Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

i 
 
 
Universidade do Minho 
Escola de Direito 
Mestrado em Direito Judiciário 
 
 
 
 
 
A articulação entre a proteção de crianças e jovens 
em perigo e a intervenção tutelar educativa 
 
 
 
 
Projeto de dissertação de Mestrado a submeter à 
apreciação da Comissão Diretiva do curso de Mestrado 
em Direito Judiciário (Direitos Processuais e Organização 
Judiciária) da Universidade do Minho 
 
 
 
 
. 
 
 
 
 
 
Agosto de 2022 
 
ii 
DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS 
 
Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as 
regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e 
direitos conexos. 
Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. 
Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições 
não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM 
da Universidade do Minho. 
 
Licença concedida aos utilizadores deste trabalho 
Atribuição 
CC BY 
 
https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ 
 
iii 
AGRADECIMENTOS 
 
A apresentação desta Dissertação de Mestrado apresenta-se como o culminar de 
período intenso de estudo, decorrente de grandes mudanças, tanto geográficas quanto 
mentais, o que não seria possível sem o apoio de diversas pessoas e entidades, e por isso 
manifesto a minha honesta gratidão. 
Agradeço, em primeiro lugar, a Deus, pelo dom da vida e saúde em uma época tão 
peculiar e de grandes transformações, na qual fomos obrigados a nos adaptar, vencendo, 
sobretudo, o medo. 
Agradeço à minha família e amigos, que sempre se mostraram como um apoio em 
todas as fases deste percurso, e que mesmo não percebendo o foram, principalmente aos 
meus filhos, Lucas e Luana, que foram e são a mola propulsora que me impulsiona a atingir 
grandes objetivos. 
Agradeço, também e em especial, à Professora Doutora Margarida Maria de Oliveira 
Santos, pelo tempo disponibilizado e pela partilha de opiniões e conhecimentos, mas, 
principalmente, por ter segurado na minha mão e não me abandonado, em um momento em 
que nem eu mesma acreditava que fosse possível prosseguir. À senhora, a minha eterna 
gratidão. 
Agradeço ao Tribunal de Justiça do Estado do Pará por me permitir a realização de um 
sonho, e que contribuiu, sobremaneira, para meu aperfeiçoamento profissional. 
De uma forma mais singular, agradeço aos meus pais, que sempre se apresentaram 
como um pilar, não somente neste período, mas em todas as fases da minha vida. Obrigada 
pelo amor incondicional, pelos conselhos e ensinamentos e por mostrar que a educação é a 
maior e mais valiosa herança que os filhos podem herdar. 
Finalmente, à «casa» que me acolheu durante este período de concretização, a 
Universidade do Minho. 
 
iv 
DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE 
 
Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e 
confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou 
falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua 
elaboração. 
Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do 
Minho. 
 
v 
A articulação entre a proteção de crianças e jovens em perigo e a intervenção tutelar 
educativa 
 
RESUMO 
 
A delinquência juvenil é um problema que – atenta a evolução sociológica que se foi 
verificando ao longo da história – não pode mais ser ignorado pela sociedade em geral e por 
cada Estado em particular. 
Efetivamente, a delinquência juvenil emerge ela própria, em certa medida, como uma 
consequência de falhas no planejamento do próprio Estado Social. 
Sendo certo que o Estado não se pode substituir às famílias, a verdade é que incumbe 
também ao aparelho estatal criar os mecanismos de prevenção aptos à proteção e 
desenvolvimento dos jovens num período conturbado da sua vida, sendo necessário proceder, 
de forma permanente, ao acompanhamento da sociedade civil, com vista a prevenir a 
emergência de comportamentos desviantes. 
É, assim, necessário compreender as suas causas e origens, por forma a ser possível 
criar medidas preventivas e, caso estas não resultem, seja possível estabelecer medidas de 
mitigação desta realidade, evitando o desenvolvimento mais gravoso de comportamentos 
desviantes, os quais possam eventualmente conduzir a criminalidade e violência. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Palavras-Chave: crianças; jovens; perigo; Planejamento; Mitigação. 
vi 
The articulation between the protection of children and young people in danger and the 
educational tutelary intervention 
 
SUMMARY 
 
Juvenile delinquency is a problem that is attentive to the sociological evolution that 
has been verified throughout history – it cannot be ignored by society in general and by each 
State. 
Indeed, a juvenile delinquency emerges itself, itself in its measure, because of failures 
in the planning of the Social State itself. 
It is true that the State cannot replace families, the real one that is also responsible for 
the apparatus and create the prevention mechanisms capable of the protection and 
development of young people in a troubled period of their lives, being to carry out, 
permanently, the monitoring of civil society, to prevent the emergence of deviable behavior. 
It is therefore necessary to understand their causes and origins, so that it is possible to 
create measures and, if they do not work, you will be possible measures to mitigate this 
reality, avoiding the more serious development of deviable behavior, which eventually lead to 
crime and violence. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Keywords: children; young; danger; Planning; Mitigation. 
vii 
ÍNDICE 
 
AGRADECIMENTOS ............................................................................................................... iii 
RESUMO ................................................................................................................................ v 
SUMMARY ............................................................................................................................ vi 
SIGLAS E ABREVIATURAS ...................................................................................................... ix 
 
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 1 
 
1 - CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E EVOLUTIVA DO SISTEMA DE PROTEÇÃO DA INFÂNCIA
 .............................................................................................................................................. 3 
1.1. PERCURSO HISTÓRICO E EVOLUTIVO DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO 
ADOLESCENTE ............................................................................................................... 3 
1.2. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA LEGISLAÇÃO PORTUGUESA E BRASILEIRA – BREVES 
REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 9 
 
2- DIREITO DAS CRIANÇAS E DOS JOVENS – APOSTA NA PREVENÇÃO ................................ 21 
2.1. CONCEITO DE CRIANÇA E JOVEM ......................................................................... 21 
2.2- O CONCEITO DE SUPERIOR INTERESSE DA CRIANÇA ............................................. 25 
2.3. A CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇA ................................................. 31 
 
3- A DELIQUÊNCIA JUVENIL ................................................................................................. 38 
3.1. O RISCO E O PERIGO – ESCLARECIMENTO DE CONCEITOS .................................... 38 
3.2. Situações de risco e de perigo que levam ao ato ilícito. ........................................ 38 
3.3- RISCO E PERIGO NA PROTEÇÃO DE CRIANÇASligam as crianças a serviços sociais vitais e a sistemas de justiça justos a 
partir do nascimento, seja prestando cuidados aos mais vulneráveis, incluindo crianças 
 
77 Cfr. https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca (consultado a 06/10/2022). 
78 Cfr. https://www.unicef.org/child-protection (consultado a 06/10/2022). 
Comentado [A2]: Alterar no índice. 
https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca
https://www.unicef.org/child-protection
26 
desenraizadas por conflitos, pobreza e catástrofes, seja protegendo vítimas de trabalho 
infantil ou tráfico, bem como aqueles que vivem com deficiência ou em cuidados alternativos. 
Em suma, proteger as crianças significa proteger as suas necessidades físicas, mentais 
e psicossociais para salvaguardar o seu futuro. 
Neste sentido, o art.º 3.º, n.º 1 da Convenção sobre os Direitos da Criança é claro ao 
afirmar que “Todas as ações relativas à criança, sejam elas levadas a efeito por instituições 
públicas ou privadas de assistência social, tribunais, autoridades administrativas ou órgãos 
legislativos, devem considerar primordialmente o melhor interesse da criança”79. 
Assim, na prolação de quaisquer decisões de custódia de crianças os Tribunais têm, 
necessariamente, de ponderar o superior interesse da criança. 
Este conceito (abstrato) significa que o juiz tomará a decisão que melhor se adequa às 
necessidades da criança, com base numa variedade de fatores, de entre os quais se salientam 
os seguintes: 
 
 
79 Cfr. https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca (consultado a 07/10/2022). 
https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca
27 
1. Idade da criança 
As crianças pequenas geralmente precisam de mais cuidados práticos, pelo que, os 
tribunais analisam a ligação entre a criança e os pais na avaliação das opções de custódia de 
crianças. Além disso, quando as crianças são jovens, os juízes frequentemente decidem a favor 
do progenitor que tem sido o principal cuidador na vida da criança. Noutro âmbito, alguns 
tribunais também considerarão os desejos da criança, dependendo da sua idade80. 
 
2. Consistência. 
Os tribunais geralmente preferem manter as rotinas das crianças consistentes, o que 
abrange o estilo de vida, rotinas de cuidados escolares ou infantis, bem como, o acesso a 
membros da família alargados. Assim, os juízes dos tribunais de família preferem não 
perturbar a rotina de uma criança quando tal for possível. 
 
3. Evidência da capacidade parental. 
Paralelamente ao exposto, os tribunais procuram provas de que o progenitor que 
solicita a custódia é genuinamente capaz de satisfazer as necessidades físicas e emocionais da 
criança, incluindo alimentação, abrigo, vestuário, cuidados médicos, educação, apoio 
emocional e orientação parental. Assim, os tribunais também consideram a saúde física e 
mental dos pais81. 
 
4. Impacto da alteração da rotina existente. 
Ao considerar uma mudança, os tribunais também tentam determinar como essa 
mudança afetaria a criança, pelo que, geralmente, os juízes tentam limitar as mudanças que 
teriam um impacto negativo. 
E, por último, temos o fator segurança. 
 
 
 
 
 
80 Cfr. https://www.verywellfamily.com/best-interests-of-the-child-standard-overview-2997765 (consultado a 07/10/2022). 
81 Cfr. https://www.verywellfamily.com/best-interests-of-the-child-standard-overview-2997765 (consultado a 07/10/2022). 
Comentado [A3]: Coloque pf com alíneas ou numeração 
https://www.verywellfamily.com/best-interests-of-the-child-standard-overview-2997765
https://www.verywellfamily.com/best-interests-of-the-child-standard-overview-2997765
28 
 
5. Segurança. 
Ora, a segurança é um fator que deve estar sempre no topo do pensamento do tribunal 
de família, pelo que, os juízes negarão prontamente a custódia nos casos em que acreditam 
que a segurança da criança seria comprometida. 
Por conseguinte, o Tribunal deve favorecer fortemente a manutenção de uma criança 
num acordo que a criança conhece, bem como permitir que uma criança permaneça na 
mesma escola ou bairro. Para tal, os juízes geralmente não favorecem um acordo em que um 
dos pais é impedido de ter acesso à criança ou onde a visita seria difícil. 
No entanto, mesmo nos casos em que um dos pais recebe a custódia física única, o 
outro progenitor geralmente tem o direito de visita, dado que, as decisões relativas à custódia 
de crianças na maioria dos estados favorecem os acordos de custódia que permitem que 
ambos os pais mantenham uma relação próxima e amorosa com o seu filho82. 
Por todo o exposto, para que uma decisão relativa à custódia de uma criança possa ser 
tomada, o Tribunal terá de analisar o superior interesse da criança, verificando se o 
requerente se encontra envolvido na sua vida e se prestou cuidados atentos e amorosos, 
como seja a inscrição da criança na escola, se está envolvido na sua educação e educação, se 
participou em atividades extracurriculares e/ou se tomou outras decisões parentais 
demonstrando interesse em nutrir o seu filho83. 
Nos casos em que ambos os pais estão envolvidos, o juiz também pode considerar se 
um dos pais está mais disposto a promover uma relação amorosa com o outro progenitor, por 
isso trabalhar para reconstruir a confiança com o seu ex-companheiro também pode ajudar a 
demonstrar as suas intenções. 
Explanando de forma perfeita o conceito em apreço, vejamos o que nos refere o 
Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra de 08-05-2019, que vale a pena aqui reproduzir84: 
I. O fim legal supremo que deve presidir à regulação do exercício das 
responsabilidades parentais é o superior interesse da criança. 
 
82 Cfr. https://www.acf.hhs.gov/sites/default/files/documents/ocse/september_2019_child_support_report.pdf (consultado a 07/10/2022). 
83 Cfr. https://www.acf.hhs.gov/sites/default/files/documents/ocse/september_2019_child_support_report.pdf (consultado a 07/10/2022). 
84 Cfr. http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/8fe0e606d8f56b22802576c0005637dc/f66c3989644c88b2802583f9003d9cec?OpenDocument 
(consultado a 07/10/2022). 
https://www.acf.hhs.gov/sites/default/files/documents/ocse/september_2019_child_support_report.pdf
https://www.acf.hhs.gov/sites/default/files/documents/ocse/september_2019_child_support_report.pdf
http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/8fe0e606d8f56b22802576c0005637dc/f66c3989644c88b2802583f9003d9cec?OpenDocument
29 
II. Tratando-se de um conceito genérico, o interesse superior da criança deve 
ser apurado/encontrado em cada caso concreto, embora tendo sempre 
presente a ideia do direito da criança ao seu desenvolvimento são e normal, 
no plano físico, intelectual, moral, espiritual e social, em condições de 
liberdade e dignidade, ou seja, a ideia de que, dentro do possível, tudo 
deverá ser feito de modo a contribuir para desenvolvimento integral da 
criança em termos harmoniosos e felizes. 
III. E é precisamente com vista a alcançar esse interesse superior da criança que, 
além de outros, se consagrou o direito da criança a ser ouvida e a exprimir a 
sua opinião em processos que lhe digam respeito e a afetem, tendo em 
conta a sua idade e a sua capacidade de compreensão/discernimento dos 
assuntos em discussão. 
IV. Tal não significa que na decisão a tomar se exija que ela respeite 
integralmente essa opinião, mas tão só, pelo menos, que ela seja 
considerada na ponderação dos interesses em causa, e tendo sempre em 
vista o interesse superior da criança. 
V. A não audição de uma criança em processo que lhe diga diretamente 
respeito, por visar a tomada de medida suscetível de a poder afetar no 
futuro, não pode ser encarada apenas como um meio de prova, mas antes 
como a violação de um direito daquela, e como tal podendo vir a conduzir à 
nulidade da decisão que vier a ser proferida. 
VI. A questão da residência futura da criança, após a separação dos pais, assume 
particular relevo na regulação doexercício das responsabilidades parentais, 
pois que pode contender com o seu desenvolvimento nos termos referidos 
em II. 
VII. É de anular a decisão tomada (ainda que provisoriamente) pelo tribunal a 
quo na qual, ao regular do exercício dessas responsabilidades, fixou a 
residência dos menores, por períodos temporais alternados, em casa de 
cada um dos seus pais separados, sem que previamente tenha ouvido, a tal 
propósito, esses menores (com idade da qual transparece disporem 
capacidade/maturidade mínima suficiente para compreender o alcance 
30 
dessa medida tutelar), e sem que, ao menos, se revele nessa decisão a 
ponderação das razões dessa não audição85. 
 
Ora, como podemos verificar, esta decisão proferida pelo Acórdão do Tribunal da 
Relação de Coimbra é fraturante ao afirmar que o fim legal supremo que deve presidir à 
regulação do exercício das responsabilidades parentais é o superior interesse da criança e, 
paralelamente, que “A não audição de uma criança em processo que lhe diga diretamente 
respeito, por visar a tomada de medida suscetível de a poder afetar no futuro, não pode ser 
encarada apenas como um meio de prova, mas antes como a violação de um direito daquela, 
e como tal podendo vir a conduzir à nulidade da decisão que vier a ser proferida”86. 
No mesmo sentido, temos o recente Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 27-
01-202287, que nos refere que: 
I. O superior interesse da criança traduz-se num conceito jurídico 
indeterminado que visa assegurar a solução mais adequada para a criança 
no sentido de promover o seu desenvolvimento harmonioso físico, psíquico, 
intelectual e moral, especialmente em meio familiar, sendo, por isso, aferível 
em função das circunstâncias de cada caso. 
II. Para a consecução desse objetivo é essencial o empenhamento partilhado 
de ambos os progenitores, o que requer a manutenção de relações de 
estreita convivência ou proximidade entre pais e filhos. 
III. O artigo 1906.º, n.ºs 6 e 8, do CC elege o modelo de guarda conjunta e 
residência alternada do filho com os dois progenitores como meio 
privilegiado de proporcionar uma ampla convivência entre o filho e cada um 
dos progenitores, bem como a partilha das responsabilidades parentais. Só 
assim não será se, atentas, nomeadamente, as aptidões, as capacidades e a 
disponibilidade de cada progenitor, o superior interesse do filho o não 
aconselhar. 
 
85 Cfr. http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/8fe0e606d8f56b22802576c0005637dc/f66c3989644c88b2802583f9003d9cec?OpenDocument 
(consultado a 07/10/2022). 
86 Cfr. http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/8fe0e606d8f56b22802576c0005637dc/f66c3989644c88b2802583f9003d9cec?OpenDocument 
(consultado a 07/10/2022). 
87 Cfr. http://www.dgsi.pt/jstj.nsf/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814/5e59a1447ce90edb802587d80053085b?OpenDocument 
(consultado a 07/10/2022). 
http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/8fe0e606d8f56b22802576c0005637dc/f66c3989644c88b2802583f9003d9cec?OpenDocument
http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/8fe0e606d8f56b22802576c0005637dc/f66c3989644c88b2802583f9003d9cec?OpenDocument
http://www.dgsi.pt/jstj.nsf/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814/5e59a1447ce90edb802587d80053085b?OpenDocument
31 
IV. O superior interesse do filho não é alheio a uma adequada inserção dele no 
meio familiar de cada um dos progenitores mediante aprendizagem dos 
novos modos de relacionamento e de respeito mútuo pelos direitos e 
legítimos interesses de cada pessoa que passe a integrar esses agregados 
familiares. 
V. Não cabe ao tribunal de revista sindicar a ponderação da Relação sobre a 
conveniência e oportunidade de reatamento de um regime de residência 
alternada dantes estabelecido, mas apenas aferir da estrita legalidade com 
que, para tanto, foram observados o superior interesse da criança e os 
direitos e interesses legítimos dos progenitores88. 
 
Ora, efetivamente, constatamos na prática a evolução dos conceitos históricos atrás 
analisados: na atualidade a criança é vista como uma parte essencial da sociedade, como os 
verdeiros homens e mulheres, pelo que, é necessário reconhecer que as mesmas são frágeis 
e necessitam de apoio, mas simultaneamente é necessário criar mecanismos legais para que 
possam exercer de forma plena os seus direitos legalmente constituídos. As crianças têm o 
direito e merecem ser ouvidas em todas as questões que lhes digam respeito. 
Todos estes aspectos são essenciais para o cabal desenvolvimento da personalidade 
das crianças e, neste sentido, são fulcrais para que as crianças possam se desenvolver de 
forma sadia e responsável, procurando-se assim prevenir o contato com futuras situações de 
criminalidade ou marginalidade. 
 
2.3. A CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇA 
Conforme já fomos aflorando, a Convenção sobre os Direitos da Criança89 é hoje um 
instrumento fundamental no que respeita ao direito das crianças, sendo mesmo considerada 
o instrumento de direitos humanos mais aceite na história universal. 
A mesma foi adotada pela Assembleia Geral da ONU em 20 de novembro de 1989, 
tendo entrado em vigor em 2 de setembro de 199090 e foi ratificada por Portugal em 1990, 
 
88 Cfr. http://www.dgsi.pt/jstj.nsf/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814/5e59a1447ce90edb802587d80053085b?OpenDocument 
(consultado a 07/10/2022). 
89 Cfr. https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca (consultado a 07/10/2022). 
90 Cfr. https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca (consultado a 07/10/2022). 
http://www.dgsi.pt/jstj.nsf/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814/5e59a1447ce90edb802587d80053085b?OpenDocument
https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca
https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca
32 
através da Resolução da Assembleia da República n.º 20/90, de 12 de setembro e pelo Brasil 
a 24 de setembro de 1990 e promulgada pelo Decreto n.º 99.710, de 21 de novembro de 
199091. 
Conforme também já referimos, o art.º 1.º da referida Convenção esclarece que se 
considera criança todo o ser humano menor de 18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe 
for aplicável, atingir a maioridade mais cedo92. 
Paralelamente, nos termos do disposto no art.º 2.º foi estabelecido um princípio geral 
de não discriminação, em que os Estados Partes se comprometeram a respeitar e a garantir 
os direitos previstos na Convenção a todas as crianças que se encontrem sujeitas à sua 
jurisdição, sem discriminação alguma, independentemente de qualquer consideração de raça, 
cor, sexo, língua, religião, opinião política ou outra da criança, de seus pais ou representantes 
legais, ou da sua origem nacional, étnica ou social, fortuna, incapacidade, nascimento ou de 
qualquer outra situação, encontrando-se os mesmos vinculados a tomarem todas as medidas 
adequadas para que a criança seja protegida contra todas as formas de discriminação ou de 
sanção decorrentes da situação jurídica, de atividades, opiniões expressas ou convicções dos 
seus pais, representantes legais ou outros membros da sua família93. 
Avançando na nossa análise, chegamos ao art.º 3.º, n.º 1, o qual estabelece um dos 
aspectos mais importantes: a questão do superior interesse da criança, afirmando que todas 
as decisões relativas a crianças, adotadas por instituições públicas ou privadas de proteção 
social, por tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, terão primacialmente 
em conta o interesse superior da criança, comprometendo-se os estados a garantir o 
cumprimento e a fiscalização do direito em causa, o qual pode ser considerado como ponto 
de partida do referido normativo. 
Este ponto é da maior importância, dado que estabelece que todas as decisões que 
digam respeito à criança deverão ter plenamente em conta o seu interesse superior e, 
simultaneamente, que os Estados deverão garantir à criança cuidados adequados quando os 
pais, ou outras pessoas responsáveis por ela não tenham capacidade para o fazer. 
 
91 Cfr. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/d99710.htm(consultado a 08/10/2022). 
92 Cfr. https://www.unicef.pt/media/2766/unicef_convenc-a-o_dos_direitos_da_crianca.pdf (consultado a 09/10/2022). 
93 Cfr. https://www.unicef.pt/media/2766/unicef_convenc-a-o_dos_direitos_da_crianca.pdf (consultado a 09/10/2022). 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/d99710.htm
https://www.unicef.pt/media/2766/unicef_convenc-a-o_dos_direitos_da_crianca.pdf
https://www.unicef.pt/media/2766/unicef_convenc-a-o_dos_direitos_da_crianca.pdf
33 
De acordo com estes princípios, os Estados não podem mais olhar para as crianças 
como “adultos imperfeitos”, mas sim como verdadeiros elementos da sociedade que 
merecem ser ouvidos. 
Os Estado deverão respeitar os direitos e responsabilidades dos pais e da família 
alargada na orientação da criança de uma forma que corresponda ao desenvolvimento das 
suas capacidades. 
Neste sentido, estabelece-se no art.º 5.º que os Estados devem respeitar as 
responsabilidades, direitos e deveres dos pais e, sendo caso disso, dos membros da família 
alargada ou da comunidade nos termos dos costumes locais, dos representantes legais ou de 
outras pessoas que tenham a criança legalmente a seu cargo, de assegurar à criança, de forma 
compatível com o desenvolvimento das suas capacidades, a orientação e os conselhos 
adequados ao exercício dos direitos que lhe são reconhecidos pela presente Convenção94. 
Por outro lado, nos termos do art.º 7.º verifica-se que as crianças têm direito a um 
nome desde o nascimento, bem como, o direito de adquirir uma nacionalidade e, na medida 
do possível, de conhecer os seus pais e de ser criada por eles. 
Concretizando o alcance da referida previsão, o art.º 8.º estabelece que os Estados têm 
a obrigação de proteger e, se necessário, de restabelecer os aspectos fundamentais da 
identidade da criança (incluindo o nome, a nacionalidade, e relações familiares). 
Questão bastante pertinente e fraturante é-nos apresentada pelo art.º 9.º da 
Convenção, o qual estabelece que os Estados garantem que a criança não é separada dos seus 
pais contra a vontade destes, salvo se as autoridades competentes decidirem, sem prejuízo 
de revisão judicial e de harmonia com a legislação e o processo aplicáveis, que essa separação 
é necessária no interesse superior da criança. Tal decisão pode mostrar-se necessária no caso 
de, por exemplo, os pais maltratarem ou negligenciarem a criança ou no caso de os pais 
viverem separados e uma decisão sobre o lugar da residência da criança tiver de ser tomada. 
Ora, não estamos perante qualquer limitação dos direitos das crianças, mas sim o 
contrário. A criança tem o direito de viver com os seus pais a menos que tal seja considerado 
incompatível com o seu interesse superior, pelo que, a criança tem também o direito de 
manter contacto com ambos os pais se estiver separada de um ou de ambos. 
 
94 Cfr. https://www.unicef.pt/media/2766/unicef_convenc-a-o_dos_direitos_da_crianca.pdf (consultado a 09/10/2022). 
https://www.unicef.pt/media/2766/unicef_convenc-a-o_dos_direitos_da_crianca.pdf
34 
Os arts. 13.º, 14.º e 15.º estabelecem a liberdade de expressão, de pensamento, 
consciência, religião e de associação, tendo a criança tem o direito de exprimir os seus pontos 
de vista, obter informações, dar a conhecer ideias e informações, sem considerações de 
fronteiras, pelo que, o Estado respeita o direito da criança à liberdade de pensamento, 
consciência e religião, no respeito pelo papel de orientação dos pais. Por último, as crianças 
têm ainda o direito de se reunir e de aderir ou formar associações95. 
Avançando na nossa análise, cumpre fazer referência ao art.º 19.º, o qual estabelece 
que o Estado deve proteger a criança contra todas as formas de maus-tratos por parte dos 
pais ou de outros responsáveis pelas crianças e estabelecer programas sociais para a 
prevenção dos abusos e para tratar as vítimas. 
Por outro lado, uma vez mais, colocando a criança no centro do momento decisório, o 
art.º 21.º estabelece que em países em que a adoção é reconhecida ou permitida só poderá 
ser levada a cabo no interesse superior da criança, e quando estiverem reunidas todas as 
autorizações necessárias por parte das autoridades competentes, bem como todas as 
garantias necessárias. 
As crianças têm o direito de ser protegidas da guerra ou de qualquer conflito, tendo 
ainda o direito de ser protegidas contra qualquer tipo de discriminação. 
Por último, sempre que a prevenção não surtir efeito e uma criança seja acusada do 
cometimento de alguma infração, na apreciação dos fatos deverá ser tida em linha de conta a 
sua idade. 
Nestes termos, o art.º 40.º, n. º1 da Convenção dispõe que os Estados reconhecem à 
criança suspeita, acusada ou que se reconheceu ter infringido a lei penal o direito a um 
tratamento capaz de favorecer o seu sentido de dignidade e valor, reforçar o seu respeito 
pelos direitos humanos e as liberdades fundamentais de terceiros e que tenha em conta a sua 
idade e a necessidade de facilitar a sua reintegração social e o assumir de um papel construtivo 
no seio da sociedade. 
Por seu turno, o n.º 2 do mesmo artigo estabelece que, para esse efeito, e atendendo 
às disposições pertinentes dos instrumentos jurídicos internacionais, os Estados Partes 
garantem, nomeadamente, que: 
 
95 Cfr. https://www.unicef.pt/media/2766/unicef_convenc-a-o_dos_direitos_da_crianca.pdf (consultado a 09/10/2022). 
https://www.unicef.pt/media/2766/unicef_convenc-a-o_dos_direitos_da_crianca.pdf
35 
a) Nenhuma criança seja suspeita, acusada ou reconhecida como tendo 
infringido a lei penal por ações ou omissões que, no momento da sua prática, 
não eram proibidas pelo direito nacional ou internacional; 
b) A criança suspeita ou acusada de ter infringido a lei penal tenha, no mínimo, 
direito às garantias seguintes: 
i. Presumir-se inocente até que a sua culpabilidade tenha sido 
legalmente estabelecida96; 
ii. A ser informada pronta e diretamente das acusações formuladas 
contra si ou, se necessário, através de seus pais ou representantes 
legais, e beneficiar de assistência jurídica ou de outra assistência 
adequada para a preparação e apresentação da sua defesa; 
iii. A sua causa ser examinada sem demora por uma autoridade 
competente, independente e imparcial ou por um tribunal, de forma 
equitativa nos termos da lei, na presença do seu defensor ou de 
outrem assegurando assistência adequada e, a menos que tal se 
mostre contrário ao interesse superior da criança, nomeadamente 
atendendo à sua idade ou situação, na presença de seus pais ou 
representantes legais97; 
iv. A não ser obrigada a testemunhar ou a confessar-se culpada; a 
interrogar ou fazer interrogar as testemunhas de acusação e a obter a 
comparência e o interrogatório das testemunhas de defesa em 
condições de igualdade. 
v. No caso de se considerar que infringiu a lei penal, a recorrer dessa 
decisão e das medidas impostas em sequência desta para uma 
autoridade superior, competente, independente e imparcial, ou uma 
autoridade judicial, nos termos da lei; 
vi. A fazer-se assistir gratuitamente por um intérprete, se não 
compreender ou falar a língua utilizada; 
 
96 Articulado ao princípio da presunção da inocência surge o princípio in dubio pro reo quanto à existência, ou não, de indícios suficientes 
(art. 32.º/2, da CRP), na justiça juvenil. Cremos que faz sentido a aplicação deste princípio na intervenção tutelar educativa, devendo o 
MP/Tribunal decidir em sentido favorável ao jovem nas situações em que tem dúvida relativamente à matéria de facto, devendo assim ser 
entendido o disposto nos arts. 87.º/1, b) e 92.º/1, a), da LTE- Neste sentido, 
97 Cfr. https://www.unicef.pt/media/2766/unicef_convenc-a-o_dos_direitos_da_crianca.pdf (consultado a 09/10/2022). 
https://www.unicef.pt/media/2766/unicef_convenc-a-o_dos_direitos_da_crianca.pdf
36 
vii. A ver plenamente respeitada a sua vida privada em todos os 
momentosdo processo98. 
 
Importa ressaltar que a intervenção tutelar educativa é embasada em diversos princípios, 
dentre os quais citamos o princípio da proporcionalidade, da necessidade, da atualidade, da 
existência de necessidades educativas e da mínima intervenção, concretizando-se “o 
inarredável respeito pelo direito do menor à liberdade e à autodeterminação e o de, por regra, 
evoluir no seu ambiente sócio-familiar natural, sem constrangimentos por parte de outrem 
ou do Estado” (ponto 7 da Exposição de Motivos da Proposta de Lei n.º 266/VII, que deu 
origem à LTE).99 
Por último, o n.º 3 do referido artigo estabelece que os Estados procuram promover o 
estabelecimento de leis, processos, autoridades e instituições especificamente adequadas a 
crianças suspeitas, acusadas ou reconhecidas como tendo infringido a lei penal, e, 
nomeadamente: 
a) O estabelecimento de uma idade mínima abaixo da qual se presume que as 
crianças não têm capacidade para infringir a lei penal; 
b) Quando tal se mostre possível e desejável, a adoção de medidas relativas a 
essas crianças sem recurso ao processo judicial, assegurando-se o pleno 
respeito dos direitos humanos e das garantias previstas pela lei. 
 
Este ponto é da maior importância, porquanto, como fomos analisando, é na primeira 
infância que se constrói o alicerce do humano, a base onde serão fixadas todas as estruturas 
para a vida, devendo ser ouvidos e sua opinião levada em consideração, mas não é possível 
analisar a sua vivência descorando a sua idade. 
Nestes termos, caso uma criança seja suspeita, acusada ou reconhecida como culpada 
de ter cometido um delito tem direito a um tratamento que favoreça o seu sentido de 
dignidade e valor pessoal, que tenha em conta a sua idade e que vise a sua reintegração na 
sociedade. 
 
98 Cfr. https://www.unicef.pt/media/2766/unicef_convenc-a-o_dos_direitos_da_crianca.pdf (consultado a 09/10/2022). 
99 SANTOS, Margarida: A intervenção tutelar educativa: especificidades, desafios e perspetivas futuras, p.373 
 
https://www.unicef.pt/media/2766/unicef_convenc-a-o_dos_direitos_da_crianca.pdf
37 
Por conseguinte, a Convenção dá um grande passo ao afirmar que a criança tem direito 
a garantias fundamentais, bem como a uma assistência jurídica ou outra adequada à sua 
defesa. Os procedimentos judiciais e a colocação em instituições devem ser evitados sempre 
que possível. 
 
38 
3- A DELIQUÊNCIA JUVENIL 
 
3.1. O RISCO E O PERIGO – ESCLARECIMENTO DE CONCEITOS 
Conforme nos referem GAVARINI e PETITOT, os conceitos de risco e maus-tratos são 
muitas vezes incluídos no espaço semântico da noção de criança em perigo, conceito que teve 
a sua génese em finais do século XIX100. 
Ora, o campo da justiça juvenil tem investido bastante tempo a tentar compreender 
as causas da delinquência, com diferentes modelos teóricos a descreverem a relação entre 
variáveis e resultados. 
Ora, a verdade é que não há um único caminho para a delinquência, sendo vários 
fatores de risco, os quais aumentam frequentemente a possibilidade de ofender um jovem. 
Nas palavras de MRAZEK e HAGGERTY, os fatores de risco devem ser definidos como 
as características, variáveis ou perigos que, se presentes para um determinado indivíduo, 
tornam mais provável que este indivíduo, em vez de alguém selecionado da população em 
geral, desenvolva uma desordem101. 
Por seu turno, COIE elenca vários aspectos com referência enquanto fatores de risco, 
afirmando que “ A disfunção tem uma relação complicada com os fatores de risco; raramente 
é um fator de risco associado a uma desordem particular; que o impacto dos fatores de risco 
pode variar com o estado de desenvolvimento do indivíduo, a exposição a múltiplos fatores 
de risco tem um efeito cumulativo e muitas perturbações partilham fatores de risco 
fundamentais.102 
 
3.2. Situações de risco e de perigo que levam ao ato ilícito. 
No que respeita aos fatores de risco associados à família, alguns são estáticos, 
enquanto outros são dinâmicos. 
No que respeita aos fatores de risco estáticos, como a história criminosa, os problemas 
de saúde mental dos pais ou um historial de abuso infantil, dificilmente mudarão ao longo do 
 
100 Cfr. GAVARINI, L., & PETITOT, F. (1998). La fabrique de l’enfant maltraité. Un nouveau regard sur l’enfant et la famille. Par is: Érès. 
101 Cfr. MRAZEK, P.J. e HAGGERTY, R.J., eds. (1994) – Reducing Risks for Mental Disorders: Frontiers for Preventative Intervention Research. 
Washington, DC: National Academy Press 
102 Cfr. COIE, J.D., WATT, N.F., WEST, S.G., HAWKINS, D., ASARNOW, J.R., MARKMAN, H.J., RAMEY, S.L., SHURE, M.B. e LONG, B. (1993) – The 
science of prevention: A conceptual framework and some directions for a national research program. American Psychologist 48(10), pp. 
1013 a 1022. 
39 
tempo. No entanto, fatores de risco dinâmicos, como o mau comportamento parental, a 
violência familiar ou a toxicodependência parental, podem ser modificados através de 
programas de prevenção e tratamento adequados. 
Conforme nos refere WASSERMAN, os fatores de risco têm um efeito cumulativo e 
interativo, dado que uma família exposta a vários fatores de risco é considerada uma família 
de alto risco. Nesta medida, as crianças e adolescentes expostos a vários fatores de risco 
também serão considerados em risco elevado de embarcar numa trajetória de vida que 
conduzirá a comportamentos delinquentes103. 
Efetivamente, não só os efeitos dos fatores de risco se acumulam, mas os fatores 
também interagem uns com os outros e os efeitos de um multiplicam os efeitos de outro e 
assim por diante. 
A título de exemplo, podemos referir que o alcoolismo parental causa conflitos 
familiares, que posteriormente aumentam os riscos de abuso de substâncias. 
Enquanto concretos fatores de risco, podemos enunciar vários fatores associados à 
dinâmica familiar e à falta de cuidado na educação das crianças e jovens. 
Nas palavras de MUCHIELLII, um comportamento parental ineficaz, com uma dinâmica 
familiar inadequada causada por más práticas parentais, tais como a falta de supervisão, 
disciplina que é inconsistente – seja demasiado permissiva ou demasiado rigorosa –, um 
vínculo fraco, bem como a incapacidade de estabelecer limites claros, foram identificados 
como fatores de risco fortes para o comportamento delinquente104. 
Ora, como consequência de um comportamento parental ineficaz, THORNBERRY 
aponta como consequências o consumo de drogas, um desempenho acadêmico fraco, bem 
como uma maior suscetibilidade em aderir a grupos marginais ou gangues105. 
Efetivamente, em termos estatísticos, os adolescentes provenientes de famílias 
caracterizadas pela falta de ordem e disciplina estão quatro vezes mais em risco de se 
envolverem em comportamentos delinquentes como adultos do que crianças de famílias 
estruturadas106. 
 
103 Cfr. WASSERMAN, G., et al. (2003) – Risk and Protective Factors of Child Delinquency. Child Delinquency, Bulletin Series. Washington DC: 
U.S. Department of Justice, Office of Justice Programs, Office of Juvenile Justice, and Delinquency Prevention. 
104 Cfr. MUCCHIELLI, L. (2000) – Familles et délinquances: un bilan pluridisciplinaire des recherches francophones et anglophones . (K. 
Mucchielli, Ed.). France: Allocations familiales, Caisses nationale d'allocations familiales (CNAF). 
105 Cfr. THORNBERRY, T., et al. (1999) – Family Disruption and Delinquency. Juvenile Justice Bulletin. Washington, DC: US Department of 
Justice, Office of Justice Programs, Office of Juvenile Justice and Delinquency Prevention. 
106 Cfr. HOEVE, M., et al. (2007) – Long-Term Effects of Parenting and Family Characteristics on Delinquency of Male Young Adults. European 
Journal of Criminology, 4, pp. 161 a 194. 
40 
Neste sentido, de acordo com o International Youth Survey, 56% dos jovens que 
afirmaram que os seus pais nunca souberam com quem estavam se tinham envolvido em 
comportamentosdelinquentes nos últimos 12 meses, contra 35% dos jovens cujos pais nem 
sempre sabiam com quem estavam e 12% dos jovens cujos pais sempre souberam com quem 
estavam107. 
Para além das situações em que a educação dada pelo núcleo familiar não é melhor, 
temos os casos diretos em que a própria família é ela próprio um núcleo de criminalidade. 
Conforme alerta FARRINGTON, em termos estatísticos, os estudos longitudinais 
Cambridge mostram que ter um pai, mãe, irmão ou irmã que exibe comportamento criminoso 
é um fator de risco significativo para comportamentos delinquentes em meninos e que entre 
os fatores de risco relacionados com a criminalidade parental, o comportamento criminoso 
do pai é um dos mais influentes: 63% dos rapazes cujos pais estão envolvidos em atividade 
criminosa estão em risco de fazer o mesmo, em comparação com 30% dos outros rapazes108. 
Paralelamente, também o abuso de substâncias psicotrópicas por parte da família é 
um aspecto potenciador de um futuro disfuncional para os jovens, com MCVIE e HOLMES a 
afirmarem que crianças de 15 anos cujos pais usam drogas ou abuso de consumo de bebidas 
alcoólicas têm o dobro da probabilidade de usar drogas ou de abusar do consumo de bebidas 
alcoólicas109. 
Não menos importante, HOTTON alerta para os casos de maus-tratos durante a 
infância e violência familiar. 
Ora, de acordo com o referido autor, a presença de violência no seio familiar e de 
maus-tratos durante a infância são dois fatores de risco significativos associados ao 
comportamento delinquente dos adolescentes e à violência na idade adulta110. 
Sem prejuízo de todo o exposto, MUCHIELLII é claro ao afirmar que não podemos 
analisar cada critério de forma isolada, dado que, considerados isoladamente, os fatores de 
risco associados às características familiares têm um efeito menos óbvio na adoção de 
 
107 Cfr. FARRINGTON, D. (2002) – Developmental Criminology and Risk-Focused Prevention, in M. Maguire, R. Morgan and R. Reiner (eds), The 
Oxford Handbook of Criminology, Third Edition (657-701). Oxford: University of Oxford Press. 
108 Cfr. FARRINGTON, D., et al. (2006) – Criminal Careers up to Age 50 and Life Success up to Age 48: New Findings from the Cambridge Study 
in Delinquent Development. London: Home Office Research, Development and Statistics Directorate. 
109 Cfr. MCVIE, S. e HOLMES, L. (2005) – Family Functioning and Substance Use at Ages 12 to 17. The Edinburgh Study of Youth Transition and 
Crime (No. 9). Edinburgh: The University of Edinburgh, Centre for Law and Society. 
110 Cfr. HOTTON, T. (2003) – Childhood Aggression and Exposure to Violence in the Home. Crime and Justice Paper Research Series (Catalogue 
no. 85-561-MIE-002). Ottawa: Statistics Canada. 
41 
comportamentos delinquentes entre os jovens. De facto, os efeitos negativos são, por vezes, 
o resultado de outros fatores, por vezes fruto de uma combinação de fatores de risco111. 
Por outro lado, em termos estatísticos, verificamos que as crianças que crescem em 
lares em que pai e mãe se encontram separados correm um maior risco de se envolverem em 
comportamentos delinquentes do que as crianças cujos pais ainda estão juntos. O mesmo 
sucede para casos em que pai e mãe ainda estão juntos, mas o ambiente familiar é 
conflituoso112. 
De acordo com THORNBERRY, o aumento da instabilidade familiar está 
significativamente relacionado com uma taxa mais elevada de comportamento delinquente e 
abuso de substâncias113. 
 
3.3- RISCO E PERIGO NA PROTEÇÃO DE CRIANÇAS E JOVENS E O ATO ILÍCITO 
Conforme verificamos, são inúmeras as circunstâncias que podem influir 
negativamente no crescimento de uma criança e, por conseguinte, são vários os fatores que 
podem contribuir para o crescimento nefasto dos jovens, submetendo o jovem a situações de 
risco e de perigo, contribuindo para que o mesmo possa futuramente praticar atos ilícitos. 
Sob a epígrafe “Perigo para a segurança, saúde, formação moral e educação do filho”, 
o art.º 1918.º do Código Civil esclarece que quando a segurança, a saúde, a formação moral 
ou a educação de um menor se encontre em perigo e não seja caso de inibição do exercício 
das responsabilidades parentais das responsabilidades parentais, pode o tribunal, a 
requerimento do Ministério Público ou de qualquer das pessoas indicadas no n.º 1 do artigo 
1915.º114, decretar as providências adequadas, designadamente confiá-lo a terceira pessoa ou 
a estabelecimento de educação ou assistência. 
Neste sentido, o art.º 19.º, n.º 1 da (entretanto revogada) Organização Tutelar de 
Menores referia-nos que quando a segurança, a saúde, a formação moral ou a educação de 
 
111 Cfr. MUCCHIELLI, L. (2000) – Familles et délinquances: un bilan pluridisciplinaire des recherches francophones et anglophones . (K. 
Mucchielli, Ed.). France: Allocations familiales, Caisses nationale d'allocations familiales (CNAF). 
112 Cfr. FARRINGTON, D., et al. (2006) – Criminal Careers up to Age 50 and Life Success up to Age 48: New Findings from the Cambridge Study 
in Delinquent Development. London: Home Office Research, Development and Statistics Directorate. 
113 Cfr. THORNBERRY, T., et al. (1999) – Family Disruption and Delinquency. Juvenile Justice Bulletin. Washington, DC: US Department of 
Justice, Office of Justice Programs, Office of Juvenile Justice and Delinquency Prevention. 
114 Art.º 1915.º 
(Inibição do exercício das responsabilidades parentais) 
1. A requerimento do Ministério Público, de qualquer parente do menor ou de pessoa a cuja guarda ele esteja confiado, de facto ou de 
direito, pode o tribunal decretar a inibição do exercício das responsabilidades parentais quando qualquer dos pais infrinja culposamente 
os deveres para com os filhos, com grave prejuízo destes, ou quando, por inexperiência, enfermidade, ausência ou outras razões, se não 
mostre em condições de cumprir aqueles deveres, Cfr. https://dre.pt/dre/legislacao-consolidada/decreto-lei/1966-34509075 (consultado 
a 14/10/2022). 
https://dre.pt/dre/legislacao-consolidada/decreto-lei/1966-34509075
42 
um menor se encontrem em perigo e não seja caso de inibição do exercício do poder paternal 
ou de remoção das funções tutelares, pode o tribunal decretar as medidas que entenda 
adequadas, designadamente confiar o menor a terceira pessoa ou colocá-lo em 
estabelecimento de educação ou assistência115. 
Por conseguinte, aos pais, tutor ou pessoas a quem o menor seja confiado podem ser 
impostos, entre outros deveres o de aceitar as prescrições que, sob orientação do tribunal, 
forem fixadas pelo serviço de apoio social, submeter-se às diretrizes pedagógicas ou médicas 
de estabelecimento de educação ou de saúde e fazer com que o menor frequente com 
regularidade qualquer estabelecimento de ensino. 
Ora, para que uma situação de perigo ocorra não se torna sequer necessário que tenha 
havido lugar a uma efetiva lesão de alguns dos “bens ou valores”, bastando tão só que esteja 
criada uma situação de fato que seja realmente potenciadora desse perigo de lesão, ou seja, 
tal normativo basta-se com a criação de um real ou muito provável perigo, ainda longe de 
dano sério. 
Efetivamente, todos os aspectos atrás enunciados são verdadeiros catalisadores de 
condutas que poderão desembocar na prática de um ato ilícito, ou seja, a prática de qualquer 
ato que seja contrário ao Direito. 
 
3.4. O REGIME JURÍDICO DE PROTEÇÃO DE CRIANÇAS E JOVENS 
 
3.4.1. ENQUADRAMENTO 
O regime jurídico de proteção de crianças e jovens em perigo aprovado pela Lei n.º 
147/99, de 01 de setembro tem como principal objetivo a promoção dos direitos e a proteção 
das crianças e dos jovens em perigo, por forma a garantir o seu bem-estar e desenvolvimento 
integral, aplicando-se a todas as crianças e jovens que se encontrem em tal situação e residam 
ou se encontrem em território nacional (art.º 1.º e 2.º do referido regime jurídico). 
Em termos de legitimidade para se operar uma intervenção, oart.º 3.º, n.º. 1, esclarece 
que a intervenção para promoção dos direitos e proteção da criança e do jovem em perigo 
tem lugar quando os pais, o representante legal ou quem tenha a guarda de fato ponham em 
perigo a sua segurança, saúde, formação, educação ou desenvolvimento, ou quando esse 
 
115 Cfr. https://www.igf.gov.pt/leggeraldocs/DL_506_80.htm (consultado a 15/10/2022). 
Comentado [A4]: Idem quanto ao comentário anterior 
https://www.igf.gov.pt/leggeraldocs/DL_506_80.htm
43 
perigo resulte de ação ou omissão de terceiros ou da própria criança ou do jovem a que 
aqueles não se oponham de modo adequado a removê-lo. 
Paralelamente, é necessário apreciar este preceito em simultâneo com o n.º 2 do 
mesmo artigo, o qual esclarece que se considera que a criança ou o jovem está em perigo 
quando, designadamente, se encontra numa das seguintes situações: 
a) Está abandonada ou vive entregue a si própria; 
b) Sofre maus-tratos físicos ou psíquicos ou é vítima de abusos sexuais; 
c) Não recebe os cuidados ou a afeição, adequados à sua idade e situação 
pessoal; 
d) Está aos cuidados de terceiros, durante período em que se observou o 
estabelecimento com estes de forte relação de vinculação e em simultâneo 
com o não exercício pelos pais das suas funções parentais; 
e) É obrigada a atividades ou trabalhos excessivos ou inadequados à sua idade, 
dignidade e situação pessoal ou prejudiciais à sua formação ou 
desenvolvimento; 
f) Está sujeita, de forma direta ou indireta, a comportamentos que afetem 
gravemente a sua segurança ou o seu equilíbrio emocional; 
g) Assume comportamentos ou se entrega a atividades ou consumos que 
afetem gravemente a sua saúde, segurança, formação, educação ou 
desenvolvimento sem que os pais, o representante legal ou quem tenha a 
guarda de facto se lhes oponham de modo adequado a remover essa 
situação. 
h) Tem nacionalidade estrangeira e está acolhida em instituição pública, 
cooperativa, social ou privada com acordo de cooperação com o Estado, sem 
autorização de residência em território nacional 
 
 
 
 
 
 
44 
3.4.2. PRINCÍPIOS BASILARES 
Para que se entenda ser necessária a intervenção no âmbito da proteção de crianças e 
jovens, teremos de ter em conta vários princípios orientadores da intervenção: 
1. Interesse superior da criança e do jovem. 
Conforme fomos aflorando, a intervenção a levar a cabo deve atender prioritariamente 
aos interesses e direitos da criança e do jovem, nomeadamente à continuidade de relações de 
afeto de qualidade e significativas, sem prejuízo da consideração que for devida a outros 
interesses legítimos no âmbito da pluralidade dos interesses presentes no caso concreto. 
O princípio do “interesse superior da criança" é fundamental no sistema jurídico do 
nosso País e consta dos textos convencionais mais relevantes sobre a criança, considerada 
hoje sujeito de direito e de direitos, designadamente do artº 3º da Convenção sobre os 
Direitos da Criança.116 
 
 
 
2. Privacidade. 
A promoção dos direitos e proteção da criança e do jovem deverá ser levada a cabo no 
respeito pela intimidade, direito à imagem e reserva da sua vida privada; 
3. Intervenção precoce, proporcionalidade e atualidade 
Analisando-se a realidade, entende-se que a intervenção deverá ser operada logo que 
a situação de perigo seja conhecida, sendo que a intervenção deverá ser a necessária e a 
adequada à situação de perigo em que a criança ou o jovem se encontram quando a decisão 
é tomada e só pode interferir na sua vida e na da sua família na medida do que for 
estritamente necessário a essa finalidade; 
 
4. Intervenção mínima. 
A intervenção deve ser realizada pelas entidades e instituições cuja ação seja 
indispensável à efetiva promoção dos direitos e à proteção da criança e do jovem em perigo; 
 
 
116 Cfr. https://iacrianca.pt/wp-content/uploads/2020/07/o-superior-interesse-da-crianca.pdf (consultado a 18/10/2022) 
Comentado [A5]: idem 
https://iacrianca.pt/wp-content/uploads/2020/07/o-superior-interesse-da-crianca.pdf
45 
5. Responsabilidade parental e primado da continuidade das relações psicológicas 
profundas. 
Qualquer intervenção deverá ser efetuada de modo que os pais assumam os seus 
deveres para com a criança e o jovem e terá de respeitar o direito da criança à preservação 
das relações afetivas estruturantes de grande significado e de referência para o seu saudável 
e harmónico desenvolvimento, devendo prevalecer as medidas que garantam a continuidade 
de uma vinculação securizante; 
 
6. Prevalência da família. 
No âmbito da promoção dos direitos e na proteção da criança e do jovem deverá ser 
dada prevalência às medidas que os integrem em família, quer na sua família biológica, quer 
promovendo a sua adoção ou outra forma de integração familiar estável; 
 
7. Obrigatoriedade da informação, audição obrigatória e participação. 
A criança e o jovem, os pais, o representante legal ou a pessoa que tenha a sua guarda 
de fato têm direito a ser informados dos seus direitos, dos motivos que determinaram a 
intervenção e da forma como esta se processa e, no mesmo sentido, a criança e o jovem, em 
separado ou na companhia dos pais ou de pessoa por si escolhida, bem como os pais, 
representante legal ou pessoa que tenha a sua guarda de fato, têm direito a ser ouvidos e a 
participar nos atos e na definição da medida de promoção dos direitos e de proteção; 
Os princípios centram-se na família pela valorização do papel parental e, 
concomitantemente, na criança ou jovem, preservando a confiança e privacidade do espaço 
familiar, erigindo a co-construção do processo de parentalidade como meio de conquistar e 
capacitar os pais para as suas competências e a promoção da sua autonomia.117 
Ressalta-se que o direito à ser ouvido e à participação são frutos de mudanças de 
valores da sociedade. A criança deixa de ser olhada como uma tábua rasa, um ser 
em devir para o estádio adulto, para ser considerada como indivíduo de pleno direito, sujeito 
competente, capaz de participar na construção da sua própria vida e na dos outros que a 
rodeiam.118 
 
117 FIALHO, Anabela Raimundo & FELGUEIRAS, Belmira. A intervenção protetiva e a intervenção tutelar educativa – Caminhos que se cruzam. 
Coimbra Editora, p.92. 
118 Renaut: 2002. cf. La libération des enfants. Contribution philosophique à une histoire de l’enfance. Paris: Calmann-Lévy. 
46 
Por último, cumpre ainda fazer referência ao princípio da subsidiariedade. 
O princípio da subsidiariedade determina que a intervenção deverá ser efetuada 
sucessivamente pelas entidades com competência em matéria da infância e juventude, pelas 
comissões de proteção de crianças e jovens e, em última instância, pelos tribunais. 
 
3.4.3. MEDIDAS DE PROMOÇÃO E PROTEÇÃO 
Verificada uma situação de legitimidade e estando cumpridos os princípios 
enunciados, ou seja, verificando-se que é efetivamente necessária a intervenção, existem 
várias medidas de promoção e proteção que poderão ser concretamente aplicadas. 
Ora, com vista a apreciarmos as mesmas, cumpre-nos analisar o art.º 35.º do regime 
jurídico de proteção de crianças e jovens em perigo, o qual nos enuncia as medidas de 
promoção e proteção: 
a) Apoio junto dos pais; 
b) Apoio junto de outro familiar; 
c) Confiança a pessoa idónea; 
d) Apoio para a autonomia de vida; 
e) Acolhimento familiar; 
f) Acolhimento residencial; 
g) Confiança a pessoa selecionada para a adoção, a família de acolhimento ou 
a instituição com vista à adoção. 
 
Em termos concretos, o n.º 2 do referido artigo esclarece-nos que as medidas de 
promoção e de proteção são executadas no meio natural de vida ou em regime de colocação, 
consoante a sua natureza, e podem ser decididas a título cautelar, com exceção da medida 
prevista na alínea g) do número 1.º do mesmo artigo. 
 
47 
3.4.4. CONCRETIZAÇÃO PRÁTICA 
Com vista a entendermos como funciona o regime jurídico de proteçãode crianças e 
jovens em perigo na prática, cumpre-nos analisar o Acórdão do Tribunal da Relação de 
Coimbra de 23-03-2021119, o qual – de forma sumária – nos refere: 
I. A Lei nº. 147/99, de 1/9, que aprovou a lei ou o regime jurídico de proteção de 
crianças e jovens em perigo (designada por LPCJP) teve e tem precisamente como 
objetivo a promoção dos direitos e a proteção das crianças e dos jovens em perigo, 
por forma a garantir o seu bem-estar e desenvolvimento integral, aplicando-se a 
todas as crianças e jovens que se encontrem em tal situação e residam ou se 
encontrem em território nacional. 
II. Entre elas, e com interesse para o caso sub júdice, encontram-se aquelas situações 
em que a criança ou jovem “não recebe os cuidados ou afeição adequados a sua 
idade e situação pessoal” (al. c)) ou “está sujeita, de forma direta ou indireta, a 
comportamentos que afetem gravemente a sua segurança ou o seu equilíbrio 
emocional” (al. f)). 
III. As situações de perigo ali contempladas tanto podem provir de culpa (no sentido 
lacto sensu) dos pais, do representante legal, daquele que tenha a criança ou 
jovem à sua guarda de fato ou de ação ou omissão de terceiros (além da própria 
criança), como resultar inclusive de simples impotência ou incapacidade daqueles. 
IV. O ideal é que as crianças cresçam sempre no seio de uma família, e sobretudo ao 
lado dos seus pais e dos seus irmãos (quando existem)120. 
V. Mas tal princípio (que não é absoluto) pressupõe não só que exista essa família (e 
estamos agora a referirmo-nos à família biológica, pois que a outra legal, que 
poderá advir da adoção, neste momento ainda não existe) mas, e sobretudo, 
também que exista um ambiente familiar propício a permitir a integração e o 
crescimento dos menores no seu seio, e muito particularmente que os pais 
disponham de condições (quer ao nível afetivo, quer ao nível psicológico, quer ao 
nível econômico) para tratar e cuidar deles e lhe proporcionar esse 
 
119Cfr.http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/c3fb530030ea1c61802568d9005cd5bb/b63c25b6ecb25091802586a50035f7fb?OpenDocument 
(consultado a 16/10/2022). 
120 Cfr. http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/c3fb530030ea1c61802568d9005cd5bb/b63c25b6ecb25091802586a50035f7fb?OpenDocument 
(consultado a 16/10/2022). 
Comentado [A6]: Está muito longa esta descrição. Tem 
de citar tudo? Creio que deveria selecionar (partes de 
enquadramento não devem ser citadas) 
http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/c3fb530030ea1c61802568d9005cd5bb/b63c25b6ecb25091802586a50035f7fb?OpenDocument
http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/c3fb530030ea1c61802568d9005cd5bb/b63c25b6ecb25091802586a50035f7fb?OpenDocument
48 
crescimento/desenvolvimento em termos harmoniosos (ainda que porventura 
com a ajuda/apoio do Estado, através das suas instituições vocacionadas para o 
efeito, sendo certo que foi justamente para esse efeito que entre o elenco das 
medidas legais de promoção e proteção se encontra a do “apoio junto dos pais” – 
cfr. al. a) do nº. 1 do citado artº. 35º, nº. 1)121. 
 
Ora, como facilmente se conclui, esta decisão jurisprudencial é extremamente 
interessante, dado que aprecia, na prática, como se aplica o regime jurídico de proteção de 
crianças e jovens em perigo, nomeadamente os princípios estruturantes desta intervenção. 
Como decorre do mesmo, existem diversos princípios que norteiam a aplicação do regime e, 
paralelamente, diversos critérios que devem ser seguidos. 
No entanto, é necessário grande cuidado na sua aplicação prática, uma vez que o que 
se busca é o melhor para a criança/jovem, como exaustivamente já citado neste estudo, ou 
seja, é necessário sempre ter em vista o seu especial interesse, o que se revela uma tarefa 
árdua, carente da análise do caso concreto e das suas especificidades. 
Neste sentido, se inicialmente ficar com a sua família seria do seu interesse, a verdade 
é que, infelizmente, por vezes a realidade não o possibilita e, efetivamente, será preferível 
afastar a criança da sua família, precisamente tendo em conta o seu superior interesse. Trata-
se de uma parcela vulnerável da população que se usufruir de apoios especializados podem 
superar as dificuldades inerentes a esta fase da vida. 
A criança/jovem é a razão de ser da aplicação do regime, o qual existe por ela e para 
ela. A existência de um normativo legal que permite uma intervenção protetiva por parte do 
Estado, visa a educação da criança ou do jovem, mesmo que contrária à vontade dos 
investidos no pátrio poder, e sempre que se manifeste uma situação desviante que torne clara 
a rutura com elementos nucleares da ordem jurídica”122 
 
 
 
 
 
121 Cfr. http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/c3fb530030ea1c61802568d9005cd5bb/b63c25b6ecb25091802586a50035f7fb?OpenDocument 
(consultado a 16/10/2022). 
122 Exposição de Motivos da Proposta de Lei n.º 266/VII. 
http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/c3fb530030ea1c61802568d9005cd5bb/b63c25b6ecb25091802586a50035f7fb?OpenDocument
49 
4- A EDUCAÇÃO PARA O DIREITO – A INTERVENÇÃO TUTELAR EDUCATIVA 
 
4.1. EDUCAÇÃO E PUNIÇÃO 
Na sequência de todos os aspectos atrás analisados, ou seja, caso nenhuma das 
medidas tenha resultado e, na realidade, a criança tenha crescido de forma disfuncional e se 
tenha tornado um jovem que se dedica à prática de ilícitos, ainda assim, na atualidade, o 
Estado não desiste do mesmo. 
Hodiernamente, fruto de uma evolução social ao longo dos anos, o que permitiu a 
alteração nas diversas legislações existentes, conforme amplamente debatido nos tópicos 
anteriores, hoje as crianças e os jovens são olhados com especial atenção. 
A aprovação de dois novos instrumentos normativos pôde facilitar a diferenciação da 
necessidade de intervenção do Estado na vida particular dessas crianças e jovens, haja vista 
que passou a separar as crianças e jovens em perigo das que praticavam atos 
substancialmente ilícitos.123 Nos termos da disposição introdutória da LTE, a mesma surge em 
sequência de uma necessidade de reforma da anterior Organização Tutelar de Menores, que 
não assentava na distinção entre as crianças/os jovens delinquentes ou infratores e as 
crianças/os jovens em situação de risco. 
Ora, a Lei Tutelar Educativa, aprovada pela Lei n.º 166/99, de 14 de setembro, aplica-
se a todo o jovem com idades compreendidas entre os 12 e os 16 anos, que pratique um fato 
qualificado pela lei como crime e apresente necessidades de educação para o direito (art.º 1.º 
É interessante verificar que, nos termos do disposto no art.º 19.º do Código Penal124, 
os menores125 de 16 anos são considerados inimputáveis, ou seja, não são passíveis de 
responsabilidade penal. 
Por conseguinte, ao invés de a sociedade pura e simplesmente ignorar a conduta ilícita 
praticada pelo jovem (em sentido abstrato, mas inimputável aos olhos do Código Penal) 
deverá ser aplicada a Lei Tutelar Educativa, caso estejamos perante um menor com idade 
compreendida entre os 12 e os 16 anos e existam necessidades educativas. Como dispõe o 
 
123 Formiga, N., Aguiar, M., & Omar, A. Busca de sensação e condutas antissociais e delitivas 
em jovens. Psicologia. Ciência e Profissão, 28 (4), págs. 668-681. 
124 “Artigo 19.º Inimputabilidade em razão da idade - Os menores de 16 anos são inimputáveis”. 
125 Em que pese a LTE tenha adotado a terminologia “jovem” seguindo tendências internacionais, ou mesmo o termo criança, seguindo desde 
logo, a CDC (art.1º), em detrimento da expressão “menor”, utilizaremos a expressão “menores” por se tratar da terminologia legal . 
(Disposição introdutória, art. 1º da LTE) 
50 
art.º 2.º, n.º 1 da Lei Tutelar Educativa, as medidas tutelares educativas visam a educação do 
menor para o direito e a sua inserção, de forma digna e responsável, na vida em comunidade 
e não a punição. 
 Como bem ressalta Margarida Santos, “A Lei Tutelar Educativa (LTE) rompe com o 
paradigma anterior vazado na Organização Tutelar de Menores, que, desde logo, não 
assentava na distinção entre as crianças/jovens delinquentesNo que respeita à duração das referidas medidas, nos termos do disposto no art.º 18.º, 
n.º 1 da Lei Tutelar Educativa, constatamos que a medida de internamento em regime aberto 
e semiaberto tem a duração mínima de seis meses e a máxima de dois anos. 
 
129 ANDRADE, Amélia Sineiro, “Anotação ao artigo 17º da Lei Tutelar Educativa Anotada”, in Cristina Dias, Margarida Santos, Rui do Carmo 
(coord.), Lei Tutelar Educativa Anotada, Coimbra, Almedina, 2018, p. 108. 
54 
A medida de internamento em regime fechado tem a duração mínima de seis meses e 
a máxima de dois anos, salvo o disposto no número seguinte (art.º 18.º, n.º 2 da Lei Tutelar 
Educativa). 
Por seu turno, nos termos do disposto no art.º 18.º, n.º 3 da Lei Tutelar Educativa, 
verificamos que quanto à medida de internamento em regime fechado tem a duração máxima 
de três anos, quando o menor tiver praticado fato qualificado como crime a que corresponda 
pena máxima, abstratamente aplicável, de prisão superior a oito anos, ou dois ou mais fatos 
qualificados como crimes contra as pessoas a que corresponda a pena máxima, abstratamente 
aplicável, de prisão superior a cinco anos. 
No que se reporta ao prazo de execução, dispõe o art.º 5.º LTE que as referidas 
medidas podem ser executadas até o jovem completar 21 anos, momento em que cessarão 
obrigatoriamente. 
 Ressalte-se que ao invés do sistema penal, o sistema tutelar educativo assenta na 
concessão básica de que a medida constitui ultima ratio da intervenção estatal, bem como a 
aplicação de medidas tutelares tem como finalidade primária a socialização130, cuja ideia 
principal é conquistar o jovem para o respeito pelas normas, prevenindo-se ulteriores infrações, 
assim se logrando a própria segurança da comunidade131, como sublinha Souto de Moura. 
Importa mencionar que a intervenção tutelar educativa orienta-se pelo princípio da 
preferência pelas medidas não institucionais, corolários do princípio da intervenção mínima e 
da proporcionalidade, seguindo diversos instrumentos internacionais, prevalecendo o modelo 
de justiça restaurativa/reparadora132. 
É neste sentido que se posiciona Anabela Miranda Rodrigues, para quem “Educar, 
(versus submeter) é formar, isto é, desenvolver harmonicamente a personalidade, devolvendo 
valores e normas”. 
 
 
 
130 FIALHO, Anabela Raimundo & FELGUEIRAS, Belmira. A intervenção protetiva e a intervenção tutelar educativa – Caminhos que se cruzam. 
Coimbra Editora, p.92. 
131 Cfr. MOURA, José Adriano Souto de, “A tutela educativa: factores de legitimação e objectivos”, in Direito Tutelar de Menores. O sistema 
em mudança, Coimbra: Coimbra Editora, 2002, p. 111. 
132 ANDRADE, Amélia Sineiro, “Anotação ao artigo 17.º da Lei Tutelar Educativa Anotada”, in Cristina Dias, Margarida Santos, Rui do Carmo 
(coord.), Lei Tutelar Educativa Anotada, Coimbra, Almedina, 2018, p. 108. 
55 
5- APLICAÇÃO PRÁTICA - FRAGILIDADES E A (DES)ARTICULAÇÃO DOS SISTEMAS DE 
PROTEÇÃO À INFÂNCIA E TUTELAR EDUCATIVO 
 
Conforme fomos analisando, em termos práticos, o ideal será nunca ser necessário 
aplicar o regime do Código Penal. 
Seria o caso em que nenhum imputável (maior de 16 anos) teria praticado uma 
conduta criminosa. 
No mesmo sentido, o ideal seria nunca ser necessário recorrer ao regime tutelar 
educativo, ou seja, nenhum jovem (entre os 12 e os 16) teria levado a cabo uma conduta 
criminosa (em sentido abstrato, dado ser inimputável para efeitos da lei penal). 
Ora, como vimos, a primeira linha de intervenção é trazida pela Lei de proteção de 
crianças e jovens em perigo, a qual deverá intervir caso tal se justifique e sempre numa ótica 
de proteção da criança ou jovem e tendo em consideração o seu superior interesse. 
No fundo, após séculos de evolução, atualmente não se olha para uma criança que se 
esteja a afastar do rumo que é tido pelo mais correto com indiferença. Efetivamente, cabe à 
sociedade em geral e ao Estado, em particular, intervir por forma a evitar que a criança cresça 
para ser um jovem disfuncional, que se afaste de uma vivência sadia e pratique atos ilícitos e 
marginais. 
No entanto, diferentemente do que se possa pensar, os princípios da intervenção em 
promoção e proteção centram-se essencialmente na família, pela valorização do papel 
parental, e concomitantemente, na criança ou jovem, preservando a confiança e privacidade 
do espaço familiar133 
Muito embora o regime jurídico diferencie crianças em perigo de jovens autores da 
prática de fatos qualificados pela lei penal como crime, existem pontes de ligação (Fialho & 
Felgueiras, 2014) entre a Lei Tutelar Educativa e a Lei de Promoção e Proteção de Crianças e 
Jovens em Perigo (Lei nº 147/99, de 1 de Setembro). 
Como bem asseveram, as finalidades de ambas as leis podem ser diferentes, mas não 
são contrárias entre si.134 
 
133 FIALHO, Anabela Raimundo & FELGUEIRAS, Belmira. A intervenção protetiva e a intervenção tutelar educativa – Caminhos que se cruzam. 
Coimbra Editora, p.92 
134 Cfr. Fialho, Anabela Raimundo & Felgueiras, Belmira Raposo: a intervenção protetiva e a intervenção tutelar educativa – caminhos que se 
cruzam, Coimbra Editora, Julgar, nº 24, 2014. 
Comentado [A8]: Falta aqui referir o documento que lhe 
falei… 
https://www.ministeriopublico.pt/sites/default/files/do
cumentos/pdf/educar_para_o_direito_guiao_de_procedim
entos_de_comunicacao.pdf - é da PGR e dá conta desta 
dificuldade de articulação 
https://www.ministeriopublico.pt/sites/default/files/documentos/pdf/educar_para_o_direito_guiao_de_procedimentos_de_comunicacao.pdf
https://www.ministeriopublico.pt/sites/default/files/documentos/pdf/educar_para_o_direito_guiao_de_procedimentos_de_comunicacao.pdf
https://www.ministeriopublico.pt/sites/default/files/documentos/pdf/educar_para_o_direito_guiao_de_procedimentos_de_comunicacao.pdf
56 
Para que seja eficaz a cooperação entre ambos os institutos, necessário se faz que os 
mesmos funcionem em pleno, já que só esta articulação impedirá que as duas vertentes do 
direito das crianças e jovens se transformem, por um lado, em intervenções paternalistas e 
ilegítimas, exclusivamente de controle social135, daí porque é necessário que referido 
mecanismo esteja embasado por princípios e fundamentos basilares136. 
A articulação entre os regimes, porém, nem sempre é fácil, dado que, por vezes a 
criança/jovem poderá “escapar” ao controle das instituições e não tendo qualquer apoio no 
regime de proteção de crianças e jovens em perigo, é necessário aplicar de forma direta a LTE. 
Sobre a matéria enunciada releva a orientação formulada na sequência do 1º. 
Encontro de Magistrados da Área de Família e Menores realizado em 2007/08: 'O MPº deve 
zelar pelo cumprimento de todas as regras tendentes à boa harmonização das decisões 
proferidas no âmbito de processos de promoção e proteção, tutelares cíveis e tutelares 
educativos, dando cabal cumprimento ao que vem disposto nos artigos 81º, nº 1 da LPCJP , 
148º e 154º, ambos da OTM, e 37º, nº 2 e 43º, nº 3, ambos da LTE. 
A finalidade da intervenção, em sede de promoção e proteção, e, designadamente, do 
decretamento das correspondentes medidas é o de afastar o perigo a que as crianças e jovens 
se encontrem expostos, proporcionar-lhes as condições que permitam proteger e promover 
a sua segurança, saúde, formação, educação, bem-estar e desenvolvimento integral e garantir 
a recuperação física e psicológica das crianças e jovens vítimas de qualquer forma de 
exploração ou abuso (cfr. art.34º. da LPCJP). 
Cabe, antes de mais, sublinhar que, visando a medida tutelar educativa de internamento 
a educação do menor para o direito e a sua inserção, de forma digna e responsável, na vida 
em comunidade (cfr. art.2º. da LTE), a execução daquela prevalece sobre a medida protetiva 
de acolhimento institucional anteriormente decretada, inviabilizando a execução desta 
última,enquanto aquela perdurar. No entanto, mesmo após o cumprimento da medida 
cautelar de internamento, opta-se pela medida de acolhimento, em razão da ausência de um 
esteio familiar apto a proporcionar àquele as condições adequadas ao seu processo de 
crescimento e desenvolvimento. 
 
 
136 Cfr. Fialho, Anabela Raimundo & Felgueiras, Belmira Raposo: a intervenção protetiva e a intervenção tutelar educativa – caminhos que se 
cruzam, Coimbra Editora, Julgar, nº 24, 2014, ressalta, LTE transformou, nesse aspeto, o jovem em verdadeiro sujeito processual, 
reconhecendo-lhe direitos, ouvindo-o obrigatoriamente no processo, prevendo duração para as medidas e estabelecendo um plano 
pessoal, cujos objetivos se alcançam com um pendor de formalismo e legalidade, mas também de criatividade e equidade. 
57 
Deve-se levar em consideração que a medida de internamento, nos termos de Amélia 
Sineiro Andrade, deve ser encarada como um desafio e uma oportunidade de mudança, que 
comporta efeitos benéficos com a aquisição de competências e a interiorização de valores.137 
Por outro lado, por vezes, verifica-se que as medidas foram ineficazes, pelo que, ainda 
assim, será necessário recorrer à LTE, além de gerar o questionamento acerca da sua real 
eficácia, uma vez que a mesma é coberta de criticismo. 
A título de exemplo, podemos referir o Acórdão do Tribunal da Relação de Évora de 09 
novembro 2021, o qual nos refere: 
I. Os requisitos de forma e de substância da decisão de aplicação de medida 
cautelar em processo tutelar educativo são necessariamente menos 
exigentes do que os que se encontram previstos para a sentença, atendendo 
à sua provisoriedade intrínseca. 
II. A aplicação de qualquer medida cautelar a menor no âmbito de processo 
tutelar educativo pressupõe, desde logo, a verificação de um juízo de 
indiciação da prática de fatos qualificados pela lei penal como crime e visa 
exclusivamente satisfazer exigências cautelares ou preventivas e 
estritamente processuais, visando estas últimas não só garantir a 
averiguação dos fatos, mas também acautelar as necessidades educativas 
do menor. 
III. Encontrando-se o menor fortemente indiciado nos autos pela prática de 
trinta e seis blocos de fatos qualificados por lei como crimes – entre os quais 
se incluem fatos graves, com utilização de violência e intimidação dos 
ofendidos, qualificados como crimes de roubo e de furto qualificado – 
praticados de forma reiterada durante quase três anos, num período em que 
o menor tinha entre 13 e 16 anos, não possuindo o mesmo qualquer apoio 
familiar, nem ocupação estável e sendo provável a aplicação em julgamento 
de uma medida tutelar de internamento, encontra-se amplamente 
justificada e revela-se adequada e proporcional a aplicação da medida 
tutelar de guarda em centro educativo em regime fechado”. 
 
137 Cfr. ANDRADE, Amélia Sineiro, “Anotação ao artigo 17.º da Lei Tutelar Educativa Anotada”, in Cristina Dias, Margarida Santos, Rui do 
Carmo (coord.), Lei Tutelar Educativa Anotada, Coimbra, Almedina, 2018, p. 103. 
58 
 Estava em causa neste processo um menor a quem havia já sido fixada medida de 
promoção e proteção de apoio junto dos pais, medida que, à data se encontrava a ser revista 
tendo a Segurança Social, perante a sua ineficácia, emitido parecer técnico no sentido da 
aplicação da medida de acolhimento residencial. 
Nesta decisão jurisprudencial é clara a falibilidade do regime legal aplicável, dado que, 
não obstante ter existido uma medida de promoção e proteção, ainda assim se chegou à 
conclusão de que o jovem praticou condutas criminosas, de forma reiterada durante quase 
três anos, quando tinha entre 13 e 16 anos, não possuindo o mesmo qualquer apoio familiar, 
nem ocupação estável e sendo provável a aplicação em julgamento de uma medida tutelar de 
internamento, pelo que, se considerou amplamente justificada, adequada e proporcional a 
aplicação da medida tutelar de guarda em centro educativo em regime fechado, encerrando, 
deste modo, uma dimensão protetora.138 
Conforme afirma ALVES, “Falhas na intervenção preventiva no seio das famílias, 
tornando-se o acolhimento institucional a resposta imediata e exequível para sanar o perigo 
em que se encontra a criança/jovem, também o acompanhamento assegurado durante o 
mesmo com vista ao seu rápido regresso ao seu agregado familiar (ou a um outro, quando o 
de origem não volta a reunir condições para a receber), apresenta várias fragilidades”, haja 
vista que, muitas vezes, é na própria família que reside a origem de percursos delinquenciais 
da criança, levando a um desenvolvimento de individualidades perturbadas e 
emocionalmente frágeis.139 
Não raras vezes os meios de comunicação social veicularam histórias de abusos 
sofridos pelas crianças e jovens em situações assistenciais, o que demonstra claramente as 
falhas e constrangimentos existentes neste tipo de instituição. 
De acordo com Carvalho, 2002, cit. por Siqueira & Dell’Aglio, 2006, vários estudos 
ressaltam que o ambiente não se mostra como o mais adequado, haja vista que pode ser 
responsável por colocar em causa o desenvolvimento das crianças e jovens acolhidos em razão 
da padronização do atendimento, o número elevado de crianças por técnico ou monitor, a 
 
138 FIALHO, Anabela Raimundo & FELGUEIRAS, Belmira. A intervenção protetiva e a intervenção tutelar educativa – Caminhos que se cruzam. 
Coimbra Editora, p.94 
139 FIALHO, Anabela Raimundo & FELGUEIRAS, Belmira. A intervenção protetiva e a intervenção tutelar educativa – Caminhos que se cruzam. 
Coimbra Editora, p.96. 
59 
falta de planejamento e desenvolvimento de atividades, além da fragilidade do apoio social e 
afetivo.140 
Tais fragilidades reforçam os acontecimentos negativos no interior destas instituições, 
merecendo reprovação social face à violação dos direitos das crianças e jovens acolhidos, 
havendo, inclusive quem defenda a extinção de tais instituições.141 
Salienta-se que, conforme dados divulgados pelo Ministério Público, de 2015/2016, 
houve uma redução significativa na instauração de novos inquéritos e, inversamente 
proporcional, ocorreu o aumento da intervenção protetiva das comissões de proteção às 
crianças e jovens em perigo. 
O referido Guia reforça o aumento exponencial intervenção protetiva das comissões 
de proteção de crianças e jovens (CPCJ) relacionada com comportamentos de perigo 
protagonizados por jovens, os quais têm vindo a ganhar importância, de forma gradual e 
consistente, nas sinalizações e diagnósticos, representando 18,3% do total dos diagnósticos 
do ano 2017; 18,7% dos diagnósticos 
de 2018 e 20,96% dos diagnósticos de 2019. 
É de se pontuar que essa redução apontada pelo Ministério Público muito tem a ver 
com a falha de comunicação entre todos os intervenientes do sistema – Tribunais, Comissões 
de Proteção, serviços sociais e de reinserção social, escolas, centros de saúde — para que, 
muito mais do que aceitar a justeza da intervenção, se trabalhem esses recursos, ao nível da 
prevenção. 
Insta mencionar que qualquer pessoa pode denunciar ao Ministério Público ou a órgão 
de polícia criminal fato qualificado pela lei como crime, nos termos do que preceitua o art. 72º 
da LTE, não se exigindo formalismo especial para tanto. 
Em razão da inexpressiva intervenção tutelar decorrente da falta de comunicação de 
fenômenos de violência, o próprio Ministério Publico editou um Guia destinado à diversas 
entidades com responsabilidade no âmbito da justiça juvenil com fito a dinamizar o 
cumprimento do dever de comunicação ao respectivo Órgão. 
 
140 Siqueira, A. e Dell’Aglio, D. (2006). O impacto da institucionalização na Infância e na Adolescência: uma revisão da literatura. Psicologia & 
Sociedade, n.º 18 (1), p. 71 – 80. 
141 Martins, P. (2005). A qualidade dos serviços de protecção às crianças e jovens: as respostas institucionais. Comunicação apresentada no 
"Encontro CidadeE JOVENS E O ATO ILÍCITO ............. 41 
3.4. O REGIME JURÍDICO DE PROTEÇÃO DE CRIANÇAS E JOVENS ................................ 42 
3.4.1. ENQUADRAMENTO .................................................................................. 42 
3.4.2. PRINCÍPIOS BASILARES ............................................................................. 44 
3.4.3. MEDIDAS DE PROMOÇÃO E PROTEÇÃO .................................................... 46 
3.4.4. CONCRETIZAÇÃO PRÁTICA ....................................................................... 47 
 
viii 
4- A EDUCAÇÃO PARA O DIREITO – A INTERVENÇÃO TUTELAR EDUCATIVA ....................... 49 
4.1. EDUCAÇÃO E PUNIÇÃO ........................................................................................ 49 
4.1.1. MEDIDAS CONCRETAS DA LEI TUTELAR EDUCATIVA ................................. 50 
 
5- APLICAÇÃO PRÁTICA - FRAGILIDADES E A (DES)ARTICULAÇÃO DOS SISTEMAS DE 
PROTEÇÃO À INFÂNCIA E TUTELAR EDUCATIVO ................................................................. 55 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................................... 61 
 
BIBLIOGRAFIA ...................................................................................................................... 63 
 
ix 
SIGLAS E ABREVIATURAS 
 
al. Alínea 
art.º Artigo 
arts. Artigos 
CFB Constituição Federal Brasileira 
cfr. Confrontar 
cit. Citado 
CRP Constituição da República Portuguesa 
disp. Disponível em 
DUDH Declaração Universal dos Direitos Humanos 
ECA Estatuto da Criança e do Adolescente 
ed. Edição 
ex. Exemplo 
id. Idem 
LOAS Lei Orgânica da Assistência Social 
LPI Lei de Proteção à Infância 
LTE Lei Tutelar Educativa 
n. Nota 
nº Número 
nos Números 
OTM Organização Tutelar de Menores 
p. Página 
pp. Páginas 
ss. Seguintes 
vol. Volume 
 
x 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia 
da vida é quando os homens têm medo da luz”. 
Platão
1 
INTRODUÇÃO 
 
Como sabemos, a evolução da sociedade é isso mesmo, uma evolução permanente e 
constante. 
Por conseguinte, para muitos jovens de hoje, os padrões tradicionais que orientam as 
relações e as transições entre a família, a escola e o trabalho tendem a ser desafiados em cada 
momento. 
As tradicionais relações sociais que asseguram um processo suave de socialização são 
colocadas em causa e as trajetórias de estilo de vida estão a tornar-se mais variadas e menos 
previsíveis. 
Com a reestruturação do mercado de trabalho, o alargamento do fosso de maturidade 
(período de dependência dos jovens adultos na família), as oportunidades para os jovens se 
tornarem adultos independentes são colocadas em causa por todas as mudanças que 
influenciam as relações com a família e amigos, oportunidades e escolhas educacionais, 
participação no mercado de trabalho, atividades de lazer e estilos de vida. 
Não são apenas os países desenvolvidos que enfrentam esta situação, pois também 
nos países em desenvolvimento existem novas pressões sobre os jovens que passam pela 
transição da infância para a independência. Com o rápido crescimento populacional, a 
indisponibilidade dos serviços de habitação e apoio, a pobreza, o desemprego e o subemprego 
entre os jovens, o declínio da autoridade das comunidades locais, a sobrelotação nas zonas 
urbanas pobres, a desintegração da família e os sistemas educativos ineficazes são algumas 
das pressões que os jovens devem enfrentar. 
Por conseguinte, atualmente, independentemente do gênero, origem social ou país de 
residência, os jovens estão sujeitos a riscos individuais, a uma escala nunca vista. Se 
antigamente o perigo residia apenas no bairro e/ou localidade em que os jovens vivam, na 
atualidade os perigos estão numa pequena tela, a qual comunica com todo o planeta, 
trazendo para uma pequena aldeia perdida, riscos que vêm da outra parte do mundo. 
Ora, com vista a conseguirem desenvolver todo o seu potencial, as crianças precisam 
do amor, cuidado e atenção de uma família, dado que o apoio emocional é essencial para o 
desenvolvimento do cérebro, o qual sofrerá se não tiver esse contato próximo e amoroso 
desde cedo. 
2 
Coloca-se então a questão: e as crianças ou jovens que têm de crescer sem uma família 
estável ou até mesmo sem uma família? 
Precipuamente, tenta-se demonstrar a fragilidade existente nos institutos de 
acolhimento e internamento e como tais falhas podem desencadear na delinquência infanto-
juvenil, quando deveria ser um ambiente acolhedor que conduzisse a uma melhoria da 
qualidade de vida e bem estar das crianças e jovens acolhidos. 
Para que o desenvolvimento normal de uma criança/jovem ocorra, é necessário que 
exista um cuidador e um ambiente que responda às suas necessidades. Sem desenvolver um 
vínculo saudável com um cuidador principal, as crianças que crescem em instituições podem 
sofrer graves deficiências. 
Sem uma correta preparação, os cuidados institucionais não podem fornecer o cuidado 
individual, amor e atenção que uma criança precisa para se desenvolver, com as consequentes 
mudanças estruturais e funcionais no cérebro de crianças que crescem nesse ambiente, o que 
terá impactos no seu desenvolvimento físico, cognitivo e emocional. 
Por conseguinte, é necessário que o Estado e as instituições de solidariedade social em 
geral tenham uma atenção especial para as crianças e jovens que necessitam de ser 
institucionalizados. 
 
3 
1 - CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E EVOLUTIVA DO SISTEMA DE PROTEÇÃO 
DA INFÂNCIA 
 
1.1. PERCURSO HISTÓRICO E EVOLUTIVO DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO 
ADOLESCENTE 
A condição de ser humano nem sempre foi fator determinante para garantia de 
direitos. A conquista de direitos em todas as esferas foi reconhecida mediante manifestações 
sociais ao longo da história. O mesmo ocorreu com os direitos das crianças e adolescente. 
Nesta medida, todos são oriundos de feitos e esforços de atores sociais que defendiam a 
causa1. 
Nestes termos, SARMENTO evidencia que até ao século XX não se separava a sociedade 
em faixas etárias e o que era imputado à infância prejudicava a saúde e o desenvolvimento 
adequado das crianças, pois o mesmo tratamento que era dado aos adultos, era dado às 
crianças, principalmente com relação ao trabalho, pois a eles era delegado também o trabalho 
árduo que representava risco para a vida das crianças2. Apenas a família era responsável por 
garantir o bem estar das mesmas, sendo que a sociedade e o Estado não tinham 
responsabilidade na proteção, o que as deixava a mercê de eventos perversos, desumanos e 
cruéis. Às famílias restava transmitir o que tinham, em bens materiais, princípios e valores. As 
crianças eram tidas como adultos e encarregáveis por suas ações3. 
DANIELA IKAWA, FLÁVIA PIOVESAN e GUILHERME ALMEIDA explicam que muito se 
desconhecia acerca do desenvolvimento humano, com isso a dimensão infantil era rejeitada 
e nessa medida as crianças eram apontadas como seres inferiores aos adultos, em diversos 
aspectos, mas principalmente no que concerne à dignidade humana4. Para os citados autores, 
até que a criança atingisse uma idade aceitável para socialização, ela ficava à parte de 
qualquer roda de diálogo, recebia um ensinamento rigoroso, sem direito a expressar-se ou 
decidir sobre qualquer coisa. 
 
1 Cfr. MACHADO, Martha de Toledo (2003) – A Proteção Constitucional de Crianças e Adolescentes e os Direitos Humanos. 1ª.ed. Barueri, SP: 
Manole, p.70-71 
2 Cfr. SARMENTO, Manuel J. (2000) – Lógicas de acção nas escolas. Lisboa: Instituto de Inovação Educacional. 
3 Cfr. MARTINS, Ernesto Candeias (2016) – Crianças “sem” a sua infância: história social da infância: acolher/assistir e reprimir/reeducar. 
Lisboa: Cáritas, p. 57. 
4 Cfr. IKAWA, Daniela;Solidária: crianças em risco: será possível converter o risco em oportunidade?". Fundação Calouste Gulbenkia n, Lisboa. 
http://hdl.handle.net/1822/3163 
60 
Importante ressaltar que todas as falhas constatadas pelos jovens merecem ensejar 
uma mudança nas instituições, de modo a melhorar a qualidade nos serviços, no atendimento, 
de modo que as mesmas sejam capazes de atender as demandas de forma satisfatória e dando 
a resposta social que se espera das mesmas, uma vez que o acolhimento de jovens em 
instituições não adequadas às suas características pessoais origina frequentemente situações 
de fuga, tornando inviável a eficácia da medida e potenciando o aumento do risco e de 
desproteção em que já se encontravam.142 
Desta feita, ALVES refere nas conclusões do seu estudo “é possível favorecer o 
desenvolvimento equilibrado do jovem que viva em instituição de acolhimento, desde que se 
encontrem reunidas condições de funcionamento adequadas143, de onde pode se concluir que 
é necessário um atendimento mais personalizado de forma a se obter uma prestação 
adequada, com o que concordamos. 
 
 
142 FIALHO, Anabela Raimundo & FELGUEIRAS, Belmira. A intervenção protetiva e a intervenção tutelar educativa – Caminhos que se cruzam. 
Coimbra Editora, p.98 
143 Alves, S. (2007). Filhos da Madrugada – Percursos de Adolescentes em Lares de Infância e Juventude. Lisboa: Universidade Técnica de 
Lisboa. Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, p. 85 
61 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
Fruto de uma evolução lenta, mas sustentada, a perceção da sociedade relativamente 
ao conceito de criança foi se modificando. 
Ao passo que anteriormente as crianças eram olhadas com desprezo, vistas apenas 
como “adultos imperfeitos”, na atualidade existe plena perceção de que as crianças são o 
futuro do planeta e que a estas serão dadas oportunidades e facilidades através da lei e outros 
meios para o seu desenvolvimento psíquico, mental, espiritual e social num ambiente 
saudável e normal e em condições de liberdade e dignidade, nos termos do que preceitua a 
Declaração dos Direitos da Criança. 
Atualmente as crianças beneficiam de um estatuto de singularidade nunca visto, 
beneficiando as mesmas de mecanismos legais que visam proteger a sociedade como um 
todo, mas em especial as próprias crianças, tendo em conta o seu especial interesse. 
Para tal, foram definidos conceitos de “risco” e de “perigo” enquanto elementos que 
podem causar danos às crianças, dado a sua desigual capacidade face aos adultos, para 
conseguirem lidar com tais problemas, necessitando de proteção da sociedade. 
A Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo é de suma importância, dado o seu 
foco especial na realidade das próprias crianças, condicionando qualquer medida ao seu 
especial interesse, afastando princípios absolutos, tendo em conta a realidade concreta de 
cada criança. A mesma pode ser considerada como inovadora, haja vista que estabeleceu 
princípios que orientam a intervenção estatal no poder parental, princípios estes aplicáveis 
aos processos tutelares cíveis. 
O objetivo (em última instância) será sempre o de evitar a eventual aplicação da Lei 
Tutelar Educativa – não obstante a perspetiva educativa e a inserção de forma digna e 
responsável na vida em comunidade e vista como uma forma de igualmente “proteger”144. 
Seria a prova de que as medidas de promoção e proteção tinham funcionado e que a concreta 
criança/jovem não se teria tornado um delinquente ou marginal. 
 
144 Cf. Procuradoria-Geral da República, Educar para o Direito: uma forma de (também) proteger - Guião de procedimentos de comunicação, 
disponível em 
https://www.ministeriopublico.pt/sites/default/files/documentos/pdf/educar_para_o_direito_guiao_de_procedimentos_de_comunicac
ao.pdf. 
62 
Ora, é certo que os recursos existentes nem sempre são suficientes, haja vista que, 
conforme relatado ao longo do presente estudo, é essencial estabelecer vias de comunicação 
eficazes entre todos os intervenientes do sistema, aqui se incluindo tribunais, Comissões de 
Proteção, serviços sociais e de reinserção social, escolas, centros de saúde, com vista a ser 
possível rentabilizar recursos e, acima de tudo, apostar na educação e prevenção ao invés de 
apenas na “execução” da medida tutelar educativa. 
Por conseguinte, somos da opinião de que o estabelecimento de protocolos e de ações 
que visem a compreensão da realidade das crianças e jovens deve ser amplamente pensado 
e discutido, devendo a família, quando exista, ser chamada a participar, não só na fase do 
diagnóstico, mas, sobretudo, na execução das medidas de promoção e proteção (bem como 
nas tutelares educativas), sendo esta um centro de referências positiva para o menor, e deste 
modo, possibilitar oportunidades para todas. 
 
Comentado [A9]: Citou atrás o Relatório de Boaventura 
Sousa Santos? Seria fundamental 
63 
BIBLIOGRAFIA 
 
ABREU, C.; CARVALHO, I. & RAMOS, V. (2010) – Proteção, Delinquência e Justiça de Menores 
– Um Manual Prático para Juristas… e não só.... Lisboa: Edições Sílabo. 
ARIÈS, Philippe (1978) – História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara 
Koogan S.A 
ARISTÓTELES (1999) – Política, Editorial Gredos, S.A., Madrid 
BERNAL, Elaine Marina Bueno (2004) – Arquivos do Abandono, São Paulo: Cortez. 
Carvalho, Maria João Leote de: A Lei Tutelar Educativa – A criança e o facto qualificado na lei 
como crime. A medida de internamento – sentido e potencialidades 
 Cfr. MOURA, José Adriano Souto de, “A tutela educativa: factores de legitimação e 
objectivos”, in Direito Tutelar de Menores. O sistema em mudança, Coimbra: 
Coimbra Editora, 2002, p. 111. 
COIE, J.D., WATT, N.F., WEST, S.G., HAWKINS, D., ASARNOW, J.R., MARKMAN, H.J., RAMEY, 
S.L., SHURE, M.B. e LONG, B. (1993) – The science of prevention: A conceptual 
framework and some directions for a national research program. American 
Psychologist 48(10) 
DIAS, Cristina, SANTOS, Margarida, CARMO, Rui do (coord.), Lei Tutelar Educativa Anotada, 
Coimbra, Almedina, 2018 
DORNELLES, João Ricardo W. (1992) – Estatuto da Criança e do adolescente: estudos sócio-
jurídicos. In: PEREIRA, Tânia da Silva (coord.). Rio de Janeiro: Renovar 
DUARTE-FONSECA, António Carlos, Internamento de Menores Delinquentes. A Lei Portuguesa 
e os seus modelos. Um século de tensão entre protecção e repressão, educação e 
punição, Coimbra: Coimbra Editora, pp. 374/375 
64 
FARRINGTON, D. (2002) – Developmental Criminology and Risk-Focused Prevention, in M. 
Maguire, R. Morgan and R. Reiner (eds), The Oxford Handbook of Criminology, 
Third Edition (657-701). Oxford: University of Oxford Press. 
FARRINGTON, D., et al. (2006) – Criminal Careers up to Age 50 and Life Success up to Age 48: 
New Findings from the Cambridge Study in Delinquent Development. London: 
Home Office Research, Development and Statistics Directorate. 
Formiga, N., Aguiar, M., & Omar, A. Busca de sensação e condutas antissociais e delitivas 
em jovens. Psicologia. Ciência e Profissão, 28 (4), págs. 668-681 
GAVARINI, L., & PETITOT, F. (1998). La fabrique de l’enfant maltraité. Un nouveau regard sur 
l’enfant et la famille. Paris: Érès. 
HAMMARBERG, T. (1990) – The UN Convention on the Rights of the Child - and How to Make 
it Work, Human Rights Quarterly, 12(1) 
HEINTZE, Hans-Joachim (1992) – Children’s rights within human rights protection, in M. 
Freeman and P. Veerman (Eds) The Ideologies of Children’s Rights, Dordrecht: 
Martinus Nihoff Publishers. 
HILL, M. e TISDALL, K. (1997) – Children and Society, London: Longman. 
HOEVE, M., et al. (2007) – Long-Term Effects of Parenting and Family Characteristics on 
Delinquency of Male Young Adults. European Journal of Criminology, 4 
HOTTON, T. (2003) – Childhood Aggression and Exposure to Violence in the Home. Crime and 
Justice Paper Research Series (Catalogue no. 85-561-MIE-002). Ottawa: Statistics 
Canada.IKAWA, Daniela; PIOVESAN, Flávia; ALMEIDA, Guilherme de. Fundamentos e história dos 
Direitos Humanos. Formação de Conselheiros em Direitos Humanos. Brasília: 
Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2007 
KANT, Immanuel (2007) – Fundamentação da Metafísica dos Costumes, trad. Paulo Quintela, 
Edições 70, Lisboa 
65 
LASMAR, Jorge Mascarenhas, CASARÕES, Guilherme Stolle Paixão e (2006) – Coleção para 
entender: A Organização das Nações Unidas. Belo Horizonte: Del Rey 
LIEBEL, M. (2013) – Hidden Aspects of Children’s Rights History in M. Liebel (Ed) Children’s 
Rights from Below, Cross-Cultural Perspectives, London: Palgrave-Macmillan. 
LIMA, Renata Mantovani de; POLO, Leonardo Macedo e JOSÉ, Fernanda São (2017) – A 
Evolução Histórica dos Direitos da Criança e do Adolescente: da insignificância 
jurídica e social ao reconhecimento de direitos e garantias fundamentais, in 
Revista Brasileira de Políticas Públicas, vol. 7, n.º 2, agosto de 2017. 
LIMA, Renata Mantovani de; POLO, Leonardo Macedo e JOSÉ, Fernanda São (2017) – A 
Evolução Histórica dos Direitos da Criança e do Adolescente: da insignificância 
jurídica e social ao reconhecimento de direitos e garantias fundamentais, in 
Revista Brasileira de Políticas Públicas, vol. 7, n.º 2, agosto de 2017. 
LOCKE, John (2007) – Segundo Tratado do Governo, Fundação Calouste Gulbenkian 
LORENZINI, Gisela (2010) – Portal Pró-Menino. Uma Breve História dos Direitos da Criança e 
do Adolescente no Brasil. 
MACHADO, José Pedro (2003) – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Vol. II, 3.ª Ed., 
Livros Horizonte, Lisboa, (Ed./reimp.: 2003) 
MACHADO, Martha de Toledo (2003) – A Proteção Constitucional de Crianças e Adolescentes 
e os Direitos Humanos. 1ª.ed. Barueri, SP: Manole 
MARTIN, J.M. (2005) – Re-forming the child: Human rights as global tutelage (Order No. 
NR08689). ProQuest Dissertations & Theses A&I. 
MARTINS, Ernesto Candeias (2006) – A infância desprotegida portuguesa na primeira metade 
do século XX. Revista Infância e Juventude. (N.º4) 
MARTINS, Ernesto Candeias (2016) – Crianças “sem” a sua infância: história social da infância: 
acolher/assistir e reprimir/reeducar. Lisboa: Cáritas 
66 
MCVIE, S. e HOLMES, L. (2005) – Family Functioning and Substance Use at Ages 12 to 17. The 
Edinburgh Study of Youth Transition and Crime (No. 9). Edinburgh: The University 
of Edinburgh, Centre for Law and Society. 
MENDEZ, Emílio Garcia. SARAIVA, João Batista Costa (2009) – Adolescente em Conflito com a 
Lei: da indiferença da proteção integral: Uma abordagem sobre a responsabilidade 
penal juvenil. 3. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, Prefácio à Segunda 
Edição 
MESSENDER, Hamurabi (2010) - Entendendo o Estatuto da Criança e do Adolescente: 
atualizado pela Lei n° 12.010/2009: com 200 questões incluindo provas anteriores 
e simulados. Rio de Janeiro: Elsevier 
MRAZEK, P.J. e HAGGERTY, R.J., eds. (1994) – Reducing Risks for Mental Disorders: Frontiers 
for Preventative Intervention Research. Washington, DC: National Academy Press 
MUCCHIELLI, L. (2000) – Familles et délinquances: un bilan pluridisciplinaire des recherches 
francophones et anglophones. (K. Mucchielli, Ed.). France: Allocations familiales, 
Caisses nationale d'allocations familiales (CNAF). 
PEGORARO, Olinto (2002) – Pessoa: da subsistência à existência. Cadernos de Bioética, n.º 28, 
Ano XII. 
PLATÃO (2010) – A República, Trad. Elísio Gala, Guimarães Editores, Livro X, 598 c, p. 394 e 
Livro X, 604 c Renaut: 2002. cf. La libération des enfants. Contribution 
philosophique à une 
histoire de l’enfance. Paris: Calmann-Lévy. 
RODRIGUES, Clara (2010) – A mão de Deus. A Proteção de Crianças em Perigo em Portugal e 
no Brasil: um estudo comparativo. Universidade Técnica de Lisboa – Instituto 
Superior de Ciências Sociais e Políticas (Mestrado em Política Social), Lisboa. 
ROSSATO, Luciano Alves (2010) – Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado. Luciano 
Alves Rossato, Paulo Eduardo Lépore, Rogério Sanches Cunha. São Paulo: Editora 
Revista dos Tribunais 
67 
SANTOS, Margarida: A intervenção tutelar educativa: especificidades, desafios e perspetivas 
futuras, p.368 
SARAIVA, J. B. C. (2009) – Adolescente em conflito com a lei: da indiferença à proteção 
integral: uma abordagem sobre a responsabilidade penal juvenil. Livro de 
Advogado, Rede virtual de Bibliotecas. Porto Alegre. 
SARMENTO, Manuel J. (2000) – Lógicas de acção nas escolas. Lisboa: Instituto de Inovação 
Educacional. 
THORNBERRY, T., et al. (1999) – Family Disruption and Delinquency. Juvenile Justice Bulletin. 
Washington, DC: US Department of Justice, Office of Justice Programs, Office of 
Juvenile Justice and Delinquency Prevention. 
TOMÉ, Maria Rosa (2010) – A Cidadania Infantil na Primeira República e a Tutoria da Infância. 
A Tutoria de Coimbra e do Refúgio Anexo. Revista de História da Sociedade e da 
Cultura. Vol. 10, 
VERHELLEN, E. (1992) – Changes in the Images of the Child, in M. Freeman and P. Veerman 
(Eds) The Ideologies of Children’s Rights, Dordrecht: Martinus Nihoff Publishers. 
VOLPI, Mário (1999) – O adolescente e o ato infracional. São Paulo: Cortez. 
WASSERMAN, G., et al. (2003) – Risk and Protective Factors of Child Delinquency. Child 
Delinquency, Bulletin Series. Washington DC: U.S. Department of Justice, Office of 
Justice Programs, Office of Juvenile Justice, and Delinquency Prevention. 
WRINGE, Colin (1981) – Children’s Rights: A Philosophical Study, London: Routledge. 
68PIOVESAN, Flávia; ALMEIDA, Guilherme de. Fundamentos e história dos Direitos Humanos. Formação de Consel heiros 
em Direitos Humanos. Brasília: Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2007. p. 8-10 
4 
Por seu turno, RODRIGUES explana que a evidência dada à infância, iniciou a partir do 
século XVIII, mas que fora direcionada as crianças das classes mais abastadas, repassando-lhes 
cuidados, afeto, proteção, atenção, saúde e educação5. 
Ao longo do tempo, o próprio Estado foi procurando estabelecer padrões que 
controlassem o cidadão e o impedissem de progredir economicamente, uma maneira de 
conter a ascensão da classe trabalhadora e estabelecer a ordem e harmonia social, 
favorecendo a burguesia e reproduzindo desigualdades. 
No Brasil, em 1916, o Código Civil Brasileiro apresenta teor para garantir proteção aos 
grandes proprietários de terras, homem branco, sendo que ao pobre não se estendiam as 
garantias. 
No contexto histórico do Código Civil Brasileiro de 1916 estabelecia-se um governo 
excludente. O modo adotado pelo Estado tinha uma visão higienista, queria-se acabar com 
todos os espaços onde estavam os pobres que descendiam da escravidão, amparava-se na 
ideia de quem era vadio e que cometia pequenos delitos para sobrevivência, existindo nesse 
período uma forte e severa repreensão a qualquer pobre que estivesse na mendicância ou na 
criminalidade6. 
Como visto, não existia proteção às crianças e adolescentes como um todo, não se 
reconhecia a incompletude de seu desenvolvimento. No decorrer do século XX apenas houve 
certa evolução do direito da criança e do adolescente. Neste período se reconheceu a 
condição de pessoas em desenvolvimento, dependente da família, da sociedade e do Estado, 
para alcançar integral desenvolvimento7. 
Para MENDEZ, no período pós escravidão não havia nenhuma preocupação com crianças 
e adolescentes que cometessem algum delito, existia um modo indiferenciado para lidar com 
situações envolvendo os delitos, fossem cometidos por adultos ou mesmo crianças. Segundo 
o referido autor, a partir dos sete anos todos eram considerados imputáveis e eram 
condenados a privação de liberdade sem exceção. 
Por seu turno, SARAIVA aponta alguns momentos históricos que marcaram a evolução 
dos direitos da criança e do adolescente e menciona o tratamento penal indiferenciado, ou 
 
5 Cfr. RODRIGUES, William Costa (2007) - Metodologia Científica, Disp. in 
http://unisc.br/portal/upload/com_arquivo/metodologia_cientifica.pdf (Consultado a 01/10/2022) 
6 Cfr. RODRIGUES, William Costa (2007) - Metodologia Científica, Disp. in 
http://unisc.br/portal/upload/com_arquivo/metodologia_cientifica.pdf (Consultado a 01/10/2022) 
7 Cfr. MENDEZ, Emílio Garcia. SARAIVA, João Batista Costa (2009) – Adolescente em Conflito com a Lei: da indiferença da proteção integral: 
Uma abordagem sobre a responsabilidade penal juvenil. 3. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, Prefácio à Segunda Edição, p.15 
5 
seja, as punições eram aplicadas de maneira quase igual, além de crianças até sete anos de 
idade serem consideradas absolutamente incapazes e serem comparadas a animais8. 
Nesta perspetiva, a infância era invisibilizada, representava um perigo e era 
necessário conter essa ameaça por meio de legislações repressoras que pudessem conter a 
criminalidade e a desordem. Nesta visão caso houvesse a compreensão de que o menor 
pudesse ter a capacidade de discernir, seria responsabilizado e encaminhado às casas de 
correção, junto de outros criminosos, adultos ou não. 
De acordo com LORENZINI, outro momento marcado na evolução dos direitos da 
criança e do adolescente diz respeito às leis especializadas que separariam os adultos dos 
menores de idade em instituições que os abrigavam em regime penal. Denomina-se esse 
período de etapa tutelar, onde a finalidade era atribuir responsabilidade do Estado pelo 
menor, cujo juiz determinava a aplicação de medida que atendesse o melhor interesse do 
menor9. 
Encadeando os avanços na evolução dos direitos humanos de crianças e adolescentes 
pode-se apontar o Primeiro Congresso Internacional dos Direitos da Criança e do Adolescente 
em 1911. Nesta proposta, o Estado poderia intervir junto a situações que envolvesse 
delinquência ou necessidade, ou seja, seria a intervenção diante de uma situação irregular, e 
neste caso o Estado só poderia intervir caso houvesse provas de que o menor estaria em risco 
ou em situação de contravenção10. 
A Sociedade das Nações criou, em 1919, o Comitê para a Proteção das Crianças, a 
Fundação para Salvar as Crianças, em 1923 e a União Internacional de Auxílio à Criança, que 
foram os responsáveis por formular a Declaração dos Direitos da Criança e que ficou 
conhecido como Declaração de Genebra. A Declaração dava cabo de enunciar que todas as 
pessoas deveriam proporcionar às crianças meios para o seu desenvolvimento e proteção 
contra situações de risco. A Declaração de Genebra de Direitos da Criança e do Adolescente 
se apresenta como o primeiro a reconhecer a situação irregular dado aos menores e serviu 
para desqualificar os filhos da condição de coisas. 
 
8 Cfr. SARAIVA, J. B. C. (2009) – Adolescente em conflito com a lei: da indiferença à proteção integral: uma abordagem sobre a 
responsabilidade penal juvenil. Livro de Advogado, Rede virtual de Bibliotecas. Porto Alegre. 
9 Cfr. LORENZINI, Gisela (2010) – Portal Pró-Menino. Uma Breve História dos Direitos da Criança e do Adolescente no Brasil. 2009, Consultado 
a 28/09/2022). 
10 Cfr. SARAIVA, J. B. C. (2009) – Adolescente em conflito com a lei: da indiferença à proteção integral: uma abordagem sobre a 
responsabilidade penal juvenil. Livro de Advogado, Rede virtual de Bibliotecas. Porto Alegre. 
6 
Isto posto, SARAIVA evidencia que com a ideia de tutelar o menor em situação 
irregular, cabia direito ao Estado de recolher dos pais, os filhos que tivessem situação de 
negligência ou de delinquência, nestes casos, os filhos de pessoas pobres passaram a ser 
apontados como alvo de recolhimento pelo Estado para tutela, visto que não tinham os pais 
condições materiais e morais de educá-los e tendiam a ser desviantes por conta de sua 
condição de pobreza11. 
Para a burguesia da época, os trabalhadores, pobres, tinham tendência natural ao 
desvio de conduta e por isso não conseguiam viver em sociedade e por este motivo era 
tolerado a repreensão do Estado para contê-los, todavia, os que dependiam da ação do 
governo eram na verdade vítimas da desproteção gerada pelo próprio Estado12. 
Em função da tutela que era imposta pelo Estado em situações irregulares aos 
menores, muitos foram retirados de convívio familiar por motivos bastante simples, ou 
mesmo sem que tivessem cometido qualquer infração. 
Marcando a história evolutiva dos direitos da criança e do adolescente, o ano de 1927 
tem significado bastante valorativo no Brasil, uma vez que foi criado o Juizado de Menores e 
promulgado o Código de Menores por meio do Decreto nº 17.943-A de 12 de Outubro. Neste 
documento, conhecido como Código Mello Matos, se estabeleceu proteção aos indivíduos 
com menos de 18 anos, marcando assim a maioridade penal em 18 anos13. 
O entendimento do Código de Menores de 1927 à época visava proteger os menores 
que estivessem situação irregular e com isso os internava em conjunto, tanto os que estavam 
em situação de negligência ou maus-tratos, quanto os que cometiam algum ato ilícito. MÁRIO 
VOLPI expõe que se criou certo estigma entre a compreensão da infância e que havia um modo 
separatista de classificá-los, aqueles cujas famílias os podia direcionar ao convívio em 
sociedade e os que eram desprovidos de condições materiais, órfãos, infratores e outros 
muitos desprotegidos14. 
Por seu turno, MARTINELLI chama a atenção para uma fase na história política do país 
na qual o Estado estava interessado em gerar satisfação popular por meio de conquista das 
 
11 Cfr. SARAIVA, J. B. C.(2009) – Adolescente em conflito com a lei: da indiferença à proteção integral: uma abordagem sobre a 
responsabilidade penal juvenil. Livro de Advogado, Rede virtual de Bibliotecas. Porto Alegre. 
12 Cfr. MESSENDER, Hamurabi (2010) - Entendendo o Estatuto da Criança e do Adolescente: atualizado pela Lei n° 12.010/2009: com 200 
questões incluindo provas anteriores e simulados. Rio de Janeiro: Elsevier, p. 5. 
13 Cfr. MESSENDER, Hamurabi (2010) - Entendendo o Estatuto da Criança e do Adolescente: atualizado pela Lei n° 12.010/2009: com 200 
questões incluindo provas anteriores e simulados. Rio de Janeiro: Elsevier, p. 5. 
14 Cfr. VOLPI, Mário (1999) – O adolescente e o ato infracional. São Paulo: Cortez. 
7 
massas, seria o chamado populismo, fase em que se aplicava recurso no assistencialismo com 
a intenção de obter mais seguidores, nesta fase muito se popularizou a tutela de menores ao 
Estado como oportunidade de garantir escolarização, benefícios sociais, atendimento médico 
e até empréstimos. Todavia o governo autoritário não tinha interesse em garantir proteção e 
sim de causar bem estar social a quem se submetesse ao regime de governo. 
Nos moldes estabelecidos por governos populistas e autoritários na Era Vargas criou-
se o Serviço de Assistência ao Menor (SAM) que utilizava o fator pobreza para rotular crianças 
e adolescentes passíveis de internação e tutela do Estado, o que gerou grande discriminação 
aos mais pobres e incentivou ainda mais a violência, pois não havia cuidado e nem aparato 
suficiente para a atenção com os tutelados15. 
A Organização das Nações Unidas criou, em 1946, o Fundo Internacional de 
Emergência das Nações Unidas para a Infância com o intuito de assegurar direitos às crianças 
vítimas da guerra, o que mais tarde se tornaria o Fundo das Nações para a Infância (UNICEF). 
Em 1948 a Declaração Universal dos Direitos Humanos na Assembleia Geral das Nações Unidas 
preconiza, em seu art. 25, cuidados e assistência especiais e proteção social para mães e 
crianças16. 
Uma nova etapa na Declaração Universal dos Direitos da Criança, em 20 de novembro 
de 1959 modificou a doutrina da situação irregular e tinha o interesse de garantir Proteção 
Integral à Criança e ao Adolescente. Todavia, conforme nos refere LUCIANO ROSSATO, foi 
necessário recorrer à força jurídica obrigatória para assegurar seu cumprimento e os Estados 
não foram obrigados a concretizá-lo17. 
Vê-se ao longo da evolução da proteção dos direitos da criança e do adolescente que 
embora as leis fossem ainda rudimentares, já apresentaram mudanças no trato dado à 
infância e que por mais que a orientação internacional fosse a de proteção de toda criança, as 
leis trataram de condenar crianças pobres por sua própria realidade. 
Sabe-se, porém, que a dimensão de Proteção Integral foi inicialmente prevista pela 
Convenção Internacional dos Direitos das Crianças e Adolescentes em 1989. 
 
15 Cfr. BERNAL, Elaine Marina Bueno (2004) – Arquivos do Abandono. São Paulo: Cortez. 
16 Cfr. LASMAR, Jorge Mascarenhas, CASARÕES, Guilherme Stolle Paixão e (2006) – Coleção para entender: A Organização das Nações Unidas. 
Belo Horizonte: Del Rey, p. 142 
17 Cfr. ROSSATO, Luciano Alves (2010) – Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado. Luciano Alves Rossato, Paulo Eduardo Lépore, 
Rogério Sanches Cunha. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010, p. 62 
8 
Conforme nos refere SARAIVA, nesta nova proposta todas as crianças são sujeitos que 
carecem de proteção, não apenas por ideais jurídicos, mas por efetividade política, ações e 
estratégias estatais para implemento dos direitos idealizados18. 
O referido autor afirma ainda que na Convenção Internacional dos Direitos das 
Crianças e Adolescentes de 1989 outorgou-se o direito de liberdade de expressão e de 
manifestar seus pensamentos, além de trazer responsabilidade penal aos adolescentes que 
cometesse algum ato infracional19. 
Por outro lado, de acordo com BERNAL, as regras de Pequim, por meio da Resolução 
nº 43/33 da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas – ONU em 29 de novembro 
de 1985, nortearam para todo o mundo estratégias de prevenção à delinquência juvenil e em 
1990 criou-se as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Proteção de Jovens Privados de 
Liberdade, nestes documentos internacionais estão pautados a essência do Estatuto da 
Criança e do Adolescente20. 
Até à promulgação da Constituição Federativa do Brasil em 1988, o Código Mello 
Matos manteve a atenção voltada para a doutrina da situação irregular, ou seja, conforme nos 
refere MACIEL, as ações de Estado ocorriam de modo assistencial e privavam de direitos 
fundamentais, como o de liberdade e tinha a intenção de instruir seus tutelados a serem 
trabalhadores e a contribuírem com o desenvolvimento do país por meio de sua mão-de-obra. 
De acordo com o referido autor, quando instaurado o Regime Militar em 1964, uma 
nova tentativa de aprisionar crianças pobres e sem acesso à educação foi iniciado, apenas um 
novo nome para um programa fracassado, mas que reunia as mesmas propostas do SAM, a 
Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM), criada em 1º de Dezembro de 1964 
por meio da Lei nº4.513 e que se distribuiu pelo país como as FEBEMs (Fundação Estadual do 
Bem-Estar do Menor). 
Conforme nos refere TRASSI, utilizando um método padrão de privação de liberdade, 
com regime repressor e para garantir controle das massas mais pobres e oprimidas, as FEBEMs 
tutelavam os menores por tempo indeterminado, por condição de pobreza ou para controle 
 
18 Cfr. SARAIVA, J. B. C. (2009) – Adolescente em conflito com a lei: da indiferença à proteção integral: uma abordagem sobre a 
responsabilidade penal juvenil. Livro de Advogado, Rede virtual de Bibliotecas. Porto Alegre. 
19 Cfr. SARAIVA, J. B. C. (2009) – Adolescente em conflito com a lei: da indiferença à proteção integral: uma abordagem sobre a 
responsabilidade penal juvenil. Livro de Advogado, Rede virtual de Bibliotecas. Porto Alegre. 
20 Cfr. BERNAL, Elaine Marina Bueno (2004) – Arquivos do Abandono, São Paulo: Cortez. 
9 
dos infratores, além de servir para representar uma ação da Política de Segurança Nacional, 
pois a ideia preponderante era de controle do cidadão. 
Segundo SARAIVA, durante toda a vigência da aplicabilidade do Código de Menores 
mais da metade dos tutelados pelo governo brasileiro não havia cometido nenhuma 
contravenção, ou seja, dos menores era cobrada uma dívida histórica que pertencia ao Estado 
por não garantir proteção social e imputar condição de pobreza extrema, capaz de gerar 
agravos e violação de direitos humanos21. 
 
1.2. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA LEGISLAÇÃO PORTUGUESA E BRASILEIRA – BREVES 
REFERÊNCIAS 
Conforme nos referem RENATA MANTOVANI DE LIMA, LEONARDO MACEDO POLI e 
FERNANDA SÃO JOSÉ, “entre os séculos XVI ao século XIX, as crianças e adolescentes eram 
tratados, na maioria das vezes, como seres sem relevância. Esta indiferença advinha do alto 
índice de mortalidade precoce que assombrava aquela época. Assim, o adulto buscando se 
resguardar do sofrimento advindo da perda precípite de um indivíduo ainda jovem, evitava o 
apego afetivo às crianças e adolescentes. Ninguém pensava em conservar o retrato de uma 
criança que tivesse sobrevivido e se tornado adulta ou que tivesse morrido pequena”22. 
Nas palavras de ARIÈS, “A duração da infância era reduzida a seu período mais frágil, 
enquanto o filhote do homem ainda não conseguia bastar-se; a criança então, mal adquiria 
algum desembaraço físico, era logo misturada aos adultos, e partilhava de seus trabalhos e 
jogos. De criancinha pequena ela se transformava imediatamente em homem jovem, sem 
passar pelas etapas da juventude”23. 
Com vista a obtermos um entendimento completo da evolução da legislação 
portuguesa e brasileira em matéria de proteção de crianças e jovens em perigo e a intervenção 
tutelar educativa, cumpre recuar ao ano de 1911, coma aprovação do Decreto de 1 de janeiro 
de 1911, o qual criou as Comissões de Proteção. 
 
21 Cfr. SARAIVA, J. B. C. (2009) – Adolescente em conflito com a lei: da indiferença à proteção integral: uma abordagem sobre a 
responsabilidade penal juvenil. Livro de Advogado, Rede virtual de Bibliotecas. Porto Alegre. 
22 Cfr. LIMA, Renata Mantovani de; POLO, Leonardo Macedo e JOSÉ, Fernanda São (2017) – A Evolução Histórica dos Direitos da Criança e do 
Adolescente: da insignificância jurídica e social ao reconhecimento de direitos e garantias fundamentais, in Revista Bras ileira de Políticas 
Públicas, vol. 7, n.º 2, agosto de 2017. 
23 Cfr. ARIÈS, Philippe (1978) – História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan S.A, 1978 
10 
Posteriormente, mas ainda no mesmo ano, tivemos a aprovação da Lei de Proteção à 
Infância (LPI), datada de 27 de maio de 1911, a qual deu início à organização de um sistema 
judicial de proteção às crianças e jovens24. 
A referida Lei das Tutorias da Infância veio instituir uma previsão legal, a qual distinguiu 
a criança do adulto. Com esta lei foi instituída a primeira Tutoria de Infância, a qual esteve na 
base da especialização judicial, tendo mais tarde dado origem dos Tribunais de Família e 
Menores, dado que anteriormente os menores eram punidos nos mesmos termos que os 
adultos. 
Podemos afirmar que a referida Lei de Proteção da Infância de 1911 veio instaurar em 
Portugal o modelo de proteção que se opôs ao estrito modelo de Justiça, estabelecendo-se 
assim a desresponsabilização do menor perante a prática de ilícitos criminais, considerando-
se tal prática como sendo decorrente da exclusão social, carência afetiva e da necessidade de 
proteção do menor. 
De acordo com MARIA ROSA TOMÉ, estamos perante um normativo legal que visava a 
educação, a purificação e o aproveitamento das crianças que, por esta época, eram 
frequentemente fonte de receita econômica, sendo mesmo alugadas para se exibirem, 
pedindo esmola25. 
Acreditava-se, que apenas com crianças educadas num regime disciplinado, com uma 
higiene moral escrupulosa, se poderia construir uma sociedade que à salubridade dos 
costumes reunisse as ansiedades fecundas do saber e do trabalho, protegendo ainda o bem-
estar das crianças. 
No ano de 1912 é a aprovada a designada Lei da Vadiagem, a qual se debruçava sobre 
a profilaxia da criminalidade infantil e juvenil, estabelecendo várias providências para a 
repressão da mendicidade e da vadiagem26. 
Paralelamente, com a aprovação do decreto n.º 10767, datado de 15 de maio de 1925, 
foi levada a cabo uma tentativa de simplificar toda a legislação avulsa anterior, classificando-
se os estabelecimentos de menores em “Refúgios” (semi-internatos para observação, exame 
 
24 Cfr. Lei de Protecção da Infância (1911), in Diário do Governo, de 27 de Maio de 1911, pp. 1316-1331. 
25 Cfr. TOMÉ, Maria Rosa (2010) – A Cidadania Infantil na Primeira República e a Tutoria da Infância. A Tutoria de Coimbra e do Refúgio 
Anexo, Revista de História da Sociedade e da Cultura. Vol. 10, pp. 481 a 500. 
26 Cfr. https://files.dre.pt/1s/1912/07/17700/27142715.pdf (consultado a 27/09/2022). 
https://files.dre.pt/1s/1912/07/17700/27142715.pdf
11 
e diagnóstico antropológico, médico e pedagógico dos menores detidos nas Tutorias 
Centrais), em reformatórios e em colônias correcionais. 
No que respeita ao caso brasileiro, ao entrar em vigor o Decreto n° 17.943-A de 12 de 
outubro de 1927, conhecido como Código de Menores, o legislador brasileiro passou a refletir 
sobre a situação da criança e do adolescente no país, não obstante ainda não proteger 
integralmente a criança e o adolescente, resguardando tão somente aqueles que se 
encontravam em situação irregular. 
De acordo com JOÃO RICARDO DORNELLES, “Os menores em situação irregular seriam 
aqueles que se encontrassem em condições de privação no que se refere à subsistência, 
saúde, instrução, etc.; vítimas de maus-tratos impostos pelos pais ou responsável; se 
encontrassem em ambientes que ferem os bons costumes; que apresentassem condutas 
desviantes, incluindo-se os autores de infrações penais. A utilização da expressão “menor em 
situação irregular”, pressupunha uma anormalidade que passava a identificar a criança e o 
adolescente com categorias de indivíduos estranhos, problemáticos ou perigosos”27. 
No que respeita aos seus pontos mais relevantes, podemos referir, desde logo, o seu 
art. 1º, o qual estabelece que o menor, de um ou outro sexo, abandonado ou delinquente, 
que tiver menos de 18 anos de idade, será submetido pela autoridade competente às medidas 
de assistência e proteção contidas no referido Código. 
Por seu turno, o Art. 2.º dispunha que “Toda criança de menos de dois anos de idade 
entregue a criar, ou em ablactação ou guarda, fora da casa dos pais ou responsáveis, mediante 
salário, torna-se por esse fato objeto da vigilância da autoridade publica, com o fim de lhe 
proteger a vida e a saúde”. 
Noutro âmbito, o Art.º 21.º estabelecia que “Quem encontrar infante exposto, deve 
apresentá-lo, ou dar aviso do seu achado, á autoridade policial no Distrito Federal ou, nos 
Estados, a autoridade pública mais próxima do local onde estiver o infante”28. 
E, paralelamente, cumpre ainda fazer referência ao Art.º 22.º. o qual estabelecia que 
a autoridade, a quem fosse apresentado um infante exposto, deveria mandar inscrevê-lo no 
registo civil de nascimento dentro do prazo e segundo as formalidades regulamentares, 
 
27 Cfr. DORNELLES, João Ricardo W. (1992) – Estatuto da Criança e do adolescente: estudos sócio-jurídicos. In: PEREIRA, Tânia da Silva (coord.). 
Rio de Janeiro: Renovar, 1992, p. 117-131. 
 
12 
declarando-se no registro o dia, mês e ano, o lugar em que foi exposto, e a idade aparente, 
sob as penas do art. 388 do Código Penal, e os mais de direito. 
Avançando no tempo, ERNESTO CANDEIAS MARTINS salienta que na década de 40 foi 
criada a Organização Nacional de Defesa da Família, por via da qual foram remodelados e 
centralizados os serviços de assistência, tendo sido concedido o abono de família às famílias 
mais necessitadas, benefícios materno-infantis e à infância em geral, sendo ainda criado o 
Instituto Maternal para a Infância e constituído o Instituto de Assistência aos Menores, fora 
da área de Lisboa, já que na capital tal função cabia à Casa Pia de Lisboa29. 
Mais tarde, com a publicação do estatuto judiciário de 1944 foi alterada a designação 
de Tutoria da Infância para Tribunal de Menores30. 
Por seu turno, no âmbito internacional, com a Declaração Universal dos Direitos 
Humanos de 10 de dezembro de 1948, verificou-se que a dignidade passou a ser reconhecida 
no seu preâmbulo como elemento intrínseco a todos os membros da família humana, 
assegurando para todos os integrantes da mesma, direitos iguais e inalienáveis, além de 
defender a liberdade, a justiça e a paz no mundo31. 
A DUDH veio estabelecer um aspeto bastante importante, dado que, no seu art.º 
25.º, n.º 2 dispôs que “A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. 
Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozam da mesma proteção social”, 
criando assim uma percepção de igualdade para todas as crianças, independentemente de 
terem ou não nascido na constância do matrimônio32. 
Mais tarde, temos a Declaração Universal dos Direitos da Criança de 20 de novembro 
de 1959, da qual tanto o Brasil como Portugal são signatários, prevê que, caso exista 
imaturidade física e mental, por serem indivíduos em desenvolvimento, a criança e o 
adolescente necessitam de proteção e de cuidado especial, devendo, ainda, serem amparados 
por uma legislação apropriada33. 
A Declaração proclamou que, com vista a uma infância feliz e ao gozo, para bem da 
criança e da sociedade, dos direitos e liberdades estabelecidos e com vista a chamar a atenção 
 
29 Cfr. MARTINS, Ernesto Candeias(2006) – A infância desprotegida portuguesa na primeira metade do século XX. Revista Infância e 
Juventude. (N.º4), pp. 93 a 130. 
30 Cfr. TOMÉ, Maria Rosa (2010) – A Cidadania Infantil na Primeira República e a Tutoria da Infância. A Tutoria de Coimbra e do Refúgio Anexo. 
Revista de História da Sociedade e da Cultura. Vol. 10, pp. 481 a 500. 
 
 
 
13 
dos pais, enquanto homens e mulheres, das organizações voluntárias, autoridades locais e 
Governos nacionais, para o reconhecimento dos direitos e para a necessidade de se 
empenharem na respectiva aplicação através de medidas legislativas ou outras 
progressivamente tomadas, teriam sempre em vista os direitos das crianças. 
A OTM veio atribuir a função de representante das crianças e jovens ao Ministério 
Público, atribuindo-lhe a incumbência de velar pelos seus interesses. Paralelamente, foram 
também introduzidas duas formas processuais, sendo uma relativa a matérias de natureza 
penal-tutelar e outra para providências de natureza tutelar cível34. 
No que concerne à competência dos Tribunais, o art.º 17.º, n.º 2 da OTM veio 
estabelecer que os tribunais tutelares de menores têm competência para decretar medidas 
relativamente aos menores que, antes de perfazerem os 16 anos: 
a) Sejam sujeitos a maus-tratos ou se encontrem em situação de abandono, 
desamparo ou semelhante, capazes num e noutro caso de pôr em perigo a 
sua saúde, segurança ou formação moral; 
b) Pela sua situação, comportamento ou tendências reveladas mostrem 
dificuldade séria de adaptação a uma vida social normal; 
c) Se entreguem à mendicidade, vadiagem, prostituição ou libertinagem; 
d) Sejam agentes de qualquer fato qualificado pela lei penal como crime ou 
contravenção. 
Paralelamente, o art.º 18.º da OTM estabeleceu que os tribunais tutelares de menores 
têm igualmente competência para decretar medidas relativamente aos menores que, tendo 
embora mais de 16 anos, se mostrem gravemente inadaptados à disciplina da família, do 
trabalho ou do estabelecimento de educação ou assistência em que se encontrem internados. 
No que respeita às medidas aplicáveis, o art.º 21.º da OTM dispunha que aos menores 
que se encontrem sujeitos à jurisdição dos tribunais tutelares podem ser aplicadas, isolada ou 
cumulativamente, as seguintes medidas: 
a) Admoestação; 
b) Entrega aos pais, tutor ou pessoa encarregada da sua guarda; 
c) Liberdade assistida; 
 
34 Cfr. ABREU, C.; CARVALHO, I. & RAMOS, V. (2010) – Proteção, Delinquência e Justiça de Menores – Um Manual Prático para Juristas… e não 
só.... Lisboa: Edições Sílabo. 
14 
d) Caução de boa conduta; 
e) Desconto nos rendimentos, salário ou ordenado; 
f) Colocação em família adotiva; 
g) Colocação em regime de aprendizagem ou de trabalho em empresa 
particular ou em instituição oficial ou privada; 
h) Internamento em estabelecimentos oficiais ou particulares de educação ou 
de assistência; 
i) Recolha em centro de observação, por período não superior a quatro meses; 
j) Colocação em lar de semi-internato; 
k) Internamento em instituto médico-psicológico; 
l) Internamento em instituto de reeducação. 
 
Sem prejuízo do exposto, o art.º 24.º da OTM é claro ao estabelecer que a colocação 
em lar de semi-internato e o internamento em instituto médico-psicológico ou de reeducação 
apenas podem ser decretados relativamente a menores que revelem tendências criminosas 
ou acentuada propensão para a mendicidade, vadiagem, prostituição, libertinagem ou 
indisciplina e para os quais o próprio internamento em estabelecimento de assistência se 
mostre insuficiente (n.º 1), sendo tais medidas inaplicáveis aos menores com idade inferior a 
9 anos (n.º 2). 
No que respeita às providências, o art.º 35.º da OTM estabelecia que, em matéria cível, 
compete ao tribunal tutelar de menores: 
a) Decretar a inibição, total ou parcial, do poder paternal ou das funções 
tutelares; 
b) Regular o exercício do poder paternal; 
c) Instituir, junto dos pais, tutor ou pessoa encarregada da guarda do menor, o 
regime de assistência educativa; 
d) Fixar os alimentos devidos a menores; 
e) Ordenar a entrega judicial do menor; 
f) Emancipar os menores com mais de 15 anos de idade; 
g) Suprir a autorização para emancipação e emigração de menores; 
h) Autorizar o casamento a que os pais ou tutor se hajam oposto; 
15 
i) Suprir a autorização legalmente exigida em questões relacionadas com a 
regência da pessoa do menor35. 
 
Mais tarde, em 1977, a OTM veio a ser reformulada na sequência da revisão da 
organização judiciária operada pela Lei n.º 82/77, de 6 de dezembro. 
Conforme nos referem ABREU, CARVALHO e RAMOS, uma das grandes alterações 
operadas consistiu na distinção entre os Tribunais de Família e de Menores, atribuindo-se a 
competência aos primeiros em matéria de providências de natureza civil36. 
O papel da OTM foi de extrema importância, dado que, conforme salienta CLARA 
RODRIGUES, a mesma assentava numa ideologia de proteção e tratamento aplicando-se, de 
forma indiferenciada, tanto a situações de crianças em risco, como a situações de jovens 
delinquentes, enquanto indicadores sintomáticos do perigo, produto das circunstâncias 
socioeconômicas que os envolve, sendo as suas condutas avaliadas enquanto demonstrações 
de fraca socialização37. 
Dois anos depois, em 1979, por via do Decreto-Lei n.º 288/79, de 13 de agosto, foi 
criado o Instituto do Acolhimento Familiar. 
Paralelamente, o referido decreto-lei procedeu à definição do conceito de colocação 
familiar, estabelecendo os seus objetivos, tendo sempre presente que a família é o meio 
privilegiado para o desenvolvimento da criança e para a sua formação e que todas as formas 
substitutivas da família lhe são inferiores. 
Sem prejuízo do exposto, o referido diploma legal considera evidente que as 
transformações levadas a cabo na sociedade e a profundidade de certas crises no 
funcionamento das famílias obrigam, por um lado, à formulação de uma política global de 
proteção da família e, paralelamente, ao empenhamento na resolução de casos pontuais de 
solução inadiável38. 
De acordo com o citado diploma legal, considera-se que a colocação familiar é a 
medida de política social que assente em fazer acolher temporariamente por famílias 
 
 
36 Cfr. ABREU, C.; Carvalho, I. & Ramos, V. (2010) – Proteção, Delinquência e Justiça de Menores – Um Manual Prático para Juristas… e não 
só.... Lisboa: Edições Sílabo. 
37 Cfr. RODRIGUES, Clara (2010) – A mão de Deus. A Proteção de Crianças em Perigo em Portugal e no Brasil: um estudo comparativo. 
Universidade Técnica de Lisboa – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (Mestrado em Política Social), Lisboa. 
 
16 
consideradas idôneas, menores cuja família natural não esteja em condições de desempenhar 
cabalmente a sua função educativa39. 
Sete anos após a aprovação do referido decreto-lei, tivemos a regulamentação dos 
Lares de Acolhimento através do Decreto-Lei n.º 2/86, de 2 de janeiro40. 
Considerando que as crianças e jovens, quando retirados do meio familiar, quer 
transitoriamente, quer por forma continuada, devem ser objeto da atenção privilegiada do 
Estado e ainda que a Constituição da República, nos seus artigos 69.º e 70.º, expressamente 
refere a responsabilidade da sociedade e do Estado pela proteção às crianças e jovens, 
acentuando, em particular, os órfãos e os abandonados, tendo em conta a sua não inserção 
numa estrutura familiar. 
Paralelamente ao exposto, ABREU, CARVALHO e RAMOS salientam que o sistema 
português é um sistema que não se encontra desligado do contexto internacional. 
 Efetivamente, o mesmo encontra-se inserido num contexto internacional onde, ao 
longo do tempo, foram sendo aprovados diversos diplomas legislativos, nos quais se verteram 
os direitos da criança, tanto no âmbito material, quanto no âmbito processual. Como bem 
ressalta Anabela Miranda Rodrigues, significa “assegurar ao menor o estatutode sujeito do 
processo, em que ele passa a desempenhar o papel principal.41 
Assim, com vista a acompanhar a evolução legislativa internacional, coube ao estado 
português promover as suas garantias perante uma intervenção estatal de cariz penal ou 
tutelar-penal, nos mesmos termos dos arguidos em processos penais, tendo em linha de conta 
o conceito de presunção de inocência, o direito do arguido a ser ouvido, direito a intervir no 
processo, direito ao silêncio, direito ao recurso, direito a ser assistido por um advogado, entre 
outros42. 
A título de exemplo, podemos referir a Recomendação n.º (R) 87 20, de 1987 do 
Conselho da Europa, a qual recomendou aos Governos dos Estados-Membros que incentivem 
experiências de mediação, a nível nacional ou local, entre o ofensor e a vítima e avaliem os 
 
 
 
41 Cfr. RODRIGUES, Anabela Miranda, “Repensar o direito de menores em Portugal – utopia ou realidade?”, (n.º 2), p. 383. 
42 Cfr. ABREU, C.; CARVALHO, I. & RAMOS, V. (2010) – Proteção, Delinquência e Justiça de Menores – Um Manual Prático para Juristas… e não 
só.... Lisboa: Edições Sílabo. 
17 
seus resultados, com especial referência à medida em que são defendidos os interesses da 
vítima43. 
No que respeita ao caso brasileiro, com a aprovação da Constituição de 198844 e do 
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n.º 8.069/9045), o Brasil passou a aplicar o princípio 
da proteção integral, afastando-se por completo da utilização do termo “menor” e 
objetivando proteger a criança e o adolescente, independentemente da concreta situação em 
que se encontram. 
Paralelamente, tivemos também a aprovação da Lei Orgânica da Assistência Social em 
199346. 
Ora, conforme nos referem RENATA MANTOVANI DE LIMA, LEONARDO MACEDO POLI 
e FERNANDA SÃO JOSÉ, a ECA e a LOAS “consagraram nova abordagem para políticas de 
proteção integral para infância e juventude. Neste novo marco legal, a criança e o adolescente 
deixam de ser vistos como portadores de necessidades – e frequentemente um problema a 
ser enfrentado – e passam a ser considerados sujeitos de direitos, cabendo às gerações 
adultas o dever de construir um sistema de garantia de direitos. E, para alcançar estes 
objetivos, as políticas públicas devem ser organizadas segundo os princípios da 
descentralização, da articulação de ações governamentais e não-governamentais, e da 
participação da população, por meio de diversos conselhos”47. 
O principal marco legal dos direitos humanos que trata acerca dos direitos da criança 
e do adolescente no Brasil é a lei nº 8.069, Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, de 13 
de Julho de 1990, lei que veio em resposta às grandes manifestações sociais dos diversos 
atores sociais que compunham o cenário de debates democráticos e que se engajavam na 
conscientização de que crianças e adolescentes são sujeitos de direito. 
De acordo com SARAIVA, o ECA representou uma significativa mudança de paradigma 
no tocante as leis que asseguravam direitos da criança e adolescente, principalmente por ser 
a primeira legislação da América Latina a incorporar a Declaração Universal dos Direitos da 
Criança e do Adolescente de 1979 e a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança 
 
 
 
 
 
47 Cfr. LIMA, Renata Mantovani de; POLO, Leonardo Macedo e JOSÉ, Fernanda São (2017) – A Evolução Histórica dos Direitos da Criança e do 
Adolescente: da insignificância jurídica e social ao reconhecimento de direitos e garantias fundamentais, in Revista Brasilei ra de Políticas 
Públicas, vol. 7, n.º 2, agosto de 2017. 
18 
como parâmetro orientativo com a doutrina de Proteção Integral, o que preconiza a lei48. 
Continuando, o autor salienta que o ECA surgiu como uma maneira de desconstruir a ideia de 
menor como sendo objeto do processo, mas como sujeito de direito, protagonista do processo 
e mesmo, cidadão. 
No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente considera criança a pessoa até 12 
anos incompletos e adolescentes a pessoa entre 12 e 18 anos incompletos. O ECA, lei que 
consta de 267 artigos é o documento nacional que assegura proteção integral e os direitos 
fundamentais para a infância e juventude. 
Noutro âmbito, cumpre referir ainda as regras das Nações Unidas para a Proteção de 
Menores Privados de Liberdade, datadas de 1990, os Princípios Orientadores das Nações 
Unidas para a prevenção da Delinquência Juvenil, de 1990. 
Nesta linha de desenvolvimento legislativo, conforme nos refere CLARA RODRIGUES, a 
década de 90 do século passado consubstancia um marco determinante na promoção e 
proteção de crianças e jovens em risco49. 
Neste sentido, uma das criações mais importantes é o surgimento das Comissões de 
Proteção de Menores, por via das quais se procurou evitar o contato dos menores com os 
Tribunais, sensibilizando-se a comunidade para o exercício do dever de, ao lado da família 
(sempre que possível), encontrar soluções viáveis de intervenção junto das crianças e dos 
jovens50. 
O papel das Comissões de Menores foi de extrema importância, dado que apelavam à 
participação ativa da comunidade, fazendo emergir uma nova relação de parceria com o 
Estado, apta a estimular as energias locais potenciadoras de estabelecimento de redes de 
desenvolvimento social. 
Avançando na análise histórica, no ano de 1992, por via Decreto-Lei n.º 190/92, de 3 
de setembro, é criado o regime jurídico do instituto do acolhimento familiar. 
No referido Decreto-Lei procedeu-se à reformulação da legislação sobre o acolhimento 
familiar de crianças e jovens, por famílias consideradas idôneas, para a prestação do referido 
serviço. 
 
48 Cfr. SARAIVA, J. B. C. (2009) – Adolescente em conflito com a lei: da indiferença à proteção integral: uma abordagem sobre a 
responsabilidade penal juvenil. Livro de Advogado, Rede virtual de Bibliotecas. Porto Alegre. 
49 Cfr. RODRIGUES, Clara (2010) – A mão de Deus. A Proteção de Crianças em Perigo em Portugal e no Brasil: um estudo comparativo. 
Universidade Técnica de Lisboa – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (Mestrado em Política Social), Lisboa. 
50 Cfr. RODRIGUES, Clara (2010) – A mão de Deus. A Proteção de Crianças em Perigo em Portugal e no Brasil: um estudo comparativo. 
Universidade Técnica de Lisboa – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (Mestrado em Política Social), Lisboa. 
19 
Neste diploma foi salientado que a existência de situações de crianças e jovens cujas 
famílias naturais não se encontram em condições de poder desempenhar a sua função 
socioeducativa, condicionando negativamente a formação e o desenvolvimento da 
personalidade dessas crianças e jovens é, na prática, uma verdadeira e constante fonte de 
preocupação, motivo pelo qual se impõe o encaminhamento de tais casos para respostas 
substitutivas da família natural, enquanto esta não possa retomar a plenitude das suas 
funções. 
Uma das medidas é o acolhimento familiar, o qual comporta uma genuína prestação 
de ação social, com a qual se visa o acolhimento temporário de crianças ou jovens em outras 
famílias designadas genericamente neste diploma por famílias de acolhimento. 
O acolhimento familiar apresenta bastantes vantagens, principalmente quando 
confrontado com outras respostas de caráter institucional mais tradicionais, como é o caso do 
internamento em lares, dado que apela à solidariedade das famílias e das pessoas que, 
podendo e querendo acolher crianças e jovens, gratuita ou de forma remunerada, o possam 
fazer mediante a garantia de apoios necessários à sua ação, integrando no tecido social e 
familiar os seus elementos mais vulneráveis, assumindo o Estado um papel de subsidiariedade 
e complementaridade para com a sociedade civil51. 
Com o referido mecanismo, é possível ao Estado cumprir o preceituado na lei 
fundamental relativamente à responsabilidade social no que concerne à proteção das crianças 
e jovens, em particular as que experimentam, transitoriamente, condiçõesde vida familiar 
pouco adequadas às suas necessidades psicológicas, afetivas e materiais52. 
Posteriormente, em 1997, pela Resolução do Conselho de Ministros N.º 193/97, foi 
criada a Rede Nacional dos Centros de Acolhimento Temporário53. 
Na referida resolução foi ponderado o fato de os artigos 67.º54, 69.º e 70.º da 
Constituição da República Portuguesa atribuírem à sociedade e ao Estado o dever de proteger 
 
 
 
 
54 Artigo 67.º 
(Família) 
1. A família, como elemento fundamental da sociedade, tem direito à proteção da sociedade e do Estado e à efetivação de todas as condições 
que permitam a realização pessoal dos seus membros. 
2. Incumbe, designadamente, ao Estado para proteção da família: 
a) Promover a independência social e económica dos agregados familiares; 
b) Promover a criação e garantir o acesso a uma rede nacional de creches e de outros equipamentos sociais de apoio à família, bem como 
uma política de terceira idade; 
c) Cooperar com os pais na educação dos filhos; 
20 
a família, as crianças e os jovens com vista ao seu desenvolvimento integral e conferem um 
direito especial de proteção aos órfãos, abandonados ou por qualquer forma privados de um 
ambiente familiar normal. 
Avançando na nossa análise histórica, chegamos a um ano extremamente importante: 
o ano de 1999. 
É em 1999 que foi aprovada a Lei Tutelar Educativa (Lei N.º 166/99, de 14 de setembro) 
e a Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo (Lei N.º 147/99, de 1 de setembro), 
regulamentada em 2000 pelo Decreto-Lei N.º 332B/2000, de 30 de dezembro 
 
d) Garantir, no respeito da liberdade individual, o direito ao planeamento familiar, promovendo a informação e o acesso aos métodos e aos 
meios que o assegurem, e organizar as estruturas jurídicas e técnicas que permitam o exercício de uma maternidade e paternidade 
conscientes; 
e) Regulamentar a procriação assistida, em termos que salvaguardem a dignidade da pessoa humana; 
f) Regular os impostos e os benefícios sociais, de harmonia com os encargos familiares; 
g) Definir, ouvidas as associações representativas das famílias, e executar uma política de família com carácter global e int egrado; 
h) Promover, através da concertação das várias políticas sectoriais, a conciliação da actividade profissional com a vida fami liar, Cfr. 
https://www.parlamento.pt/Legislacao/Documents/constpt2005.pdf (consultado a 05/10/2022). 
https://www.parlamento.pt/Legislacao/Documents/constpt2005.pdf
21 
2- DIREITO DAS CRIANÇAS E DOS JOVENS – APOSTA NA PREVENÇÃO 
 
2.1. CONCEITO DE CRIANÇA E JOVEM 
De acordo com OLINTO PEGORARO, o conceito de pessoa é entendido como algo 
mutável ao longo do tempo, acompanhando a evolução da filosofia e da ciência, sendo 
influenciado por três grandes fatores55: as teorias evolucionistas (o darwinismo, seleção 
natural, lamarckismo56), o movimento fenomenológico (Edmund Husserl57) e por último, a 
evolução da biologia58 e da biotecnologia59. 
Efetivamente, se analisarmos o período hitleriano, verificamos que os judeus (entre 
outros) não faziam parte do seu estrito conceito de pessoa, sendo os seus direitos limitados60. 
Assim, ao longo da história verificamos uma evolução na definição do conceito de 
pessoa e, bem assim, no que aos seus direitos individuais se reporta: apenas com a evolução 
histórica chegamos a um ponto em que inexiste diferenciação entre direitos dos negros, 
mulheres, homossexuais ou crianças. 
Para PLATÃO e ARISTÓTELES a criança é apenas um ser irracional, ignorante, 
desprovido de sabedoria e de racionalidade, incapaz de controlar as situações adversas61 62. 
Por conseguinte, para PLATÃO a relação entre os pais e os filhos era construída apenas 
como uma relação hierarquizada e baseada na obediência das crianças perante os adultos63. 
Inclusive, JOHN LOCKE, grande filósofo da Idade Moderna, mantinha a ideia de que a 
criança é apenas um ser irracional e incapaz, considerando a infância como um “estado 
imperfeito”, negando às crianças a capacidade de exercer uma vontade própria, devendo os 
pais ditar-lhes o que fazer64. 
É apenas com IMMANUEL KANT que – ainda que de forma pouco significativa – se vem 
defender que as crianças têm efetivos direitos morais que decorrem do seu direito inato à 
 
55 Cfr. PEGORARO, Olinto (2002) – Pessoa: da subsistência à existência. Cadernos de Bioética, n.º 28, Ano XII. 
56 Cfr. https://www.infoescola.com/biologia/teorias-evolucionistas/ (consultado a 04/10/2022). 
57 Cfr. https://www.britannica.com/biography/Edmund-Husserl (consultado a 04/10/2022). 
58 Cfr. https://www.britannica.com/science/biology (consultado a 04/10/2022). 
59 Cfr. https://www.britannica.com/technology/biotechnology (consultado a 04/10/2022). 
60 Cfr. https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/the-nuremberg-race-laws (consultado a 05/10/2022). 
61 Cfr. PLATÃO (2010) – A República, Trad. Elísio Gala, Guimarães Editores, Livro X, 598 c, p. 394 e Livro X, 604 c, p. 404. 
62 Cfr. ARISTÓTELES (1999) – Política, Editorial Gredos, S.A., Madrid, pp. 79 a 80. 
63 Cfr. PLATÃO (2010) – A República, Trad. Elísio Gala, Guimarães Editores, Livro X, 598 c, p. 394 e Livro X, 604 c, p. 404. 
64 Cfr. LOCKE, John (2007) – Segundo Tratado do Governo, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 81. 
https://www.infoescola.com/biologia/teorias-evolucionistas/
https://www.britannica.com/biography/Edmund-Husserl
https://www.britannica.com/science/biology
https://www.britannica.com/technology/biotechnology
https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/the-nuremberg-race-laws
22 
liberdade, como o direito a serem cuidadas pelos seus pais, não obstante carecerem de 
capacidade para exigir aos pais ou tutores o cumprimento dos seus deveres65. 
Ora, de acordo com MARTIN, é fruto da evolução histórica que aumenta a 
responsabilidade dos Estados pela observância dos direitos das crianças, com a inclusão dos 
seus direitos na esfera dos interesses internacionais e nacionais, a qual contribuiu para a 
descoberta dos novos aspectos do discurso cultural, político e social da proteção da infância, 
chamando a atenção dos políticos, cientistas e especialistas responsáveis pelas crianças para 
um vasto leque de questões de natalidade, a qualidade de vida das crianças, condição da sua 
saúde, bem como a garantia de sustentação e desenvolvimento da vida de apoio social, 
educação e outras instituições66. 
De acordo com LIEBEL, o ponto de partida histórico para os direitos das crianças 
reporta-se ao período do Iluminismo Europeu no século XVIII, em que se começou a olhar para 
as crianças como diferentes dos adultos em termos das suas necessidades básicas e cujas 
necessidades deveriam ser tidas em especial em conta, o que é semelhante à ideia de 
proteção da criança67. 
Mais tarde, foi sendo desenvolvido o pensamento de que uma criança deveria ter mais 
independência, aspecto que surgiu interligado com a ideia de que a comunidade em geral e o 
Estado em particular deveriam cuidar do bem-estar e do desenvolvimento da criança para que 
a mesma pudesse se tornar um adulto capaz de trabalhar68. 
A questão dos eventuais direitos das crianças foi colocada à prova com a chegada do 
século XIX no contexto da industrialização descontrolada e das suas consequências para as 
condições de vida das crianças pobres da classe trabalhadora industrial. 
Neste sentido, surgiram duas grandes linhas de pensamento. 
Em primeiro lugar, tínhamos uma linha que não se preocupava com os direitos das 
crianças, vendo as mesmas apenas como mão-de-obra barata. 
Por outro lado, os defensores dos direitos das crianças consideravam um dever moral 
oferecer proteção às crianças, pois viam as crianças como vítimas passivas. Esta linha de 
pensamento contribuiu de forma massiva para a aprovação de leis sobre a proteção das 
 
65 Cfr. KANT, Immanuel (2007) – Fundamentação da Metafísica dos Costumes, trad. Paulo Quintela, Edições 70, Lisboa, pp. 136 a 164. 
66 Cfr. MARTIN, J.M. (2005) – Re-forming thechild: Human rights as global tutelage (Order No. NR08689). ProQuest Dissertations & Theses 
A&I., disp. in http://search.proquest.com/docview/305424571?accountid=141586 (consultado a 04/10/2022). 
67 Cfr. LIEBEL, M. (2013) – Hidden Aspects of Children’s Rights History in M. Liebel (Ed) Children’s Rights from Below, Cross-Cultural 
Perspectives, London: Palgrave-Macmillan. 
68 Id. 
http://search.proquest.com/docview/305424571?accountid=141586
23 
crianças e para a criação das organizações conexas e práticas legais com enfoque nas 
necessidades das crianças, especialmente no que se refere ao trabalho infantil e à educação. 
Perante isto, os objetos conceituais de compreensão e descrição da infância foram 
complementados com novas interpretações. Já enraizadas na ciência, as noções de criança 
como sujeito marginalizado, criança como propriedade, criança como economicamente 
desfavorecida, criança como um outsider cultural poderia agora ser posta em movimento.69 
Conforme nos refere HEINTZE, após a Primeira e Segunda Guerra Mundial, o fato de as 
crianças terem sido as primeiras vítimas de violações dos direitos humanos foi reconhecido a 
nível internacional e as Nações Unidas e as ONG sublinharam mais as disposições relativas às 
violações dos direitos humanos das crianças. Debates sobre a reeducação de delinquentes 
juvenis nos EUA e a situação das crianças com pais divorciados motivaram discussões sobre 
quais seriam os verdeiros melhores interesses da criança70. 
Por outro lado, COLIN WRINGE afirma que os protestos dos estudantes universitários 
europeus em maio de 1968 e a disseminação da militância entre os alunos das escolas, além 
de apoiar a literatura subterrânea e os defensores individuais dos direitos das crianças, 
também foram de extrema importância, dado que levaram a reivindicações de direitos como 
o direito à democracia educativa, o livre acesso ao conhecimento, a liberdade de expressão e 
a abolição dos castigos corporais71. Por conseguinte, em face de tal percepção, também os 
direitos das crianças não poderiam ser olvidados. 
No mesmo sentido, temos o pensamento de VERHELLEN, que nos afirma que o 
movimento de libertação das crianças na década de 1970 exigiu que as crianças recebessem 
todos os direitos civis básicos, bem como o direito de afirmar esses direitos de forma 
independente. Assim, foi reconhecida a competência das crianças tendo em conta a sua idade 
e, simultaneamente, o reconhecimento da criança como uma pessoa autônoma e 
autodeterminada72. 
 
69 JUNIOR, Valdinei, Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.1, p.271-285, 2017. 
70 Cfr. HEINTZE, Hans-Joachim (1992) – Children’s rights within human rights protection, in M. Freeman and P. Veerman (Eds) The Ideologies 
of Children’s Rights, Dordrecht: Martinus Nihoff Publishers. 
71 Cfr. WRINGE, Colin (1981) – Children’s Rights: A Philosophical Study, London: Routledge. 
72 Cfr. VERHELLEN, E. (1992) – Changes in the Images of the Child, in M. Freeman and P. Veerman (Eds) The Ideologies of Children’s Rights, 
Dordrecht: Martinus Nihoff Publishers. 
Comentado [A1]: Colocar uma fonte 
24 
Nesta sequência, no ano de 1979 (Ano Internacional das Crianças) a Polônia propôs 
uma Convenção que, ao contrário das declarações anteriores, poderia ser juridicamente 
vinculativa como um tratado formal73. 
Conforme nos refere HAMMARBERG, um dos argumentos para se avançar para a 
aprovação da Convenção foi o desejo de estabelecer obrigações precisas para os Estados, 
sendo outro o fato de as normas internacionais em vigor para a proteção das crianças estarem 
dispersas entre cerca de 80 instrumentos jurídicos diferentes, pelo que, seria útil a existência 
de uma Convenção que reunisse os direitos num normativo abrangente74. 
Assim, em 1989 vem então a ser adotada pela Organização das Nações Unidas a 
Convenção Internacional dos Direitos das Crianças e Adolescentes75. 
Por todo o exposto, as crianças gozam, na atualidade, de um estatuto legal especial na 
sociedade, o qual – como vimos – foi sendo conquistado ao longo do tempo. 
Fruto de uma evolução paulatina, na atualidade as teorias baseadas no estudo dos 
contextos de desenvolvimento social e cultural incluem uma vasta classe de conceitos, uma 
compreensão científica que é impossível sem a análise de fatores ambientais, diferenças 
culturais e, em geral, toda a área cultural e social do seu funcionamento. 
Ora, de entre os referidos conceitos relacionados com a infância e o desenvolvimento 
da criança, emergem os chamados “direitos da criança”, conceito introduzido no uso científico 
e ativamente discutido apenas nas últimas décadas. 
O conceito de criança é hoje entendido como algo único, podendo ser qualificada como 
a única a que cada ser humano pertenceu ao mesmo tempo. Na atualidade podemos afirmar 
que todos estamos intimamente ligados às crianças através da vida familiar ou do trabalho. 
Etimologicamente, JOSÉ PEDRO MACHADO esclarece que o conceito de infância, 
proveniente do latim infantia, é definido como o primeiro período da vida humana e refere-
se ao indivíduo que ainda não é capaz de falar76. 
Não obstante o exposto, em termos legais o art.º 1.º da Convenção Internacional dos 
Direitos das Crianças e Adolescentes veio esclarecer que, para efeitos da referida Convenção, 
 
73 Cfr. HILL, M. e TISDALL, K. (1997) – Children and Society, London: Longman. 
74 Cfr. HAMMARBERG, T. (1990) – The UN Convention on the Rights of the Child - and How to Make it Work, Human Rights Quarterly, 12(1), 
pp. 97 a 105. 
75 Cfr. https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca (consultado a 06/10/2022). 
76 Cfr. MACHADO, José Pedro (2003) – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Vol. II, 3.ª Ed., Livros Horizonte, Lisboa, (Ed./reimp.: 
2003), p. 291. 
https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca
25 
considera-se como criança todo ser humano com menos de 18 anos de idade, salvo quando, 
em conformidade com a lei aplicável à criança, a maioridade seja alcançada antes77. 
Já o conceito de jovem é-nos apresentado pela Lei de proteção de crianças e jovens 
em perigo, o qual nos esclarece que se considera “Criança ou jovem - a pessoa com menos de 
18 anos ou a pessoa com menos de 21 anos que solicite a continuação da intervenção iniciada 
antes de atingir os 18 anos, e ainda a pessoa até aos 25 anos sempre que existam, e apenas 
enquanto durem, processos educativos ou de formação profissional”. 
 
2.2- O CONCEITO DE SUPERIOR INTERESSE DA CRIANÇA 
Conforme fomos analisando, a evolução da percepção da realidade das crianças por 
parte dos adultos foi mudando ao longo do tempo e, neste sentido, foi também mudando a 
percepção da criança aos olhos da lei. 
Ora, felizmente, após uma evolução de séculos, chegou-se à conclusão indubitável 
(pelo menos, na maior parte dos países) de que as crianças carecem de atenção e proteção 
especial. Dada a sua maior vulnerabilidade, as crianças experimentam formas insidiosas de 
violência, exploração e abuso, sejam nas suas casas, nas suas escolas ou online. A violência 
contra as crianças pode ser física, emocional ou sexual e, em muitos casos, as mesmas sofrem 
nas mãos das pessoas em quem confiam78. 
As crianças são especialmente vulneráveis numa situação dita normal, mas ainda mais 
durante conflitos armados, desastres naturais e outras emergências, em que as mesmas 
podem ser forçadas a fugir das suas casas, retiradas das suas famílias e expostas à exploração 
e abuso ao longo do caminho, especialmente para meninas a ameaça de violência assenta 
também no gênero, com centenas de milhões a serem sujeitas a casamento infantil e 
mutilação genital, não obstante ambas terem violações dos direitos humanos reconhecidas 
internacionalmente. 
Assim, independentemente das circunstâncias concretas, todas as crianças têm o 
direito de ser protegidas da violência, da exploração e do abuso, pelo que, os sistemas de 
proteção à criançaIKAWA, Daniela; PIOVESAN, Flávia; ALMEIDA, Guilherme de. Fundamentos e história dos 
Direitos Humanos. Formação de Conselheiros em Direitos Humanos. Brasília: 
Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2007 
KANT, Immanuel (2007) – Fundamentação da Metafísica dos Costumes, trad. Paulo Quintela, 
Edições 70, Lisboa 
65 
LASMAR, Jorge Mascarenhas, CASARÕES, Guilherme Stolle Paixão e (2006) – Coleção para 
entender: A Organização das Nações Unidas. Belo Horizonte: Del Rey 
LIEBEL, M. (2013) – Hidden Aspects of Children’s Rights History in M. Liebel (Ed) Children’s 
Rights from Below, Cross-Cultural Perspectives, London: Palgrave-Macmillan. 
LIMA, Renata Mantovani de; POLO, Leonardo Macedo e JOSÉ, Fernanda São (2017) – A 
Evolução Histórica dos Direitos da Criança e do Adolescente: da insignificância 
jurídica e social ao reconhecimento de direitos e garantias fundamentais, in 
Revista Brasileira de Políticas Públicas, vol. 7, n.º 2, agosto de 2017. 
LIMA, Renata Mantovani de; POLO, Leonardo Macedo e JOSÉ, Fernanda São (2017) – A 
Evolução Histórica dos Direitos da Criança e do Adolescente: da insignificância 
jurídica e social ao reconhecimento de direitos e garantias fundamentais, in 
Revista Brasileira de Políticas Públicas, vol. 7, n.º 2, agosto de 2017. 
LOCKE, John (2007) – Segundo Tratado do Governo, Fundação Calouste Gulbenkian 
LORENZINI, Gisela (2010) – Portal Pró-Menino. Uma Breve História dos Direitos da Criança e 
do Adolescente no Brasil. 
MACHADO, José Pedro (2003) – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Vol. II, 3.ª Ed., 
Livros Horizonte, Lisboa, (Ed./reimp.: 2003) 
MACHADO, Martha de Toledo (2003) – A Proteção Constitucional de Crianças e Adolescentes 
e os Direitos Humanos. 1ª.ed. Barueri, SP: Manole 
MARTIN, J.M. (2005) – Re-forming the child: Human rights as global tutelage (Order No. 
NR08689). ProQuest Dissertations & Theses A&I. 
MARTINS, Ernesto Candeias (2006) – A infância desprotegida portuguesa na primeira metade 
do século XX. Revista Infância e Juventude. (N.º4) 
MARTINS, Ernesto Candeias (2016) – Crianças “sem” a sua infância: história social da infância: 
acolher/assistir e reprimir/reeducar. Lisboa: Cáritas 
66 
MCVIE, S. e HOLMES, L. (2005) – Family Functioning and Substance Use at Ages 12 to 17. The 
Edinburgh Study of Youth Transition and Crime (No. 9). Edinburgh: The University 
of Edinburgh, Centre for Law and Society. 
MENDEZ, Emílio Garcia. SARAIVA, João Batista Costa (2009) – Adolescente em Conflito com a 
Lei: da indiferença da proteção integral: Uma abordagem sobre a responsabilidade 
penal juvenil. 3. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, Prefácio à Segunda 
Edição 
MESSENDER, Hamurabi (2010) - Entendendo o Estatuto da Criança e do Adolescente: 
atualizado pela Lei n° 12.010/2009: com 200 questões incluindo provas anteriores 
e simulados. Rio de Janeiro: Elsevier 
MRAZEK, P.J. e HAGGERTY, R.J., eds. (1994) – Reducing Risks for Mental Disorders: Frontiers 
for Preventative Intervention Research. Washington, DC: National Academy Press 
MUCCHIELLI, L. (2000) – Familles et délinquances: un bilan pluridisciplinaire des recherches 
francophones et anglophones. (K. Mucchielli, Ed.). France: Allocations familiales, 
Caisses nationale d'allocations familiales (CNAF). 
PEGORARO, Olinto (2002) – Pessoa: da subsistência à existência. Cadernos de Bioética, n.º 28, 
Ano XII. 
PLATÃO (2010) – A República, Trad. Elísio Gala, Guimarães Editores, Livro X, 598 c, p. 394 e 
Livro X, 604 c Renaut: 2002. cf. La libération des enfants. Contribution 
philosophique à une 
histoire de l’enfance. Paris: Calmann-Lévy. 
RODRIGUES, Clara (2010) – A mão de Deus. A Proteção de Crianças em Perigo em Portugal e 
no Brasil: um estudo comparativo. Universidade Técnica de Lisboa – Instituto 
Superior de Ciências Sociais e Políticas (Mestrado em Política Social), Lisboa. 
ROSSATO, Luciano Alves (2010) – Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado. Luciano 
Alves Rossato, Paulo Eduardo Lépore, Rogério Sanches Cunha. São Paulo: Editora 
Revista dos Tribunais 
67 
SANTOS, Margarida: A intervenção tutelar educativa: especificidades, desafios e perspetivas 
futuras, p.368 
SARAIVA, J. B. C. (2009) – Adolescente em conflito com a lei: da indiferença à proteção 
integral: uma abordagem sobre a responsabilidade penal juvenil. Livro de 
Advogado, Rede virtual de Bibliotecas. Porto Alegre. 
SARMENTO, Manuel J. (2000) – Lógicas de acção nas escolas. Lisboa: Instituto de Inovação 
Educacional. 
THORNBERRY, T., et al. (1999) – Family Disruption and Delinquency. Juvenile Justice Bulletin. 
Washington, DC: US Department of Justice, Office of Justice Programs, Office of 
Juvenile Justice and Delinquency Prevention. 
TOMÉ, Maria Rosa (2010) – A Cidadania Infantil na Primeira República e a Tutoria da Infância. 
A Tutoria de Coimbra e do Refúgio Anexo. Revista de História da Sociedade e da 
Cultura. Vol. 10, 
VERHELLEN, E. (1992) – Changes in the Images of the Child, in M. Freeman and P. Veerman 
(Eds) The Ideologies of Children’s Rights, Dordrecht: Martinus Nihoff Publishers. 
VOLPI, Mário (1999) – O adolescente e o ato infracional. São Paulo: Cortez. 
WASSERMAN, G., et al. (2003) – Risk and Protective Factors of Child Delinquency. Child 
Delinquency, Bulletin Series. Washington DC: U.S. Department of Justice, Office of 
Justice Programs, Office of Juvenile Justice, and Delinquency Prevention. 
WRINGE, Colin (1981) – Children’s Rights: A Philosophical Study, London: Routledge. 
68

Mais conteúdos dessa disciplina