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Aviso Todo esforço foi feito para garantir a qualidade editorial desta obra, agora em versão digital. Destacamos, contudo, que diferenças na apresentação do conteúdo podem ocorrer em função das características técnicas específicas de cada dispositivo de leitura. Nota: A medicina é uma ciência em constante evolução. À medida que novas pesquisas e a própria experiência clínica ampliam o nosso conhecimento, são necessárias modificações na terapêutica, onde também se insere o uso de medicamentos. Os autores desta obra consultaram as fontes consideradas confiáveis, num esforço para oferecer informações completas e, geralmente, de acordo com os padrões aceitos à época da publicação. Entretanto, tendo em vista a possibilidade de falha humana ou de alterações nas ciências médicas, os leitores devem confirmar estas informações com outras fontes. Por exemplo, e em particular, os leitores são aconselhados a conferir a bula completa de qualquer medicamento que pretendam administrar, para se certificar de que a informação contida neste livro está correta e de que não houve alteração na dose recomendada nem nas precauções e contraindicações para o seu uso. Essa recomendação é particularmente importante em relação a medicamentos introduzidos recentemente no mercado farmacêutico ou raramente utilizados. Tradução: Régis Pizzato Revisão técnica: Flávio Kapczinski Professor Titular de Psiquiatria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Diretor do Laboratório de Psiquiatria Molecular do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Membro da Academia Brasileira de Ciências. Manuela Vianna Boeira Pesquisadora do Laboratório de Psiquiatria Molecular do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Versão impressa desta obra: 2017 2017 Obra originalmente publicada sob o título Neuroprogression and Staging in Bipolar Disorder, 1st Edition ISBN 9780198709992 Copyright © Oxford University Press, 2015 Oxford University Press is a department of the University of Oxford. Gerente editorial: Letícia Bispo de Lima Colaboraram nesta edição: Coordenadora editorial: Cláudia Bittencourt Capa: Márcio Monticelli Imagem de capa: ©shutterstock.com / nouseforname, Lonely tree bending in the Patagonian wind Preparação de originais: Danielle Oliveira da Silva Teixeira Leitura final: Lisandra Cássia Pedruzzi Picon Projeto e editoração: Bookabout – Roberto Carlos Moreira Vieira Produção Digital: Kaéle Finalizando Idéias N494 Neuroprogressão e estadiamento no transtorno bipolar [recurso eletrônico] / Organizadores, Flávio Kapczinski ... [et al.] ; tradução: Régis Pizzato ; revisão técnica: Flávio Kapczinski, Manuela Vianna Boeira. – Porto Alegre : Artmed, 2017. e-PUB. Editado como livro impresso em 2017. ISBN 978-85-8271-373-0 1. Psiquiatria. 2. Transtorno bipolar. I. Kapczinski, Flávio. CDU 616.89-008.485 Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094 Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à ARTMED EDITORA LTDA., uma empresa do GRUPO A EDUCAÇÃO S.A. Av. Jerônimo de Ornelas, 670 – Santana 90040-340 – Porto Alegre – RS Fone: (51) 3027-7000 Fax: (51) 3027-7070 SÃO PAULO Rua Doutor Cesário Mota Jr., 63 – Vila Buarque 01221-020 – São Paulo – SP Fone: (11) 3221-9033 SAC 0800 703-3444 – www.grupoa.com.br É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora. http://www.grupoa.com.br AUTORES Flávio Kapczinski (Org.) Professor titular de Psiquiatria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Diretor do Laboratório de Psiquiatria Molecular do Hospital de Clínicas de Porto Alegre; Membro da Academia Brasileira de Ciências. Eduard Vieta (Org.) Professor de Psiquiatria, Chefe de Departamento e Diretor do Programa de Transtornos Bipolares do Hospital Clinic, University of Barcelona, IDIBAPS, CIBERSAM, Barcelona, Catalunha, Espanha. Pedro V. S. Magalhães (Org.) Professor de Psiquiatria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Brasil. Michael Berk (Org.) NHMRC Associado Sênior Principal de Pesquisa, Professor Alfred Deakin de Psiquiatria, Faculdade de Medicina, Deakin University, Austrália; Diretor do IMPACT Strategic Research Centre (Innovation in Mental and Physical Health and Clinical Treatment), Deakin University, Austrália; Associado em Pesquisa Professoral do The Florey Institute of Neuroscience and Mental Health, Orygen, The National Centre of Excellence in Youth Mental Health, Departamento de Psiquiatria, University of Melbourne, Austrália. Adriane R. Rosa Professora de Farmacologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, - Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Porto Alegre, Brasil. Aline André Rodrigues Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Porto Alegre, Brasil. Anabel Martinez-Aran IDIBAPS, Programa de Transtornos Bipolares, Hospital Clinic, University of Barcelona, CIBERSAM, Barcelona, Espanha. Anusha Baskaran Centro para Estudos de Neurociências, Queen’s University; Providence Care, Serviços de Saúde Mental, Kingston, ON, Canadá. Aroldo A. Dargél Laboratório de Psiquiatria Molecular, INCT Medicina Translacional, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Porto Alegre, Brasil. Bartholomeus C. M. Haarman University Medical Center, Departamento de Psiquiatria, Groningen, Países Baixos. Benicio N. Frey Professor Associado, Departamento de Psiquiatria e Neurociências Comportamentais, McMaster University, Hamilton, ON, Canadá. Benjamin I. Goldstein Sunnybrook Research Institute, Sunnybrook Health Sciences Centre, Toronto, ON, Canadá. Brisa Solé IDIBAPS, Programa de Transtornos Bipolares, Hospital Clinic, University of Barcelona, CIBERSAM, Barcelona, Espanha. Carla Torrent IDIBAPS, Programa de Transtornos Bipolares, Hospital Clinic, University of Barcelona, CIBERSAM, Barcelona, Espanha. Caterina del Mar Bonnin IDIBAPS, Programa de Transtornos Bipolares, Hospital Clinic, University of Barcelona, CIBERSAM, Barcelona, Espanha. Clarissa S. Gama Laboratório de Psiquiatria Molecular, Hospital de Clínicas de Porto Alegre/CPE, Porto Alegre, Brasil. Diego J. Martino Programa de Transtornos Bipolares, Departamento de Psiquiatria, Instituto de Neurociências da Fundación Favaloro, Buenos Aires, Argentina. Esther Jiménez IDIBAPS, Programa de Transtornos Bipolares, Hospital Clinic, University of Barcelona, CIBERSAM, Barcelona, Espanha. Francesc Colom IDIBAPS, Programa de Transtornos Bipolares, Hospital Clinic, University of Barcelona, CIBERSAM, Barcelona, Espanha. Frank Bellivier INSERM U797, Polo de Psiquiatria, CHU de Créteil, Hôpital Henri Mondor & Paris 12 University, Créteil, França. Gabriel R. Fries Laboratório de Psiquiatria Molecular, Centro de Pesquisas Experimentais, - Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Porto Alegre, Brasil. Gustavo H. Vázquez Departamento de Neurociências, University of Palermo, Buenos Aires, Argentina. Imma Torres IDIBAPS, Programa de transtornos Bipolares, Hospital Clinic, University of Barcelona, CIBERSAM, Barcelona, Espanha. Iria Grande Unidade de Transtornos Bipolares, Instituto Clínico de Neurociências, Hospital Clinic, University of Barcelona, IDIBAPS, CIBERSAM, Barcelona, Catalunha, Espanha. Jan Scott Psiquiatria Acadêmica, Unidade Wolfson, Camous for Vitality & Ageing, - Newcastle upon Tyne, Reino Unido. Janusz K. Rybakowski Departamento de Psiquiatria Adulta, Universidade de Ciências Médicas de - Poznan, Poznan, Polônia. Joana Bücker Laboratório de Psiquiatria Molecular e Programa de Transtornos Bipolares e INCT Medicina Translacional, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil. Lakshmi N. Yatham Departamento de Psiquiatria, University of British Columbia, Vancouver, BC, Canadá. Luciano Minuzzi Departamento de Psiquiatria e Neurociências Comportamentais, McMaster University, Hamilton, ON, Canadá. Manon H. J. Hillegers UMC Utrechtnaturalista apresentavam curso crônico. Ciclagem rápida é prevalente em aproximadamente 16% dos pacientes bipolares em amostras de pesquisa clínica, podendo ser temporária ou ocorrer de forma contínua no decorrer de períodos mais longos, além de ser um preditor geral de resultado desfavorável (Kupka et al., 2003). Os pacientes classificados no estágio 4 dos transtornos bipolares costumam ser adultos de meia-idade com transtorno bipolar estabelecido, podendo não apresentar resposta a diversas modalidades de tratamento, embora a resistência ao tratamento também possa ser causada por experimentos inadequados de intervenção ou pela falta de adesão do paciente. Fatores de risco que contribuem para o início precoce de transtorno bipolar (p. ex., história familiar de transtorno bipolar, história de abuso na infância, história de transtorno de ansiedade ou abuso de substância) também estão associados a uma progressão para o estágio 4 (Kupka et al., 2005). Como se pode ver a partir dessa descrição, os casos apresentados neste estágio se assemelham aos observados geralmente em unidades psiquiátricas. Contudo, um objetivo evidente do uso de modelos de estadiamento é o “deslocamento” das intervenções em direção às fases iniciais da doença com a finalidade de visar ao tratamento preferencialmente nos estágios 2 e 3 (e, em última análise, em estágios anteriores), para tentar reduzir ao máximo a quantidade de indivíduos que avançam para o estágio 4. O modelo de estadiamento de Kapczinski e colaboradores Enquanto o modelo de estadiamento de Berk e colaboradores se fundamenta na utilização da sintomatologia de humor e do padrão de recorrência de episódios como determinante principal da progressão da doença, Kapczinski e colaboradores (2009a, b) e Fries e colaboradores (2012) propuseram um modelo de estadiamento que enfatiza a avaliação de pacientes durante o período interepisódio, com foco no nível de funcionamento cognitivo e psicossocial em vez de na quantidade, na recorrência e na gravidade dos episódios de humor em si.A premissa básica nesse modelo é que a incapacidade funcional e o declínio cognitivo são medidas mais diretas da neuroprogressão subjacente e, assim, permitem prever com maior precisão as necessidades de tratamento em longo prazo. O estágio latente nesse modelo inclui a presença de sintomas de humor subsindrômicos e de sintomas de ansiedade em pessoas em risco de transtorno bipolar com base em uma história familiar positiva, mas sem prejuízo cognitivo. No estágio 1, o paciente se recupera por completo dos episódios de humor (independentemente de sua quantidade e gravidade) sem morbidade psiquiátrica ou prejuízo cognitivo durante o período interepisódico. É importante observar, no entanto, que a recuperação funcional incompleta é comum, mesmo após um episódio maior de humor, especialmente de mania psicótica (Conus et al., 2006). No estágio 2, os sintomas psiquiátricos persistem, sejam eles decorrentes de transtorno bipolar de ciclagem rápida ou de transtornos da personalidade, mas há prejuízo cognitivo apenas transitório. O estágio 3 se caracteriza por sintomas subsindrômicos de transtorno bipolar e/ou déficit cognitivo acentuado associado a prejuízo funcional, o que leva à incapacidade de trabalhar ou à capacidade de trabalhar com um desempenho muito prejudicado. No estágio 4, o paciente é incapaz de viver de forma autônoma devido à incapacidade cognitiva e funcional grave. Críticos desse modelo sugerem que ele se concentra demasiadamente nos subtipos de transtorno bipolar após o início da doença, mas Kapczinski e colaboradores destacam que os estágios clínicos que descrevem são compatíveis com o conceito biológico de carga alostática, definido como o “desgaste” do corpo e do cérebro resultante da hiperatividade crônica ou da inatividade de sistemas fisiológicos que estão envolvidos na adaptação às dificuldades ambientais (McEwen e Wingfield, 2003; Kapczinski et al., 2008). Eles propõem que a carga alostática aumenta progressivamente com a repetição de episódios como uma função de estressores cumulativos, alterações no humor e exposição a outros fatores, como substâncias de abuso. O aumento da carga alostática, então, conduz a prejuízo cognitivo, distimia intermitente e índices mais elevados de comorbidades físicas e psiquiátricas (Fig. 2.4). FIGURA 2.4 Representação gráfica da carga alostática no modelo de estadiamento do transtorno bipolar conforme a proposta de Kapczinski e colaboradores (2008). A carga alostática pode ser definida como o “desgaste sobre o corpo”, o qual aumenta com o decorrer do tempo quando o indivíduo é exposto a estresse repetido ou crônico. Reimpressa de Neurosci Biobehav Rev, 32, Kapczinski et al., Allostatic load in bipolar disorder: implications for pathophysiology and treatment, 675-92, Direitos reservados (2008), com permissão de Elsevier. Os estágios iniciais e prodrômicos do transtorno bipolar Devido à natureza não específica dos sintomas psiquiátricos iniciais, sendo que mesmo os sintomas (hipo)maníacos são transitórios na maioria dos adolescentes da população geral (Tijssen et al., 2010), e à dificuldade de prever se uma depressão de início precoce evoluirá para um transtorno unipolar ou bipolar, a identificação confiável e válida de um “pródromo bipolar” é difícil. Ademais, em uma situação ideal, não confiaríamos em pródromos (os quais, por definição, só podem ser totalmente descritos após o início da doença) e, sim, teríamos síndromes precursoras de definição prospectiva que nos permitiriam estimar o risco futuro do início do transtorno bipolar. Essas síndromes precursoras consistem em sinais e sintomas de um agrupamento diagnóstico que antecede o transtorno, mas que não preveem o início de um transtorno específico com certeza (Eaton et al., 1995). Considerando a prevalência disseminada de sinais e sintomas individuais de transtornos mentais na população geral, é provável que poucos indivíduos desenvolverão o transtorno totalmente manifesto, ou que indivíduos com problemas semelhantes no início da infância possam desenvolver transtornos mentais diferentes na idade adulta. A combinação de fatores de risco (i.e., características individuais associadas a maior probabilidade de início tardio da doença) e sintomas prodrômicos poderia facilitar a identificação de uma população-alvo para prevenção. Contudo, até que esses dados se tornem disponíveis, é válido examinar características prodrômicas. O pródromo inicial pode ser definido como o intervalo de tempo a partir do início dos primeiros sinais e sintomas perceptíveis até o início de um transtorno totalmente desenvolvido e diagnosticável. Uma distinção entre pródromo distal e proximal foi proposta, a qual denomina, respectivamente, os estágios iniciais e finais do pródromo inicial. Em uma análise sobre o pródromo do transtorno bipolar, irritabilidade e agressividade, perturbações do sono, desregulação afetiva, hiperatividade e ansiedade são agrupamentos que representam sintomas comuns e sinais do pródromo distal do transtorno bipolar (Skjelstad et al., 2013). Conforme o indivíduo avança pelo estágio 1 em direção ao estágio 2, os sintomas de mania e depressão parecem aumentar gradativamente em gravidade e prevalência, com referência ao pródromo proximal (Zeschel et al., 2013). Contudo, a especificidade dos sintomas e sinais prodrômicos parece baixa (Skjelstad et al., 2013). Uma forma de compreender os estágios iniciais do transtorno bipolar é examinar grupos que sabidamente correm risco elevado, como os filhos de pais com transtorno bipolar. Embora sintomas e diagnósticos psiquiátricos não afetivos na infância (p. ex., ansiedade, perturbações do sono e problemas comportamentais) possam apresentar significação diferente na prole de pais com transtorno bipolar em comparação com controles ou com amostras pediátricas clínicas não selecionadas, esses estudos prospectivos se mostram inestimáveis na investigação das primeiras manifestações de um futuro transtorno bipolar (Birmaher et al., 2006; Duffyet al., 2010, 2013). Os achados na prole bipolar também reforçam a importância da história familiar ao se avaliar o significado de problemas comportamentais e diagnósticos em crianças e adolescentes, bem como apoiam um monitoramento e uma estratégia de manejo diferenciados para crianças e adolescentes com história familiar positiva para transtorno bipolar. Implicações dos sistemas de estadiamento clínico Neuroprogressão, neuroproteção e biomarcadores específicos de cada estágio Várias hipóteses biológicas tentaram contemplar a natureza progressiva dos transtornos do humor, estando claramente ligadas à noção clínica de progressão de doença que é a base fundamental dos modelos de estadiamento. Por exemplo, os conceitos de kindling, estresse e sensitização por episódio e carga alostática oferecem supostos mecanismos para explicar os fenômenos de neuroprogressão, que podem ser definidos como a reprogramação do cérebro que ocorre quando uma deterioração clínica e cognitiva se dá no contexto da progressão de transtornos psiquiátricos (Berk, 2009; Berk et al., 2010; Fries et al., 2012). A neuroprogressão pode ser vista como um processo multifatorial e interativo que leva à perda de resiliência celular, podendo incluir alterações no sistema dopaminérgico, citocinas inflamatórias, estresse oxidativo e estresse mitocondrial e do retículo endoplasmático, bem como mudanças em neurotrofinas, como o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) (Berk et al., 2011).Postula-se que cada estágio progressivo da doença tem um conjunto específico de supostos biomarcadores genéticos, estruturais e bioquímicos (Kapczinski et al., 2009b; Fries et al., 2012). Devido à ênfase sobre as mudanças neuroprogressivas, torna-se lógico que o conceito de neuroproteção também faça parte do diálogo sobre estadiamento. A neuroproteção se refere aos supostos mecanismos e vias pelos quais estabilizadores do humor, como lítio e valproato de sódio, atuam contra o processo de neuroprogressão, o que contribui para a argumentação em prol da intervenção precoce em casos estabelecidos (os quais figuram no estágio 2 ou em estágio superior), embora não seja evidente se esses tratamentos também são as intervenções mais indicadas para os estágios 0 ou 1 (Scott et al., 2013). Estadiamento clínico e intervenção Um objetivo importante da aplicação de modelos de estadiamento é melhorar o processo de tratamento clínico por meio de uma definição mais precisa das intervenções de tratamento adequadas ao estágio de cada paciente em particular (Scott et al., 2013; Berk et al., 2013). Contudo, pesquisas sobre as intervenções clínicas adequadas para os estágios de 0 a 1 ainda estão engatinhando, de forma que a maioria das tentativas de associar intervenções ao estadiamento se baseia no senso comum clínico (i.e., o que sabemos, de modo geral, sobre a eficácia de tratamentos no transtorno bipolar). Por exemplo, há um respaldo indireto à ideia de que a introdução de tratamentos em um estágio precoce da doença pode produzir maior benefício do que se esses tratamentos forem retardados até o estágio 4. Tentativas clínicas demonstraram que tanto o lítio quanto a terapia cognitivo-comportamental foram menos eficazes em indivíduos com transtorno bipolar que experimentaram mais de 12 episódios de humor anteriores (Scott et al., 2006). Berk e colaboradores (2007) sugerem possíveis intervenções voltadas para cada estágio do transtorno bipolar. Em seu modelo, eles apontam que, nos primeiros estágios (estágios 0 e 1a), as intervenções devem incluir conhecimento sobre saúde mental, autoajuda, psicoeducação da família, terapia cognitiva e “redução de danos” (minimizar o uso, ou o uso indevido, de álcool e outras substâncias). Nos primeiros estágios sintomáticos (estágios 1b e 2), acrescenta-se farmacoterapia específica para a fase ou estabilizador do humor e contempla-se a reabilitação vocacional. Nos estágios posteriores (estágios 3a-c), a ênfase recai nos medicamentos de manutenção, frequentemente com o uso de combinações de estabilizadores do humor e técnicas de prevenção de recaída, como terapias psicossociais. No estágio 4, a intervenção é concentrada na reabilitação e nos tratamentos sintomáticos, com esforços para manter ou melhorar a participação social, apesar da incapacidade. Kapczinski e colaboradores (2009a, b) também esboçam tratamentos para prevenir a progressão da doença, mas abrangem mais explicitamente a noção de reduzir a exposição a fatores de risco patogênicos (p. ex., abuso de substância) no estágio latente. As outras intervenções espelham as sugeridas por Berk e colaboradores, incluindo monoterapia com estabilizador do humor, psicoeducação e terapia cognitivo-comportamental no estágio 1; combinação de farmacoterapia e psicoterapia, reabilitação vocacional e enfoque no tratamento de comorbidades no estágio 2; uso de regimes de combinação de farmacoterapia complexos e tratamento em centros especializados no estágio 3; e, então, uma abordagem de “cuidados paliativos” no estágio 4 da doença. CONSIDERAÇÕES FINAIS Vários modelos de estadiamento do transtorno bipolar foram propostos, cada qual com uma abordagem à progressão da doença de uma perspectiva diferente. Os dois principais modelos “específicos do transtorno” utilizados na pesquisa sobre transtorno bipolar se baseiam no aumento da recorrência de episódios (modelo de Berk) e na redução do funcionamento interepisódico (modelo de Kapczinski) e, portanto, essas abordagens podem ser vistas como complementares. Em contraste com os sistemas de classificação, como o DSM-5, esses modelos de estadiamento não levam em consideração subtipos, fatores de risco e especificadores da doença. Combinar as duas abordagens pode constituir um passo na direção de um diagnóstico mais aprimorado e personalizado. Os dois modelos de estadiamento presumem um processo fisiopatológico subjacente de neuroprogressão associado a mudanças neuroanatômicas, perda de resiliência celular e declínio cognitivo. Contudo, nem todos os pacientes passam por todos os estágios. Muito da pesquisa atual sobre o transtorno bipolar foi realizado em amostras de transtorno bipolar em estágios relativamente tardios, podendo passar uma visão demasiadamente pessimista da progressão e do prognóstico da doença. Ambos os modelos de estadiamento promovem a noção de diagnóstico a tempo e intervenção precoce para prevenir um declínio futuro. A detecção ainda cedo, contudo, é impedida pela ausência de especificidade dos primeiros estágios do transtorno bipolar e pela falta de dados transdiagnósticos a fim de permitir uma caracterização mais detalhada de quaisquer precursores específicos desse transtorno. Isso faz com que a distinção entre os primeiros estágios de transtornos psicóticos, depressivos e bipolares seja difícil, e também indica que não é simples diferenciar o temperamento normal e as mudanças comportamentais transitórias em jovens adultos da psicopatologia indicativa do surgimento de um transtorno mental. No outro extremo da linha de tempo da doença, os estágios finais de transtornos mentais graves também podem ser de difícil diferenciação, visto que episódios sintomáticos específicos do transtorno podem ser eclipsados por uma incapacidade mais genérica resultante do declínio cognitivo e funcional (Scott et al., 2013). Portanto, grangear maior apoio para os modelos de estadiamento clínico será ditado, em parte, por nossa capacidade de identificar biomarcadores específicos de cada estágio e potencialmente específicos de cada transtorno que ajudem a optar por um tratamento agudo e profilático mais eficaz. Este capítulo ofereceu uma introdução aos modelos de estadiamento, mas é importante enfatizar que esse é um campo de pesquisa em rápida expansão em psiquiatria. Portanto, embora os modelos de estadiamento em psiquiatria ainda estejam em seus estágios iniciais, antevemos que se seguirá um debate sobre modelos de estadiamento tanto específicos de cada transtorno como transdiagnósticos. As evidências para isso evoluirão quando foremformalmente testados em estudos longitudinais que combinem achados clínicos e neurobiológicos. REFERÊNCIAS American Psychiatric Association (2013) Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, fifth edition. Washington: American Psychiatric Publishing. Axelson D, Findling RL, Fristad MA, et al. (2012) Examining the proposed disruptive mood dysregulation disorder diagnosis in children in the Longitudinal Assessment of Manic Symptoms study. J Clin Psychiat 73:1342–1350. Baroni A, Lunsford JR, Luckenbaugh DA, et al. (2009) Practitioner review: the assessment of bipolar disorder in children and adolescents. J Child Psychol Psyc 50:203–215. Berk M (2009) Neuroprogression: pathways to progressive brain changes in bipolar disorder. Int J Neuropsychoph 12:441–445. Berk M, Berk L, Dodd S, et al. (2014) Stage managing bipolar disorder. Bipolar Disord 16:471–477. Berk M, Conus P, Kapczinski F, et al. 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Essa carga global abrange não apenas a cronicidade do TB referente às oscilações de humor, como também uma ampla gama de condições médicas e psiquiátricas comórbidas, bem como deterioração neurocognitiva, relatadas como mais prevalentes em pacientes com TB em comparação com a população saudável. No que se refere a comorbidades, pacientes com TB desenvolvem, em sua maioria, morbidade e mortalidade cardiovascular (Angst et al., 2002; Birkenaes et al., 2007). Seria possível alegar que essa é uma consequência da intervenção psiquiátrica, o que de fato é, em certa medida, no que tange ao tratamento com antipsicóticos atípicos. Todavia, muitos relatos defendem uma associação independente entre distúrbios cardiovasculares e TB (Garcia- Portilla et al., 2009). Além disso, a prevalência de comorbidade psiquiátrica é elevada em pacientes com TB, sendo os transtornos por uso de substâncias e os transtornos de ansiedade as mais frequentes (Merikangas et al., 2007; Mantere et al., 2010). O TB também foi associado a déficits neurocognitivos significativos em todos os estados de humor, bem como em eutimia (Martinez-Aran et al., 2004b). Essa disfunção parece estar relacionada à gravidade da doença, à presença de sintomas psicóticos, a uma maior duração da doença e a um número mais elevado de episódios maníacos (Robinson e Ferrier, 2006). As consequências sistêmicas do TB, que abrangem comorbidades e déficits neurocognitivos, podem ser estudadas a partir do conceito de carga alostática (Kapczinski et al., 2008; Grande et al., 2012). Sterling e Eyer (1988) foram os primeiros a empregar o termo alostase e, nos anos subsequentes, McEwen e Stellar (1993) empregaram o termo para definir um conceito mais amplo de estresse e suas consequências. Alostase é a capacidade de atingir estabilidade por meio de mudanças produzidas por mecanismos adaptativos que ajudam o indivíduo a lidar com as situações da vida diária. O termo utilizado para definir as consequências sistêmicas desses mecanismos adaptativos é carga alostática (CA). Neste capítulo, retrataremos os conceitos de alostase, CA e sobrecarga alostática (SA), bem como suas aplicações a doenças neuropsiquiátricas, especialmente TB, com a finalidade de explanar o impacto dos transtornos mentais sobre o organismo. ENFRENTAMENTO DE EVENTOS DE VIDA: ALOSTASE E CARGA ALOSTÁTICA O cérebro é o órgão fundamental na orquestração da resposta ao estresse. Ele também controla as respostas comportamentais e fisiológicas, as quais são tão importantes quanto as próprias experiências estressantes para o desenvolvimento de CA (McEwen, 2008) (Fig. 3.1). FIGURA 3.1 Resposta ao estresse e alostase: a percepção de estresse é influenciada por diferenças individuais na constituição (genética, desenvolvimento, experiência) e no comportamento (enfrentamento e hábitos de saúde), os quais, em última análise, modulam a resiliência individual ao estresse. Quando o cérebro percebe um evento como estressante, respostas fisiológicas são iniciadas principalmente por meio da liberação de glucocorticoides e catecolaminas pelo eixo hipotalâmico-hipofisário- suprarrenal (HHS) e pelo eixo simpaticossuprarrenal-medular (SAM), respectivamente, o que leva ao processo de alostase adaptativa. Se a carga alostática (CA) aumenta drasticamente ou se torna crônica, a resiliência não é suficiente. A CA se torna sobrecarga alostática (SA), a qual não tem um propósito útil e, ao contrário, predispõe o indivíduo a envelhecimento acelerado e doenças. HTM = hipotálamo; AMG = amígdala; CPF = córtex pré-frontal; GCs = glucocorticoides; CTCs = catecolaminas. Além disso, diferenças pessoais específicas também desempenham um papel de extrema importância na resposta ao estresse (Korte et al., 2005), com base nas experiências do indivíduo durante a vida. Por exemplo, experiências positivas ou negativas na escola, no trabalho ou em relacionamentos interpessoais podem alterar a tendência de um indivíduo a uma resposta positiva ou negativa em uma nova situação (McEwen, 2008). Uma dessas experiências, por exemplo, pode estar relacionada a baixo afeto familiar, conhecido por produzir problemas emocionais duradouros em crianças (Repetti et al., 2002). Modelos com animais foram úteis, proporcionando insight sobre mecanismos comportamentais e fisiológicos. Em roedores, cuidados maternos no início da vida são um poderoso determinante da reatividade hormonal ao estresse e, portanto, da reatividade emocional ao longo de toda a vida na prole, bem como em gerações futuras (Francis et al., 1999; Cavigelli e McClintock, 2003). Todos esses eventos podem produzir efeitos no funcionamento e na estrutura cerebrais, os quais podem ser observados mais tarde durante a vida, podendo aumentar o risco de desenvolvimento de transtornos psiquiátricos (Kaufman et al., 2000; Vermetten et al., 2006). Em particular, experiências no início da vida podem ter um peso ainda maior em termos de como um indivíduo reage a novas situações, visto que abusos físico e sexual no início da vida sabidamente conduzem a um risco aumentado de problemas comportamentais e fisiopatológicos (Garno et al., 2005; Leverich e Post, 2006). O cérebro avalia a ameaça e a execução de uma ação por meio da regulação no hipocampo, na amígdala e no córtex pré-frontal (McEwen, 2007; Jankord e Herman, 2008). Sabe-se que o estresse crônico induz a hiperativação da amígdala, intensificando o medo não aprendido dependente da amígdala, o condicionamento ao medo e a agressividade (McEwen, 2004). No TB, foram descritas anormalidades no processamento emocional envolvendo esse circuito e um aumento da amígdala foi relatado como a anormalidade neuroestrutural mais proeminente (Phillips e Vieta, 2007; Strakowski et al., 2012; Townsend e Altshuler, 2012). Resultados semelhantes também foram encontrados em neuroimagens funcionais, as quais indicam aumento de atividade na amígdala durante episódios de humor agudos e conectividade disfuncional entre o córtex pré-frontal ventral e a amígdala em estado de repouso (Versace et al., 2010; Pomarol-Clotet et al., 2012). Ao desempenhar tarefas dependentes da amígdala, indivíduos maníacos e deprimidos demonstraram alterações em testes de reconhecimento facial, identificando expressões faciais de forma menos precisa do que indivíduos bipolares eutímicos ou sujeitos saudáveis (Chen et al., 2006). Demonstrou-se também que pacientes com mania ou depressão bipolar podem apresentar aumento nas respostas subcorticais e corticais pré-frontais ventrais a expressões faciais de emoção, tanto positivas quanto negativas, quando comparados a controles saudáveis e pacientes com depressão maior. No que se refere à memória emocional episódica, há registros de que pacientes com TB não apresentam intensificação da memória para o conteúdo emocional de uma história e qualificaram erroneamente informações neutras como emocionais, ao contrário dos sujeitos de controle (Kauer-Sant’Anna et al., 2008). Esses achados sugerem que a amígdala eseus circuitos relacionados parecem demasiadamente ativos, porém disfuncionais, em pacientes com TB. Portanto, é provável que o sistema de entrada que codifica as experiências como estressantes esteja demasiadamente ativo ou defeituoso em pacientes com TB. Essa disfunção deixaria pacientes bipolares mais vulneráveis ao estresse e às suas consequências neurobiológicas. Pelo fato de o cérebro ser o maior regulador dos sistemas neuroendócrino, autônomo e imune, bem como do comportamento, alterações na função cerebral devido ao estresse crônico podem ter efeitos diretos e indiretos sobre a CA. Essas alterações podem induzir remodelação neural, atrofia ou hipertrofia possivelmente em nível sináptico ou dendrítico (Radley et al., 2006; Sotiropoulos et al., 2008; Bessa et al., 2009; Dias-Ferreira et al., 2009; Yu et al., 2010). Ameaças reais ou assim percebidas no cérebro iniciam a secreção de glucocorticoides pelo eixo hipotalâmico-hipofisário-suprarrenal (HHS) e a liberação de catecolaminas pelo eixo simpaticossuprarrenal- medular (SAM), que mobilizam a energia necessária para respostas de luta ou fuga, aumentando a CA com a finalidade de alcançar o equilíbrio alostático (Sapolsky et al., 2000) (Fig. 3.1). Por um lado, os mecanismos de adaptação são protetores para obter alostase; por outro lado, a adaptação é o preço que se paga para esse restabelecimento forçado de parâmetros enquanto o corpo é obrigado a enfrentar situações psicossociais ou físicas adversas. A CA representa a presença de estresse demasiado ou a ineficiência do sistema de resposta hormonal ao estresse. Quando mediadores de alostase não são desligados no momento em que o estresse acaba, por exemplo, quando não são ligados de maneira adequada durante o estresse ou quando são utilizados excessivamente por muitos estressores (McEwen, 1998). Conforme já mencionado, os eixos HHS e SAM desempenham um papel principal na alostase. Quando são agudamente adaptativos, sua superativação crônica induz um “efeito dominó” de sistemas biológicos interligados que fazem uma supercompensação e, por fim, entram em colapso, deixando o organismo suscetível a futuras doenças relacionadas ao estresse (McEwen, 1998; Juster et al., 2010). Até certo ponto, os mecanismos relacionados à alostase são uma resposta a demandas internas e externas (McEwen, 2000). Contudo, quando há cargas extras, a CA pode aumentar. Quando a carga adicional cresce drasticamente com maior frequência devido a eventos imprevisíveis, a CA se torna SA, a qual, ao contrário da CA, não detém mais um propósito útil e predispõe o indivíduo a doenças (Fig. 3.1). Por exemplo, o aumento fisiológico agudo de glucocorticoides promove alostase por meio da regulação da disponibilidade de energia, conforme já mencionado. Contudo, níveis elevados crônicos de esteroides suprarrenais resultantes da superativação do eixo HHS podem induzir resistência à insulina, diabetes, obesidade, aterosclerose e hipertensão. Na realidade, descreveu-se que pacientes com CA elevada apresentam maior risco de doença cardiovascular incidente, declínio físico e cognitivo e mortalidade de todas as causas em estudos transversais e de acompanhamento (Seeman et al., 1997, 2001, 2004; Karlamangla et al., 2002, 2005, 2006; Juster et al., 2010). Como destacou McEwen (2005), há diferenças entre “estar estressado e ser estressado”. Os estados alostáticos são engendrados por diversos fatores, como mediadores de catecolaminas, glucocorticoides, citocinas inflamatórias e estresse oxidativo, os quais interagem de forma não linear (McEwen, 1998; Juster et al., 2010). Eles representam os mediadores primários (McEwen, 2003a) e podem ser classificados como biomarcadores. Efeitos sinérgicos dessas moléculas manifestam efeitos primários sobre atividades celulares de enzimas, receptores, canais iônicos ou mesmo sobre o genoma, que comprometem a integridade fisiológica dos mecanismos alostáticos. Com o decorrer do tempo, os sistemas biológicos subsidiários compensam a produção excessiva e/ou insuficiente dos mediadores primários que, por sua vez, mudam os próprios âmbitos de operação para manter a menor intensidade de funções químicas de tecidos e de órgãos. Esse estado se caracteriza pelos resultados secundários, em que parâmetros metabólicos, cardiovasculares e imunes atingem níveis subclínicos e definem uma condição prodrômica. Em um estágio final, a culminação da desregulação fisiológica leva aos resultados terciários, definidos por transtornos e doenças que resultam da SA (Juster et al., 2010). Essa interação pode ser ilustrada pela secreção prolongada dos hormônios do estresse epinefrina (adrenalina), norepinefrina (noradrenalina) e cortisol, que podem falhar em sua capacidade de proteger o indivíduo sob estresse, passando a danificar o cérebro e o corpo (McEwen, 2007). Os hormônios do estresse e seus antagonistas, neste caso, a desidroepiandrosterona, em conjunto com citocinas pró-inflamatórias e anti- inflamatórias, como a interleucina-6 e o fator de necrose tumoral fator alfa, representam os biomarcadores da CA. Efeitos sinérgicos dessas moléculas induzem efeitos primários, os quais podem levar a condições pré-mórbidas com alterações em parâmetros como níveis de insulina, glicose, depósitos de gordura visceral e pressão sanguínea sistólica e diastólica. Caso essa situação seja mantida, o indivíduo pode desenvolver diabetes, distúrbios lipídicos ou hipertensão. Na natureza, alostase e CA são conceitos disseminados – os quais não são específicos para seres humanos – que fornecem uma explicação para as respostas adaptativas dos animais, como, por exemplo, os ursos, que ingerem grandes quantidades de alimento para estocar gordura corporal como fonte de energia durante a hibernação no inverno (Nelson, 1980). Essa acumulação de gordura antecipatória, a qual é útil para a sobrevivência durante o inverno, tem valor adaptativo importante, ainda que tenha impacto sobre a CA. Em zoológicos, a acumulação de gordura dos ursos que se alimentam por estarem entediados em cativeiro poderia exemplificar o estado fisiopatológico da SA. Seguindo essa linha de pensamento, até mesmo as situações naturalmente adaptativas, como a migração sazonal do salmão contra a correnteza do rio, por exemplo, podem levar a alterações no sistema imune, ao envelhecimento acelerado e, por fim, à morte de indivíduos pela preservação da espécie (Maule et al., 1989; McEwen e Wingfield, 2003; Götz et al., 2005; Navarro e Boveris, 2007). Níveis aumentados de hormônios do estresse (Vieta et al., 1997, 1999; Daban et al., 2006a), envelhecimento precoce (Yatham et al., 2009) e disfunção do sistema imune (Brietzke et al., 2009) também foram relatados entre pacientes com TB. Na seção seguinte, descrevemos a relação proposta entre CA e TB. CARGA ALOSTÁTICA NO TRANSTORNO BIPOLAR O conceito de CA foi instrumental para o estudo de patologias neuropsiquiá- tricas como doença de Alzheimer (Swaab et al., 2005), transtorno de estresse pós-traumático (Glover, 2006), transtorno por uso de substâncias (Zimmermann et al., 2007), depressão maior (McEwen, 2003b) e TB (Kapczinski et al., 2008), visto que forneceu uma ligação entre dimensões aparentemente distintas como disfunção cognitiva e “desgaste” corporal, relatados entre pacientes com transtornos mentais crônicos. Na área do TB, nosso grupo e outras equipes sugeriram que a CA pode fornecer um meio para compreender as consequências da exposição ao estresse crônico, como envelhecimento acelerado, deterioração cognitiva e doenças físicas (Fig. 3.2). FIGURA 3.2 Estado alostático durante a vida. O estado alostático é o equilíbrio entre estresse e resiliência. Quando há resistência ao estresse, o estado alostático basal é recuperado por meio de mecanismos de resiliência. Um indivíduo com uma base genética favorável, com um histórico sem traumas e com capacidades pessoais para lidar com problemas de forma bem-sucedida lida com estressores durante a vida sem que ocorram alterações drásticas no estado alostático. (a) No caso de pacientescom TB, a resiliência basal pode não ser tão favorável, e eventos estressantes podem facilitar a CA ou a SA na forma de episódios de humor. Isso pode ser exemplificado pelos dois cenários de evolução possíveis do TB: (b) progressão benigna, na qual há resiliência e capacidade de lidar com estressores diferentes no início, mas que, com o aumento da CA, resultam em episódios de humor, além de CA e SA cumulativas ou (c) evolução maligna, na qual há dificuldades em lidar com o estresse desde seu início. O prejuízo cognitivo também está relacionado à alostase. Na progressão benigna, espera-se que o prejuízo cognitivo seja raro; contudo, na forma maligna, ele se torna a regra. M = mania; m = hipomania; d = depressão; D = depressão maior. Ao se considerar o envelhecimento acelerado, o comprimento de telômeros é o ponto focal, visto que é considerado o “relógio molecular” da célula. Os telômeros ficam mais curtos com o tempo, e, quando se tornam criticamente curtos, o risco de apoptose aumenta e a proliferação se interrompe (Blasco, 2007). Em um estudo preliminar de envelhecimento acelerado usando um modelo de estresse crônico, Simon e colaboradores (2006) relatam o encurtamento do comprimento de telômeros equivalente a 10 anos de envelhecimento acelerado em pacientes com TB em comparação com controles. Recentemente, Elvsåshagen e colaboradores (2011) descreveram um encurtamento de telômeros em pacientes com TB tipo II. No que se refere à deterioração neurocognitiva, déficits em todos os estados de humor foram relatados (Martinez-Aran et al., 2004b). Os déficits cognitivos mais persistentes descritos na eutimia incluem prejuízo na atenção, na função executiva e na memória verbal (Martinez-Aran et al., 2004a; Mur et al., 2007; Bourne et al., 2013). Essas disfunções cognitivas podem refletir padrões anormais de ativação no cérebro, comprometendo o córtex pré- frontal e indicando desconexão cortical-subcortical-límbica como as causas subjacentes (Benabarre et al., 2005; Strakowski et al., 2012). Esses déficits não parecem específicos do TB, e seus padrões são muito semelhantes aos descritos em pacientes com outros transtornos mentais crônicos, como a esquizofrenia (Martinez-Aran et al., 2002; Balanzá-Martínez et al., 2005; Daban et al., 2006b). O TB implica um risco mais elevado de comorbidade médica, incluindo distúrbios vasculares, metabólicos, infecciosos, neurológicos e respiratórios (Kilbourne et al., 2004; Carney e Jones, 2006). Além disso, está associado a índices mais altos de causas naturais de morte (Angst et al., 2002). Essa situação gera custos na assistência de saúde quatro vezes maiores para pacientes com TB do que para pacientes não bipolares (Bryant-Comstock et al., 2002), que acabam usando uma parte considerável dos recursos a eles destinados no tratamento de doenças físicas (Gardner et al., 2006). Ademais, vários fármacos utilizados no tratamento do TB podem ser os responsáveis por uma maior comorbidade médica. Por exemplo, antipsicóticos de segunda geração estão associados a maior risco de ganho de peso e diabetes (McIntyre et al., 2001; Newcomer, 2006; Torrent et al., 2008). Pode-se argumentar que os motivos para comorbidade médica elevada consistem em acesso inadequado à assistência de saúde de qualidade, más escolhas de estilo de vida e efeitos adversos de tratamento (McIntyre, 2009). Contudo, é extremamente provável que a fisiopatologia por trás do TB estimule o desenvolvimento de uma variedade de condições médicas. Além dos distúrbios médicos, a ocorrência de comorbidades psiquiátricas foi relatada entre 50 e 70% dos pacientes com TB (Vieta et al., 2001). A presença de comorbidades está associada a um prognóstico mais desfavorável, com subtipos mais graves, início precoce, índices baixos de remissão, comportamento suicida, baixa resposta ao tratamento, má qualidade de vida e pior funcionamento (Vieta et al., 2001; McIntyre et al., 2008; Nery- Fernandes et al., 2009; Mantere et al., 2010). Um corpo de evidências cada vez maior indica que algumas das mudanças neuroadaptativas que ocorrem nos “sistemas cerebrais de estresse” em pacientes com transtornos aditivos (Koob, 2008) são comparáveis às descritas como associadas a CA no TB. Assim, o fardo extra da CA se traduz em prejuízo cognitivo, incapacidade e morte prematura (Soreca et al., 2009). Na realidade, a quantidade de episódios afetivos aumenta a vulnerabilidade a episódios subsequentes, bem como a uma resposta menor à farmacoterapia, como ao lítio (Swann et al., 1999) ou à olanzapina (Ketter et al., 2006), ou à intervenção psicológica, como a psicoeducação ou a psicoeducação familiar (Scott et al., 2006; Reinares et al., 2010). Na verdade, a noção de que episódios acumulativos se traduzem em psicopatologia mais grave remonta a Griesinger (1867). Portanto, esses novos fatos ajudam a estabelecer uma conexão entre observações clínicas históricas e a ciência emergente no campo da fisiopatologia. De modo geral, o conceito de CA é providencial para destacar a importância da intervenção o mais cedo possível, com a finalidade de impedir a transformação maligna de transtornos progressivos com o TB (Post, 1992). CONSIDERAÇÕES FINAIS Há evidências de que um percentual significativo de indivíduos com TB apresentam desregulação do eixo HHS nos hormônios do estresse, bem como catecolaminas alteradas. Essas mudanças podem ocorrer durante a eutimia, mas são mais pronunciadas durante os episódios de humor. Essas variações estão sendo estudadas atualmente e foram compiladas em um índice de toxicidade sistêmica (Kapczinski et al., 2010). Esses achados representam anormalidades em indicadores principais de CA, deixando o TB mais vulnerável ao envelhecimento precoce, a comorbidades médicas e psiquiátricas, bem como ao prejuízo cognitivo. A CA fornece um meio para compreender a reação à toxicidade crônica, enquanto a toxicidade aguda pode ser mais bem compreendida à luz do conceito de SA (Fig. 3.3). FIGURA 3.3 Alostase, carga alostática (CA) e sobrecarga alostática (SA): um símile gráfico seria o estado de uma árvore em uma região ventosa. A árvore vergaria em um estado adaptativo às condições ventosas (alostase), até que alguns ramos fossem danificados de tempos em tempos devido ao clima inclemente (CA). Contudo, uma tempestade violenta poderia arruinar a árvore, a qual levaria um longo tempo para se recuperar e continuaria com danos (SA). REFERÊNCIAS Angst F, Stassen HH, Clayton PJ, et al. (2002) Mortality of patients with mood disorders: follow-up over 34–38 years. J Affect Disord 68:167–181. Balanza-Martinez V, Tabares-Seisdedos R, Selva-Vera G, et al. (2005). Persistent cognitive dysfunctions in bipolar I disorder and schizophrenic patients: a 3-year follow-up study. Psychother Psychosom 74:113–119. 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Essa progressão está geralmente associada a vários resultados clínicos desfavoráveis, tais como intervalos interepisódios reduzidos, resposta inferior ao tratamento – especialmente com lítio e terapia cognitivo-comportamental –, índices mais elevados de comorbidade, prejuízos funcionais, maior risco de suicídio e hospitalização, bem como piores resultados relativos à psicoeducação familiar (Reinares et al., 2010; Berk et al., 2011a; Fries et al., 2012; Rosa et al., 2012). Ademais, o prejuízo cognitivo se agrava com episódios cumulativos e afeta funções executivas e outros testes cognitivos, como memória verbal, inibição de resposta, atenção sustentada, velocidade psicomotora, abstração e alternância cognitiva (Torres et al., 2007; López- Jamarillo et al., 2010). O termo “neuroprogressão” será utilizado neste capítulo como a reprogramação patológica do cérebro que acontece quando ocorre deterioração clínica e cognitiva no contexto da progressão do TB. Historicamente, podemos remontar às origens desse conceito nos escritos de Griesinger (1867): Geralmente ocorre que, nos pacientes que sucumbem à insanidade, [...] os ataques, com o decorrer do tempo, se tornam mais prolongados e mais graves, os intervalos de lucidez são mais breves e, a cada novo ataque, o prognóstico se torna mais desfavorável. Mais de cem anos depois, Post (1992) investigou diferentes caminhos relacionados à sensitização cruzada entre episódios de humor, estresse e abuso de drogas. Naquela publicação, postulou que as mudanças nesses domínios clínicos se traduziriam em alterações na neuroplasticidade que, por sua vez, forneceria a base biológica para a propensão a recorrências e piores resultados. Em uma análise mais recente (Post, 2007), o mesmo autor identificou dois mecanismos potencialmente importantes para a sensitização por episódios: Desse modo, pode haver dois tipos diferentes de mecanismos de sensitização por episódios: um poderia estar relacionado ao processo passivo de riscocelular geral que ocorre com a redução do BDNF [fator neurotrófico derivado do cérebro], com aumentos potenciais a cada episódio, enquanto o outro poderia ser um processo associativo ativo ou adquirido [...]. Esses e outros dados levaram Kapczinski e colaboradores a postularem que o BDNF poderia estar relacionado aos aspectos de progressão da doença induzida por episódios, uma vez que períodos de BDNF baixo podem intensificar a probabilidade de atrofia neuronal e até mesmo a possibilidade de morte celular por meio de apoptose. Essa visão está em consonância com os achados de Kapczinski e colaboradores de que espécies de oxigênio reativo associadas a dano de DNA também são maiores nos leucócitos dos pacientes durante episódios maníacos e depressivos, mas não em períodos eutímicos. Portanto, existe a possibilidade de que reduções relacionadas a episódios em fatores neuroprotetores (tais como o BDNF) e aumentos nos radicais livres e outras influências neurotóxicas possam colocar os indivíduos em risco de novos danos celulares como uma função da ocorrência de cada novo episódio, produzindo um mecanismo potencial para sensitização por episódios e progressão da doença. Reimpresso de Neuroscience and Biobehavioral Review, 31(6), Post, R.M., Kindling and sensitization as models for affective episode recurrence, cyclicity, and tolerance phenomena, pp. 858-873. Copyright (2007), com permissão de Elsevier. De modo a encontrar sentido no processo de risco celular que parecia ocorrer no grupo com episódios de humor, Kapczinski e colaboradores (2008) usaram o conceito de carga alostática (McEwen e Stellar, 1993). Consequentemente, as mudanças nas vias de inflamação, o estresse oxidativo e a disfunção autonômica exibidas no TB poderiam levar à carga alostática, ou seja, ao desgaste dos sistemas corporais e do tecido cerebral (Kapczinski et al., 2008). Nesse momento, tornou-se evidente que, além das mudanças constitutivas na neuroplasticidade sugeridas anteriormente por Robert Post (1992), novas alterações alostáticas ocorriam para induzir a reprogramação patológica do cérebro sugerida por Kapczinski e colaboradores (2009a). Esse conjunto de ideias foi reorganizado por Michael Berk (2009), que, então, cunhou o termo “neuroprogressão”. Em seguimento ao seu artigo seminal, Berk e colaboradores (2010) sugeriram um equilíbrio entre neuroprogressão e neuroproteção como fator- chave a ser considerado no campo da psiquiatria. Subsequentemente, postulou-se que a inflamação, o estresse oxidativo e a atividade de fatores de crescimento constituem as vias canônicas de neuroprogressão (Berk et al., 2011b). A essa altura, ficou claro para este grupo de autores que a neuroprogressão teria um uso mais amplo em psiquiatria, abrangendo as estruturas biológicas da progressão da doença em domínios diferenciais de psicopatologia. Quando este capítulo foi escrito, já haviam sido publicados 60 ensaios acerca do tópico neuroprogressão em áreas como esquizofrenia, intervenção precoce em transtornos afetivos, TB geriátrico, envelhecimento, obesidade e dependência de nicotina. Acreditamos que o conceito provou ser útil para compreender as mudanças multidimensionais descritas no contexto de progressão da doença em psiquiatria. Desse modo, a neuroprogressão parece, por um lado, ocorrer a partir de uma perspectiva constitutiva, no sentido de que os pacientes que experimentam episódios múltiplos, estresse e abuso de drogas podem desenvolver mudanças específicas na plasticidade neuronal que levam a apresentações clínicas mais complexas e refratárias (Post et al., 2012). Essas mudanças provavelmente estão relacionadas à marcação sináptica e a alterações metaplásticas, especialmente em neurônios dopaminérgicos. Por outro lado, sugeriu-se que a neuroprogressão ocorre a partir de uma perspectiva alostática. Mecanismos de carga alostática podem explicar a carga médica cumulativa associada a episódios de humor recorrentes e caracterizar o transtorno como uma condição relacionada ao estresse (Kapczinski et al., 2008). O estudo da base biológica da neuroprogressão tem potencial para ajudar na identificação de alvos relevantes de tratamento e manejo do transtorno. Nas seções a seguir, vamos revisar e abordar as alterações anatômicas que ocorrem com a progressão do TB, bem como os mecanismos celulares e bioquímicos potenciais a elas associados. EVIDÊNCIAS NEUROANATÔMICAS DE PROGRESSÃO Várias alterações neuroanatômicas foram relatadas em pacientes com TB, algumas das quais tendem a se tornar mais pronunciadas após episódios repetidos. Entre essas alterações, uma quantidade maior de episódios está relacionada a um déficit no volume do córtex pré-frontal, do córtex pré- frontal ventral e do cingulado anterior nos pacientes (López-Larson et al., 2002; Sassi et al., 2004). Além disso, alguns estudos demonstraram que a progressão da doença está associada a uma redução no volume do hipocampo e na substância cinzenta do lobo temporal, bem como a um aumento no volume de ventrículos laterais (Strakowski et al., 2002; Moorhead et al., 2007; Javadapour et al., 2010). Outrossim, uma redução no volume da substância cinzenta do córtex pré-frontal medial e orbital, do estriado ventral e do córtex mesotemporal também tende a se tornar mais pronunciada após vários episódios (López-Larson et al., 2002; Bora et al., 2010). A progressão neuroanatômica também pode ser encontrada em outras estruturas cerebrais, como o cerebelo. Sugeriu-se que um aumento na quantidade de episódios está associado a uma redução no volume do cerebelo, especialmente do vérmis (Mills et al., 2005; Monkul et al., 2008). Além disso, um aumento no volume da amígdala foi relatado no TB como uma função da duração da doença e de episódios maníacos anteriores (Altshuler et al., 2000; Bora et al., 2010). Um estudo de metarregressão também demonstrou que a trajetória do tamanho da amígdala aumenta com o desenvolvimento ou envelhecimento em pacientes com TB (Usher et al., 2010). Essa alteração neuroanatômica em particular pode explicar algumas características clínicas peculiares do TB, como prejuízo na memória emocional, agressividade, entre outros. Em geral, o volume cerebral total se mostrou menor em pacientes com vários episódios quando comparados com pacientes durante seu primeiro episódio e sujeitos de controle (Frey et al., 2008). Contudo, sugeriu-se que o TB não é um transtorno neurodegenerativo, mas está, na verdade, associado a prejuízos na neuroplasticidade (Grande et al., 2010; Jakobsson et al., 2013). Nesse sentido, a diminuição das estruturas cerebrais pode ser o resultado de conexões reduzidas entre células neuronais e gliais, em vez de simplesmente morte celular. Na verdade, um estudo post-mortem relatou níveis reduzidos de marcadores sinápticos no hipocampo de pacientes com TB como uma função da duração da doença (Eastwood e Harrison, 2001). Justificam-se novos estudos com imagens e estudos post-mortem para uma melhor compreensão das alterações neuroanatômicas que ocorrem com a progressão do TB. Não obstante, essas alterações já sugerem que uma série de mecanismos biológicos sofre modificação com o aumento na quantidade de episódios que, por fim, leva a mudanças neuroanatômicas (Fig. 4.1). Essas mudanças são, portanto, responsáveis por alterar o comportamento do paciente, possivelmente deixando-o mais vulnerável a estressores, conforme abordado na próxima seção. FIGURA 4.1 Cross-talk entre alterações neuroanatômicas e bioquímicas que ocorrem juntamente com a progressão do TB. A relação causal entre esses mecanismos ainda é desconhecida. BDNF, fator neurotrófico derivado do cérebro; RE, retículo endoplasmático; RPND, resposta a proteínas não dobradas. *Indica mecanismos propostos que necessitam de confirmação em pacientes em estágios iniciais em contraposição a pacientes em estágios finais. MECANISMOS BIOLÓGICOS DE NEUROPROGRESSÃO A contribuição de estresse e cortisol Estudos iniciais sobre o TB descrevem um fenômeno de sensitização por estresse em pacientes nos quaisos primeiros episódios são frequentemente desencadeados por estresse psicossocial, mas terminam por ocorrer de forma autônoma após uma quantidade suficiente de recidivas (Post et al., 2012). Essa sensitização, juntamente com a sobrecarga alostática, indica a relevância do estresse e sua modulação no curso do TB. O cortisol é um dos principais mediadores da carga alostática, e sua liberação é controlada por um eixo fisiológico hormonal conhecido como “eixo hormonal do estresse”, ou eixo hipotalâmico-hipofisário-suprarrenal (HHS).O eixo HHS apresenta-se claramente alterado nos transtornos do humor, e anormalidades nos níveis de cortisol foram relatadas em pacientes com transtorno depressivo maior (TDM) e TB (Daban et al., 2005). Uma proporção elevada de pacientes com TDM e TB suprime de forma ineficiente a liberação de cortisol em resposta ao teste de supressão com dexametasona (DST) (Watson et al., 2004; Daban et al., 2005). Somado a isso, demonstrou- se que eles apresentam aumento nos níveis séricos de cortisol, independentemente da fase da doença. Essas observações indicam uma retroalimentação negativa prejudicada no eixo HHS, a qual persiste mesmo depois da remissão de depressão aguda, podendo até mesmo constituir um valor prognóstico. Por exemplo, pacientes que apresentam anormalidades no eixo HHS são mais suscetíveis a recaídas depressivas durante a remissão, seja em depressão unipolar ou bipolar (Varghese e Brown, 2001). Além da já conhecida disfunção no eixo HHS em depressão, evidências sugerem que essa disfunção também ocorre durante a mania. Estudos anteriores que usaram o DST apontam uma alteração na função de glucocorticoides em episódios maníacos com características mistas (Evans e Nemeroff, 1983; Krishnan et al., 1983; Godwin, 1984; Swann et al., 1992). Pacientes com mania aguda mostram maior resposta ao teste quando comparados com controles saudáveis, mesmo após a remissão dos sintomas (Schmider et al., 1995). Da mesma forma, outro estudo conseguiu prever recaídas maníacas com base no teste de simulação do hormônio liberador de corticotropina (CRH) em pacientes com TB em remissão (Vieta et al., 1999). Estudos com perfis de secreção de cortisol também relataram mudanças no eixo HHS durante a mania (Linkowski et al., 1994; Cervantes et al., 2001). Nessa mesma linha, os níveis plasmáticos de cortisol se mostraram significativamente elevados durante a noite em pacientes maníacos quando comparados com controles saudáveis (Linkowski et al., 1994). Essa deficiência do eixo HHS em regular a circulação de cortisol resulta em um mecanismo que estimula o aumento dos níveis de cortisol durante episódios de estresse e em uma redução na capacidade de retornar às condições de repouso (Galigniana et al., 2012). Na realidade, relatou-se também que essa disfunção do eixo HHS ocorre com a progressão da doença (Fries et al., 2014). Esses níveis aumentados de cortisol podem ter consequências importantes em longo prazo em pacientes com TB, as quais serão abordadas mais aprofundadamente em seções subsequentes. Além das alterações na neuroplasticidade, um eixo HHS disfuncional pode alterar diversos aspectos do ritmo circadiano, incluindo a regulação do sono. A maioria desses parâmetros foi associada à fisiopatologia e à neuroprogressão do TB e, portanto, justifica estudos mais detalhados. Até o momento, nenhum estudo avaliou o funcionamento do eixo HHS no que se refere à progressão do TB. Contudo, considerando-se a redução da resiliência que ocorre conforme os episódios se tornam recorrentes, é plausível supor que o eixo HHS possa desempenhar um papel significativo na neuroprogressão do TB. Na verdade, um eixo HHS disfuncional pode ser um mecanismo explanatório por meio do qual os pacientes apresentam menor enfrentamento e maior reatividade ao estresse juntamente com a progressão do transtorno. Ele também pode ser um dos mecanismos pelos quais alguns pacientes de mesma faixa etária estão propensos a progredir de forma mais rápida que outros, desempenhando um papel fundamental na suscetibilidade de sujeitos em risco ultraelevado e de seus mecanismos para lidar com o estresse. Alterações em neurotransmissores Além do cortisol há, hoje, evidências substanciais de que outros sistemas desempenham papéis fundamentais na fisiopatologia do TB, incluindo níveis e funções de neurotransmissores. Muito poucos estudos se concentraram nas alterações desses sistemas ao longo do curso do transtorno; a maioria preocupou-se em examinar sua relevância em episódios agudos e na remissão. Apesar disso, ao apresentar mudanças específicas em episódios agudos, esses sistemas de neurotransmissores podem levar a prejuízos nas vias de sinalização celular e a estresse oxidativo, geralmente associados à neuroprogressão do TB, a maioria dos quais será abordada nas seções seguintes. Sugeriu-se que o excesso de dopamina está envolvido no desenvolvimento de sintomas maníacos, e agentes indutores de dopamina, como a anfetamina, foram utilizados para induzir modelos animais de mania em roedores (Joyce et al., 1995; Anand et al., 2000; Frey et al., 2006; Cousins et al., 2009). Enquanto isso, os antagonistas da dopamina em geral apresentam efeitos antimaníacos, ao passo que se sabe que fármacos estabilizadores do humor, como o lítio e o valproato, compartilham ações na transmissão de dopamina (Yatham et al., 2002). Em consequência, a dopamina em excesso pode ser oxidada, induzindo a formação de moléculas oxidantes tóxicas e causando, assim, disfunções celulares. Este pode ser um dos mecanismos por meio do qual os pacientes apresentam aumento do estresse oxidativo durante os episódios de humor. O glutamato também foi implicado no TB, principalmente devido ao fato de que estabilizadores do humor podem modular suas funções (Zarate et al., 2010). Alguns estudos mostram que os níveis de glutamato diminuem após o tratamento de episódios agudos, tendo sido relacionados à gravidade dos sintomas (Frye et al., 2007; Yoon et al., 2009). Ademais, o glutamato em excesso pode levar à excitotoxicidade e ao influxo de cálcio, resultando, por fim, em algumas das características da fisiopatologia do TB. Por exemplo, pacientes com TB apresentam aumento nos marcadores de excitotoxicidade no córtex frontal post-mortem (Rao et al., 2010), alguns dos quais podem ser aliviados por estabilizadores do humor in vitro. Essa ocorrência foi descrita em estudos que demonstraram que o lítio e o valproato são capazes de proteger os neurônios corticais cerebrais de ratos contra a excitotoxicidade de glutamato (Hashimoto et al., 2002; Shao et al., 2005). Observa-se que um estudo recente não encontrou diferenças nos níveis de glutamina + glutamato em pacientes após o primeiro episódio maníaco (Gigante et al., 2014), o que sugere que as alterações glutamatérgicas não são uma característica do TB em seu início, podendo ocorrer apenas no contexto da progressão da doença. Mecanismos de resiliência celular Considerando a resiliência celular como a capacidade de adaptação das células a diferentes crises ou episódios de estresse, a resiliência celular prejudicada pode ser um dos possíveis mecanismos que levam a uma maior vulnerabilidade dos pacientes a eventos estressantes. Na realidade, vários estudos demonstraram que pacientes com TB apresentam alterações nas vias de sinalização celular, incluindo neurotransmissores, cascatas tróficas, fatores antiapoptóticos, vias de sobrevivência celular, sinalização de cálcio, entre outros (Hunsberger et al., 2009; Fries et al., 2012; Pfaffenseller et al., 2013). Essas alterações podem reduzir a capacidade das células de lidar com estímulos extracelulares e, em última análise, influenciar a forma como os pacientes respondem a eventos ambientais. Entre várias alterações, uma hiperatividade na dinâmica de cálcio intracelular foi encontrada em células sanguíneas periféricas de pacientes com TB (Perova et al., 2008). Estudos utilizando neuroimagem também relatam níveis menores de N -acetil-aspartato no cérebro vivo desses pacientes (StorkBrain Center Rudolf Magnus, Utrecht, Países Baixos. Marcia Kauer-Sant’Anna Laboratório de Psiquiatria Molecular, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Porto Alegre, Brasil. María Lacruz Hospital Francesc de Borja, Valência, Espanha. María Reinares IDIBAPS, Programa de Transtornos Bipolares, Hospital Clinic, University of Barcelona, CIBERSAM, Barcelona, Espanha. Marion Leboyer Université Paris-Est, INSERM U955, Psiquiatria Genética, Créteil, França. Maurício Kunz Laboratório de Psiquiatria Molecular, Centro de Pesquisas, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Programa de Pós-graduação em Medicina – Psiquiatria, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil. Rafael Tabarés-Seisdedos Departamento de Medicina, University of Valência, CIBERSAM, Valência, Espanha. Ralph W. Kupka Altrecht Institute for Mental Health Care e University Medical Center Utrecht, Utrecht, Países Baixos. Robert M. Post Bipolar Collaborative Network, Bethesda, MD, Estados Unidos. Roberto B. Sassi Departamento de Psiquiatria e Neurociências Comportamentais, McMaster University, Hamilton, ON, Canadá. Roger McIntyre UHN, Toronto Western Hospital, Toronto, ON, Canadá. Romain Icick CSAPA Espace Murger, Serviço de Psiquiatria de Adultos, Grupo Hospitalar Saint-Louis – Lariboisiere – Fernand Widal, Assistência pública – Hospitais de Paris, Paris, França. Sergio A. Strejilevich Programa de Transtornos Bipolares, Departamento de Psiquiatria, Instituto de Neurociências da Fundación Favaloro, Buenos Aires, Argentina. Vicent Balanzá-Martínez Departamento de Medicina, University of Valência, CIBERSAM, Valência, Espanha. Xenia Gonda Departamento Clínico e Teórico de Saúde Mental, Faculdade de Medicina, Semmelweis University, Budapeste, Hungria. PREFÁCIO Este belo livro é o produto principal da Força-tarefa para Estadiamento da - International Society of Bipolar Disorders (ISBD). No papel de foro interna- cionalmente reconhecido, a missão da ISBD é promover a colaboração inter- nacional contínua para o avanço no tratamento de todos os aspectos dos transtornos bipolares, levando a melhorias em resultados/qualidade de vida para indivíduos com transtorno bipolar e seus entes queridos. Esse objetivo é alcançado não apenas por meio da organização, todos os anos, da maior conferência internacional sobre transtorno bipolar, mas também por meio de suas diversas forças-tarefa: atualmente oito finalizadas e 12 em andamento. Elas representam as principais atividades de pesquisa da Sociedade, cada uma com enfoque em um tema distinto e com o objetivo de analisar e sintetizar evidências, geralmente na forma de declarações de posicionamento e publicações relacionadas. A força-tarefa para Estadiamento teve início quando – inspirados pela obra de McGorry e colaboradores (2006) sobre estadiamento da esquizofrenia – os primeiros modelos para estadiamento do transtorno bipolar foram desenvolvidos por, entre outros, Berk e colaboradores (2007) e Kapczinski e colaboradores (2009), cada grupo com uma abordagem distinta, com enfoque no desenvolvimento e curso episódico da doença (Berk et al., 2007) em contraposição ao avanço no prejuízo funcional interepisódico (Kapczinski et al., 2009). Assim como em outras forças-tarefa, identificou-se imediatamente que um modelo de estadiamento ajudaria a compreender o desenvolvimento e as consequências da doença, e que os dois modelos poderiam complementar um ao outro. Portanto, essa iniciativa conjunta para unir as duas perspectivas em uma força-tarefa foi recebida com grande entusiasmo. Na qualidade de antigo presidente da ISBD, envolvemo-nos na busca pelo local acertado para o relato (abreviado) da força-tarefa: a publicação na Acta Psychiatrica Scandinavica (Kapczinski et al., 2014). Subsequentemente, este livro nos causou grande satisfação e orgulho, uma prova real da cooperação internacional entre 45 autores de 12 países em três continentes. Esta obra apresenta não apenas as diferentes abordagens, conforme indicado, mas também eleva o debate a uma perspectiva mais ampla, com capítulos sobre pesquisas e (possíveis) implicações clínicas, incluindo cognição, neuroprogressão, neuroproteção, biomarcadores, geração de imagens e diferenças/indicações específicas de estágios para tratamento. Gostaria de agradecer a todos os autores e a todos os membros da força-tarefa por seus esforços! Willem A. Nolen Presidente ISBD, 2012-2014 REFERÊNCIAS Berk M, Hallam KT, McGorry PD. (2007) The potential utility of a staging model as a course specifier: a bipolar disorder perspective. J Affect Disord 100:279–281. McGorry PD, Hickie IB, Yung AR, et al. (2006) Clinical staging of psychiatric disorders: a heuristic framework for choosing earlier, safer and more effective interventions. Aust NZ J Psychiat 40:616–622. Kapczinski F, Dias VV, Kauer-Sant’Anna M, et al. (2009) Clinical implications of a staging model for bipolar disorders. Expert Rev Neurother 9:957–966. Kapczinski F, Magalhaes PV, Balanza-Martinez V, Dias VV, Frangou S, Gama CS, Gonzalez-Pinto A, Grande I, Ha K, Kauer-Sant’Anna M, Kunz M, Kupka R, Leboyer M, Lopez-Jaramillo C, Post RM, Rybakowski JK, Scott J, trejilevitch S, Tohen M, Vazquez G, Yatham L, Vieta E, Berk M. (2014) Staging systems in bipolar disorder: an International Society for Bipolar Disorders Task Force Report. Acta Psychiatr Scand 130:354–363. SUMÁRIO CAPÍTULO 1 Estadiamento clínico no transtorno bipolar: Uma perspectiva histórica Robert M. Post CAPÍTULO 2 Sistemas de estadiamento do transtorno bipolar Ralph W. Kupka, Manon H. J. Hillegers e Jan Scott CAPÍTULO 3 Carga alostática e envelhecimento acelerado no transtorno bipolar Iria Grande e Flávio Kapczinski CAPÍTULO 4 Neuroprogressão e bases biológicas para estadiamento do transtorno bipolar Gabriel R. Fries, Pedro V. S. Magalhães, Flávio Kapczinski e Michael Berk CAPÍTULO 5 Funcionamento e progressão da doença no transtorno bipolar Adriane R. Rosa, Clarissa S. Gama e Eduard Vieta CAPÍTULO 6 Cognição e progressão da doença no transtorno bipolar Anabel Martinez-Aran, Caterina del Mar Bonnin, Carla Torrent, Brisa Solé, Imma Torres e Esther Jiménez CAPÍTULO 7 Cognição social e estadiamento do transtorno bipolar Sergio Strejilevich e Diego J. Martino CAPÍTULO 8 Temperamentos afetivos: Estágios latentes potenciais dos transtornos bipolares Gustavo H. Vázquez e Xenia Gonda CAPÍTULO 9 Neuroimagem e progressão da doença Benicio N. Frey, Luciano Minuzzi, Bartholomeus C. M. Haarman e Roberto B. Sassi CAPÍTULO 10 Biomarcadores da progressão da doença no transtorno bipolar Aroldo A. Dargél e Marion Leboyer CAPÍTULO 11 Adversidade na infância e progressão da doença no transtorno bipolar Joana Bücker, Marcia Kauer-Sant’Anna e Lakshmi N. Yatham CAPÍTULO 12 Comorbidades médicas vasculares e metabólicas e neuroprogressão no transtorno bipolar Anusha Baskaran, Benjamin I. Goldstein e Roger McIntyre CAPÍTULO 13 Uso indevido de substâncias no estadiamento do transtorno bipolar Romain Icick e Frank Bellivier CAPÍTULO 14 Excelentes respondedores ao lítio, resiliência e estadiamento do transtorno bipolar Janusz K. Rybakowski CAPÍTULO 15 Estadiamento e intervenção precoce no transtorno bipolar Vicent Balanzá-Martínez, María Lacruz e Rafael Tabarés-Seisdedos CAPÍTULO 16 Tratamento farmacológico do transtorno bipolar em estágio final Aline André Rodrigues e Maurício Kunz CAPÍTULO 17 Progressão da doença e intervenções psicossociais no transtorno bipolar María Reinares e Francesc Colom CAPÍTULO 18 Sistemas de estadiamento do transtorno bipolar: Achados atuais, rumos futuros e implicações na prática clínica Flávio Kapczinski, Eduard Vieta, Pedro V. S. Magalhães e Michael Berk Conheça também Grupo A ESTADIAMENTO CLÍNICO NO TRANSTORNO BIPOLAR: UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA Robert M. Post INTRODUÇÃO Kraepelin (1921) esteve entre os primeiros a colocar implicitamente em estágios o desenvolvimento e a evolução do transtorno bipolar, e o fez de diversas maneiras. Com base em representações gráficas minuciosase Renshaw, 2005), o que corrobora a hipótese de que indivíduos com TB apresentam prejuízo na função e na viabilidade neuronal. Ademais, células do neuroepitélio olfativo de pacientes com TB mostraram aumento na vulnerabilidade à morte celular quando comparadas às de controles saudáveis (McCurdy et al., 2006). Essa ocorrência possivelmente está ligada à ativação de glicogênio sintase quinase-3 β (GSK-3 β) pela proteinoquinase C (PKC), o que leva à fosforilação de β -catenina e aumenta a suscetibilidade da célula à apoptose. O lítio, estabilizador do humor utilizado com maior frequência para o tratamento do TB, pode inibir o GSK- 3 β e aumentar a expressão de proteínas antiapoptóticas, atrapalhando, assim, esse processo (Brown e Tracy, 2013). Revelou-se, ainda, que vários marcadores apoptóticos aumentaram em pacientes com TB, incluindo maior dano de DNA no sangue periférico (Andreazza et al., 2007a), atividade sérica apoptótica (Politi et al., 2008), expressão de moléculas envolvidas na morte/sobrevivência celular (Benes et al., 2006; Herberth et al., 2011), bem como disfunção mitocondrial (Shao et al., 2008). Além disso, células mononucleares do sangue periférico de pacientes com TB mostraram a presença de uma porcentagem maior de células apoptóticas precoces em comparação com as de controles (Fries et al., 2014). Provavelmente, esse aumento na morte celular e a redução da resiliência celular podem ser consequência de estresse crônico. Estudos in vitro e com animais demonstraram que estresse crônico e exposição crônica a níveis elevados de glucocorticoides podem levar a disfunções mitocondriais, incluindo redução no consumo de oxigênio, no potencial da membrana mitocondrial e na capacidade de armazenamento de cálcio (Du et al., 2009; Gong et al., 2011). As mitocôndrias prejudicadas podem induzir a abertura do poro de transição da permeabilidade mitocondrial e, assim, liberar citocromo c do espaço intermembranoso, suscitando cascatas apoptóticas. Até o momento, nenhum estudo avaliou o efeito direto da progressão do TB sobre as funções mitocondriais, o que provavelmente será esclarecido por meio da análise dos parâmetros mitocondriais em pacientes em estágios iniciais e finais. Ademais, as evidências de prejuízo no funcionamento mitocondrial apontam para uma função essencial dessa organela no funcionamento sináptico, contribuindo, assim, com as mudanças atróficas por trás da neuroprogressão do TB. Embora apenas alguns estudos tenham examinado a resiliência celular no TB no que se refere ao estágio da doença, há evidências consistentes de que os níveis de marcadores sinápticos subcelulares de neuroplasticidade não apenas se encontram reduzidos no córtex cingulado anterior dos pacientes, como também estão correlacionados com a duração da doença (Eastwood e Harrison, 2001). Essa característica pode ser explicada por meio de uma redução potencial na neuroplasticidade, a qual é corroborada por estudos sobre fatores neurotróficos no TB. Ademais, outros mecanismos celulares, como o estresse do retículo endoplasmático (RE), podem ser responsáveis pelo aumento da vulnerabilidade das células ao estresse. Por exemplo, as células mononucleares do sangue periférico de pacientes em estágio inicial responderam melhor ao estresse do RE induzido in vitro (com indução de proteína regulada por glicose de 78 kDa [GRP78] e fator 2 eucariótico de iniciação fosforilado [eIF2 α -P], proteínas essenciais na ativação da sinalização de resposta ao estresse do RE), em comparação a pacientes em estágio final (Pfaffenseller et al., 2014). Os mecanismos que levam a essas alterações intracelulares podem ser ligados a mudanças periféricas, como em fatores neurotróficos, estresse oxidativo e inflamação. Diferenças na resiliência celular também poderiam ser programadas por mecanismos genéticos e epigenéticos, uma vez que estímulos genéticos e ambientais interagem para prever respostas celulares distintas diante de estressores. Neurotrofinas A família das neurotrofinas é composta por vários fatores reguladores que mediam a sobrevivência e a diferenciação neuronal, além de modular a transmissão e plasticidade sinápticas. Em mamíferos, os membros da família incluem fator de crescimento neural (NGF), fator neurotrófico derivado das células gliais (GDNF), fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), neurotrofina-3 (NT-3) e neurotrofina-4/5 (NT-4/5). Entre esses, o BNDF é o fator neurotrófico mais abundante no sistema nervoso central de seres humanos adultos, sendo capaz de induzir efeitos neurotróficos e neuroprotetores em longo prazo. Os níveis cerebrais de BDNF diminuem em ratos após estresse crônico (Gray et al., 2013), e sua expressão aumenta em diferentes regiões do cérebro após o tratamento crônico com estabilizadores do humor e antidepressivos (Hunsberger et al., 2009). Ademais, tarefas de aprendizado estão associadas a um aumento nos níveis de BDNF, que também contribui para a potenciação em longo prazo (Gómez--Palacio- Schjetnan e Escobar, 2013). Essas ações são mediadas pela capacidade do BDNF de se ligar ao receptor B de tirosina quinase (TrkB) que, ao se ligar, ativa cascatas de sinalização de células protetoras, incluindo vias de fosfolipase C gama, proteína quinase regulada por sinal extracelular (Erk) e fosfatidilinositol 3-quinase (PI3K) (Grande et al., 2010). Evidências sugerem que há um desequilíbrio nos níveis periféricos de BDNF no TB. Foi demonstrado que os níveis séricos de BDNF são menores em pacientes com TB durante episódios maníacos e depressivos e foram correlacionados negativamente à gravidade dos sintomas (Cunha et al., 2006; Machado-Vieira et al., 2007a; Fernandes et al., 2011). Além disso, a remissão de sintomas foi associada à normalização dos níveis séricos de BDNF (Tramontina et al., 2009), o que sugere que essa proteína pode ser um marcador de atividade da doença no TB. Desse modo, provou-se que seus níveis são menores em pacientes em estágios finais em comparação com pacientes em estágios iniciais, o que está correlacionado negativamente à quantidade de episódios (Kauer-Sant’Anna et al., 2009). Esses dados conduziram à hipótese de que as mudanças relacionadas ao aumento na quantidade de episódios podem explicar, pelo menos em parte, algumas das alterações estruturais observadas em pacientes com TB. Os níveis de BDNF, no mesmo estudo, também foram correlacionados negativamente com a duração da doença, o que sugere um papel fundamental da neurotrofina na progressão do TB. Destaca-se que alguns estudos recentes encontraram resultados opostos, em que os níveis de BDNF aumentaram em pacientes maníacos e também em pacientes com TB de longa duração (Barbosa et al., 2010; Barbosa et al., 2013a). Isso sugere que os níveis de BDNF podem ser modulados de maneiras diferentes em populações variadas e, provavelmente, dependem do tipo de medicamento que compõe o tratamento do paciente. Nessa mesma linha, revelou-se que outras neurotrofinas encontravam-se alteradas também em episódios agudos de humor, como o GDNF (Rosa et al., 2006; Barbosa et al., 2011), a NT-3 (Walz et al., 2007; Fernandes et al., 2010) e a NT-4/5 (Walz et al., 2009), mas seu envolvimento na neuroprogressão do TB ainda precisa ser investigado. Estresse oxidativo Conforme abordado nas seções anteriores, a disfunção mitocondrial pode desempenhar um papel fundamental na fisiopatologia do TB, principalmente por prejudicar o metabolismo energético, a resiliência celular, entre outras funções celulares vitais. Na realidade, demonstrou-se que o metabolismo energético fica prejudicado em pacientes com TB (Kato, 2007). Relatou-se que o metabolismo energético do cérebro aumenta nesses pacientes durante episódios maníacos e diminui durante a depressão (Baxter et al., 1985), o que ganha mais respaldo na evidência de uma taxa metabólica basal maior em mania e VO2 máximo mais elevado, independentemente da ingestão calórica (Caliyurt e Altiay, 2009). Entre as funções das mitocôndrias, foram identificados os principais locais de produção de radicaislivres na célula, especialmente o complexo I (NADH: ubiquinona oxidorredutase) da cadeia de transferência de elétrons (ETC) da mitocôndria. Estudos post-mortem mostram que a atividade do complexo I da ETC é reduzida no córtex pré-frontal de pacientes com TB (Andreazza et al., 2010). Além disso, demonstrou-se que o lítio consegue aumentar a atividade dos complexos I/II e II/III mitocondriais no tecido cerebral humano (Maurer et al., 2009), o que corrobora ainda mais a hipótese de uma disfunção mitocondrial no TB. Assim que formadas, espécies de oxigênio e nitrogênio reativas podem reagir com moléculas orgânicas na célula e induzir danos em lipídeos (e consequentemente em membranas), DNA e proteínas. Esse cenário é prejudicado pela ação de moléculas antioxidantes, as quais atuam como detritívoros dos radicais livres, reduzindo, assim, sua toxicidade. Nesse sentido, um aumento na atividade da enzima superóxido dismutase (SOD) foi relatado em pacientes durante os episódios maníacos e depressivos, mas não em eutimia (Andreazza et al., 2007b; Kunz et al., 2008). Esse mesmo resultado foi replicado em outro estudo que avaliou a atividade da SOD em pacientes maníacos sem uso de medicamento com TB (Machado-Vieira et al., 2007b). Além disso, demonstrou-se que a atividade da catalase reduz em pacientes eutímicos e aumenta em pacientes maníacos não medicados (Andreazza et al., 2007b; Machado-Vieira et al., 2007b), o que sugere um desequilíbrio na produção e no controle de espécies reativas. Em consequência, relatou-se o aumento dos produtos de peroxidação de lipídeos em pacientes com TB em estado maníaco, depressivo ou eutímico (Andreazza et al., 2007b; Kunz et al., 2008). Observa-se que o tratamento de pacientes com N -acetilcisteína (NAC), que é um precursor da glutationa capaz de buscar radicais livres, reduz os sintomas depressivos e melhora o funcionamento e a qualidade de vida dos pacientes (Berk et al., 2011c). Quanto à progressão da doença, demonstrou-se que as atividades da glutationa redutase e da glutationa S -transferase aumentam em pacientes nos estágios finais em comparação com pacientes nos estágios iniciais (Andreazza et al., 2009), o que sugere uma falência progressiva de mecanismos compensatórios no decorrer do tempo. Todavia, o mesmo estudo encontrou níveis maiores de 3-nitrotirosina, um marcador de nitração de proteínas, tanto em estágios iniciais quanto em estágios finais. Um estudo mais recente também relatou aumento na carbonilação proteica em pacientes em estágios iniciais (Magalhães et al., 2012a). Na verdade, as alterações oxidativas em pacientes nos estágios iniciais parecem mais sutis do que as que ocorrem nos estágios finais (Magalhães et al., 2012a). Isso sugere que algumas alterações referentes ao estresse oxidativo já estão presentes nos primeiros estágios da doença, incluindo o dano oxidativo a proteínas, enquanto outras ocorrem apenas como um meio de neuroprogressão do TB. Inflamação Diversos estudos relacionaram a fisiopatologia do TB à inflamação, nos quais alterações imunológicas estão associadas à gravidade dos sintomas, a episódios de humor agudos, à progressão da doença, a perturbações metabólicas, a efeitos de fármacos, ao aumento na prevalência de transtornos autoimunes e alérgicos e a alterações neurotróficas em pacientes (Berk et al., 2011b; Stertz et al., 2013). A maioria dos dados publicados está relacionada à atividade da doença e a episódios agudos, e pouco realmente se sabe sobre a progressão do TB em si. Apesar disso, a soma dos achados sobre episódios agudos ajuda a propor mecanismos pelos quais os episódios cumulativos podem ser deletérios, conforme a abordagem a seguir. Episódios agudos foram caracterizados como estados pró-inflamatórios com base em achados sobre o aumento dos níveis periféricos de citocinas pró-inflamatórias na depressão, como interleucina (IL)-6 e fator de necrose tumoral alfa (TNF- α), e de IL-2, IL-4, IL-6 e TNF- α em mania (Kim et al., 2007; Ortiz-Dominguez et al., 2007; Brietzke et al., 2009). Ademais, metanálises relataram um aumento nos níveis de TNF- α, receptor solúvel de TNF tipo 1, receptor solúvel de IL-2 e antagonista do receptor de IL-1 em pacientes maníacos, enquanto foi revelado que pacientes eutímicos apresentavam níveis alterados de antagonista do receptor IL-1 em comparação com controles (Munkholm et al., 2012; Modabbernia et al., 2013). Demonstrou-se também que pacientes com TB apresentam níveis maiores de proteínas de fase aguda, como proteína C reativa e haptoglobina (Maes et al., 1997; Cunha et al., 2008), cuja produção geralmente é induzida por citocinas pró-inflamatórias. Nessa mesma linha, fatores de complemento como C3 e C4 também foram associados ao TB (Wadee et al., 2002). Em resumo, estudos periféricos indicam que o TB pode ser caracterizado como uma doença inflamatória sistêmica, apesar de os mecanismos pelos quais essas alterações periféricas ocorrem serem desconhecidos. Destaca-se a sugestão de que alterações no sono e no ritmo circadiano, estresse, ativação imunológica por infecção retroviral de disfunções autoimunes, estilo de vida não saudável, bem como exposição prolongada a fármacos/drogas podem contribuir para o estado inflamatório associado ao TB (Goldstein et al., 2009). Essas alterações inflamatórias podem desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento de várias comorbidades relatadas em pacientes e podem, provavelmente, contribuir para a progressão da doença. Demonstrou-se que as citocinas pró-inflamatórias IL-6 e TNF- α encontram-se elevadas nos estágios iniciais e finais da doença, enquanto a citocina anti-inflamatória IL- 10 aumentou apenas no estágio inicial do transtorno (Kauer-Sant’Anna et al., 2009; Magalhães et al., 2012b). Além disso, níveis plasmáticos maiores de CCL11, CCL24 e CXCL10, bem como níveis plasmáticos menores de CXCL8 foram relatados em pacientes nos estágios finais do TB quando comparados com controles saudáveis (Barbosa et al., 2013b). Com base nesses achados, postulou-se que um aumento nas citocinas pró-inflamatórias nas fases iniciais do transtorno pode ser parte do próprio processo da doença ou representar uma resposta adaptativa ao prejuízo. Embora a resposta anti- inflamatória possa ser eficaz no curso inicial da doença, ela se torna menos eficaz após vários episódios. Em consequência das elevações contínuas das citocinas pró-inflamatórias, seus efeitos deletérios se tornariam mais aparentes conforme a doença progride. Mecanismos epigenéticos Evidências sugerem que a modulação da expressão de genes e as interações genéticas em contraponto ao ambiente podem desempenhar papéis fundamentais no TB (Petronis, 2003; Pregelj, 2011). Isso indica a importância da modulação da estrutura de cromatina por mecanismos epigenéticos na fisiopatologia do TB, visto que se trata da principal via pela qual os fatores ambientais acabam modulando as atividades dos genes. Estudos mostram que eventos no início da vida, como trauma e abuso na infância, podem induzir marcadores epigenéticos de longo prazo sobre genes específicos, os quais também podem interagir com alterações genéticas (polimorfismos) e, por fim, levar a um fenótipo patológico (Szyf, 2013). O marcador epigenético mais estudado é a metilação do DNA, que pode inibir a transcrição do gene ao induzir a formação de heterocromatina ao redor do promotor de um gene. A metilação do DNA também é o marcador epigenético mais estável, e vários estudos pré-clínicos demonstraram que a metilação do DNA induzida por eventos no início da vida pode durar até a idade adulta em animais (Champagne, 2013). Com base na hipótese de carga alostática, parece razoável presumir que estressores cumulativos (i.e., episódios agudos) podem agir como estímulos ambientais para induzir alterações específicas em marcadores epigenéticos que, ao final, interferem na capacidade do paciente de responder e lidar com um novo estressor. Esses marcadores seriam, então, responsáveis pelas diferenças de resiliência de um paciente para outro, possivelmenteajudando a elucidar os mecanismos pelos quais alguns deles acabam desenvolvendo prejuízos graves no funcionamento após poucos episódios, enquanto outros conseguem superar os efeitos do estressor e enfrentá-lo de modo adequado. Mostrou-se, ainda, que pacientes com TB apresentam alterações na metilação do DNA dentro de vários genes. Um estudo recente revelou que pacientes com TB tipo II apresentam uma hipermetilação da região promotora de BDNF em comparação com controles, a qual foi acompanhada por uma infrarregulação significativa da expressão do gene BNDF (D’Addario et al., 2012). Ademais, demonstrou-se que o DNA derivado tanto do cérebro quanto da saliva apresenta uma hipometilação do promotor da catecol- O -metiltransferase ligada à membrana (MB-COMT) em pacientes (Nohesara et al., 2011), e um aumento da metilação do DNA do promotor genético do receptor serotoninérgico 5HTR1A também foi relatado em leucócitos (Carrard et al., 2011). Observa-se que a metilação global de leucócitos não foi alterada em pacientes eutímicos com TB em comparação com controles (Bromberg et al., 2009), o que sugere que alterações epigenéticas são exclusivas de genes específicos em tecidos diferentes. Essas alterações podem estar relacionadas à expressão modificada de DNA metiltransferases (DNMTs), a qual se dá de forma dependente de estado em pacientes com TB (Higuchi et al., 2011). Até o momento, nenhum estudo avaliou as diferenças nos níveis de metilação entre pacientes em estágios iniciais e pacientes em estágios finais. A relevância da epigenética na fisiopatologia e na progressão do TB também é corroborada pelos mecanismos conhecidos de ação de estabilizadores do humor e de antidepressivos, os quais são capazes de modular várias enzimas e vias associadas à remodelação de cromatinas. Por exemplo, o valproato de sódio pode inibir a enzima histona desacetilase até induzir a formação de eucromatina ao redor de promotores específicos (Monti et al., 2009; Machado-Vieira et al., 2011). Além disso, demonstrou-se que esse fármaco induz a desmetilação do DNA em extratos nucleares a partir do cérebro de camundongos adultos (Dong et al., 2010), o que sugere um novo mecanismo de alteração epigenética. Demonstrou-se também que antidepressivos revertem alterações de histona induzidas por paradigmas de estresse crônico em ratos (Tsankova et al., 2006), o que comprova a capacidade desses fármacos psicotrópicos de reverter alterações induzidas pelo ambiente. Ao se considerar que a progressão do TB esteve associada a uma resposta reduzida a determinados tratamentos, especula-se se a capacidade desses fármacos de modificar a cromatina pode ficar comprometida com a progressão da doença. Com base nos efeitos do estresse crônico sobre marcadores epigenéticos, postulamos que alterações epigenéticas específicas podem determinar a própria resiliência ao estresse e a outros estímulos ambientais. Isso pode ser não apenas vital para determinar a gênese do TB em indivíduos sob risco elevado, mas também para modular a história natural da doença no paciente. Assim, marcadores epigenéticos podem regular os efeitos malignos de episódios recorrentes, o que se encaixa na hipótese de estadiamento do TB. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os mecanismos biológicos associados à neuroprogressão do TB parecem ser complexos, envolvendo vários sistemas no sistema nervoso central e periférico (Fig. 4.1). Embora os meios pelos quais cada um desses sistemas se articula individualmente para gerar o transtorno não sejam conhecidos, postulamos que os prejuízos na resiliência celular são, inicialmente, induzidos por estresse crônico, o qual torna as células mais vulneráveis a estímulos estressantes. Além disso, a sinalização trófica reduzida e o aumento do estresse oxidativo observados em pacientes em estágios finais também funcionam como mecanismos estimuladores na amplificação da disfunção celular, deixando as células mais vulneráveis a estressores, além de induzir apoptose e inflamação. Esses sistemas podem interagir e, por fim, mediar os resultados clínicos associados à progressão da doença, como aumento da comorbidade, menor resposta ao tratamento, parâmetros cognitivos e funcionais prejudicados, entre outros. Uma vez que os mecanismos biológicos da progressão do TB forem esclarecidos, eles ajudarão em um estadiamento clínico de base biológica dos pacientes. Modelos diferentes de estadiamento para o TB já foram propostos (Berk et al., 2007; Kapczinski et al., 2009a), mas o uso de biomarcadores para o estadiamento clínico ainda não dispõe de evidências biológicas mais contundentes e consistentes (Kapczinski et al., 2009b; Fries et al., 2012). Com esse propósito, futuras pesquisas devem investigar de maneira aprofundada essas diferenças em estudos longitudinais. Além disso, o campo também será beneficiado de forma significativa pela avaliação desses biomarcadores em adolescentes e jovens adultos com TB, bem como pela análise dos efeitos de tratamento nos mesmos parâmetros. Entre todas as alterações já mencionadas, os mecanismos epigenéticos parecem ter uma relevância de destaque, visto que podem, em si, modular todos os outros sistemas, incluindo neurotrofinas, inflamação e estresse oxidativo. Conforme abordado anteriormente, dados atuais disponíveis sobre o uso de biomarcadores no TB se concentram principalmente na atividade da doença e pouco se sabe sobre esses parâmetros e a progressão do TB. Ademais, os modelos de estadiamento que foram propostos até o momento são diferentes entre si, bem como o próprio conceito de progressão da doença (alguns pesquisadores se concentram na quantidade de episódios, enquanto outros levam em consideração a duração da doença ou o resultado funcional), o que poderia explicar as inconsistências entre estudos para as mesmas medidas. Em suma, um estudo mais aprofundado dos fundamentos biológicos da neuroprogressão do TB pode conter a chave para a descoberta de biomarca- dores com valor prognóstico, além de contribuir para o desenvolvimento de novos fármacos com o objetivo de impedir os prejuízos progressivos no fun- cionamento e na cognição do paciente, melhorando, assim, sua qualidade de vida. 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Além disso, disfunções psicossociais no TB não se limitam a períodos sintomáticos, podendo persistir ou resultar em incapacidade contínua, o que contribui para sofrimento pessoal elevado e custos socioeconômicos (Gardner et al., 2006; González-Pinto et al., 2010). CONCEITO DE FUNCIONAMENTO O funcionamento psicossocial é um conceito complexo que envolve a capacidade de o indivíduo desempenhar tarefas cotidianas e desenvolver relacionamentos com outras pessoas de maneira gratificante tanto para o indivíduo quanto para os demais e que satisfaça as necessidades da comunidade na qual a pessoa está inserida (Zarate et al., 2000). A avaliação do funcionamento psicossocial, portanto, deve envolver, idealmente, a análise de um ou mais domínios comportamentais, tais como a capacidade de o indivíduo funcionar nos âmbitos ocupacional ou social ou de viver de forma independente, sendo que a recuperação funcional, em geral, é definida como a restauração do funcionamento normal do papel do indivíduo em diversos domínios (Mintz et al., 1992; Üstün e Kennedy, 2009). Contudo, pesquisadores tradicionalmente medem um ou dois elementos de funcionamento e, em geral, não levam em consideração todos os outros aspectos necessários para o funcionamento ideal. A escala de Avaliação Global de Funcionamento (GAF, Global Assessment of Functioning), por exemplo, costuma ser utilizada para avaliar incapacidade, embora suas instruções originais solicitem uma pontuação dos sintomas e também do funcionamento geral (Martinez-Aran et al., 2007). Além da GAF, existem outros instrumentos utilizados para avaliar o funcionamento em transtornos psiquiátricos como a Escala de Ajustamento Social (SAS, Social Adjustment Scale), o Questionário de Funcionamento da Vida (LFQ, Life Functioning Questionnaire), o Formulário Breve-36 (SF-36, Short Form-36) e a Escala de Avaliação da Incapacitação Psiquiátrica da Organização Mundial da Saúde (WHO-DAS, World Health Organization – Disability Assessment Schedule). No caso do TB, um novo instrumento breve de 24 itens administrado por entrevistador foi desenvolvido para avaliar o funcionamento psicossocial em domínios distintos da vida. O Teste Breve de Avaliação do Funcionamento (FAST, Functioning Assessment Short Test) tem fortes propriedades psicométricas e parece sensível para determinar mudanças mínimas no funcionamento em curto e longo prazo (Rosa et al., 2008, 2011). O FAST está disponível em vários idiomas e também foi validado para diversos transtornos psiquiátricos como TB, esquizofrenia, bem como em pacientes com um primeiro episódio psicótico (Cacilhas et al., 2009; González-Ortega et al., 2010). EVIDÊNCIAS DE PREJUÍZO FUNCIONAL NO TRANSTORNO BIPOLAR Novas evidências mostram que, em muitos casos de TB, as recuperações funcional e sintomáticas não ocorrem ao mesmo tempo. Um estudo conduzido por Tohen e colaboradores (2000) nos Estados Unidos, por exemplo, relatou que 98% dos pacientes com o primeiro episódio maníaco apresentaram remissão dentro de dois anos, enquanto apenas 38% deles obtiveram recuperação funcional (definida pela proporção de pacientes que recuperaram o nível pré-mórbido de funcionamento). Keck (2004) descobriu que apenas 24% dos pacientes com TB tipo I alcançaram recuperação funcional em algum momento durante o intervalo entre a alta hospitalar e o acompanhamento de 12 meses. Resultados do estudo Mania Europeia na Avaliação Longitudinal Bipolar de Medicamentos (EMBLEM, European Mania in Bipolar Longitudinal Evaluation of Medication) revelaram que apenas cerca de 20% dos pacientes retornaram aos níveis normais de funcionamento dentro de 12 meses após um episódio agudo, mesmo quando não estavam sofrendo de sintomas subsindrômicos (Montoya et al., 2007). Em um período de acompanhamento de 10 anos, Goldberg e Harrow (2004) revelaram que aproximadamente 50% dos pacientes bipolares tiveram remissão sustentada ou padrões de melhora, enquanto 30 a 40% experimentaram algum grau de incapacidade social. De modo semelhante, nossos achados anteriores mostrarammaior incapacidade associada ao TB, visto que apenas um quarto dos pacientes que atingiram a remissão sintomática dentro de seis meses de tratamento contínuo alcançou funcionamento favorável (Rosa et al., 2010). Pacientes com TB experimentam uma disfunção grave em domínios distintos da vida (Strakowski et al., 1998; Goetz et al., 2007; Rosa et al., 2012); essas disfunções podem começar já no início do curso da doença (ver a Fig. 5.1). FIGURA 5.1 Prejuízo funcional em pacientes no primeiro episódio em comparação a pacientes com vários episódios. Embora o TB afete diversas áreas do funcionamento psicossocial, o prejuí- zo no domínio ocupacional parece extremamente pronunciado (MacQueen et al., 2000). A esse respeito, uma pesquisa conduzida pela Stanley Foundation Bipolar Network mostrou que 62% dos pacientes ambulatoriais com TB sofreram um impacto grave da doença sobre seu funcionamento ocupacional (Suppes et al., 2001). O estudo EMBLEM relatou que apenas 40% dos pacientes conseguiram trabalhar depois de dois anos de tratamento contínuo para mania (Goetz et al., 2007). A avaliação de índices de emprego em uma amostra espanhola revelou que 20% dos pacientes apresentavam uma incapacidade permanente. Além disso, entre as pessoas empregadas, 25% tinham empregos de qualificação mais baixa; cerca de 20% tinham renda mais baixa para os mesmos empregos do que sujeitos não bipolares; quase 60% relataram ter problemas em terminar suas tarefas rapidamente; e um quarto delas mencionou ter dificuldades para alcançar o desempenho esperado. Essas informações são compatíveis com estudos anteriores que mostraram que um terço dos pacientes em empregos de tempo integral ou de meio período relata problemas frequentes no trabalho (Michalak et al., 2007). Todos esses dados indicam que o TB está associado a um declínio na condição de emprego e na renda, o que pode ser uma consequência da progressão da doença. Além disso, o prejuízo ocupacional não é apenas ruim em si, visto que também foi associado a um intervalo menor até a recorrência (Fagiolini et al., 2005). Embora a base para essa recuperação funcional limitada não esteja completamente esclarecida, ela pode estar associada ao curso progressivo da doença. Recentemente, demonstramos que há uma forte associação linear entre prejuízo funcional e estágios clínicos de TB, sendo que a pontuação no FAST aumentou dos estágios iniciais para os estágios finais. Pacientes no estágio I tiveram maior funcionamento ocupacional do que pacientes no estágio II, enquanto pacientes no estágio IV apresentaram maior prejuízo na autonomia do que pacientes no estágio III, seguidos pelo grupo no estágio II. Esses achados sugerem que o TB está associado às mudanças funcionais progressivas dos estágios iniciais para os estágios finais, sendo que há maior prejuízo no estágio IV (Rosa et al., 2014) (Fig. 5.2). FIGURA 5.2 Pontuação total média no Teste Breve de Avaliação do Funcionamento (FAST, Functioning Assessment Short Test) em pacientes em estágios distintos e em controles saudáveis. Rosa et al., Clinical Staging in Bipolar Disorder: Focus on Cognition and Functioning, The Journal of Clinical Psychiatry, 75(5), 450–456, Copyright 2014, Physicians Postgraduate Press, reimpressa com permissão. Algumas variáveis clínicas, como a quantidade de episódios anteriores, maior duração da doença, sintomas depressivos subclínicos, hospitalizações, episódios mistos, psicose e transtorno por uso de substância, foram identificadas como preditoras de prejuízo funcional em pacientes bipolares. Além disso, fatores sociodemográficos, incluindo sexo masculino, idade de início avançada, estado civil não casado, baixo nível socioeconômico, fatores ambientais (ausência de apoio social ou eventos de vida) e fatores farmacológicos (p. ex., efeitos colaterais, adesão ao tratamento) podem contribuir para o mau funcionamento (Sánchez-Moreno et al., 2009). Além disso, déficits neurocognitivos surgiram como preditores importantes para o baixo funcionamento no TB (Martinez-Aran et al., 2007; Bonnín et al., 2010). As seções seguintes abordam a relevância de algumas variáveis para o funcionamento. FATORES CLÍNICOS Quantidade de episódios Um corpo de evidências relata que o mau funcionamento pode, em parte, ser explicado pela gravidade da doença (i.e., pela quantidade de episódios). Por exemplo, MacQueen e colaboradores (2000) revelaram que os pacientes com maior quantidade de episódios, especialmente depressões passadas, têm maior probabilidade de experimentar mau funcionamento global, conforme avaliação pela GAF. Além disso, depressões passadas foram associadas a prejuízo nas subescalas de saúde mental e funcionamento social do Questionário de Resultado do Humor (MOS, Mood Outcome Questionnaire), o que destaca o impacto negativo da quantidade de episódios sobre o funcionamento (MacQueen et al., 2000). Por meio do instrumento FAST, demonstramos que a quantidade de episódios mistos anteriores esteve associada a funcionamento pobre, principalmente nas áreas de funcionamento social, cognição e questões financeiras (Rosa et al., 2009). Além disso, um estudo recente de acompanhamento de um ano comparou o funcionamento entre pacientes com primeiro episódio e com vários episódios, e mostrou uma recuperação funcional e sintomática maior no primeiro grupo. Em especial, pacientes com um único episódio mostraram um nível maior de autonomia, melhor desempenho no trabalho e maior capacidade de aproveitar seus relacionamentos e o tempo destinado ao lazer quando comparados a pacientes com vários episódios (Rosa et al., 2012). Combinados, esses dados oferecem respaldo para o modelo de estadiamento no TB e sugerem que a quantidade de episódios é um fator importante que contribui para a progressão de estágios da doença de apresentações menos graves para apresentações mais graves e, consequentemente, para um resultado mais desfavorável. Além disso, documentou-se que o grau de prejuízo funcional pode variar conforme a natureza dos episódios de humor (Simon et al., 2007). Ao compararmos o prejuízo funcional e a incapacidade de passar de um estado de humor para outro, encontramos uma pontuação maior no teste FAST em pacientes durante um episódio depressivo, seguidos por pacientes em episódio (hipo)maníaco e, por fim, o grupo eutímico (Rosa et al., 2010). Especificamente, pacientes com depressão apresentaram maior dificuldade em desempenho de trabalho e em relações interpessoais do que pacientes maníacos (Rosa et al., 2010). Simon e colaboradores (2007) encontraram uma forte associação entre a gravidade da depressão e o prejuízo ocupacional, medido pela probabilidade de emprego e pelos dias perdidos no trabalho devido à doença. No entanto, as associações entre mudanças maníacas e desempenho no trabalho foram menos consistentes (Simon et al., 2008). Ademais, alguns relatos mostraram o impacto negativo da quantidade de episódios maníacos sobre o desempenho neurocognitivo e, consequentemente, funcionamento pobre (Robinson e Ferrier, 2006; Lopez- Jaramillo et al., 2010). Esses dados são compatíveis com estudos anteriores que mostram uma associação entre substância cinzenta reduzida e quantidade de episódios maníacos no córtex pré-frontal de sujeitos com TB; essas alterações podem contribuir para disfunções executivas (Lyoo et al., 2004). Um levantamento epidemiológico de grandes proporções conduzido nos Estados Unidos mostrou que pacientes com estado misto eram mais propensos a sofrer prejuízo no trabalho e a ter problemas no relacionamento conjugal do que pacientes sem sintomas (Goldberg et al., 1995). Além disso, um estudo independente revelou que pacientes com episódios mistos/ciclagem precisavam de um tempo maior (40 semanas) para responder ao tratamento quando comparados a pacientes com depressão bipolar (24 semanas), bem como para estabilizar pacientes com mania (11 semanas) (Chegappa et al., 2005). Da mesma forma, demonstrou-se que pacientes com episódio depressivo e componentes mistos, especialmente sujeitos com TBtipo II, são mais propensos a tentativas de suicídio e a um prognóstico desfavorável (Rihmer, 2005). Sintomas depressivos Documentou-se que sujeitos com TB passam cerca de um terço de suas vidas adultas com sintomas depressivos (Judd et al., 2004). A sintomatologia em níveis sindrômicos ou subsindrômicos esteve consistentemente associada a um funcionamento pobre (Fagiolini et al., 2005; Altshuler et al., 2006; Simon et al., 2008; Marangell et al., 2009). Um estudo britânico envolvendo pacientes com depressão unipolar demonstrou que 34% deles sofrem de sintomas depressivos residuais após o episódio índice de depressão. Além disso, pacientes com sintomas residuais são mais propensos a experimentar funcionamento pobre em termos de estado civil, tempo de lazer, relacionamentos sociais, funcionamento ocupacional e funcionamento geral no acompanhamento (Coryell et al., 1993). Dados do Programa de Pesquisa Cooperativa para o Tratamento de Depressão do Instituto Nacional de Saúde Mental (National Institute of Mental Health Treatment of Depression Collaborative Research Program) mostram uma relação aparentemente linear entre o aumento dos sintomas depressivos e o aumento da incapacidade, incluindo ocasiões quando os sintomas não são graves o suficiente para satisfazer os critérios de um episódio depressivo (Judd et al., 2005). Outro trabalho independente relatou que a melhora de um nível na gravidade da depressão esteve associada a uma melhora de 22 pontos na subescala de Desempenho Emocional do Levantamento de 36 itens dos Resultados Médicos (Role-Emotional subscale of the Medical Outcomes Survey 36-item SF-36), bem como a 3,8 dias adicionais a cada três meses de ser capaz de participar em atividades habituais (Simon et al., 2007). Os sintomas depressivos subsindrômicos estiveram fortemente relacionados a prejuízos em vários domínios de funcionamento, como responsabilidades no trabalho/escola, tarefas domésticas e relacionamento com família/amigos entre pacientes bipolares (Simon et al., 2007). Da mesma forma, nossos estudos anteriores mostram que sintomas depressivos residuais, ainda que mínimos, são os melhores preditores de prejuízo cognitivo e ocupacional (Rosa et al., 2008). Além disso, sintomas depressivos contínuos estão fortemente associados a recaídas (Keller et al., 1992; Atkinson et al., 1997). Considerando o impacto negativo dos sintomas depressivos sobre o funcionamento, se faz necessária a introdução de intervenções terapêuticas concentradas no tratamento desses sintomas, mas visando melhorar o funcionamento psicossocial e prevenir recaídas. Idade de início O impacto da idade de início da doença sobre o resultado foi documentado em um estudo de grande porte para o Programa para a Intensificação do Tratamento Sistemático para o Transtorno Bipolar (STEP-BD, Systematic Treatment Enhancement Program for Bipolar Disorder) conduzido por Perlis e colaboradores (2009). Os autores relataram que pacientes com início dos sintomas de humor antes dos 13 anos de idade experimentaram pior funcionamento e qualidade de vida, bem como menos dias de eutimia do que indivíduos cujo início dos sintomas se deu após os 18 anos de idade (Perlis et al., 2009). Esses achados são compatíveis com um relato recente de Baldessarini e colaboradores (2012) que mostra melhores resultados sociais e funcionais em pacientes cujo início dos sintomas se deu mais tarde (≥19 anos), em comparação a indivíduos cujo início ocorreu durante a infância (colaboradores (2013) mostraram que quatro características clínicas – densidade de episódio, sintomas depressivos residuais, inteligência verbal estimada e controle inibitório – estavam fortemente associadas a um curso mais grave da doença (Reinares et al., 2013). Recentemente, o impacto de déficits cognitivos sobre o funcionamento psicossocial foi investigado em um estudo de acompanhamento mais prolongado, com duração de seis anos. Os autores revelaram que os déficits cognitivos, em especial o funcionamento executivo, a inibição e a velocidade de processamento e a memória verbal, persistiram no decorrer do tempo, estando fortemente associados a prejuízo cognitivo e ocupacional conforme medição do instrumento FAST. Além disso, o estudo mostrou que os déficits cognitivos persistem durante os estágios intermediários e finais do TB, sendo mais acentuados em pacientes com uma duração mais prolongada da doença (Mora et al., 2013). Em suma, essas evidências indicam que há uma forte relação entre déficit cognitivo e funcionamento pobre, e que um prejuízo maior pode ser consequência da duração mais prolongada da doença e da quantidade mais elevada de episódios (Fig. 5.3). FIGURA 5.3 Os principais fatores associados ao funcionamento pobre. Outros fatores (idade, ganho de peso, eventos estressantes e estigma) Vários outros fatores foram investigados como preditores em potencial do funcionamento no TB. Por exemplo, uma associação entre idade mais avançada e funcionamento pobre foi relatada por dois estudos independentes (Depp et al., 2006; Rosa et al., 2009). Essa associação poderia ser explicada devido ao fato de que pacientes com mais idade, em geral, experimentam mais doenças físicas comórbidas e polimedicação, o que pode contribuir para uma maior cronicidade e disfunções psicossociais. Outrossim, o envelhecimento também está associado a déficit cognitivos acentuados, especialmente na velocidade de processamento e nas funções executivas, que parecem relacionadas ao prejuízo funcional (Depp et al., 2007; Gildengers et al., 2008). O ganho de peso é outro fator que pode contribuir para o prejuízo funcional, visto que pacientes que ganharam mais de 7% de seu peso apresentaram prejuízo significativamente maior no funcionamento global (no decorrer dos 30 dias anteriores) do que indivíduos sem ganho de peso (Bond et al., 2010). Por fim, alguns relatos identificaram que eventos estressantes (Yan-Meier et al., 2011) e estigma (Vázquez et al., 2011) podem ter impacto sobre o funcionamento entre pacientes bipolares. METAS PARA A RECUPERAÇÃO FUNCIONAL Considerando o impacto negativo dos déficits cognitivos sobre o funcionamento, o desenvolvimento de intervenções psicossociais específicas para o tratamento de TB seria particularmente valioso. A esse respeito, o Programa para Transtornos Bipolares de Barcelona desenvolveu um “programa de retificação funcional”, voltado não apenas para a cognição, mas também para o funcionamento. Esse programa inclui educação sobre déficits cognitivos e seu impacto sobre a vida cotidiana, fornecendo estratégias para o manejo desses déficits em diversos domínios – principalmente atenção, memória e função executiva. Murray e colaboradores (2011) identificaram estratégias de automanejo utilizadas para “indivíduos de funcionamento elevado com TB” para manter ou recuperar o bem-estar. Essas estratégias de automanejo envolvem ações, rotinas e processos que ajudam os indivíduos com TB a lidar com a doença e a dar continuidade ao trabalho de viver. Colom e colaboradores (2003) mostraram que a eficácia do programa de psicoeducação no TB pode variar conforme a quantidade de episódios anteriores. Os autores revelaram que pacientes com menos de oito episódios, ao integrarem o estudo, tiveram melhor resposta ao tratamento (tempo até recorrência) com o programa de psicoeducação do que os que manifestaram mais de sete episódios. Nessa mesma linha, Reinares e colaboradores (2010) compararam a eficácia da psicoeducação para cuidadores no tratamento de pacientes em estágios iniciais (estágio I) e de pacientes em estágios avançados (estágios II, III e IV). Esse estudo relatou que pacientes no estágio I tiveram melhores resultados no que diz respeito a tempo até recidiva quando comparados a pacientes em estágios avançados (Reinares et al., 2010). Juntos, esses achados oferecem respaldo para o modelo de estadiamento do TB e enfatizam que a resposta ao tratamento costuma ser melhor quando introduzida logo no início do curso da doença, com a única exceção de retificação funcional. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao levar em conta a literatura, a avaliação do funcionamento deve ser utilizada de forma rotineira na avaliação de pacientes bipolares. Até o momento, o Teste Breve de Avaliação do Funcionamento (FAST, Functioning Assessment Short Test) é o instrumento de uso mais disseminado, podendo fornecer uma visão geral do funcionamento nos pacientes com TB de forma fácil e rápida. Trata-se de um instrumento de 24 itens administrado por um entrevistador, que permite a avaliação do funcionamento em domínios distintos de vida em transtornos psiquiátricos. A pontuação total do FAST é obtida quando se somam os pontos de cada item (máximo de 72); quanto mais elevada a pontuação, mais graves são as dificuldades. Contudo, alguns pacientes bipolares experimentam um declínio funcional progressivo desde os estágios iniciais até os estágios finais; esse declínio pode ser consequência do aumento da gravidade da doença. Assim, um modelo de estadiamento funcional do TB pode ser útil para orientar tratamentos conforme necessidades individuais. REFERÊNCIAS Altshuler LL, Post RM, Black DO, et al. (2006) Subsyndromal depressive symptoms are associated with functional impairment in patients with bipolar disorder: results of a large, multisite study. J Clin Psychiat 67:1551–1560. Atkinson M, Zibin S, and Chuang H (1997) Characterizing quality of life among patients with chronic mental illness: a critical examination of the self- report methodology. Am J Psychiat 154:99–105A. Baldessarini RJ, Tondo L, Davis P, et al. (2006) Decreased risk of suicides and attempts during long-term lithium treatment: a meta-analytic review. Bipolar Disord 8(5 Pt 2):625–639. Baldessarini RJ, Tondo L, Vazquez GH, et al. 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Na mesma época, com base em suas observações clínicas minuciosas, Kraepelin identificou que os episódios iniciais costumavam ser precipitados por estressores psicossociais, mas, no caso de ocorrências múltiplas, eles também podiam acontecer apenas com a expectativa de estressores, ou sem qualquer estressor, o que rendeu a ideia de um estágio posterior mais autônomo da doença. Kraepelin também identificou que alguns subtipos de mania e depressão, como mania disfórica (caracterizada por níveis elevados de ansiedade e irritabilidade), tinham um curso mais difícil e exigiam mais hospitalizações, especialmente em mulheres. Portanto, diferenças nos aspectos qualitativos da apresentação clínica também poderiam ter relevância prognóstica. Todas essas três observações sobre recorrência mais rápida de episódios, sobre a transição de ocorrências precipitadas para ocorrências mais espontâneas de episódios e sobre subtipos da doença, como mania disfórica, foram extensamente replicadas e prepararam o terreno para sua incorporação em diversos modelos de estadiamento, implícitos ou explícitos. RECORRÊNCIAS MAIS RÁPIDAS DE EPISÓDIOS E ACELERAÇÃO DO CICLO Jules Angst e Paul Grof, entre muitos outros, também observaram a tendência geral de aceleração do ciclo como uma função da quantidade de episódios anteriores, e revisões iniciais da literatura (Post, 1992) apoiaram essa tendência geral, porém inconstante. Em uma das maiores e mais convincentes demonstrações, Lars Kessing e colaboradores (1998) descobriram que a quantidade de hospitalizações anteriores por depressão era o melhor preditor de recorrências subsequentes (com latência mais breve), seja em depressão unipolar ou bipolar, e que diversos fatores de confusão não podiam explicar esse efeito. Um efeito semelhante foi demonstrado no caso de número de episódios anteriores de mania e vulnerabilidade à recaída. O número de episódios anteriores e a frequência de sua recorrência assumiram uma nova importância na era moderna da psicofarmacologia, em que, por exemplo, se observou que indivíduos com ciclagem rápida (quatro ou mais episódios ao ano) apresentavam menor tendência de resposta ao lítio (Dunner et al., 1979). Diversos estudos replicaram esses achados, com poucas exceções (Post et al., 2012). Ademais, um maior número de episódios anteriores parecia um preditor relativo de ausência de resposta a um tratamento naturalista e com diversos agentes. Um continuum da frequência dos ciclos e padrões mais rápidos de recorrência são hoje amplamente reconhecidos (Kupka et al., 2005). Realizaram-se tentativas para categorizar episódios mais rápidos, como ciclagem ultrarrápida (quatro ou mais episódios ao mês) e ciclagem ultraultrarrápida (ou ultradiana, em que oscilações caóticas e drásticas de humor ocorrem várias vezes em um período de 24 horas em quatro ou mais dias por semana) (Kramlinger e Post, 1996). Pacientes com padrões de ciclagem ultradiana parecem responder particularmente bem à di- hidropiridina, bem como ao bloqueador dos canais de cálcio tipo L nimodipina (Davanzo et al., 1999; Pazzaglia et al., 1993; Post e Leverich, 2008). Novas investigações são necessárias para definir a resposta farmacológica nesse estágio da doença, o qual tende a ocorrer relativamente tarde no curso da doença em adultos (Post e Leverich, 2008) ou extremamente cedo nas crianças mais jovens com apresentações de bipolaridade sem outra especificação (SOE) (Birmaher et al., 2009; Geller et al., 1998). PROGRESSÃO DE EPISÓDIOS DESENCADEADOS PARA EPISÓDIOS ESPONTÂNEOS Esse padrão geral de autonomia crescente de episódios como uma função do número de recorrências anteriores (sensitização ao estresse) foi mais bem documentado na depressão unipolar (Kendler et al., 2000, 2001; Slavich et al., 2011), mas também parece se aplicar a pacientes com transtorno bipolar (Post e Miklowitz, 2010). Contudo, na doença bipolar, também há evidências de acumulação de estresse ou amplificação de estresse entre indivíduos com adversidade na infância (Dienes et al., 2006), de forma que pode ocorrer tanto um aumento na quantidade de estressores quanto na sensibilidade a eles. MANIA DISFÓRICA As observações iniciais de Kraepelin sobre o prognóstico desfavorável de mania disfórica foram confirmadas, e uma dissecção farmacológica mais moderna sugere que o lítio costuma ser eficaz com maior frequência em mania eufórica clássica, enquanto o valproato pode apresentar um pouco de vantagem no subtipo disfórico (Post e Leverich, 2008). SENSITIZAÇÃO E KINDLING COMO MODELOS DE PROGRESSÃO E ESTADIAMENTO DA DOENÇA Fundamentado nas observações kraepelinianas do curso da doença, Post (1992) traçou analogias a outras síndromes comportamentais em animais que também demonstraram evidências de progressão de doença – kindling e sensitização. No kindling experimental, a amígdala é estimulada uma vez ao dia durante um segundo, o que gera aumento na resposta comportamental (evolução para o estágio convulsivo) que culmina no desenvolvimento de convulsões totalmente manifestas com o comportamento de “ rearing ” seguido de queda. Após certo número de convulsões induzidas por eletricidade, as convulsões começam a surgir espontaneamente (Post, 2007). Portanto, o kindling da amígdala apresenta três estágios gerais: (I) o estágio inicial ou de desenvolvimento; (II) o estágio intermediário ou completo de convulsões totalmente manifestas; e (III) o estágio final ou espontâneo (Fig. 1.1). A evolução e a progressão desses estágios em convulsões por kindling são relativamente invariáveis e relevantes devido às suas implicações fisiopatológicas e farmacoterápicas. FIGURA 1.1 Dissociação da resposta farmacológica como função da evolução de fase do kindling da amígdala. ++ = extremamente eficaz; ± = ambíguo; 0 = não eficaz; ( ) = dados inconsistentes. *Antagonista de glutamato NMDAR. No estágio de desenvolvimento do kindling, eletrofisiologia, bioquímica, neuropeptídeos e genes precoces imediatos (fatores de transcrição) aumentam progressivamente desde nenhuma alteração, ou alterações mínimas na neurobiologia e no comportamento, a alterações unilaterais e, por fim, bilaterais, o que revela uma evolução anatômica impressionante de alterações neurobiológicas em resposta à repetição do mesmo estímulo. Como seria de se esperar dessa programação espaço-temporal do “rastro de memória” da amígdala que sofreu kindling, intervenções farmacológicas têm eficácias diferentes nos estágios de desenvolvimento, completo e espontâneo, ou seja, alguns fármacos funcionam em um estágio, mas não em outro (Fig. 1.1). Formulamos a hipótese de que a fase de desenvolvimento inicial, a fase intermediária de episódios precipitados e os episódios espontâneos em fases tardias do transtorno bipolar podem apresentar respostas diferenciadas de modo semelhante a intervenções farmacológicas diversas e mesmo a algumas abordagens psicossociais (Scott et al., 2013). Há evidências de que essa hipótese seja verdadeira, mas um estudo muito mais aprofundado é necessário (Fig. 1.2). A grande advertência a se considerar nesse caso é que os fármacos específicos que são eficazes em estágios diferentes das convulsões resultantes do kindling na amígdala provavelmente não sejam os mesmos fármacos que funcionam para o transtorno bipolar (apesar de alguns deles também serem anticonvulsivantes). O caso torna-se particularmente evidente ao se considerar lítio e antipsicóticos atípicos, os quais não são anticonvulsivantes. FIGURA 1.2 A farmacologia do transtorno bipolar varia como funçãodouble-blind, controlled clinical trial. Am J Psychiat 162(7):1281–1290. Tohen M, Hennen J, Zarate Jr CM, et al. (2000) Two-year syndromal and functional recovery in 219 cases of first-episode major affective disorder with psychotic features. Am J Psychiat 157:220–228. Torrent C, Martinez-Aran A, Daban C, et al. (2006) Cognitive impairment in bipolar II disorder. Brit J Psychiat 189:254–259. Torres IJ, Boudreau VG, and Yatham LN (2007) Neuropsychological functioning in euthymic bipolar disorder: a meta-analysis. Acta Psychiat Scand Suppl 434:17–26. Ustun B and Kennedy C (2009) What is ‘functional impairment’? Disentangling disability from clinical significance. World Psychiat 8:82–85. Valenti M, Pacchiarotti I, Bonnin CM, et al. (2012) Risk factors for antidepressantrelated switch to mania. J Clin Psychiat 73(2):e271–276. Vazquez GH, Kapczinski F, Magalhaes PV, et al., and the Ibero-American Network on Bipolar Disorders group (2011) Stigma and functioning in patients with bipolar disorder. 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De acordo com esses estudos, domínios específicos de prejuízo incluem controle executivo, aprendizado e memória verbais, memória de trabalho e atenção sustentada. Os prejuízos cognitivos já estão presentes no início do curso do TB (Torres et al., 2011). Além disso, uma associação positiva entre disfunção neurocognitiva e prejuízo funcional foi demonstrada em estudos transversais (Zubieta et al., 2001; Dickerson et al., 2004; Martinez-Aran et al., 2004b; Laes e Sponheim, 2006) e longitudinais (Jaeger et al., 2007; Tabarés-Seisdedos et al., 2008; Martinho et al., 2009; Bonnín et al., 2010). De qualquer forma, deve-se ter em mente que estudos recentes demonstraram que o percentual de pacientes com prejuízos neurocognitivos clinicamente significativos oscila entre 30 e 62% (Martino et al., 2008; Gulatieri e Morgan, 2008; Reichenberg et al., 2009; Iverson et al., 2011), o que indica que alguns indivíduos com TB podem apresentar funcionamento neurocognitivo dentro dos limites da normalidade. Robinson e Ferrier (2006) forneceram uma análise narrativa de estudos que consideraram a relação entre as variáveis da doença e os déficits cognitivos. Eles encontraram uma associação entre a quantidade de episódios anteriores, particularmente episódios maníacos, e o funcionamento neurocognitivo, o que sugere que episódios sucessivos podem estar relacionados a um declínio neurocognitivo progressivo. Na mesma linha, outra análise recente revelou aumentos na disfunção cognitiva como função da quantidade anterior de episódios de humor (Post et al., 2012). Contudo, esses resultados divergem dos poucos e restritos estudos longitudinais acerca do funcionamento neurocognitivo publicados até o momento (ver a seção “Estudos de acompanhamento e modelos de estadiamento”). Martino e colaboradores (2013), todavia, não encontraram respaldo para o fato de a experiência de episódios sucessivos estar relacionada a um declínio neurocognitivo progressivo, mas sim para o fato de o prejuízo cognitivo poder simplesmente ser a causa, mais do que a consequência, de um curso clínico mais desfavorável. Da mesma forma, Depp e colaboradores (2012) sugeriram uma relativa independência entre a gravidade do sintoma de humor e as capacidades cognitivas. IMPLICAÇÕES CLÍNICAS E SOBRE O FUNCIONAMENTO Há diferentes fatores que, direta ou indiretamente, podem influenciar o funcionamento cognitivo no TB: a história de sintomas psicóticos anterior pode estar associada a um funcionamento cognitivo mais pobre em pacientes bipolares (Martinez-Aran et al., 2004b; Albus et al., 2006; Daban et al., 2006; Martinez-Aran et al., 2008). Contudo, outros relatos recentes sugerem que a presença de história anterior de sintomas psicóticos não estava relacionada a mais disfunções cognitivas (Selva et al., 2007; Brissos et al., 2011). Esse fator justifica novas investigações, visto que ainda há pouquíssimas pesquisas sobre essa questão no TB. No que se refere ao subtipo de TB, tanto o tipo I como o tipo II apresentam disfunção cognitiva. Apesar disso, sujeitos com TB tipo I geralmente apresentam maior prejuízo do que os indivíduos com o tipo II (Harkavy-Friedman et al., 2006; Torrent et al., 2006; Solé et al., 2012; Kessler et al., 2013). A sintomatologia subdepressiva também tem um impacto negativo sobre o funcionamento geral (Bauwens et al., 1991), especificamente sobre o funcionamento ocupacional e o funcionamento cognitivo (Kessing, 1998; Martinez-Aran et al., 2000, 2002; Bonnín et al., 2010). Pesquisas neurobiológicas revelam que algumas correlações com a função cognitiva, como níveis elevados de homocisteína, têm sido associadas a prejuízo cognitivo em adultos mais velhos que, afora o transtorno, eram saudáveis, especialmente prejuízo na atenção, na linguagem e na evocação imediata (Dittman et al., 2007). Fatores hormonais também podem estar associados a disfunções neurocognitivas (Prohaska et al., 1996), juntamente com a hipercortisolemia. A hipercortisolemia pode ocorrer nas fases deprimida e maníaca do TB. Alguns estudos sugeriram que níveis elevados de cortisol podem produzir danos ao hipocampo, além de explicar parcialmente o desempenho prejudicado encontrado em medições neuropsicológicas de aprendizado e memória declarativos (Altshuler et al., 1998; van Gorp et al., 1998). Apesar disso, um estudo recente sobre o desempenho neurocognitivo de pacientes bipolares eutímicos não encontrou associação entre as medições cognitivas e a hipercortisolemia (Thompson et al., 2005). A duração do TB sempre esteve associada à disfunção cognitiva (Johnstone et al., 1985). A duração da doença esteve correlacionada de forma negativa com a pontuação em testes de função executiva (Clark et al., 2002; Thompson et al., 2005), velocidade psicomotora (Martinez-Aran et al., 2004a; Thompson et al., 2005) e memória verbal (Cavanagh et al., 2002; Deckersbach et al., 2004). A memória verbal foi a medida associada de forma mais consistente com a duração da doença. Nenhum dos estudos relatou associações significativas entre a duração dos períodos de eutimia e o desempenho em testes cognitivos (El-Badri et al., 2001; Clark et al., 2002; Thompson et al., 2005). Segundo vários estudos, déficits cognitivos, especificamente nos domínios de atenção, memória e funcionamento executivo, estão relacionados à quantidade de episódios de humor anteriores (Post et al., 2012); os efeitos de sintomatologia maníaca sobre a cognição parecem mais fortes do que os efeitos dos sintomas depressivos (Lopez-Jaramillo et al., 2010; Aminoff et al., 2013).A maioria dos estudos relatou que os pacientes com número mais elevado de hospitalizações mostraram pior desempenho em medições cognitivas (Zubieta et al., 2001; Clark et al., 2002; Thompson et al., 2005). É provável que a quantidade de internações possa constituir uma medida indireta da gravidade dos episódios e do curso da doença. Revelou-se que outros fatores, como abuso de substância (van Gorpo et al., 1998; Sanchez-Moreno et al., 2009) e perturbações do sono (Cipolli, 1995), influenciam o desempenho cognitivo de forma negativa. Noque se refere a medicamentos, a maioria das evidências atuais sugere que o efeito de prejuízo parece mais relacionado à própria doença do que aos efeitos da farmacoterapia. NEURODESENVOLVIMENTO OU NEUROPROGRESSÃO? Há evidências que sugerem que indivíduos com TB apresentam alterações neuropsicológicas de desenvolvimento e progressivas. O TB pode ser considerado um transtorno do desenvolvimento, com início precoce e que resulta em condições patológicas durante a idade adulta (Geoffroy et al., 2013). Pacientes com TB experimentam um curso crônico caracterizado por prejuízo cognitivo progressivo, sintomas residuais, perturbações do sono e do ritmo circadiano, desregulação emocional e aumento do risco de comorbidade psiquiátrica e médica entre episódios de humor (Leboyer e Kupfer, 2010). Conforme a hipótese de neurodesenvolvimento, alguns déficits cognitivos podem estar presentes antes do início da doença, provavelmente em um grau menor ou em um pequeno subgrupo de pacientes bipolares. Por exemplo, tanto o desenvolvimento neural quanto a função do córtex pré-frontal sabidamente apresentam anormalidades na esquizofrenia e no TB. Tabarés- Seisdedos e colaboradores (2006) tentaram testar a hipótese de que essas características possam estar relacionadas a genes que regulam a migração neuronal. Seus achados preliminares sugerem que mutações de genes envolvidos na migração neural observada em pacientes bipolares e esquizofrênicos podem levar a um desempenho mais fraco em testes de função executiva. É possível que alguns déficits cognitivos estejam presentes antes do início da doença, mas pouquíssimos estudos foram feitos em populações de alto risco. Gourovitch e colaboradores (1999) relataram déficits cognitivos em um grupo de alto risco composto por irmãos não afetados de gêmeos monozigóticos discordantes para TB, como prejuízo leve no aprendizado geral e na evocação. Vários estudos relataram prejuízo em parentes de primeiro grau não afetados de pacientes bipolares (Zalla et al., 2004; Antila et al., 2007; Schulze et al., 2011) quando comparados a controles. Esses achados consideram a disfunção cognitiva como um marcador endofenotípico para o TB. Quanto a funções cognitivas emocionais, casos de TB de início precoce mostram maior reatividade a estímulos emocionais, bem como reações mais fortes a situações ameaçadoras (Grillon et al., 2005). Em comparação a controles saudáveis, tanto crianças com TB quanto crianças com risco familiar elevado de TB mostram menos aptidão para o reconhecimento de expressões faciais emocionais, e esse déficit parece prever a progressão para TB nas crianças que correm risco mais elevado (Brotman et al., 2008). Prejuízos na memória de trabalho, nas habilidades visuomotoras e no controle inibitório parecem particularmente acentuados em pacientes jovens com TB, em comparação a adolescentes saudáveis com idade e gênero correspondentes (Lera-Miguel et al., 2011). Uma metanálise recente de estudos sobre esquizofrenia de início precoce e TB pediátrico revelou que indivíduos com TB pediátrico demonstram déficit no aprendizado verbal e na memória, na velocidade de processamento e no controle executivo. Curiosamente, esses déficits são quantitativamente menos acentuados, mas qualitativamente semelhantes aos encontrados em pacientes com esquizofrenia de início precoce (Nieto e Castellanos, 2011). Seguindo a hipótese neuroprogressiva, um curso clínico mais desfavorável da doença também parece ter uma influência negativa sobre a cognição. Isso significa que uma maior quantidade de episódios, especialmente do tipo maníaco, a duração da doença e a quantidade de hospitalizações podem estar relacionadas a um prejuízo cognitivo maior. Outro achado interessante surgiu de um estudo realizado por Kessing e Andersen (2004), os quais sugeriram que o risco de demência parecia aumentar com a quantidade de episódios em transtornos afetivos depressivos e bipolares. Em média, o índice de demência tendia a aumentar em 13% a cada episódio que levava à internação de pacientes unipolares e em 6% a cada episódio que levava à internação de pacientes bipolares. Mais pesquisas são necessárias para examinar se o declínio cognitivo no TB é diferente ou não do que se espera do envelhecimento normal. Mesmo assim, o avanço da perturbação após episódios repetidos não está totalmente evidente, visto que outros autores não encontraram diferenças significativas entre pacientes bipolares de primeiro episódio e com vários episódios no que tange o funcionamento cognitivo (Nehra et al., 2006). Esses achados contraditórios indicam que mais pesquisas são necessárias para elucidar o impacto da cronicidade. Estudos longitudinais são necessários para avaliar a evolução do prejuízo cognitivo em pacientes bipolares, com a finalidade de determinar a estabilidade ou a progressão do déficit cognitivo no que se refere a essas duas hipóteses. Provavelmente, ambas as hipóteses sejam complementares no que diz respeito ao TB.. ESTUDOS DE ACOMPANHAMENTO E MODELOS DE ESTADIAMENTO Recentemente, um corpo de evidências cada vez maior de estudos longitudinais confirmou os achados indicados por estudos transversais anteriores. Os primeiros estudos longitudinais foram realizados durante um ano de acompanhamento (Martino et al., 2009; Bonnín et al., 2010) e revelaram que o prejuízo neurocognitivo estava relacionado a um resultado psicossocial desfavorável. Contudo, esses estudos avaliaram apenas o desempenho neurocognitivo de base e não no acompanhamento. O primeiro estudo de acompanhamento, com duração de dois anos, foi publicado em 2008. A neurocognição foi avaliada duas vezes: na linha de base e dois anos depois. Descobriu-se que pacientes tratados com lítio apresentavam um desempenho fraco na velocidade de processamento e nas funções executivas. Esses autores revelaram ainda que o prejuízo se mantém estável com o tempo. No entanto, vale mencionar que apenas alguns pacientes tiveram recaídas durante o período de acompanhamento (Mur et al., 2008). Resultados semelhantes foram demonstrados em um estudo longitudinal com acompanhamento de seis anos pelo mesmo grupo: funcionamento executivo, inibição, velocidade de processamento e memória verbal foram os domínios mais afetados, com efeito residual sobre a adaptação psicossocial dos pacientes (Mora et al., 2013). Um estudo de acompanhamento de três anos que comparou pacientes esquizofrênicos e bipolares sugeriu que ambos os grupos de pacientes apresentavam mais prejuízo em várias medidas neuropsicológicas do que os controles saudáveis (Balanzá-Martínez et al., 2005). De modo geral, estudos longitudinais de funcionamento neurocognitivo publicados até o momento revelam um padrão estável de prejuízo cognitivo no decorrer do tempo. A exceção é um estudo longitudinal de nove anos, que revelou um agravamento no funcionamento executivo. Análises posteriores revelaram que a duração da doença e os sintomas subdepressivos estiveram associados a um desempenho mais fraco nas funções executivas (Torrent et al., 2013). Outros estudos sugerem o efeito do curso clínico sobre a neurocognição e o funcionamento psicossocial. Por exemplo, Lopez-Jaramillo e colaboradores (2010) avaliaram três grupos de pacientes bipolares eutímicos conforme a quantidade de episódios maníacos anteriores. Embora não fosse um estudo de acompanhamento, as evidências indicaram que a recorrência de mania em longo prazo teve impacto sobre a neurocognição. Os pacientes que experimentaram três ou mais episódios apresentaram mais prejuízo na atenção e nas funções executivas quando comparados a pacientes que haviam sofrido apenas um episódio. A literatura mostra que os pacientes com TB apresentam bom funcionamento neurocognitivo pré-mórbido antes do início da doença (Lewandowski et al., 2011). Contudo, depois do início da doença, especialmente após o primeiro episódio de mania, mudanças fisiopatológicas significativas começam a ocorrer (Andreazza et al., 2009; Kauer-Sant’Anna et al., 2009). Essas alterações (redução no fatorneurotrófico derivado do cérebro, aumento das citocinas inflamatórias), detectáveis em níveis séricos, podem mediar a disfunção, afetando o desempenho neuropsicológico. Na realidade, muitos estudos destacam o efeito neurotóxico de episódios maníacos sobre a neurocognição, especificamente das funções executivas (Thompson et al., 2005; Elshahawi et al., 2010; Lopez-Jaramillo et al., 2010). Portanto, episódios maníacos parecem estar relacionados de forma mais consistente ao prejuízo neurocognitivo (especialmente memória verbal e funções executivas), enquanto episódios depressivos se relacionam de forma menos consistente a uma gama mais ampla de prejuízos (Savitz et al., 2005). Em comparação com a esquizofrenia, um estudo longitudinal com duração de cinco anos sugere que a neurocognição sofre um declínio constante no decorrer do curso inicial da doença, mas, no TB, ela parece mais estável. Burdick e colaboradores descobriram que pacientes esquizofrênicos exibiam deterioração significativa no funcionamento executivo, mas sem alterações relevantes em outros domínios, enquanto pacientes com TB mostravam estabilidade no decorrer do tempo nas medidas de atenção, mas maior variabilidade em outros domínios (Burdick et al., 2006). Uma metanálise recente (Mann-Wrobel et al., 2011) subdividiu os estudos com base nas variáveis do curso clínico (p. ex., quantidade de episódios, - insight, psicose, etc.) com a finalidade de avaliar o impacto do curso clínico sobre a neurocognição. Os resultados obtidos sugerem que o grupo com curso clínico desfavorável teve um desempenho modestamente pior em comparação com o grupo com bom curso clínico. Nessa mesma linha, Bora e colaboradores (2009) revelaram que uma idade mais jovem de início esteve associada a prejuízo na memória verbal e lentidão psicomotora. Outra metanálise apontou que a função neurocognitiva esteve relacionada de forma negativa a determinadas características do transtorno, como duração da doença (Robinson et al., 2006). Por fim, Arts e colaboradores (2008) encontraram um efeito para sexo, idade e educação. Especificamente, maiores proporções de efeito foram encontradas no caso de educação em testes que mediram as variáveis de amplitude, fluência e classificação de cartas em estudos nos quais o nível médio de educação dos participantes era maior. De maneira similar, Mann-Wrobel e colaboradores (2011) revelaram que o tamanho do efeito do prejuízo cognitivo diminui como função de educação. Os autores postularam que a educação poderia ser um marcador relacionado ao início e à gravidade do transtorno, já que uma doença precoce e grave interfere com o nível de instrução. Esses resultados estão alinhados com a hipótese de neuroprogressão (Goodwin et al., 2008) e modelos de estadiamento (Kapczinski et al., 2009), então é possível que a neuroprogressão funcione conforme mostra a Tabela 6.1. TABELA 6.1 Estadiamento clínico do transtorno bipolar (Kapczinski et al., 2009) Estágio Características clínicas Cognição Latente Em risco de desenvolver TB, história familiar positiva, humor ou ansiedade, sintomas sem critérios para TB limítrofe. Sem prejuízo I Períodos bem-definidos de eutimia sem sintomas psiquiátricos manifestos. Sem prejuízo II Sintomas em períodos interepisódios relacionados a comorbidades. Prejuízo transitório III Prejuízo acentuado na cognição e no funcionamento. Prejuízo cognitivo grave associado a prejuízo no funcionamento (incapaz de trabalhar ou desempenho muito prejudicado) IV Incapaz de viver de forma autônoma devido ao prejuízo cognitivo e funcional. Prejuízo cognitivo impede o paciente de viver de forma independente Não obstante, alguns dados de pacientes eutímicos mais velhos não oferecem respaldo à ideia de maior prejuízo com o envelhecimento e a progressão da doença. Por exemplo, Delaloye e colaboradores (2009) avaliaram uma amostra de 17 pacientes idosos eutímicos em comparação com indivíduos saudáveis nas mesmas proporções de idade, gênero e nível de instrução. Eles descobriram que os pacientes com TB apresentavam desempenho mais baixo em testes que mediam velocidade de processamento, memória de trabalho e memória episódica, quando comparados a controles saudáveis. Ademais, o tamanho do efeito observado se encaixa na diferença – de moderada a grande – relatada em estudos voltados a pacientes mais jovens com TB. Por fim, o grupo com TB não exibiu anormalidades cerebrais vasculares ou volumétricas significativas. Outro estudo longitudinal confirmou a ausência de distinção entre os pacientes com TB com relação às alterações de dois anos em cognição e em achados de imagens de ressonância magnética (Delaloye et al., 2011). Contudo, conforme sugerido por Robinson e colaboradores (2006), pode- se postular que o diferencial entre pacientes e controles seja maior em pacientes mais jovens, até que o declínio relacionado à idade em sujeitos saudáveis torne essa diferença menor. Apesar dos esforços de pesquisas nessa área, o resultado neurocognitivo no TB ainda não está claro. A heterogeneidade no prejuízo neurocognitivo e sua ligação com modelos de estadiamento propõem um dos desafios dos próximos anos. A prevenção de recaídas será essencial para reduzir seu impacto negativo sobre o funcionamento cognitivo de pacientes bipolares. Nesse caso, os profissionais devem tentar melhorar o curso clínico dos pacientes, aperfeiçoando o tratamento farmacológico e incluindo a psicoeducação. Pacientes bipolares que demonstram prejuízo cognitivo persistente também podem se beneficiar da reabilitação cognitiva com a finalidade de melhorar não apenas o funcionamento cognitivo, mas também seu funcionamento geral (Fig. 6.1). FIGURA 6.1 Prejuízo funcional segundo o modelo de estadiamento. Há uma vulnerabilidade genética para o desenvolvimento do TB (1); contudo, antes do início da doença, não há evidências de prejuízo funcional. Na fase prodrômica (2), os pacientes podem começar a apresentar dificuldades mínimas em seus resultados. Depois do primeiro episódio, o prejuízo funcional pode ser transitório e relacionado a fases agudas (3). Mesmo assim, cada recaída produz um prejuízo acentuado no resultado (4). Por fim, o impacto acumulativo dos episódios recorrentes leva à cronicidade e a uma recuperação funcional inadequada (5). Adaptada de Martinez-Aran e colaboradores (2011) e reproduzida segundo a Creative Commons License 3.0. REFERÊNCIAS Albus M, Hubmann W, Mohr F, et al. (2006) Neurocognitive functioning in patients with first-episode schizophrenia: results of a prospective 5-year follow-up study. Eur Arch Psy Clin N 256:442–451. Altshuler LL, Bartzokis G, Grieder T, et al. (1998) Amygdala enlargement in bipolar disorder and hippocampal reduction in schizophrenia: an MRI study demonstrating neuroanatomic specificity. Arch Gen Psychiat 55:663–664. Aminoff SR, Hellvin T, Lagerberg TV, et al. (2013) Neurocognitive features in subgroups of bipolar disorder. Bipolar Disord 15:272–283. Andreazza AC, Kapczinski F, Kauer-Sant’anna M, et al. (2009) 3- Nitrotyrosine and glutathione antioxidant system in patients in the early and late stages of bipolar disorder. J Psychiat Neurosci 34:263–271. Antila M, Tuulio-Henriksson A, Kieseppa T, et al. 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Erros em decisões de natureza financeira, vocacional e social devido à subestimação ou a uma compreensão distorcida dos sentimentos das outras pessoas são frequentes em episódios maníacos e, provavelmente, estão entre as fontes mais importantes do ônus dos transtornos afetivos. Além disso, dificuldade em tomar decisões simples – como que roupa vestir para o trabalho – ou temores inadequados que podem levar a desafios cotidianos são sintomas típicos, presentes no âmago do TB. Uma das formas mais promissoras de tratar as bases fisiológicas desse tipo de sintomatologia é por meio dos paradigmas de cognição social. A cognição social se refere às operações mentais subjacentes às interações sociais, as quais podem ser relativamente independentes dos outros aspectos de cognição e não são avaliadas por tarefas neurocognitivas tradicionais (Pinkham et al., 2003). Um dos aspectos fundamentais da cognição social é a capacidade cognitiva de atribuir estados mentais – como crenças, desejos e intenções – a si mesmo e aos outros. Essas capacidades foram conceitualizadas como a teoria da mente (TdM). A TdM, também chamada de mentalização ou leitura da mente, começa a se desenvolver depois da aquisição de representação secundária no segundo ano de vida (Suddendorf e Withen, 2001). Outro aspecto de cognição social está relacionado à capacidade de fazer a distinção precisa entre diferentes emoções expressadas facialmente. Acredita-se que essas emoções sejam inatas, automáticas e universais (Darwin, 1872; Ekman e Friesen, 1971); e novas pesquisas demonstram que elas podem ser moduladas por fármacos timolépticos como os antidepressivos (Harmer et al., 2009). A maioria das investigações que avaliam o reconhecimento de expressões faciais de emoções solicitou que os sujeitos combinassem (paradigmas de combinação) ou nomeassem (paradigmas de nomeação) imagens de expressões faciais posadas segundo as seis emoções básicas exibidas: alegria, tristeza, raiva, aversão, medo e surpresa (Young et al., 2002; Bozikas et al., 2006). Por fim, um domínio intimamente relacionado à cognição social são as tomadas de decisão afetivas, que implicam contrapor escolhas em associação a graus variáveis de recompensa e castigo. Diferentes paradigmas foram desenvolvidos com a finalidade de simular processos de tomada de decisão na vida real, os quais exigem que o sujeito considere ganhos em curto prazo contra perdas potenciais em longo prazo (Bechara et al., 1994; Rubinsztein et al., 2000). Pesquisas sobre cognição social no TB podem ajudar a obter uma melhor compreensão sobre os mecanismos cognitivos envolvidos nesse transtorno. Contudo, apesar das fortes evidências que oferecem respaldo ao prejuízo de diferentes domínios neurocognitivos tradicionais em pacientes bipolares e da forte associação entredisfunção cognitiva e incapacidade funcional (Martino et al., 2009; Bourne et al., 2013), pesquisas sobre cognição social e emocional no TB ainda são escassas. Tendo por objetivo analisar uma possível contribuição da cognição social para os modelos de estadiamento do TB (Berk et al., 2007; Kapczinski et al., 2009), abordamos, neste capítulo, as evidências de: (1) cognição social no TB, (2) cognição social e funcionamento e (3) cognição social e o curso do TB. Na seção “Considerações finais”, os autores esboçam os rumos de novas pesquisas na área e analisam uma possível contribuição da avaliação de cognição social nos modelos de marcação no TB. COGNIÇÃO SOCIAL NO TRANSTORNO BIPOLAR O primeiro estudo elaborado especificamente para avaliar habilidades da TdM no TB revelou que tanto pacientes maníacos quanto depressivos apresentavam prejuízos, enquanto pacientes eutímicos tinham um desempenho comparável aos controles (Kerr et al., 2003). Estudos posteriores demonstraram de forma consistente que pacientes bipolares eutímicos apresentam déficit em tarefas da TdM (Inoue et al., 2004; Bora et al., 2005; Olley et al., 2005; Lahera et al., 2008; Shamay-Tsoory et al., 2009; McKinnon et al., 2010; Montag et al., 2010; Wolf et al., 2010; Martino et al., 2011). Esses estudos encontram-se resumidos na Tabela 7.1. Contudo, os três estudos com maior amostragem relataram que prejuízos na TdM podem ser mediados, pelo menos em parte, por prejuízos nos domínios neurocognitivos tradicionais (atenção e funções executivas) e exposição a drogas psicoativas (Bora et al., 2005; Lahera et al., 2008; Martinho et al., 2011). Portanto, mais estudos são necessários antes que se possa concluir que os déficit na TdM são marcadores de traços no TB. TABELA 7.1 Estudos sobre a teoria da mente em pacientes eutímicos com transtorno bipolar Estudo Amostra Idade (média) Medidas eutímicas Principais achados Kerr e colaboradores, 2003 48 TB e 15 controles 43,9 Eutimia (13): TBI Depressão (15) Mania (20) Déficit na TdM em pacientes maníacos e depressivos, preservados em pacientes eutímicos 44,5 Inoue e colaboradores, 2004 16 TBI, 34 TDM e 50 controles Depressão em remissão: HDRS ≤ 7 Prejuízos na TdM tanto em TB quanto em TDM Bora e colaboradores, 2005 43 TBI e 30 controles 38,6 Eutimia: HDRSRecentemente, nossa equipe realizou o primeiro estudo metanalítico sobre cognição social em pacientes bipolares eutímicos (Samamé et al., 2012), o qual encontrou um tamanho de efeito moderado para habilidades de TdM, além de diferenças de pequena magnitude para o reconhecimento de expressões faciais de afeto, enquanto a tomada de decisão parece estar preservada. COGNIÇÃO SOCIAL E FUNCIONAMENTO Dados sobre a relação entre disfunções da cognição social e resultados funcionais são raros. No que tange o processamento emocional, apenas dois estudos exploraram o impacto sobre a funcionalidade: Harmer e colaboradores (2002) não encontraram uma correlação entre processamento de emoções e ajustamento social, enquanto Martino e colaboradores (2011) revelaram que o funcionamento psicossocial esteve positivamente correlacionado com o desempenho no reconhecimento facial de aversão e medo. Contudo, essas variáveis não contribuíram para a variação e não foram preditoras independentes de funcionamento psicossocial, após serem controladas para mensurar o efeito de déficits neurocognitivos tradicionais. De forma semelhante, dois estudos avaliaram o impacto de falhas na TdM no que diz respeito à evolução funcional e relataram achados negativos (Olley et al., 2005; Martino et al., 2011). COGNIÇÃO SOCIAL E O CURSO DO TRANSTORNO BIPOLAR Até o presente momento, nenhum estudo longitudinal analisou estatísticas avaliadas ou a natureza progressiva dos déficits de cognição social. Estudos transversais não encontraram uma relação entre o desempenho de tarefas da TdM e a quantidade de episódios anteriores (Inoue et al., 2004; Bora et al., 2005; McKinnon et al., 2010; Martino et al., 2011), embora essa associação não tenha sido avaliada em alguns outros trabalhos (Kerr et al., 2003; Olley et al., 2005; Lahera et al., 2008; Sharma-Tsoory et al., 2009; Wolf et al., 2010). Apenas um estudo encontrou uma correlação entre a quantidade de episódios (hipo)maníacos e as habilidades da TdM, ainda que não tenha mantido uma relevância estatística após as correções de Bonferroni (Montag et al., 2010). De modo semelhante, a maioria dos trabalhos não encontrou uma relação entre o desempenho da TdM e as medidas de cronicidade (Inoue et al., 2004; Bora et al., 2005; Martino et al., 2011), com exceção de McKinnon e colaboradores (2010), que relataram uma correlação com a duração da doença. Quanto ao processamento de emoções, apenas um estudo investigou a associação entre reconhecimento de expressões faciais e quantidade de episódios anteriores, com achados negativos (Martino et al., 2011). Além disso, tanto Bozikas e colaboradores (2006) quanto Martino e colaboradores (2011) não mostraram relação entre o reconhecimento de expressões faciais e a duração da doença. Por fim, os três estudos que pesquisaram a relação entre o desempenho na tomada de decisão e a quantidade de episódios anteriores, ou duração da doença, não encontraram resultado positivo (Clark et al., 2002; Martino et al., 2010; Adida et al., 2011). CONSIDERAÇÕES FINAIS Evidências sugerem que o prejuízo nas tarefas da TdM e no processamento emocional podem ter uma magnitude menor (em termos de tamanho de efeito) em comparação com o prejuízo observado nas funções neurocognitivas tradicionais, como memória verbal, atenção e funções executivas (Robinson et al., 2006; Torres et al., 2007). Além disso, propôs-se que os prejuízos na cognição social podem ser mediados, pelo menos em parte, por déficits de atenção e executivos e exposição a fármacos psicotrópicos. Por fim, prejuízos existentes na cognição social no TB podem ter menor impacto sobre o resultado funcional de pacientes afetados em comparação com outros domínios cognitivos, como memória verbal (Bonnín et al., 2014). Além disso, dados sobre paradigmas de decisão sugerem uma preservação relativa nesse domínio (Samamé et al., 2012). Combinados, esses dados sugerem a necessidade de controlar tendências de confusão em estudos que avaliam o desempenho nas tarefas de cognição social e também naqueles que investigam a relação entre falhas cognitivas sociais e funcionamento psicossocial no TB. Ademais, dados transversais disponíveis sugerem que alterações nas medidas de cognição social podem ser relativamente independentes da quantidade de episódios anteriores e de outras medidas de cronicidade, como a duração da doença. Esse padrão, ao contrário do observado nos domínios neurocognitivos tradicionais, sugere que as tarefas de cognição social possam ter utilidade limitada no desenvolvimento de modelos de estadiamento. Contudo, esses dados devem ser considerados com cautela porque têm por base poucos estudos. Além disso, os dados revisados anteriormente não excluem a presença de um subgrupo de pacientes bipolares, os quais apresentaram disfunções na cognição social. Como exemplo, no estudo de Martino e colaboradores (2011), pacientes com antecedente de tentativa de suicídio apresentaram desempenho mais baixo no paradigma de tomada de decisão (IGT) do que os pacientes sem o mesmo histórico. Uma avaliação mais aprofundada do papel da cognição social na progressão do TB deve se concentrar em estudos longitudinais com avaliações cognitivas seriais. Essa abordagem esclareceria se as mudanças na cognição social relatadas entre pacientes bipolares são progressivas ou não. Deve-se mencionar que as evidências reunidas até o momento não defendem a noção de um declínio progressivo na cognição social no TB, o que está em consonância com os achados recentes de nossa equipe que sugerem que o prejuízo cognitivo pode não ser uma consequência, mas sim um fator de risco para episódios recorrentes (Martino et al., 2013). Uma abordagem pragmática sobre a noção de estadiamento sugeriria que os pacientes com pior desempenho em testes de cognição social poderiam ser colocados entre aqueles que apresentam um tipo mais grave ou encontram-se no estágio final do TB. Para finalizar, acrescentamos que o clínico deve ter em mente que o prejuízo cognitivo como endofenótipo de TB está tradicionalmente associado a resultados mais desfavoráveis. Contudo, o rumo da associação (causa ou consequência) ainda deve ser determinado. REFERÊNCIAS Adida M, Clark L, Pomietto P, et al. (2008) Lack of insight may predict impaired decision making in manic patients. Bipolar Disord 10:829–837. Adida M, Jollant F, Clark TL (2011) Trait-related decision-making impairment in the three phases of bipolar disorder. Biol Psychiat 70:357–365. Bechara A, Damasio A, Damasio H, et al. (1994) Insensitivity to future consequences following damage to human prefrontal cortex. Cognition 50:7– 15. 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TEMPERAMENTOS AFETIVOS: ESTÁGIOS LATENTES POTENCIAIS DOS TRANSTORNOS BIPOLARES Gustavo H. Vázquez Xenia Gonda INTRODUÇÃO A fim de poder diagnosticar melhor as doenças psiquiátricas e identificar as condições que se situam entre as categorias, houve uma mudança no rumo do conceito de espectro de doença psiquiátrica em geral e dos transtornos afetivos e bipolares em especial. Essa visão pode ajudar a expandir nosso entendimento da continuidade de estados patológicos relacionados para o domínio de apresentações não clínicas e subclínicas, bem como para as manifestações que, embora fiquem abaixo da definição de doença bipolar, constituem um risco elevado, ou estado prodrômico, podendo já causar sofrimento significativo ou aumento do risco de agravamento e desenvolvimento posterior de formas mais graves da doença, as quais exigirão atenção profissional e, possivelmente, tratamento específico. Esse conceito de espectro de doença afetiva e bipolar também significa ampliar o continuum à saúde mental, além de identificar os indivíduos que carregam o potencial de futuramente estabelecer a base para o desenvolvimento da doença, possivelmente com uma origem genética, de personalidade ou comportamental. Compreender os dois extremos da faixa desse espectro nos proporciona a oportunidade de realizar pesquisas sobre o transtorno bipolar (TB) em uma abordagem de continuum em vez de realizá-la sob uma perspectiva de controle de caso, a qual mais tarde poderia nos levar a ignorar associações importantes. Portanto, identificar a porção mais saudável, não afetada e subclínica do espectro bipolar, a qual também pode constituir estágios latentes da doença, é vital para a compreensão, o tratamento, a previsão e, possivelmente, a prevenção desse transtorno debilitante. Akiskal e colaboradores propuseram o conceito do espectro bipolar suave, o qual inclui diferentes manifestações de hipomania, somados a estados depressivos, e também expande a desregulação temperamental subjacente que serve como pano de fundo das manifestações afetivas. Essa abordagem tem o potencial de contribuir para uma diferenciação mais sofisticada de subtipos da doença bipolar com a introdução de novas descrições clínicas mais detalhadas (Akiskal e Mallya, 1987). Posteriormente, além da descrição de subtipos, o conceito de temperamentos afetivos também foi introduzido com a finalidade de investigar de forma mais aprofundada o extremo patologicamente menos afetado do espectro bipolar. Além do modelo clássico de espectro, o modelo de estadiamento da doen- ça bipolar também defende uma abordagem de continuum, com a finalidade de prever a evolução, o prognóstico e os resultados, bem como indicar o tratamento mais adequado em determinado estágio (Grande et al., 2013). O estadiamento da doença bipolar se baseia na avaliação clínica e na funcionalidade, especialmente no intervalo entre episódios maiores. Atualmente, esse modelo teórico apresenta cinco estágios, compostos por quatro estágios clínicos e uma fase latente para os indivíduos que manifestam sintomas afetivos não específicos (Grande et al., 2013). O estágio latente inclui aqueles indivíduos que podem ser considerados em risco extremamente elevado de desenvolver a doença bipolar, mas que ainda não apresentaram sintoma específico, apenas sinais prodrômicos atípicos, incluindo história familiar positiva, ansiedade, hiperfagia e hipersonia, flutuações sazonais de humor, labilidade do humor e irritabilidade, retardo psicomotor, além de traços temperamentais hipertímicos ou ciclotímicos (Balanzá-Martínez et al., 2008). Visto que os sintomas nesta fase podem nãoser específicos, e que o curso posterior e o resultado da doença podem ser imprevisíveis, é fortemente controversa a recomendação de farmacoterapia, ainda que ela possa ser útil no tratamento da sintomatologia sublimiar (Grande et al., 2013). Embora ainda não existam estudos disponíveis para testar a validade definitiva do modelo de estadiamento, a descrição do estágio latente (Grande et al., 2013) muito se assemelha aos estados caracterizados pela presença de temperamentos afetivos predominantes. Há vários fatores que ligam temperamentos afetivos à doença afetiva, o que postula a busca de manifestações de temperamentos afetivos como um possível fator de risco ou estado precursor para o desenvolvimento de doenças afetivas maiores. Posto isso, os temperamentos afetivos fariam parte do que Grande e colaboradores (2013) descrevem como o estágio latente. VISÃO GERAL DO DESENVOLVIMENTO DO MODELO DE TEMPERAMENTO AFETIVO Supostos traços subjacentes aos traços dos TBs representam um paradigma adequado para conceitualizar a conexão potencial entre transtornos mentais e atributos temperamentais adaptativos (Akiskal e Akiskal, 2005). Temperamentos se referem a traços comportamentais estáveis no decorrer do tempo, com forte reatividade afetiva e que têm sido associados aos fundamentos biológicos da personalidade, tais como níveis de atividade, ritmos, humores, cognição e suas variações. Temperamentos afetivos não apenas poderiam ter um papel relevante na predisposição a transtornos afetivos maiores, como também representariam a expressão fenotípica mais prevalente dos genes por trás dos TBs (Akiskal e Akiskal, 1992; Kelsoe, 2003). As origens do conceito moderno de temperamentos afetivos nas teorias do humor remontam às descrições feitas por Hipócrates (Akiskal, 1996). Mais tarde, o psiquiatra alemão Emil Kraepelin descreveu quatro disposições afetivas básicas (depressiva, maníaca, ciclotímica e irritável), com base em sua hipótese temperamental a partir das obras clássicas de Galeno, que anteriormente elencou quatro disposições básicas do humor, a saber: melancólico, colérico, fleumático e sanguíneo, e seus desequilíbrios como a principal origem das diferentes doenças humanas. Kraepelin considerou esses temperamentos afetivos básicos como as formas subclínicas de insanidade maníaco-depressiva – atualmente conhecida como os transtornos afetivos maiores –, a qual podia ser encontrada não apenas em pacientes doentes mentais, mas também em seus parentes saudáveis (Kraepelin, 1921). Tanto Kraepelin quanto seu colega alemão Ernst Kretschmer consideravam que os temperamentos afetivos poderiam predispor a psicose endógena ou os episódios de humor. Contudo, postulou que a presença de um temperamento dominante deve ser considerada uma variação da afetividade normal, a qual potencialmente poderia levar à doença mental. Ao combinarem esses fundamentos com o uso de ampla observação clínica e científica moderna e pesquisas de campo, Akiskal e colaboradores desenvolveram o conceito moderno de temperamentos afetivos para abranger todo o espectro de perturbações afetivas, desde tipos saudáveis de reatividade emocional até doenças afetivas maiores. O modelo inclui os quatro tipos clássicos de temperamento, complementados por um quinto, o temperamento ansioso. Uma descrição clínica detalhada de cada temperamento e sua avaliação com um instrumento com validade psicométrica (TEMPS-A) podem ser encontradas em outras obras (Akiskal e Akiskal, 2005). Akiskal considera os cinco temperamentos afetivos como espectros que se prolongam desde a saúde até a patologia, envolvidos em padrões característicos de reatividade emocional em um extremo e em diferentes tipos de transtornos afetivos maiores em outro (Akiskal e Akiskal, 2007). Em meio a esses extremos encontram-se os chamados temperamentos afetivos predominantes, os quais, expressos de forma acentuada, podem constituir a manifestação subclínica e subafetiva de doenças afetivas, podendo ser considerados precursores, ou estados latentes, que podem representar condições de alto risco, correspondentes a fases latentes de transtornos do humor. ASPECTOS CLÍNICOS DOS TEMPERAMENTOS AFETIVOS Conforme descrito anteriormente, temperamentos afetivos são conceitualizados como parte do espectro de transtornos afetivos, uma noção que encontra amplo respaldo de estudos genéticos, biológicos, familiares e clínicos. O espectro afetivo descreve um continuum entre ciclotimia, TB tipo I e TB tipo II (Akiskal et al., 1977; Evans et al., 2008), bem como depressão subsindrômica, depressão menor, distimia e depressão maior unipolar (Akiskal et al., 1978; Judd e Akiskal, 2000; Lewinsohn et al., 2003). Temperamentos afetivos, além de constituírem fases latentes de doença que prolongam esses espectros em direção aos estados de saúde mental, poderiam desempenhar um papel patoplástico. Dessa forma, os temperamentos teriam um papel importante na determinação e modelação do surgimento e da evolução clínica de transtornos afetivos. Isso incluiria várias características importantes, como polaridade predominante, expressão sintomática, curso e consequências em longo prazo, resposta e adesão ao tratamento e resultados do tratamento (Vázquez e Gonda, 2013). Entretanto, a relação entre temperamentos e doenças afetivas pode ser muito mais complexa. Temperamentos afetivos predominantes estão presentes em até 20% da população geral saudável e variam de 13% na Argentina a 20% na Alemanha (Vázquez et al., 2012). Temperamentos afetivos mostram uma distribuição característica de gênero, sendo que temperamentos tanto depressivos quanto ansiosos são mais comuns no sexo feminino, enquanto a hipertimia é encontrada com maior frequência no sexo masculino na maioria dos estudos nacionais de grade escala (Vásquez et al., 2012). A maior prevalência de temperamentos depressivos e ansiosos entre as mulheres na população geral está correlacionada à maior prevalência de depressão maior unipolar e transtornos de ansiedade em mulheres (Kuehner, 2003; Somers et al., 2006), enquanto a prevalência mais elevada de temperamento hipertímico entre homens está em consonância com a maior proporção de episódios maníacos relatados no sexo masculino (Baldassano et al., 2005). Esses achados também oferecem respaldo à hipótese de que temperamentos afetivos podem ser formas subclínicas ou precursores de transtornos psiquiátricos maiores, os quais claramente apresentam uma distribuição de gênero particularmente diferente (Vázquez et al., 2012). Segundo estudos diferentes em amostras clínicas, o temperamento depressivo costuma ser mais prevalente entre pacientes com depressão maior e hipertímicos, e os temperamentos ciclotímicos compõem uma característica afetiva específica da doença bipolar. Ademais, alguns estudos relataram que o temperamento ciclotímico está presente em ambas as apresentações – tipo I e tipo II – do TB, além do transtorno depressivo recorrente. Além disso, não foi encontrada diferença na prevalência de pontuações no temperamento irritável entre esses transtornos afetivos (Gassab et al., 2008). Conforme os estudos clínicos relatam uma associação mais sutil e complexa entre temperamentos afetivos e doença afetiva, percebe-se, cada vez mais, que os temperamentos afetivos se mostram importantes dentro de variações da mesma doença, além do padrão conhecido entre as doenças. Uma abordagem mais complexa em relação a detecção e identificação de temperamentos afetivos dentro das constelações básicas, conforme descrito anteriormente, poderá permitir a execução de uma classificação mais sofisticada de doença afetiva, prevendo e determinando subtipos e características (Mazzarini et al., 2009). Mesmo no caso de depressão maior unipolar, a presença de outros temperamentos afetivos além do temperamento depressivo tem um papel fundamental para determinar o quadro clínico, e a presença de outros temperamentos afetivos em pacientes com episódio depressivo maior pode ser valiosa na previsão do curso da doença e conversão bipolar. A presençade temperamento ciclotímico nos casos de depressão maior foi relacionada a características clínicas atípicas (Perugi et al., 2003). Em pacientes com depressão maior unipolar recorrente, pontuações mais elevadas de temperamento ciclotímico também estão associadas aos seguintes fatores: idade mais jovem de início, quantidade mais elevada de episódios depressivos anteriores, maior número de características psicóticas e melancólicas e ideação e tentativas suicidas, as quais são fatores preditores de bipolaridade em depressão recorrente (Mechri et al., 2011). O temperamento pode ser um dos principais fatores que influenciam as características na evolução clínica do TB. De acordo com isso, a quantidade de episódios foi associada a uma maior pontuação no que diz respeito ao temperamento depressivo e a uma menor pontuação em pacientes com temperamento hipertímico. Além disso, o temperamento depressivo foi associado a uma proporção maior de episódios depressivos; enquanto o temperamento hipertímico, a episódios maníacos (Henry et al., 1999). Demonstrou-se também que temperamentos afetivos estão relacionados à idade de início de manifestação do TB (Oedegaard et al., 2009). O temperamento depressivo pode prevalecer entre pacientes com TB tipo I com polaridade depressiva predominante, e o temperamento hipertímico geralmente está presente em pacientes com TB com polaridade maníaca predominante (Henry et al., 1999). Os pacientes com TB com temperamento predominante ciclotímico e hipertímico são significativamente diferentes de outros grupos em características clínicas e de curso relevantes, incluindo proporção de gênero, polaridade e quantidade de episódios, hospitalizações, suicidalidade, transtornos de ansiedade comórbidos e transtornos da personalidade (Perugi et al., 2012). Além disso, o temperamento hipertímico tem sido associado a características psicóticas tanto no TB tipo I quanto no tipo II (Gassab et al., 2008; Mazzarini et al., 2009). No que se refere ao curso da doença, o temperamento ciclotímico tem sido relacionado a uma quantidade maior de todos os tipos de episódios bipolares afetivos (Kochman et al., 2005), e também está associado a um resultado mais desfavorável (Cassano et al., 1992). Alternâncias maníacas ocorrem com maior frequência em pacientes bipolares com temperamento hipertímico, enquanto características psicóticas se manifestam em sujeitos com temperamento irritável. Comorbidades entre pacientes afetivos com temperamento ciclotímico são frequentes, e o temperamento irritável está significativamente associado a um primeiro episódio maníaco da doença (Kesebir et al., 2005a). Pontuações mais altas de temperamento hipertímico estão associadas a riscos mais elevados para mania induzida por antidepressivo em pacientes bipolares depressivos (Henry et al., 2001; Tondo et al., 2013). Enquanto, no caso do TB tipo I, muitas constelações comportamentais diferentes podem constar no pano de fundo, o TB tipo II está relacionado mais especificamente ao temperamento ciclotímico (Hantouche et al., 1998). O temperamento ciclotímico está presente não apenas na maioria dos pacientes com TB tipo II, mas também tem um valor preditivo para conversão bipolar a partir de depressão unipolar (Akiskal et al., 1995; Kochman et al., 2005). Entre os pacientes com TB tipo I, mas não tipo II, pontuações de temperamento hipertímico e depressivo revelaram ter uma correlação negativa. O temperamento hipertímico esteve correlacionado de forma negativa com a quantidade de episódios depressivos e características sazonais nos pacientes com transtorno bipolar tipo II (Gassab et al., 2008). Os temperamentos depressivo, ciclotímico, irritável e ansioso são significativamente mais frequentes em pacientes afetivos com episódios mistos, o que indica uma relação entre episódios afetivos mistos e a presença simultânea de tipos temperamentais opostos (Rottig et al., 2007). A presença de temperamento depressivo também poderia ajudar a distinguir entre estados mistos e estados maníacos puros (Hantouche et al., 2001). FUNDAMENTOS GENÉTICOS E NEUROQUÍMICOS DE TEMPERAMENTOS AFETIVOS Uma característica importante do modelo de estadiamento é a atribuição de características genéticas, neuroquímicas, neuroanatômicas, neurobiológicas e neurocognitivas que distinguem os diferentes estágios da doença (Berk et al., 2007; Kapczinski et al., 2009; Grande et al., 2013). Embora tenhamos achados limitados para respaldar a associação desses fatores a temperamentos afetivos, há relatos de alguns resultados positivos, os quais também defendem os temperamentos afetivos como fases latentes de doença afetiva. Por definição, os temperamentos possuem uma base genética e biológica forte (Bouchard, 1994; Cloninger, 1994), o que também parece ser o caso de temperamentos afetivos (Chiaroni et al., 2005; Evans et al., 2005). Uma abordagem mais recente do TB conceitualiza o espectro bipolar como um traço genético quantitativo com uma distribuição contínua, em vez de ser qualitativo, conforme sugere a abordagem categórica (Evans et al., 2005). Nessa linha de pensamento, o TB tem maior probabilidade de ser um traço poligênico que surge como resultado de interações entre fatores ambientais e genes múltiplos, sendo que cada um, por si só, tem apenas um pequeno efeito (Evans et al., 2005; Carddoci e Sklar, 2013). Esses genes que predispõem aos TBs podem provocar fenótipos que se misturam continuamente em constelações observadas com frequência em populações saudáveis não clínicas, e podem ser descritos como variações normais de temperamentos afetivos. Conforme mencionado anteriormente, as doenças afetivas são reservatórios genéticos para temperamentos e traços adaptativos (Akiskal e Akiskal, 2007). Vários estudos demonstraram que parentes saudáveis de probandos exibem graus mais elevados de desregulação do humor do que controles normais (Evans et al., 2005; Mendlowicz et al., 2005). Postulou-se também que esses traços temperamentais podem ter uma base genética em comum com o TB (Kelsoe, 2003). Estudos genéticos familiares de pacientes com transtornos afetivos identificaram uma forte agregação de temperamentos afetivos, principalmente ciclotímicos e, em menor grau, hipertímicos e ansiosos, entre parentes de primeiro grau saudáveis de pacientes com TB tipo I, o que oferece respaldo à teoria de que há base genética em temperamentos afetivos (Chiaroni et al., 2005; Evans et al., 2005, 2008; Kesebir et al., 2005b; Mendlowicz et al., 2005; Vázquez et al., 2008; Mazzarini et al., 2009). Esses traços ciclotímicos subafetivos poderiam servir como potenciais marcadores de vulnerabilidade, oferecendo apoio às formas sublimiares e à extremidade mais suave do espectro bipolar (Akiskal e Pinto, 1999). Há argumentos razoáveis de que o temperamento ciclotímico poderia contribuir para uma definição fenotípica ampla da condição bipolar (Chiaroni et al., 2005; Kochman et al., 2005) e seria considerado um estágio preliminar ou latente do TB totalmente manifesto. A despeito da crescente atenção voltada para os temperamentos afetivos tanto nas áreas de pesquisa clínica quanto de personalidade, nosso conhecimento a respeito de sua base genética requer mais investigações. Em um estudo seminal, Gonda e colaboradores relataram uma associação significativa entre o alelo s do polimorfismo 5-HTTLPR do gene transportador de serotonina e os temperamentos afetivos que carregam um componente depressivo (depressivo, ciclotímico, irritável e ansioso) (Gonda et al., 2006), a qual não foi confirmada por estudos subsequentes (Kang et al., 2008; Landaas et al. 2011). A possível correlação entre o alelo 5-HTTLPR e os temperamentos afetivos não foi surpreendente, pois se revelou que esse alelo está associado a traços relacionados à ansiedade (Sen et al., 2004; Homberg e Lesch, 2011) e a traços relacionados com o neuroticismo (Gonda et al., 2009), bem como a transtornos afetivos unipolares (Clarke et al., 2010) e bipolares (Levinson, 2006). Acredita-se que o alelo 5-HTTLPR s exerça sua influênciade fase da evolução da doença? Eficácia: +++ = muito bom; ++ = bom; + = moderado; ± = duvidoso. (Observe que todas as pontuações são altamente preliminares e temporárias.) Curiosamente, os anestésicos locais lidocaína e cocaína também apresentam uma progressão de estágios semelhante ao kindling (desde o desenvolvimento a totalmente desencadeado ou até espontâneo) no desenvolvimento tanto de ataques de pânico quanto convulsivos (o que pode ser encarado como kindling farmacológico). De modo similar, surtos repetidos de abstinência de álcool (não intoxicação) podem estimular extremos graves de comportamento (delirium tremens) e convulsivos (Ballenger e Post, 1978). Portanto, o kindling é um modelo indireto ou não homólogo para a progressão da doença, já que convulsões não acompanham episódios de humor nos transtornos afetivos. Ao contrário dos processos de kindling, nos quais convulsões constituem a meta típica, a sensitização comportamental geralmente se refere a uma hiperatividade crescente e a respostas estereotipadas à repetição da mesma dose de estimulante psicomotor, como anfetamina, cocaína ou metilfenidato. Evidências sugerem que o uso repetido de estimulantes em seres humanos também avança por meio de estágios iniciais de euforia relativamente benigna até uma ruptura comportamental mais grave e disfórica e, por fim, a psicose paranoide. Portanto, a sensitização por episódio no transtorno bipolar pode refletir aumentos na gravidade e no tipo de manifestação, além de maior vulnerabilidade à recorrência. Assim como no kindling, o estágio inicial de desenvolvimento de aumento da reatividade comportamental a estimulantes apresenta respostas diferentes a tratamentos farmacológicos em comparação com a fase posterior de expressão (depois que o animal já foi sensitizado). Por exemplo, antipsicóticos bloqueiam o desenvolvimento, mas não a expressão da sensitização comportamental induzida por estimulantes, o que pode ser relevante clinicamente para a resposta a antipsicóticos (Post et al., 1987). Respostas a alguns estressores intermitentes também podem demonstrar sensitização em suas respostas comportamentais ou bioquímicas (em vez de tolerância e infrarregulação). Portanto, denominamos esses dois fenômenos de aumento da resposta à repetição do mesmo estímulo indutor como sensitização por estimulantes e sensitização por estressor. Também parece haver uma sensitização cruzada entre os efeitos induzidos por estressores e por estimulantes, e vice-versa (Antelman et al., 1980; Kalivas e Stewart, 1991). Se considerarmos os achados de que episódios afetivos são propensos à recorrência sucessiva de forma mais rápida como evidência de uma sensitização por episódio, teremos, então, três tipos de recorrências intermitentes que podem sensitizar ou aumentar sua resposta: estressores, episódios e substâncias de abuso. Tanto os dados clínicos quanto os pré-clínicos sugerem que cada tipo de sensitização pode mostrar sensitização cruzada com os outros dois, criando, assim, um círculo vicioso de retroalimentação positiva, sendo que cada elemento contribui para a progressão da doença (Fig. 1.3). Por exemplo, estressores recorrentes podem causar sensitização cruzada tanto à recorrência de episódio de afeto quanto ao novo uso de substâncias. FIGURA 1.3 Sensitização cruzada entre estressores, substâncias de abuso e episódios. CONSEQUÊNCIAS NEUROBIOLÓGICAS DE SENSITIZAÇÃO POR EPISÓDIO, ESTRESSE E SUBSTÂNCIA Os episódios de humor não apenas recorrem mais rápida e espontaneamente, mas também um maior número de episódios afetivos está associado ao aumento da resistência ao tratamento, a mais déficits cognitivos e a diversas mudanças patológicas cerebrais e somáticas (Post et al., 2012). A duração da doença e o número de episódios podem, até certo ponto, ser encarados como marcadores substitutos para estágios da progressão da doença. A EVOLUÇÃO DE MODELOS DE ESTADIAMENTO MAIS FORMAIS Com base nesse tipo de evidências, Berk e colaboradores (2011) e Kapczinski e colaboradores (2009) propuseram uma classificação de vários estágios de progressão do transtorno bipolar. A divisão mais simples do curso da doença entre fases iniciais e tardias já parece ter implicações no prognóstico e no tratamento. Além disso, vários marcadores neurobiológicos diferem como função dessa distinção entre estágio inicial e tardio (Kauer- Sant’Anna et al., 2009). Este autor propôs um conceito de estadiamento semelhante, porém mais detalhado, que permite a consideração dos efeitos adicionais de comorbidade com abuso de substância e de álcool, estressores, perda de apoio social, várias recorrências e outras complicações da doença que podem contribuir ainda mais para o prognóstico (Post, 2010; Post et al., 2012). A partir dessa estrutura, sugerimos oito estágios, cada um com a possi- bilidade de múltiplas subcategorias e classificações: estágio I, vulnerabilidade; II, intervalo de eutimia; III, pródromo; IV, síndrome; V, recorrência; VI, progressão; VII, resistência ao tratamento; e VIII, deterioração ou estágio tardio (Fig. 1.4). O estágio I incluiria o grau de predisposição (a) genética ou (b) ambiental, enquanto outros fatores de predisposição seriam classificados em II (intervalo de eutimia) no caso de uma variedade de adversidades na infância, incluindo tipos diferentes de abuso, negligência, perda dos pais, etc. Os estágios III (pródromo) e IV (síndrome) receberiam subclassificações para os subtipos transtorno bipolar tipo I, tipo II e SOE, bem como outras características críticas de relevância prognóstica, como comorbidade com ansiedade ou abuso de substância. FIGURA 1.4 Estágios da evolução da doença bipolar. TDAH = transtorno de déficit de atenção/hiperatividade; TC = transtorno da conduta; TOD = transtorno de oposição desafiante Um esquema sugerido é apresentado na Tabela 1.1, nos moldes utilizados para o estadiamento de progressão do câncer de colo. Nesse caso, a subcategorização da profundidade e do grau de invasão de células malignas e expansão dos tumores em estágios IIa, IIb ou IIc comprovou apresentar implicações prognósticas substanciais para a sobrevivência. TABELA 1.1 Estadiamento da doença bipolar Primeiros estágios Estágio I II III IV VULNERABILIDADE INTERVALO DE EUTIMIA PRÓDROMO INÍCIO DA SÍNDROME A. Genética 1. Unilinear A. Adversidade/abuso na infância A. Diagnóstico anterior 1. TDAH A. TB-I Na idade a. E/EA b. TB c. UP 2. Bilinear a. E/EA b. TB c. UP 3. Marcadores genéticos a. CACA b. val66val proBDNF 1. Verbal 2. Física 3. Sexual 4. Negligência 2. TOD 3. Transtorno de ansiedade a. Separação b. Escola c. Fobia d. Fobia social e. TAG f. Pânico g. TOC h. TEPT 4. Depressão 5. TDDH 6. Abuso de substância Duração B. Pré-natal 1. Baixo peso ao nascer 2. Prematura 3. Infecção viral 4. Outro B. Perda dos pais 1. Mãe a. Ausente b. Falecida 2. Pai a. Ausente b. Falecido B. Surgimento dos sintomas 1. Euforia breve 2. Euforia prolongada 3. Redução do sono 4. Grandiosidade 5. Alucinações 6. Hipersexualidade 7. Labilidade do humor extrema 8. Agressividade 9. Ciclotimia 10. Tentativas de suicídio 11. Outro B. TB-II Na idade Duração C. Perinatal 1. Raiva baixa C. Adversidade/abuso C. TB SOE Na idade 2. Anoxia neonatal na adolescência/idade adulta 1. Verbal 2. Física 3. Sexual 4. Negligência 5. Bullying Duração D. Marcadores periféricos 1. Homocisteína 2. Anticorpos D. BSCE (renda familiar) 1. Abaixo da linha da pobreza 2. Marginal/quase inadequada D. Depressão (seguida por mania) Na idade Duração E. Neuropsicologia 1. Reconhecimento de emoções faciais pobre F. Êxito acadêmico 1. Somente notas máximas no ensino médio G. Marcadores sanguíneos H. Marcadores cerebrais 1. RM 2. RMf 3. PET Estágios posteriores V VI VII VIII RECORRÊNCIA PROGRESSÃO RESISTÊNCIA AO TRATAMENTO ESTÁGIO TARDIO A. Manias 1. Quantidade 2. Ciclagem rápida (CR) 3. Ciclagem ultrarrápida 4. Ciclagem ultradiana A. Episódios (mania, depressão, misto)sobre o aparecimento de depressão ao mediar o efeito do estresse da vida e de eventos de vida adversos (Caspi et al., 2003, 2010; Karg et al., 2011). Em consonância, a reatividade emocional é uma característica importante abrangida por temperamentos afetivos. Além disso, um efeito significativo de interação entre o 5-HTTLPR e o polimorfismo do promotor do gene receptor de canabinoide 1 (CNR1) foi relatado posteriormente no caso de temperamento ansioso (Lazary et al., 2009), oferecendo ainda mais respaldo a uma forte determinação genética de temperamentos afetivos, bem como à alegação de serem estágios latentes de doença afetiva. Além da codificação genética para elementos do sistema serotoninérgico, outros genes monoaminérgicos frequentemente surgem como candidatos potenciais que contribuem para a determinação de temperamentos. Um estudo coreano relatou uma associação positiva entre o gene DRD4 e os temperamentos irritável e ciclotímico em sujeitos saudáveis do sexo masculino (Kang et al., 2008). Tanto o temperamento irritável quanto o ciclotímico são classicamente conceitualizados como subtipos temperamentais mistos, incorporando características tanto depressivas quanto hipertímicas, simultaneamente no caso do temperamento irritável, e alternativamente no caso do temperamento ciclotímico (Kraepelin, 1921), de forma que a associação com o gene DRD4 pode sugerir uma ligação possível entre esse receptor e os traços hipertímicos, como no estudo de Gonda e colaboradores (2006), em que o alelo HTTLPR s foi associado ao componente depressivo dos temperamentos afetivos. O temperamento depressivo também foi associado de forma significativa ao haplótipo mais frequente do gene receptor de oxitocina em uma amostra de sujeitos japoneses saudáveis (Kawamura et al., 2010). Um estudo relatou uma associação positiva entre temperamento e um locus cromossômico em 18p11 em famílias com TB. Outros picos de ligação com regiões potenciais de interesse também foram detectados nos cromossomos 3 e 7 (Evans et al., 2008). Os poucos estudos restantes voltados para a base genética dos temperamentos afetivos forneceram achados negativos. Há uma atenção crescente à associação entre o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) e os transtornos afetivos, com alguns resultados positivos (Neves-Pereira et al., 2002; Sklar et al., 2002; Lohoff, 2010). Há resultados semelhantes para o polimorfismo de glicogênio sintase quinase-3 β (GSK3 β) rs6782799 (Zhang et al., 2010) e o polimorfismo rs2267665 do gene PPARD (receptor delta ativado por proliferador de peroxissomo) no caminho de sinalização Wnt, o qual também pode estar implicado na fisiopatologia de transtornos afetivos (Zandi et al., 2008). Contudo, um estudo recente não encontrou associação entre esses polimorfismos e os temperamentos afetivos em uma população saudável (Tsutumi et al., 2011). Deve-se observar que esse estudo envolveu uma pequena amostra de sujeitos japoneses e deve-se ter em conta que as associações genéticas são específicas para cada etnia, e também que a distribuição de pontuações de temperamento afetivo no Japão é acentuadamente diferente da distribuição em outros países, com pontuações em geral muito mais baixas (Matsumoto et al., 2005). As evidências descritas anteriormente indicam que pode haver uma heterogeneidade genética comum na base de temperamentos afetivos e nas manifestações e síndromes de diferentes doenças afetivas maiores. Portanto, o esboço dos correlatos genéticos de temperamentos afetivos ajudaria a compreender a contribuição genética e, assim, a fundação etiopatogênica dos transtornos afetivos. Contudo, selecionar genes candidatos apenas por meio da extrapolação a partir de polimorfismos sabidamente associados a transtornos afetivos ofereceu resultados mistos, possivelmente porque tanto a base genética quanto a expressão fenotípica dos temperamentos afetivos estão presentes de uma forma mais diluída entre amostras saudáveis (Akiskal e Akiskal, 2005). A associação potencial entre temperamentos afetivos e função neurotransmissora e estruturas neuroanatômicas também gerou poucos estudos até o momento. Em um estudo com pacientes portadores de transtornos do humor maiores, perfis predominantemente de temperamento depressivo, caracterizados por pontuações elevadas de temperamento depressivo, ciclotímico, ansioso e irritável, bem como por pontuação baixa de temperamento hipertímico, revelaram estar associados a diferentes padrões de hiperintensidades de substância branca no cérebro, o que indica uma relação positiva entre alguns subtipos de temperamento afetivo e alterações específicas em regiões cerebrais subcorticais (Serafini et al., 2011). Em outra série recente de artigos, relatou-se uma associação entre temperamentos afetivos e data de nascimento com padrões característicos (Rihmer et al., 2011). Curiosamente, esse padrão de associação corresponde ao padrão sazonal de nascimento já relatado no caso de pacientes bipolares dos tipos I e II em uma pequena amostra clínica (Rihmer, 1980). A estação do ano em que ocorre o nascimento é um marcador importante, além de uma variável identificadora para vários fatores ambientais que variam com as estações e estão ativos durante o momento da concepção, da gestação ou do nascimento (Chotai et al., 2002). Não se sabe ainda quais dos possíveis fatores variáveis exercem efeito, nem durante qual período de importância, todavia uma associação com a estação do ano em que ocorre o nascimento também foi relatada em caso de diversas doenças somáticas e neuropsiquiátricas, bem como para traços psicológicos saudáveis (Rihmer et al., 2011). Uma explicação provável é que a estação em que ocorre o nascimento exerce influência por meio do estímulo do neurodesenvolvimento de neurotransmissões monoaminérgicas (Chotai et al., 2006). Comprovou-se que vários biomarcadores estão associados à progressão do TB, mas não à fase latente. Por isso, acredita-se que polimorfismos que conferem maior suscetibilidade para doenças bipolares podem ser importantes como biomarcadores que sinalizam essa fase (Kapczinski et al., 2009). Contudo, mudanças bioquímicas associadas às características clínicas da fase latente incluem sintomas de humor e ansiedade, além de desregulação temperamental, podendo ser significativos já nesse estágio inicial. CONSIDERAÇÕES FINAIS O construto teórico de temperamentos afetivos foi desenvolvido a partir de uma combinação de conceitos antigos com observações científicas e clínicas modernas. Temperamentos afetivos abrangem o domínio total de reatividade emocional desde a patologia afetiva até a saúde. Acredita-se que os temperamentos afetivos surjam a partir de bases genéticas e neuroquímicas, as quais foram desenvolvidas e preservadas ao longo da evolução devido a vantagens evolutivas e sociais. Temperamentos afetivos podem constituir a manifestação subclínica de doenças afetivas maiores. Nesse sentido, temperamentos afetivos podem ser considerados um estado precursor, ou a fase latente, para o desenvolvimento de transtornos do humor. Além disso, temperamentos afetivos não são apenas fatores de risco ou precursores de transtornos afetivos, mas também têm um papel patoplástico importante, podendo constituir ferramenta valiosa para prever o surgimento de uma doença afetiva em uma população saudável de alto risco, ou potencial conversão de transtorno unipolar para TBs entre pacientes com transtornos do humor, bem como para um diagnóstico mais sofisticado de transtornos afetivos, especialmente de subtipos da doença bipolar, e para prever o curso da doença, a resposta terapêutica, a adesão ao tratamento, o prognóstico e os resultados, incluindo suicídio. Já na população saudável, temperamentos afetivos podem ser considerados uma base importante da personalidade. O aprofundamento dos estudos sobre temperamentos afetivos e suas bases neuroanatômicas, bioquímicas e genéticas nos ajudaria a compreender os mecanismos internos por trás da afetividade humana. A ideia de um modelo teórico unificadoque inclua temperamentos afetivos como manifestações de estágios iniciais do TB pode auxiliar a estabelecer uma ligação entre as ideias desenvolvidas por Akiskal (1996) e aquelas promovidas por Berk e colaboradores (2007) e Kapczinski e colaboradores (2009). Um modelo unificado foi proposto a partir do uso do conceito de carga alostática e prejuízos acumulativos no desenvolvimento ao longo do tempo com a progressão da doença bipolar (Kapczinski et al., 2008). Contudo, o conceito de estágio latente sugerido por Kapczinski e colaboradores (2009) merece mais estudos, tanto em termos de características biológicas quanto de características fenotípicas. Uma caracterização mais precisa da fase latente do TB seria um passo importante para a detecção precoce, intervenção e, talvez, prevenção da doença. Um estudo detalhado dos temperamentos afetivos como precursores dos transtornos afetivos pode contribuir com insights importantes para o modelo de estadiamento em termos de novas pesquisas e uso clínico do conceito. RECONHECIMENTO Xenia Gonda recebeu a Janos Bolyai Research Fellowship da Hungarian Academy of Sciences. REFERÊNCIAS Akiskal HS (1996) The temperamental foundations of affective disorders. London: Gaskell. Akiskal HS and Akiskal KK (1992) Cyclothymic, hyperthymic and depressive temperaments as subaffective variants of mood disorders. In: Tasman A and Riba MB, eds. Annual Review, vol. II. Washington, D.C.: American Psychiatric Press. Akiskal HS and Akiskal KK (2007) In search of Aristotle: temperament, human nature, melancholia, creativity and eminence. J Affect Disorders 100:1–6. Akiskal HS, Bitar AH, Puzantian VR, et al. 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Frey Luciano Minuzzi Bartholomeus C. M. Haarman Roberto B. Sassi INTRODUÇÃO O estadiamento é amplamente utilizado em diversas áreas da medicina, como oncologia e cardiologia, devido a sua utilidade em orientar a escolha de tratamento e/ou prognóstico. Conforme analisado em capítulos anteriores, o conceito de estadiamento foi aplicado ao transtorno bipolar (TB) conduzido principalmente por pesquisas clínicas neurocognitivas sobre biomarcadores periféricos. Pesquisas com neuroimagens acerca da progressão da doença ainda são limitadas, principalmente devido à ausência de pesquisas com imagens de longo prazo e longitudinais. Contudo, estudos com a prole em risco mais elevado de desenvolvimento de TB, TB pediátrico (TBP), TB adulto e TB em idosos podem esclarecer quais áreas/circuitos cerebrais podem ser mais relevantes para a progressão do transtorno. Aqui, analisamos de forma crítica os estudos com neuroimagens estruturais e funcionais no TB, com enfoque nas alterações nos circuitos cerebrais que podem estar associadas ao curso do transtorno. CRIANÇAS EM RISCO DE DESENVOLVIMENTO DE TRANSTORNO BIPOLAR Existem desafios clínicos significativos no diagnóstico de TB em amostras pediátricas. Frequentemente, uma apresentação prodrômica de sintomas não específicos como perturbações do sono, ansiedade ou irritabilidade pode anteceder o surgimento de mania em muitos anos, atrasando o diagnóstico correto e o tratamento adequado (Duffy et al., 2010). Além disso, o clínico pode facilmente superestimar o risco de TBP se considerar apenas esses sintomas pouco definidos, o que leva a um aumento artificial em sua prevalência (Moreno et al., 2007). Entre todos os fatores de risco potenciais para o desenvolvimento do TB, a história familiar parecer ser um dos mais importantes, podendo ser utilizada com sucesso para aumentar a precisão do diagnóstico (Jenkins et al., 2011). Contudo, apesar de uma história familiar de TB em um parente de primeiro grau aumentar drasticamente o risco de o indivíduo desenvolver o transtorno (Rasic et al., 2013), a maioria das crianças com esse fator de risco não desenvolverá a doença (Birmaher et al., 2009). Estudos longitudinais com a prole de pais com TB demonstraramque apenas a apresentação clínica não pode prever efetivamente quais crianças com ansiedade ou depressão unipolar terão um episódio maníaco ou não (Mesman et al., 2013). Portanto, tem havido interesse renovado por encontrar marcadores potenciais que possam discriminar com exatidão quais crianças devem ser classificadas como estando no estágio prodrômico da doença. Estudos utilizando neuroimagens realizados ao longo dos últimos anos começaram a investigar essa questão. Conforme abordado mais adiante neste capítulo, há evidências convincentes de que o TB esteja associado a alterações funcionais e estruturais específicas em estruturas encefálicas envolvidas na expressão e regulação das emoções. Estudos que examinaram crianças não afetadas que correm risco elevado de desenvolver TB, geralmente definido por terem um pai ou outro parente de primeiro grau com a doença, encontraram diferenças no volume da substância cinzenta (VSC) no córtex cingulado anterior, estriado ventral, giro frontomedial, giro pré-central, córtex insular e giro orbitomedial (Matsuo et al., 2012; Nery et al., 2013). Contudo, nenhuma diferença foi encontrada no volume de outras estruturas geralmente associadas à regulação das emoções, como os volumes hipocampal, talâmico, caudado e cingulado subgenual (Hajek et al., 2009, 2010; Karchemskiy et al., 2011). O volume das amígdalas, por sua vez, parece estar reduzido entre jovens em risco elevado que tiveram sintomas de humor e, por fim, desenvolveram TB em um estudo único (Bechdolf et al., 2012). Portanto, na ausência de estudos longitudinais, com a exceção do volume das amígdalas, os volumes de outras regiões encefálicas dificilmente serão úteis como endofenótipos morfológicos para risco de TB entre jovens que correm risco familiar do transtorno, a menos que consideremos seu estado sintomático versus seu estado não sintomático. Quanto ao funcionamento cerebral, há evidências de diferenças significativas entre jovens não afetados que correm risco elevado de desenvolverem TB e controles saudáveis. Comprovou-se ativação frontal reduzida e ativação exagerada da amígdala durante o processamento facial em jovens em risco, semelhante à observada entre jovens com diagnóstico de TB (Olsavsky et al., 2012; Roberts et al., 2013). As amígdalas compõem uma área de interesse crítica devido a sua relevância no processamento emocional e seu papel bastante conhecido em outras formas de psicopatologia. A hiperatividade das amígdalas também é observada em transtornos de ansiedade, por exemplo (Beesdo et al., 2009). Ademais, a ansiedade parece ser um fator de risco para desenvolver TB entre crianças com história familiar da doença (Duffy et al., 2013). Logo, o funcionamento das amígdalas pode ser um candidato promissor a marcador de neuroimagens do estadiamento prodrômico. Atualmente, a ausência de estudos longitudinais que mapeiem as correlações entre a hiperatividade das amígdalas, os sintomas de ansiedade e o inevitável episódio maníaco inicial entre crianças em risco limita a utilidade desse marcador. Há também evidências de que a substância branca como um todo passa por processos anormais de desenvolvimento em crianças que correm alto risco de desenvolver TB (Sprooten et al., 2011). Dados de imagens por tensor de difusão (DTI) sugerem que o corpo caloso e os tratos associativos temporais podem mostrar padrões opostos em mudanças relacionadas à idade em anisotropia fracionada (AF), uma medida da integridade da substância branca, na prole saudável de pais bipolares e controles saudáveis (Versace et al., 2010). De fato, uma metanálise composta por 27 estudos de imagens estruturais e por 10 estudos de imagens funcionais revelou correlações significativas entre o risco genético de TB e anormalidades na substância branca (Fusar-Poli et al., 2012), as quais foram sugeridas também por outras linhas de evidências (Mahon et al., 2010). Contudo, hiperintensidades na substância branca (HSB) – ou seja, pequenas lesões não específicas na substância branca associadas a etiologias múltiplas, como doença cardiovascular e desmielinizantes – não diferem entre jovens em risco elevado de desenvolvimento de TB e controles (Gunde et al., 2011). Portanto, não está claro se são anormalidades disseminadas ou localizadas na substância branca que estão associadas a risco familiar elevado de TB. Estudos longitudinais com medidas tanto abrangentes quanto específicas da integridade da substância branca são necessários para determinar se esses achados terão valor suficiente a ponto de serem úteis para determinar o estadiamento da doença em casos prodrômicos. TRANSTORNO BIPOLAR PEDIÁTRICO Até o momento, a maioria dos estudos com neuroimagem de jovens pacientes com diagnóstico confirmado de TB tende a encontrar anormalidades em paralelo às encontradas em adultos mais velhos. De modo geral, a disfunção frontolímbico-estriatal parece ser um achado comum tanto em jovens como em adultos afetados (Blond et al., 2012). Ao se usar paradigmas que envolvem o processamento de emoções faciais, vários estudos confirmaram a hiperativação das amígdalas e a hipoativação pré-frontal em jovens afetados quando comparados a controles saudáveis (Chang et al., 2004; Rich et al., 2006; Brotman et al., 2010, 2013; Schneider et al., 2012). Embora haja pouquíssimos estudos que comparam diretamente a doença bipolar de início precoce com a doença bipolar de início tardio, um estudo importante comparou o grau de hiperatividade das amígdalas em casos de TBP e TB adulto, o qual revelou que os casos de TBP mostraram um padrão de hiperatividade das amígdalas em uma faixa mais ampla de emoções faciais (Kim et al., 2012) em comparação com os pacientes mais velhos com TB. Esse foi um estudo transversal, portanto, ainda se espera um estudo longitudinal a fim de confirmar os aspectos de desenvolvimento do funcionamento das amígdalas no TB. Todavia, estudos longitudinais foram conduzidos visando mensurar o volume das amígdalas. Há evidências significativas de redução no volume das amígdalas no TBP em geral confirmadas por duas metanálises (Pfeifer et al., 2008; Hajek et al., 2009). Contudo, estudos longitudinais sobre o volume das amígdalas forneceram resultados conflitantes (Schneider et al., 2012), embora estudos mais recentes sugiram que o volume das amígdalas se reduz com o decorrer do tempo (Geller et al., 2009; Bitter et al., 2011). Ademais, parece haver uma correlação inversa entre o funcionamento e o volume das amígdalas, ou seja, a hiperativação das amígdalas está associada a volumes menores (Kalmar et al., 2009), o que sugere que uma possível perda de neurônios inibidores dentro das amígdalas poderia explicar tanto seu volume progressivamente menor quanto o aumento da ativação após estímulos emocionais (Schneider et al., 2012). Apesar disso, esses dados, juntamente com a resposta exagerada das amígdalas a emoções faciais encontrada em jovens que correm risco elevado de desenvolvimento de TB (embora apresentem volume normal), destacam as amígdalas como uma estrutura potencialmente chave no estadiamento da doença. Novos estudos terão que avaliar se outros paradigmas de imagens de ressonância magnética (RM) capazes de ativar de forma diferente as amígdalas permitirão que entendamos seu papel nos estágios prodrômico, inicial e final da doença. Um componente importante da bibliografia sobre imagens no TBP envolve a comparação entre jovens com TB estreitamente definido – tipo I ou tipo II – e “desregulação grave do humor” (DGH) – irritabilidade crônica não episódica. O fato de a DGH representar ou não uma manifestação pediátrica de TB tem sido continuamente discutido na literatura (Biederman et al., 2000). De modo geral, tanto TBP quanto DGH apresentam uma classificação anormal das expressões faciais de emoção (Rich et al., 2008) e ativação exagerada das amígdalas a emoções faciais (Thomas et al., 2013), mas com diferenças pré-frontais na atividade neural subjacente que faz a mediação desses déficits (Brotman et al., 2010; Thomas et al., 2013a, b).Não causa espanto que anormalidades na substância branca também tenham sido encontradas em diversas regiões em casos de TBP, incluindo joelho, tronco e esplênio do corpo caloso, corona radiada e comissura anterior (Saxena et al., 2012; Lagopoulos et al., 2013). Contudo, na ausência de estudos longitudinais, não é possível ligar esses achados ao estadiamento ou à progressão da doença. TRANSTORNO BIPOLAR ADULTO Volume da substância cinzenta Uma série de estudos de RM aplicou, repetidamente, a aquisição de imagens de RM na investigação de mudanças no volume da substância cinzenta (VSC) no decorrer do tempo no TB. Tem sido observada uma redução no VSC no córtex pré-frontal dorsolateral (CPFdl) de forma consistente ao longo do curso de TB (Lisy et al., 2011). Esses dados são compatíveis com três estudos prospectivos que encontraram uma redução significativa no nucleus accumbens (NAc) em sujeitos com TB (Kalmar et al., 2009). Destaca-se o fato de que existem evidências de que o lítio pode aumentar o VSC no NAc, especificamente no NAc subgenual, o que torna essa área encefálica uma interessante candidata para investigação da progressão da doença e resposta ao tratamento no TB (Lyoo et al., 2007). Ao contrário do volume reduzido das amígdalas observado no TBP, a maioria dos estudos longitudinais em pacientes adultos e idosos com TB não mostrou alterações no volume das amígdalas ao longo do tempo (Moorhead et al., 2007; Bitter et al., 2011; Delaloye et al., 2011). De forma bastante semelhante aos resultados do NAc subgenual, é possível que a estabilidade do volume das amígdalas em bipolares adultos e idosos possa estar associada aos efeitos do tratamento. Estudos longitudinais voltados para as alterações no volume hipocampal forneceram resultados inconsistentes. Embora estudos tenham encontrado uma redução no giro hipocampal esquerdo e no hipocampo esquerdo ao longo do tempo (Moorhead et al., 2007), outros estudos encontraram resultados opostos (Delaloye et al., 2011; Lisy et al., 2011). Novamente, as diferenças no tratamento podem explicar algumas dessas discrepâncias, já que há evidências de que o lítio pode aumentar o volume hipocampal (Yucel et al., 2007). Hiperintensidades na substância branca As hiperintensidades na substância branca (HSB) são áreas de alta intensi- dade no encéfalo humano observadas em imagens de RM enfatizadas em T2. As HSB podem ser classificadas conforme sua localização anatômica: na substância branca profunda (HSB profundas) ou adjacente aos ventrículos laterais (HSB periventriculares). A fisiopatologia das HSB tem sido associada a anormalidades vasculares localizadas como áreas isquêmicas, infartos e espaços perivasculares aumentados (Braffman et al., 1988; van Swieten et al., 1991; Chimowitz et al., 1992; Fazekas et al., 1993; Manolio et al., 1994), bem como a processos neurodegenerativos como desmielinização, perda de axônios e necrose (Thomas et al., 2002, 2003). Embora as HSB tenham sido encontradas em indivíduos idosos saudáveis, alguns estudos relataram uma associação entre hiperintensidades e déficits cognitivos no envelhecimento saudável (de Groot et al., 2001, 2002). Dupont e colaboradores (1987) relataram, pela primeira vez, a associação entre as HSB e o TB. O estudo foi composto por 14 pacientes bipolares e oito controles saudáveis (média de idade de 38 ± 8 e 41 ± 9 anos, respectivamente), e as HSB foram associadas à quantidade de hospitalizações. Depois desse primeiro relato, vários estudos comprovaram a associação entre hiperintensidades e TB, um dos achados de imagens mais replicados em transtornos do humor. Embora nem todos os estudos tenham encontrado HSB mais elevadas em pacientes bipolares quando comparados a controles, três metanálises examinaram a prevalência de HSB e TB e confirmaram uma associação positiva. As razões de probabilidade, as quais incluíram hiperintensidades profundas, perivasculares e subcorticais da substância cinzenta, foram de 2,9 (Altshuler et al., 1995), 3,29 (Videbech, 1997) e 2,5 (Beyer et al., 2009). Outro achado importante nas metanálises foi a heterogeneidade significativa das hiperintensidades de um estudo para o outro. Essa variabilidade pode ser explicada pela inclusão de populações heterogêneas em diferentes estudos, bem como por diferenças nos procedimentos de RM e em técnicas de análise. Destaca-se que não foram encontradas diferenças de gênero nas HSB no TB (Aylward et al., 1994; Persaud et al., 1997; McDonald et al., 1999; Krabbendam et al., 2000; Ahn et al., 2004). As HSB têm sido fortemente associadas ao envelhecimento (de Leeuw et al., 2001; Sachdev et al., 2007; Wen et al., 2009), apesar dos resultados conflitantes em estudos que apresentam a associação entre hiperintensidades e idade em pacientes bipolares. Alguns estudos não encontraram correlação entre HSB e idade na população bipolar (Figiel et al., 1991; Strakowski et al., 1993; Dupont, 1995; McDonald et al., 1999; Krabbendam et al, 2000). Contudo, três estudos revelaram que a associação entre hiperintensidades e idade foi mais elevada em pacientes bipolares mais velhos quando comparados a controles saudáveis (Aylward et al., 1994; Altshuler et al., 1995; Moore et al., 2001). McDonald e colaboradores (1999) recrutaram quatro grupos para um estudo: pacientes bipolares com idade inferior a 50 anos e superior a 50 anos, e controles saudáveis com idade inferior a 50 anos e superior a 50 anos. Com esse formato, encontraram uma associação entre HSB periventriculares e idade, mas não com o diagnóstico. Todavia, Silverstone e colaboradores (2004) descobriram que apenas HSB profundas eram atribuíveis ao efeito de idade, e não foram encontradas diferenças em HSB periventriculares. Uma possível explicação para a discrepância na associação entre HSB e idade pode estar relacionada a um risco mais elevado de eventos cardiovasculares na população bipolar (McIntyre et al., 2012). McDonald e colaboradores (1999) descobriram que sujeitos bipolares apresentavam mais fatores de risco cardiovascular do que controles saudáveis, entretanto sujeitos bipolares não eram estatisticamente diferentes entre os grupos. O mesmo estudo não apontou uma correlação entre a presença de HSB e fatores de risco cardiovascular. Poucos estudos se concentraram na presença de HSB e progressão do TB. Alguns estudos revelaram uma associação entre HSB e a quantidade de hospitalizações psiquiátricas (Dupont et al., 1987, 1990; Dupont, 1995; McDonald et al., 1999). Em contrapartida, Altshuler e colaboradores (1995) não encontraram a mesma correlação em sua amostra composta por 29 pacientes com TB tipo I e 26 pacientes com TB tipo II. Nenhuma correlação entre HSB e história de episódios psicóticos foi encontrada em três estudos (Dupont et al., 1990; Figiel et al., 1991; Altshuler et al., 1995). Contudo, mais tarde, McDonald e colaboradores (1999) descobriram, em um grupo composto por 70 indivíduos bipolares (38 com idade inferior a 50 anos e 32 com idade superior a 50 anos) que os pacientes mais velhos apresentavam mais HSB e eram mais propensos a estarem psicóticos durante a admissão psiquiátrica. Apenas um estudo encontrou uma associação entre HSB e história de tentativas de suicídio (Pompili et al., 2007). Além disso, somente um estudo preliminar composto por 16 pacientes analisou a associação entre duração da doença e HSB em pacientes bipolares, mas nenhuma correlação foi encontrada (Kato et al., 2000). Resultados conflitantes foram relatados sobre aumento das HSB, resistência e resposta ao tratamento (Moore et al., 2001; Silverstone et al., 2003). Concluiu-se que, embora o aumento nas HSB seja um dos achados mais consistentes na pesquisa envolvendo imagens encefálicas em TB, não está claro até o momento se ou como essas anormalidades se relacionam com a progressão da doença. Tratos da substância branca: imagem por tensor de difusão A imagem por tensor de difusão (DTI) é uma técnica de geração de imagens que mapeia a dispersão de moléculas de água em tecidos biológicos. A técnica se baseiano fato de que as moléculas de água se movem igualmente em todas as direções no espaço (difusão isotrópica), mas quando a água é restrita por barreiras físicas (p. ex., na extensão do axônio), as moléculas se movem mais na extensão do eixo longo da fibra do que do eixo perpendicular (difusão anisotrópica). A AF exprime o grau de anisotropia, seu valor é 0 quando a difusão é igual em todas as direções (p. ex., no líquido cerebrospinal) e próximo a 1 quando a difusão é apenas em uma direção. A AF foi considerada como um marcador da integridade da substância branca. Redução na AF foi descrita em tecidos com inflamação, edema, gliose e também no processo de desmielinização (Xekardaki et al., 2011). Oito estudos utilizaram uma análise de região de interesse (ROI) para obter valores de AF a partir de tratos de substância branca em pacientes bipolares. Valores reduzidos de AF (indicadores de integridade anormal localizada na substância branca) quando comparados a controles saudáveis foram relatados na substância branca frontal (Adler et al., 2004b, 2006), na substância branca occipital (Macritchie et al., 2010), no corpo caloso (Wang et al., 2008a), na cápsula interna e no fascículo frontoccipital (Haznedar et al., 2005). Apenas dois estudos mostraram valores maiores de AF na substância branca frontal anterior (Haznedar et al., 2005) e no corpo caloso (Yurgelun-Todd et al., 2007). Estudos que utilizaram análises baseadas em voxels mostraram padrões e distribuições de AF diferentes nos tratos de substância branca em pacientes bipolares. Recentemente, duas metanálises utilizaram a estimativa de probabilidade anatômica baseada em voxels no cérebro inteiro (Turkeltaub et al., 2002) para obter a localização da probabilidade de distribuição dos resultados com base em voxels da literatura (Vederine et al., 2011; Nortje et al., 2013). Vederine e colaboradores (2011) incluíram 11 estudos de DTI com base em voxels com um total de 314 pacientes bipolares e 300 controles saudáveis. A análise da estimativa de probabilidade anatômica baseada em voxels identificou duas regiões de substância branca de baixa AF em pacientes bipolares quando comparados a controles saudáveis. Os agrupamentos foram localizados na substância branca próxima ao giro para- hipocampal direito e no córtex cingulado anterior direito. Os autores identificaram quatro tratos de substância branca cruzando o giro para- hipocampal: (1) o fascículo longitudinal superior, (2) o fascículo frontoccipital inferior, (3) o fascículo longitudinal inferior e (4) as radiações talâmicas posteriores; e três tratos de substância branca que cruzam o córtex cingulado anterior: (1) o uncinado, (2) o fascículo frontoccipital inferior e (3) o fórceps menor do corpo caloso. Esses tratos da substância branca foram envolvidos na identificação de emoções faciais e processamento emocional. Nortje e colaboradores (2013) incluíram 15 estudos de DTI com base em voxels com um total de 390 pacientes bipolares e 354 controles saudáveis. A análise da estimativa de probabilidade anatômica identificou três regiões da substância branca de baixa AF em pacientes bipolares: a substância branca temporoparietal direita, o giro cingulado esquerdo e o cingulado anterior esquerdo. Os tratos da substância branca conectados a essas regiões são o fascículo longitudinal inferior, o fascículo frontoccipital inferior, o cíngulo médio e posterior e a radiação talâmica anterior. Descreveu-se também o envolvimento desses tratos da substância branca na regulação emocional. Dois estudos examinaram a associação da duração da doença e os valores de difusão nos tratos de substância branca em pacientes bipolares em comparação a controles saudáveis. Uma duração mais prolongada da doença foi relacionada à baixa AF em várias regiões encefálicas de pacientes bipolares (Versace et al., 2008; Zanetti et al., 2009). A idade esteve correlacionada de forma negativa com os valores da AF em diferentes regiões da substância branca em pacientes bipolares, mas não em indivíduos saudáveis (Versace et al., 2008). Apenas um estudo comparou pacientes deprimidos com pacientes bipolares eutímicos. Zanetti e colaboradores (2009) relataram que pacientes deprimidos apresentaram valores da AF menores em comparação a pacientes eutímicos. Em resumo, estudos transversais sugerem que anormalidades nos tratos da substância branca podem estar associadas à progressão do TB. Embora sejam aguardados estudos longitudinais a fim de confirmar tal associação, esses resultados são compatíveis com a noção de que inflamação e outros processos neurotóxicos podem afetar a bainha da substância branca no TB. Ressonância magnética funcional no estado de repouso A ressonância magnética funcional (RMf) é uma técnica de imagem não invasiva que mede a atividade cerebral ao detectar mudanças localizadas no fluxo sanguíneo. A RMf no estado de repouso estuda a função do cérebro na ausência de uma tarefa específica (“repouso”). Anand e colaboradores (2009) estudaram 11 pacientes bipolares utilizando a análise de ROI da RMf no estado de repouso. Eles encontraram redução na conectividade corticolímbica (entre o córtex cingulado anterior pré-genual [CCApg] e o tálamo dorsomedial, entre o CCApg e a amígdala, e entre o tálamo e o pálido/estriado) em pacientes bipolares em comparação a controles saudáveis. Chepenik e colaboradores (2010) estudaram 15 pacientes bipolares clinicamente heterogêneos. Eles encontraram aumento da correlação entre o córtex pré-frontal ventral (CPFv) e o hemisfério direito, e uma redução na correlação entre o CPFv esquerdo (CPFve) e as regiões dorsofrontal e parietal. Ongür e colaboradores (2010) estudaram 17 pacientes com TB tipo I. Eles encontraram redução na conectividade no córtex pré-frontal medial (CPFm) e um recrutamento anormal do córtex parietal com rede em modo padrão (DMN, Default Mode Network), que foi correlacionado a pontuações de mania. Chai e colaboradores (2011) estudaram 14 pacientes com TB tipo I. Eles encontraram correlações positivas entre o CPFm e a ínsula esquerda, entre CPFm e CPFve e amígdala esquerda em pacientes com mania. Anticevic e colaboradores (2013) estudaram uma amostra de grandes proporções com 68 pacientes com TB tipo I eutímicos. Eles encontraram aumento da conectividade entre o CPFm e a amígdala em pacientes eutímicos. Meda e colaboradores (2012) estudaram 64 pacientes bipolares psicóticos e os compararam com 52 parentes de primeiro grau não afetados e com 118 controles saudáveis. Eles encontraram aumento da conectividade entre as regiões mesoparalímbica e frontotemporal/paralímbica em pacientes bipolares. Os estudos que se concentraram nas alterações na DMN no TB e na progressão da doença ainda são limitados. Chai e colaboradores (2011) encontraram uma correlação positiva entre a conectividade de CPFm e CPFdl e idade de início do TB. No que se refere a sintomatologia e gravidade, uma redução na conectividade entre o CPFdl e a amígdala foi encontrada em pacientes eutímicos com história de psicose quando comparados a pacientes sem história de psicose e controles saudáveis (Anticevic et al., 2013). Em suma, ainda é cedo para avaliar a utilidade de RMf no estado de repouso para estadiamento/progressão do TB. Ressonância magnética funcional baseada em tarefas Apenas três estudos trataram do funcionamento de atenção sustentada no TB. Pacientes bipolares eutímicos demonstraram menos ativação no giro frontomedial esquerdo e maior ativação nas regiões do CPFv, da amígdala esquerda e para-hipocampal durante a tarefa de atenção sustentada (Strakowski et al., 2004). Pacientes maníacos demonstraram menos ativação no estriado esquerdo, no tálamo esquerdo e no giro frontal esquerdo (GFE) bilateral, além de ativação embotada no córtex pré-frontal ventrolateral (CPFvl) e no CPFdl (Fleck et al., 2010; Strakowski et al., 2011). O funcionamento da memória de trabalho foi amplamente investigado no TB utilizando-se RMf. Pacientes bipolares eutímicos mostraram consistentemente menos ativação no CPFdl direito(Monks et al., 2004; Lagopoulos et al., 2007; Hamilton et al., 2009; Glahn et al., 2010; Townsend et al., 2010), no córtex cingulado (Adler et al., 2004a; Monks et al., 2004; Lagopoulos et al., 2007) e no hipocampo/para-hipocampo (Lagopoulos et al., 2007; Glahn et al., 2010) durante tarefas de memória de trabalho. Apesar desses resultados consistentes, três estudos não conseguiram demonstrar redução do CPFdl durante tarefa de memória em pacientes eutímicos (Adler et al., 2004a; Frangou et al., 2008; Gruber et al., 2010). Ao contrário da redução na ativação no CPFdl, pacientes bipolares eutímicos apresentaram maior ativação em regiões temporais durante tarefas de memória de trabalho (Adler et al., 2004a; Lagopoulos et al., 2007; Townsend et al., 2010). Apenas um dos estudos com RMf examinou a memória de trabalho em pacientes com mania. Ele demonstrou uma redução importante de ativação no CPFdl e no córtex parietal direito em comparação a controles saudáveis (Townsend et al., 2010). Compatível com mania, pacientes com depressão bipolar também mostraram redução na ativação no CPFdl direito e no córtex parietal direito durante tarefas de memória de trabalho (Townsend et al., 2010). Tarefas de interferência cognitiva (p. ex., tarefas de Stroop) evocaram uma ativação robusta do NAc e do CPFdl na população saudável (Minzenberg et al., 2009). Pacientes bipolares eutímicos apresentaram, de forma consistente, menor ativação no CPFv em comparação a controles saudáveis durante a tarefa de Stroop (Blumberg et al., 2003; Strakowski et al., 2005; Kronhaus et al., 2006; Lagopoulos e Malhi, 2007). Pacientes eutímicos também exibiram menos ativação no CPFdl (Kronhaus et al., 2006; Lagopoulos e Malhi, 2007) durante a tarefa de Stroop. Contudo, esse achado não foi replicado em outros três estudos (Blumberg et al., 2003; Malhi et al., 2005; Strakowski et al., 2005). Em contrapartida, um único estudo encontrou aumento da ativação no CPFdl em pacientes eutímicos quando comparados a controles durante tarefas de interferência cognitiva (Gruber et al., 2004). Até o momento, apenas um estudo examinou a ativação cerebral durante tarefas de interferência cognitiva em mania. Blumberg e colaboradores (2003) analisaram 36 pacientes bipolares e encontraram menor ativação no CPFv bilateral durante mania em comparação a controles saudáveis. Compatível com mania, pacientes com depressão bipolar também demonstraram redução na ativação no CPFve (Blumberg et al., 2003) durante a tarefa de Stroop. Nos pacientes bipolares deprimidos, tarefas de interferência cognitiva também evocaram aumento na ativação do córtex orbitofrontal (COF) esquerdo (Blumberg et al., 2003) e menor ativação no cingulado posterior e no córtex occipital (Marchand et al., 2007b) em comparação a controles. Tarefas de inibição de resposta (p. ex., tarefas agir/não agir) evocaram principalmente a ativação do córtex frontal inferior (CFI) em controles saudáveis (Horn et al., 2003). Sujeitos bipolares eutímicos demonstraram menor ativação no estriado bilateral (Kaladjian et al., 2009) e no córtex frontal esquerdo durante tarefas agir/não agir (Kaladjian et al., 2009) em comparação a controles que utilizaram tarefas de inibição de resposta. Pacientes bipolares durante mania mostraram, de forma consistente, redução na ativação do CFI ao responderem a tarefas de inibição (Elliott et al., 2004; Altshuler et al., 2005a; Mazzola-Pomietto et al., 2009). Tarefas agir/não agir durante mania também apontaram menor ativação no putame bilateral (Kaladjian et al., 2009) e no tálamo bilateral (Strakowski et al., 2008). Em pacientes bipolares deprimidos, tarefas de inibição de resposta evocaram aumento na ativação no córtex motor/sensorial (Caligiuri et al., 2003; Marchand et al., 2007a) em comparação a controles. Curiosamente, ao contrário de mania, pacientes bipolares deprimidos mostraram aumento na ativação no estriado bilateral e no NAc (Marchand et al., 2007a) durante as tarefas agir/não agir motoras. Tarefas de regulação emocional em indivíduos saudáveis evocaram ativação do COF, o qual é responsável por integrar e regular a intensidade das respostas emocionais com outras estruturas límbicas, e também pela ativação das amígdalas e do córtex insular (Hariri et al., 2000). Sujeitos bipolares eutímicos demonstraram resultados conflitantes quanto à função do COF durante as tarefas de regulação emocional. Menor ativação no COF esquerdo durante eutimia foi identificada em três estudos (Malhi et al., 2005; Lagopoulos e Malhi, 2007; Jogia et al., 2008), e dois estudos relataram aumento na ativação no COF direito (Robinson et al., 2008; Chen et al., 2010) em pacientes eutímicos em comparação a controles saudáveis. Pacientes bipolares eutímicos também mostraram resultados conflitantes no que se refere à ativação das amígdalas durante tarefas de regulação emocional. Um grupo de seis estudos não encontrou diferenças na ativação das amígdalas durante eutimia (Malhi et al., 2007; Hassel et al., 2008, 2009; Robinson et al., 2008; Almeida et al., 2009a, b), e três estudos encontraram aumento da ativação na amígdala direita (Lagopoulos e Malhi, 2007; Chen et al., 2010; Surguladze et al., 2010). Pacientes bipolares durante mania consistentemente mostraram menor ativação do COF durante processamento emocional e tarefas de regulação emocional (Yurgelun-Todd et al., 2000; Rubinsztein et al., 2001; Elliott et al., 2004; Malhi et al., 2004; Altshuler et al., 2005a; Killgore et al., 2008). Compatível com as ativações do COF em mania, outro achado sólido foi o aumento da ativação na amígdala esquerda em resposta a tarefas emocionais (Yurgelun-Todd et al., 2000; Altshuler et al., 2005b; Chen et al., 2006; Bermpohl et al., 2009). Ao contrário dos achados em mania, os pacientes bipolares depressivos mostraram resultados heterogêneos em resposta a tarefas de regulação emocional. Um aumento da ativação da amígdala esquerda em resposta a emoções faciais em comparação a controles saudáveis foi apontado em dois estudos (Lawrence et al., 2004; Almeida et al., 2010). Em outro estudo de pacientes bipolares em resposta a emoções faciais, houve menor ativação no COF bilateral e no CPFdl, aumento da ativação no CPFm e nenhuma diferença na ativação das amígdalas em comparação a indivíduos saudáveis (Altshuler et al., 2008). Chen e colaboradores (2006) descobriram que pacientes bipolares deprimidos mostravam superativação das regiões frontoestriatal-talâmicas em resposta a rostos com expressão de medo. Inversamente, Malhi e colaboradores (2004) encontraram aumento da ativação no tálamo direito, no estriado, no hipotálamo e nas amígdalas em resposta à tarefa de regulação emocional em pacientes bipolares deprimidos. Até o momento, sabemos que nenhum estudo utilizando RMf examinou a associação de funções cognitivas e emocionais à progressão/gravidade do TB. Estudos neuropsicológicos sugerem que pacientes bipolares eutímicos exibem disfunção cognitiva em tarefas executivas frontais em comparação a sujeitos saudáveis, o que indica que essas disfunções neurocognitivas possam representar um traço em vez de um estado (Goswami et al., 2006). Estudos longitudinais com RMf ainda são necessários para compreender melhor a fisiopatologia e a progressão do TB. Neuroimagens da ativação da micróglia O conceito de um sistema de resposta inflamatória (SRI) ativado em trans- tornos do humor foi descrito pela primeira vez por Maes na “teoria de células T e monócitos dos transtornos do humor” (Maes et al., 1995). A ativação do SRI foi considerada um desequilíbrio nos processos reguladores imunológicos. No TB, essa teoria é reforçada por concentrações alteradas de bioensaios periféricos relacionados ao sistema imune, por exemplo: níveis elevados de citocina (Modabbernia et al., 2013); expressão aberrante de genes pró-inflamatórios nos monócitos periféricos (Padmos et al., 2008); aumento na proteína C reativa (PCR) (Dickerson et al., 2007; Cunha et al., 2008; Becking et al., 2013); e alterações na rota da quinurenina (Myint etal., 2007). Acredita-se que a ativação do SRI corresponda à neuroinflamação, a qual se reflete de forma histopatológica em um aumento da micróglia ativada (Beumer et al., 2012; Sterz et al., 2013). Micróglia são os macrófagos imunoativos residentes no cérebro. Eles limpam o cérebro, absorvem restos celulares, patógenos e outros materiais estranhos, apresentam antígenos e liberam compostos citotóxicos em circunstâncias inflamatórias (Gehrmann et al., 1995). Contudo, eles não desempenham apenas um papel na defesa imunológica do sistema nervoso central (SNC). Estudos com modelos animais demonstraram que a micróglia também tem um papel ativo no desenvolvimento do cérebro e na homeostase (Nimmerjahn et al., 2005). A micróglia dirige o desenvolvimento de sinapses maduras durante a embriogênese, desbasta sinapses após o nascimento (Schafer et al., 2012), regula a neurogênese e induz apoptose quando necessário (Sierra et al., 2010; Beurner et al., 2012). Nos seres humanos, a ativação da micróglia pode ser visualizada por meio de tomografia por emissão de pósitrons (PET) com os radiofármacos [11C]- PBR28 e [11C]- (R) -PK11195. Esses radiofármacos se ligam à proteína translocadora (TSPO), um receptor que é suprarregulado nas mitocôndrias de células microgliais ativadas (Doorduin et al., 2008). Em vários transtornos psiquiátricos e neurodegenerativos, a PET com [11C]- (R) -PK11195 e com [11C]-PBR28 foi utilizada com sucesso para obter imagens de neuroinflamação (Banati, 2002; Van Berckel et al., 2008; Doorduin et al., 2009; Folkersma et al., 2011; Kreisl et al., 2013). Um estudo recente com imagens PET revelou aumento no potencial de ligação de [11C]- (R) -PK11195 no hipocampo direito de pacientes com TB tipo I predominantemente eutímicos e uma tendência no hipocampo esquerdo (Haarman et al., 2014a, b). Esse achado de imagens moleculares in vivo é consistente com estudos anteriores que sugeriram um aumento na micróglia ativada no TB, com maiores níveis de interleucina (IL-)1 β no líquido cerebrospinal (Söderlund et al., 2011) e aumento na expressão em genes pró- apoptóticos e maior dano oxidativo a ácidos nucleicos no encéfalo post- mortem no TB (Benes et al., 2006; Che et al., 2010; Rao et al., 2010). Ao analisar achados de imagens encefálicas no TB, é tentador especular quais disfunções na micróglia e nas interações entre micróglia e neurônios podem estar associadas às perturbações estruturais e funcionais descritas neste capítulo. Estudos recentes tentaram investigar a associação entre o sistema imune e a estrutura/função cerebral no TB. Um estudo revelou uma correlação negativa entre a PCR sérica altamente sensível e o volume cortical orbitofrontal em indivíduos com TB tipo I (Chung et al., 2013). Em outro estudo, a IL-10 sérica esteve correlacionada à disponibilidade do transportador de serotonina no tálamo de pacientes com TB tipo I (Hsu et al., 2014). Um estudo realizado com sujeitos com transtorno do humor revelou que a expressão de RNAm de vários genes inflamatórios esteve correlacionada com a ativação das amígdalas, do córtex pré-frontal ventromedial (CPFvm) e do hipocampo ao se contrapor expressões faciais de tristeza e de alegria, e também com a espessura do NAc subgenual esquerdo e do volume hipocampal e caudado (Savitz et al., 2013). Estudos longitudinais e estudos que incluem a prole afetada e não afetada de sujeitos com TB são necessários para compreender o papel da micróglia na fisiopatologia e na progressão do TB. CONSIDERAÇÕES FINAIS Embora haja um entusiasmo considerável quanto ao uso de neuroimagens para a compreensão da progressão e o estadiamento no TB, a literatura disponível é amplamente limitada pela escassez de estudos longitudinais. Os achados sobre volume e funcionamento anormais das amígdalas entre sujeitos de alto risco e com TBP mostram que essa área cerebral pode ser um marcador potencial em imagens para os primeiros estágios do TB, todavia, devido à natureza transversal da maioria dos estudos, não é possível determinar sua associação a risco, resiliência e progressão da doença. Contudo, essas pesquisas fornecem uma base para estudos longitudinais futuros. Estudos prospectivos encontraram uma redução no VSC no CPFdl e em subáreas do NAc, bem como um aumento no VSC no CPFvl com o decorrer do tempo. Essas regiões cerebrais também surgem como candidatas potenciais a objeto de estudo para futuras pesquisas com neuroimagens para o estadiamento e a progressão do TB. Vale mencionar aqui que estudos prospectivos que avaliam o hipocampo e as amígdalas no TB em adultos podem ter sofrido distorções devido aos efeitos do tratamento. Entretanto, é possível postular que a perda de VSC no CPFdl e NAc pode ser mais proeminente, podendo ser observada apesar do efeito de medicamentos. O aumento das HSB foi o achado em neuroimagens mais consistente no TB. Diferenças nas HSB entre sujeitos bipolares e controles compatibilizados foram observadas principalmente em adultos e idosos, mas não em TBP ou prole de bipolares, o que pode sugerir que a presença de HSB possa estar associada à progressão do TB. Embora alguns estudos tenham sugerido uma associação entre a presença de HSB e a progressão da doença (p. ex., quantidade de hospitalizações, sintomas psicóticos e episódios de humor), aguardam-se estudos longitudinais para confirmar essa hipótese. Considerou- se que AF é um marcador valioso da integridade in vivo da substância branca. Estudos com neuroimagens em pacientes bipolares com técnica DTI demonstraram baixos valores de AF em regiões da substância branca relacionadas ao processamento emocional e à regulação emocional. Os poucos estudos que investigaram a associação entre valores da AF na substância branca com o curso da doença mostraram evidências preliminares de uma associação positiva entre a perda localizada da integridade da substância branca e maior duração da doença e episódios de humor. Resultados da RMf no estado de repouso em pacientes bipolares revelaram conectividade corticofrontal anormal, especialmente com regiões límbicas. Esse achado é consistente com estudos com RMf relacionados a tarefas que mostram padrões anormais de ativação envolvendo o circuito frontolímbico, o qual pode estar correlacionado à fase da doença e/ou a estados de humor. Contudo, a utilidade da RMf para estadiamento/progressão da doença ainda não é clara e exige mais dados longitudinais. Evidências recentes de ativação da micróglia no SNC e nas células periféricas tornam ainda mais forte a hipótese de que processos inflamatórios estão subjacentes a anormalidades estruturais e funcionais no TB (Stertz et al., 2013). Contudo, esses estudos exigem replicação, e o papel da ativação da micróglia em relação à progressão do TB permanece indefinido. Em conclusão, vários métodos de obtenção de imagens cerebrais foram utilizados para revelar a estrutura neurobiológica do TB. A maior parte dos dados até o momento convergiu para um modelo de anormalidades corticolímbicas frontais no TB. Novos estudos devem tentar identificar exatamente quan do esse circuito se torna anormal no TB e quais são os processos de adaptação cerebral bem-sucedidos e malsucedidos que se seguem ao longo do curso dessa doença devastadora. TENDÊNCIAS FUTURAS Estudos longitudinais que acompanham crianças em risco e pacientes com TB pediátrico até a idade adulta podem auxiliar na compreensão de por que alterações cerebrais estão relacionadas à emergência do fenótipo bipolar e quais estão relacionadas à progressão da doença. Mudanças anatômicas como as HSB e a redução do volume do CPF podem ajudar a identificar casos de TB em estágio final. Disfunção das amígdalas, tratos anormais da substância branca e ativação da micróglia parecem ter uma função importante na patologia do TB. Estudos longitudinais envolvendo diferentes modalidades de tratamento são necessários para avaliar se essas estruturas podem ser utilizadas como biomarcadores de estadiamento, prognóstico ou resposta ao tratamento. Estudos longitudinais em longo prazocom image, anatômicos, com RMf e moleculares são os próximos passos críticos para a compreensão da fisiopatologia e da progressão de doença no TB. REFERÊNCIAS Adler CM, Holland SK, Schmithorst V, et al. (2004a) Changes in neuronal activation in patients with bipolar disorder during performance of a working memory task. Bipolar Disord 6(6):540–549. Adler CM, Holland SK, Schmithorst V, et al. 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Adjuntos: folato, D3, T3, Li, NAC B. Incapaz C. Estado misto C. Comorbidades C. Profilaxia C. Sem-teto 1. Quantidade 2. Ciclagem rápida (CR) 3. Ciclagem ultrarrápida 4. Ciclagem ultradiana D. D-M-I E. M-D-I Novo início/progressão 1. Uso de substância a. Álcool b. Maconha c. Estimulantes d. Opiatos e. Alucinógenos f. Outros 2. Transtorno de ansiedade a-h (ver estágio III) 3. Disfunção cognitiva 4. Síndrome médica Ausência de resposta a: 1. Lítio 2. Anticonvulsivantes 3. Antipsicóticos atípicos 4. Outros 5. ECT 6. Antidepressivos 7. EMTr 8. Adjuntos: folato, D3, T3, Li, NAC D. Agentes duais Ausência de resposta a: E. Combinação complexa de medicamentos D. Casa de passagem E. Hospitalização crônica ou cárcere F. Incapacidade médica G. Demência H. Morte prematura por: 1. Suicídio 2. Doença médica 3. Acidente 4. Outro CACNA1C, subunidade alfa da di-hidropiridina do canal de cálcio; Idade de início ______ (preencher com a idade).Duração ______ (preencher com a duração do episódio); E/EA = esquizofrenia/esquizoafetivo; PCR = proteína C-reativa; TOD = transtorno de oposição desafiante; TDDH = transtorno disfórico de desregulação do humor; TB = transtorno bipolar; UP = unipolar; BCSE = baixa condição socioeconômica; TB-I = transtorno bipolar tipo I; TB-II = transtorno bipolar tipo II; TB SOE = transtorno bipolar sem outra especificação; TAG = transtorno de ansiedade generalizada. A DEFESA DE MÚLTIPLOS ESTÁGIOS E SUBCATEGORIAS Assim como no caso de progressão tumoral, sugerimos a utilidade de iniciar de forma mais abrangente e de multiplicar modelos de estágios e subdivisões para a progressão da doença afetiva, o que oferece diversas vantagens sobre os modelos de estadiamento mais seccionados, apesar de que estes seriam, inicialmente, mais fáceis de validar. Contar com mais estágios desde o primeiro momento permitiria que diversos grupos de investigadores falassem uma língua comum em suas pesquisas futuras, e categorias provisórias, posteriormente, poderiam ser combinadas ou, caso os dados justifiquem, simplificadas. Mais estágios e subcategorias também contemplariam a complexidade do transtorno bipolar em si, o qual apresenta maior número de comorbidades psiquiátricas e médicas, padrões e subtipos de episódios e frequências de recorrência do que os outros transtornos psiquiátricos. Caso se comece com apenas alguns estágios distintos, ou simplesmente com a dicotomia inicial-tardio, conforme o campo amadurece mais distinções serão criadas, o que levará à elaboração de múltiplos modelos de estadiamento. Esse seria, especificamente, o caso, já que modelos de estadiamento teriam muitos usos e implicações diferentes. Conforme já implícito nas primeiras ideias de estadiamento e explícito nas propostas mais recentes, a noção de estágios é mais convincente ao se considerarem intervenções de tratamento diferentes como uma função do estágio da doença, com a premissa de que o tratamento antecipado seria mais eficaz do que o tratamento posterior e talvez menos complexo (Berk et al., 2010). A caracterização da condição de risco antes da doença nos estágios I (vulnerabilidade) e II (intervalo de eutimia) desde o início permitirá a integração de marcadores genéticos e de outros marcadores neurobiológicos no processo de estadiamento, o que, por fim, facilitará o desenvolvimento de uma intervenção precoce e até mesmo de uma profilaxia primária para indivíduos em risco extremamente elevado (Post et al., 2013). Da mesma forma, incluir subcategorias, por exemplo, que envolvam presença ou ausência de ansiedade e de transtornos por uso de substâncias no momento atual ou ao longo da vida permitirá que se delineiem seus efeitos sobre o curso da doença, sobre a resposta ao tratamento e, em última análise, a execução de experimentos clínicos mais específicos para avaliar as abordagens ideais para essas comorbidades, as quais complicam o tratamento e anunciam um resultado desfavorável. O desenvolvimento de algoritmos de tratamento e a aplicação de medicina personalizada provavelmente dependerão de uma combinação entre atributos clínicos, estágios e, por fim, seus correlatos neurobiológicos. O exame de correlatos neurobiológicos do estágio da doença e a tentativa de validar estágios como uma função do grau de anormalidade neurobiológica também variam enormemente. Em alguns casos, apenas distinções grosseiras como fases iniciais em contraposição a fases tardias podem ser adequadas (Kauer-Sant’Anna et al., 2009), mas medidas biológicas mais aprimoradas com variáveis contínuas podem ser mais apropriadas para a alocação a múltiplos estágios ou quantidade, tipo ou complexidade dos episódios. A presença dessas várias categorias detalhadas de estágios já definidas desde o início irá facilitar a coleta desses dados e a comparação de um grupo de pesquisa com outro, com a visão de que os estágios podem ser ainda mais subcategorizados conforme a necessidade ou facilmente encurtados e abreviados caso os dados assim o exijam. Como indicado, uma série de variáveis, incluindo disfunção cognitiva, resposta ao tratamento e anormalidades neurobiológicas, já foi associada ao número de episódios anteriores. Portanto, lidar apenas com um primeiro episódio em contraposição a um episódio recorrente, por exemplo, não permitiria a análise de relações mais detalhadas que seriam possíveis com a representação total do número de episódios. Ademais, a capacidade de usar variáveis contínuas em vez de dicotomias aumenta a probabilidade de encontrar relações estatisticamente significativas. No estadiamento do câncer de colo, diferenças sutis no grau de invasão da membrana basal ou a distância de propagação a outros órgãos revelaram implicações prognósticas notáveis. Embora não estejam tão bem resolvidos, os estágios de câncer de colo também têm implicações fisiopatológicas em termos do desenvolvimento progressivo de mutações somáticas que envolvem tanto a perda sucessiva de fatores supressores do tumor quanto a aquisição de mutações de função em processos oncogênicos e de proliferação de células (Vogelstein et al., 2013). Suporíamos que uma progressão semelhante de alterações sucessivas na expressão genética ocorreria em uma base epigenética no transtorno bipolar e, de forma análoga, envolveria tanto supressão de alterações neurobiológicas adaptativas positivas quanto intensificação das alterações patológicas primárias (Post, 2007). O aumento da proporção de alterações patológicas para alterações adaptativas, hipoteticamente, conduziria fases de doença e fases de eutimia, aceleração da ciclagem, incapacidade de alcançar um intervalo de eutimia e, por fim, ausência de resposta ao tratamento. Os mecanismos fisiopatológicos potenciais no transtorno bipolar foram examinados nos últimos 50 anos em diversos níveis, cada vez mais aprofundados e analisados em vários domínios. Os estudos evoluíram: das vias de transdução de sinais de neurotransmissores a receptores, a segundos mensageiros, quinases, fatores de transcrição, genes precoces imediatos e modificações epigenéticas; no tipo de tecido examinado a partir de amostras de sangue, líquido cerebrospinal e medidas encefálicas endócrinas, de citocinas e de estresse oxidativo; e de observação estática para imagens cerebrais funcionais de diversos tipos. Portanto, a definição clínica e detalhada(2000) White matter hyperintensity detected by magnetic resonance imaging and lithium response in bipolar disorder: a preliminar observation. Psychiatry Clin Neuros 54(1):117–120. Killgore WDS, Gruber SA, and Yurgelun-Todd DA (2008) Abnormal corticostriatal activity during fear perception in bipolar disorder. Neuroreport 19(15):1523–1527. Kim P, Thomas LA, Rosen BH, et al. (2012) Differing amygdala responses to facial expressions in children and adults with bipolar disorder. Am J Psychiat 169:642–649. 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Assim que forem replicáveis e consistentes, os achados neurobiológicos poderão ser acrescidos às definições clínicas de estágios (assim como nos estágios IIa, b e c do câncer de colo), bem como examinados quanto a implicações de tratamento e relações prognósticas. De forma semelhante, no estágio relativamente tardio VII (resistência ao tratamento), a presença de subcategorias precisas do grau de resistência ao tratamento com lítio, anticonvulsivantes estabilizadores do humor, antipsicóticos atípicos, estimulação magnética transcraniana (EMT) e eletroconvulsoterapia, ou sua combinação, permitirá uma análise dessas gradações na resistência ao tratamento em relação ao resultado funcional, à cognição e à neurobiologia. Descrever e definir estágios no transtorno bipolar também traria outros benefícios e ajudaria na percepção pública de que a doença é potencialmente progressiva e necessita de esforços planejados no tratamento e na prevenção. Uma definição mais detalhada dos correlatos neurobiológicos da progressão em estágios da doença também seria de grande ajuda para sua desestigmatização. Esforços para uma intervenção precoce na tentativa de prevenir ou retardar o desenvolvimento da síndrome totalmente manifesta têm mais de uma década de estudos no caso da esquizofrenia em comparação ao transtorno bipolar, em parte devido à definição criteriosa do estágio de “em risco” ou prodrômico (McGorry et al., 2006). A identificação de que aproximadamente um quarto dos adultos nos - Estados Unidos desenvolveu doença bipolar antes dos 13 anos de idade e cerca de dois terços, antes dos 19 anos (Perlis et al., 2004; Post et al., 2013), e que esses inícios precoces são um fator prognóstico desfavorável, coloca ênfase na importância de definições de estadiamento pertinentes a crianças. Esse estadiamento pode ajudar a abreviar a longa demora até o primeiro tratamento, o que, em si, é um fator independente de contribuição para um resultado desfavorável na idade adulta (Post et al., 2010), além de encorajar um estudo mais profundo da intervenção precoce com o objetivo de desenvolver estratégias preventivas eficazes e bem-toleradas (Post et al., 2013). Parece prudente e útil encarar o estadiamento do transtorno bipolar em seu contexto histórico de forma que o próprio exercício de estadiamento possa ser visto como um processo iterativo e de evolução progressiva. Construir uma estrutura abrangente para o estadiamento do transtorno bipolar que permita máxima flexibilidade para incorporar novos dados e conceitos pode ser a forma ideal de seguir adiante. REFERÊNCIAS Antelman SM, Eichler AJ, Black CA, et al. (1980) Interchangeability of stress and amphetamine in sensitization. Science 207(4428):329–331. 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J. Hillegers Jan Scott INTRODUÇÃO Neste capítulo, analisamos alguns dos sistemas de estadiamento empregados em medicina e destacamos a forma como esses modelos estão sendo gradativamente introduzidos na psiquiatria de forma geral. Passamos, então, a nos concentrar nos sistemas de estadiamento que foram descritos especificamente para uso no transtorno bipolar e resumimos algumas das premissas básicas do modelo de estadiamento. A fim de estabelecer o cenário, fornecemos um breve panorama das características básicas e dos sistemas atuais de classificação utilizados para os transtornos bipolares. O transtorno bipolar é um transtorno do humor grave e crônico que se caracteriza por episódios recorrentes de mania, hipomania e depressão, intercalados por intervalos de eutimia de duração mais curta (dias a semanas) ou longa (meses a anos) (Fig. 2.1). Estima-se que a prevalência do transtorno bipolar seja de 2,4% da população mundial (Merikangas et al., 2011), estando entre as 10 doenças mais onerosas em todo o mundo (OMS, 2001). FIGURA 2.1 Padrões heterogêneos de curso longitudinal da doença e diversos graus de resistência ao tratamento em quatro pacientes ambulatoriais com transtorno bipolar tipo I que foram tratados; episódios maníacos/hipomaníacos aparecem acima da linha de base; episódios depressivos, abaixo da linha de base (exemplos de Registros de Vida prospectivos com pontuação diária da Stanley Foundation Bipolar Network, dados coletados a partir de Post et al., 2003; Kupka et al., 2005). No Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, 5ª edição (DSM-5) (APA, 2013), o transtorno bipolar e os transtornos relacionados são deliberadamente colocados entre os transtornos do espectro da esquizofrenia e os transtornos depressivos em reconhecimento a seu local como elo entre essas classes diagnósticas em termos de sintomatologia compartilhada, história familiar e suscetibilidade genética. No sistema do DSM, o transtorno bipolar tipo I corresponde às descrições clássicas de doença maníaco- depressiva com a ocorrência durante a vida de episódios maníacos e depressivos que satisfazem todos os critérios sindrômicos, com ou sem características psicóticas. O transtorno bipolar tipo II exige a ocorrência durante a vida de pelo menos um episódio depressivo maior e de pelo menos um episódio hipomaníaco, mas sem episódios sindrômicos de mania. No transtorno ciclotímico, há vários episódios subsindrômicos de mania e depressão, sendo que nenhum deles satisfaz os critérios formais para um episódio maníaco, hipomaníaco ou depressivo. Além dessas síndromes descritas de forma mais específica, diversas outras subcategorias são definidas e, tomadas em conjunto, todas essas apresentações são referidas como o espectro bipolar (Tab. 2.1). TABELA 2.1 Classificação do DSM-5 de transtorno bipolar e transtornos relacionados (dados da APA, 2013) Código Definição Episódio Especificador (com...) 296.xx Transtorno bipolar tipo I Maníaco Hipomaníaco Depressivo Não especificado Sintomas ansiosos Características mistas Ciclagem rápida Características melancólicas Características atípicas Características psicóticas Catatonia Início no periparto Padrão sazonal 296.89 Transtorno bipolar tipo II Hipomaníaco Depressivo Como no transtorno bipolar tipo I 301.13 Transtorno ciclotímico n/a Sintomas ansiosos 296.89 Outro transtorno bipolar e transtorno relacionado especificado n/a n/a 296.80 Transtorno bipolar e transtorno relacionado não especificado n/a n/a 293.83 Transtorno bipolar e transtorno relacionado devido à outra condição médica n/a Características maníacas Episódio tipo maníaco ou hipomaníaco Características mistas ___.__ Transtorno bipolar e transtorno relacionado induzido por substância/medicamento Início durante a intoxicação Início durante a abstinência n/a = não aplicável O transtorno bipolar em geral fica evidente durante a adolescência e no início da idade adulta (Goodwin e Jamison, 2007). Os critérios diagnósticos do DSM-5 são aplicáveis a adolescentes e adultos, mas em alguns países também são aplicados a crianças. O debate sobre a validade do diagnóstico de mania em crianças, contudo, já dura mais de meio século (Carlson e Glovinsky, 2009). Entre 1994 e 2003, nos Estados Unidos, a prevalência do diagnóstico de transtorno bipolar pediátrico em clínicas ambulatoriais aumentou 40 vezes (Moreno et al., 2007). Possíveis explicações para esse fato incluem parcialidade na amostragem (p. ex., mais filhos de pais bipolares são levados para avaliações clínicas), mudanças na conceitualização do transtorno (p. ex., a introdução de transtorno bipolar “juvenil” ou “pediátrico”) e a aplicação inadequada do diagnóstico de transtorno bipolar (p. ex., para crianças pequenas com períodos breves de hiperatividade e expressão de ideias grandiosas ou irritabilidade crônica). Uma questão principal era se as crianças e os adolescentes com irritabilidade grave, não episódica, e com sintomas de transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) deviam ser considerados como apresentando um diagnóstico de transtorno bipolar. Estudos longitudinais demonstraram que essas crianças e adolescentes com irritabilidade grave, não episódica, são diferentes daqueles com transtorno bipolar no que se refere a curso, história familiar e tarefas de desempenho associadas à patologia, e não são significativamente mais propensos do que casos de “grupo de controle” a manifestar transtornos bipolares na idade adulta (Brotman et al., 2006; Birmaher et al., 2012). Consequentemente, o diagnóstico de transtorno bipolar deve ser reservado para crianças e adolescentes que têm história de um ou mais episódios distintos de mania ou hipomania que satisfazem totalmente os critérios do DSM-5 – ou seja, o diagnóstico deve ser estabelecido com base em uma avaliação longitudinal, em vez de uma avaliação transversal. Essa premissa é importante, pois foi demonstrado que um suposto fenótipo precoce para transtorno bipolar (desregulação grave do humor) antecipa depressão unipolar, mas não transtorno bipolar. Com a finalidade de reduzir a confusão entre desregulação grave do humor e irritabilidade não episódica com transtorno bipolar sem outra especificação (SOE) ou espectro bipolar, uma nova categoria diagnóstica foi incluída no DSM-5: transtorno disruptivo da desregulação do humor. Contudo, esse tipo de abordagem evidencia as dificuldades existentes no sistema de classificação atual – ou seja, confere ênfase exagerada em confiabilidade. Atualmente, esse “novo” diagnóstico- não tem respaldo de estudos empíricos para o transtorno proposto no DSM-5, e a utilidade diagnóstica nas populações clínicas ainda é incerta (Axelson et al., 2012; Copeland et al., 2013). Em meio ao grupo de pacientes diagnosticados com transtorno bipolar, há uma grande variedade de apresentações clínicas, histórias de doenças e tratamentos anteriores, respostas a tratamento e graus de sintomas residuais com prejuízo cognitivo ou funcional. Além disso, os pacientes podem ou não apresentar história familiar de transtornos do humor, biografia pessoal complicada por eventos de vida traumáticos, transtorno de ansiedade, transtorno de abuso de substância ou transtorno da personalidade comórbidos. Ainda assim, a prática de tratamento, as diretrizes de tratamento e os experimentosclínicos tendem a desconsiderar essa heterogeneidade e a reunir os pacientes sob o diagnóstico compartilhado de transtorno bipolar apenas para que sejam diferenciados em subcategorias amplas como transtorno bipolar tipo I, transtorno bipolar tipo II ou transtorno bipolar SOE. Embora as síndromes clínicas transversais de mania, hipomania e depressão possam apresentar semelhanças entre pacientes, é na progressão longitudinal da doença que as diferenças individuais se tornam aparentes. Portanto, não causa surpresa que a resposta ao tratamento e o resultado variem consideravelmente dentro de um grupo de pacientes bipolares, seja em um programa de tratamento ambulatorial, seja em um experimento clínico formal. Em uma época na qual a intervenção desde cedo e o tratamento personalizado se tornam questões de interesse crescente, o estadiamento clínico de transtornos psiquiátricos é uma abordagem que lida com diferenças individuais referentes à progressão da doença, além de complementar a classificação tradicional. ESTADIAMENTO NA MEDICINA E NA PSIQUIATRIA O exemplo prototípico de sistemas de estadiamento na medicina é o sistema TNM em oncologia. Esse esquema de classificação, cujo propósito era abranger todos os aspectos do câncer em termos de tumor primário (T), linfonodos regionais (N) e metástase distante (M), foi introduzido pela primeira vez pela International Union Against Cancer (UICC), em 1958, para uso mundial. Acrescentaram-se números para indicar o tamanho e o grau de envolvimento do tumor; por exemplo, 0 indica indetectável; e 1, 2, 3 e 4, um aumento progressivo em tamanho ou envolvimento. Assim, um tumor pode ser descrito como T1, N2, M0. O sistema TNM de estadiamento é um “modelo de compartimentos”; os fatores prognósticos do TNM são utilizados para criar uma separação mutuamente excludente e precisa dos pacientes, de forma que cada paciente se encontra em um compartimento específico, e esses compartimentos são agrupados em compartimentos maiores chamados de estágios ou estádios (Burke e Henson, 1993). Os estágios começam em 0 (carcinoma in situ), passam por I, II e III (que indicam doença progressivamente extensa com maior tamanho do tumor e/ou difusão do câncer, além do órgão onde se desenvolveu inicialmente, para linfonodos e/ou tecidos ou órgãos próximos adjacentes à localização do tumor primário) até o estágio IV (que indica que o câncer se espalhou para tecidos ou órgãos distantes). A utilidade do sistema resulta de sua capacidade de ordenar os pacientes em uma probabilidade decrescente de sobrevivência. Ele pode ser utilizado para selecionar pacientes para terapia e para fornecer uma estimativa de prognóstico ao paciente. O sistema TNM é adaptado para diversos tipos de tumores sólidos, mas não se aplica a todas as formas de câncer. Na área da cardiologia, um sistema de estadiamento utilizado pelo American College of Cardiology/American Heart Association para gradação de insuficiência cardíaca é definido por quatro estágios (Hunt et al., 2009), são eles: estágio A (alto risco de insuficiência cardíaca, mas sem doença cardíaca estrutural nem sintomas de insuficiência cardíaca); estágio B (doença cardíaca estrutural, mas sem sintomas de insuficiência cardíaca); estágio C (doença cardíaca estrutural e sintomas de insuficiência cardíaca); e estágio D (insuficiência cardíaca refratária que exige intervenções especializadas). Sistemas de estadiamento são utilizados em diversas outras áreas da medicina, como reumatologia, neurologia, endocrinologia e nefrologia. Sistemas de estadiamento em psiquiatria são dificultados pelo fato de que a fisiopatologia da doença psiquiátrica ainda é, em grande parte, desconhecida, e a identificação de marcadores estruturais ou neurobiológicos atualmente está engatinhando. Os transtornos são definidos por sua sintomatologia clínica e, em menor grau, por seu curso clínico longitudinal. Além disso, há uma sobreposição considerável entre a fenomenologia de diversas categorias diagnósticas. Mesmo assim, há necessidade de identificar a tempo, de aplicar tratamentos eficazes e de estabelecer um prognóstico razoavelmente confiável. Neste capítulo, abordamos a forma como o estadiamento complementa as abordagens diagnósticas tradicionais aos transtornos bipolares. Atribuem-se a Fava e Kellner (1993) as primeiras tentativas de criar modelos de estadiamento para a psiquiatria. Suas primeiras propostas incluíram esboços para a esquizofrenia, a depressão, o transtorno bipolar e o transtorno de pânico. No artigo original, eles descrevem um modelo de estadiamento de mania com quatro fases: (1) prodrômico, ou seja, aumento de autoconfiança, energia e humor elevado; (2) hipomania; (3) episódio maníaco sem características psicóticas; e (4) episódio maníaco com características psicóticas. Seu modelo de mania se restringia a um único episódio maníaco e, portanto, não se referia ao transtorno bipolar, muito menos a seu curso longitudinal. Recentemente, Cosci e Fava (2013) revisaram a literatura sobre estadiamento em vários transtornos mentais e produziram um gabarito com os seguintes estágios: (1) fase prodrômica, (2) manifestações agudas, (3) fase residual e (4) transtorno recorrente ou crônico. Os críticos dessa abordagem destacam que o modelo não incorpora a fase “em risco”, que é típica dos modelos médicos (Hickie et al., 2013; Scott et al., 2013). Conforme o resumo apresentado na Tabela 2.2, outros pesquisadores, especialmente McGorry e colaboradores (2006, 2010), propuseram um modelo para psicose e transtornos graves do humor que vai desde um estágio assintomático em risco (estágio 0) até uma doença grave e persistente (estágio 4). Esses autores têm uma abordagem mais transdiagnóstica ao estadiamento, ao contrário da abordagem específica para o transtorno assumida neste capítulo. TABELA 2.2 Modelo de estadiamento “combinado” ou transdiagnóstico proposto para transtornos psicóticos e transtornos do humor graves (dados de Scott et al., 2013; McGorry et al., 2006, 2010) Estágio Definição de estágio (psicose ou transtorno do humor grave) 0 Risco aumentado de transtorno psicótico ou transtorno do humor grave. Atualmente sem sintomas. Ia Sintomas leves ou não específicos (incluindo déficits neurocognitivos sutis) de psicose ou transtorno do humor grave. Leve alteração ou declínio funcional. Ib Risco ultraelevado: sintomas moderados, mas sublimítrofes, com alterações neurocognitivas e declínio funcional tendendo para constituição de um “caso” (GAFinício da idade adulta, o processo de doença pode interferir de forma significativa no desenvolvimento educacional, vocacional e interpessoal. Há evidências de que episódios repetidos de mania (especialmente quando acompanhados por características psicóticas) podem conduzir a um declínio neurocognitivo e, com os efeitos debilitantes dos sintomas subsindrômicos interepisódios, supõe-se que os indivíduos desenvolvam cicatrizes tanto neurobiológicas quanto emocionais/psicossociais. Essas evidências de declínio no funcionamento psicobiossocial destacam a necessidade de intervenção (o mais) cedo (possível) e, portanto, a identificação de fatores de risco, de sintomas prodrômicos, além de um diagnóstico eficaz de episódios da doença em seu início. Modelos de estadiamento, portanto, geralmente começam antes que a doença se manifeste. Atualmente, dois modelos de estadiamento complementares “específicos para bipolaridade” foram descritos: um deles está voltado sobretudo para episódios da doença (Berk et al., 2007), e o outro está voltado sobretudo para o funcionamento entre episódios (Kapczinski et al., 2009a) (Tab. 2.3). Outros pesquisadores (p. ex., McNamara et al., 2010) propuseram modelos semelhantes, mas nos debruçamos, neste capítulo, sobre os dois sistemas originais publicados. TABELA 2.3 Comparação dos modelos de estadiamento complementares do transtorno bipolar conforme dados de Berk e colaboradores (2007) com ênfase na recorrência de episódios e de Kapczinski e colaboradores (2009a) com ênfase no funcionamento interepisódico;o momento e a numeração dos estágios não correspondem totalmente devido a enfoques diferentes Estágio Modelo de estadiamento de Berk e colaboradores Estágio Modelo de estadiamento de Kapczinski e colaboradores 0 Risco aumentado de transtorno bipolar Latente Risco aumentado de transtorno bipolar 1a Sintomas leves ou não específicos do transtorno do humor Sintomas de humor ou ansiedade sem critérios que ultrapassem o limiar do transtorno bipolar 1b Características prodrômicas: risco ultraelevado 2 Primeiro episódio de humor acima do limiar 1 Períodos definidos de eutimia sem sintomas psiquiátricos manifestos 3a Recorrência de sintomas do humor abaixo do limiar 3b Primeira recaída limiar 2 Sintomas em períodos interepisódios relacionados a comorbidades 3c Recaídas múltiplas 3 Prejuízo acentuado na cognição e no funcionamento 4 Doença persistente sem remissão 4 Incapacidade de viver de forma autônoma devido ao prejuízo cognitivo e funcional O modelo de estadiamento de Berk e colaboradores O modelo de estadiamento do transtorno bipolar conforme a proposta de Berk e colaboradores (2007) se baseia no modelo de McGorry descrito anteriormente (Tab. 2.3 e Fig. 2.2). A progressão da doença é definida principalmente pela ocorrência, remissão e recorrência de episódios de humor. FIGURA 2.2 Representação gráfica do modelo de estadiamento do transtorno bipolar conforme proposto por Berk e colaboradores (2007). Mania/hipomania acima da linha de base, depressão abaixo da linha de base. O primeiro episódio pode ser de depressão ou (hipo)mania, ou bifásico, mas o transtorno bipolar pode ser diagnosticado apenas depois de um episódio (hipo)maníaco (ver texto). Reimpressa de Bipolar Disorders, 9: Berk et al., Setting the stage: from prodrome to treatment resistance in bipolar disorder, pp. 671-8, Direitos reservados (2007), com permissão de John Wiley & Sons Ltd. Pessoas em risco (estágio 0) são principalmente aquelas com história familiar de transtorno bipolar. Contudo, na prática, o clínico também reconhece a contribuição de fatores de risco psicossociais adicionais, incluindo abuso físico ou sexual durante a infância, morte de um parente próximo e abuso de substância. Durante os estágios prodrômicos (1a e 1b), ocorrem sintomas leves e não específicos, como labilidade do humor, ansiedade, perturbações no sono, irritabilidade, agressividade e hiperatividade (Reichart et al., 2005; Skjelstad et al., 2010). Sintomas não específicos podem evoluir para transtorno do humor subsindrômico (distimia ou ciclotimia) como sinal de risco ultraelevado ou podem se resolver sem avanço na progressão (Hickie et al., 2013). O estágio 2 é definido pela ocorrência do primeiro episódio de humor que satisfaz os critérios diagnósticos tradicionais. Caso seja um episódio nitidamente maníaco, o diagnóstico formal de transtorno bipolar é estabelecido. Contudo, o primeiro episódio de mania pode se apresentar com características psicóticas significativas, e o diagnóstico diferencial entre psicose afetiva e não afetiva pode ser difícil. No caso de primeiro episódio hipomaníaco, ele pode não ser reconhecido como um estado patológico. Na maioria dos indivíduos, o transtorno bipolar inicia com um episódio depressivo. A avaliação retrospectiva do primeiro episódio em 495 pacientes com transtorno bipolar tipo I ou tipo II revelou que, em mais da metade dos pacientes, a depressão antecedeu a (hipo)mania, frequentemente, em vários anos (Kupka et al., 2005) (Fig. 2.3). FIGURA 2.3 Idade de início em 495 pacientes com transtorno bipolar tipo I ou tipo II, conforme avaliação retrospectiva na Stanley Foundation Bipolar Network. Em pacientes com depressão como primeiro episódio, um diagnóstico definitivo de transtorno bipolar será retardado (dados de Kupka et al., 2005). Avaliações prospectivas de filhos de pais bipolares demonstram que, em praticamente todos os pacientes, um episódio depressivo antecede a ocorrência do primeiro episódio hipomaníaco ou maníaco em anos (Hillegers et al., 2005; Duffy et al., 2010; Mesman et al., 2013). Em todos esses casos, um diagnóstico de transtorno depressivo é estabelecido, o qual pode ou não evoluir para transtorno bipolar dependendo da incidência posterior de (hipo)mania. Em caso positivo, a idade de início do transtorno bipolar é, tecnicamente, a idade do primeiro episódio depressivo. Os pacientes frequentemente têm de 2 a 4 depressões antes de um episódio (hipo)maníaco. Esse curso clínico demonstra as inadequações dos sistemas atuais, visto que o indivíduo será inicialmente diagnosticado com depressão recorrente em vez de transtorno bipolar. Ele também mostra que o sistema de “estadiamento” é imperfeito, uma vez que, em um sistema de estadiamento para depressão, o paciente será colocado no estágio 3, enquanto em um sistema de transtorno bipolar, ele será colocado no estágio 2 (essa questão é abordada em outra seção deste livro). Portanto, de um ponto de vista prospectivo, há limitações ao modelo de Berk e colaboradores, especialmente quando a identificação e a intervenção precoces são destinadas ao transtorno bipolar, e não aos transtornos do humor em geral. A ocorrência de um ou mais episódios depressivos em um jovem em risco de transtorno bipolar (i.e., que se encontra no estágio 0 ou 1a/b) deve, portanto, ser vista com mais cautela. Caso o transtorno bipolar seja um resultado potencial em longo prazo, um dos dilemas clínicos pode ser o momento em que se deve iniciar o tratamento profilático de longo prazo. Quando os sintomas de humor ou episódios de humor ocorrem novamente, o paciente adentra no estágio 3. Estudos longitudinais fornecem fortes evidências de que o transtorno bipolar tem um curso recorrente na maioria dos casos (Goodwin e Jamison, 2007). Pacientes ambulatoriais com transtorno bipolar que receberam acompanhamento prospectivo em estudos naturalistas passaram, em média, metade do tempo sintomáticos, apesar do tratamento (Judd et al., 2002, 2003; Kupka et al., 2007). A depressão subsindrômica constitui um fator de risco para recorrência de qualquer tipo de episódio do transtorno bipolar. Sintomas depressivos residuais também podem explicar o grau considerável de prejuízo funcional em pacientes nos estágios 3 e 4. No estágio 4, os sintomas se tornam crônicos, frequentemente manifestados na forma de depressão persistente ou ciclagem rápida (Fig. 2.1). Post e colaboradores (2003) relataram que aproximadamente 25% dos pacientes bipolares em uma coorte