ao convés dos automóveis. Em poucos minutos, encontrou-se ao</p><p>volante do carro saindo do ferry e chegando à Smith Tower, em</p><p>tempos o edifício mais alto a oeste de Nova Iorque e agora uma</p><p>nota de rodapé velha e gótica numa cidade em ascensão.</p><p>Na Zarkades, Antham e Zarkades, no nono andar, tudo era velho</p><p>— soalhos, janelas a precisar de reparação, demasiadas demãos de</p><p>tinta —, mas, a exemplo do próprio edifício, havia aqui uma história</p><p>e também beleza. Uma parede de janelas com vista para Elliott Bay</p><p>e os enormes guindastes cor de laranja que carregavam contentores</p><p>para dentro de cargueiros. Alguns dos maiores e mais importantes</p><p>processos criminais dos últimos vinte anos tinham sido defendidos</p><p>por Theo Zarkades, a partir daqueles escritórios. Em reuniões da</p><p>Ordem, outros advogados ainda comentavam a capacidade do seu</p><p>pai em persuadir um júri de uma maneira muito próxima da</p><p>reverência.</p><p>— Olá, Michael — disse a rececionista, sorrindo-lhe.</p><p>Michael acenou com a mão e continuou a andar, passou pelos</p><p>estagiários com ar sério, pelas fatigadas secretárias jurídicas e pelos</p><p>ambiciosos e jovens juristas associados. Toda a gente lhe sorriu, e</p><p>ele retribuiu-lhes os sorrisos. No gabinete de canto — que antes</p><p>pertencera ao pai e agora era o seu — parou para dar uma palavra à</p><p>secretária.</p><p>— Bom dia, Ann.</p><p>— Bom dia, Michael. Bill Antham queria falar consigo.</p><p>— Está bem. Diga-lhe que já cheguei.</p><p>— Quer café?</p><p>— Sim, obrigado.</p><p>Dirigiu-se para o seu gabinete, o maior do escritório. Uma</p><p>enorme janela dava para a Elliott Bay; essa era na verdade a</p><p>protagonista da sala: a vista. Fora isso, o gabinete era comum —</p><p>estantes repletas de livros de Direito, um soalho de madeira</p><p>manchado por décadas de uso, um par de confortáveis poltronas</p><p>estofadas, um sofá de camurça preta. Uma única fotografia familiar</p><p>repousava ao lado do computador; o único toque pessoal do espaço.</p><p>Atirou a pasta para cima da secretária e encaminhou-se na</p><p>direção da janela, contemplando a cidade que o seu pai tanto</p><p>amara. Refletida no vidro viu uma imagem fantasmagórica de si</p><p>próprio — cabelo preto ondulado, maxilar forte e quadrado, olhos</p><p>escuros. A imagem do pai mais jovem. Mas ter-se-ia o pai alguma</p><p>vez sentido assim, tão cansado e esgotado?</p><p>Ouviu bater na porta atrás de si, e depois esta abriu-se. Na sala</p><p>entrou Bill Antham, o único sócio da firma além dele e em tempos o</p><p>melhor amigo do seu pai. Nos meses que haviam passado desde a</p><p>morte do pai, Bill também envelhecera. Talvez isso tivesse</p><p>acontecido a todos.</p><p>— Olá, Michael — saudou, entrando e caminhando com</p><p>dificuldade, lembrando a Michael a cada passo que dava que a idade</p><p>da reforma já passara há muito.</p><p>Só no último ano fora operado aos dois joelhos.</p><p>— Sente-se, Bill — disse Michael, indicando a cadeira mais</p><p>próxima da secretária.</p><p>— Obrigado — disse ele, sentando-se. — Preciso de um favor.</p><p>Michael voltou para a sua secretária.</p><p>— Claro, Bill. O que posso fazer por si?</p><p>— Estive ontem em tribunal, e calhou-me o juiz Runyon.</p><p>Michael suspirou e sentou-se. Era bastante comum o tribunal</p><p>atribuir casos aos advogados de defesa criminal. Fazia jus à velha</p><p>máxima de caso necessite de um advogado e não puder pagar. Os</p><p>juízes muitas vezes atribuíam um determinado caso a qualquer</p><p>advogado que calhasse estar presente quando surgia a ocasião.</p><p>— Qual é o caso?</p><p>— Um homem que matou a mulher. Alegadamente. Barricou-se</p><p>dentro de casa e matou-a com um tiro na cabeça. A equipa de</p><p>operações especiais arrastou-o para fora à força antes de ele ter</p><p>oportunidade de se suicidar. A televisão filmou a maior parte do</p><p>ocorrido.</p><p>Um cliente culpado que fora filmado pela televisão. Perfeito.</p><p>— E quer que me ocupe do caso no seu lugar.</p><p>— Não te pediria… mas a Nancy e eu partimos para o México</p><p>dentro de duas semanas.</p><p>— Claro — retorquiu Michael. — Não há problema.</p><p>O olhar de Bill passeou-se pela sala.</p><p>— Ainda estou à espera de encontrá-lo aqui — murmurou.</p><p>— Pois — disse Michael.</p><p>Olharam um para o outro durante uns momentos, recordando-se</p><p>do homem que tanto impacto causara nas suas vidas. Bill levantou-</p><p>se, voltou a agradecer a Michael e saiu da sala.</p><p>Depois disso, Michael mergulhou de cabeça no trabalho,</p><p>deixando que este o consumisse. Passou horas soterrado em</p><p>depoimentos, relatórios da polícia e testemunhos. Sempre fora um</p><p>homem com uma forte ética profissional e um sentido do dever</p><p>ainda mais forte. Na maré ascendente do desgosto, o trabalho</p><p>tornara-se a sua tábua de salvação.</p><p>Às três horas, Ann chamou-o pelo intercomunicador.</p><p>— Michael? Tem a Jolene na linha um.</p><p>— Obrigado, Ann.</p><p>— Lembrou-se de que hoje é o aniversário dela, não lembrou?</p><p>Merda.</p><p>Afastou a cadeira da secretária e pegou no telefone.</p><p>— Olá, Jo. Feliz aniversário.</p><p>— Obrigada.</p><p>Jolene não o repreendeu por se ter esquecido, muito embora</p><p>soubesse que realmente se havia esquecido. Ela era das pessoas</p><p>que conhecia quem melhor controlava as emoções e nunca se</p><p>permitia ficar furiosa. Michael por vezes interrogava-se se uma boa</p><p>discussão não poderia ajudar o seu casamento, mas eram precisos</p><p>dois para discutir.</p><p>— Vou compensar-te pelo esquecimento. Que tal um jantar</p><p>naquele restaurante sobre a marina? Aquele novo?</p><p>Antes de Jolene poder oferecer algum tipo de resistência</p>
<p>como uma</p><p>despedida.</p><p>A condutora baixou o vidro do carro.</p><p>— Olá — disse para Michael. — Chamo-me Stephanie. Parece-me</p><p>que a Betsy achou que seria o Tod quem viria a conduzir.</p><p>A mulher sorriu.</p><p>— Muito pouco provável.</p><p>Michael retribuiu-lhe o sorriso.</p><p>— É bom saber disso. Lembro-me de quando tinha dezoito anos.</p><p>A concentração ao volante não era o meu forte.</p><p>— O meu marido diz a mesma coisa — retorquiu Stephanie</p><p>lançando um olhar para o banco de trás, e depois debruçando-se</p><p>mais um pouco. — É bom ver as miúdas juntas de novo. Como está</p><p>a Jolene?</p><p>As pessoas estavam sempre a fazer-lhe essa pergunta. Nunca</p><p>sabia ao certo o que havia de responder.</p><p>— Está ótima.</p><p>— Diga-lhe que mandei cumprimentos.</p><p>— Direi.</p><p>Michael recuou, ficando a ver o carro descer a rua e afastar-se</p><p>em seguida.</p><p>Voltou para casa. Parou no alpendre e olhou em volta. A luz do</p><p>sol derramava-se através da cerca branca, iluminando as almofadas</p><p>desbotadas da cadeira. A relva na frente da casa continuava a</p><p>apresentar um intenso e luxuriante tom de verde — o calor do verão</p><p>ainda não chegara ali. Lá em baixo, do outro lado da rua, pôde ver</p><p>uma família reunida, fazendo uma fogueira e juntando umas</p><p>cadeiras para um dia na praia. Num ano normal, Jolene já estaria lá</p><p>em baixo, organizando geleiras e cadeiras.</p><p>Michael tornou a entrar em casa.</p><p>— Oh, Lulu — disse, fechando a porta atrás de si. — Queres</p><p>ajudar-me a procurar a nossa bandeira?</p><p>CAPÍTULO 12</p><p>Querida Mãe,</p><p>Tive o melhor fim de semana de SEMPRE! Não vais acreditar</p><p>no que aconteceu. Vou começar pelo princípio. Primeiro,</p><p>recebi o meu telemóvel — lembras-te disso — e a Sierra</p><p>achou-o muito fixe e sentámo-nos ao pé uma da outra.</p><p>Depois ela falou comigo na aula de Educação Física, e DEPOIS</p><p>meteu-se numa discussão com a Zoe, porque a Zoe mentiu-</p><p>lhe descaradamente sobre o que o Jimmy disse acerca dela.</p><p>Por conseguinte, a Sierra é minha amiga outra vez! Na</p><p>semana passada fomos ao centro comercial juntas e vimos o</p><p>filme Guerra dos Mundos, que foi muito fixe.</p><p>E sabes que mais? A Zoe estava lá e nós nem sequer</p><p>falámos com ela.</p><p>O pai diz que eu e a Sierra podemos ir para o</p><p>acampamento andar de caiaque em julho. Fixe, não achas?</p><p>Então, é tudo. As coisas estão ótimas por aqui.</p><p>A Lulu já não acha que está invisível o tempo todo, o que</p><p>é bom. Fizemos o papá hastear uma bandeira.</p><p>Bem, tenho de ir. O pai está a encomendar uma piza para</p><p>o jantar outra vez, e eu quero a minha com ananás. Tem</p><p>cuidado, mãe.</p><p>Saudades, B.</p><p>P.S.: A Sierra quer saber se já disparaste contra alguém?</p><p>Já?</p><p>Querida Betsy,</p><p>Uau. Isso é que são novidades! Fico muito satisfeita em</p><p>saber que reataste a amizade com a Sierra. Vocês as duas são</p><p>amigas há muito tempo, esse tipo de relações é importante.</p><p>MAS também quero que tomes cuidado. Ainda não me esqueci</p><p>daquele episódio da Sierra com os cigarros, e, para ser franca,</p><p>acho que às vezes ela é capaz de ser uma menina muito má.</p><p>Tem atenção.</p><p>Também deves pensar no que sentiste quando a Sierra e a</p><p>Zoe te puseram de lado. Queres mesmo ser uma pessoa</p><p>assim, que trata os outros dessa maneira? Que magoa os</p><p>sentimentos de uma miúda por puro prazer? Sê simpática com</p><p>a Zoe. Sê o tipo de menina que eu sei que podes ser.</p><p>Fico feliz, no entanto, por estares a ter um verão divertido.</p><p>Quem me dera estar aí. Sinto muitas saudades vossas.</p><p>E não te preocupes comigo. Sei que viste a reportagem na</p><p>CNN, mas estou ótima. Isto aqui é perigoso, é verdade. Mas,</p><p>na maior parte do tempo, eu e a Tami andamos a voar bem</p><p>longe das zonas piores. Transportamos um monte de gente</p><p>importante de um lado para o outro, assim como</p><p>mantimentos. Não precisas ficar preocupada comigo. A sério.</p><p>Adoro-te até ao infinito. Mãe</p><p>P.S.: Diz ao teu pai que já chega de piza! E não, ainda não</p><p>matei ninguém. A Sierra perguntou-te mesmo isso?</p><p>JULHO DE 2005</p><p>Uma vez li um livro de Stephen King que usava o termo</p><p>MMDD. «Mesma merda, dia diferente.» É mais ou menos isso</p><p>que o último mês no Iraque tem sido. Dia após dia a levantar</p><p>às 00h30, hora negra, recebendo instruções para as missões,</p><p>inspecionando o helicóptero, e voando por aí.</p><p>Hoje estive de serviço durante mais de catorze horas. Para</p><p>ser franca, eu e a Tami estamos tão cansadas a maior parte</p><p>do tempo que mal falamos uma com a outra antes de</p><p>adormecermos. O calor e o pó são insuportáveis. Na maioria</p><p>dos dias, a temperatura atinge mais de cinquenta e um graus,</p><p>tenho de usar capacete, luvas e Kevlar. Bem, o cheiro que</p><p>devo ter depois de uma missão não deve ser nada agradável.</p><p>Temos voado muito de noite, o que é melhor, pelo menos</p><p>no que toca ao calor. Às vezes temos de dar apoio aos tipos</p><p>da evacuação médica, e devo confessar que não é tarefa fácil.</p><p>Não sou capaz de tirar essas imagens da minha cabeça —</p><p>soldados estropiados pelas explosões, ensanguentados,</p><p>gritando por ajuda.</p><p>Ainda ontem, dei por mim sentada ao pé de um miúdo no</p><p>lado de fora de uma das tendas hospitalares. Era jovem —</p><p>não tinha mais de vinte e cinco anos —, e eu sabia que ele</p><p>não ia conseguir sobreviver. Não sou médica, e, mesmo</p><p>agora, não consigo descrever os seus ferimentos. Eram</p><p>demasiado horrendos. Apenas sabia, é tudo. Seja como for,</p><p>segurei-lhe na mão e ouvi-o falar; na maior parte das vezes, o</p><p>que ele não parava de repetir era: «Diga à minha mulher que</p><p>a amo.» Prometi que lho diria e vou escrever-lhe uma carta —</p><p>que mais posso eu fazer? Contudo, quando o deixei, quando</p><p>ele morreu, e eu estava ali de pé, parada, a ouvir a guerra</p><p>prosseguir, os médicos a gritar e um helicóptero a aterrar</p><p>algures ali perto, pensei: «O que diria eu num final como</p><p>aquele?» É claro que estaria a pensar nas minhas filhas, a</p><p>quem amo mais do que tudo no mundo, mas… E Michael? Sei</p><p>que ele já não me ama — se as palavras não fossem</p><p>suficientes para prová-lo, a ausência de mensagens desde que</p><p>parti deixa bem clara a posição dele —, mas será que eu</p><p>ainda o amo?</p><p>A verdade é que, no fim, lhe estenderia a mão. Sei que o</p><p>faria. Estender a mão a um homem que já não quer estar</p><p>aqui.</p><p>Tal como a minha mãe.</p><p>Em finais de julho, Michael e as miúdas já haviam estabelecido</p><p>uma rotina aceitável. Betsy esteve agora num acampamento de</p><p>verão que durou a semana toda em Orcas Island, onde aprendeu a</p><p>andar de caiaque; Lulu foi passar o fim de semana com a avó. Da</p><p>última vez que o pai falou com ela, estavam a fazer coisas com</p><p>macarrão seco.</p><p>Sem elas, a casa estava silenciosa. Talvez demasiado silenciosa.</p><p>Estava a fazer-se tarde; a noite começava a cair. Depois de um longo</p><p>dia no escritório, Michael chegara a casa, comera uma tigela de</p><p>cereais com passas e depois voltou a deitar mãos ao trabalho.</p><p>Recebera por fim uma cópia dos registos militares de Keith Keller e</p><p>tinha os documentos espalhados em cima da mesa da cozinha,</p><p>juntamente com transcrições de entrevistas. Na última semana</p><p>falara com Ed e com a mulher dele, assim como com o doutor</p><p>Cornflower. Havia também uma lista de potenciais testemunhas,</p><p>militares e civis.</p><p>De acordo com todos os depoimentos, Keith fora um rapaz</p><p>comum de uma cidade pequena antes de partir para a guerra.</p><p>Ganhou bolsas de estudo locais, praticou basebol e terminou o</p><p>secundário. Perdeu-se de amores pela vizinha do lado. Realizaram o</p><p>casamento no clube local, complementado por um DJ e bebidas</p><p>pagas à parte, e foram para Honolulu em lua de mel.</p><p>E depois: o 11 de Setembro.</p><p>Aquele dia mudou o curso da vida de Keith. Tinha um amigo que</p><p>ia no Voo 93, um colega de turma que fora até à Costa Leste visitar</p><p>algumas universidades. Quando Keith soube do acidente com o</p><p>avião e do súbito e inesperado perigo de terrorismo em solo</p><p>americano, alistou-se nos fuzileiros.</p><p>Ele era esse tipo de rapaz, declarou Ed, abanando a cabeça.</p><p>Keith queria fazer parte da solução.</p><p>E lá foi o Keith primeiro para um campo de treino e, depois, para</p><p>a guerra. Efetuou duas missões no Iraque, e, sempre que</p><p>regressava, o pai considerou que via cada vez menos do rapaz que</p><p>criara.</p><p>Michael examinou com brevidade a pesquisa que a sua equipa</p><p>compilara. Keith esteve no Triângulo Sunita, uma das regiões mais</p><p>mortíferas da guerra. As bombas na berma</p>
<p>da estrada atingiam a</p><p>minha brigada pelo menos duas vezes por dia, todos os dias,</p><p>durante um ano, afirmara Keith. É muita merda a explodir à nossa</p><p>volta. Muitos dos nossos amigos a morrer. Quando regressei a casa,</p><p>os sons eram o pior. Quando alguém batia com uma porta ou havia</p><p>um estrondo do escape de um carro, atirava-me para o chão. A luz</p><p>repentina podia deixar-me em pânico.</p><p>Michael recostou-se na cadeira. Porque não havia tido</p><p>conhecimento de tudo aquilo? Das mortes e da devastação? Dos</p><p>ferimentos que os nossos soldados sofriam? Estamos em 2005,</p><p>caramba. A guerra já durava há um tempo. A verdade deveria ter</p><p>sido mais evidente. Os noticiários da noite deveriam apresentar mais</p><p>imagens de caixões envoltos em bandeiras transportados em aviões</p><p>de carga, de heróis que regressavam a casa dentro de caixas.</p><p>Pôs-se pé, afastando-se da mesa. O caso Keller estava a começar</p><p>a perturbá-lo profundamente, e não pelas razões habituais. Quanto</p><p>mais lia sobre o seu cliente, mais preocupado ficava com Jolene.</p><p>Tirou uma cerveja do frigorifico, abriu-a e saiu de casa, ficando</p><p>no alpendre. Ali, tocou nas costas de vime branco da cadeira que</p><p>estava a seu lado. «Para quê comprar móveis novos?», dissera</p><p>Jolene quando encontraram esta cadeira abandonada na berma da</p><p>estrada. Nessa altura, tinham mais amor do que dinheiro e ele era</p><p>incapaz de lhe negar o que quer que fosse, até mesmo uma cadeira</p><p>rasca e usada. «Quero uma cadeira que tenha uma história para</p><p>contar.»</p><p>A noite apresentava-se calma à sua volta. Algures, um coiote</p><p>uivou; era um som lamentoso.</p><p>Na estrada lá em baixo, uma bicicleta cortou para a entrada da</p><p>casa dos Flynn — era Seth. Michael teve uma súbita recordação dos</p><p>anos em que Betsy e Seth passavam a vida a andar de bicicleta</p><p>juntos, e Jolene se preocupava tanto…</p><p>Acenou a Seth.</p><p>Ele viu-o e pedalou da entrada de uma casa para outra.</p><p>— Olá, Seth — saudou Michael quando o rapaz se aproximou da</p><p>luz projetada pelos apliques da garagem.</p><p>Como sempre, tinha um ar escanzelado e esquisito, com as suas</p><p>maçãs do rosto achatadas e cabelo preto liso. Naquela noite estava</p><p>todo vestido de preto. Não era lá grande ideia quando se andava de</p><p>bicicleta à noite.</p><p>Seth desmontou da bicicleta, segurando-a a seu lado.</p><p>— Olá, senhor Z.</p><p>— Como estás, Seth?</p><p>Ele encolheu os ombros.</p><p>— Estou ótimo, acho eu. A minha avó veio ficar comigo. Alugou</p><p>um filme para vermos hoje à noite. O mais provável é ser um filme</p><p>infantil em que o personagem principal é um cão que fala. O pai</p><p>teve de ir a Ellensburg esta semana por causa de uma peça</p><p>qualquer para automóveis. A Betsy ainda está no acampamento?</p><p>Michael anuiu com uma inclinação de cabeça.</p><p>— Até domingo.</p><p>— Oh.</p><p>Michael franziu o sobrolho.</p><p>— Queres uma Coca-Cola?</p><p>Seth sorriu, exibindo o aparelho nos dentes.</p><p>— Baril.</p><p>Presumindo que isso fosse um «sim», Michael entrou para ir</p><p>buscar o refrigerante. Quando voltou para o alpendre, Seth estava</p><p>encostado à balaustrada; a bicicleta encontrava-se a seu lado no</p><p>acesso de gravilha.</p><p>Michael sentou-se. Deveria conhecer este miúdo muitíssimo bem</p><p>— afinal de contas, andava por ali desde sempre; em tempos, ele e</p><p>Betsy haviam sido inseparáveis — mas, para falar a verdade, mal</p><p>trocara dez palavras com Seth em todos esses anos. O mesmo</p><p>acontecia com Carl. Michael não tinha muita coisa em comum com</p><p>eles. Até agora.</p><p>— Então, Seth, o que se passa entre ti e a Betsy? Vocês eram</p><p>unha e carne, e, de um dia para o outro, desapareceste.</p><p>— Ela começou a dar-se com umas certas raparigas. Eu chamo-</p><p>lhes «cabras maldosas». A Sierra e a Zoe. Acham-me um fracassado.</p><p>Agora a Betsy também concorda com elas.</p><p>Michael franziu o sobrolho.</p><p>— Não creio que ela alguma vez tenha dito isso.</p><p>— Pense bem — resmungou Seth entredentes. — Não sou o</p><p>miúdo mais popular da escola.</p><p>— Eu também não era — retorquiu Michael. — E o defesa da</p><p>equipa… Jerry Lundberg, a propósito… está a cumprir pena. É muito</p><p>provável que o secundário tenha sido o ponto culminante da vida</p><p>dele.</p><p>Seth bebeu um gole de Coca-Cola. Depois disse:</p><p>— Houve um bombardeamento ontem. Vi na CNN. Um</p><p>helicóptero foi abatido. Sabia que quando um dos nossos soldados é</p><p>morto, eles encerram as comunicações na base aérea até que os</p><p>familiares sejam notificados? Estive à espera de um telefonema. No</p><p>entanto, as duas estão bem.</p><p>Michael tinha passado o dia no tribunal. Não vira as notícias</p><p>quando chegou a casa.</p><p>— Não sabia — afirmou, com voz tensa.</p><p>— A minha mãe está sempre a enviar-me fotografias dela com a</p><p>Jo. Parecem fotografias de férias; raparigas que só querem divertir-</p><p>se. Pensa que eu sou estúpido.</p><p>— Não — retorquiu Michael em voz baixa. — A razão não é essa.</p><p>Seth olhou para ele.</p><p>— O meu pai diz que precisamos de acreditar que ela está bem,</p><p>e que assim ela ficará bem.</p><p>— Pois — disse Michael, baixando os olhos para o que restava da</p><p>sua cerveja.</p><p>— Tenho medo de me esquecer dela.</p><p>Michael desviou o olhar. Compreendia como isso podia acontecer,</p><p>como é possível esquecermos uma pessoa. Não foi o que ele mesmo</p><p>fez? Não se esquecera de Jolene embora ela se encontrasse mesmo</p><p>ali ao seu lado?</p><p>Não se apercebeu de há quanto tempo estava em silêncio, mas</p><p>depois Seth pigarreou e disse:</p><p>— Obrigado pela Coca-Cola, senhor Z. É melhor ir andando para</p><p>casa. A minha avó chama a Guarda Nacional quando chego</p><p>atrasado… e, na nossa família, isso não é uma piada. Ela telefona a</p><p>Ben Lomand e ele repreende-me.</p><p>Michael sorriu.</p><p>— Gostei de falar contigo, Seth. Dá cumprimentos meus ao teu</p><p>pai.</p><p>Enquanto o rapaz se afastava, Michael acrescentou:</p><p>— Devias aparecer às vezes cá por casa para visitar a Betsy.</p><p>Seth virou-se para ele. A tristeza nos seus olhos escuros</p><p>surpreendeu Michael.</p><p>— Quem me dera.</p><p>Se Dante tivesse vivido nos tempos modernos, Michael não teria</p><p>dúvidas de que uma ida ao centro comercial com as filhas teria sido</p><p>classificada como um dos círculos do inferno. Em especial quando se</p><p>lá vai à procura de um presente de aniversário para a, de novo,</p><p>melhor amiga da filha de doze anos. Até ao momento, já ali se</p><p>encontravam há uma hora e ainda não tinham descoberto nada.</p><p>Michael já estava tão farto de ver bandoletes cintilantes, t-shirts</p><p>decotadas e posters de boys bands que só lhe apetecia gritar.</p><p>Neste momento encontravam-se no Wal-Mart, deambulando pela</p><p>secção de maquilhagem. Lulu parecia um pitbull a puxar pela trela;</p><p>não parava de pegar na mão de Michael, avançando a correr,</p><p>impelindo-o a ir em direção a alguma coisa barata e reluzente.</p><p>— Olha ali — disse Betsy, apontando para uma pequena maleta</p><p>cor de rosa ofuscante que continha uma enorme variedade de</p><p>artigos de maquilhagem. — Ela vai gostar disto.</p><p>— A Sierra tem autorização para usar maquilhagem?</p><p>Betsy fulminou-o com o tal Olhar.</p><p>— Eu sou a única que não tenho.</p><p>Michael olhou para ela, vendo o rímel esborratado por debaixo</p><p>dos olhos e o blush que se assemelhava a uma pintura de guerra.</p><p>— Muito bem. Não tens mesmo. Ótimo. Compra isso. Vamos</p><p>embora.</p><p>— É caro.</p><p>— Compra.</p><p>Na verdade, Michael teria pagado qualquer quantia só para poder</p><p>sair dali.</p><p>Lulu disse:</p><p>— Eu também quero uma coisa, papá — e puxou-lhe pela mão.</p><p>— Preciso de papel de embrulho e de um cartão — disse Betsy.</p><p>Michael teve a certeza de que gemeu em voz alta. Ainda assim,</p><p>acompanhou a filha saindo da secção de maquilhagem e dirigindo-se</p><p>ao que quer que viesse a seguir, não parando de ouvir Lulu aos</p><p>gritos: «Para, pai! Quero aquilo, aquilo e mais aquilo!»</p><p>Na secção de embrulhos de presentes, Betsy parou tão de</p><p>repente que o pai esbarrou nela. Lulu berrou:</p><p>— Bolas, Betsy…</p><p>— Tenho de ir à casa de banho — anunciou Betsy.</p><p>— Vá lá, Betsy, não podes esperar até…</p><p>Ela virou-se para o pai.</p><p>— Agora. Já.</p><p>A filha disse aquilo com tamanha veemência que Michael franziu</p><p>a testa. Com mais um suspiro, acompanhou-a até às casas de</p><p>banho, apesar de isso ter enfurecido Betsy, fazendo-a sibilar</p><p>entredentes para que deixasse de andar atrás dela, mas o que havia</p><p>ele de fazer? Nos últimos tempos adquirira um medo irracional de</p><p>poder perder uma das filhas. Tinha pesadelos em que dizia para Jo:</p><p>«Não sei. Só desviei</p>
<p>o olhar por um segundo.»</p><p>Sentou-se numa das cadeiras desconfortáveis disposto a esperar.</p><p>— Papá, brinca ao «jogo das palmas» — disse Lulu, erguendo as</p><p>mãos como um mimo.</p><p>— Hã?</p><p>Antes de Lulu ter tempo de começar a choramingar, Betsy saiu da</p><p>casa de banho, com ar pálido e expressão aterrada. Caminhava de</p><p>maneira esquisita, como se os seus joelhos já não fossem capazes</p><p>de fletir como deve ser.</p><p>Michael pôs-se de pé, preocupado no mesmo instante.</p><p>— Betsy?</p><p>Ela olhou em volta. Quando Michael disse o seu nome de novo,</p><p>mais alto, sobressaltou-se.</p><p>— Chhhiiiuuu.</p><p>Michael aproximou-se mais.</p><p>— Querida? O que se passa?</p><p>Betsy ergueu os olhos para o pai. A boca tremia-lhe e tinha os</p><p>olhos esbugalhados.</p><p>— Apareceu-me o período.</p><p>O estômago de Michael sofreu literalmente um colapso.</p><p>— Oh.</p><p>— O que é um período? — perguntou Lulu em voz alta e a irmã</p><p>tapou-lhe a boca com a mão.</p><p>Lulu guinchou de imediato.</p><p>— Para com isso, Lulu — sibilou Michael, perguntando depois a</p><p>Betsy: — E agora o que fazemos?</p><p>— Preciso de… qualquer coisa.</p><p>— Qualquer coisa. Certo.</p><p>Do que ela precisava era de uma mulher, mas essa não era uma</p><p>hipótese a considerar naquele momento. O pai pegou-lhe na mão e</p><p>levou-a de volta à loja. Betsy caminhava de um modo estranho,</p><p>sempre com as mãos atrás das costas, tapando a parte de trás das</p><p>calças.</p><p>Produtos de Higiene Feminina.</p><p>Não havia dúvidas quanto a isso. Michael contemplou as filas de</p><p>embalagens coloridas, tentando adivinhar o que a filha precisava.</p><p>Asas! Faixas adesivas! Absorvente!</p><p>Betsy parecia prestes a vomitar.</p><p>— Depressa, papá. Escolhe uma.</p><p>Vá lá, Michael. Não fraquejes. Toma uma decisão. Ela precisa de</p><p>ti agora.</p><p>— Muito bem — declarou com firmeza, aproximando-se dos</p><p>produtos, lendo as embalagens.</p><p>— Pai — sussurrou-lhe Betsy, pondo-se nas pontas dos pés. —</p><p>Despacha-te.</p><p>Michael não fazia a mínima ideia sobre o que tornava um produto</p><p>melhor do que o outro, por isso escolheu o mais caro e entregou-</p><p>lho.</p><p>Betsy arquejou.</p><p>— Não posso ser eu a comprar isso. E se está aqui alguém que</p><p>eu conheço? Oh, céus.</p><p>— Certo — respondeu Michael, assentindo com a cabeça. — Vou</p><p>ter contigo às casas do banho.</p><p>Betsy corou de gratidão e fugiu dali a correr. Michael pegou numa</p><p>Lulu contorcionista e queixosa ao colo. No caminho até à caixa,</p><p>cantarolou «períodoperíodoperíodo» a plenos pulmões. Sorriu</p><p>constrangido para a senhora que o atendeu, e depois apressou-se a</p><p>correr até às casas de banho, levando na mão um pequeno saco de</p><p>plástico.</p><p>Betsy estava à espera dele junto à parede do fundo, batendo</p><p>com o pé.</p><p>— Sabes… hã, como usar isto? — perguntou.</p><p>— Não é preciso tirar nenhum curso, pai.</p><p>Michael intuiu que Betsy pretendia ser sarcástica, mas a voz dela</p><p>não estava no tom certo. Ela pegou na embalagem e desapareceu</p><p>no interior da casa de banho.</p><p>Cerca de quinze minutos depois, saiu e olhou fixamente para o</p><p>pai. Parecia assustada e jovem; o que era irónico, já que isto</p><p>pressupunha o início da sua fase de mulher adulta. Voltou-se</p><p>devagar.</p><p>— Vê-se alguma coisa?</p><p>— Não — respondeu Michael em tom suave. — As tuas calças</p><p>estão perfeitas.</p><p>— Ufa! — exclamou Betsy.</p><p>— Já podemos ir embora agora? — choramingou Lulu.</p><p>Michael pegou na filha mais nova ao colo e saíram dali,</p><p>encaminhando-se mais uma vez para a secção de embrulhos.</p><p>Quando por fim escolheram o papel e o cartão e depois comprarem</p><p>fita-cola e fita, Lulu estava fora de controlo, mas as suas lamúrias e</p><p>o facto de estar constantemente a apontar para a irmã eram mais</p><p>fáceis de aguentar do que o silêncio de Betsy.</p><p>O carinho e a compaixão de Michael estavam com a filha. Sabia</p><p>que se tratava de um daqueles momentos que ficaria gravado e</p><p>seria sempre recordado como um dia em que a mãe se encontrava,</p><p>para grande desapontamento, ausente, e o pai a deixara ficar mal.</p><p>Queria oferecer-lhe qualquer coisa que apagasse a dor daquela</p><p>recordação quando ela olhasse para trás. Ia a pensar nisso quando</p><p>passaram pela secção de joalharia.</p><p>— Escuta, Betsy — disse —, queres furar as orelhas? Estão a</p><p>fazer uma promoção especial hoje.</p><p>Betsy ofegou e depois sorriu, exibindo as tiras vermelhas,</p><p>brancas e azuis do aparelho dos dentes.</p><p>— A mãe diz que só depois dos treze anos.</p><p>— Já estás lá muito perto. E agora és… uma mulher, suponho eu</p><p>— murmurou o pai, pouco à vontade ao dizer isso. — E não</p><p>precisamos de contar à tua mãe.</p><p>Betsy lançou os braços à volta do pescoço de Michael e abraçou-</p><p>o com força.</p><p>— Obrigada, pai.</p><p>— O quê? Eu TAMBÉM! — disse Lulu, elevando o tom de voz.</p><p>Michael estremeceu. Na realidade, a filha mais nova era dona de</p><p>um guincho penetrante digno de uma qualquer ave pré-histórica</p><p>presa numa armadilha. Olhou em volta, certo de que as pessoas</p><p>deveriam estar a olhar. Por favor, papá, porfavorporfavorporfavor…</p><p>Querida Mãe,</p><p>O pai disse que eu tinha que te escrever uma carta, e é</p><p>isso mesmo que estou a fazer agora. Apareceu-me o período.</p><p>No Wal-Mart. Com o pai.</p><p>Ele comprou-me pensos higiénicos que mais parecem</p><p>colchões de cama de casal. A mãe da Sierra diz que é isso que</p><p>acontece quando se manda um homem fazer o trabalho de</p><p>uma mulher. Ugh.</p><p>Obrigada por não estares presente quando precisei de ti.</p><p>AGOSTO</p><p>Caramba, como está calor! Estou a habituar-me de tal</p><p>maneira ao meu próprio suor e fedor que já nem sequer dou</p><p>pelo cheiro. Começo a sonhar com gelo. Quando durmo,</p><p>quero dizer.</p><p>O comandante convocou uma reunião na noite passada.</p><p>Disse-nos aquilo que todos nós já sabíamos — as missões</p><p>estão a tornar-se cada vez mais perigosas. Disparam contra</p><p>nós o tempo todo e aterramos sob tiroteio cerrado. Ao que</p><p>parece, vamos realizar mais ataques aéreos. Hurra!</p><p>E apareceu o período à Betsy sem eu lá estar. Para ser</p><p>franca, nem sequer sou capaz de escrever sobre isso, faz-me</p><p>sentir péssima. Estou a perder a vida dela. Estou a perdê-la.</p><p>Em meados de agosto, o doutor Cornflower entregou a avaliação</p><p>psiquiátrica de Keith que efetuara. O seu diagnóstico: caso extremo</p><p>de perturbação de stresse pós-traumático. E mais: o psiquiatra</p><p>emitiu uma opinião de que Keller estava apto a ir a julgamento, pois</p><p>compreendia plenamente a natureza do processo.</p><p>Isso significava que o julgamento era uma certeza. Fora marcada</p><p>uma data para a audiência.</p><p>Michael observou com atenção o conjunto de caras ansiosas,</p><p>ambiciosas e jovens sentadas à sua volta. Encontravam-se em torno</p><p>de uma mesa de reuniões. Cada um dos três juristas associados que</p><p>escolhera para a equipa de defesa licenciara-se com distinção e</p><p>trabalhava pelo menos sessenta horas por semana. Para se ser um</p><p>excelente advogado criminalista, era necessário ter garra, e eles</p><p>tinham-na.</p><p>— Já temos um ponto de partida. A perturbação de stresse pós-</p><p>traumático constitui, como todos sabem, uma defesa de capacidade</p><p>diminuída, o que significa que iremos usá-la para negar intenção.</p><p>Iremos provar que Keith não podia conceber a intenção específica de</p><p>matar a mulher; sem premeditação, não se trata de homicídio em</p><p>primeiro grau. Não preciso dizer-vos que algo menos do que isso</p><p>seria uma vitória neste caso. No entanto, os jurados gostam tanto</p><p>de capacidade diminuída como de insanidade, ou seja, nada, por</p><p>isso vamos precisar de peritos, testemunhas oculares e estatísticas.</p><p>Michael distribuiu tarefas — alguns iriam pesquisar sentenças</p><p>proferidas, outros, instruções de jurados, outros, precedentes</p><p>ocorridos no estado de Washington e noutros. Os demais iriam</p><p>redigir os cruciais requerimentos prévios.</p><p>— Quero descobrir todos os casos em todos os lugares onde a</p><p>perturbação de stresse pós-traumático… em especial relacionada</p><p>com o Iraque… tenha sido bem-sucedida e todos os casos em que</p><p>tenha sido contestada. Quero um esboço dos nossos argumentos de</p><p>modo a preparar uma defesa até segunda-feira. Hilary, começa já a</p><p>trabalhar nisso. Tens todos os relatórios e informações dos peritos</p><p>de que precisas. Certifica-te de que descobres todas as regras de</p><p>prova. Alguma pergunta?</p><p>Silêncio.</p><p>— Ótimo.</p><p>Pôs-se de pé e o resto da equipa imitou-o. Enquanto saíam da</p><p>sala de reuniões, Michael arrumou a pasta e encaminhou-se para o</p><p>seu gabinete. Durante as horas</p>
<p>seguintes, trabalhou no computador,</p><p>indo buscar todos os casos que foi capaz de encontrar de defesas</p><p>baseadas em perturbação de stresse pós-traumático.</p><p>Durante o trajeto de ferry a caminho de casa, ainda continuava a</p><p>trabalhar no caso. Releu o relatório de Cornflower, concentrando-se</p><p>especificamente na narração de Keller da sua própria história.</p><p>Em Ramadi, costumávamos apostar qual seria a tenda a</p><p>ser atingida pelo morteiro seguinte… Vinha a caminho da</p><p>tenda depois de ir fazer uma mija quando um morteiro atingiu</p><p>a nossa bateria… Não pudemos fazer a ponta de um corno…</p><p>Eles foram queimados vivos lá dentro, aos gritos… E depois</p><p>vieram os sacos… apanhámos partes de corpos… pernas,</p><p>braços… e pusemo-las em sacos e levámo-las de volta. É</p><p>esquisito apanhar do chão o braço de um amigo…</p><p>Michael pousou o relatório. «O que estaria a acontecer com</p><p>Jolene por lá? A que é que estaria ela a assistir?» Uma vez levantada</p><p>a questão, não podia ignorá-la. Michael pensou na mulher e, pela</p><p>primeira vez, imaginou o pior…</p><p>Ainda havia luz lá fora — cor de alfazema e lindíssima — quando</p><p>estacionou o carro em frente do Green Thumb.</p><p>A mãe veio recebê-lo à porta, parecendo preocupada.</p><p>— Desculpa, cheguei atrasado — disse Michael.</p><p>Mila tentou esquecer a desculpa do filho fazendo um gesto de</p><p>impaciência com a mão.</p><p>— A Betsy está transtornada. Aquela amiga dela… a Sierra…</p><p>telefonou-lhe há coisa de uma hora e contou-lhe que um piloto de</p><p>helicóptero do sexo feminino foi abatido hoje. Tentei acalmá-la,</p><p>mas…</p><p>Michael olhou por cima do ombro da mãe; viu Lulu no canto,</p><p>sentada a uma mesinha de jardim, fingindo servir chá à sua boneca</p><p>num copo de papel.</p><p>— Onde está ela?</p><p>— Lá fora, junto ao rochedo grande.</p><p>O filho assentiu com um aceno de cabeça.</p><p>— Vamos jantar ao Pot. Queres vir connosco?</p><p>— Adoraria, mas não posso. Eu e a Helen vamos mudar a</p><p>decoração da montra esta noite. Está a aproximar-se o Dia do</p><p>Trabalho… e começam os grandes saldos.</p><p>Michael debruçou-se e deu-lhe um beijo na face.</p><p>— Obrigado, mãe.</p><p>Com um suspiro, entrou na loja, passou pelas prateleiras repletas</p><p>de bugigangas, vasos e ferramentas de jardinagem. Parou por uns</p><p>instantes diante da porta das traseiras, reunindo forças, e depois</p><p>seguiu para o parque de estacionamento entre as lojas de Front</p><p>Street e a marina. Uma enorme pedra cinzenta sobressaía numa</p><p>área relvada com vista para as docas. Desde que ali vivia, as</p><p>crianças subiam, desciam e contornavam a rocha. Agora, avistou a</p><p>filha sentada lá no alto, com o cabelo louro despenteado pela morna</p><p>brisa estival, contemplando o mar. Centenas de barcos oscilavam</p><p>flutuando nas calmas águas sem ondulação lá em baixo.</p><p>Michael aproximou-se da rocha.</p><p>— Ora viva — disse, olhando para cima.</p><p>Betsy olhou para baixo, para o pai, com a cara pálida e cheia de</p><p>borbulhas devastada pelas lágrimas. Havia uma gravidade alarmante</p><p>estampada nos seus olhos.</p><p>— Olá, pai. Estás atrasado.</p><p>— Desculpa.</p><p>Enquanto Michael ali estava de pé, tentando lembrar-se de</p><p>algumas palavras sensatas para dizer, o alarme do relógio de Betsy</p><p>apitou. Betsy arrancou o relógio do pulso e atirou-o para o chão.</p><p>O pai curvou-se e apanhou-o, ouvindo o mesmo bipe-bipe-bipe</p><p>que a mulher estava a ouvir neste preciso momento, do outro lado</p><p>do mundo. Por um momento, imaginou-o, imaginou-a, olhando para</p><p>o relógio, provavelmente sentindo-se tão longe de casa.</p><p>— A tua mãe está ótima — disse por fim.</p><p>Tudo aquilo fora sem dúvida mais fácil antes do caso Keller,</p><p>quando conseguia acreditar nas cartas otimistas de Jolene e nas</p><p>suas garantias e afirmações de segurança. Agora, sabia como era.</p><p>Como iria ser capaz de consolar uma criança quando os receios dela</p><p>eram justificados e ele também partilhava deles?</p><p>— Não foi ela, Betsy.</p><p>Ela deslizou a fim de descer da rocha.</p><p>— Podia ter sido.</p><p>— Mas não foi — insistiu Michael com calma.</p><p>Os olhos da filha encheram-se de lágrimas com essas palavras, e</p><p>a boca tremeu-lhe. Michael podia ver-lhe compostura a desintegrar-</p><p>se em mil pedaços.</p><p>— Desta vez — replicou Betsy. — Estou a esquecer-me dela —</p><p>acrescentou, metendo a mão no bolso para tirar a fotografia mais</p><p>recente que Jolene lhe enviara, levantando-a à sua frente.</p><p>— Esta… esta não é ela. Ela não é apenas um soldado.</p><p>O que poderia Michael dizer-lhe que não fosse mentira?</p><p>— Vamos até ao Crab Pot e podemos ver a fotografia dela. Isso</p><p>vai fazer com que te recordes dela.</p><p>Betsy assentiu com a cabeça.</p><p>Não era suficiente.</p><p>Michael pegou-lhe na mão. Por vezes dar as mãos era tudo o que</p><p>se podia fazer.</p><p>Depois do jantar, Michael levou as filhas para casa e ficou a vê-</p><p>las a correr pelas escadas acima. Sentia-se exausto. Devia ter</p><p>adivinhado até que ponto o jantar no Crab Pot seria emocionante e</p><p>iria afetá-los. O espírito de Jolene estava tão intenso ali. Lulu e Betsy</p><p>passaram uns bons dez minutos a contemplar a polaroide da mãe</p><p>pregada na parede. Lulu nem sequer quis comer — limitou-se a ficar</p><p>ali agarrada às pequenas asas douradas a chorar.</p><p>Michael serviu-se de uma bebida e olhou pela janela</p><p>contemplando a noite que começava a cair sobre a baía. Ouviu Lulu</p><p>surgir atrás de si. Subiu pelo seu corpo como se fosse um macaco,</p><p>agarrando-se à anca do pai.</p><p>— A Betsy está a chorar, papá — disse naquela sua voz</p><p>estridente.</p><p>Michael beijou-a na testa, suspirando.</p><p>—É por causa da mamã — disse Lulu, e depois desatou a chorar.</p><p>— Ela perdeu-se ou magoou-se, não foi?</p><p>Michael abraçou Lulu com mais força.</p><p>— Não, querida. A mamã está ótima.</p><p>— Tenho saudades da mamã.</p><p>Michael embalou-a nos braços, acalmando-a até as lágrimas</p><p>secarem. Assim que ficou calma outra vez, sentou-a no sofá e pôs a</p><p>correr o DVD de A Pequena Sereia. Isso iria manter Lulu entretida</p><p>por um bocado. Tinha de ir para a cama, claro. Era tarde. Mas só</p><p>conseguia pensar em Jo, e no que poderia ter acontecido.</p><p>Não tomou qualquer decisão; em vez disso, deu por si a</p><p>encaminhar-se na direção do seu escritório. Entrou e fechou a porta.</p><p>Tinha as mãos a tremer; as pedras de gelo matraqueavam dentro do</p><p>copo.</p><p>Podia ter sido.</p><p>Deixou-se cair no sofá e curvou a cabeça. Betsy preocupava-se</p><p>com o facto de estar a esquecer-se da mãe. No entanto, ele já</p><p>esquecera Jolene há muito tempo, não era? Vivia com ela, dormia</p><p>com ela, e, mesmo assim, de alguma forma, esquecera-se da mulher</p><p>com quem casara. Lançou uma vista de olhos à sua esquerda e viu</p><p>uma fotografia emoldurada dele e de Jolene; fora tirada há muitos</p><p>anos, no parque de Seattle. Naquela altura eram ambos jovens e</p><p>estavam muito apaixonados. Olha para a família de patos, Michael,</p><p>esses seremos nós um dia, bamboleando-nos com os nossos bebés</p><p>a reboque. Nessa precisa imagem, no sorriso radioso de Jolene,</p><p>lembrou-se dela.</p><p>Sentiu-se um pouco trôpego quando se pôs de pé. Retirou um</p><p>álbum de fotografias da estante e uma velha cassete VHS. Enfiando-</p><p>os debaixo do braço, foi até à sala de estar, pediu a Lulu que o</p><p>acompanhasse, e subiu as escadas.</p><p>Bateu à porta do quarto de Betsy.</p><p>— Podemos entrar?</p><p>— Podem.</p><p>Michael pegou em Lulu ao colo, entrou com ela no quarto e</p><p>sentou-se na cama ao lado de Betsy. Instalando uma filha de cada</p><p>lado, abriu o álbum.</p><p>Ao centro da primeira página, coberta por um pedaço lustroso de</p><p>plástico transparente, estava uma das poucas fotografias que vira da</p><p>mulher em rapariga. Estava de pé numa elevação rochosa, usando</p><p>umas calças de ganga desbotadas e uma camisola barata com</p><p>decote em bico. Estava ligeiramente virada de lado para a câmara,</p><p>contemplando algum ponto invisível ao longe, com madeixas de</p><p>cabelo louro comprido caídas sobre a cara por causa do vento. Mais</p><p>para a esquerda havia um homem a afastar-se; tudo o que se podia</p><p>ver era a bainha de umas calças de ganga esfarrapadas e uma bota</p><p>preta puída.</p><p>Ela dissera-lhe muitas vezes ter escolhido aquela fotografia para</p><p>representar o início do trilho da sua vida porque era bastante</p><p>representativa: a mãe não estava presente e o pai preparava-se para</p><p>se ir embora. Michael vira aquela fotografia imensas vezes, mas</p><p>agora olhou para ela com atenção, reparou até que ponto ela</p><p>parecia sofrida, como estava magra. O seu</p>
<p>cabelo parecia não ver</p><p>um pente há semanas; nos olhos, a expressão de perda era</p><p>devastadora. Jolene estava a ver o homem a afastar-se. Porque não</p><p>reparara nisso antes?</p><p>— A mãe aqui tem cerca de quinze anos. Não é muito mais velha</p><p>do que tu, Bets.</p><p>— Parece triste — comentou Betsy.</p><p>— Isso é porque ainda não tínhamos nascido — disse Lulu,</p><p>repetindo o que a mãe dizia sempre em relação àquela fotografia.</p><p>Michael virava as páginas devagar, levando as filhas numa</p><p>viagem pela estrada da vida de Jolene. Havia fotografas dela com o</p><p>uniforme militar, sentada num helicóptero ou a jogar ao disco. Em</p><p>cada fotografia que se seguia, parecia mais alta, mais forte, mas foi</p><p>apenas quando chegaram à fotografia do casamento que Michael a</p><p>viu, a mulher por quem se apaixonara. Jolene sorriu e chorou</p><p>durante toda a cerimónia, dizendo-lhe que aquele era o dia mais</p><p>feliz da sua vida.</p><p>Das nossas vidas, dissera Michael, beijando-a. Estaremos sempre</p><p>apaixonados como agora, Jo.</p><p>É claro que estaremos, confirmou ela a rir, e durante anos e anos</p><p>acreditaram nisso, até que… deixaram de acreditar. Não, até que ele</p><p>deixou de acreditar.</p><p>— Ela está bonita — observou Lulu.</p><p>Michael sabia de tudo o que Jolene perdera na vida, as coisas</p><p>que nunca teve e as coisas que superou; contudo, em todas aquelas</p><p>fotografias, ela parecia incrivelmente feliz. Michael fizera-a feliz; era</p><p>algo que sempre soubera. Aquilo de que se esquecera foi do quanto</p><p>ela o fez feliz.</p><p>— Quando é que a mamã volta para casa? — perguntou Lulu. —</p><p>Amanhã?</p><p>— Em novembro — respondeu Betsy com um suspiro. — Só por</p><p>duas semanas.</p><p>— Oh! — Lulu emitiu um som curto e estridente. — Nessa altura</p><p>eu já vou ter cinco anos?</p><p>— Já — confirmou a irmã. — Mas ela não vai estar aqui para o</p><p>teu aniversário.</p><p>Antes de Lulu começar a chorar, Michael levantou-se e pôs uma</p><p>cassete no vídeo. Desde a mobilização da mãe, as garotas não</p><p>tinham parado de ver de forma obsessiva as «fitas de despedida»,</p><p>como ele gostava de lhes chamar — as gravações que Jolene fizera</p><p>para cada uma das filhas. Contudo, já não viam esta há bastantes</p><p>anos.</p><p>Michael carregou na tecla de arranque e o filme começou. Na</p><p>primeira cena via-se Jolene, de olhos ensonados, segurando um</p><p>bebé no colo. «Diz olá aos teus admiradores, menina Elizabeth. Ou</p><p>vais ser Betsy? Michael? Parece-te ter cara de Betsy?…»</p><p>Agora via-se Betsy a começar a andar, cambaleando, rindo</p><p>quando tropeçou e caiu… Jolene batia palmas e chorava, dizendo:</p><p>«Olha, Michael, não percas este…»</p><p>Doze anos da sua vida, passando numa cassete de quarenta e</p><p>dois minutos.</p><p>Michael carregou na tecla de paragem.</p><p>Ali estava ela, a sua Jo. O seu belo rosto estava distorcido,</p><p>desfigurado pelos píxeis da imagem sem movimento; no entanto,</p><p>mesmo nas cores cheias de grão e imprecisas, Michael via o poder</p><p>do sorriso dela.</p><p>Viu toda a sua vida nos olhos dela, todos os seus sonhos,</p><p>esperanças e medos.</p><p>Já não te amo.</p><p>Como fora capaz de lhe dizer uma coisa assim? Como podia ter</p><p>sido tão arrogante com a vida de ambos, com o compromisso que os</p><p>dois haviam assumido?</p><p>Queria dizer-lhe que lamentava tudo aquilo, mas o tempo e a</p><p>distância separavam-nos agora. Fosse o que fosse o que precisava</p><p>de dizer-lhe, teria de esperar até novembro. Quereria ela ao menos</p><p>ouvi-lo?</p><p>— Vamos às compras amanhã e vamos enviar-lhe uma</p><p>encomenda cheia de coisas fantásticas — propôs Betsy.</p><p>— Boa! — exclamou Lulu, batendo palmas.</p><p>O pai anuiu com um aceno de cabeça, na esperança de que elas</p><p>não reparassem nas lágrimas que lhe afloraram aos olhos.</p><p>Com o cinto de segurança apertado e sobrecarregada pelos cerca</p><p>de treze quilos e meio de placas metálicas de Kevlar do seu colete,</p><p>Jolene pilotava o Black Hawk rumo a Bagdade. O suor acumulava-se</p><p>sob o capacete, humedecia-lhe o cabelo, escorria-lhe pela nuca.</p><p>Tinha a pele avermelhada e afogueada; sentia alguma dificuldade</p><p>em respirar. Dentro das luvas, as suas mãos estavam escorregadias,</p><p>viscosas e húmidas. Mesmo com as portas do helicóptero abertas,</p><p>parecia que se encontravam dentro de um forno infernal. A água</p><p>que trazia na garrafa devia estar a uma temperatura de, pelo menos,</p><p>cinquenta graus — não era o que se podia chamar refrescante. Tami</p><p>ocupava o assento à sua direita.</p><p>Voavam em formação de combate, três potentes helicópteros</p><p>cruzando a toda a velocidade o céu que ia escurecendo. Lá em</p><p>baixo, a vastidão confusa da cidade de Bagdade desenhava-se em</p><p>todas as direções.</p><p>— Chuva azul… chuva azul — anunciava a voz de um dos outros</p><p>pilotos através do rádio.</p><p>Significava que a zona que estavam a sobrevoar era hostil e</p><p>alarmante. Podia ser qualquer coisa — fogo de morteiro, um míssil</p><p>ou outro projétil lançado do solo, um tiroteio de qualquer tipo.</p><p>Jolene disse para o microfone:</p><p>— Raptor oito-nove a virar para leste. Tempo estimado de</p><p>chegada à Green Zone, quatro minutos.</p><p>Alterou a velocidade; o helicóptero respondeu no mesmo instante</p><p>ao seu toque, baixando o nariz, seguindo mais depressa,</p><p>precipitando-se para a frente.</p><p>Ra-ta-ta-tat. As balas atingiram o aparelho de rajada. O som era</p><p>tão alto que, mesmo usando capacete e auriculares, Jolene</p><p>sobressaltou-se e vacilou.</p><p>— Estamos a ser atingidos — disse Tami de repente.</p><p>— Aguenta — disse Jolene, dando uma forte guinada à esquerda.</p><p>Ouviu o tink-tink-tink da metralhadora atingir a sua aeronave.</p><p>Uma vez, depois uma rajada de disparos, muito juntos, que soavam</p><p>como chuva torrencial a cair sobre latas. O helicóptero foi invadido</p><p>por fumo.</p><p>— Ali — indicou Tami. — Três horas.</p><p>Um grupo de rebeldes encontrava-se no cimo de um telhado lá</p><p>em baixo, a disparar. Uma metralhadora montada num tripé cuspia</p><p>um fogo amarelo.</p><p>Jolene guinou de novo à esquerda. Quando fez a curva, o</p><p>helicóptero à sua direita explodiu. Pedaços de metal incandescente</p><p>atingiram a parte lateral da aeronave de Jolene. O calor penetrou</p><p>em vagas no interior, e elas foram sacudidas de um lado ao outro do</p><p>helicóptero.</p><p>— Knife zero-quatro, estão a ouvir-me? — indagou Tami pelo</p><p>rádio. — Daqui Raptor oito-nove.</p><p>O helicóptero mais próximo delas caiu em espiral despenhando-</p><p>se no solo. Com o impacto, uma nuvem de fumo preto elevou-se no</p><p>ar. Por uma fração de segundo, Jolene não foi capaz de desviar o</p><p>olhar.</p><p>Tami transmitiu as coordenadas da queda pelo rádio à base</p><p>aérea.</p><p>— Knife zero-quatro, estão a ouvir-me?</p><p>Jolene realizou uma série de voltas rápidas, a escapar, alternando</p><p>a velocidade de voo, mudando de altitude. Para cima, para baixo, de</p><p>um lado para o outro.</p><p>Quando se encontravam fora de mira, voltou-se para olhar para o</p><p>compartimento traseiro.</p><p>— Estão todos bem? — perguntou à sua tripulação, escutando a</p><p>resposta de todos eles.</p><p>Jolene foi atrás do outro Black Hawk até ao Heliporto</p><p>Washington, aterrando logo depois dele. Estava a tremer quando</p><p>desapertou o colete camuflado e soltou o cinto de segurança.</p><p>Levantou-se e saltou para a pista. O céu apresentava um tom</p><p>cinzento-chumbo, mas, mesmo naquela escuridão, conseguiu avistar</p><p>o espesso fumo negro que continuava a elevar-se no ar no local</p><p>onde o outro helicóptero se despenhara. Fechou os olhos e rezou</p><p>uma oração pela tripulação sinistrada, se bem que no seu coração</p><p>soubesse que ninguém havia sobrevivido àquela explosão. Segundos</p><p>depois, o rugido de motores a jato encheu o céu noturno; bombas</p><p>explodiam em bolas de fogo vermelho. Assim que fosse possível,</p><p>Jolene sabia que um helicóptero de evacuação médica se dirigiria</p><p>para o local e tentaria localizar sobreviventes e vítimas.</p><p>Não pôde deixar de pensar que se alguém estivesse vivo e ferido</p><p>em território inimigo com o helicóptero a arder, essa seria a mais</p><p>longa espera da sua existência.</p><p>Poderia ter agido de outra forma? Uma opção diferente da sua</p><p>parte teria mudado o resultado? Voavam em formação de modo a</p><p>proteger-se uns aos outros, mas Jolene não protegera o helicóptero</p><p>dos seus colegas; em breve, algures do outro lado do mundo, uma</p><p>equipa de assistência a vítimas em combate iria reunir-se para dar a</p><p>uma família a pior notícia possível.</p><p>Tami e Jamie ladearam Jolene. Estavam ali de pé diante do</p><p>helicóptero, que se encontrava</p>
<p>crivado de buracos de balas.</p><p>Ninguém disse uma palavra. Cada um deles sabia que uma bala</p><p>no local certo, o impacto de um projétil explosivo, e o helicóptero</p><p>em chamas no deserto poderia ter sido o deles.</p><p>— Quem está com fome? — perguntou Jamie, tirando o</p><p>capacete.</p><p>— Eu estou sempre com fome — respondeu Smitty,</p><p>aproximando-se deles, a tossir.</p><p>Brindou todos os presentes com aquele sorriso que constituía a</p><p>sua marca registada, mas, desta vez, o sorriso não lhe chegou aos</p><p>olhos. Nessa noite, e pela primeira vez, parecia um velho.</p><p>— Uma água tónica vinha mesmo a calhar.</p><p>Jamie, como sempre, manteve uma conversa calma ao mesmo</p><p>tempo que atravessavam a Green Zone. Tudo o que ele dizia tinha</p><p>piada e todos ansiavam por algo que os fizesse sorrir. Comeram</p><p>legumes salteados preparados na altura e beberam batidos de leite,</p><p>enquanto a equipa de manutenção lhes reparava o helicóptero.</p><p>Falaram o tempo todo sobre tudo menos o que lhes ia no</p><p>pensamento.</p><p>Por volta da meia-noite, encontravam-se de novo no ar,</p><p>sobrevoando Bagdade outra vez. Patrulharam as zonas mais</p><p>perigosas da cidade. De vez em quando ouviam-se disparos —</p><p>provenientes de rebeldes que eram capazes de ouvir o helicóptero e</p><p>disparavam para o céu, na esperança de atingir aquilo que não</p><p>conseguiam ver. Tornaram a aterrar em Balad sem incidentes a</p><p>registar.</p><p>Jolene desligou o motor. Os rotores foram abrandando a pouco e</p><p>pouco, com um ruído cada vez mais sumido a cada rotação.</p><p>Ela relaxou por fim no seu assento. Pelos óculos de visão noturna</p><p>que usava, o mundo parecia-lhe distorcido. Aqui na pista negra, via</p><p>imagens fantasmagóricas verdes a mover-se à sua frente.</p><p>Por mais absurdo que possa parecer, pensou em almas a sair dos</p><p>seus corpos; isso fez-lhe lembrar a tripulação que haviam perdido.</p><p>— O meu filho está com varicela — disse Jamie atrás dela. — Já</p><p>te tinha contado?</p><p>Era disso que Jolene precisava: algo que a fizesse lembrar-se de</p><p>casa.</p><p>— Os miúdos superam isso muito depressa. Daqui a um ano já</p><p>nem se vai lembrar. A Betsy queria gelados de morango a todas as</p><p>refeições.</p><p>— Será que ele se vai lembrar de que eu não estava lá?</p><p>Jolene não tinha resposta para essa pergunta.</p><p>Retirou os óculos do capacete e soltou o cinto de segurança.</p><p>Quando saltou para a pista, foi invadida por uma vaga de exaustão,</p><p>e não se tratava de um cansaço vulgar; chegava-lhe aos ossos,</p><p>como uma espécie de morte estagnada.</p><p>Queria ter a certeza de que fizera tudo o que era possível nessa</p><p>noite, que a culpa não era sua, mas não havia ninguém para lhe</p><p>dizer isso, ninguém em quem pudesse acreditar, pelo menos. Esse</p><p>pensamento isolou-a, fez-lhe lembrar o quanto se encontrava</p><p>sozinha. Desejou poder telefonar a Michael, contar-lhe o seu dia e</p><p>deixar que a voz dele lhe acalmasse os nervos em frangalhos. Havia</p><p>tantos soldados que tinham esse apoio conjugal. Como Tami e Carl.</p><p>Havia pouca privacidade por ali, e desde que Tami e Jolene</p><p>começaram a pôr-se rotineiramente na fila para telefonar, escutavam</p><p>as conversas uma da outra. Ouvia Tami sussurrar: «Amo-te muito,</p><p>querido, só de ouvir a tua voz sinto-me mais forte outra vez.»</p><p>Lembrava-se dos tempos em que ela e Michael eram assim, cada</p><p>um deles a metade de um todo. Tami surgiu por trás dela e deu-lhe</p><p>um encontrão com a anca.</p><p>— Estás bem?</p><p>— Não. E tu?</p><p>— Não. Vamos ligar para casa. Preciso de ouvir a voz do meu</p><p>marido — disse-lhe Tami.</p><p>Atravessaram a base até aos telefones. Surpreendentemente, a</p><p>fila era curta. Só havia dois soldados à frente delas.</p><p>Jolene deixou Tami passar à frente, e ouviu a amiga dizer:</p><p>— Carl? Amor? Tenho tantas saudades tuas…</p><p>Jolene esforçou-se por não ouvir. A verdade é que precisava de</p><p>Michael nesse exato momento, precisava que lhe dissesse que a</p><p>amava e que estava à sua espera, que ela não estava ali sozinha tal</p><p>como se sentia, que ainda tinha uma vida em casa.</p><p>Quando chegou, por fim, a sua vez, marcou o número de casa,</p><p>na esperança de que alguém lá estivesse. Lá eram duas e quinze de</p><p>uma tarde de sábado.</p><p>— Está lá?</p><p>— Olá, Michael.</p><p>Jolene fechou os olhos, imaginando o sorriso dele. Queria dizer-</p><p>lhe mais, partilhar os seus sentimentos, mas como poderia fazer</p><p>isso? Ele nunca iria compreender. Não era como Carl; não sentia</p><p>orgulho do que ela fazia ali. Não entendia até que ponto ela se</p><p>preocupava com os outros soldados com quem prestava serviço.</p><p>Pelo que se sentiu ainda mais isolada, ainda mais distante.</p><p>Do outro lado do mundo, Jolene ouviu o rangido da cadeira do</p><p>marido quando este se sentou, e esse som simples e comum fez-lhe</p><p>lembrar com enorme intensidade as pessoas que deixara para trás, e</p><p>como elas davam continuidade às suas vidas, construindo</p><p>recordações que não a incluíam.</p><p>— Como estás, Jo?</p><p>Ela sentiu a boca a tremer. O tom de voz do marido era tão</p><p>carinhoso; teve de forçar-se a recordar que Michael não queria</p><p>mesmo saber. Quando foi que ele se mostrou interessado em ouvir o</p><p>que quer que fosse das suas missões? Não lhe podia contar que os</p><p>seus amigos tinham sido mortos nessa noite, que talvez a culpa</p><p>tivesse sido dela, um pouco, pelo menos. Michael limitar-se-ia a</p><p>dizer-lhe que esta era uma guerra ridícula e que os soldados haviam</p><p>morrido em vão. Então endireitou-se, pigarreou.</p><p>— Como estão as minhas meninas? A Lulu anda excitada com o</p><p>dia do aniversário?</p><p>— As miúdas estão com saudades tuas. A Betsy ouviu falar de</p><p>um piloto de helicóptero que foi abatido. Ficou bastante</p><p>transtornada.</p><p>— Diz-lhe que estou muito longe da linha da frente.</p><p>— E estás mesmo?</p><p>Jolene pensou nessa noite e estremeceu.</p><p>— Claro que sim. Estou em segurança. — Era isso que Michael</p><p>queria ouvir. — Posso falar com as miúdas?</p><p>— A minha mãe levou-as ao cinema.</p><p>— Oh.</p><p>— Vão ficar desiludidas. Sentem muito a tua falta, Jo. A Lulu está</p><p>sempre a perguntar se vens a casa para a festa de aniversário dela.</p><p>Elas sentem a tua falta.</p><p>— É melhor desligar.</p><p>— Não desligues. Queria dizer…</p><p>Girava sempre tudo à volta do que ele queria. Essa ideia deixou-a</p><p>esgotada. Fora uma tola em precisar dele.</p><p>— Tenho de desligar, Michael. Há uma fila enorme atrás de mim.</p><p>— Toma muito cuidado contigo — rematou Michael depois de</p><p>uma pausa.</p><p>— Estou a tentar.</p><p>A voz de Jolene fraquejou. Desligou o telefone, virou-se e</p><p>afastou-se dali.</p><p>Tami ouvira cada palavra.</p><p>— E que tal um duche quente? — perguntou-lhe a amiga, pondo-</p><p>lhe um braço à volta dos ombros.</p><p>Jolene inclinou afirmativamente a cabeça. Foram a pé até à</p><p>caravana, pegaram no estojo de toilette e encaminharam-se para os</p><p>chuveiros. Jolene estava desejosa de dizer alguma coisa a Tami, falar</p><p>sobre trivialidades de modo a disfarçar as emoções que se</p><p>ocultavam bem no fundo de si, mas não foi capaz.</p><p>Mesmo a esta hora tardia, a base aérea era um local</p><p>movimentado. Trinta mil homens e mulheres viviam ali. Nesse</p><p>número não se incluía o pessoal contratado que não parava de ir e</p><p>vir.</p><p>Jolene calçou as suas sandálias havaianas debaixo do chuveiro e</p><p>abriu a torneira.</p><p>Água fria.</p><p>Tentando não pensar no duche — e na água quente — que tinha</p><p>em casa, Jolene lavou-se com rapidez, esfregando o suor e a areia</p><p>da sua pele. Depois de se enxugar, tornou a vestir o seu uniforme de</p><p>combate, empoeirado e sujo.</p><p>— Água fria não era exatamente o que eu tinha em mente —</p><p>disse Tami, a sorrir com fadiga.</p><p>— Pois.</p><p>Saíram da caravana dos duches e encaminharam-se de novo para</p><p>o alojamento.</p><p>Jamie e Smitty estavam à espera delas, sentados nuns</p><p>engradados de bebidas virados ao contrário mesmo à porta da</p><p>caravana de ambos, que ficava em frente da de Tami e de Jolene. Ao</p><p>lado de Smitty havia uma arca congeladora cheia de refrigerantes.</p><p>— Querem uma bebida? — perguntou Smitty.</p><p>Jolene pôde perceber o quanto o rapaz se esforçava para sorrir.</p><p>Podia ser um excelente artilheiro e um soldado corajoso, mas</p><p>continuava a ser um miúdo de vinte anos, e essa noite deixara-o</p><p>abalado. É provável que não conseguisse dormir bem; nenhum deles</p><p>conseguiria.</p><p>Tami e Jolene sentaram-se ao lado deles — Tami nos degraus em</p><p>frente da porta, Jolene no engradado ao lado de Smitty. Nas suas</p><p>costas, o metal ainda irradiava parte do calor do</p>
<p>dia, muito embora</p><p>estivesse frio lá fora nesse momento. De ambos os lados da porta</p><p>havia uma pilha alta de sacos de areia — filas e filas deles</p><p>proporcionavam algum tipo de proteção do fogo de morteiros quase</p><p>constante. À frente de Jolene, a menos dois metros e meio de</p><p>distância, ficava a porta da caravana delas.</p><p>— O Bill Diehler ia no Knife zero-quatro — informou Tami com</p><p>solenidade.</p><p>Jolene recordou a imagem de Bill: um piloto da Guarda Nacional</p><p>corpulento e corado da «velha escola», natural de Fort Worth. Ainda</p><p>na semana passada lhe mostrara uma fotografia da filha que estava</p><p>à espera de que ele a acompanhasse ao altar.</p><p>Jolene fechou os olhos e desejou de imediato não o ter feito;</p><p>tornou a ver os últimos segundos — o atirador furtivo no telhado, o</p><p>tiroteio. Ela guinara para a esquerda, e afastara-se com prontidão do</p><p>Knife zero-quatro.</p><p>— O Wally Toddan era o chefe da tripulação — disse Jamie. — A</p><p>mulher dele acabou de descobrir que está grávida. Ontem, ele foi ao</p><p>mercado de Haji e comprou uma bola de futebol para o miúdo. Nem</p><p>sequer chegou a ter tempo de a enviar pelo correio.</p><p>Jolene não queria pensar nisso, uma criança que nunca</p><p>conheceria o pai.</p><p>— Foram uns heróis — declarou Jamie com solenidade.</p><p>— Heróis — repetiu Jolene, refletindo nessa palavra e em tudo o</p><p>que ela significava.</p><p>Tocaram nas latas de refrigerante uns dos outros num tributo</p><p>silencioso aos amigos falecidos. Depois disso, fez-se silêncio. Por fim,</p><p>Tami pôs-se de pé.</p><p>— Vou para a cama. As quatro e meia da manhã aproximam-se a</p><p>toda a velocidade. Jo?</p><p>Jolene virou-se para Smitty e para Jamie.</p><p>— Vocês estão bem?</p><p>Jamie sorriu.</p><p>— Melhor é impossível, chefe. Vou tentar manter o miúdo longe</p><p>de sarilhos.</p><p>Smitty esboçou um sorriso ao ouvir esse comentário.</p><p>— Em todo o caso, também já é velho de mais para se meter em</p><p>sarilhos.</p><p>Jolene e Tami levantaram-se ao mesmo tempo, atravessaram o</p><p>pequeno carreiro e entraram na sua caravana escura e malcheirosa.</p><p>Uma vez lá dentro, Tami acendeu a luz e depois olhou para Jolene.</p><p>— Fizeste tudo o que podias ter feito, sabes bem disso. Nada do</p><p>que aconteceu esta noite foi culpa tua.</p><p>Jolene nunca gostara tanto da amiga como naquele momento.</p><p>Receando que a voz lhe tremesse caso tentasse falar, assentiu com a</p><p>cabeça.</p><p>— Estou preocupada contigo — disse Tami, sentando-se na cama</p><p>e olhando para cima. — Raios, estou preocupada connosco. Quero</p><p>voltar para casa.</p><p>Jolene sentou-se na sua cama. Viu o medo nos olhos escuros de</p><p>Tami, o que a afetou, despertando nela algo que se mantivera bem</p><p>resguardado até aí.</p><p>— Eu também — disse em voz baixa.</p><p>— Se nós não…</p><p>Até àquela noite, Jolene teria interrompido Tami ali mesmo, mas</p><p>agora ficou em silêncio, à espera.</p><p>— Se eu não sobreviver — disse Tami baixinho —, estou a contar</p><p>contigo para cuidar do Seth. Certifica-te de que ele sabe quem eu</p><p>era.</p><p>Jolene assentiu com a cabeça com ar solene.</p><p>— E as minhas meninas vão precisar de ti.</p><p>Tami anuiu com um gesto de cabeça.</p><p>— Mas nós vamos conseguir regressar a casa.</p><p>— É claro que vamos.</p><p>Sorriram uma para a outra. Jolene não sabia qual era o seu</p><p>aspeto, mas viu medo nos olhos de Tami. Nenhuma das duas tinha</p><p>tanta certeza disso como agora.</p><p>AGOSTO</p><p>Como vou escrever sobre a morte de um colega? Como</p><p>vou usar as palavras para expulsar o medo e a confusão que</p><p>se desenrolam lentamente dentro de mim? Não sei como. Não</p><p>consigo. Não quero escrever sobre isso. Não quero recordar-</p><p>me do cheiro do fumo nem do som terrível do metal a</p><p>desfazer-se nem do estrépito do tiroteio. Não quero pensar no</p><p>Wally Toddan e na sua jovem viúva nem no bebé que nunca</p><p>vai conhecer o sorriso do pai. Nem na noiva que vai caminhar</p><p>sem o pai ao longo da nave da igreja até ao altar.</p><p>Descansa em paz Knife zero-quatro. É tudo o que sou</p><p>capaz de dizer. Tudo o que posso dizer. Foram heróis e</p><p>sentiremos a vossa falta.</p><p>CAPÍTULO 13</p><p>Depois de um dia de voo, longo e terrivelmente quente, na sua</p><p>maior parte a transportar civis e tropas iraquianas para Bagdade e</p><p>arredores, Jolene encontrava-se exausta. Enquanto estiveram fora,</p><p>Balad fora atacada de novo e desta vez havia estragos bastante</p><p>graves. Era surpreendente o que os estilhaços podiam fazer à</p><p>madeira e ao metal — jipes e edifícios tinham sido destruídos.</p><p>Jolene afastou-se do helicóptero, com Tami num dos lados e</p><p>Jamie do outro. Nenhum deles proferiu uma única palavra.</p><p>— Preciso de ir até ao centro de comunicações — disse Tami. —</p><p>Quero ver se já restabeleceram a ligação da Internet. Se não falar</p><p>com a minha família, endoideço.</p><p>Os três viraram-se um pouco, atravessando o caminho escuro e</p><p>estreito entre as caravanas.</p><p>Já passava da meia-noite; mesmo sendo tão tarde, a base</p><p>fervilhava de atividade. Na caravana das comunicações, Tami disse:</p><p>— Esperem aqui — e entrou.</p><p>Saiu passado pouco tempo, com ar desgostoso.</p><p>— Ainda não há Internet. Bolas.</p><p>Jolene suspirou. Atravessaram a base; Jamie separou-se delas e</p><p>dirigiu-se ao refeitório, enquanto Tami e Jolene seguiram para a</p><p>caravana.</p><p>Demasiado cansadas para conversar, cada uma delas deixou-se</p><p>cair em cima da cama e abriram o computador portátil. Iam escrever</p><p>mensagens naquela noite, que, com sorte, poderiam enviar no dia</p><p>seguinte.</p><p>Meus amores, teclou Jolene.</p><p>Obrigada pela encomenda deliciosa. Nem imaginam o que</p><p>significa para mim receber correio. Posso apostar que foi a</p><p>Betsy quem escolheu o champô — adoro aquele perfume a</p><p>morango — e a Lulu escolheu o gancho de cabelo faiscante.</p><p>Fica muito bonito no meu cabelo.</p><p>Temos voado muito nos últimos dias. De uma maneira</p><p>geral, costumo sair da caravana às 4h30 da manhã, vou de</p><p>bicicleta até à caravana do refeitório e depois para o</p><p>helicóptero. Se tivermos sorte, conseguimos regressar à base</p><p>antes das nove da noite. Nessa altura já estamos</p><p>completamente exaustos. Contudo, penso em vocês o tempo</p><p>todo. Em especial quando o alarme do meu relógio dispara,</p><p>Betsy. Espero que também penses em mim nessa altura.</p><p>Ontem tentei ligar para casa, mas os telefones não</p><p>estavam a funcionar, por isso suponho que o melhor é</p><p>recorrer ao e-mail como salvação! Comprei-vos presentes no</p><p>mercado de Haji — é uma espécie de feira de rua instalada no</p><p>interior da base. É uma loucura, posso garantir-vos. Aposto</p><p>que não ficam surpreendidas em saber que eu e a Tami</p><p>conseguimos arranjar um bocadinho de tempo para ir às</p><p>compras. As raparigas serão sempre raparigas, suponho.</p><p>Amanhã vai haver aqui uma festa junto ao barril de</p><p>queima. Já ouvi dizer que vamos ter cachorros-quentes e</p><p>feijão cozido, exatamente como acontece nas festas de praia</p><p>que temos aí em casa!</p><p>Sei que estou muito, muito longe de casa, mas vou fazer</p><p>de conta que estou aí com vocês para a festa de aniversário</p><p>da Lulu. Espero que o presente chegue aí a tempo! Pensa na</p><p>mamã quando soprares as velas, pequenina. Amo-te.</p><p>Bem, estou quase a começar a adormecer de pé, por isso</p><p>acho que o melhor é ir para a cama. As 4h30 chegam cedinho</p><p>e muito depressa.</p><p>Betsy, não te esqueças de lembrar ao papá a tua consulta</p><p>com o ortodontista. Vais precisar de ir na semana que vem.</p><p>Lulu, podes mandar-me uma fotografia da tua festa? Tenho a</p><p>última que me mandaste na parede.</p><p>Jolene levantou os dedos do teclado do computador. Queria dizer</p><p>alguma coisa a Michael, mas o quê? Ele não lhe tinha escrito uma</p><p>única vez desde que ali estava. Implorar pelo seu apoio e atenção</p><p>fazia-lhe lembrar a mãe, desesperada em arrastar para mais perto</p><p>de si um homem que não a amava.</p><p>Penso em vocês todos os dias e adoro-vos. Até ao infinito.</p><p>E não se esqueçam: Já só faltam noventa e um dias para</p><p>voltar a ver-vos outra vez. Disneylândia???? Beijos e abraços.</p><p>Mãe</p><p>Jolene nunca imaginou um calor como o do verão no Iraque. O</p><p>pó estava por todo o lado — no cabelo, nos olhos, no nariz. O seu</p><p>suor era ácido; assim que acabava de tomar duche, começava a</p><p>transpirar outra vez.</p><p>Desde o primeiro dia de mobilização, sabia que cada vez que</p><p>respirava podia ser a última; as noites também não eram muito</p><p>melhores. Sonhava com incêndios, morteiros e bebés que se</p><p>esqueciam dos rostos das mães. Fez um inquietante acordo de paz</p>
<p>com a morte.</p><p>Os ferimentos aterrorizavam-na ainda mais: os corpos mutilados</p><p>por granadas de foguetes e dispositivos explosivos improvisados,</p><p>braços e pernas arremessados pelos ares e, depois, a sujidade.</p><p>Nunca o seu medo esteve tão próximo como num dia como</p><p>aquele.</p><p>Encontrava-se numa «missão heroica», o que significava que</p><p>tinha de voar por todo o deserto a fim de recolher os restos mortais</p><p>de soldados que haviam perecido.</p><p>Nos últimos tempos, fazia isso com demasiada frequência;</p><p>sempre que assistia à cerimónia, imaginava-se a si mesma ou aos</p><p>membros da sua tripulação jazendo num daqueles hospitais</p><p>cirúrgicos improvisados, irreparavelmente feridos, pálidos como cera,</p><p>a chorar.</p><p>Encontrava-se agora junto da abertura da tenda hospitalar, por</p><p>entre as tripulações que haviam sido enviadas na missão. Todos se</p><p>mantinham ali de pé, muito direitos e em sentido, apesar do calor</p><p>insuportável e do imenso pó. Enquanto pilotos, podiam ter ficado</p><p>junto da sua aeronave, mas isso não lhes pareceu correto. Por</p><p>conseguinte, ali estavam ambas, ao lado do resto da tripulação, para</p><p>prestar a sua homenagem.</p><p>O hospital cirúrgico de campanha assava sob o calor do meio-dia.</p><p>Consistia numa fila de tendas de lona brancas e sujas,</p><p>interligadas por uma rede de sobrados de madeira. No interior, o</p><p>chão era de cimento, tingido pelas manchas escuras de sangue.</p><p>Jolene não entrou; estava ali para esperar. O ritual da cerimónia das</p><p>exéquias dos heróis era bastante rigoroso.</p><p>Além disso, sabia como seria o ambiente lá dentro: catre após</p><p>catre contendo os feridos e os moribundos. Sobrevivia-se a</p><p>ferimentos medonhos e devastadores nesta era moderna. Os</p><p>médicos de campanha eram como que funcionários milagrosos.</p><p>Também não havia apenas soldados. Lá dentro havia filas de civis</p><p>iraquianos, crianças e mulheres, que se haviam encontrado</p><p>demasiado perto de um dispositivo explosivo improvisado ou que</p><p>foram vítimas do fogo de morteiros. O cheiro era nauseabundo e</p><p>tornava-se ainda pior com o calor insuportável.</p><p>Um médico passou pela abertura de lona da tenda e segurou-a,</p><p>mantendo-a aberta atrás de si. Seis soldados seguiram-no até ao</p><p>exterior, empurrando quatro macas. Em cada uma delas jaziam os</p><p>restos mortais de um soldado dentro de um saco preto.</p><p>Jolene e Tami ficaram de imediato em sentido e fizeram</p><p>continência. O olhar que trocaram foi tão solene como o estado de</p><p>espírito de ambas: cada uma delas estava a pensar qual seria a</p><p>sensação se a outra estivesse dentro daquele saco. Algures ali perto,</p><p>o estrondo de um disparo de morteiro e a sua explosão no cimento.</p><p>Ninguém vacilou, nem sequer pestanejou.</p><p>O médico estava com um ar tão esgotado como Jolene. Colocou</p><p>uma mão sobre cada um dos corpos metidos em sacos, um de cada</p><p>vez, e limitou-se a dizer:</p><p>— Obrigado.</p><p>Jolene sentiu um nó na garganta. Baixou os olhos a fim de</p><p>contemplar as macas, sabendo que os soldados mortos mereciam</p><p>esta derradeira demonstração de respeito por parte de todos eles.</p><p>Um dos sacos era pequeno, demasiado pequeno, o que era mau</p><p>sinal. Significava que faltavam pedaços do corpo. Muito</p><p>provavelmente devido a um dispositivo explosivo improvisado ou a</p><p>uma granada de foguete. Ao lado de cada corpo via-se um pequeno</p><p>saco transparente contendo objetos pessoais. Muito embora o saco</p><p>estivesse manchado com dedadas ensanguentadas, Jolene pôde ver</p><p>no seu interior o relógio de pulso, as chapas de identificação e uma</p><p>aliança de casamento.</p><p>Isso fê-la pensar em Betsy, a segurar as suas chapas de</p><p>identificação, perguntando-lhe se estas iam servir para identificá-la…</p><p>O silêncio prolongou-se por mais um segundo e depois alguém</p><p>chamou:</p><p>— Capitão Craig.</p><p>A voz veio do interior da tenda e o médico tornou a entrar.</p><p>Seguindo as macas e os seus respetivos guardas silenciosos, as</p><p>duas tripulações dos Black Hawks atravessaram a base aérea até aos</p><p>helicópteros que os aguardavam. Mais uma vez, a forma exata de</p><p>transporte tinha o seu preceito.</p><p>Junto ao helicóptero de Jolene e Tami, Jamie e Smitty fizeram de</p><p>novo continência aos corpos; em seguida, colocaram os soldados</p><p>mortos no helicóptero, recorrendo a um cuidado extremo e notável,</p><p>alinhando-os na mais perfeita ordem.</p><p>À medida que prosseguia o embarque, os soldados começaram a</p><p>aparecer, vindos de todos os lados, alguns fardados, outros vestidos</p><p>à civil, e formaram duas filas em linha reta até à porta lateral aberta</p><p>do helicóptero, fazendo continência pela última vez aos seus amigos</p><p>falecidos.</p><p>Jolene perguntou-se quem seriam estes soldados mortos.</p><p>Maridos? Pais? Mães? As suas famílias já saberiam que os seus</p><p>mundos haviam mudado?</p><p>Ela e Tami fizeram sinal com a cabeça uma para a outra e</p><p>subiram para o helicóptero. Tami sentou-se então no lado esquerdo.</p><p>Inclinou-se para a frente e colocou o cartão de missão de transporte</p><p>de heróis no para-brisas.</p><p>Jolene apertou o cinto de segurança no banco da direita e deu</p><p>início aos procedimentos prévios ao embarque. As portas do</p><p>helicóptero foram fechadas. Poucos momentos depois, descolaram</p><p>por entre um remoinho de areia bege.</p><p>Lá em baixo, os soldados começaram a dispersar.</p><p>Durante o voo até ao aeroporto de Bagdade a tripulação</p><p>manteve-se em silêncio, como sempre acontecia nas missões de</p><p>transporte de heróis. As mortes pesavam-lhes tremendamente na</p><p>consciência. A guerra começara a aumentar de intensidade nos</p><p>últimos meses. Passara a ser normal disparar contra alguém, ser</p><p>atingido. Jolene ouvia o embate dos tiros de metralhadora no</p><p>helicóptero enquanto dormia e era frequente acordar aos gritos. Na</p><p>semana anterior, uma bala perfurara a janela, estilhaçando-a, e</p><p>passara-lhe mesmo rente à cabeça, raspando-lhe o capacete. Sentiu</p><p>uma ligeiríssima pancada na cabeça e continuou a pilotar. Só mais</p><p>tarde é que começou a ter pesadelos com isso, a imaginar a sua</p><p>cabeça a explodir, o seu cadáver a voltar para as filhas dentro de um</p><p>saco preto que era cerca de trinta centímetros mais curto.</p><p>Quando regressaram a Balad, ela já havia ultrapassado o ponto</p><p>de exaustão. Há semanas que não dormia bem, e começava a</p><p>ressentir-se disso. Não se lembrava da última vez em que não</p><p>estiveram no meio de um ataque de morteiros a meio da noite.</p><p>Dormia sob fogo cerrado, mas acordava ao som do barulho</p><p>estrondoso das sirenes.</p><p>Depois do término da missão, a equipa de manutenção</p><p>acotovelou-se a fim de examinar e verificar o helicóptero. Jolene e a</p><p>sua equipa afastaram-se. Nessa noite escura, não houve</p><p>confraternização, nada de «Vamos até ao refeitório comer uma</p><p>tarte». Cada um deles, à semelhança de Jolene, estava a pensar</p><p>como era ténue a linha da sorte que os separava dos cadáveres que</p><p>haviam transportado nesse dia.</p><p>— Estás bem, Tami? — perguntou Jolene assim que chegaram à</p><p>caravana que partilhavam.</p><p>Tami deteve-se.</p><p>— Não. Nem por isso.</p><p>Entraram na caravana. Tami ligou um interruptor de luz; a</p><p>lâmpada fluorescente do teto tremeluziu e acendeu-se. No mesmo</p><p>instante, o pequeno espaço ficou iluminado. Havia fotografias da</p><p>família por todo o lado — além de um poster cinematográfico de</p><p>Johnny Depp do filme Piratas das Caraíbas pregado na parede.</p><p>Tami sentou-se na cama. Fazia uma cova no meio; uma nuvem</p><p>de pó saiu da roupa de cama verde, a cor típica do exército. A sirene</p><p>soou.</p><p>Jolene ouviu passos do lado de fora, passando pela caravana.</p><p>Sentou-se em frente de Tami.</p><p>Ali perto, algo explodiu; as luzes da caravana tremeluziram e</p><p>continuaram acesas.</p><p>Quando a sirene parou de tocar e o mundo se tranquilizou, Tami</p><p>prosseguiu como se nada tivesse acontecido.</p><p>— O Carl diz que o Seth anda a passar por um mau bocado. Os</p><p>miúdos gozam com ele por nossa causa. Isso só me dava vontade</p><p>de distribuir uns bons chutos no traseiro a uns quantos pré-</p><p>adolescentes.</p><p>— O Michael diz que as meninas estão ótimas.</p><p>Tami ergueu os olhos.</p><p>— Tu também não lhe contas exatamente a verdade.</p><p>— Mal nos falamos. Ele não me enviou um único e-mail.</p><p>Jolene inclinou-se para a frente e começou a desapertar os</p><p>atacadores das botas.</p><p>— Recebes uma encomenda uma vez por semana. Quem é que</p><p>compra todas aquelas coisas e as envia pelo correio?</p><p>— Queres que te</p>
<p>diga qual é o meu palpite? Deve ser a Mila. E as</p><p>miúdas.</p><p>— Já lhe escreveste?</p><p>Jolene suspirou.</p><p>— Sabes bem que não escrevi. O que iria eu dizer?</p><p>— Talvez ele esteja a pensar a mesma coisa.</p><p>— Não fui eu que disse que queria a separação.</p><p>— Vais mesmo fazer um braço de ferro com o teu casamento a</p><p>partir daqui, assim tão longe?</p><p>— Não fui eu que comecei.</p><p>— E o que é que isso interessa agora? Pensa só no que fizemos</p><p>hoje — disse Tami estalando os dedos. — As coisas acontecem</p><p>assim com esta rapidez, Jo. Mortas. Vivas. — Estalou os dedos de</p><p>novo. — Mortas. Este é o momento para dizer o que precisa ser dito,</p><p>não para fazer joguinhos. Os teus pais eram uns fracassados que te</p><p>deixaram marcas e cicatrizes. Compreendo, a sério que compreendo.</p><p>Mas tens de arranjar coragem para conversar com o teu marido, ou</p><p>então arriscam-se a perder tudo.</p><p>— É muito fácil para ti dizer isso. O teu marido ama-te.</p><p>— Não é fácil, Jolene. Nada disto é fácil, sabes muito bem. O</p><p>Michael ama-te — afirmou Tami. — Eu sei.</p><p>— Não. Não acho que me ame.</p><p>— E tu ama-lo?</p><p>E pronto, lá estava ela, a pergunta que passara meses a evitar</p><p>fazer. Preferia deixar que fosse Tami a fazê-la, como quem faz um</p><p>lançamento num jogo de basebol .</p><p>— Não sei como deixar de amá-lo — respondeu Jolene em voz</p><p>baixa, surpreendendo-se. — Está-me no sangue. Mas…</p><p>— Mas o quê? Não é essa a tua resposta?</p><p>— Não.</p><p>Jolene suspirou. Na verdade, não queria pensar nesse assunto,</p><p>nem falar dele.</p><p>— O amor é apenas uma parte da questão. Tal como o</p><p>esquecimento é a única parte. Ainda que eu pudesse perdoá-lo,</p><p>como poderia esquecer? Michael deixou de me amar, Tam. Assim</p><p>sem mais nem menos. Olhou bem dentro dos meus olhos e disse</p><p>que já não me amava. Com posso voltar a confiar nele? Como posso</p><p>acreditar no nosso casamento, em ficarmos juntos para sempre, se o</p><p>nosso amor tem uma espécie de prazo de validade?</p><p>— Não desistas, só isso. É tudo o que quero dizer. Escreve-lhe</p><p>uma mensagem. Começa já.</p><p>Jolene sabia que esse era um bom conselho. Acreditava em lutar</p><p>pelo amor; pelo menos houve uma época em que acreditava. Nos</p><p>últimos tempos, tinha dificuldades em lembrar-se daquilo em que</p><p>acreditava e da pessoa que fora outrora.</p><p>— Tenho medo — disse após um longo silêncio.</p><p>Tami assentiu com um aceno de cabeça.</p><p>— Michael despedaçou-te o coração.</p><p>Jolene olhou para a amiga, sentada à sua frente naquela</p><p>caravana sombria e malcheirosa que partilhavam, e pensou na sorte</p><p>em se terem uma à outra ali.</p><p>— Estou feliz por estares aqui comigo, Tami. Não sei o que faria</p><p>sem ti.</p><p>Tami sorriu.</p><p>— Eu também gosto muito de ti, Jolene.</p><p>CAPÍTULO 14</p><p>— Temos em mãos uma situação de emergência que está a</p><p>piorar muito depressa — informou o capitão. — É preciso realizar</p><p>uma missão de busca e salvamento num local bastante complicado e</p><p>de difícil acesso. As notícias dão-nos uma margem limitada pelas</p><p>condições atmosféricas. Precisamos de dois helicópteros no ar</p><p>dentro de, no máximo, quinze minutos.</p><p>O capitão virou-se para poder indicar um ponto no mapa.</p><p>— Aqui. Temos dois soldados dos comandos encurralados por</p><p>fogo inimigo.</p><p>— Podemos estar no ar dentro de dez minutos — tranquilizou-o</p><p>Jolene.</p><p>Olhou para Tami, que abanou a cabeça de imediato, seguindo à</p><p>frente até à pista. Não houve conversas pelo caminho.</p><p>Enquanto atravessavam a base aérea, um vento forte soprava e</p><p>levantava o pó que picava a pele e os olhos; agitava a bandeira por</p><p>cima das suas cabeças, fustigando-a num frenesi. Depois de uma</p><p>rápida verificação do aparelho, Jolene subiu para o assento da</p><p>esquerda na cabina de pilotagem e ocupou o seu lugar.</p><p>Foi a primeira a entrar, mas, poucos segundos depois, a</p><p>tripulação já se encontrava toda nos seus lugares. Jolene efetuou a</p><p>verificação antes da descolagem, obteve autorização de partida da</p><p>torre de controlo e ligou o motor.</p><p>A aeronave subiu devagar no ar ao mesmo tempo que Jolene</p><p>manobrava os comandos — com as mãos e os pés em constante</p><p>movimento. A cada etapa, a tempestade de poeira intensificava-se.</p><p>O vento fustigava o para-brisas.</p><p>— Visibilidade a piorar — disse Jolene.</p><p>Estendeu a mão, ligou um interruptor, deu uma vista de olhos às</p><p>informações do painel de instrumentos. O vento açoitava-os,</p><p>desviando o Black Hawk para os lados. Um poço de ar sugou os</p><p>rotores; o helicóptero caiu sessenta metros num segundo súbito e</p><p>aterrador.</p><p>— Segurem-se, malta — disse Jolene pelo microfone.</p><p>Jolene agarrou-se aos comandos que saltavam e davam</p><p>solavancos e estabilizou o Hawk.</p><p>No vetor de busca, foi necessária toda a força da parte superior</p><p>do corpo de Jolene para descer de maneira uniforme por entre o</p><p>remoinho. Por debaixo deles, o terreno era escarpado e acidentado.</p><p>— Não há onde aterrar — gritou Jamie.</p><p>— Entendido — disse Jolene.</p><p>Manobrou os comandos, encontrando o equilíbrio delicado entre</p><p>a cauda e os rotores principais.</p><p>— Ali! — disse Smitty. — À uma hora.</p><p>Jo manteve o helicóptero a pairar, mas cada segundo era uma</p><p>luta. O vento soprava com fúria e continuava a fazer inclinar o</p><p>helicóptero. No solo acidentado do deserto lá em baixo, Jolene só</p><p>conseguiu distinguir dois soldados. Era óbvio que se encontravam</p><p>debaixo de fogo cerrado. As balas silvavam, embatendo no aparelho.</p><p>Jamie abriu a porta de par em par e começou a disparar,</p><p>proporcionando uma cobertura de fogo.</p><p>— Tudo desimpedido — informou poucos segundos depois. —</p><p>Perfeito para aterrar.</p><p>Foram varridos por uma rajada de pó e de vento, com o Hawk a</p><p>balançar de um lado ao outro.</p><p>— Baixo e lento — comunicou Jolene ao microfone.</p><p>Baixou o helicóptero devagar até ao solo. O outro helicóptero</p><p>permaneceu no ar, dando-lhes cobertura.</p><p>Jolene vigiava os instrumentos com atenção ao mesmo tempo</p><p>que resgatavam os dois comandos.</p><p>Assim que os soldados se encontraram a salvo no interior da</p><p>cabina traseira, Jolene pôde respirar por fim um pouco melhor. Em</p><p>pouco segundos, estavam de novo no ar, voando em direção à base.</p><p>Uma vez aí, ficaram a saber que outro helicóptero fora abatido</p><p>perto de Bagdade, com a morte de toda a tripulação.</p><p>Nessa noite, Jolene não conseguiu dormir. Sempre que fechava</p><p>os olhos, via helicópteros colidindo com o solo, ouvia pessoas a</p><p>gritar. Viu crianças, vestidas de preto, reunidas em torno de um</p><p>caixão envolto numa bandeira; um soldado fardado dirigia-se até à</p><p>porta principal da sua casa… Por fim, desistiu de tentar. Ligando o</p><p>pequeno candeeiro, pegou no diário.</p><p>AGOSTO</p><p>Adoro voar. Sempre adorei, e estou orgulhosa por estar</p><p>aqui, a fazer o meu trabalho, ajudando o meu país. Não</p><p>obstante, há este medo que me vem consumindo nos últimos</p><p>tempos, uma coisa terrível e assustadora, como um pássaro a</p><p>bater as asas tentando sair do meu peito. Estou com um mau</p><p>pressentimento.</p><p>As coisas que vi não me saem da cabeça. Até mesmo a</p><p>dormir, não sou capaz de me livrar delas — pernas e braços</p><p>arrancados por explosões, soldados moribundos, retratos de</p><p>crianças pregados nas paredes das caravanas, encaracolando-</p><p>se com o calor. Sempre que descolo com o helicóptero,</p><p>interrogo-me: será desta vez? Imagino a minha família a</p><p>receber a pior das notícias.</p><p>A Tami está sempre a dizer-me que preciso de procurar o</p><p>apoio de Michael. Diz-me o quanto Carl está a ajudá-la a lidar</p><p>com tudo aquilo que temos enfrentado. Insiste em que estou</p><p>a ser teimosa e a fazer um braço de ferro com o meu</p><p>casamento.</p><p>Mas como posso eu seguir os conselhos dela? Como posso</p><p>falar com Michael — Michael, que eu amei desde o momento</p><p>em que ele me beijou pela primeira vez — Michael, que é a</p><p>minha família. Ou era, até me ter dito que já não me amava.</p><p>Vi a minha mãe fazer isso, ano após ano, procurando o apoio</p><p>de um homem que deixara de amá-la. Isso destruiu-a. Nunca</p><p>pensei que viria a ser como ela. Serei?</p><p>Estarei a perder-me aqui, ou apenas a «desapaixonar-me»</p><p>por ele? Ou será que isto não passa de uma parte da guerra?</p><p>Sei que ninguém em casa pode ter demasiada importância.</p><p>Os meus amigos aqui são as pessoas que me apoiam, as</p><p>pessoas que irão salvar-me e cobrir a minha retaguarda.</p><p>No entanto, às vezes não é suficiente. Às vezes, preciso…</p><p>Michael.</p><p>Preciso dele. Mas</p>
<p>não quero isso. Não acredito que fique à</p><p>minha espera, nem que me apoie. Já não acredito.</p><p>Não admira que me sinta tão sozinha. E agora o maldito</p><p>do alarme do meu relógio está a apitar, lembrando-me de…</p><p>O mês de agosto passou-se numa mancha indistinta de dias</p><p>quentes e vagarosos debaixo de um céu azul. Betsy e Lulu</p><p>mantinham-se ocupadas durante quase todo o tempo, frequentando</p><p>campos de férias e passando algum tempo no Green Thumb com</p><p>Mila. A festa do quinto aniversário de Lulu decorreu sem percalços,</p><p>muito embora tenha sido uma versão mais tranquila de outras festas</p><p>anteriores.</p><p>Nesta quinta-feira de manhã, o Sol nasceu quente e luminoso</p><p>num céu límpido, sem nuvens. Iria ser um glorioso dia de verão. Às</p><p>nove e meia, Michael saiu da frente do computador e subiu as</p><p>escadas. Bateu na porta dos quartos das filhas, dizendo:</p><p>— Acordem, dorminhocas. A Yia Yia vai chegar dentro de meia</p><p>hora para vos buscar.</p><p>Em seguida, desceu as escadas e pôs o pequeno-almoço na</p><p>mesa. Rabanadas com amoras-silvestres.</p><p>— Despachem-se, meninas — gritou de novo.</p><p>Tomando o seu café, Michael ligou a televisão na sala de estar.</p><p>— … num intenso tiroteio a noite passada perto de Bagdade. O</p><p>helicóptero, um Black Hawk pilotado pela subtenente Sandra</p><p>Patterson, da cidade de Oklahoma, foi atingido por um projétil</p><p>explosivo e despenhou-se numa questão de segundos, matando</p><p>todos os tripulantes a bordo…</p><p>Fotografias de soldados fardados de olhos brilhantes</p><p>preencheram o ecrã, uma após outra…</p><p>— Pensei que as mulheres não ficavam envolvidas em combates</p><p>— disse Betsy em voz baixa atrás do pai.</p><p>«Que Deus me ajude», pensou Michael. Já era suficientemente</p><p>mau ter acabado de ouvir a notícia e agora, ainda por cima, tinha de</p><p>consolar a filha. Como poderia tranquilizá-la quando a verdade era</p><p>tão óbvia para os dois?</p><p>O que faria Jolene? O que quereria ela que ele fizesse?</p><p>Michael voltou-se devagar, e viu lágrimas nos olhos de Betsy.</p><p>Estava com um ar tão frágil e abatido como ele próprio se sentia</p><p>naquele momento.</p><p>— Ela está a mentir-nos — protestou Betsy. — Todas aquelas</p><p>cartas e fotografias… não passam de mentiras.</p><p>Michael estendeu o braço para ela, pegou-lhe na mão e</p><p>conduziu-a até junto do sofá, onde se sentaram os dois.</p><p>— Ela não quer que fiquemos preocupados.</p><p>— Tu estás preocupado?</p><p>Michael olhou para a filha, para os seus olhos assustados, e</p><p>percebeu que ela iria lembrar-se do que diria a seguir. Contava-lhe</p><p>uma mentira? Sabia como contornar a verdade, mas por uma vez</p><p>queria mais de si mesmo.</p><p>— Estou preocupado — declarou, por fim, puxando Betsy para o</p><p>seu colo.</p><p>— Eu também.</p><p>Ela enroscou os braços à volta do pescoço do pai, como se fosse</p><p>pequenina outra vez, e enterrou a cara no pescoço dele. Michael</p><p>pôde senti-la chorar — os ombros magros dela a estremecer, a</p><p>humidade de encontro à sua pele, e não disse mais nada.</p><p>Quando Betsy por fim se afastou, trémula, o seu rosto pálido</p><p>sulcado de lágrimas, Michael sentiu a vaga de amor mais forte que</p><p>alguma vez já conhecera.</p><p>— Adoro-te, Betsy, e vamos todos ficar bem. É nisso que temos</p><p>que acreditar. Ela vai voltar para casa e para nós.</p><p>A filha assentiu com a cabeça devagar, mordendo o lábio inferior.</p><p>— Olá — disse Lulu, entrando na sala. — Quero um abraço.</p><p>Michael esticou o outro braço e Lulu pulou para o lado da irmã.</p><p>— Acho que devo levar as minhas meninas à praia hoje — disse</p><p>Michael passado um momento.</p><p>Lulu afastou-se, com os olhos arregalados.</p><p>— Tu?</p><p>— Mas hoje é dia de semana. Tens de ir trabalhar — disse Betsy.</p><p>— Já trabalhei o suficiente — retorquiu Michael.</p><p>Aquelas palavras pouco familiares soltaram algo dentro de si,</p><p>fazendo-o sentir-se mais animado e esperançoso. Estendeu a mão</p><p>para o telefone que estava em cima da mesinha de apoio e ligou à</p><p>mãe.</p><p>— Olá, mãe. Hoje vou ficar em casa com as meninas. Vamos até</p><p>à praia descontrair um bocado. Queres vir connosco?</p><p>A mãe riu-se.</p><p>— Tenho montes de coisas para fazer aqui na loja. Vou lá ter</p><p>convosco, combinado?</p><p>— Muito bem — disse Michael, desligando o telefone.</p><p>Em seguida, virou-se para as filhas, atónitas.</p><p>—O que estão a fazer aqui sentadas? Pensei que íamos à praia.</p><p>— Hurra! — berrou Lulu, saltando do colo do pai para o chão e</p><p>correndo pelas escadas acima.</p><p>Na garagem, Michael descobriu que Jolene tinha tudo muito bem</p><p>organizado — cadeiras de praia articuladas, pauzinhos para assar</p><p>marshmallows, gasolina de isqueiro, geleiras. Já tinha uma geleira</p><p>inteira cheia quando Betsy e Lulu desceram as escadas, vestidas</p><p>com os fatos de banho e trazendo na mão as toalhas de praia.</p><p>— Aprontei a Lulu — disse Betsy com orgulho.</p><p>A seguir ao pequeno-almoço, Michael pegou na geleira, instruiu</p><p>as filhas para irem buscar os baldes e as pás, e lá foram eles,</p><p>descendo em direção à praia. Na rua — sossegada nessa manhã —</p><p>atravessaram de mãos dadas e foram até à sua pequena doca.</p><p>Passaram o dia inteiro na praia, construindo castelos de areia,</p><p>procurando conchas, mergulhando nas ondas azuis e frias. Por volta</p><p>do meio-dia, Michael acendeu o lume num fogareiro portátil,</p><p>redondo e metálico, no pequeno varandim de casa, e não demorou</p><p>muito para que todos se pusessem a assar salsichas para fazer</p><p>cachorros-quentes.</p><p>Por volta da uma hora, a mãe de Michael apareceu e juntou-se à</p><p>diversão. Pela primeira vez em muitos meses, Betsy deixou de lado</p><p>as atitudes de pré-adolescente e transformou-se de novo numa</p><p>criança; quando chegou o final da tarde, altura em que o céu se</p><p>tingiu de um tom de alfazema e uma Lua fantasmagórica surgiu para</p><p>espreitar quem estava a brincar na praia lá em baixo, todos se</p><p>sentaram em cadeiras muito juntas umas das outras, bem</p><p>envolvidos em mantas.</p><p>— Papá — disse Lulu aninhada na curva dos braços do pai. —</p><p>Estou com medo de começar a ir à escola. Quando é a semana que</p><p>vem? A mamã já pode vir para casa?</p><p>Michael foi varrido por uma onda de emoção, que lhe comprimiu</p><p>o peito.</p><p>— Eu sei que a tua mamã adoraria levar-te à escola, mas não</p><p>pode. No entanto, eu vou estar lá. Achas que será suficiente?</p><p>— Vais segurar na minha mão?</p><p>— Claro que sim.</p><p>— Porque é que tenho de ficar lá o dia inteiro? A mamã disse que</p><p>as aulas acabam à hora do almoço.</p><p>— Agora é diferente, querida. Vais precisar de ficar o dia inteiro</p><p>na escola.</p><p>— Só porque a mamã não está cá? — perguntou Lulu sonolenta,</p><p>afagando com os dedos as pequenas asas do emblema dourado,</p><p>pregado no fato de banho.</p><p>— Isso mesmo.</p><p>— E se eu ficar assustada?</p><p>—O primeiro dia é sempre um bocadinho assustador — disse</p><p>Betsy em voz baixa. — Mas toda a gente vai gostar de ti, Lulu. E vais</p><p>ter uma excelente professora… a senhora MacDonald. Eu adorava-a.</p><p>— Oh — disse Lulu, parecendo pouco convencida.</p><p>Michael sorriu.</p><p>— Deixa-me contar-te como vai ser…</p><p>À medida que falava com a filha mais nova sobre jardins de</p><p>infância, professoras, cantinhos de brincar e recreio, era como se</p><p>fosse outro homem de uma outra vida. Durante anos, esforçara-se</p><p>por marcar a diferença no mundo e trabalhara arduamente para que</p><p>isso acontecesse: ali estava ele, contudo, um homem sentado num</p><p>varandim com as filhas, e nunca teve tanta certeza do quanto as</p><p>suas palavras eram importantes.</p><p>Era isso que Jolene sempre tentara dizer-lhe de cada vez que</p><p>faltava a um evento. «É importante», dizia ela.</p><p>— Está bem, papá — concordou Lulu por fim. — Acho que</p><p>consigo fazer isso, porque já sou uma menina crescida. Se me deres</p><p>a mão. E vou levar a minha fita cor de rosa.</p><p>— Ah, Lulu — disse Michael. — Não ia perder isso por nada deste</p><p>mundo.</p><p>Muito mais tarde, quando as filhas já tinham adormecido nas</p><p>cadeiras, enquanto as ondas lambiam os seixos e as estrelas</p><p>brilhavam incidindo sobre eles, Mila olhou para o filho.</p><p>— A Jolene sentiria orgulho de ti hoje — sussurrou.</p><p>Michael olhou para ela, por cima da cabeça escura de Lulu.</p><p>— Desapontei-a — afirmou.</p><p>A mãe assentiu com um gesto da cabeça, sorrindo com tristeza,</p><p>como se sempre tivesse sabido disso.</p><p>Setembro foi um mês sangrento na guerra. Parecia que todos os</p><p>dias um helicóptero regressava à base atingido por tiros. As missões</p><p>heroicas e os bombistas suicidas eram agora um</p>
<p>(coisa</p><p>que fazia sempre se havia algo que não lhe agradava), Michael</p><p>acrescentou:</p><p>— A Betsy já tem idade suficiente para tomar conta da Lulu</p><p>durante duas horas. Só estaremos a cerca de quilómetro e meio de</p><p>distância de casa.</p><p>Era uma disputa que durava há quase um ano. Michael achava</p><p>que uma menina de doze anos já tinha idade para ser baby-sitter.</p><p>Jolene discordava. À semelhança de tudo o resto na vida de ambos,</p><p>era o voto dela que contava. Michael estava habituado. E farto disso.</p><p>— Sei o quanto andas ocupado com o caso Woerner — disse</p><p>Jolene. — E que tal se eu servisse o jantar às meninas mais cedo e</p><p>as pusesse no quarto a ver um filme e depois preparasse um belo</p><p>jantar para nós dois? Ou então podia ir buscar qualquer coisa ao</p><p>bistrô; adoramos a comida deles.</p><p>— Tens a certeza?</p><p>— O mais importante é estarmos juntos — limitou-se Jolene a</p><p>responder.</p><p>— Está bem — disse Michael. — Chego a casa por volta das oito.</p><p>Antes de desligar o telefone, ele já estava a pensar noutra coisa.</p><p>CAPÍTULO 2</p><p>Nessa noite, Jolene escolheu a roupa com todo o cuidado. Ela e</p><p>Michael não iam jantar fora, só os dois, há uma eternidade, e queria</p><p>que essa noite fosse perfeita. Romântica. Depois de servir o jantar</p><p>às meninas, tomou um banho com água perfumada, depilou-se,</p><p>massajou a pele com uma loção com aroma de limão e vestiu umas</p><p>calças de ganga confortáveis e uma camisola preta com decote.</p><p>Foi encontrar Betsy lá em baixo sentada junto à mesinha de café</p><p>da sala, a fazer os trabalhos de casa, enquanto Lulu estava no sofá,</p><p>embrulhada na sua mantinha amarela favorita, a ver A Pequena</p><p>Sereia. Ainda havia resquícios da sua festa de aniversário</p><p>improvisada em cima da mesa da sala de jantar — o bolo, com os</p><p>respetivos buracos das velas; o diário cor de rosa que Betsy</p><p>oferecera a Jolene; o gancho faiscante de cabelo que fora o presente</p><p>de Lulu, uma pilha de papel amarrotado e laços prontos para irem</p><p>para o lixo.</p><p>— Ela não manda em mim — disse Lulu quando Jolene entrou na</p><p>sala.</p><p>— Manda-a calar-se, mãe. Estou a tentar fazer os trabalhos de</p><p>casa — respondeu Betsy. — Ela está a cantar demasiado alto.</p><p>E começou tudo de novo. As vozes sobrepuseram-se uma à</p><p>outra, subindo de volume.</p><p>— Ela não manda em mim — voltou Lulu a dizer, em tom mais</p><p>duro e intransigente. — Diz-lhe.</p><p>Betsy revirou os olhos e saiu da sala, subindo as escadas a bater</p><p>com os pés.</p><p>Jolene sentiu uma vaga de exaustão. Não lhe passara pela</p><p>cabeça até que ponto podia tornar-se cansativo ser mãe de uma</p><p>pré-adolescente. Quantas vezes poderia uma rapariga revirar os</p><p>olhos sem se fartar? Se Jolene alguma vez tivesse experimentado a</p><p>gracinha, o pai tê-la-ia expulsado da sala à chapada.</p><p>Lulu correu até ao baú dos brinquedos no canto da sala e fartou-</p><p>se de remexer lá dentro. Depois de encontrar a bandolete com</p><p>orelhas de gato que fizera parte da máscara do Halloween do ano</p><p>anterior, pô-la na cabeça e virou-se.</p><p>Jolene não conseguiu reprimir um sorriso. Ali estava a sua filha</p><p>de quatro anos, usando orelhas cinzentas de gato que começavam a</p><p>ter um ar puído em certos sítios, com as mãos nas ancas. Os</p><p>pequenos triângulos pontiagudos emolduravam o rosto corado de</p><p>Lulu e davam-lhe um ar ainda mais traquinas do que o costume. Por</p><p>qualquer razão que ninguém era capaz de explicar, Lulu achava que</p><p>ficava invisível quando usava aquela bandolete. Emitiu o som de um</p><p>miado.</p><p>Jolene franziu a testa com ar dramático e olhou em volta.</p><p>— Oh, não. O que terá acontecido à minha Lucy Lou? Para onde</p><p>foi ela?</p><p>Armou um grande circo procurando por toda a sala, atrás da</p><p>televisão, debaixo do cadeirão estofado amarelo, atrás da porta.</p><p>— Estou aqui, mamã! — disse Lulu com espalhafato, soltando</p><p>uma risadinha.</p><p>— Cá estás tu — disse Jolene com um suspiro. — Estava</p><p>preocupada.</p><p>Pegou na filha ao colo e levou-a pelas escadas acima. Lulu</p><p>demorou uma eternidade a lavar os dentes e a vestir o pijama, e</p><p>Jolene esperou com toda a paciência, sabendo que ela era dotada</p><p>de um carácter forte e independente. Quando a filha ficou</p><p>finalmente pronta, Jolene subiu para a cama para junto dela, puxou-</p><p>a para si e procurou o livro O Sítio das Coisas Selvagens. Quando</p><p>proferiu a palavra «fim», Lulu já estava quase a dormir.</p><p>Beijou Lulu na face.</p><p>— Boa noite, gatinha.</p><p>— Boa noite, mamã — murmurou Lulu sonolenta.</p><p>Em seguida, Jolene percorreu o corredor até ao quarto de Betsy,</p><p>bateu à porta e entrou.</p><p>A filha mais velha estava sentada em cima da cama, com o livro</p><p>de História aberto no colo. O seu cabelo louro, claro e sedoso,</p><p>tombava-lhe em espirais de caracóis ao longo dos braços nus e</p><p>magros. Um dia, Betsy iria dar valor à sua pele de porcelana, ao</p><p>cabelo louro e aos olhos castanhos, mas não agora, quando o cabelo</p><p>liso estava na moda e as borbulhas se haviam espalhado pelo seu</p><p>rosto.</p><p>Jolene dirigiu-se à cama da filha e sentou-se na beira.</p><p>— Podias ser mais simpática com a tua irmã.</p><p>— Ela é uma chata.</p><p>— Tu também és — disse Jolene reparando como os olhos de</p><p>Betsy se arregalaram, e sorrindo-lhe depois com carinho. — E eu</p><p>também sou. As famílias são assim mesmo. E, além disso, sei</p><p>exatamente qual é a razão para estares assim.</p><p>— Sabes?</p><p>— Vi a maneira como a Sierra e a Zoe te trataram esta manhã na</p><p>escola.</p><p>— Andas sempre a espiar-me — disse Betsy, mas a sua voz</p><p>fraquejou.</p><p>— Estava a ver-te entrar na escola. Não é bem o que se pode</p><p>chamar «espiar». Vocês as três eram as melhores amigas no ano</p><p>passado. O que foi que aconteceu?</p><p>— Nada — respondeu Betsy com teimosia, apertando os lábios, a</p><p>ocultar o aparelho dos dentes.</p><p>— Posso ajudar-te, se quiseres. Também já tive doze anos aqui</p><p>há uns tempos.</p><p>Betsy lançou-lhe aquele olhar de deves-estar-doida que se</p><p>tornara familiar durante o último ano.</p><p>— Duvido muito.</p><p>— Talvez devesses sair com o Seth depois das aulas amanhã.</p><p>Lembras-te do quanto vocês costumavam divertir-se?</p><p>— O Seth é esquisito. Toda a gente acha isso.</p><p>— Elizabeth Andrea, não te atrevas a portares-te como uma</p><p>menina má. Seth Flynn não é esquisito. É o filho da minha melhor</p><p>amiga. Qual é o problema se ele gosta de usar o cabelo comprido e</p><p>se é… calado? É teu amigo. Não deves esquecer-te disso. Um dia</p><p>podes vir a precisar dele.</p><p>— Logo se vê.</p><p>Jolene suspirou. Já vira este filme antes; por mais vezes que</p><p>perguntasse, Betsy recusar-se-ia a dizer mais qualquer coisa. Logo</p><p>se vê era sinónimo de ponto final.</p><p>— Muito bem — disse, debruçando-se e beijando a filha na testa.</p><p>— Adoro-te até ao infinito.</p><p>As palavras constituíam a divisa desta família, cujo amor se</p><p>concentrava numa única frase. Retribui o meu carinho, Bets.</p><p>Jolene esperou um momento mais longo do que tencionava e</p><p>ficou de imediato furiosa consigo própria por sentir uma réstia de</p><p>esperança. Mais uma vez. A maternidade nos anos da pré-</p><p>adolescência era uma série de desilusões exasperantes.</p><p>— Muito bem — disse por fim, pondo-se de pé.</p><p>— Porque é que o papá ainda não chegou? É o teu aniversário.</p><p>— Já deve estar a chegar. Sabes bem como ele anda ocupado</p><p>agora.</p><p>— Achas que ele vem aqui dizer-me boa noite?</p><p>— Claro que sim.</p><p>Betsy abanou a cabeça e voltou para a sua leitura. Quando</p><p>Jolene chegou à porta, disse:</p><p>— Feliz aniversário, mãe.</p><p>Jolene sorriu.</p><p>— Obrigada, Bets. Adorei o diário que me deste. É perfeito.</p><p>Betsy chegou mesmo a sorrir.</p><p>Já no andar de baixo, Jolene entrou na cozinha e tirou o último</p><p>dos pratos. O seu jantar — um requintado e delicioso prato de</p><p>entrecosto de vitela estufado em vinho tinto, alho e tomilho —</p><p>borbulhava em lume brando no fogão, perfumando a casa inteira. As</p><p>filhas não tinham gostado muito, mas era o prato preferido de</p><p>Michael.</p><p>Cobrindo os ombros com uma macia manta cor de rosa, ele</p><p>serviu-se de um copo de água gaseificada e foi até lá fora. Sentou-</p><p>se numa das velhas cadeiras de verga do alpendre e pousou os pés</p><p>descalços em cima da mesinha de apoio já gasta, contemplando a</p><p>paisagem familiar.</p><p>Lar.</p><p>Começara quando conheceu Michael.</p><p>Recordava-se de tudo com toda a clareza.</p><p>Durante vários dias após a morte dos pais, esperara que alguém</p><p>fosse ajudá-la. Polícia, terapeutas, professores. Não levou muito</p><p>tempo</p>
<p>lugar-comum.</p><p>Jolene começara a evitar o mercado de Haji; não era capaz de</p><p>suportar a hipótese de o rapaz amoroso que vendia vídeos poder um</p><p>dia ter uma bomba presa ao peito. Começou a chover nos últimos</p><p>dias; a base transformara-se numa gigantesca poça de lama. O chão</p><p>de cimento da caravana estava sujo. Não havia maneira de tirar a</p><p>lama vermelha e viscosa das botas.</p><p>Nessa noite, o céu estava límpido e negro, salpicado de estrelas.</p><p>Ocorreu-lhe que há apenas uns meses um céu como aquele a faria</p><p>pensar na família em casa, a dormir tranquilamente sob as mesmas</p><p>estrelas. Nos dias que corriam, Jolene não perdia muito tempo a</p><p>pensar no que estaria a acontecer em casa. Estava demasiado</p><p>ocupada e exausta para pensar nisso. Agora andava constantemente</p><p>no ar, voando com a tripulação pela zona, transportando pessoal</p><p>para locais de trabalho e levando tropas iraquianas além de</p><p>personalidades civis e militares. Era cada mais frequente voar em</p><p>missões de assalto, transportando tropas para o terreno das suas</p><p>missões.</p><p>Caminhava ao lado de Tami em direção à caravana que</p><p>acomodava a sala de planeamento de voo da Companhia Charlie.</p><p>Nem se incomodaram em falar; estavam ambas demasiado cansadas</p><p>para tamanho esforço. Eram dez da noite, e já haviam efetuado</p><p>duas missões com o helicóptero naquele dia. A véspera fora ainda</p><p>mais movimentada.</p><p>Jolene subiu os degraus de madeira enlameados e entrou na</p><p>caravana. As paredes estavam cobertas com pedaços de papel —</p><p>horários, relatórios, circulares, calendários. Todas as rotas de cada</p><p>aeronave eram acompanhadas a partir dali. Havia monitores de</p><p>computador em todas as secretárias. Era ali que guardavam todas as</p><p>metralhadoras, munições e equipamentos de voo.</p><p>Assim que Jolene entrou na caravana, faltou a eletricidade e ficou</p><p>tudo às escuras. Ouviu alguém dizer:</p><p>— Merda. Outra vez?</p><p>Jolene sabia que o gerador não tardaria a entrar em</p><p>funcionamento, mas tinha de estar no helicóptero daí a cinco</p><p>minutos.</p><p>— Zarkades, senhor capitão — identificou-se Jolene no escuro. —</p><p>Tem um plano de missão para o Raptor oito-nove?</p><p>Ouviu-se um restolhar de papéis, seguido do ranger de passos no</p><p>chão de contraplacado de madeira.</p><p>— Assalto aéreo, chefe. A senhora e o Raptor quatro-dois vão até</p><p>Al Anbar. Temos uma unidade de fuzileiros encurralada numa vala.</p><p>Estão debaixo de fogo cerrado.</p><p>O gerador disparou; as luzes voltaram a acender-se.</p><p>O capitão Will «Cowboy» Rossen estava de pé diante de Jolene,</p><p>estendendo-lhe as respetivas ordens.</p><p>— Sim, senhor.</p><p>O capitão anuiu com um aceno de cabeça.</p><p>— Tome cuidado e volte em segurança.</p><p>Jolene e Tami dirigiram-se à pequena sala anexa ao centro de</p><p>operações a fim de irem buscar as suas coisas. Jolene vestiu o</p><p>pesado colete de Kevlar e pegou no saco de voo. Enquanto</p><p>caminhavam pelas ruas lamacentas, começou a chover. Jolene olhou</p><p>para cima, viu uma camada de nuvens cinzento-escuras cobrir as</p><p>estrelas.</p><p>— Merda. A visibilidade está a piorar — comentou Jolene.</p><p>Estugaram o passo, com as botas a chapinhar na lama. Jolene</p><p>sentiu Jamie chegar junto de si, mas nenhum dos dois proferiu uma</p><p>única palavra enquanto se encaminhavam para o aparelho. Então,</p><p>Smitty apareceu, apertando o capacete enquanto caminhava.</p><p>— Vais no lugar da esquerda? — perguntou Tami depois de o</p><p>helicóptero ser verificado e estar pronto para partir.</p><p>Jolene anuiu com um gesto de cabeça e subiu para o assento da</p><p>esquerda, apertando o cinto de segurança. Fixou os óculos de visão</p><p>noturna ao capacete e colocou-os no lugar.</p><p>Em menos de cinco minutos estavam a descolar, levantando voo</p><p>mesmo abaixo do teto de nuvens.</p><p>Era uma missão de dois helicópteros. Voavam juntos, sempre em</p><p>contacto, através da negra extensão de deserto, passando por</p><p>Bagdade até à província de Al Anbar, um pouco mais para lá de</p><p>Fallujah.</p><p>Quando entraram no espaço aéreo de Fallujah vindos do norte,</p><p>soou a primeira série de disparos de metralhadora. O ruído tap-tap-</p><p>tap na fuselagem era característico de armas de pequeno calibre.</p><p>— Raptor oito-nove, debaixo de fogo, às sete horas, duzentos</p><p>metros — informou Jolene pelo microfone.</p><p>O outro helicóptero respondeu no mesmo instante.</p><p>— Raptor quatro-dois debaixo de fogo, às nove horas, guinando</p><p>à direita.</p><p>Sobrevoavam uma pequena aldeia. Uma metralhadora</p><p>encontrava-se instalada no cimo de um telhado, disparando contra</p><p>eles.</p><p>Jolene esquadrinhou a região lá em baixo; os seus óculos de</p><p>visão noturna revelaram dúzias de pontos branco-esverdeados</p><p>deslocando-se por entre a escuridão. Os soldados encurralados na</p><p>vala ou rebeldes à procura deles? Inclinou-se para a frente a fim de</p><p>ligar um interruptor, e tudo explodiu.</p><p>Um projétil explosivo atingiu a fuselagem com tanta força que</p><p>Jolene foi atirada para os lados; o seu pé direito descreveu um arco</p><p>e pontapeou o painel de instrumentos.</p><p>A cabina de pilotagem encheu-se de fumo. As chamas invadiram</p><p>a parte traseira do helicóptero; era capaz de sentir o calor. Jolene</p><p>chamou pelos elementos da sua tripulação, mas não obteve</p><p>resposta. Mudou a velocidade e tentou manter o aparelho no ar, mas</p><p>estavam a cair — a mergulhar a pique — a mais de duzentos e</p><p>quarenta quilómetros por hora.</p><p>A indicação de funcionamento do motor número dois</p><p>desapareceu; o painel de instrumentos ficou às escuras. Nada. Nem</p><p>sequer a temperatura do motor.</p><p>Tornou a chamar pelos membros da equipa, disse-lhes para se</p><p>segurarem e prepararem para o impacto, e depois tentou pedir</p><p>socorro reportando a sua posição, mas o fumo era tão intenso que</p><p>não conseguia respirar. Tudo o que conseguiu proferir foi Mayday —</p><p>antes de se despenharem.</p><p>Depois de um longo dia passado a reunir depoimentos dos</p><p>agentes da polícia que interrogaram Keith Keller, Michael chegou a</p><p>casa mais morto do que vivo, e fez o jantar para as filhas — uma</p><p>das receitas de frango com arroz de Jolene que encontrou no dossiê</p><p>de três argolas abarrotado de informações. Mais tarde, quando as</p><p>miúdas já se encontravam a dormir, entrou na sala de estar, ficando</p><p>ali de pé sozinho, reparando no quanto a casa se encontrava</p><p>sossegada.</p><p>Uma emoção invulgar tomou conta de si, tão estranha que</p><p>precisou de um momento para poder reconhecê-la. Solidão.</p><p>Ao longo de demasiado tempo, ele sentira uma espécie de raiva</p><p>latente por ser o Senhor Mãe, sentira-se diminuído por ser</p><p>responsável pelas filhas, por cozinhar e por fazer compras. Culpou</p><p>Jolene por tê-lo deixado à deriva num mar de responsabilidades que</p><p>não desejava para si e que mal sabia como pôr em prática. Contudo,</p><p>no decorrer das últimas semanas, tudo havia mudado. Ele tinha</p><p>mudado. Descobrira uma nova faceta de si próprio; adorava ler para</p><p>Lulu antes de dormir, ouvir as perguntas peculiares da filha acerca</p><p>das histórias, contemplar o dedinho dela a apontar as imagens.</p><p>Adorava os momentos em que Betsy se sentava a seu lado à noite, a</p><p>ver televisão e a contar-lhe histórias da escola. Adorava a maneira</p><p>como se haviam tornado uma equipa na ida à mercearia,</p><p>trabalhando em conjunto, ou como brincar à Terra dos Doces era</p><p>capaz de os fazer rir a todos.</p><p>Sentia saudades de Jolene. Como é que nunca havia previsto</p><p>como seria a sua vida sem ela?</p><p>Jolene estava muito longe, e todos os dias disparavam contra ela,</p><p>esquivava-se a ataques com explosivos, escapando-lhes de maneiras</p><p>que não conseguia sequer imaginar. E o que lhe dera para levar com</p><p>ela? Já não te amo.</p><p>Encaminhou-se até junto da televisão e ligou-a. A fita mais</p><p>recente de Jolene estava no vídeo; as filhas viam-na vezes sem</p><p>conta.</p><p>Ligou-o.</p><p>E lá estava ela, Jolene fardada, sorrindo para a câmara,</p><p>indicando pontos de referência em torno de Balad — «Este aqui é o</p><p>lugar onde podemos encontrar aquela tarte ótima.»</p><p>A sua mulher.</p><p>A fita chegou ao fim e a última imagem de Jolene ficou parada</p><p>no ecrã. Estava junto de Tami, ambas fardadas, com os braços em</p><p>torno dos ombros uma da outra. Jolene exibia um sorriso radioso,</p><p>mas Michael entreviu a verdade nos olhos dela. Também estava</p><p>assustada e solitária.</p><p>Tinha tanta vontade de falar com ela que sentiu uma dor imensa</p><p>no peito.</p><p>No entanto, não havia como telefonar-lhe. Tudo o</p>
<p>a perceber que, com a morte dos pais, assim como enquanto</p><p>foram vivos, se encontrava sozinha. Numa quarta-feira de manhã em</p><p>que nevava, acordou cedo, ignorando o frio que se infiltrava através</p><p>das finas paredes do quarto, vestiu as suas melhores roupas — uma</p><p>saia axadrezada de lã, uma camisola de lã, meias até aos joelhos —</p><p>e calçou uns mocassins. Uma fita larga e azul impedia que o cabelo</p><p>lhe caísse para os olhos.</p><p>Pegou no que restava do dinheiro que ganhara como baby-sitter</p><p>e dirigiu-se para a Baixa de Seattle. Conheceu Michael no escritório</p><p>de apoio jurídico.</p><p>O seu ar atraente de homem moreno e o sorriso fácil deixaram-</p><p>na literalmente sem fôlego. Acompanhou-o até um gabinete</p><p>modesto e pequeno e contou-lhe o seu problema.</p><p>— Tenho dezassete anos; faço dezoito daqui a dois meses. Os</p><p>meus pais morreram esta semana. Acidente de carro. Uma</p><p>assistente social foi lá a casa e disse que tinha de ir para uma casa</p><p>de acolhimento até completar dezoito anos. Só que eu não preciso</p><p>de ninguém. E muito menos de uma família falsa. Posso muito bem</p><p>morar na minha própria casa até junho, quando o banco tomar</p><p>posse dela, e depois também já terei terminado o secundário e</p><p>posso fazer… qualquer coisa. Consegue impedir que eu vá para uma</p><p>família de acolhimento?</p><p>Michael observou-a com atenção, semicerrando os olhos.</p><p>— Nesse caso, ficarias sozinha.</p><p>— Eu estou sozinha. É um facto, não uma opção.</p><p>Quando Michael disse, por fim, «Vou ajudar-te, Jolene», sentiu</p><p>vontade de chorar.</p><p>Durante uma hora, contou-lhe uma versão resumida da sua vida.</p><p>Michael mencionou algo sobre o sigilo entre advogado e cliente e</p><p>referiu que poderia contar-lhe tudo. Jolene, porém, há muito tempo</p><p>que aprendera a manter a verdade em segredo. Quando as pessoas</p><p>ficavam a saber que crescera com pais alcoólicos, era invariável que</p><p>sentissem pena dela. Odiava isso, odiava que sentissem pena dela.</p><p>Assim que terminaram e a papelada foi preenchida, Michael</p><p>disse:</p><p>— Volta cá daqui a uns anos para falar comigo, Jolene. Nessa</p><p>altura, levo-te a jantar fora.</p><p>Demorou seis anos a encontrar-se com Michael de novo. Nessa</p><p>altura, já era piloto de helicópteros e ele um advogado em sociedade</p><p>com o pai, e não tinham quase nada em comum. Contudo, Jolene</p><p>vira algo nele logo naquele primeiro dia, um idealismo que lhe</p><p>tocava profundamente e um sentido de moralidade que combinava</p><p>com o seu. Tal como ela, Michael trabalhava muito e possuía um</p><p>agudo sentido do dever. Fiel à sua palavra, Michael levou-a a jantar</p><p>fora. E foi assim que tudo começou.</p><p>Jolene sorriu ao lembrar-se desses tempos.</p><p>Ao longe, as luzes começaram a surgir ao longo da costa, pontos</p><p>dourados que indicavam a localização de casas na escuridão. Nuvens</p><p>diáfanas flutuavam passando pela Lua; na sua ausência, esta</p><p>brilhava com mais intensidade. Já era noite cerrada e estava escuro.</p><p>Jolene consultou o relógio. Oito e meia.</p><p>Sentiu uma pontada de desilusão e afastou de imediato esse</p><p>sentimento. Deve ter surgido alguma coisa importante. A vida às</p><p>vezes era assim mesmo. As coisas raramente eram perfeitas. Michael</p><p>não deixaria de vir.</p><p>Mas…</p><p>Nos últimos tempos parecia que as diferenças entre ambos eram</p><p>mais acentuadas do que o que tinham em comum. Michael sempre</p><p>detestara o seu empenho pelo serviço militar. Jolene abandonara o</p><p>serviço ativo por ele e optara por ingressar na Guarda Nacional, mas</p><p>isso não fora o suficiente para agradar ao marido. Recusava-se a</p><p>entender os fins de semana passados em voos de treino e também</p><p>não queria saber dos amigos militares que ela tinha. Sempre fora</p><p>antimilitarista, mas, desde que tivera início a Guerra do Iraque, as</p><p>opiniões dele tinham-se tornado mais fortes, mais negativas. Os</p><p>silêncios de ambos, outrora amistosos, passaram a ser</p><p>constrangedores. A solidão tornava-se pesada quando não era</p><p>possível conversar com o marido sobre as coisas que considerava</p><p>importantes. Por norma, Jolene fechava os olhos a essas verdades,</p><p>mas naquela noite essas verdades eram tudo o que ocupava a</p><p>cadeira que se encontrava ao seu lado.</p><p>Pôs-se de pé e voltou a entrar em casa.</p><p>8h50.</p><p>Tirou a pesada tampa amarela do tacho e contemplou a refeição</p><p>que preparara. O molho suculento apurara em demasia; estava um</p><p>pouco negro à volta do tacho. Atrás de si, o telefone tocou. Deu um</p><p>pulo, apressando-se a atendê-lo.</p><p>— Está?</p><p>— Olá, Jo. Desculpa, mas estou atrasado.</p><p>— Atrasado estavas há uma hora, Michael. O que aconteceu?</p><p>— Sinto muito. O que posso dizer? Mergulhei no trabalho e</p><p>esqueci-me.</p><p>— Esqueceste-te — disse Jolene, desejosa de que isso não a</p><p>magoasse.</p><p>— Vou compensar-te.</p><p>Quase não resistiu à tentação de lhe perguntar: «Como?» Mas de</p><p>que adiantaria? Para quê piorar as coisas? Michael não tivera</p><p>intenção de magoá-la.</p><p>— Não há problema.</p><p>— Vou tentar ir para casa o mais depressa que puder, mas…</p><p>Jolene ficou satisfeita por estarem ao telefone; pelo menos não</p><p>era forçada a sorrir. Ocorreu-lhe a ideia de que nos últimos tempos</p><p>Michael não se esforçava muito, que a sua família — e a sua mulher</p><p>— não pareciam ter importância para ele. E, no entanto, ainda o</p><p>amava tão profundamente como no dia em que o beijara pela</p><p>primeira vez, tantos anos antes.</p><p>Tempo, pensou Jolene. Não terá importância durante a próxima</p><p>semana ou o próximo mês. Michael ainda chorava a perda do pai. Só</p><p>precisava de ser compreensiva.</p><p>— Feliz aniversário — disse Michael.</p><p>— Obrigada.</p><p>Jolene desligou o telefone e sentou-se à mesa da cozinha.</p><p>Naquela divisão sombria, decorada com fotografias da sua</p><p>família, recordações e móveis que resgatara, recuperara e</p><p>restaurara, Jolene sentiu-se sozinha de repente. Toda arranjada,</p><p>sentada neste aposento na penumbra. Sozinha.</p><p>Então bateram à porta. Antes mesmo de Jolene se levantar, a</p><p>porta da cozinha abriu-se. Tami entrou com uma garrafa de</p><p>champanhe na mão.</p><p>— Estás sozinha — disse em voz baixa.</p><p>— Michael ficou preso no emprego — respondeu Jolene.</p><p>— Já receava algo do género.</p><p>A tristeza perpassou pelos olhos de Tami e Jolene detestou o que</p><p>esse olhar lhe fez sentir. Depois, a amiga sorriu.</p><p>— Bom. Não adianta fazer quarenta e um anos e não ter público</p><p>— disse, fechando a porta atrás de si com um pontapé. — Além do</p><p>mais, estou morta por saber se vais começar a ficar toda engelhada</p><p>mesmo diante dos meus olhos, tal como o Gary Oldman no Drácula</p><p>de Bram Stoker.</p><p>— Não vou começar a engelhar.</p><p>— Nunca se sabe.</p><p>— Champanhe? — perguntou Jolene, arqueando uma</p><p>sobrancelha.</p><p>— É para mim. Eu não tenho pais alcoólicos. Podes entupir-te de</p><p>água gaseificada, como de costume.</p><p>Tami abriu a garrafa de champanhe, serviu-se de uma taça e</p><p>encaminhou-se para a sala de estar, onde se deixou cair no sofá</p><p>macio e ergueu a taça.</p><p>— À tua saúde, minha melhor amiga a envelhecer a olhos vistos.</p><p>Jolene seguiu Tami até à sala de estar.</p><p>— És apenas uns meses mais nova do que eu.</p><p>— Nós, os nativos americanos, não envelhecemos. É um facto</p><p>científico. Basta olhar para a minha mãe. Está ótima. Há sítios onde</p><p>ainda lhe pedem para mostrar um documento de identificação.</p><p>Jolene sentou-se numa cadeira estofada e aninhou-se sobre as</p><p>pernas encolhidas.</p><p>Olharam uma para a outra. O que redemoinhava entre as duas,</p><p>borbulhando como champanhe, eram recordações de noites como</p><p>aquela, refeições a que Michael faltara, eventos a que não pudera</p><p>comparecer por se encontrar demasiado ocupado. Jolene muitas</p><p>vezes falava às pessoas, em especial a Tami, do orgulho que tinha</p><p>no seu brilhante e bem-sucedido marido, e era tudo verdade, mas,</p><p>nos últimos tempos, Michael parecia infeliz. A morte do pai abalara-</p><p>o. Jolene sabia até que ponto Michael estava infeliz, só não sabia</p><p>como ajudá-lo.</p><p>— Deves estar magoada — disse Tami.</p><p>— Estou mesmo — respondeu Jolene em voz baixa.</p><p>— Devias conversar com ele a esse respeito, dizer-lhe como te</p><p>sentes.</p><p>— De que adianta? Para quê fazê-lo sentir-se ainda pior do que</p><p>já se sente? Estas merdas acontecem, Tami. Conheces a ética</p><p>profissional de Michael. É uma das coisas que mais adoro nele.</p><p>Nunca se esquiva às responsabilidades.</p><p>— A menos que seja uma obrigação familiar — comentou a</p><p>amiga em tom brando.</p>
<p>— Ele anda mesmo muito ocupado neste momento. Desde que o</p><p>pai morreu…</p><p>— Bem sei — retorquiu Tami —, além de que vocês os dois</p><p>também não conversam sobre isso. Na verdade, vocês não</p><p>conversam.</p><p>— Nós conversamos.</p><p>Tami dirigiu-lhe um olhar avaliador.</p><p>— Os casamentos atravessam períodos difíceis. Às vezes é</p><p>preciso reunir todas as forças e lutar pelo nosso amor. É a única</p><p>maneira de fazer com que as coisas melhorem.</p><p>Jolene não pôde deixar de pensar nos pais e na maneira como a</p><p>mãe lutara pelo amor de um homem… sem nunca conseguir obtê-lo.</p><p>— Olha, Tami. Eu e o Michael estamos ótimos. Amamo-nos. Por</p><p>favor, será que podemos falar sobre outra coisa qualquer? Por favor?</p><p>Tami ergueu a sua taça.</p><p>— À tua saúde, minha amiga. Estás com um aspeto fabuloso</p><p>apesar da idade extravagantemente avançada.</p><p>— Estou com um aspeto fabuloso, ponto final.</p><p>Rindo-se do comentário da amiga, Tami começou a contar uma</p><p>história divertida sobre a sua família.</p><p>Eram dez e quarenta e as duas nem se tinham apercebido de o</p><p>tempo passar. Tami pousou a taça em cima da mesa.</p><p>— Tenho de ir para casa. Disse ao Carl que chegava a tempo de</p><p>ver o Letterman.</p><p>Jolene pôs-se de pé.</p><p>— Obrigada por teres vindo. Estava a precisar.</p><p>Tami deu-lhe um abraço bem apertado. Encaminharam-se juntas</p><p>até à porta das traseiras.</p><p>Jolene ficou a ver a amiga atravessar a rua e dirigir-se para a</p><p>propriedade contígua. Em seguida, fechou a porta.</p><p>No silêncio da noite, ficou sozinha com os seus pensamentos, e</p><p>não gostou dessa companhia.</p><p>Era meia-noite quando Michael entrou com o carro na garagem e</p><p>estacionou ao lado do jipe de Jolene. No assento ao seu lado havia</p><p>uma dúzia de rosas cor de rosa envoltas em papel celofane. Já vinha</p><p>no ferry, a caminho de casa, quando se lembrou de que Jolene</p><p>preferia rosas vermelhas. É claro. As coisas suaves e femininas não</p><p>eram o estilo dela, nunca foram, nem mesmo naquele primeiro e</p><p>triste dia em que ela entrou na sua vida.</p><p>Tinha dezassete anos. Uma miúda vestida com roupas em</p><p>segunda mão, com o longo cabelo louro despenteado, os lindos</p><p>olhos verdes inchados de tanto chorar, e, apesar de tudo isso,</p><p>entrara no gabinete de apoio jurídico de costas direitas e cabeça</p><p>erguida, agarrada a uma carteira de vinil esfarrapada. Nessa altura,</p><p>Michael não passava de um estagiário, frequentando o primeiro ano</p><p>de Direito.</p><p>Aos olhos de Michael, Jolene parecera invulgarmente corajosa,</p><p>uma rapariga que recusava ajuda até mesmo nos piores dias da sua</p><p>vida. Gostara dela logo nesse momento, o suficiente para lhe pedir</p><p>para vir visitá-lo quando fosse mais velha. Fora a ousadia dela que</p><p>lhe falara ao coração logo desde o princípio, a coragem que ela</p><p>envergava com a mesma facilidade e à-vontade com que vestia</p><p>aquela camisola barata.</p><p>Seis anos mais tarde, Jolene voltara a entrar na sua vida, ainda</p><p>por cima na qualidade de piloto de helicópteros do Exército. Michael</p><p>era jovem o suficiente para continuar a acreditar no amor à primeira</p><p>vista, e tinha idade suficiente para saber que isso não acontecia</p><p>todos os dias. Disse para si mesmo que não importava o facto de ele</p><p>ser democrata e de ela ser militar, de não terem nada em comum.</p><p>Sentiu-se tão amado por ela, tão adorado, que não conseguia</p><p>respirar. E, quando faziam amor, era fantástico. No sexo, tal como</p><p>em tudo, Jo era incansável.</p><p>Pegou nas rosas e no pequeno estojo Tiffany que estava ao seu</p><p>lado, perguntando-se se a prenda cara iria redimi-lo. Jolene iria</p><p>reparar que Michael comprara a prenda com antecedência — que se</p><p>tinha lembrado do seu aniversário a tempo de mandar gravar a sua</p><p>prenda —, mas isso seria suficiente? Perdera o jantar de aniversário</p><p>de Jolene — esquecera-se.</p><p>Sentia-se exausto só de imaginar a cena que estava iminente.</p><p>Recorreria a todo o seu encanto para fazê-la sorrir, para lhe implorar</p><p>o seu perdão, e ela conceder-lho-ia com uma graciosidade e uma</p><p>facilidade que minimizaria a importância de todo aquele incidente,</p><p>mas veria a mágoa nos seus olhos verdes, na maneira como o</p><p>sorriso dela não seria natural, e teria a certeza de que a desapontara</p><p>mais uma vez. Aqui, era ele o mau da fita; não havia dúvidas quanto</p><p>a isso, e Jolene iria lembrar-lhe isso através de mil e uma coisas</p><p>insignificantes até Michael não suportar olhar para ela, até se virar</p><p>para o outro lado na cama, fitar a parede e imaginar uma vida</p><p>diferente.</p><p>Saiu do carro e encaminhou-se para casa. Encontrou uma jarra</p><p>na cozinha às escuras, colocou as rosas lá dentro e depois levou-as</p><p>consigo escadas acima.</p><p>As luzes do quarto de casal estavam apagadas, à exceção do</p><p>pequeno candeeiro decorativo que havia em cima da escrivaninha</p><p>junto à janela. Pousou a jarra na cómoda antiga e dirigiu-se à casa</p><p>de banho, onde se despiu e se preparou para ir para a cama. Depois</p><p>de entrar na cama, puxou o edredão para cima a fim de tapar o</p><p>peito e ficou ali deitado no escuro.</p><p>Escutar a respiração da mulher costumava acalmá-lo, mas agora</p><p>todos os sons que ela emitia mantinham-no acordado.</p><p>Michael fechou os olhos e fez figas, sabendo de antemão que</p><p>ficaria ali acordado durante horas até conseguir adormecer e que,</p><p>assim que conciliasse o sono, este seria, na melhor das hipóteses,</p><p>fortuito, infestado de sonhos de uma vida não vivida, de um</p><p>caminho não escolhido.</p><p>Quando acordou, horas mais tarde, sentiu-se como se não</p><p>tivesse dormido nada. A luz fraca entrava através das vidraças,</p><p>fazendo com que as paredes cor de salva parecessem cinzentas</p><p>como madeira flutuante. O soalho escuro de madeira absorvia toda a</p><p>luz solar que incidia nele.</p><p>Soergueu-se apoiado nos cotovelos, sentiu o edredão destapar-</p><p>lhe o peito.</p><p>Jolene estava deitada acordada ao seu lado, com o cabelo louro</p><p>emaranhado, o rosto pálido ligeiramente virado na direção dele.</p><p>A dor já se instalara nos olhos dela.</p><p>— Desculpa, Jo — disse Michael, debruçando-se e dando-lhe um</p><p>beijo rápido, afastando-se depois. — Vou compensar-te.</p><p>— Eu sei. É apenas um aniversário. Talvez tenha dado demasiada</p><p>importância ao assunto.</p><p>Michael levantou-se da cama, foi buscar o estojo Tiffany à</p><p>cómoda e entregou-o à mulher.</p><p>Ocorreu-lhe que ela iria pedir alguma coisa para o seu</p><p>aniversário, algo especial. Também não seria uma prenda; não era</p><p>esse o estilo de Jolene. Ela queria algo. Michael não conseguia</p><p>lembrar-se do que era, mas reparou na ligeira expressão de</p><p>desagrado que passou pela cara da mulher quando viu o estojo;</p><p>desapareceu logo em seguida e Jolene sorriu-lhe.</p><p>— Tiffany, hã?</p><p>Jolene sentou-se na cama, acomodou as almofadas ajeitando-as</p><p>nas costas e depois abriu o estojo. Lá dentro, um cintilante relógio</p><p>de pulso em platina e ouro estava enrolado em volta de uma</p><p>superfície de couro branco. Um diamante isolado e pequeno ocupava</p><p>o lugar do número doze.</p><p>— É lindo — disse Jolene virando o relógio e vendo que tinha</p><p>gravada a inscrição «Jolene, felicidades pelos 41 anos». — Quarenta</p><p>e um — disse ela. — Uau. O tempo voa. Não tarda nada, a Betsy vai</p><p>para o secundário.</p><p>Michael desejou que ela não tivesse dito aquilo. Ultimamente, o</p><p>tempo não tinha sido um grande amigo. Tinha quarenta e cinco anos</p><p>— era um homem de meia-idade, para todos os efeitos. Em breve</p><p>faria cinquenta anos, e qualquer hipótese que tivesse de se</p><p>transformar numa outra versão de si mesmo teria desaparecido. E</p><p>continuava a não fazer a mínima ideia de como seria essa outra</p><p>versão; sabia apenas que o brilho e a vivacidade haviam</p><p>abandonado a pessoa que era.</p><p>Sentou-se na cama ao lado de Jolene. Olhou-a, compreendendo</p><p>de repente que precisava dela, querendo sentir por ela o mesmo que</p><p>sentia antes.</p><p>— Como foi que ultrapassaste as mortes deles? Quero dizer,</p><p>como as superaste de verdade? Foste obrigada a mudar a tua vida</p><p>num instante.</p><p>Viu-a vacilar, afastar-se um pouco. Aquela pergunta fora como</p><p>um golpe a atingi-la, magoando-a. Quando voltou a olhar para ele,</p><p>estava a sorrir.</p><p>—O que não mata, engorda. Preferi optar pela felicidade,</p><p>suponho.</p><p>Michael suspirou. Mais lugares-comuns. De repente, sentiu-se</p><p>outra vez cansado.</p><p>— Vou trazer-te o pequeno-almoço à cama, e depois talvez</p><p>possamos ir todos dar um passeio de bicicleta.</p>
<p>Jolene pousou o relógio, ainda no respetivo estojo, na mesinha</p><p>de cabeceira.</p><p>— Hoje à noite é a minha festa de aniversário em casa do capitão</p><p>Lomand. Disseste que talvez fosses.</p><p>E pronto: a coisa que ela lhe havia pedido. Não era de admirar</p><p>que se tivesse esquecido.</p><p>— Não tenho nada em comum com essa gente. Sabes bem disso.</p><p>Michael levantou-se e encaminhou-se até à cómoda, abrindo a</p><p>gaveta de cima.</p><p>— Essa gente sou eu — disse Jolene e assim, sem mais nem</p><p>menos, resvalaram para aquele terreno familiar e instável. — É uma</p><p>festa em minha homenagem. Podias vir nem que fosse só desta vez.</p><p>Michael virou-se a fim de a encarar.</p><p>— Vamos jantar fora amanhã à noite. Que tal? Os quatro. Vamos</p><p>àquele restaurante italiano de que tanto gostas.</p><p>Jolene suspirou. Michael sabia que ela estava a considerar</p><p>continuar a bater na mesma tecla desta velha discussão. Pretendia</p><p>que ele fizesse parte da sua vida de militar — sempre pretendera</p><p>isso, mas ele não conseguia; não era capaz de suportar aquele</p><p>mundo rígido onde o lema era «um por todos e todos por um».</p><p>— Está bem — disse Jolene por fim. — Obrigada pelo relógio. É</p><p>lindo.</p><p>— Não tens de quê.</p><p>Olharam um para o outro. O silêncio pairava no ar, tão amargo e</p><p>forte como o aroma do café. Havia coisas que teriam de ser ditas,</p><p>Michael sabia disso, palavras que há muito vinham sendo reprimidas,</p><p>acumuladas na escuridão, corrosivas. Assim que lhes desse voz,</p><p>assim que dissesse o que realmente sentia, não haveria como voltar</p><p>atrás.</p><p>Nessa mesma tarde, Tami entrou na cozinha de Jolene, trazendo</p><p>consigo um pirex coberto com folha de alumínio.</p><p>— Então? — perguntou, fechando a porta atrás de si com o pé.</p><p>Jolene deu uma vista de olhos à sala de estar, certificando-se de</p><p>que as filhas não se encontravam por perto.</p><p>— Ele mostrou-se mesmo arrependido — respondeu. — Trouxe-</p><p>me rosas e um relógio lindíssimo.</p><p>— Quem está a precisar de um relógio é ele — retorquiu Tami.</p><p>Ao ver o olhar que a amiga lhe deitou, encolheu os ombros. — Falei</p><p>só por falar.</p><p>— Pois — disse Jolene. — Pedi-lhe para ir à festa. Não quer ir.</p><p>— Sinto muito — disse Tami.</p><p>Jolene esboçou um sorriso. Não pôde deixar de pensar como a</p><p>vida era diferente para Tami. Embora Carl não fosse militar, apoiava-</p><p>a sempre, comparecia a todos os eventos e dizia-lhe com frequência</p><p>o quanto se sentia orgulhoso do trabalho dela. As fotografias de</p><p>Tami fardada decoravam as paredes da casa, expostas ao lado de</p><p>fotos de Seth na escola e instantâneos das suas reuniões familiares.</p><p>Todas as fotografias de Jolene fardada estavam escondidas algures</p><p>dentro de gavetas.</p><p>Evitou a expressão desapontada nos olhos de Tami e</p><p>encaminhou-se até ao fundo das escadas.</p><p>— Meninas! — gritou lá para cima. — Desçam. Está na hora da</p><p>festa.</p><p>Lulu desceu as escadas, a sorrir, arrastando a sua mantinha.</p><p>Estava arranjada para a festa, com um vestido cor de rosa de</p><p>princesa, complementado por uma tiara. Betsy apareceu no cimo</p><p>das escadas com os braços cruzados.</p><p>— Por favooor, não me obrigues a ir — implorou Betsy.</p><p>— Tiquetaque, tiquetaque.</p><p>— O papá não é obrigado a ir.</p><p>— O pai está a trabalhar — disse Jolene. — Tu não estás.</p><p>Betsy bateu com o pé no chão e girou nos calcanhares.</p><p>— Fixe — disse, voltando para o quarto em passo de marcha.</p><p>— Lembro-me do quanto queria ter uma filha — disse Tami,</p><p>surgindo ao lado de Jolene. — Nestes últimos tempos, já não estou</p><p>tão certa.</p><p>— Nada do que eu digo ou faço está bem. Para falar com</p><p>franqueza, ela parte-me um bocadinho do coração todos os dias.</p><p>Betsy jura que há de faltar à escola se eu comparecer no dia de</p><p>atividades entre pais e filhos. Ao que parece, ter uma mãe na tropa</p><p>é apenas ligeiramente menos humilhante do que ter uma mãe na</p><p>cadeia.</p><p>Tami deu-lhe um ligeiro encontrão.</p><p>— Foste criada por lobos, por isso não sabes isso: é normal. A</p><p>minha mãe jurou que tentou vender-me aos ciganos aos doze anos.</p><p>Ninguém se mostrou interessado em comprar.</p><p>— O Seth vai connosco hoje?</p><p>— Claro que sim. É rapaz. Eles são como cachorrinhos; as</p><p>raparigas são como gatos. Só quer ver-me feliz e jogar videojogos.</p><p>O drama ainda não fez a sua grande aparição lá em casa. No</p><p>entanto, Seth sente a falta de Betsy.</p><p>Jolene lançou um olhar para o andar de cima.</p><p>— Só espero que ela seja mais simpática com ele.</p><p>Tami anuiu com um aceno de cabeça.</p><p>— O meu filho é um desastre em termos de moda. Não passa de</p><p>um miúdo tímido que fica todo entusiasmado em responder a uma</p><p>pergunta sobre biologia. Betsy quer dar-se com as raparigas mais</p><p>populares da escola. Posso entender isso. A sério. Ele é um suicida</p><p>social e o facto de ambos terem sido grandes amigos não ajuda em</p><p>nada. Além disso, ele não entende. Ainda se pergunta por que razão</p><p>a Betsy deixou de andar de skate e porque já não gosta de procurar</p><p>caranguejos na areia. Seth ainda tem o poster de aniversário que</p><p>Betsy lhe fez pregado com tachas na parede.</p><p>Jolene não soube o que lhe responder. Antes de pensar em</p><p>alguma coisa para dizer, Lulu chegou ao último degrau e atirou-se</p><p>para a frente. Jolene agarrou a filha mais nova, pegando-lhe ao</p><p>colo; apoiou-a na anca e em seguida levou-a para o carro. Depois de</p><p>lhe ter colocado o cinto de segurança no assento, voltou a entrar em</p><p>casa.</p><p>— Despacha-te, Betsy!</p><p>Betsy desceu as escadas a galope, com um certo ar de rebeldia e</p><p>os auriculares do iPod firmemente colocados no lugar. A mensagem</p><p>era clara. Eu vou, mas não me agrada. Jolene deixou passar o</p><p>pequeno recado de desafio e acompanhou a filha até ao carro.</p><p>— Onde está o Seth? — gritou Betsy, abrindo a porta do lado do</p><p>passageiro.</p><p>Jolene entrou no carro sentando-se ao volante.</p><p>— Ele e o Carl vão encontrar-se connosco lá. Foram pescar</p><p>durante a manhã. Vê se és simpática com ele.</p><p>Betsy já não estava a ouvir. Pôs o cinto de segurança e começou</p><p>a mexer no iPod.</p><p>— Música? — perguntou Jolene a Tami.</p><p>— Talvez a rainha dos dias de hoje. Em tua homenagem.</p><p>— Que seja a Madonna.</p><p>Jolene inseriu um CD no leitor e arrancou com o jipe ao ritmo</p><p>familiar de «Material Girl».</p><p>Ela e Tami conversavam e cantavam alternadamente. Lulu falava</p><p>sem cessar; Betsy não disse uma única palavra.</p><p>Chegaram rapidamente à subdivisão de Gig Harbor denominada</p><p>Ravenwood, que ficava a cerca de quarenta minutos da unidade. Os</p><p>membros da Guarda Nacional tinha vindo de todos os cantos desta</p><p>região do estado — havia quem tivesse conduzido durante horas</p><p>para chegar ali.</p><p>O capitão vivia numa bonita casa geminada azul-escura com</p><p>cercadura branca e um alpendre a toda a volta. Viam-se crianças a</p><p>correr em torno do jardim, cujas vozes se erguiam num único clamor</p><p>que se repercutia em eco. A casa e o jardim eram um reflexo da</p><p>família — do homem — que ali morava. Tudo estava bem arranjado</p><p>e cuidado. O capitão Benjamin Lomand, de cinquenta anos, era um</p><p>dos melhores homens que Jolene conhecera.</p><p>A maioria dos membros da tripulação de voo e respetivas famílias</p><p>já ali se encontravam; Jolene percebeu isso por causa da fila</p><p>multicolorida de carros estacionados na rua sem saída. Embora não</p><p>conseguisse ver o pátio das traseiras dali, sabia que os homens</p><p>deviam estar a confraternizar à volta da churrasqueira, empunhando</p><p>garrafas de cerveja ou latas de Coca-Cola, enquanto as suas</p><p>mulheres, também militares, se juntavam em grupos, a conversar e</p><p>a tomar conta das crianças. Toda a gente estaria, por certo,</p><p>sorridente.</p><p>Jolene encostou à berma do acesso à casa e estacionou o carro.</p><p>O marido de Tami, Carl, e o filho Seth estavam de pé à porta da</p><p>garagem. Acenando, desceram em direção ao carro. Vestido com</p><p>umas calças de ganga largas e uma camisola desportiva alusiva a</p><p>um clube de futebol americano, com um boné de basebol enterrado</p><p>na cabeça a fim de ocultar e disfarçar a falta de cabelo, Carl tinha o</p><p>aspeto de um desses homens de constituição ligeiramente pesada e</p><p>robusta, que fora nos seus tempos do secundário uma estrela do</p><p>futebol, tendo arranjado emprego de imediato na Boeing. Era uma</p><p>imagem surpreendentemente precisa, embora ele fosse mecânico,</p><p>dono da sua própria garagem.</p><p>Seth em nada era parecido com o pai. Aos doze anos, era um</p><p>garoto estranho</p>
<p>e desajeitado, com um acentuado problema de</p><p>acne, olhos grandes demais para o seu rosto estreito e cabelo negro</p><p>azeviche que lhe chegava quase até ao meio das costas. Usava</p><p>umas Levi’s justas (toda a gente sabia que eram as calças largas que</p><p>estavam na moda) e uma enorme t-shirt da banda Nine Inch Nails</p><p>que lhe acentuava a magreza dos braços.</p><p>Quando o marido se aproximou, Tami saiu do carro levando</p><p>consigo o pirex revestido de folha de alumínio.</p><p>— E eis que chegou o amor da minha vida — declarou Carl</p><p>abrindo os braços.</p><p>Tami sorriu e entregou-lhe o pirex. Não restavam dúvidas de que</p><p>se tratava do seu famoso empadão de sete camadas.</p><p>— Os meus parabéns atrasados — disse Carl para Jolene quando</p><p>esta saiu do carro.</p><p>— Obrigada, Carl.</p><p>Jolene abriu a porta traseira e desapertou o cinto de segurança</p><p>de Lulu. Foi como soltar um polvo gigante. Lulu esgueirou-se para</p><p>fora do carro, gritando de contentamento, à procura de alguém com</p><p>quem brincar.</p><p>Betsy saiu do carro devagar, ainda com os auriculares postos.</p><p>Quando avistou Seth, os seus olhos arregalaram-se de espanto,</p><p>chocada com a roupa que ele vestia; franziu os lábios. Jolene sabia</p><p>que a filha sentia pavor de que a vissem a falar com o melhor amigo</p><p>de infância. Por isso deu-lhe um ligeiro empurrão.</p><p>Betsy tropeçou, quase caindo em cima de Seth. Este estendeu a</p><p>mão, amparando-a e dizendo:</p><p>— Apre…</p><p>Esta única palavra estoirou, dividindo-se em dois volumes de som</p><p>diferentes.</p><p>— Espero que ninguém tenha visto isto — disse Betsy, libertando-</p><p>se dele e afastando-se.</p><p>Seth fitou-a durante um longo momento, em seguida encolheu os</p><p>ombros e encaminhou-se para um lugar na relva. Aí, sentou-se de</p><p>pernas cruzadas e começou a disputar um jogo eletrónico qualquer.</p><p>Jolene tentou não se esquecer de voltar a falar com Betsy a fim</p><p>de lhe recomendar que fosse simpática com Seth. Na realidade, não</p><p>entendia como a filha podia ser tão má.</p><p>Levando consigo uma taça coberta com folha de alumínio</p><p>contendo uma salada fria de repolho, seguiu atrás de Carl e de Tami</p><p>até ao pátio das traseiras. Contornaram a esquina da casa, e lá</p><p>estavam eles: a tripulação de voo — os seus amigos.</p><p>Este grupo que treinava em conjunto já há tantos anos reunia-se</p><p>com frequência. No mundo «exterior», provinham dos mais variados</p><p>estratos sociais — dentistas e madeireiros; professores e mecânicos.</p><p>Todavia, durante um fim de semana por mês e duas semanas no</p><p>verão, eram soldados, treinando lado a lado, servindo o país com</p><p>orgulho. Embora Michael revirasse sempre os olhos quando se falava</p><p>no assunto, a verdade é que Jolene adorava aquelas pessoas. Eram</p><p>como ela; tinham-se alistado porque acreditavam no ideal de servir</p><p>o seu país; de ser patriotas, de manter a América em segurança.</p><p>Eles acreditavam. Não havia um único membro daquela tripulação</p><p>que não desse a vida por Jolene, e vice-versa.</p><p>Assim que ela chegou, toda a gente começou a cantar «Parabéns</p><p>a Você».</p><p>Jolene riu-se, sentindo-se percorrida por uma onda de pura e</p><p>doce alegria. Só havia um pequeníssimo senão a estorvar a sua</p><p>felicidade; desejava que Michael estivesse ali consigo. Adoraria</p><p>poder voltar-se para ele naquele momento e dizer-lhe o quanto</p><p>estas amizades significavam para ela. O quanto este momento</p><p>significava para ela. Só Deus sabia que o dia do seu aniversário</p><p>nunca tivera qualquer importância para os seus pais.</p><p>Quando a canção chegou ao fim, Jolene fez a ronda agradecendo</p><p>a todos, conversando com cada um. Quando pousou a salada de</p><p>repolho na mesa já periclitante com o peso das saladas, estufados,</p><p>sobremesas e condimentos, Owen «Smitty» Smith ofereceu-lhe um</p><p>copo de limonada. Era o membro mais recente da tripulação — um</p><p>miúdo sardento de vinte anos que se alistara na Guarda Nacional a</p><p>fim de poder pagar os estudos na faculdade.</p><p>— Obrigada, Smitty — disse Jolene.</p><p>O rapaz sorriu, revelando um aparelho que lhe cobria os dentes</p><p>por completo.</p><p>— Feliz aniversário, chefe — disse. — Tem a mesma idade da</p><p>minha mãe.</p><p>— Obrigada — retorquiu Jolene a rir-se, e depois o rapaz afastou-</p><p>se, apressando-se a ir ter com a sua mais recente namorada.</p><p>— Subtenente Zarkades — disse Jamie Hix, esgueirando-se para</p><p>junto de Jolene à mesa, inclinando uma garrafa de cerveja na</p><p>direção dela. Era o outro atirador da tripulação. Com vinte e nove</p><p>anos e recém-divorciado, Jamie andava a tentar obter a custódia</p><p>partilhada do filho de oito anos com a ex-mulher Gina. O seu</p><p>divórcio recente estava a tornar-se cada vez mais conflituoso. —</p><p>Quarenta e um, hã?</p><p>Jolene tirou uma cenoura crua da bandeja de legumes que</p><p>estava à sua frente, mergulhando-a em molho de ervas.</p><p>— É difícil de acreditar.</p><p>— É uma pena que o Michael não tenha podido vir.</p><p>Jolene não ficou surpreendida pelo sentimento demonstrado;</p><p>sabia que a maioria dos seus amigos se interrogava sobre a razão</p><p>por que o marido aparecia tão poucas vezes nas festas que davam.</p><p>Eram protetores em relação a ela. Treinavam há tanto tempo juntos</p><p>que não havia muitos segredos entre eles.</p><p>— Michael trabalha muito e o seu trabalho é importante.</p><p>— Pois. A Gina também não veio muitas vezes.</p><p>Por mais subtil que fosse a comparação entre os dois, Jolene não</p><p>a apreciou. Preparava-se para dizê-lo, mas a compaixão patente nos</p><p>olhos de Jamie fez com que ela se sentisse solitária de repente.</p><p>Dizendo algo — não sabia muito bem o quê —, ela afastou-se,</p><p>passou pela churrasqueira, onde toda a gente parecia estar a rir-se,</p><p>e dirigiu-se ao roseiral do capitão. Contemplou os botões cor de rosa</p><p>reluzentes e bem fechados. Cor de rosa. As suas favoritas eram as</p><p>vermelhas. Michael costumava saber disso.</p><p>— Estás bem? — perguntou Tami surgindo ao seu lado e dando-</p><p>lhe um pequeno encontrão, anca contra anca.</p><p>— Claro que sim — respondeu Jolene depressa demais.</p><p>— Estou aqui para o que precisares — sussurrou-lhe a amiga,</p><p>como se soubesse tudo o que se passava na cabeça dela. —</p><p>Estamos todos.</p><p>— Eu sei — disse Jolene, olhando em volta para as pessoas que</p><p>significavam tanto para ela.</p><p>Todas as pessoas para quem olhou sorriram-lhe e acenaram-lhe.</p><p>Adoravam-na, importavam-se com ela; essas pessoas eram tanto da</p><p>sua família como Michael e as filhas. Tinha imensas bênçãos na sua</p><p>vida.</p><p>Não tinha importância que Michael ali não estivesse; eram</p><p>casados, não gémeos siameses. Não eram obrigados a partilhar</p><p>todos os aspetos das suas vidas.</p><p>CAPÍTULO 3</p><p>Na quarta-feira de manhã, Jolene regressou do seu turno e foi</p><p>encontrar Betsy de pé no alpendre, vestindo um roupão demasiado</p><p>grande por cima do pijama de flanela e calçando umas botas Ugg</p><p>cor de rosa. Tinha o rosto crispado e franzido de irritação — uma</p><p>expressão familiar nos dias que corriam.</p><p>Jolene subiu a rua a correr, ofegante, com a respiração a formar</p><p>nuvens à sua frente.</p><p>— Que aconteceu?</p><p>— Hoje é quarta-feira — disse Betsy no mesmo tom de voz a que</p><p>se recorreria talvez para sussurrar frases como «Estás com cancro».</p><p>Oh, então era isso.</p><p>— Entra.</p><p>Jolene empurrou Betsy para dentro de casa, onde estava quente.</p><p>— Não podes ir, mãe. Vou dizer que estás doente.</p><p>— Eu vou ao dia de atividades entre pais e filhos — afirmou</p><p>Jolene, ligando a cafeteira.</p><p>Betsy quase berrou de descontentamento.</p><p>— Ótimo. Arruína a minha vida.</p><p>Saiu de rompante da cozinha e subiu as escadas a trote batendo</p><p>com os pés. Fechou a porta do quarto batendo-a com estrondo.</p><p>— Ah, não, não vais fazer isso — resmungou Jolene, seguindo a</p><p>filha escadas acima.</p><p>Junto à porta fechada do quarto do segundo andar, bateu com</p><p>força.</p><p>— Vai-te embora.</p><p>A mãe bateu de novo.</p><p>— Fixe. Entra. Vais entrar de qualquer maneira. Não há</p><p>privacidade na estúpida desta casa.</p><p>Aceitando o simpático convite, Jolene abriu a porta.</p><p>O quarto de Betsy era um reflexo tanto da menina de doze anos</p><p>que o habitava como da maria-rapaz que ali vivia há apenas alguns</p><p>meses. As paredes ainda eram de um tom amarelo trigo que Jolene</p><p>escolhera há quase uma década. Há muito que tinham desaparecido</p><p>o berço branco, a cómoda e as gravuras emolduradas de Winnie the</p><p>Pooh. No seu lugar havia uma cama com uma coberta de sarja azul,</p><p>uma cómoda amarela antiga com puxadores</p>

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