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Disciplina
Teorias da Interação Social
 Apresentação
Nesta disciplina, identi�caremos de que forma as teorias de interação social contribuíram para o desenvolvimento do
pensamento racional e para o surgimento e a consolidação de novas Escolas de sociologia no século XX.
Para isso, realizaremos um breve resgate histórico, no qual recuperaremos a origem das primeiras análises sobre
interação social, chegando ao conceito de interacionismo simbólico e ao papel da Escola de Chicago em todo o processo.
A proposta é apresentar, por meio dos principais autores ligados à Escola e suas obras, como o interacionismo contribuiu
para o desenvolvimento das ciências sociais, in�uenciando Escolas em diversas partes do mundo, como no Brasil.
 Objetivos
Reconhecer a relação entre as teorias de interação social, o pensamento racional e novas Escolas de sociologia do
século XX;
Debater sobre os novos métodos de pesquisa, especialmente a pesquisa qualitativa na sociologia;
Identi�car a contribuição desses estudos para as ciências sociais.
Conteudista
Amanda André de Mendonça
 Currículo Lattes
Validador: Rodrigo dos Santos Rainha
https://lattes.cnpq.br/7666060740151928
 Resumos
Aula 1: Interacionismo simbólico: signi�cando nossas ações
Apresentaremos o conceito de interacionismo simbólico e sua busca pela compreensão do comportamento humano e de seus
processos de interações, expondo os principais teóricos que deram início a esta Escola de pensamento, Georg Mead e Herbert
Blumer, e suas premissas básicas para a abordagem interacionista, que envolvem entender o processo social de interação. Em
seguida, veremos que foi a sociologia norte-americana a responsável, nas primeiras décadas do século XX, por trazer essas novas
abordagens teórico-metodológicas para o campo das ciências sociais, pela Escola de Chicago. Por �m, identi�caremos a relação
entre o interacionismo simbólico, o pensamento racional e novas Escolas de sociologia do século XX, como, por exemplo, a
Escola de Iowa, na �gura de Manford Kuhn.
Aula 2: O diálogo entre Becker e Goffman com a Escola de Chicago
Apresentaremos de que forma a constituição da famosa Escola de Chicago se relaciona de maneira estreita com o campo do
interacionismo simbólico e da psicologia social. Para isso, percorreremos a formação da própria Universidade de Chicago, a �m
de conhecermos a realidade e o contexto local de grande desenvolvimento industrial e demográ�co, elementos impulsionadores
dos estudos da sociologia urbana. Por �m, apresentaremos o processo de urbanização e de que forma suas consequências
despertaram o interesse dos pesquisadores.
Aula 3: A Escola de Chicago e a sociologia brasileira
A partir de um diálogo entre Erving Goffman e Howard Becker, integrantes da Escola de Chicago, abordaremos o desenvolvimento
do interacionismo simbólico, destacando a interface que, gradativamente, Goffman e Becker passaram a manter com outras
vertentes teóricas contemporâneas do campo das ciências sociais.
A partir da década de 1970, o interacionismo simbólico expandiu no contexto da sociologia norte-americana e, simultaneamente,
projetou sua presença no cenário internacional das ciências sociais.
Aula 4: A sociologia do desvio
Pensar sobre diferentes grupos presentes em nossa sociedade, suas relações e as normas impostas por eles, bem como os
desvios a elas, constituíram o objeto de interesse dos Estudos sobre o Desvio feitos por Becker, em que ele enfatiza que o desvio
não é uma qualidade simples, presente em alguns tipos de comportamento e ausente em outros, mas, um processo que envolve
reações de outras pessoas ao comportamento. A perspectiva de desvio abordada é de que não é possível a�rmarmos que uma
ação e uma conduta são desviantes sem as relacionarmos com a reação dos envolvidos. Nesta linha, traremos o trabalho de
Nobert Elias, os Estabelecidos e os Outsiders, em que a mesma noção é explorada e há a tentativa de se identi�car de que forma
nas relações entre grupos ocorre a formação da identidade, a partir de relações de poder e da in�uência dos estigmas na
formação da autoimagem dos indivíduos.
Aula 5: Teoria Funcionalista e a Teoria Interacionista
Conceituaremos e relacionaremos a Teoria Funcionalista e a Teoria Interacionista, com os chamados comportamentos
desviantes. Já vimos a obra e as pesquisas do sociólogo Howard Becker sobre os comportamentos desviantes e os chamados
Outsiders. Veremos a abordagem proposta pelo autor, situado no campo interacionista, em focar nas relações estabelecidas e em
todo contexto social para, somente assim, analisarmos uma conduta dita desviante.
Aula 6: A interação social em Goffman
O sociólogo Irving Goffman se destaca, especialmente quando tratamos dos resultados das interações humanas e de seus
efeitos nas instituições sociais. Goffman faz parte de um grupo de autores da Escola de Chicago, inseridos na perspectiva
Interacionista Simbólica, que centra seu estudo na interação social cotidiana. O autor também investiga questões relacionadas à
identidade individual e social e de que forma elas se constituem nas relações em grupo, ou seja, como cada um desempenha o
seu papel.
Aula 7: Goffman e os Estigmas Sociais
De�niremos Estigmas Sociais segundo Goffman, mas, para isso, resgataremos sua relação com a Escola de Chicago e com os
interacionistas e como este autor foi primordial para a consolidação deste campo de estudo e investigação nas ciências sociais.
Veremos como os interacionistas abordam a questão dos chamados comportamentos desviantes, para, assim, chegarmos até o
trabalho de Irving Goffman.
Aula 8: A atualização do conceito de Estigmas Sociais
Seguimos abordando os estudos e o pensamento de Irving Goffman. Já vimos um pouco sua trajetória e sua relação com a
Escola de Chicago e com os interacionistas e como Goffman foi precursor na conceituação do estigmatizados. Aprofundaremos
a atualidade dos debates em torno dos processos de estigmatização no Brasil e no mundo, bem como exporemos as
consequências desses processos e as diferentes formas de resistência empreendidas nas sociedades de hoje em dia, contra
ações de marginalização e exclusão social.
Aula 9: Dos interacionistas de Chicago à sociologia brasileira
Conheceremos um pouco mais a história da sociologia brasileira, identi�caremos as diferentes fases do desenvolvimento e da
institucionalização das ciências sociais no país. Apresentaremos de que forma a Escola de Chicago e seus teóricos contribuíram
para o desenvolvimento do campo das ciências sociais no Brasil, a �m de entendermos de maneira mais aprofundada essa
relação com os interacionistas.
Aula 10: A sociologia brasileira e suas principais temáticas
Percorreremos brevemente a história das ciências sociais no Brasil, com o que denominamos cinco fases de desenvolvimento
desta ciência no país. A formação dos primeiros cientistas sociais do país e a consolidação das correntes de pensamento
sociológico acabaram sendo fortemente in�uenciadas por intelectuais estrangeiros ou docentes brasileiros que vinham de
alguma formação na Europa. O desenvolvimento das ideias sociológicas, então, estavam atreladas a homens brancos,
descendentes diretos de antigos colonizadores e culturalmente eurocêntricos, pois muitos vinham de uma formação no exterior.
Mas, a mudança do cenário social transformou, também, o interesse e as temáticas das ciências sociais, que passaram a ter
como foco a questão do urbanismo.
Teorias da Interação Social
Aula 1: Interacionismo simbólico – signi�cando nossas ações
Apresentação
Todas as mudanças sociais, políticas e econômicas da primeira metade do século XX também impactaram o pensar e o
fazer pesquisa no campo das ciências humanas. Surgem nesse novo contexto social grupos e instituições que irão
trabalhar com o entendimento do comportamento social humano como um pressuposto teórico e um �o condutor
elementar para suas pesquisas.
Nesta aula, iremos apresentar como esses grupos, as chamadas escolas sociológicas e o desenvolvimentoApontar os principais teóricos e pesquisadores deste campo;
Descrever a aplicação da Sociologia do Desvio nos estudos do crime.
Desvio
Para iniciarmos a apresentação da noção de desvio, é preciso destacarmos a importância de nos afastarmos, de mudarmos o
nosso olhar sobre o comportamento desviante que queremos analisar. Ou seja, a concepção que apresentamos focaliza seu
olhar no sentido de compreender e analisar o desvio do ponto de vista social em que ele está inserido.
 Fonte: Freepik
Parece complicado, não? Mas, a proposta consiste em considerar o todo, as relações, as interações, o ambiente em que se deu
o desvio, em vez de olhar diretamente para o comportamento considerado desviante.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
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EXEMPLO
Parece complicado, não? Mas, a proposta consiste em considerar o todo, as relações, as interações, o ambiente em que se deu
o desvio, em vez de olhar diretamente para o comportamento considerado desviante.
O que queremos dizer com isso?
Que a unidade dessas pessoas como coletivo é perpassada, entre outros fatores, pelo cumprimento desses padrões de
comportamento.
Mas é comum que algumas dessas pessoas que integram a mesma classe escolar comecem a não seguir estes códigos
de conduta, agindo de maneira completamente divergente do restante do grupo.
Ou seja, essas pessoas estão desviando do modo de agir do grupo, da sua turma.
Como resultado deste comportamento desviante, há a possibilidade de que essas pessoas abandonem esta forma de agir
ou que sejam criadas outras maneiras de viver nesta turma.
Com esse exemplo, quisemos mostrar que o desvio é essa mudança no padrão de conduta determinado por um grupo de
pessoas, que pode ser, por exemplo, uma família, uma instituição escolar ou toda a sociedade. Esta perspectiva é defendida por
Becker (2008, p. 15), que a�rma: “todos os grupos sociais fazem regras e tentam, em certos momentos e em algumas
circunstâncias, impô-las”.
Com seus estudos, Becker buscou demonstrar que os
comportamentos sociais não são fruto de dispositivos
rigorosamente �xados, mas sim construídos por meio da
interação dos e entre os sujeitos. Dessa forma, sua teoria
aponta para a ideia de que só é possível compreender e
analisar a conduta dos indivíduos a partir de olhares para os
mecanismos de interação social em que eles são envoltos.
Seguiremos utilizando o exemplo do grupo escolar, no qual
existem hierarquias, ou seja, pessoas que ocupam posições
que lhes permitem impor e coagir para que as normas de
conduta sejam seguidas. Não é difícil imaginarmos em uma
classe escolar quem são essas �guras. Os professores, que
impõem sanções e castigos àqueles que não seguem
determinado comportamento por eles estabelecidos.
 Fonte: Jornal e Educação: Calvin e a letra cursiva
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Esta lógica, de tentativa de adequação de um grupo ao mesmo comportamento, pode ser aplicada para as relações sociais em
uma instituição e suas relações de trabalho, ou em uma instituição educacional e seu grupo de alunos/alunas frente aos
professores/professoras.
Dessa forma, pensar sobre diferentes grupos presentes em nossa sociedade, as relações nesses grupos e as normas impostas
por eles, bem como os desvios a elas, constituem o objeto de interesse dos Estudos sobre o Desvio.
 Fonte: Freepik
Vimos, portanto, que para manter o padrão de conduta estabelecido, alguns grupos criam formas de coação, que irão depender
das relações de poder estabelecidas no interior de cada grupo.
Contudo, é importante dizermos que nossa proposta é analisarmos os considerados desviantes pela perspectiva de que são
sujeitos com posições e opiniões divergentes a respeito das regras ditadas. Isso nos permite pensar, por exemplo, que, do
ponto de vista desse sujeito, os juízes que os julgam e/ou aqueles que o rotulam é que são os desviantes.
Em uma sociedade existe um grande número de regras. Algumas delas passarão pelo processo legislativo e se tornarão leis;
outras permanecerão como regras e acordos informais estabelecidos em tradições e reproduzidos no cotidiano.
Para exempli�carmos, citamos o uso do cinto de segurança. Este item de
segurança apenas começou a ser utilizado em 1958, como item opcional. E no
Brasil seu uso somente se tornou obrigatório por lei na década de 1990, quando
diversas pesquisas apontavam que o não uso do cinto propiciava acidentes fatais.
Ou seja, até essa época seu uso era mediado por uma regra informal.
Hoje em dia, o uso de cinto de segurança nos veículos automotores é estabelecido
em nosso país por Lei: Lei nº 9.503 de 23 de Setembro de 1997, que instituiu o
Código de Trânsito Brasileiro - CTB:
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“Art. 65. É obrigatório o uso do cinto de segurança para condutor e passageiros em todas as vias do território nacional, salvo em
situações regulamentadas pelo CONTRAN”.
Mudamos, portanto, a relação com essa regra, passando-a da informalidade
para um processo legal. A sociedade está constantemente revendo suas
normas e regras, como neste caso do uso do cinto de segurança. O não uso
do cinto, comportamento considerado normal até a década de 1990,
atualmente já se enquadraria como desviante.
A �m de compreendermos um pouco mais o que seriam esses comportamentos desviantes, vamos conhecer o trabalho
desenvolvido por Becker (2008), que classi�cou os tipos de comportamentos desviantes.
A proposta é identi�carmos, a partir dos estudos de Becker quais são os comportamentos percebidos como desviantes ou não.
Tipos de comportamento desviante
Segundo Becker (2008), muitas vezes
uma pessoa pode ser percebida como
desviante sem nunca ter praticado um
comprtamento infrator, e o contrário
também é possível. 
Ou seja, uma vez que alguém pode não
ser percebido como desviante e praticar
o comportamento infrator, sendo
considerado um desviante secreto.
Isso ocorre porque a situação social em que a pessoa se encontra, assim como as relações sociais que a cercam, ou que se
re�ram ao comportamento que pratica, são determinantes para um comportamento e podem ser decisivas para a rotulação de
alguém como infrator.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
Dessa forma, o Indivíduo Desviante é aquele cuja rotulação como desviante, devido a uma rede complexa de relações, foi
realizada com sucesso.
Portanto, para este indivíduo ser considerado desviante, é necessário que ele, além de infringir uma norma, seja rotulado, passe
por um processo de etiquetamento. Assim, o desviante não é considerado somente em virtude do ato que praticou, mas pela
e�cácia do processo de etiquetamento pelo qual ele passou. Ao conceber o crime como um desvio, Becker e outros sociólogos,
conforme veremos a seguir, construíram outro olhar para a forma de compreender o crime a partir de seus aspectos
sociológicos.
Esse processo de etiquetamento, portanto, é central para a análise desta concepção de desvio e de crime que a Sociologia
aborda. E ele trouxe desdobramentos importantes e novos conceitos, como de Outsiders, que para o próprio Becker (2008)
seriam aqueles que desviam das regras do grupo e também sofrem este etiquetamento.
 Fonte: Freepik
Para o autor, grupos e coletivos formados de maneira
espontânea, com características especí�cas, estabelecem
uma dinâmica e uma cultura próprias, que em geral se
traduzem na construção de regras informais que são postas
em práticas �elmente pelos integrantes dos grupos. Nas
palavras do autor: “…alguns desviantes (viciados em drogas
dão bons exemplos) desenvolvem ideologias completas
para explicar por que estão certos e os que desaprovam e
punem estão errados” (BECKER, 2008, p. 16).
Não é necessário que haja um rompimento com as normas ou as regras formais para ser considerado Outsider ou desviante,
mas sim, que haja uma diferença na natureza das vontades, dos sentidos e ações.
Outro fator importante a ser
considerado quando falamos em
Outsider ou em algum grupo
considerado desviante é aassociação
que se faz com algum tipo de
patologia. Buscam-se explicações no
campo da Psicologia para a conduta
dos indivíduos do grupo,
caracterizando seu comportamento
como doença. Para Becker, essa é
uma visão limitadora e baseada em
análises leigas que buscam
enquadrar o chamado desviante no
campo da Medicina.
Para o autor, a forma ideal para se
trabalhar com o estudo desses
chamados grupos desviantes é
justamente analisar a relação entre as
regras e a quebra dessas regras. Ele
buscava identi�car o desvio como
uma ruptura, como um hiato que
impedia os grupos e indivíduos de
seguir as regras. Assim, a concepção
de desvio é a de transgressão a toda
e qualquer norma estabelecida por
um grupo.
Contudo, os indivíduos que
descumprem alguma regra de forma
homogênea constituem um coletivo
de pessoas que realizaram o mesmo
desvio. Dessa forma, as normas
vigentes são, para Becker,
determinadas pelos grupos
dominantes; assim, ele alega que o
crime não é a qualidade do ato,
porém um ato que é quali�cado como
criminoso. Complicado? Vamos falar
mais sobre isso.
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Algumas pessoas podem ser consideradas desviantes sem terem praticado um crime, porque é o olhar dos outros para as
singularidades e as características que distinguem essa pessoa dita como desviante.
Assim, para uma ação ser considerada ou não desviante, é necessário relacioná-la com a reação das demais pessoas.
Portanto, a relevância de um ato considerado desviante está diretamente atrelado à relação de quem o comete com aqueles
que são atingidos pela ação. Para Becker, “o desvio não é uma qualidade simples, presente em alguns tipos de comportamento
e ausente em outros. É antes um processo que envolve reações de outras pessoas ao comportamento.”
Ou seja, não é possível a�rmarmos
que uma ação ou uma conduta é
desviante sem a relacionarmos com a
reação dos envolvidos.
 Fonte: Freepik
O que, segundo o autor, pode-se
a�rmar, então, é que a ação cometida
por qualquer indivíduo passa a ser
julgada crime quando as pessoas a
consideram imoral e/ou incorreta.
Outro elemento importante é que as normas que são estabelecidas e sustentadas por um grupo são as mesmas que são
infringidas pelo chamado comportamento desviante.
Contudo, essas normas não são universais. Elas são fruto de muita disputa, de processos políticos, de con�itos intensos e,
principalmente, elas não são estáticas; elas se modi�cam conforme o decorrer destas disputas e a correlação de forças dos
grupos envolvidos nestes processos.
Outra abordagem importante realizada sobre os desviantes chamados de
Outsiders foi realizada pelos sociólogos Norbert Elias e John L. Scotson em uma
obra clássica, Os Estabelecidos e os Outsiders, na qual exploraram esse mesmo
conceito e buscaram identi�car de que forma nas relações entre grupos ocorre a
formação da identidade a partir das relações de poder e como se dá a in�uência
dos estigmas na formação da autoimagem dos indivíduos.
O ponto central da obra é a descrição da diferença e a desigualdade social como
relações entre estabelecidos e outsiders, das relações de poder como relações de
complementaridade e a identi�cação dos diferentes dispositivos de coesão social
como fonte das diferenças de poder. Elias e Scotson buscaram compreender a
lógica da con�guração social e das relações de interdependência que se veri�cam
na cidade, que seriam representadas pelos chamados estabelecidos - grupo de
indivíduos que ocupam posições de prestígio e poder (coesão) e os chamados
outsiders - conjunto heterogêneo e difuso de pessoas unidas por laços sociais
menos intensos.
O modelo explicativo/paradigma empírico utilizado pelos autores é útil para se entender as desigualdades e as relações de
poder (entre classes, grupos étnicos, colonizadores e colonizados, homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais) e
também para compreender como laços de interdependência unem, separam e hierarquizam relações de complementaridade:
perpetuam os tabus/ "barreira emocional” para as relações.
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A partir dessa “sociodinâmica da estigmatização” por eles trabalhada, é possível aprofundarmos as análises acerca dos rótulos
de inferioridade - estigmas - preservação da identidade do grupo dominante, a�rmação do lugar de superioridade, disputa de
poder - monopólio das fontes de poder – e a manutenção da ordem. E assim, também compreendemos como se constrói o
rótulo de “valor humano inferior”, a interiorização do estigma social - construção de autoimagens - de exclusão de todos os
membros do grupo outsiders do contato social.
Vamos aplicar este conceito de outsider na atualidade.
EXEMPLO
No seriado Black Mirror, que projeta uma sociedade futurista na qual o mundo virtual e a realidade se encontram, o episódio
Nosedive (T3-E1) retrata uma sociedade hipotética – a princípio – em que as pessoas passam o tempo todo com os celulares
em mãos.
O foco de cada um está em cumprir “metas” de um sistema. Todos devem julgar os demais por aquilo que fazem durante o dia,
concedendo notas. Assim, cada pessoa �ca rotulada/etiquetada como sendo a representação viva da média das notas virtuais
que lhes foram atribuídas. No seriado, tudo passa a girar em torno de conseguir boas notas, e ser bem avaliado torna-se
questão de sobrevivência, pois as melhores médias garantem as melhores oportunidades. E o contrário também, pois notas
ruins excluem as pessoas de bons empregos e de círculos sociais.
O episódio busca apresentar a obsessão por reconhecimento social, rotulação. Podemos conectá-lo diretamente à Sociologia
do desvio que apresentamos nesta aula e com as ideias de Howard Becker e Norbert Elias, pois se referem a sujeitos que não
se amoldam às exigências dos grupamentos sociais, sendo denominados outsiders.
Todos os grupos sociais elaboram suas regras e tentam, em certos momentos e em algumas circunstâncias, impô-las.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
Regras sociais de�nem situações e tipos de comportamentos a elas apropriados, especi�cando algumas ações como “certas”
e proibindo outras como “erradas”. Quando uma regra é imposta, a pessoa que presumivelmente a infringiu pode ser vista
como um tipo especial, alguém de quem não se espera viver de acordo com as regras estipuladas pelo grupo. Essa pessoa é
encarada, para estes autores, como um outsider.
Já Elias e Scotson ampliam o entendimento de desviantes, não só aqueles que possuem um estereótipo diferente, muitas
vezes estrangeiros, mas também os que não possuem as mesmas condições �nanceiras para assemelharem-se aos
estabelecidos que, geralmente, são os cidadãos mais tradicionais do local. Todos aqueles que não possuem o poder de compra
e não participam do mercado consumidor podem ser estigmatizados. No exemplo do seriado, exploramos o conceito dos
autores para uma discussão atual, dos excluídos, desviantes, como aqueles que não conseguem atender as “boas notas”
virtuais, as chamadas curtidas.
Vimos, portanto, nesta aula, a noção de desvio para a Sociologia interacionista, que compreende a partir de uma abordagem de
construção histórica e social, a conduta desviante a partir da conecção a um contexto social e as relações nele estabelecidas.
Também vimos exemplos de como a sociedade constrói estas regras e as formas de coação que dão origem aos
comportamentos desviantes e a análise de teóricos importantes sobre estes “desvios”, principalmente através do conceito de
outsiders.
Atividades
1) Vestibular de inverno UEM 2016 – prova de Sociologia. “Todos os grupos sociais fazem regras e tentam, em certos
momentos e em algumas circunstâncias, impô-las. Regras sociais de�nem situações e tipos de comportamento a elas
apropriados, especi�cando algumas ações como ‘certas’ e proibindo outras como ‘erradas’. Quando uma regra é imposta, a
pessoa que presumivelmente a infringiu pode ser vista como um tipo especial, alguém de quem não se espera viver de acordo
com as regras estipuladas pelo grupo.Essa pessoa é encarada como um outsider” (BECKER, H. Outsiders. Rio de Janeiro:
Zahar, 2008, p. 15).
Considerando a citação e as análises sociológicas sobre o tema do desvio social, responda quais seriam as opções corretas.
a. A conduta “desviante” surge como uma conseqüência da aplicação, por parte de outras pessoas, de normas e de sansões
que classi�cam e quali�cam determinadas práticas sociais como “transgressões”.
b. Como as regras que de�nem as condutas individuais são regras jurídicas, todo comportamento social deve estar de
acordo com a Constituição do país, pois nada poderia ser mais prejudicial ao corpo social do que desobedecer ao sistema
de leis que o governa.
c. Compreender toda forma de comportamento como uma construção social e histórica permite visualizar as estruturas de
poder que �xam os padrões de aceitação ou de rejeição de práticas e de identidades em uma sociedade.
d. Quando um indivíduo infringe uma regra social estabelecida, ele precisa estar ciente de que será penalizado com o
máximo rigor, pois esse comportamento não pode se repetir sob pena de que a sociedade se dissolva.
e. O desvio da regra é uma atitude cada vez menos frequente nas sociedades contemporâneas, pois a evolução dos
sistemas democráticos trouxe novas regras e novos valores para ajudar a organizar a vida social e a diminuir os desvios.
2) No ano de 2005, ocorreram várias rebeliões de jovens nas periferias de grandes cidades francesas, especialmente nos
arredores de Paris, onde foram incendiados carros e monumentos foram pichados e destruídos. Com relação a esse tipo de
situação, assinale a opção correta, considerando os pressupostos da Sociologia Jurídica.
a) Os jovens que se rebelaram em 2005 na França apresentam desvio de conduta e intolerância às normas da sociedade.
b) Trata-se de situação caracterizada pela anomia, em que as regras e a lei devem ser aplicadas de forma absoluta.
c) Grupos de jovens com baixa escolaridade, que têm poucas oportunidades de emprego e cujos pais sejam imigrantes tendem a vivenciar
conflitos de valores entre as orientações culturais de seus pais e as do país em que vivem.
d) Diante de situações de confusão e caos, que são temas de interesse de órgãos policiais e do jornalismo, cabe ao Direito apenas a
aplicação da lei.
e) O caso das cidades francesas em 2005 é exemplo de rebeliões de jovens sem causa determinada.
3) Comente a tirinha a partir da noção do comportamento “desviante”.
 Fonte: Ivo Viu a Uva / Tirinha 129
Notas
Referências
BECKER, S. Howard. Outsiders: estudos de Sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
ELIAS, Norbert; SCOTSON, John L. Os estabelecidos e os Outsiders. Sociologia das relações de poder a partir de uma pequena
comunidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
Próxima aula
A Teoria Funcionalista de Emile Durkheim;
Relacão da Teoria Funcionalista com a Sociologia do desvio;
Teoria Funcionalista e Teoria Interacionista.
Explore mais
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Leia o artigo Sociologia do desvio e interacionismo, de Rita de Cássia Pereira Lima.
Assista à série Black Mirror, que retrata a inquietação coletiva em relação ao mundo moderno. Com muito suspense e
genialidade, cada história explora temas relacionados à paranoia tecnológica contemporânea. A tecnologia transformou
todos os aspectos de nossa vida: em todas as casas, em todos os escritórios e nas mãos de todas as pessoas há uma
tela de plasma, um monitor, um smartphone – um espelho negro re�etindo a nossa existência no século 21.
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Teorias da Interação Social
Aula 5: Teoria Funcionalista e a Teoria Interacionalista
Apresentação
Estudamos na aula anterior as pesquisas do sociólogo Howard Becker, no campo interacionista, sobre os
comportamentos desviantes e os chamados Outsiders.
Nesta aula, trazemos para este debate sobre a relação entre indivíduos, grupos, regras sociais e condutas, individuais e
coletivas, a contribuição da teoria funcionalista de Emile Durkheim.
Objetivos
Enunciar a Teoria Funcionalista;
Relacionar a Teoria Funcionalista de Emile Durkheim à Sociologia do desvio;
Esclarecer a Teoria Funcionalista e a Teoria Interacionista.
Primeiras palavras
Antes da Teoria do Etiquetamento, na Sociologia, a maior parte dos autores que se dispunham a estudar o fenômeno do crime
partiam dos seguintes pressupostos, de acordo com Baratta (2002, p. 89):
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
“Tomam por empréstimo do direito penal e dos juristas as
de�nições de comportamento criminoso e estudam esse
comportamento como se a sua qualidade criminal existisse
objetivamente. Do mesmo modo e ao mesmo tempo tomam
por evidente que as normas e os valores sociais que os
indivíduos transgridem, ou dos quais desviam, são
universalmente compartilhados, válidos em nível
intersubjetivo, racionais, presentes em todos os indivíduos,
imutáveis etc.”
- Baratta (2002, p. 89)
Ou seja, o crime era considerado algo individual, uma afronta às regras universalmente compartilhadas, uma característica
interna e subjetiva e até mesmo permanente. Ou, segundo Becker (2008, p. 11):
“Parecia-lhes óbvio que a responsabilidade pelo crime
pertencia aos criminosos, e não havia dúvida quanto a quem
eles eram: as pessoas que as suas organizações haviam
apanhado e prendido”.
- Becker (2008, p. 11)
As organizações a que ele se refere na citação são as leis, a polícia, a justiça, o Ministério Público, mas em nenhum momento
leva-se em conta o processo que faz com que as leis sejam da forma como são, ou tenham determinados tipos de sujeitos
como alvo principal.
A abordagem clássica levava em conta perguntas como:
“Por que as pessoas que identi�camos como criminosos fazem as coisas que identi�camos como crimes?” (Becker, 2008,
p.11), sem nunca se questionarem como se dá o processo que faz com que os crimes sejam o que são, ou que as condutas
consideradas desviantes sejam estas e não outras.
Entretanto, conforme estudado, podemos dizer que uma pessoa, ainda que cometa um ato considerado crime, somente será
considerado “delinquente” caso ele passe pelo processo de “etiquetamento” por parte das organizações socialmente aptas a
fazê-lo.
Por �m, podemos dizer com Baratta (2002, p.88):
Os criminólogos tradicionais examinam problemas do tipo "quem é criminoso?", "como se torna desviante?", "em quais
condições um condenado se torna reincidente?", "com que meios se pode exercer controle sobre o criminoso?". Ao contrário, os
interacionistas, como em geral os autores que se inspiram no labeling approach, se perguntam: quem é de�nido como
desviante?", "que efeito decorre desta de�nição sobre o indivíduo?", "em que condições este indivíduo pode se tornar objeto de
uma de�nição?" E, en�m, "quem de�ne quem?"
Becker (2008) a�rmou que a ação cometida por qualquer indivíduo passa a ser considerada crime quando as pessoas exercem
uma reação que considere imoral e/ou incorreta essa ação.
Outro ponto central que tratamos na aula anterior foi o fato de as normas que são estabelecidas e sustentadas por um grupo
serem as mesmas que são infringidas pelo chamado comportamento desviante.
Vimos também que essas regras não são universais nem estatísticas, que há disputas em torno delas. Nesta aula, daremos
ênfase a uma escola de pensamento, a funcionalista, que irá explorar esta relação da criação de regras pela sociedade e a
imposição e inculcação nos indivíduos e grupos.
Teoria Funcionalista e o Desvio
Émile Durkheim desenvolveu a concepção de que a sociedade predominaria sobre o indivíduo, pois é a sociedade que impõe o
conjunto de normas de conduta, e ao indivíduo cabe segui-las.
Antes de criar propriamente o seu método sociológico, Durkheim tinha que defrontar-se com duas questões:
Como ele concebia a relação entre indivíduo e sociedade.01
Como ele entendia o papel do método científico na explicação dos fenômenos sociais.02
Com relação à primeira questão, ele concebia a sociedade
(objeto) sendo superior ao indivíduo (sujeito),predominando
sobre o indivíduo, uma vez que ela é que imporia a ele o
conjunto das normas de conduta social. Assim, as
estruturas sociais funcionam de modo independente dos
indivíduos, condicionando suas ações. O todo condiciona as
partes.
A respeito do segundo questionamento, Durkheim tinha a
intenção de fazer da Sociologia uma ciência “madura”, como
as ciências naturais e acreditava que a realidade social é
idêntica à realidade da natureza: equipara-se aos
fenômenos por ela estudados. Nas palavras do autor: “a
primeira regra [da Sociologia] e a mais fundamental é
considerar os fatos sociais como coisas” (1978, p. 94).
Assim é que Durkheim cria o funcionalismo como método, uma vez que entende que os fatos sociais, que para ele eram o
objeto de estudo da Sociologia, existiam por cumprirem alguma função e se, apesar da coercibilidade do fato social, ainda
assim algum indivíduo desviar a sua conduta, ou seja, burlar as regras e padrões de conduta impostos socialmente, ele seria
considerado um indivíduo desviante.
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Émile Durkheim – criador da Escola sociológica francesa. Com ele a Sociologia se
constitui como uma disciplina rigorosamente cientí�ca. De�ne o objeto da
Sociologia - os fatos sociais - e atribui a ela um método de investigação: a análise
objetiva dos fatos sociais, que deveriam ser estudados como “coisas”, ou seja, o
investigador deveria manter uma relação de objetividade com o objeto, estudando,
desfazendo-se de qualquer pré-noção em relação a ele.
Fatos sociais – o objeto de estudo da Sociologia
“é um fato social toda maneira de agir, �xa ou não, capaz de exercer sobre o
indivíduo uma coerção exterior, ou ainda, que é geral no conjunto de uma dada
sociedade tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independente de suas
manifestações individuais.”
Em seu livro As regras do método sociológico, Durkheim de�ne os fatos sociais como “maneiras de agir, pensar e sentir que
apresentam a características marcantes de existir fora da consciência individual”.
Esses tipos de conduta ou de pensamento não são apenas exteriores aos indivíduos, são também gerais na extensão de toda
sociedade conhecida e dada; são dotados de um poder imperativo e coercitivo que constitui características intrínsecas de tais
fatos.
Desta forma, ele acrescenta que os fatos sociais possuem como características principais a coerção social, a exterioridade e a
generalidade.
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As Regras do Método Sociológico (em francês: Les règles de La méthode
sociologique) foi publicado pela primeira vez em 1895. Ficou conhecido
internacionalmente por ser fruto do esforço direto do projeto de Durkheim de
estabelecer a Sociologia como uma nova ciência social.
Nesta obra, um clássico da Sociologia, emergem duas teses principais, segundo
Durkheim sem as quais a Sociologia não poderia ser uma ciência. A primeira é de
que a Sociologia necessita de um objeto especí�co de estudo. E precisa aplicar um
reconhecimento objetivo, um método cientí�co, dentro do possível, o mais próximo
das ciências exatas. Seu interesse estava no indivíduo inserido em uma realidade
social objetiva que se con�gura na sua coletividade.
GENERALIDADE A generalidade do fato social está relacionada a sua
repetição em todos os indivíduos, ou pelo menos, na
maioria deles. A generalidade de um fato social, isto é, sua
unanimidade, é garantia de normalidade na medida em que
representa o consenso social, a vontade coletiva, ou o
acordo do grupo a respeito de determinada questão.
Importante dizermos que os fatos sociais, segundo
Durkheim, manifestam sua natureza coletiva ou um estado
comum ao grupo.
Exemplos:
Formas de habitação; arquitetura das casas; formas
de comunicação; os sentimentos e a moral coletiva.
EXTERIORIDADE A segunda característica que mencionamos, a
exterioridade dos fatos sociais, diz respeito a sua existência
antes e fora das pessoas, atuando de modo autônomo em
relação a seus desejos ou apoio consciente. Ou seja, os
fatos sociais existem e atuam sobre os indivíduos,
independentemente de sua vontade ou de sua adesão
consciente.
Exemplos:
Sistemas de moedas, instrumentos de crédito,
práticas profissionais, que funcionariam
independentemente do uso que delas os indivíduos
fizessem.
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COERCITIVIDADE A coercitividade, como última característica que define um
fato social, refere-se à força que os fatos exercem sobre os
indivíduos, levando-os a conformarem-se às regras da
sociedade em que vivem, independentemente de suas
vontades/escolhas.
Exemplos:
Subordinação de todos aos estatutos das leis;
sanções, que podem ser legais ou espontâneas. As
legais correspondem às sanções prescritas pela
sociedade sob a forma de leis, nas quais se
identificam a infração e a penalidade subsequente;
as espontâneas afloram como decorrência de uma
conduta não adaptada à estrutura do grupo ou da
sociedade à qual pertence o indivíduo.
Assim, podemos compreender pelas palavras do próprio Durkheim (2011, p. 10), na sua obra Fato Social e Divisão Social do
Trabalho, a coercitividade dos fatos sociais e as consequências para os desviantes:
“Se experimento violar as regras de direito, elas reagem
contra mim para impedir meu ato, se ainda houver tempo, ou
para anulá-lo ou restabelecê-lo a sua forma normal, se tiver
sido realizado e for reparável, ou para me fazer expiá-lo, se
não houver outro modo de repará-lo. E quanto às máximas
puramente morais? A consciência pública reprime todo ato
que as ofenda por meio da vigilância que exerce sobre a
conduta dos cidadãos e através das penas especiais de que
dispõe. Em outros casos, a coerção é menos violenta, mas
não deixa de existir. Se não me submeto às convenções do
mundo; se, ao me vestir, não levo em conta os costumes
seguidos em meu país e em minha classe, o riso que provoco
e o isolamento em que me vejo produzem, ainda que de
modo atenuado, os mesmo efeitos que uma pena
propriamente dita. Aliás, a coerção por ser apenas indireta
não é menos e�caz.”
- Durkheim (2011, p. 10)
Os indivíduos que violam as regras praticariam o desvio de conduta que eventualmente seria considerado crime.
Assim, para Durkheim, a sociedade, como todo organismo, apresenta estados normais e patológicos (saudáveis e doentios). E
seria �nalidade da Sociologia encontrar remédios para regularizar a vida social. Estamos falando dos fatos sociais normais e
dos fatos sociais patológicos.
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Para ele, um fato social é normal quando se encontra generalizado pela sociedade e desempenha alguma função importante
para a adaptação ou evolução da sociedade. O estado normal seria o de convivência harmônica da sociedade consigo mesma
e com as demais sociedades, sendo esta harmonia obtida pelo exercício imperativo do consenso social.
Ou seja, este fato social não extrapola os limites dos acontecimentos mais gerais de uma determinada sociedade e que
re�etem os valores e as condutas aceitas pela maior parte da população.
Por isso, em sua concepção, o crime é considerado um fato social normal, porque pode ser entendido como necessário (útil)
para uma sociedade, pois se a consciência coletiva (moral) fosse excessiva, se cristalizaria e a consciência individual inovadora
não se manifestaria.
Desse modo, onde o crime existe é porque os sentimentos coletivos estão no estado de maleabilidade necessária para tomar
nova forma: representa um fato social que integra as pessoas em torno de uma conduta valorativa, que pune o comportamento
considerado nocivo, que fere a consciência coletiva.
Quando os sentimentos coletivos são fortemente atingidos, algumas ofensas passam de faltas morais para delitos e crimes. É
por essa lógica que ele irá avaliar o castigo imposto não como forma de acabar com o crime, mas sim para mantê-lo na taxa
social média.
Crime como fato social normalNão existe, pois, para Durkheim fenômeno que apresente de maneira mais irrecusável todos os sintomas de normalidade, uma
vez que aparece estreitamente ligado às condições de toda a vida coletiva. Não há dúvida de que o próprio crime pode
apresentar formas anormais; é o que acontece quando, por exemplo, atinge taxas exageradas.
O que é normal é simplesmente a existência da criminalidade, desde que, para cada tipo social, atinja e não ultrapasse
determinado nível. O crime é um fator da saúde pública, é parte integrante de toda sociedade sã. Portanto, para Durkheim, o
criminoso é um agente regular da vida social normal.
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Em contrapartida, um fato social é considerado por ele patológico quando coloca em risco a harmonia, os acordos de
convivência, o consenso e, portanto, a adaptação e a evolução histórica natural da sociedade. É, portanto, todo fato que
extrapola os limites aceitos pela consciência coletiva vigente em uma sociedade, é o comportamento tido com desviante. São
fatos que põem em risco a harmonia e consenso e representam um estado mórbido da sociedade. Eles são, para Durkheim,
transitórios e excepcionais, assim como as doenças.
FATO SOCIAL NORMAL FATO SOCIAL PATOLÓGICO
Aqueles fatos que não extrapolam os limites dos
acontecimentos mais gerais da sociedade;
Aqueles fatos que se encontram fora dos limites permitidos pela
ordem social e pela moral vigente;
Reflete os valores e as condutas aceitas pela maior parte da
população.
Os fatos patológicos, como as doenças, são considerados transitórios
e excepcionais.
Durkheim argumenta ainda que pode ocorrer a ausência, desintegração ou inversão das normas vigentes em uma sociedade.
Neste caso, a consciência “perde” os parâmetros de julgamento da realidade. Ela vai acontecer em momentos extremos, tais
como: guerras, desastres ecológicos, econômicos etc.
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É também nesses momentos que se veri�ca um número excessivo de suicídios, razão pela qual Durkheim trata esse fenômeno
como um fato social, e não somente como um ato resultante da consciência individual. Este momento é de�nido por ele como
um estado de Anomia.
E para investigar todos essas relações e estados propostos, Durkheim também desenvolveu um método – o Método
Funcionalista. Para ele, era fundamental que o investigador mantivesse uma relação de objetividade com o objeto, estudando,
desfazendo-se de qualquer pré-noção em relação a eles. Buscando responder à questão de como a Sociologia deve proceder
para explicar seu objeto de estudo, ele formulou a metodologia funcionalista.
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Essa metodologia parte do pressuposto de que os fatos sociais são as maneiras padronizadas como agimos na sociedade;
não existem por acaso, mas porque cumprem uma função. Assim, Durkheim compara a sociedade a um “corpo vivo”, no qual
cada órgão cumpre uma função; daí a nomeação do método funcionalista.
Ou seja, para ele a sociedade é semelhante a um corpo vivo e, assim como o corpo humano, é composta de várias partes. Cada
parte cumpre uma função em relação ao todo assim como cada instituição cumpre uma função para o bom funcionamento da
sociedade. Mas, é importante recuperarmos que conforme vimos no começo de nossa aula, o todo predomina sobre as partes.
E é, para Durkheim, na determinação da função social que as instituições cumprem, que o método funcionalista procura
explicar sua existência, bem como nossas formas de agir.
Durkheim e seu método e teoria funcionalista se distinguem das abordagens realizadas por Becker.
Contudo, ambas transitam no campo do interacionismo, pois buscam a compreensão do comportamento humano e de seus
processos de interações. Por isso, para eles, o pesquisador deve se apropriar dos signi�cados vivenciados pelos indivíduos
diante de um determinado contexto, a �m de perceber suas interações. Estes são elementos em comum nas duas abordagens.
Atividades
1) Analise a tirinha de Quino de acordo com uma das características que ilustram a concepção de fato social, segundo
Durkheim.
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2) O conceito de sociedade desenvolvido na Sociologia de Durkheim dá ênfase:
a) À ideia de que a sociedade se resume ao somatório das ações individuais.
b) À força do fato social na constituição do indivíduo, definindo modos de pensar, agir e sentir.
c) À noção de indivíduo como o vetor menos forte na relação indivíduo-sociedade.
d) À inexistência de uma qualidade específica dos fenômenos sociais que os diferencie daqueles de ordem individual.
e) À ideia de que a vida social é resultado da intervenção de forças divinas.
3) Se tomarmos como ponto de partida a concepção de fato social, segundo Durkheim, qual das alternativas a seguir apresenta
corretamente uma das características do fato social:
a) Ser geral e igual em todas as sociedades.
b) Exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior.
c) Ser particular de cada indivíduo, sem interferência do grupo social no qual está inserido.
d) A vontade individual se sobrepõe à do grupo.
Notas
Referências
BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal: introdução à sociologia do direito penal. 3. ed. Rio de
Janeiro: Revan, 2002.
BECKER, S. Howard. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
DURKHEIM, Émile. Educação e Sociologia. Trad. Lourenço Filho. Rio de Janeiro: Melhoramentos e Fundação Nacional de
Material Escolar, 1978.
DURKHEIM, Émile. Educação e Sociologia. Petrópolis: Vozes, 2011.
FERREIRA, Delson. Manual de sociologia – dos clássicos à sociedade da informação. São Paulo: Atlas, 2007.
Próxima aula
O trabalho inicial de Irving Goffman sobre identidade e interação;
As “instituições totais”.
Explore mais
Sugestão de dois �lmes para debater fato social normal, patológico e estado de anomia. São eles:
Ensaio sobre a cegueira (2008)
No �lme, acontece uma epidemia e as pessoas começam a �car cegas. Aquelas que contraíram a doença
são isoladas e contam com alguns serviços básicos do Estado. Com o tempo, esses serviços tornam-se
insu�cientes e a população passa a agir de forma bruta, violenta e primitiva. Na história, a esposa do médico
não foi afetada por essa cegueira e ainda consegue enxergar. Desta forma, ela reúne um grupo e segue em
busca de reencontrar a humanidade. Através do �lme é possível discutir questões como: O que seria de nós
sem as normas sociais? Nossas regras e nossos valores são naturais? E se a moralidade fosse posta à
prova? Enxergaríamos a sociedade como um todo ou �caríamos cegos a ela?
V de Vingança (2005)
Na �cção cientí�ca, Evey Hammond vive em um regime opressor e totalitário na Inglaterra. Ela passa por
uma situação perigosa e acaba sendo salva por um homem misterioso, conhecido como V. Esse homem
convoca outras pessoas que não concordam com o sistema político vigente e começa uma revolução em
busca de justiça e liberdade. Com este �lme propomos o debate sobre: Atitudes como o terrorismo são
“más” ou “erradas” por si mesmas? Ou serão legítimas dentro de uma sociedade alienada e dominada?
Teorias da Interação Social
Aula 6: A interação social em Goffman
Apresentação
Em nossas duas últimas aulas tratamos das formas de interações humanas e seus efeitos nas instituições sociais a partir
das análises dos estudiosos da Escola de Chicago. Por meio dessas mesmas análises, conhecemos a noção de “desvio”,
“etiquetamento” e também fomos apresentados às principais obras e ao pensamento de autores da Sociologia do desvio,
como Howard Becker e Irving Goffman, e à teoria funcionalista de Durkheim.
A partir de agora, retornaremos a Irving Goffman para aprofundarmos alguns de seus conceitos e, principalmente, para
explorarmos a questão do estigma.
Objetivos
Examinar o trabalho inicial de Irving Goffman;
Explicar o debate sobre identidade e interação a partir da metáfora do teatro;
De�nir instituições totais.
Estigma
Em nossas aulas anteriores, vimos que Goffman faz parte de um grupo de autores da Escola de Chicago inseridos na
perspectivaInteracionista Simbólica, que centra o seu estudo na interação social cotidiana. O autor também investiga
questões relacionadas às identidades individual e social e de que forma se constituem nas relações em grupo, ou seja, como
cada um desempenha o seu papel.
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No �nal da década de 1950, Goffman passou
a integrar o Departamento de Sociologia da
Universidade da Califórnia a convite de
Herbert Blumer, onde assumiu a cadeira de
professor de Sociologia, ministrando aulas
voltadas exatamente para a abordagem
realizada pela Sociologia do Desvio. Já se
encontrava em notas de suas aulas desse
período o seu interesse pelo estigma.
Sobre os estigmatizados, é importante
sinalizarmos para o contexto social e o
cenário dos Estados Unidos à época, pois
eles contribuíram para a atenção que este
autor deu ao tema. O país experimentava um
período de con�itos no que diz respeito à
ordem social, oriundos das tensões geradas
pela defesa dos direitos das inúmeras
minorias.


Alguns estudiosos a�rmam que o fato de
Goffman ter origem judaica, apesar de não se
reivindicar judeu, teria contribuído para o seu
empenho com a questão dos estigmatizados,
pois esta também foi uma minoria étnica
estigmatizada nos Estados Unidos na década
de 1960.
Dica
Para explorar um pouco mais este cenário da década de 1960 nos Estados Unidos e a luta das chamadas minorias, sugerimos
ao artigo: O maio de 1968 – a luta dos direitos civis nos Estados Unidos , de Lincoln Secco, professor de História
Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP).
Diante deste cenário social e político que ganhavam espaço as Teorias de interação e emergia uma Sociologia crítica, muito
in�uenciada por �guras como Wright Mills, fundamentais para o trabalho sobre estigma desenvolvido por Goffman, como
podemos ver nas próprias palavras do autor:
“Há mais de uma década vem sendo apresentada uma
quantidade razoável de trabalhos sobre estigma — a
situação do indivíduo que está inabilitado para a aceitação
social plena”.
- Goffman
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
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 Fonte: Wikipedia
Charles Wright Mills foi um sociólogo americano que atuou como docente na
Universidade de Columbia entre 1946 e 1962. Mills foi muito publicado em revistas
populares e é lembrado ainda hoje por sua obra “The Power Elite”, na qual
descreveu relações e alianças de classe entre as elites políticas, militares e
econômicas dos Estados Unidos. Ele defendia a responsabilidade dos intelectuais
na sociedade pós-Segunda Guerra Mundial e o engajamento público e político
sobre a observação desinteressada. Foi ele quem popularizou o termo "Nova
Esquerda".
Além disso, para o autor, as grandes obras e os grandes intelectuais da história
nunca deveriam abrir mão de sua re�exividade e criatividade, além de terem uma
postura crítica diante da realidade. Uma das críticas de Mills à Sociologia era de
que esta deveria ser acessível à compreensão do grande público.
Mas antes de falarmos do conceito de estigma propriamente dito, trataremos do debate
realizado por Goffman sobre identidade. Em 1959, ele inicia esta discussão sobre estudo da
identidade individual e social em sua obra, The Presentation of Self in Everyday Life (“A
representação do eu na vida cotidiana”).
Neste livro, ele utiliza a metáfora do teatro para tratar das interações pessoais que os
indivíduos realizam.
Para Goffman, quando interagimos com outra pessoa, comunicamos, seja de forma
consciente ou inconsciente, uma imagem sobre nós mesmos. E para isso, representamos a
todo momento o papel que desejamos mostrar. Isso nos colocaria no lugar de personagens e
de atores em um encontro de interação social.
 Fonte: Wikipedia
Logo no começo do livro, Goffman diz que as pessoas buscam, nos encontros de interação, conhecer o máximo possível sobre
o outro, o que denominou de observador coparticipante do encontro de interação.
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O objetivo desta análise é tentar prever as perspectivas do outro e assim determinar a melhor forma de atuar na interação
social, elegendo qual personagem usar. Desta forma, ele a�rma que o encontro é um fenômeno face a face de indivíduos que
procuram, por meio de uma atuação, a melhor forma de agir em uma dada circunstância.
Nessa perspectiva, Goffman argumenta que nestes encontros ou interações, quando o indivíduo encontra um desconhecido ele
observará elementos ligados à sua aparência e ao seu comportamento. Além disso, para ele, os indivíduos também utilizam
experiências passadas e estereótipos estabelecidos em novas interações. Contudo, se a pessoa com quem o indivíduo está
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interagindo for conhecida, segundo ele, haverá uma tendência a persistência e generalidade de determinados traços
psicológicos. Dessa forma, acredita-se que esta pessoa terá um comportamento previsível.
No livro, o autor desenvolve dois conceitos centrais que ajudam na questão do designer no cotidiano. O primeiro faz referência
à convicção no papel que executamos. A esse respeito, Goffman (2009) diz que há dois tipos de atores no encontro de
interação.
O sincero
Aquele que acredita de fato na cena.
O cínico
O que não acredita nem se interessa no que o público crê, mas
o engana por achar que pode estar realizando um bem para o
seu grupo.
Partindo do pressuposto de que somos marcados pela instabilidade, Goffman acreditava que poderia haver ciclos de
descrença e crença entre os personagens e que estes poderiam se alternar.
Para Goffman, existiam outros elementos determinantes na conduta dos indivíduos além da interação e de fatores ligados ao
tempo e ao local onde ocorrem. trata-se de fatores da ordem das emoções que, portanto, só poderiam ser analisados por meio
de comportamentos involuntários ou por meio de declarações dos próprios indivíduos.
Formas de interagir
Ainda sobre as formas de interagir e de se expressar do indivíduo, Goffman (2009) argumenta que são de dois tipos.
1
O primeiro relacionado a símbolos verbais e a uma
comunicação mais tradicional. Trata dos símbolos verbais
que integram os discursos e que são eleitos a partir da
leitura feita do outro, de uma tentativa de prever as
perspectivas alheias. Realiza-se assim uma comunicação
intencional.
2
O segundo faz referência a uma interação na qual não há
intencionalidade e as ações dos indivíduos adquirem mais
espaço. É feito por meio de gestos, olhares, postura,
elementos que podem não ser notados pelo próprio
indivíduo, mas são vistos pelos outros. Não há símbolos
verbais nem intencionalidade.
O que ele busca nos mostrar com tudo isso é que estamos a todo momento estabelecendo nosso comportamento por meio de
nossa atuação. Ou seja, construímos nossa imagem a partir da análise do outro – fala, discurso, expressão (intencional ou não)
– e forjamos uma resposta para esta interação.
Para Goffman (2009), quanto maior for o cálculo dessa atuação, mais chance se tem tanto de harmonia como de erro, pois há
a possibilidade de, no jogo, na representação, ambos crescerem e chegarem a uma situação de harmonia, mas também o
oposto, dado o nível de manipulação.
Em A Situação Negligenciada, Goffman (2002) diz que a comunicação intencional é um fenômeno socialmente organizado e
reconhecido entre os participantes do encontro social. Assim, existem dicas dos participantes que reconheceram a fala para
solicitá-la e em seguida passá-la ao outro. Esta parceria entre os participantes é fundamental ao longo do diálogo com a
função de que uma fala não se sobreponha a outra. Contudo, ele chama atenção para o fato de que existiria um desequilíbrio
entre quem fala e quem observa.
Vimos, portanto, que o livro A representação do eu na vida cotidiana está no rol daqueles que inauguram uma mudança de
concepção nas análises sobre situações de interação, abarcando não somente o discurso escrito, mas também o discurso oral
e, principalmente, porestar diante de um cenário da Sociologia que dá início ao pós-estruturalismo.
Dica
Pós-estruturalismo refere-se a uma tendência à radicalização e à superação da perspectiva estruturalista nas mais diversas
áreas do conhecimento. O estruturalismo, movimento intelectual desenvolvido na Europa do início até metade do século XX,
que defendia que a cultura humana pode ser entendida através da estrutura, que diferencia a realidade concreta da abstração
de ideias - uma "terceira ordem" que medeia as duas. Sua emergência está relacionada, sobretudo, aos eventos contestatórios
que marcaram a primeira metade do ano de 1968, em especial na França.
No campo propriamente �losó�co, seus principais representantes são: Michel Foucault, Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Jean-
François Lyotard. Também podem ser considerados pós-estruturalistas ou próximos às teses pós-estruturalistas Giorgio
Agamben, Jean Baudrillard, Judith Butler. O pós-estruturalismo instaura uma teoria da desconstrução na análise literária,
liberando o texto para uma pluralidade de sentidos. A realidade é considerada como uma construção social e subjetiva, em
perpétuo devir. A abordagem é mais aberta no que diz respeito à diversidade de métodos.
Comportamento desviante
Poucos anos mais tarde, no começo da década de 1960, o autor já centrava seus estudos para a questão dos chamados
desviantes. E assim publicava uma série de artigos e obras, tais como Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity e
Asylums: Essays on the Social Situation of Mental Patients and Other Imnates (Manicômios, prisões e conventos), que
exploraremos um pouco mais a seguir.
O livro, publicado originalmente em 1961, teve origem com a experiência de Goffman enquanto pesquisador visitante do
Laboratório de Estudos Socioambientais do Instituto Nacional de Saúde, em Bethesda, Maryland, ainda na década de 1950. De
acordo com Kunze (2009), foram três anos acompanhando os setores de farmacológicas e de esquizofrenia do National
Institute of Health Clinical Center e realizando trabalho de campo no hospital psiquiátrico, que à época contava com cerca de
7.000 pacientes. Seu objetivo era compreender a realidade dos internos, “na medida em que esse mundo é subjetivamente
vivido por ele” (Goffman, 2007, p. 8).
Ainda no prefácio do livro, Goffman defende que qualquer grupo de pessoas produz uma vida própria que se torna importante e
normal, desde que você a conheça. A respeito de seus métodos, ele sinalizou para algumas limitações, indicando que não
esteve internado com os pacientes e, portanto, sua interpretação seria parcial. Contudo, este fato não invalidaria sua pesquisa,
pois grande parte das produções da área era realizada a partir da visão daqueles que estão do outro lado, em geral, os
psiquiatras.
“Instituição total”, é assim que ele inicia a descrição do local onde se encontram esses indivíduos, que se acham apartados da
sociedade, tendo a vida administrada, tendo uma residência e convivendo com muitos semelhantes.
No livro ele descreve algumas das características dessas chamadas por ele “instituições totais”, locais que abrigavam os
internos de psiquiatria, podendo ser asilos, hospitais, prisões, quartéis, conventos.
Portanto, o autor utiliza a referência a totais como forma de dizer que todas estas instituições possuem características gerais e
comuns.
Como primeira característica destacada por ele, podemos citar a barreira criada por estas instituições, ou uma tendência
ao “fechamento” deste indivíduo para o mundo externo.
Outro ponto central destas instituições descrito por Goffman é a ruptura das barreiras que em geral existem nas três
esferas da vida social, sendo elas o descanso, o lazer e o trabalho.
Com isso, ele quer dizer que nessas instituições esses três elementos coexistem no mesmo espaço, sob a vigilância de
uma autoridade e com um planejamento. Não há espontaneidade. Tudo ocorre para atender à instituição. Além disso, ele
ainda aponta para a questão do controle das necessidades humanas pela burocracia destas instituições. Sobre este
ponto, ele aborda a divisão que se dá entre equipes dirigentes e os internos, onde há um abismo entre dois mundos
sociais e culturais diferentes.
Goffman dedicou-se desde o �nal da década de 1950 e início da década de 1960 a estudos, dentro do campo do
interacionismo simbólico, sobre identidade, relações sociais e instituições. Todos estes estudos e pesquisas do autor
foram fundamentais para nossa compreensão do conceito de estigma. A palavra estigma tem origem grega e está
relacionada a marcas corporais feitas em escravos ou prisioneiros de guerra que não podiam mais ter convívio social, seja
por doença ou alguma questão moral. O fato é que ao longo da história da humanidade o estigma sempre proporcionou a
separação entre grupos sociais. Essa apartação poderia ser através de marcas físicas, ou por questões culturais, quando
o padrão dominante de cultura exclui os demais grupos sociais.
Portanto, estigma é um termo que existe desde a Grécia Antiga, mas que será ressigni�cado com o estudos de Goffman
na década de 1960. Ele inaugura a participação da sociedade na formação destes estigmas e na manipulação de
identidades. Seu trabalho, até os dias de hoje, ainda é referência neste campo de pesquisa.
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Assim, atualmente características,
comportamentos e hábitos de um grupo
social, e que, em geral não são as
mesmas praticadas e adotadas pela
cultura hegemônica, são chamadas pela
Sociologia de estigmas sociais. 
Ou seja, é a classi�cação de um grupo
por outro, daquele que domina
culturalmente as normas sociais e exclui
o outro, deixando-o muitas vezes à
margem da sociedade.
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Dessa forma, o que não se adequa a um padrão cultural determinado, torna-se estigmatizado. E os estigmas, em geral, se
transformam em preconceitos e manifestações de discriminação. É importante considerar que os estigmas variam de acordo
com cada realidade analisada e cada contexto social, pois uma conduta considerada imprópria em uma cultura pode ser o
padrão em outra.
A partir dos estudos de Goffman, muitas pesquisas têm sido realizadas em torno de temática, trazendo novas colaborações,
re�namentos conceituais e principalmente corroborando sua tese sobre a negatividade dos estigmas na vida dos que são
estigmatizados. Iremos explorar e aprofundar este tema em nossa próxima aula.
Saiba mais
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Erving Goffman e as Ciências Sociais: uma homenagem aos 25 anos do seu desaparecimento (Parte 1 / Parte 2), realizada no
31º Encontro Anual da ANPOCS - 2007 com a participação de Carlos Benedito Martins (coordenador - UnB), Édison Luis
Gastaldo (expositor - UNISINOS), Fraya Frehse (expositora - USP), Gilberto Velho (expositor - UFRJ).
Atividades
1) Segundo Erving Goffman, as instituições totais retiram do indivíduo sua capacidade de decisão e escolha, por meio de
rígidos regulamentos, sanções e julgamentos dos dirigentes. A a�rmativa que não descreve ação implementada por essas
instituições é:
a) A conduta do interno no interior da instituição é constantemente observada e qualquer ato fora do determinado pode futuramente ser
usado contra ele próprio.
b) A presença de autoridade escalonada responsável pela garantia do cumprimento das regras determinadas, mesmo que isso inclua
castigos físicos ou morais.
c) Tudo pertence à instituição e pode ser retirado a qualquer momento.
d) O interno consegue equilibrar suas necessidades pessoais ao poder e organizar livremente, e por conta própria, sua rotina diária no
interior da instituição.
e) O internado pode renunciar a certos níveis de sociabilidade, a fim de evitar incidentes.
2) No clássico Manicômios, Prisões e Conventos, Erving Goffman trata do conceito de instituições totais. Segundo este autor:
a) As instituições totais submetem os internos a processos de mortificação do eu, que implicam a destituição das formas pelas quais o
indivíduo estava habituadoa agir e a apresentar-se aos outros, e a perda das condições de estabelecer sua própria integridade física.
b) Nas instituições totais, dado o controle exercido sobre os indivíduos, é impossível para os internos construir privilégios a partir de
favores pessoais.
c) Nas instituições totais, o indivíduo é submetido a processos de mortificação do eu, que são compensados graças ao tempo em que fica
sozinho.
d) Os processos de mortificação do eu impactam o indivíduo, mas são fatores que contribuem para dirimir as tensões intersubjetivas e as
zonas de conflito na instituição.
e) O processo de arregimentação diz respeito às ocasiões em que a instituição total oferece ao interno certas condições para a execução
de tarefas de modo individualizado.
3) Goffman discorreu sobre a análise que os indivíduos realizam ao observarem os demais para tentarem prever as
perspectivas do outro e assim determinarem a melhor forma de atuarem na interação social, elegendo qual personagem usar.
A partir dessa a�rmativa, desenvolva possíveis observações que cada um dos “personagens” podem estar realizando nas
interações da charge a seguir:
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NotasReferências
GOFFMAN, Erving. A Situação Negligenciada. In: RIBEIRO, B.T.; GARCEZ P. (eds.). Sociolinguística Interacional. São Paulo:
Loyola, 2002, p. 13-20.
GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. 7. ed. São Paulo: Perspectiva, 2005. (Original inglês de 1961).
GOFFMAN, Erving. A representação do Eu na vida Cotidiana. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2007.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 2009.
Próxima aula
Estigmas sociais a partir da obra de Goffman.
Atualização do conceito e do debate sobre estigmas.
Explore mais
Sugerimos alguns �lmes que abordam o debate proposto por Goffman, sobre Instituições totais.
Instituições totais.
Nise - O Coração da Loucura
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Ao voltar a trabalhar em um hospital psiquiátrico no subúrbio do Rio de Janeiro, após sair da prisão, a
doutora Nise da Silveira (Glória Pires) propõe uma nova forma de tratamento aos pacientes que sofrem de
esquizofrenia, eliminando o eletrochoque e a lobotomia. Seus colegas de trabalho discordam do seu método
de tratamento e a isolam, restando a ela assumir o abandonado Setor de Terapia Ocupacional, onde dá início
a uma nova forma de lidar com os pacientes, através do amor e da arte.
Bicho de Sete Cabeças
Seu Wilson (Othon Bastos) e seu �lho Neto (Rodrigo Santoro) possuem um relacionamento difícil, com um
vazio entre eles aumentando cada vez mais. Seu Wilson despreza o mundo de Neto e este não suporta a
presença do pai. A situação entre os dois atinge seu limite e Neto é enviado para um manicômio, onde terá
que suportar as agruras de um sistema que lentamente devora suas presas.
Teorias da Interação Social
Aula 7: Goffman e os Estigmas Sociais
Apresentação
Você já aprendeu sobre os principais autores da Escola de Chicago e como eles foram primordiais para a consolidação
dos estudos das Ciências Sociais, especialmente, as teorias no campo da Interação social e dos chamados
comportamentos desviantes. Vimos também a distinção entre os estudos de Irving Goffman e a Sociologia funcionalista
de Emile Durkheim.
Mergulhamos na obra de Goffman para conhecer sua trajetória no debate sobre identidade e o uso da metáfora do teatro,
até chegarmos ao conceito de “instituições totais” e à discussão acerca dos estigmas sociais.
Nesta aula, vamos contextualizar a discussão sobre “estigmas sociais”, veri�cando de que forma Goffman trabalhou o
tema. Assim, abrimos espaços para pensarmos a atualidade do conceito de estigmas sociais e para críticas às análises
produzidas por esse autor.
Bons estudos!
Objetivos
De�nir estigmas sociais, segundo Goffman;
Examinar o debate sobre estigmas no tempo e no espaço;
Debater a atualização do conceito.
Contextualização da teoria de Goffman
É fundamental iniciarmos esta aula com a informação de que existem inúmeros trabalhos de Goffman sobre a conceituação de
estigma; assim, �zemos uma seleção dos estudos que fundamentam e priorizam a discussão e elaboração do conceito de
estigmas sociais.
Um dos nossos critérios principais para estabelecermos esse recorte foi partir de estudos que envolvessem um contexto ou
circunstância da prática de estigmatização, para contextualizar a discussão sobre estigmas no espaço e no tempo. Outro
critério importante foi considerar as obras que trabalharam esse tema como uma construção social e que priorizaram a
análise dos estigmatizados diante do estigma, para garantir o enfoque interacionista, objeto geral de nossas aulas.
Você se lembra qual a origem da palavra estigma?
Vimos, na aula anterior, que a origem da palavra estigma está relacionada à Grécia Antiga e à prática de marcar os corpos
daqueles que eram tidos como indignos, que possuíam má reputação. Nesse período, estigma era também uma forma de
marcar aqueles que não pudessem exercer nenhum tipo de convívio social, como doentes que transmitissem suas pestes.
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A estigmatização surge como forma de apartar grupos sociais que,
por questões físicas ou sociais, desviassem do padrão dominante. Ou
seja, ela sempre esteve associada à exclusão social e a preconceitos.
Desta forma, podemos dizer que esta é uma prática que acompanha grande parte de nossa história – pelo menos nos
territórios diretamente colonizados e in�uenciados pelas culturas europeias.
Assim, diferentes formas de estigmatização acompanharam o desenvolvimento dessas sociedades desde a Grécia Antiga. Mas
nos interessa, particularmente, entender como Goffman inicia, na década de 1960, seus estudos sobre essa temática e
desenvolve sua conceituação sobre os estigmas sociais. Pois, se como dissemos, os estigmas fazem parte da história da
humanidade, foi com Goffman que se inaugurou um processo de compreensão de como eles são construídos, de que forma a
sociedade participa deste processo. Nesse sentido, sua obra e suas pesquisas, além de precursoras, foram fundamentais para
o surgimento e a consolidação de um novo campo de pesquisa nas Ciências Sociais.
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O trabalho de Goffman, e sua busca por analisar e conceituar o que seriam os estigmas sociais, precisa ser contextualizado
espacial e temporalmente. Com isso queremos dizer que, para compreendermos algumas de suas considerações sobre os
estigmatizados, é preciso considerar em que momento da história ele produzia, onde ele fazia isso e em que sociedade.
Isso não relativiza de forma alguma as críticas que hoje devem ser feitas a estas análises, mas é importante considerarmos
esses elementos ao realizarmos tais críticas. De toda forma, é inegável que sua obra contribuiu para esse novo campo de
investigação e de interesse, hoje centrado no impacto negativo do estigma sobre a vida de pessoas (LINK; PHELAN, 2001).
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Estigmas sociais
Como de�nir cultura?
Acesso à erudição, bons livros, círculos sociais importantes, domínio de várias línguas. Essas são algumas das respostas que
ainda encontramos. Cultura associada à ideia de erudição ou de escolaridade.
Mas, para o campo das Ciências Sociais, cultura é:
Um conjunto de comportamentos, vestimentas, hábitos e valores de
um determinado grupo social.
Assim, nos cabe mais uma pergunta.
Todo mundo tem cultura?
Segundo a de�nição que estamos trabalhando, sim, todos têm cultura, pois, para tê-la, basta ter sido socializado em algum
grupo, ter aprendido as regras e normas desse grupo, os costumes e a conduta.
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Os estigmas surgem justamente quando grupos sociais dominantes ou hegemônicos tentam impor suas práticas e seus
padrões culturais aos demais; se estes não se adéquam, são estigmatizados.
Na sociologia, os estigmas sociais estão associados a essa imposição cultural de hábitos,costumes, valores a outros grupos
sociais.
Esse processo gera exclusão social, deixa diversas pessoas e grupos que não seguem esse padrão cultural à margem da
sociedade. Os que não se adaptam, que �cam na periferia, tornam-se estigmatizados.
Sempre que alguém ou um grupo apresenta um comportamento que não atende ao padrão cultural dominante é considerado
um estigma para a sociedade. O estigma, em geral, vem acompanhado de uma série de outros comportamentos sociais, como
preconceito e discriminação, pois essas pessoas e/ou grupos estigmatizados são deslocados, são de alguma forma afastados
do convívio social (em maior ou menor grau), como na Grécia Antiga.
Saiba mais
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Assista ao vídeo Roberto DaMatta analisa a sociedade brasileira contemporânea, no qual o antropólogo analisa questões que
fazem parte da sociedade atual, como igualitarismo, coletividade, cultura e relações sociais, mostrando caminhos para
possíveis avanços.
O contexto na produção do estigma
Na aula anterior, vimos a importância de considerar que os estigmas variam de uma realidade social para outra. Vale a pena
recordamos este ponto. Como cada cultura tem seu conjunto de hábitos e valores, o que em uma pode ser considerado a
norma, o padrão a ser seguido, em outra pode representar o extremo oposto, pode ser justamente o que torna o indivíduo
estigmatizado.
Com isso, sinalizamos o fato de que estigma é um processo constituído socialmente e que precisa ser localizado no espaço e
no tempo.
É fundamental observar o contexto social, político e econômico para
analisar os processos de estigmatização que ocorrem em dada cultura.
Mas esta já é uma leitura atual sobre os estigmas sociais, diferente de como Goffman concebeu. Para Goffman, o conceito de
estigma estava necessariamente atrelado à existência de estigmatizados e normais. Aqui nos cabe uma crítica importante a
esta ideia de normalidade com que Goffman fundamentou todo seu trabalho, pois ao a�rmar que existem os normais, ele
mesmo estabelece um padrão de comportamento adequado e esperado.
Ele se refere a essa separação entre normais e estigmatizados �sicamente, ou seja, ambientes onde haveria a presença
corporal de tais grupos. Segundo o autor:
“Assim, as pessoas normais preveem as categorias e os
atributos de um estranho que se aproxima. Essas pré-
concepções, elaboradas pelos normais, são transformadas
em “expectativas normativas, em exigências apresentadas de
modo rigoroso”.
- Goffman, 1975
Contudo, ele argumenta que no dia a dia as pessoas tendem a desconsiderar essas chamadas pré-concepções até o momento
em que apareça algo que se torne de fato um elemento de exigência e é neste momento que vêm à tona todos os demais
atributos que antes eram relevados ou desconsiderados, e que a pessoa não atende ou realiza de forma distinta dos demais.
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“Assim deixamos de considerá-la criatura comum e total,
reduzindo-a a uma pessoa estragada e diminuída. Tal
característica é estigma, especialmente quando o seu efeito
de descrédito é muito grande [...]”
- Goffman, 1975
O autor também trabalha, a partir desta ideia de normais e estigmatizados, com a conformação de dois grupos com
características distintas, que seriam os desacreditados e os desacreditáveis. Ambos se distinguem dos normais. Vejamos a
diferença entre esses dois grupos.
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
Desacreditados
Possuem traços que são identi�cados e perceptíveis pelos normais.

Desacreditáveis
As suas características nem sempre são percebidas.
Para Goffman, essas duas realidades podem, na relação estigmatizados e normais, se esbarrar de forma mútua.
Ainda sobre esta concepção de normalidade, Goffman (1975) argumenta que os estigmas são construídos pelos normais
como uma forma de controlar estas pessoas e/ou grupos ou a ameaça que possam representar. Desta forma, os normais
desenvolvem uma ideologia – estigmas – que inferioriza e marca a identidade social de indivíduos e grupos sociais.
Assim, podemos dizer que o conceito de estigma como processo social para Goffman trabalha com a ideia de que este pode
se dar a partir de três circunstâncias:
1
A primeira, física, envolvendo deformidades físicas.
2
Em seguida, a que estaria relacionada à questão de caráter
individual, com elementos como desonestidade.
3
Por último, os estigmas de raça, nação e religião.
Mas, em todas essas circunstâncias, Goffman encontrou em comum o fato de que este indivíduo ou este grupo social podem
ser afastados das relações sociais devido a algum traço considerado culturalmente desviante.
O trabalho desenvolvido por Goffman foi determinante para a edi�cação do conceito de estigma e foi ele quem possibilitou que
nas décadas seguintes surgissem novas pesquisas e estudos voltados para esta temática que revisitassem a de�nição
proposta pelo autor, trazendo um re�namento para o conceito e a revisão de alguns elementos importantes.
Saiba mais
Leia o artigo De palavras e imagens: estigmas sociais em discursos audiovisuais, de Rosana de Lima Soares.
Assista aos �lmes sugeridos para re�exões acerca da estigmatização de indivíduos ou grupos:
Gattaca – Experiência Genética. Ficção cientí�ca americana, de 1997, que aborda as preocupações sobre as tecnologias
reprodutivas que facilitam a eugenia e as possíveis consequências de tais desenvolvimentos tecnológicos para a
sociedade.
Edward Mãos De Tesoura – Peg Boggs visita um velho castelo no �nal da rua. Lá, encontra Edward com mãos de tesoura,
criado por inventor falecido. Ela o ajuda e ele se torna querido por uns e perseguido por outros.
Atividade 1
1) Em seu clássico Estigma – Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, Erving Goffman considerou que o termo
estigma é usado em referência a um atributo profundamente depreciativo, mas o que é preciso, na realidade, é uma linguagem
de relações e não de atributos. Sobre o tema tratado pelo autor, é incorreto a�rmar que:
a) um dos tipos de estigma está ligado às abominações do corpo.
b) por definição, acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano.
c) os estigmas tribais de raça, nação e religião não são transmitidos através de linhagem.
d) há estigmas ligados às culpas de caráter individual, percebidas como vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais.
A in�uência da obra de Goffman
Ainlay, Coleman e Becker publicaram um artigo em 1986 chamado Stigma Reconsidered, que desenvolve a partir do trabalho de
Goffman o fenômeno do estigma como uma construção social.
Os autores argumentam que os elementos utilizados para desquali�car os indivíduos e estigmatizá-los mudam de acordo com
a cultura e o momento histórico. Ou seja, grupos e pessoas são estigmatizados sempre em um dado contexto, que envolve
necessariamente uma cultura, uma conjuntura política, econômica e social. A estigmatização não é uma propriedade individual,
mas fruto de construção coletiva, de um exercício de poder.
O contexto histórico pode provocar mudanças no �uxo do estigma,
promovendo transformações signi�cativas quanto à de�nição e ao
processo de estigmatização.
Com isso, Ainlay, Coleman e Becker (1986) a�rmam que a compreensão e a percepção de estigma são variáveis de acordo com
a historicidade, podendo alguns estigmas se perpetuar por um longo período de nossa história enquanto outros são �ndáveis e
característicos de um dado contexto histórico, social e cultural.
Outros fatores a serem considerados para pensarmos sobre pontos cruciais no processo de estigmatização, além da cultura,
são as orientações morais e intelectuais de um período.
Também é importante mencionar que existem graus distintos de intensidade nos estigmas e que estes variam de acordo com
o tempo e o lugar. E que são os indivíduos que compõem as sociedades os responsáveis pela perpetuação destes estigmas,
pois levam adiante suas ideias e convicções, incluindo estigmas, através das gerações nos processos de socialização.
Con�gura-se um quadrode relações não igualitárias, no qual na percepção das pessoas não estigmatizadas, aquelas que não
atendem a seus padrões de comportamento, de hábitos, valores, condutas, podem ser toleradas, mas não totalmente aceitas.
Ocorre, portanto, junto ao processo de estigmatização, perda de status. E “para a revelação dos elementos do estigma, a
dimensão do poder é essencial” (CASAES, 2007).
A dimensão do poder
Acrescentamos um novo elemento à análise realizada por Goffman sobre os estigmas: Poder. Para Link; Phelan (2001),
estigmatização é uma condição totalmente incerta de acesso a todas as formas de poder, seja social, econômico e político. Ela
permite percebermos diferenças, a construção de estereótipos, a exclusão e as diversas formas de discriminação. Contudo, a
questão do poder, quando relacionada aos estigmas, muitas vezes, não é notada ou problematizada.
Link; Phelan (2001) acrescentam ainda outros elementos ao trabalharem o conceito de estigmatização de Goffman. Assim, eles
abordam:
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1
A questão da rotulação
2
A perda de status
3
A discriminação
Todos sempre ligados à questão do poder. Essas novas abordagens sobre os estigmas que estamos apresentando têm em
comum o fato de considerarem que estes são mutáveis de acordo com o tempo e lugar e principalmente por estarem
conectados a uma dada realidade, a construção social realizada em um contexto.
Becker e Arnold (1986) também já haviam apontado a relevância da estrutura social e do poder na de�nição dos estigmas. Eles
de�niram poder como prestígio, riqueza e habilidade de manter o controle social sobre alguém e argumentaram que em
qualquer sociedade há indivíduos e grupos com mais poder que outros. E são estes, que ao terem o poder de impor seus
valores, normas, crenças sobre os que têm menos poder, também têm o poder de estigmatizá-los.
“Cada sociedade tem mecanismos de controle social para
garantir que a maioria de seus membros conforme-se com
essas normas. As pessoas que não se conformam com essas
regras ou quebram os tabus sociais são excluídas
socialmente”.
- BECKER; ARNOLD, 1986, p. 40
Segundo os autores, os integrantes de uma sociedade possuem convicções em comum em torno de uma determinada
característica cultural e do estigma a ela conectado. E para eles, a crença relacionada a este atributo cultural de�ne a natureza
deste estigma. E assim, os indivíduos agem de forma especí�ca em relação a cada estigma, apresentando respostas
diferentes, e afetando, portanto, a forma como um indivíduo é integrado ou não em uma dada sociedade.
Becker; Arnold (1986) resumem estigmas ao estado de não dispor de predicados tidos como elementares para um grupo
social. E para eles, os estigmatizados rapidamente tomam consciência deste processo, de como os demais os percebem e em
alguns casos podem buscar a normatização, ou seja, a tentativa de o indivíduo estigmatizado se adaptar à sociedade que o
marginalizou. E para isso ele precisa reduzir sua diferença das normas culturais.
Todos os autores estudados, Becker e Arnold (1986), Ainlay, Coleman e Becker (1986), e Link e Phelan (2001), acreditam que o
conceito de estigma é variante em cada sociedade.
Essa ideia é central para diferenciar as regras culturais, os valores e as estruturas. Assim, estes novos estudos buscaram
apresentar a sociedade e a cultura como fatores determinantes na construção de estigma e, segundo Becker; Arnold (1986):
“Incluindo as pessoas que desquali�cam as outras na relação
de aceitação social e a natureza da interação social entre
estigmatizados e não estigmatizados”.
- Becker; Arnold (1986)
Na próxima aula veremos os desdobramentos destes novos estudos. Ou seja, como os grupos estigmatizados sempre
resistiram a todos esses processos de exclusão, marginalização e discriminação. Iremos trabalhar com os grupos atuais no
Brasil e no mundo que mais têm sofrido com as estigmatizações e seguiremos apresentando as atualizações propostas pelo
campo das ciências sociais para esta temática.
Saiba mais
Para tratar da atualidade do trabalho de Goffman, indicamos o artigo Da atualidade de Goffman para a análise de casos de
interação social: de�cientes, educação e estigma, de Andrea Brandão Puppin.
O Texto apresenta os resultados de um estudo de caráter exploratório, desenvolvido há alguns anos acerca da categoria social
da "de�ciência física", a qual foi entendida como fenômeno que apela para leituras situadas no âmbito de uma sociologia das
atitudes, e para tal nos servimos dos escritos de Goffman, contextualizando e relativizando a perspectiva teórica em que se
inscreve esse autor.
A proposta é juntar observações de campo a relatos colhidos em entrevistas no intuito de apreender a partir da escola
vivências de situações de estigma passíveis de circunscrever a vivência social dos chamados de�cientes. Foi historicizado e
problematizado o conceito de de�ciência associando-o ao problema da constituição de identidades. A dinâmica de construção
do texto possui uma proposta de recorte-colagem de cenas e depoimentos em estilo puzzle, assumindo que foram construídas
interpretações sobre interpretações ao lidar com as representações dos entrevistados, produzindo um discurso que emoldura
discursos outros e que pode ser também circunscrito por molduras outras, conforme indica o jogo de possibilidades de
Goffman.
Atividade 2
2) A partir da imagem apresentada, proponha uma análise sobre os principais processos históricos e contemporâneos de
estigmatização, de acordo com a conceituação de Goffman, no Brasil. Mencione os indivíduos e grupos por eles afetados, bem
como as consequências dessa estigmatização e as formas de resistência individual e coletiva.
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3 - Erving Goffman, em seu livro Estigma, argumenta que o estigma é:
a) atributo desacreditador manipulado na linguagem das relações sociais.
b) atributo negativo fundado na ideologia dominante de uma sociedade.
c) predicado atribuído a papéis sociais de forma estruturada e invulnerável a manipulações.
d) constitutivo da ordem social, pois se refere à construção social das diferenças.
e) uma forma de ocultação do eu na vida cotidiana.
Notas
Referências
AINLAY, S. C.; BECKER, G.; COLEMAN, L. M. A. Stigma reconsidered. In: Ainlay, S. C.; Becker, G.; Coleman, L. M. A. (Ed), The
Dilemma of Difference (1-13). New York: Plenum, 1986.
BECKER, G.; ARNOLD, R. Stigma as a social and culture construct. In AINLAY, S. C.; BECKER, G.; COLEMAN, L. M. A. (Ed.), The
Dilemma of Difference (39-76). New York: Plenum, 1986.
CASAES, N. R. R. Estigma. (2007). Em Suporte Social e vivência de estigma: um estudo entre pessoas com HIV/AIDS.
(Dissertação mestrado). Faculdade de Filoso�a e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador.
GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes (Trad.). Rio
de Janeiro: LTC, 1975.
LINK, B. G.; PHELAN, J. C. Conceptualizing stigma. Annual Review of Sociology. New York, (27), 363-385. Disponível aqui.
Acesso em 11 ago. 2019.
Próxima aula
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Discussões em torno do conceito de estigmas sociais.
Conexões dos processos de estigmatização com etnocentrismo, estereótipos, preconceito e discriminação.
Explore mais
Pesquise na internet sites, vídeos e artigos relacionados ao conteúdo visto.
Em caso de dúvidas, converse com seu professor online por meio dos recursos disponíveis no ambiente de aprendizagem.
Teorias da Interação Social
Aula 8: A atualização do conceito de Estigmas Sociais
Apresentação
Nesta aula, aprofundaremos a atualidade dos debates acerca dos processos de estigmatização no Brasil e no mundo, a
partir das ideias de Irving Goffman e o conceito de Estigma Social por ele desenvolvido.
Estudaremos as consequências desses processos e as diferentes formas de resistência empreendidas nas sociedades
atuais contra ações de marginalização e exclusão social. Por �m, conheceremosdeste novo
pressuposto teórico, o interacionismo simbólico, in�uenciaram o pensamento e a forma de realizar pesquisas no século
XX, inovando não só nos métodos de pesquisa, mas também na concepção destas pesquisas.
Também apresentamos alguns exemplos da aplicabilidade desta nova perspectiva e como ela proporciona novos
recursos, ferramentas e estratégias para as pesquisas no campo das Ciências Sociais.
Bons estudos!
Objetivos
De�nir interacionismo simbólico;
Reconhecer a relação entre o interacionismo simbólico, o pensamento racional e novas Escolas de Sociologia do
século XX;
Explicar os novos métodos de pesquisa, especialmente a pesquisa qualitativa na Sociologia.
Início da abordagem interacionista
Ainda nas primeiras décadas do século XX, boa parte da Europa ocidental vivenciava os recentes problemas sociais trazidos
pelo processo de industrialização e de urbanização. Tal fenômeno incluiu um crescimento exponencial de suas principais
cidades aliado à intensi�caçãodo do consumo. Este processo gerou, além de um aumento na produção de mercadorias, uma
mudança no ritmo da atividade industrial. E toda esta transformação no setor industrial também impactava signi�cativamente
o espaço geográ�co, pois interferia nos trânsitos populacionais e reestruturava as atividades nos contextos da sociedade, que
são primordiais para as ações humanas.
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Em conjunto com este processo, consolidavam-se novas formas de comunicação e transporte, elementos que foram
determinantes para este desenvolvimento industrial, pois colaboravam com o estabelecimento de redes, locais ou globais. Foi
neste contexto que uma perspectiva teórica distinta das adotadas até o momento, voltada para o entendimento do
comportamento social humano, passou a ser desenvolvida no campo da psicologia social. Começavam a se delinear os
pressupostos da chamada abordagem interacionista.
Os principais teóricos que deram início a esta Escola de pensamento foram:
Georg Mead
Filósofo americano que fazia
parte de uma corrente teórica
denominada pragmatismo.
Herbert Blumer
Sucesso de Georg Mead, foi um
sociólogo que se graduou na
Universidade do Missouri e
iniciou essa linha de pesquisa
sociopsicológica e sociológica.
Saiba mais
A publicação mais importante e reconhecida internacionalmente de Herbet Blumer foi Symbolic Interactionism: Perspective and
Method, na qual cunhava o termo interacionismo simbólico como um novo método para a Sociologia.
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Mas o que busca o interacionismo simbólico?
O interacionismo simbólico busca a compreensão do comportamento humano e de seus processos de interações. Seus
autores de referência acreditam que o signi�cado é um dos mais importantes elementos para entender esse processo social de
interação. Por isso, para eles, o pesquisador deve se apropriar dos signi�cados vivenciados pelos indivíduos diante de um
determinado contexto, a �m de perceber suas interações. O signi�cado se tornaria, portanto, um produto social, fruto das
atividades e que surge à medida que os indivíduos interagem.
Mead e Blumer estabeleceram três premissas básicas para a abordagem interacionista:
1 O ponto de partida para os autores é que o ser humano direciona suas ações em função do que estas signi�cam para
ele.
2 Em seguida, a percepção de que este signi�cado surgirá como consequência da interação de cada um com os demais.
3 E por �m, a ideia de que os signi�cados se manipulam e se transformam ao longo do trajeto percorrido pelo indivíduo.
Além disso, para Blumer, estas três premissas interagem com o pensamento e a linguagem humana. Ou seja, o pensamento
altera as interpretações e a linguagem é um recurso muito utilizado nestes processos de interação. Desta forma, o
interacionismo surge polarizando com teorias sociológicas totalizantes, como o Funcionalismo, que compreende as relações
sociais como decorrentes das normas e regras sociais pré-estabelecidas.
Escolas sociológicas e desenvolvimento do interacionismo
simbólico
A Sociologia norte-americana foi responsável, nas primeiras décadas do século XX, por trazer novas abordagens teórico-
metodológicas para o campo das ciências sociais, sendo uma delas o interacionismo simbólico, cunhado na Escola de
Chicago. Contudo, também é importante destacar o papel que a Escola de Iowa, na �gura de Manford Kuhn, teve no tocante ao
desenvolvimento do interacionismo simbólico. Nesta aula vamos apresentar brevemente o papel que estas duas Escolas de
pensamento representaram no desenvolvimento das teorias de interação social e para o campo das Ciências Sociais.
A despeito de serem abordagens distintas, ambas as Escolas convergiam na ideia de que o elemento mais característico e
singular da conduta humana é sua capacidade de interagir diante de simbolismos. Ou seja, os sentidos das ações podem ser
conservados, alterados ou informados pelos indivíduos, que são seres da vida social (BLANCO, 1998).
Em relação aos pontos de divergência entre as Escolas, é necessário recuperarmos o pensamento de Blumer quando este
a�rma que o indivíduo estabelece seu comportamento de forma contínua e ativa ao longa da interação, o que irá ocorrer
durante toda sua vida social.
Assim, os sentidos, as explicações e as de�nições, que são fundamentais para a interação social, sofrem contínuas
reformulações durante as interações. Portanto, as generalizações empregadas pelas pesquisas, neste caso, não podem ser
utilizadas, já que estes signi�cados estão sujeitos a mudança a todo tempo (STRYKER; VRYAN, 2006).
Esta percepção permitiu a estes teóricos o entendimento de que seria possível compreender uma conduta social após a sua
ocorrência, mas não o desenvolvimento de teorias que previssem comportamentos.
No que se refere ao desenvolvimento das pesquisas, Blumer critica a metodologia convencional no uso de esquemas para
determinar a validade empírica. O autor considera este método ine�ciente, já que desconsidera o caráter especí�co do objeto
em análise. Desta forma, defendeu que, na abordagem interacionista, é necessário acompanhar os atos e interações dos
indivíduos. Para ele, portanto, o pesquisador deve interagir com aqueles que estão sendo pesquisados, a �m de conhecer e
investigar o contexto natural onde as interações ocorrem (JEON, 2004).
Manford Kuhn, por sua vez, almejava generalizações teóricas e rigorosamente testadas. Kuhn partilhava do entendimento dos
�lósofos e sociólogos pragmatistas, que defendiam que a estrutura social é criada, conservada e modi�cada através da
interação simbólica. Contudo, ele acreditava que, uma vez estabelecida, esta estrutura impediria o surgimento de novas
interações. Esta perspectiva abrange uma concepção de estrutura social formada por redes de posições em relações
estruturadas entre indivíduos e de esperanças de papel vinculadas a tais posições.
Essa proposta metodológica exige o desenvolvimento de proposições gerais, das quais hipóteses especí�cas possam ser
deduzidas e testadas. Caso os testes con�rmem as hipóteses, pode-se dizer que há uma teoria capaz tanto de explicar quanto
de prever a conduta de um indivíduo em interação social. Para Kuhn não havia contradição entre o interacionismo simbólico,
mensuração e teste empírico (STRYKER; VRYAN, 2006).
Vimos, portanto, que esta é uma abordagem metodológica diametralmente oposta à de Blumer e da Escola de Chicago, que
não acreditava ser possível prever o comportamento humano.
Enquanto a Escola de Iowa privilegiava a lógica de veri�cação,
utilizando dados estatísticos, questionários, escalas, testes e
procedimentos de laboratório, a Escola de Chicago, tendia a adotar a
observação participante, entrevistas, grupos focais e análise de
documentos.
Outro ponto que diferencia as abordagens das Escolas envolve a natureza do comportamento humano em relação à liberdade
ou determinação. Enquanto os interacionistas de Chicago defendiam uma espontaneidadeos re�namentos conceituais e os
desdobramentos em torno do conceito de Estigmas no campo das Ciências Sociais na atualidade.
Objetivos
Debater o conceito de Estigma Social;
Identi�car as consequências dos processos de estigmatização;
Relacionar estigma, etnocentrismo, estereótipo, preconceito e discriminação.
Estigma social
Já sabemos a relevância de Goffman para a de�nição de Estigma Social. Vamos, agora, aprofundar nosso conhecimento
acerca desse conceito.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
Na década de 1980, avançaram os estudos e as pesquisas
que buscavam reconhecer o papel da cultura e da sociedade
como essencial na construção dos Estigmas.
Um dos trabalhos que se destacam neste campo é o de
Becker e Arnold, Stigma as a social and cultural constructo,
de 1986. Nessa obra, os autores consideram em suas
análises os fatores econômicos, políticos e sociais, ou seja,
toda a estrutura da sociedade e sua organização para
pensar a questão dos Estigmas.
Além disso, os autores relacionam estrutura social e sistema de crenças para de�nir as relações de poder na sociedade, o que
para eles é de suma importância, pois quem detém o poder, determina as normas, os valores e impõe suas regras, ou seja,
exerce o controle social.
Becker e Arnold (1986) compreendem, com Goffman, a construção social do Estigma e a ideia de uma relação física entre
quem estigmatiza e é estigmatizado. Contudo, trazem novos elementos em suas análises.
Sobre este ponto é importante mencionarmos que Goffman pensa Estigma a partir da relação física entre os denominados
“normais” e os estigmatizados. Para ele, a interação “face a face” afeta mutuamente as ações dos indivíduos.
Dessa forma, existem para ele diferentes maneiras de a pessoa estigmatizada lidar com um estado de estigmatização:
O indivíduo pode ser indiferente, pode
buscar tentar reverter seu quadro, pode
se tornar autoisolado, inseguro e/ou
agressivo etc. 
Em contraposição, existem aqueles que
são estigmatizados e que não se
“arrependem” ou querem viver de acordo
com as normas dominantes, pois se
sentem “normais” e consideram os ditos
“normais” estranhos.
Goffman também acreditava que o estigmatizado, ao lidar com indivíduos que não o respeitassem, pudesse, em algumas
circunstâncias, buscar “corrigir” o que seria o seu defeito. Esse indivíduo estaria disposto à vitimização para isso. Outras
pessoas, segundo ele, preferem tentar dominar áreas que seriam conhecidas como restritas a pessoas com seus atributos,
seja por questões físicas ou circunstanciais.
 Conceito de Estigma segundo outros autores
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Ainlay, Coleman e Becker (1986) retomam a ideia do Estigma como algo que não é inerente ao ser humano, mas uma
construção social, e trazem uma grande contribuição sobre como os Estigmas são transmitidos.
Segundo eles, as emoções e as crenças que de�nem um Estigma para um indivíduo podem ser propagadas por
gerações, uma após a outra. É provável que o Estigma acompanhe a vida das pessoas. Contudo, sempre existe chance
de mudança sobre o olhar dessa pessoa para esse Estigma ao longo da vida. Em geral isso se dá quando se tem
contato com algum familiar ou alguém de relação próxima que tenha experimentado o processo de estigmatização.
Neste trabalho, assim como Becker e Arnold (1986), eles também apresentam uma preocupação com os impactos
que o processo de estigmatização pode causar no indivíduo. E mais uma vez trazem a questão das relações de poder
ao argumentar que pessoas e/ou grupos que possuem menos poder passam a sentir um senso de superioridade ou
poder sobre aqueles que são estigmatizados pela sociedade. Portanto, nos dois trabalhos o Estigma envolve o
exercício do poder de pessoas e grupos uns sobre os outros.
Mas os autores também trazem uma nova vertente para esta abordagem acerca dos impactos nos processos de
estigmatização, para além dos efeitos negativos nos indivíduos e/ou grupos sociais. Eles discutem a possibilidade do
desenvolvimento de um caráter coletivo e menos individual para o processo. Esse fator dependeria da natureza do
Estigma e de elementos como status social, educação, classe etc. Mas poderia ocorrer, por exemplo, através de
movimentos sociais e de organizações políticas.
Somos muitos e muitas e somos diversos. Existem múltiplas culturas coexistindo todos os dias em diversas partes do
mundo. Será que as diferenças existentes entre todas as pessoas e/ou grupos são consideradas signi�cativas
cotidianamente? Ou seja, será que demarcamos nossas diferenças, ou na maior parte do tempo as ignoramos? Na
verdade, o convívio social nos faz tornar relevantes essas diferenças, que na maior parte das vezes iríamos considerar
irrelevantes. Essa argumentação faz parte das ideias defendidas por Link e Phelan que a�rmam: “as diferenças dos
seres humanos são socialmente selecionadas” (LINK; PHELAN, 2001).
A partir desta concepção sobre como as sociedades lidam com as diferenças, esses autores desenvolveram uma linha
de pensamento que parte dos estudos de Goffman e do conceito de Estigma, mas ampliam-no ao relacioná-lo com o
poder, e trazem novos elementos conectados a ele, como a ideia de rotulação, estereotipização, separação, perda de
status e discriminação. Todos esses elementos estariam ligados a uma relação de poder que permitiria ou autorizaria
estes processos.
Segundo Link e Phelan (2001), um destes processos consiste em determinar um atributo e empregá-lo em alguém,
sem que necessariamente a pessoa tenha essa característica. Para eles, assim se daria a rotulação de alguém; e a
partir dos rótulos conferidos a indivíduos estigmatizados seriam criados estereótipos. Portanto, haveria um efeito em
cadeia, na qual todos esses fatores estariam conectados e “o rótulo liga uma pessoa a um conjunto de características
desagradáveis que formam o estereótipo” (LINK; PHELAN, 2001). Importante mais uma vez destacar a relevância das
relações de poder para o exercício desta rotulação.
Assim como Goffman, os autores também trabalham com a divisão de dois grupos que chamam de “nós” e “eles”, em
que os primeiros correspondem ao que Goffman denominou de “normais”, ou seja, aqueles que expressam a ideologia
dominante da sociedade, e o “eles” são os indivíduos que recebem rótulos negativos, que seriam chamados por
Goffman de estigmatizados.
Portanto, as pessoas são estigmatizadas quando relacionadas a características indesejáveis, o que lhes coloca um
rótulo negativo e as discrimina. Além disso, Link e Phelan (2001) defendem que todo este processo de rotulação
também leva a uma discriminação na hierarquia social em que o indivíduo vive, o que signi�ca perda de status. Assim,
haveria uma ligação direta entre rotulação, perda de status e discriminação.
Ao apresentarmos estes novos conceitos que se conectam com os artigos e obras sobre Estigmas que dialogam
diretamente com Goffman, buscamos evidenciar que o conceito de Estigma estabelecido por ele na década de 1960, já
não é mais su�ciente para esgotar a compreensão e as análises que envolvem estigmatização no campo das Ciências
Sociais.
A despeito das diferenças nas abordagens de cada autor, todas consideram
o Estigma sob o ponto de vista do contexto histórico, social e cultural.
Portanto, estes seriam elementos primordiais para a construção do Estigma.
Saiba mais
Leia o artigo Goffman e os conventos: uma análise do �lme "As irmãs de Madalena", de Marina Grandi Giongo.
A análise proposta recai sobre o �lme "As irmãs de Madalena", e tem por objetivo pensar a condição feminina ao longo do
século XX à luz das obras de ErvingGoffman. O estigma que recai sobre as mulheres mantidas em cárcere privado nas
instituições totais chamadas "Lares Madalena", é um caso emblemático do que se convencionou chamar processos de
"morti�cação do eu" trabalhadas pelo autor. À guisa de conclusão, é possível perceber que, no interior dos mecanismos dessa
instituição religiosa, existe um perverso jogo de poder entremulheres exploradas e toda uma sociedade que trata essa situação
como fruto de uma suposta doutrina espiritual.
Etnocentrismo, estereótipos, estigmas, preconceito e discriminação
Mencionamos na primeira parte de nossa aula que os Estigmas estariam conectados a uma rede que envolveria também
etnocentrismo, estereótipos, preconceito e discriminação.
Algumas dessas palavras fazem parte do nosso cotidiano e temos maior familiaridade com elas. Outras, nem tanto. De toda
forma, todas elas representam conceitos importantes trabalhados no campo das Ciências Sociais e que iremos desenvolver
brevemente agora.
Etnocentrismo
Na aula anterior, discutimos cultura.
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Lembra-se de que perguntamos se todos tinham cultura? Qual seria a
de�nição de cultura?
Resgatamos estas questões porque etnocentrismo está
associado, justamente, a essas indagações, pois consiste
em um julgamento que estabelece como “normal” e/ou
certo um determinado padrão cultural.
Se existe uma cultura “normal” existem outras que são
“anormais”. Este julgamento e esta forma de ver o mundo e
outros povos desquali�cam valores, práticas, costumes,
crenças e podem até negar a humanidade de alguns grupos
sociais.
Estereótipo
Estereotipar signi�ca atribuir um valor negativo para os
atributos de uma pessoa e/ou um grupo e a partir dele
determinar as posições de poder.
Estereótipo envolve generalizações de julgamentos
subjetivos, comumente associados no Brasil a questões de
gênero, orientação sexual e regionalidade. Eles também
abrangem tentativas de biologizar as características de um
grupo, ou seja, torná-las um fator único da anatomia.
Essa tentativa de naturalização ou de biologização, tanto
nas questões de gênero, orientação sexual e de raça,
marcou os debates das Ciências Sociais nos séculos XIX e
XX e foi responsável, dentre outras coisas, por restringir
direitos civis e políticos a negros, mulheres e homossexuais.
Qual é a relação do estereótipo com a questão dos direitos?
Até o início do século XX, por exemplo, uma das justi�cativas para as mulheres não exercerem o direito ao voto em muitos
países foi o argumento de que teríamos o cérebro menor e menos desenvolvido.
Exemplo
Um exemplo mais atual da relação do estereótipo e os direitos são as restrições que homossexuais sofrem em diversos países,
como no Brasil, para adoção, para reconhecimento de união civil estável, para compra de propriedade conjunta etc.
Preconceito
Quando falamos sobre o Brasil, Etnocentrismo, estereótipo e preconceito se fundem nas questões relacionadas aos negros e
negras de nosso país e suas tradições.
Algumas práticas religiosas sofrem preconceito por terem
relação com a história dos negros e negras de nossa
sociedade, grupos historicamente marginalizados e
perseguidos pelo cristianismo europeu.
O fato é que ainda hoje o preconceito relativo às práticas
religiosas afro-brasileiras está profundamente arraigado em
nossa sociedade e tem gerado casos graves de ataques a
terreiros e a seus líderes.
 Fonte: Wikipedia
Exemplo
Por exemplo, o sacrifício animal, que para algumas crenças afro-brasileiras representa uma forma especí�ca de contato com o
divino, com os deuses - nesses casos, os orixás -, no ritual de oferenda, é considerado por muitos sinônimo de barbárie. As
religiões de matriz africana, como o candomblé e umbanda, têm suas práticas classi�cadas como erradas” e “bárbaras”, ou
como “feitiçaria”, a partir de uma visão Etnocêntrica que reconhece como “certas” apenas as práticas religiosas de
determinadas crenças.
Saiba mais
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Leia os artigos:
Terreiros: entre a intolerância religiosa e a resistência diária;
Menina vítima de intolerância religiosa diz que vai ser difícil esquecer pedrada.
Discriminação
As questões de gênero, raça/etnia ou orientação sexual, e suas combinações, acabam levando a práticas de preconceito e
discriminação no Brasil. Nesse ponto, é importante registrarmos algumas diferenças.
Se estereótipo e preconceito, que circulam no campo dos julgamentos
negativos, são as ideias preestabelecidas, a discriminação é
necessariamente um ato.
Discriminação signi�ca a ação de negar acesso, oportunidades, visibilidade. Nesse sentido, omissão e invisibilidade, termos e
discussões tão atuais, também constituem atos de discriminação.
Exemplo
Cenas como a apresentada a seguir, infelizmente, são comuns no nosso cotidiano.
Nesse processo, cada grupo social tende a buscar, frente aos demais, sua representação. Essa seria uma forma de se
a�rmar socialmente e ela inclui uma comunicação, uma linguagem, uma maneira de nos expressarmos, de
apresentarmos quem somos individual e coletivamente.
Esse processo é extremamente relevante, pois estamos sempre sujeitos ao reconhecimento do outro. Essa é uma
necessidade humana, pois só existimos na vida em sociedade.
 Fonte: Unsplash
Além disso, as sociedades contemporâneas são cada vez mais heterogêneas. Cada vez mais compostas por grupos distintos
tanto de classes, quanto de identidades. São múltiplas as identidades culturais, de gênero, de raça/etnia, de orientação sexual,
religiosa. E essas identidades vivem em constante contato e con�ito. Grande parte destes con�itos está relacionada às
imagens que construímos para alguns indivíduos e/ou grupos. Esse processo tem início com a rotulação, estigmatização, mas
termina em casos graves de discriminação.
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No caso do Brasil, é importante identi�carmos que grupos
são esses. Quando falamos em marginalizados, rotulados,
estigmatizados e discriminados em nosso país, precisamos
contextualizar em uma estrutura social, política e
econômica. Isso signi�ca reconhecer a história do Brasil e
das relações de poder que aqui se estabeleceram.
Assim, conseguimos reconhecer que os grupos a que nos
referimos são os negros, as mulheres, os nordestinos, a
população LGBT, os moradores de favela e de rua e todas as
chamadas minorias políticas em nosso país. Esses são
temas de grande relevância na Sociologia brasileira.
Estigma, notas sobre a manipulação da identidade deteriorada
Atualizar a teoria dos Estigmas de Irving Goffman a partir dos Estudos
Culturais é de suma importância para que possamos continuar trabalhando
com o conceito construído pelo autor, porém de forma ética.
Neste sentido, propomos uma análise crítica a partir de trechos do livro Estigma,
notas sobre a manipulação da identidade deteriorada (Goffman, 1975), em diálogo
com as postulações realizadas pelos próprios grupos considerados por ele como
estigmatizados, mas que recusam sistematicamente a essencialidade da
condição de inferioridade imposta a eles.
Esses grupos sociais considerados minoritários constroem contra-discursos que
se contrapõem a essa essencialização do estigma.
Goffman (1975) a�rma que existem três tipos de Estigmas, nitidamente diferentes. Vamos analisar alguns termos utilizados
pelo próprio autor para problematizá-los, com base nas construções dos grupos considerados por ele como estigmatizados.
 Fonte: Freepik
“As abominações do corpo”
Nesta expressão utilizada por Goffman, estão incluídas as várias de�ciências
físicas, que podem marcar a pessoa desde o seu primeiro contato visual ou que
podem aparecer em determinado momento a depender da visibilidade do local em
que esteja a de�ciência.
Para os termos como “abominações no corpo”, temos como resposta a Teoria
Crip, que se propõe a problematizar, historicizar e questionar a norma capacitista
frente ao corpo com de�ciência.
De acordo com Anahí de Mello (2016), antropóloga, surda e grande referência da Teoria Crip no Brasil, essa perspectiva de
estudos sobre a de�ciência é construída ao lado da Teoria Queer.
Enquanto o principal axioma da teoria queer postula que a sociedade contemporânea é regida pela heteronormatividade, na
teoria crip, sua máxima se sustenta pelo postulado da corponormatividade de nossa estrutura social pouco sensível à
diversidadecorporal (Mello, 2016).
 Sobre De�ciência
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Como exercício, propomos pensar, antes de conceber o corpo normativamente capacitado como normal e adaptado
ao mundo, que o que ocorre é que o mundo é adaptado a determinados corpos e construído a partir de muitas
técnicas que fazem com que estes corpos – e não outros – possam circular pelos espaços livremente.
Toda a técnica de subir escadas é desenvolvida para seres humanos que: tenham pés, movam os joelhos, movam a
parte debaixo da cintura sem ajuda de outros instrumentos, tenham olhos e visão – ainda que esta seja com ajuda de
instrumentos. Subir escadas em uma segunda-feira ordinária não deixa esses seres, que possuem o biótipo adequado
para tanto, perceberem que tal gesto se trata de uma fundamental interdependência que vai desde as regras
estabelecidas e interiorizadas de como subir degraus – mecanismo que nos causa estranhamento ao ver o delinear de
tais regras em um manual literário como o que Cortázar nos apresenta – até a construção de escadas que depende de
um trabalho em conjunto com regras matemáticas de Engenharia civil, projetos e muito trabalho humano.
Portanto, corpos normativamente capacitados ou corpos com de�ciência, de uma forma ou de outra, estamos
todos/as em relações de interdependência.
Saiba mais
Sobre o assunto sugerimos o �lme de Astra Taylor – “A Vida Examinada” (2008), em especial a parte em que temos um
diálogo e um caminhar em conjunto de Judith Butler e Sunara Taylor. A VIDA EXAMINADA. Dir.: Astra Taylor. Estados Unidos.
Documentário, 2008.
“Culpas de Caráter Individual”
Tais “culpas”, segundo Goffman, são percebidas como
“vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais, crenças
falsas e rígidas, desonestidade” (Goffman, 1975, p. 07).
 Fonte: Unsplash
Exemplo
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Como exemplos das culpas de caráter individual, Goffman menciona o distúrbio mental, prisão, vício, alcoolismo,
homossexualismo (sic), desemprego, tentativas de suicídio, comportamento político radical.
Sobre a homossexualidade, a Teoria Queer pode ser considerada pioneira na proposta de reivindicar a potência de uma
identidade estigmatizada e questionar a hegemonia da heterossexualidade compulsória, ou seja, forjada historicamente por
meio de relações de poder.
Tanto a Teoria Queer (a tradução poderia ser Teoria Bicha/Sapatão) quanto a Teoria Crip (cuja tradução seria Teoria Aleijada)
assumem termos, que foram criados como insultos, para reverter o estigma – utilizando o conceito de Goffman – em uma
identidade coletivamente potente.
É a utilização subversiva do insulto aquela que pode transformá-lo.
Segundo Butler:
“Não existe nenhuma forma de contestar esses tipos de
gramáticas a não ser habitá-las de maneira que produzam
nelas uma grande dissonância, que ́digam ́ exatamente
aquilo que a própria gramática deveria impedir”.
- (Butler, 2002, p. 159)
Paul B. Preciado (2011, p. 19-20) completa a respeito:
“Assim, por exemplo, sapatão deixa de ser um insulto
pronunciado por sujeitos heterossexuais para marcar as
lésbicas ‘abjetas’, e converte-se posteriormente em uma
denominação contestatória e produtiva de um grupo de
‘corpos abjetos’ que pela primeira vez tomam a palavra e
reclamam a sua própria identidade.”
- (Paul B. Preciado, 2011, p. 19-20)
Comentário
O termo “homossexualismo” utilizado por Goffman é considerado ultrapassado e discriminatório, pois o su�xo “ismo” é aplicado
para se referir às diversas patologias. Por isso, o termo eticamente correto é “homossexualidade”. Isso porque, há mais de vinte
anos (desde 1993), a OMS - Organização Mundial de Saúde, na 10ª edição da Classi�cação Internacional de Doenças (CID 10)
– não considera homossexualidade como doença mental. Segundo o DSM III – Manual de Diagnóstico e Estatística das
Perturbações Mentais, publicado pela American Psychiatric Association – a homossexualidade deixou de ser considerada
perversão e passou a ser designada como estilo de comportamento.
Saiba mais
Para saber mais sobre o assunto, sugerimos a leitura do clássico “Problemas de Gênero”, de Judith Butler.
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
 Fonte: Wikipedia
Estigmas Tribais de Raça, Nação e
Religião
Nesta última classi�cação, Goffman traz o estigma para
culturas diferentes da ocidental e propõe que estas
características, que para ele são consideradas estigmas,
seriam transmitidas por meio de linhagem.
Saiba mais
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Sobre as questões raciais e de gênero em sua interceccionalidade, apontamos o feminismo negro com Angela Davis (DAVIS,
Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016), que mostra como a experiência das mulheres e homens negros
marcadas pela tragédia da escravidão foi responsável por estigmatizar a desigualdade e subjugar de forma ainda mais violenta
a mulher negra. Portanto, o estigma, a que se refere Goffman, muito mais se refere às relações de violência a que foi submetida
uma raça por mais de trezentos anos, que às relações de estigmas descritas por Goffman; ou ao menos, não é possível tratar
destes estigmas sem antes contextualizar a escravidão sistemática de uma raça.
Conclusão
É interessante a�rmarmos que não se trata aqui de desquali�car toda a construção de Goffman sobre os Estigmas, mas de
apontar uma importante crítica para o movimento que ele faz de trazer uma essência, uma universalidade, para o estigma e
para a normalidade.
É importante que seja levado em consideração o processo histórico e social
que faz com que determinados grupos sejam considerados normais,
enquanto outros sejam subjugados no lugar do Estigma.
Não é que não existam os Estigmas, muito bem conceituados por Goffman, é que, compreendendo-os, não devemos reforçá-
los, mas historicizá-los.
Concluindo, os estudos sobre Estigmas, que dialogam diretamente com Goffman e o conceito de Estigma
estabelecido por ele na década de 1960, já não é mais su�ciente no campo das Ciências Sociais da atualidade para
esgotar a compreensão e as análises que envolvem estigmatização.
 Fonte: Unsplash
Mais uma vez, destacamos seu pioneirismo ao trabalhar o conceito a partir de uma perspectiva interacionista, voltada para a
abordagem da construção social e simbólica.
No entanto, conforme dissemos, é preciso localizar espacialmente e temporalmente e, nesse sentido, hoje existem críticas
importantes a serem feitas a sua produção, bem como a elementos que foram desconsiderados em suas análises como a
ideia de aprendizagem social, desvio etc.
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Atividades
1) Ao compararmos uma cultura com outra, muitas vezes temos um comportamento etnocêntrico. Explique o que é
etnocentrismo e por que podemos dizer que os personagens abaixo estão tendo uma postura etnocêntrica.
2) Observe o trecho a seguir, da música Música “Lôrabúrra” de Gabriel, o Pensador:
“Existem mulheres que são uma beleza. Mas quando abrem a boca...hummm...que tristeza! Não, não é o seu hálito que apodrece
o ar. O problema é o que elas falam que não dá pra aguentar. Nada na cabeça, personalidade fraca. Têm a feminilidade e a
sensualidade de uma vaca. Produzidas com a roupinha da estação. Que viram no anúncio da televisão. Milhões de pessoas
transitam pelas ruas, mas conhecemos facilmente esse tipo de perua. Bundinha empinada pra mostrar que é bonita e a cabeça
para�nada pra �car igual paquita. Lôrabúrra! Lôrabúrra! Lôrabúrra! Lôrabúrra! Lôrabúrra. Ordem e Progresso, sua b... é um
sucesso. Lôrabúrra!”
A partir do trecho da música “Lôrabúrra”, é possível observar:
a) Uma atitude preconceituosa contra as mulheres brasileiras.
b) Trata-se de um estereótipo discriminatório contra as mulheres que cuidam de seu corpo em academias e que se vestem bem.
c) Trata-se de uma música que critica a etnia loira brasileira.
d) Gabriel, o Pensador, ao compor esta música, contribuiupara criar um estereótipo.
e) Nenhuma das respostas acima.
3) Observe as charges a seguir.
Desenvolva um pequeno texto para cada charge, relacionando-as com os conceitos trabalhados na aula.
Notas
Referências
AINLAY, S. C.; BECKER, G.; COLEMAN, L. M. A. Stigma reconsidered. In: Ainlay, S. C.; Becker, G.; Coleman, L. M. A. (Ed), The
Dilemma of Difference (1-13). New York: Plenum, 1986.
BECKER, G.; ARNOLD, R. Stigma as a social and culture construct. In AINLAY, S. C.; BECKER, G.; COLEMAN, L. M. A. (Ed.), The
Dilemma of Difference (39-76). New York: Plenum, 1986.
PRINS, Baukje; MEIJER, Irene Costera. Como os Corpos se Tornam Matéria: entrevista com Judith Butler. Revista Estudos
Feministas. vol. 10, nº 1, Florianópolis, Jan. 2002. Disponível aqui. Acesso em 13 ago. 2019.
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2013.
CASAES, N. R. R. Estigma. (2007). Em Suporte Social e vivência de estigma: um estudo entre pessoas com HIV/AIDS.
(Dissertação mestrado). Faculdade de Filoso�a e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador.
GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes (Trad.).
Rio de Janeiro: LTC, 1975.
LINK, B. G.; PHELAN, J. C. Conceptualizing stigma. Annual Review of Sociology. New York, (27), 363-385. Disponível aqui.
Acesso em 11 ago. 2019.
MELLO, Anahí Guedes. De ciência, incapacidade e vulnerabilidade: do capacitismo ou a preeminência capacitista e biomédica
do Comitê de Ética em Pesquisa da UFSC. Ciência & Saúde Coletiva, 21 (10):3265-3276, 2006.
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PRECIADO, P. Paul. Mani�esto Contrassexual. 2. ed. Barcelona: Anagrama, 2011.
Próxima aula
História da Sociologia brasileira e suas diferentes fases de institucionalização;
Principais teóricos e intelectuais de referência e suas obras em cada uma destas fases.
Explore mais
Leia sobre os movimentos que problematizam a rei�cação da identidade e o estigma em De ciência, incapacidade e
vulnerabilidade: do capacitismo ou a preeminência capacitista e biomédica do Comitê de Ética em Pesquisa da UFSC, de Anahí
Guedes Mello, na revista Ciência & Saúde Coletiva, 21 (10): 3265-3276, 2016.
Leia os artigos:
O Brasil é o país com mais mortes defensores de direitos humanos e ambientais;
Discriminação social, racial e de gênero no Brasil.
Teorias da Interação Social
Aula 9: Dos interacionistas de Chicago a Sociologia brasileira
Apresentação
Nesta aula, vamos conhecer de que forma a Escola de Chicago e seus teóricos contribuíram para o desenvolvimento das
Ciências Sociais no Brasil, principalmente a contribuição teórica e o diálogo de Erving Goffman e Howard Becker e o
interacionismo simbólico que vimos nas aulas anteriores.
Nossa proposta é conhecermos o início e a expansão dos estudos sociológicos no País, a �m de entendermos de maneira
mais aprofundada esta relação com os interacionistas. Para isso, falaremos sobre a formação e institucionalização da
Sociologia brasileira, apresentando seu percurso histórico, instituições de referência e os principais teóricos em cada fase
de desenvolvimento desta ciência no país.
Objetivos
Relatar a história da Sociologia brasileira;
Identi�car as diferentes fases do desenvolvimento e da institucionalização das Ciências Sociais no país;
Nomear os teóricos e intelectuais de referência e suas obras em cada fase de desenvolvimento da ciência no país;
Sociologia: quatro autores e uma ciência
Falar em Sociologia, em qualquer parte do mundo, signi�ca falar de Comte, Durkheim, Marx e Weber.
Esses quatros pensadores, cada um em seu tempo, contribuíram para analisar os grandes desa�os da modernidade,
compreender a vida em sociedade, suas estruturas, redes e ligações. Ou seja, responder, por exemplo, o que unia os grupos
sociais, mas também o que causava a desintegração social; entender a estrutura em que estes grupos se formavam e como se
relacionavam. Estas eram algumas das preocupações que orientaram os estudos desses precursores da Sociologia mundial e
que tornaram o pensamento desses autores a base desta ciência. Apresentamos a seguir uma síntese do seu pensamento.
Clique nos botões para ver as informações.
Em um curso organizado a partir da obra Curso de Filoso�a Positiva, Comte utilizou pela primeira vez a palavra
Sociologia. Foi a partir daí que surgiu a referência a Comte como pai da Sociologia e do positivismo.
Segundo o autor, ao longo da História, a sociedade teria passado por três grandes fases: a teológica, a metafísica e a
positiva (Lei dos Três Estados). O Positivismo, doutrina que ele desenvolveu, caracteriza-se por considerar o saber
cientí�co (positivo) superior ao saber �losó�co, e todos acima do religioso.
Inspirado nas Ciências Naturais, ele buscava tratar os fenômenos sociais recentes a partir de modelos hipotéticos e
experimentais e identi�cava leis universais e causas para estes “fenômenos humanos”. Assim, ele acreditava que a
sociedade funcionava como um organismo, no qual cada parte tem uma função especí�ca, contribuindo para o
funcionamento do todo.
Importante mencionar a ideia de Ordem e Progresso no pensamento de Comte. O autor acreditava que a sociedade
precisava passar por mudanças morais e a Sociologia representaria a junção entre a ordem da sociedade e o progresso.
Auguste Comte 
1
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Foi com David Émile Durkheim que a Sociologia passou a ser considerada uma ciência, pois ele sistematizou, ou seja,
organizou as diretrizes sociológicas, propondo um método de estudo. Foi o criador da Escola Sociológica Francesa,
de�nindo como objeto da Sociologia os fatos sociais.
Defendia que os problemas sociais vividos pela sociedade europeia eram de natureza moral e não de fundo econômico.
Sua teoria girava em torno da ideia principal de que a sociedade (objeto) é superior ao indivíduo (sujeito). Ele entendia que
a sociedade predomina sobre o indivíduo, uma vez que ela é que impõe a ele o conjunto das normas de conduta social. A
�m de explicar esta relação, formulou a metodologia funcionalista, ou seja, os fatos sociais (ou as maneiras padronizadas
como agimos na sociedade) não existem por acaso: existem porque cumprem uma função.
O interesse cientí�co durkheimiano era inteiramente voltado para a compreensão do funcionamento das chamadas
formas padronizadas de conduta e pensamento, de�nidas por ele como consciência coletiva.
David Émile Durkheim 
A obra de Marx se estrutura a partir do con�ito que ocorre entre duas classes sociais fundamentais da sociedade
capitalista: a burguesia versus o proletariado. Segundo ele, as relações sociais de produção de�nem a formação desses
dois grandes grupos e “a história de todas as sociedades que existiram até os nossos dias tem sido a história da luta de
classes” (MARX; ENGELS, 1999, p. 07).
Marx utilizou o método dialético para explicar as mudanças importantes ocorridas na história da humanidade através dos
tempos. Assim, desenvolveu uma concepção materialista da História, a�rmando que o modo pelo qual a produção
material de uma sociedade é realizada, constitui o fator determinante da organização política e das representações
intelectuais de uma época.
Karl Marx 
2
A partir da década de 1920, as teorias de Weber exerceram grande in�uência sobre as Ciências Sociais. Uma de suas
obras mais famosas A ética protestante e o espírito do capitalismo (1905) buscou apresentar a ligação entre a ética
protestante e a ascensão do Capitalismo.
Centrou suas análises nos atores sociais e em suas ações. Para ele, a Sociologia deveria estudar o sentido da ação
humana individual, que deve ser buscado pelo método da interpretação e da compreensão. Weber preocupa-se ainda com
a responsabilidade social dos cientistas sociais e defendia a busca da neutralidadena vida acadêmica e na investigação
cientí�ca. Por isso ele de�ne como objeto de estudo da Sociologia a ação social.
Max Weber 
3
Nosso objetivo com esta breve apresentação de cada um dos
pensadores, cuja obra foi determinante para a origem da Sociologia,
foi trazer para esta aula um pequeno panorama do surgimento e da
institucionalização do pensar e do pesquisar nas Ciências Sociais.
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Essa base de pensamento, essa estrutura teórica, ainda permeia e sustenta grande parte desta ciência nos dias atuais.
Portanto, é extremamente relevante conhecermos tais autores e a estrutura do pensamento deles para compreendermos como
se alicerçou a Sociologia no mundo e no Brasil.
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A Sociologia no Brasil
A �m de compreendermos as diferentes fases e in�uências no campo sociológico brasileiro, vamos trabalhar nesta aula com
uma divisão deste campo em cinco etapas.
Primeira etapa – Pioneirismo da Sociologia
Nesta primeira etapa, que trata do pioneirismo da Sociologia do país, ocorreu de
meados do século XIX ao início do século XX.
Conforme vimos anteriormente, a França foi berço da Sociologia, pois lá nascia o
positivismo Comtiano. Dessa forma, por in�uência do positivismo francês,
surgiram neste período os primeiros estudos tidos como “sociológicos” no Brasil.
 Auguste Comte (Fonte: Wikipedia).
Destacaram-se neste cenário os autores que, muitas vezes, trouxeram de forma destoante a questão da raça e o problema
imigratório como solução para o desenvolvimento da nação, como:
Batista Lacerda (1846-1915);
Nina Rodrigues (1862-1905);
Euclides da Cunha (1866-1909);
Oliveira Vianna (1883-1951);
Manoel Bon�m (1868-1932);
Alberto Torres (1865-1917); e
Roquette-Pinto (1884-1950)
Saiba mais
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Para saber mais sobre este assunto, leia “As Ilusões da Liberdade: a escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil”, de Mariza
Corrêa.
Segundo o comentário de Peter Fry:
“[...] Neste livro, a autora, na melhor tradição da Antropologia, prefere evitar julgamentos anacrônicos para apresentar e
compreender as obras escritas e o trabalho institucional de Nina Rodrigues no contexto social e político em que ele viveu. A
autora examina a vasta obra deste cientista que morreu com apenas 44 anos, em 1906, para revelar que tanto detratores quanto
discípulos tinham um pouco de razão, mas que há muito mais a dizer sobre o professor Nina Rodrigues. [...] Mariza Corrêa nos
leva pela luta de Nina Rodrigues para estabelecer a medicina legal como disciplina acadêmica e pelos meandros daquilo pelo qual
ele seja talvez mais lembrado, isto é, seu polêmico trabalho sobre raça e sua condenação da mestiçagem [...]”.
Disponível aqui. Acesso em: ago. 2019.
 Escola do Recife
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Tratando ainda das premissas da Sociologia no Brasil, outros nomes que não podemos deixar de mencionar são os de
Sylvio Romero (1851-1914) e de Tobias Barreto (1839-1889).
Estes autores �zeram parte da chamada Escola de Recife que, segundo Souto Maior (2003), foi fundamental para a
institucionalização da Sociologia no país. Ainda segundo Souto Maior (2003), a presença de Tobias Barreto, o clima
intelectual da Faculdade de Direito e a divulgação das ideias positivistas teriam sido os grandes responsáveis por este
destaque assumido pela Escola de Recife na difusão de novas ideias.
A verdade é que a Escola do Recife somente nasceu e adquiriu a importância que teve porque em Pernambuco
aportou, no início da década de 1860, um mulato sergipano genial chamado Tobias Barreto. Tivesse Tobias ido estudar
em São Paulo ao invés do Recife, é quase certo que hoje teríamos uma ‘Escola de São Paulo’ e não uma ‘Escola de
Recife’ (SILVA apud CAMPOS, 2007).
Com isso, queremos mostrar que a Sociologia nesse momento era fortemente in�uenciada pelo positivismo comtiano
e ao mesmo tempo se debruçava sobre uma tentativa de leitura da população brasileira. Como exemplo podemos citar
artigos de Silvio Romero que remontam a este período intitulados: “O Brasil social e outros estudos sociológicos” e “O
evolucionismo e o positivismo no Brasil”.
Saiba mais
Para saber mais sobre os autores Silvio Romero e Tobias Barreto, acesse:
https://www.ebiogra�a.com/silvio_romero/
//www.academia.org.br/academicos/tobias-barreto/biogra�a
Segunda etapa – Institucionalização da Sociologia
Mas, foi a partir das décadas de 1920 e 1930 que a Sociologia brasileira adquiriu
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maior notoriedade e expressividade. Esse período é o que podemos denominar de
segunda etapa ou de institucionalização da Sociologia.
Nesse período, despontava o interesse em compreender e pesquisar a formação
da sociedade brasileira, a partir de estudos sobre temas como escravatura e a
abolição, índios e nossa colonização.
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É importante pensarmos sobre o cenário brasileiro daquele momento.
O país passava por um processo de urbanização, o que vinha gerando uma nova dinâmica e tipos sociais, que passavam a
in�uenciar diretamente a análise que era feita sobre a sociedade brasileira. A explicação para esses fenômenos ganhava novos
contornos. Estas novas formas de pensar e estudar a sociedade brasileira transformaram-se no que pode se chamar de uma
nova “mentalidade cientí�ca e �losó�ca”.
 Manifestação a favor de Getúlio Vargas ao final do Estado Novo, em 21 de agosto de
1945 (Fonte: Wikipedia).
Terceira etapa – Perseguições políticas
A partir de meados da década de 1940, a produção
sociológica brasileira inicia o que consideramos sua terceira
etapa, que foi fortemente marcada pelas perseguições
políticas sofridas por intelectuais e cientistas durante os
períodos de governos autoritários do país.
Muitas dessas �guras foram banidas ou tiveram que fugir
do país no período do Estado Novo e da ditadura civil-
empresarial-militar, o que in�uenciou diretamente as
atividades de ensino e pesquisa em Sociologia nesses
tempos.
Contudo, houve uma brecha entre esses governos autoritários, entre os anos
1950 e 1960, que possibilitou a expansão de atividades político-ideológicas
e criaram condições mais favoráveis para a Sociologia.
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Segundo Costa Pinto (1953), destacavam-se como temas de interesse das Ciências Sociais a questão das relações étnicas (o
negro, o índio e o branco colonizador), estudos e análises regionais, com ênfase na Sociologia rural e urbana.
Além disso, tinha lugar de relevância na produção sociológica nesse momento a elaboração de materiais para as chamadas
escolas secundárias e também as discussões envolvendo teoria e método das Ciências Sociais.
Comentário
Falarmos sobre a Sociologia dos anos 1950 e 1960 e de toda sua efervescência implica em mencionarmos a presença de
Florestan Fernandes na direção da “Escola de Sociologia Paulista” ou “Escola da USP”.
De acordo com Liedke Filho (1977), a Escola tinha uma abordagem particular sobre a Teoria da Modernização , ou seja.
Os anos 1950 ainda foram marcados também pela emergência do que se denominou uma “Sociologia Autêntica”. De cunho
nacionalista, essa vertente tinha sua maior expressão na obra de Guerreiro Ramos.
4
“A Sociologia Brasileira é em grande parte uma “sociologia
enlatada”, mas é preciso constituir uma consciência crítica da
realidade nacional”.
- Guerreiro Ramos
Esse período de expansão e de efervescência das Ciências Sociais entra em declínio no início da década de 1960, em razão das
medidas repressivas (cassações, prisões, exílios e desaparecimentos) do regime civil-empresarial-militar. Tais medidas
repercutiram na institucionalização e na pro�ssionalizaçãoque a Sociologia vivenciava no país.
Leitura
https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0157/aula9.html?brand=estacio
https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0157/aula9.html?brand=estacio
Recomenda-se a leitura do artigo Padrão e salvação: o debate Florestan Fernandes x Guerreiro Ramos, de Edison Bariani –
UNESP, Araraquara.
O artigo aborda o debate entre Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos e explicita as divergências quanto ao modo de conceber
a Sociologia: método, aplicação, condições de pesquisa e desenvolvimento no Brasil, apontando as diferentes ‘visões’ e
projetos para a ciência e para a nação.
Quarta etapa – Produção realizada fora do Brasil
Iniciava-se então o que podemos denominar de quarta etapa das Ciências Sociais no Brasil. Esse novo ciclo foi marcado pela
produção realizada fora do país, já que, conforme mencionamos, muitos intelectuais das Ciências Sociais foram “banidos” ou
tiveram que fugir do país neste período. No Brasil, ganhavam visibilidade alguns estudos desenvolvidos em instituições de
ensino superior e alguns institutos de pesquisa, com destaque para o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – CEBRAP.
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Saiba mais
Conheça o CEBRAP e suas pesquisas em andamento, acessando os seguintes acessando:
https://cebrap.org.br/institucional/
https://cebrap.org.br/pesquisas/
Nesse cenário, foi criado o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), pelo Decreto nº 37.608, de 14 de julho de 1955, outra
importante instituição que contribuiu para o campo das Ciências Sociais no país e gozava de autonomia administrativa e de
plena liberdade de pesquisa, de opinião e de cátedra.
Comentário
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O ISEB destinava-se à pesquisa em Ciências Sociais, e seus estudos deveriam ser voltados prioritariamente para re�exões
acerca da realidade brasileira. O objetivo era desenvolver teorias que auxiliassem no desenvolvimento nacional.
Sua origem remonta ao Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (IBESP), que fora criado em 1953 por um grupo
de intelectuais denominados “grupo Itatiaia”, dos quais �zeram parte �guras como Hélio Jaguaribe, Roland Corbisier, Rômulo de
Almeida, Cândido Mendes de Almeida, Inácio Rangel e Evaldo Correia Lima. Este instituto foi responsável por editar a revista
“Cadernos do Nosso Tempo” e organizar cursos e conferências em nível de extensão universitária.
Importante dizer que, neste período, havia duas grandes correntes intelectuais em disputa sobre a questão do desenvolvimento
nacional.
A primeira delas defendia que o país deveria manter como
principal motor o setor agrícola e importar os demais itens,
sendo contrária à indústria nacional.
Em oposição, havia os que eram favoráveis a um maior
incentivo à industrialização do país por meio de intervenção
do Estado na Economia.
O debate entre essas vertentes e a formulação de respostas para os problemas que a sociedade brasileira enfrentava nesse
momento foram determinantes para o surgimento de institutos como o IBESP, que daria origem ao ISEB.
 ISEB
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Os integrantes do ISEB buscavam ampliar a atuação e o debate do instituto, in�uenciando as decisões do poder
relativas à orientação do desenvolvimento brasileiro. Para isso, criaram um curso que incluía os departamentos de
Economia, Sociologia, Política, Filoso�a e História para alunos indicados por órgãos do serviço público, do Poder
Judiciário, das casas do Congresso e das forças armadas.
Desta forma, o ISEB se constituiu nesse período como um dos núcleos mais importantes do pensamento e estudos
sobre o “nacional-desenvolvimentismo”. Esses estudos eram bastante heterogêneos, mas os intelectuais que
integravam o instituto, como Hélio Jaguaribe, Cândido Mendes de Almeida, Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira Pinto,
Roland Corbisier e Nélson Werneck Sodré, tinham em comum o objetivo de pensar um projeto de desenvolvimento
econômico para o país.
O instituto foi extinto em 1964 pela ditadura civil-empresarial-militar pelo Decreto nº 53.884. Além disso, abriu-se um
inquérito policial/militar no qual foram arrolados diversos professores do instituto, deputados, ministros e até mesmos
os ex-presidentes Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart.
Vale a pena mencionarmos que, a despeito de toda perseguição, esses institutos e grande parte das pesquisas
realizadas nesse período estiveram direcionadas para a questão do regime de exceção e para estudos sobre
democracia.
Acerca desta quarta etapa da Sociologia no Brasil, é preciso dizer ainda que apesar de toda censura, da saída forçada
de muitos pesquisadores, da interrupção de estudos relevantes, a ciência não parou. Até o �m da ditadura
permaneceu-se produzindo e divulgando investigação sociológica.
Exemplo
Acerca das perseguições do período, podemos citar como exemplo a aposentadoria compulsória de Florestan Fernandes, que
perdeu sua cátedra de Sociologia na USP e foi lecionar na Universidade de Toronto. Houve também o exílio no Chile e também
na França, de Fernando Henrique Cardoso e Herbert de Sousa por diversos países da América Latina.
Esses são apenas algumas �guras ilustres da Sociologia que estiveram nesta situação, mas muitos professores e intelectuais
estiveram nestas condições. Além disso, tiveram suas obras censuradas e suas pesquisas interrompidas.
Quinta etapa – Redemocratização
As Ciências Sociais sofrem uma nova guinada, no que diz respeito a sua organização, institucionalização e a tônica de suas
pesquisas, no período de nossa redemocratização, no �nal da década de 1980.
Em grande medida, essa reviravolta estava relacionada à emergência de novos
atores sociais em cena: movimentos sociais se reorganizando e a sociedade civil
apresentando demandas até então silenciadas, como, por exemplo, a questão
ambiental.
Aliado a estas questões estava o desa�o que se apresentava para as Ciências
Sociais: o de pensar e buscar explicações para um Brasil ainda tão contraditório,
que enfrentava problemas antigos convivendo com novos trazidos pela pós-
modernidade.
 Fonte: Pixabay
E assim tinha início o que podemos chamar de quinta etapa das Ciências Sociais. Essa que atravessa a redemocratização e
vem até os dias atuais, e que se caracteriza por uma abordagem diversi�cada de temas e metodologias, tanto
macrossociológicas quanto microssociológicas.
Atividades
1) Observe o trecho a seguir:
“Sílvio Romero (1851- 1914), Euclides da Cunha (1866-1909) e Oliveira Vianna (1883-1951) e, de modo mais indireto, o famoso
ensaio de Paulo Prado (1869-1943), Retrato do Brasil (1928), especialmente o seu Post-Scriptum que, seguindo princípios e ideias
evolucionistas e deterministas relativas à “degeneração”, “barbárie”, “miscigenação” e “enfermidade social”, debruçaram-se sobre a
problemática racial, levando-os, de modo geral, à crença no princípio de que o único modo de resolver o problema seria através do
cruzamento racial, o que desemboca na conhecida “teoria do branqueamento”, uma das peculiaridades tipicamente nacionais, e
na ênfase nas políticas de imigração e de educação, ou seja, em direção ao triunfo e à regeneração da raça branca no país.”
(VENTURA, 1991; SCHWARCZ, 1993)
Comente o parágrafo acima, relacionando-o com a fase na qual se encontrava o desenvolvimento e a institucionalização das
Ciências Sociais no país neste momento.
2) Observe o trecho a seguir:
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“O surgimento do interesse cientí�co e as etapas de consolidação da Sociologia no Brasil implicaram uma combinação de causas
provenientes de contatos sociais, con�itos e acomodações de ‘culturas e povos diversos’. Para efeito de explicação didática, o
desenvolvimento das etapas da Sociologia no Brasil pode ser resumido em três períodos:
a) Período dos pensadores sociais (Sociologia de cátedra);
b) Período da Sociologia cientí�ca/ênfase à pesquisa macrossociológica I;
c) Período da Sociologia cientí�ca II/momento de crise ediversi�cação da Sociologia. Em linhas gerais, as etapas em
questão correspondem respectivamente ao �nal do XIX até 1925; 1935-70; 1980/90.”
(LIEDKE FILHO, Enno D. A Sociologia no Brasil: história, teorias e desa�os. Sociologias, Porto Alegre, ano 7, nº 14, jul/dez 2005,
pp. 376-437 – [DOSSIÊ A Sociologia no Brasil: história, teorias e desa�os]).
De acordo com a classi�cação elaborada e datada pelo autor, a produção sociológica do último período foi caracterizada,
sobretudo:
a) pela ênfase teórico-metodológica nas discussões em torno da integração dos países latino-americanos.
b) pelo predomínio do interesse acadêmico em pesquisas microssociológicas voltadas às questões de “identidades sociais e
representações sociais”.
c) pela ênfase político-metodológica a respeito da teoria da modernização da sociedade brasileira.
d) pela ênfase teórico-metodológica nas discussões acerca da capacidade de a burguesia nacional realizar um projeto de
desenvolvimento nacional e democrático-popular no país.
e) pelo predomínio do interesse acadêmico em reflexões e pesquisas, capazes de explicar a dominação imperialista no continente sul-
americano.
Notas
Auguste Comte1
Filósofo e matemático francês, publicou seus primeiros estudos entre 1830 e 1842.
Karl Marx2
Foi um �lósofo alemão, economista, historiador, revolucionário, que também buscou estudar a sociedade capitalista de seu
tempo.
Max Weber3
Foi professor de Economia nas universidades alemãs de Freiburg e Heidelberg.
Teoria da Modernização4
Transição de uma sociedade rural tradicional para uma sociedade industrial moderna e uma preocupação com as
possibilidades de um desenvolvimento democrático da sociedade brasileira, que orientava os estudos de seus pesquisadores.
Referências
AZEVEDO, Fernando de (Org.) As ciências no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 1994. A Sociologia no Brasil: o ensino e
as pesquisas sociológicas no Brasil. Disponível aqui. Acesso em: ago. 2019.
CORRÊA, Mariza. A antropologia no Brasil (1960-1980). In: História das Ciências Sociais no Brasil. Org. S. Miceli. SP:
Sumaré/FAPESP: 1995, vol. 2, p. 25-106.
LIEDKE FILHO, E. Teoria Social e Método na Escola da USP. (1954-1962). M.A. Dissertation. Brasília: UNB, 1977.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008.
SILVA, Tânia Elias M. Trajetórias da Sociologia Brasileira: considerações históricas. Cronos, Natal-RN, v. 8, n. 2, p. 429-449,
jul./dez. 2007. Disponível aqui. Acesso em 13 ago. 2019.
Próxima aula
Principais temáticas pesquisadas pela Sociologia brasileira e a in�uência da Escola de Chicago;
Temas e abordagens atuais das Ciências Sociais.
Explore mais
A �m de saber mais sobre este percurso, sugerimos o artigo de Tânia Elias M. Silva - Trajetórias da Sociologia Brasileira:
considerações históricas. Disponível aqui. Acesso em: ago. 2019.
Sugestões de vídeos
Sociologia animada: “Sérgio Buarque de Holanda – a cordialidade brasileira.” Disponível aqui. Acesso em 13-8-2019.
Sociologia animada: “Gilberto Freyre – Existe democracia racial?” Disponível aqui. Acesso em 13-8-2019.
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Teorias da Interação Social
Aula 10: A Sociologia brasileira e suas principais temáticas
Apresentação
Na aula anterior, percorremos brevemente a história das Ciências Sociais no Brasil em suas cinco fases de
desenvolvimento. Vimos de que forma se deu a institucionalização deste campo teórico e metodológico de investigação a
partir do século XIX e as diferentes transformações sofridas por ele nas últimas décadas.
Nesta aula, apresentaremos os desdobramentos das discussões referentes a essa institucionalização das Ciências
Sociais, ou seja, as principais temáticas e metodologias que ganharam espaço no país e sob quais in�uências.
Continuaremos a destacar o papel da Escola de Chicago e dos interacionistas simbólicos nesse processo.
Objetivos
Apontar os principais temas pesquisados pela Sociologia brasileira;
Examinar como a Escola de Chicago in�uenciou nas abordagens desses temas;
Identi�car as temáticas e abordagens atuais das Ciências Sociais.
A Escola de Chicago e a Sociologia no Brasil
A Sociologia iniciou sua institucionalização no país na década de 1930, a partir da criação de universidades e a abertura de
cursos de Ciências Sociais, com destaque para a Escola de São Paulo (ELSP). Oliveira (2009) chama atenção para o fato de que
falar dessa institucionalização não signi�ca negar a existência de estudos sociológicos anteriores, mas, sim, a�rmar que tais
estudos não estavam necessariamente vinculados a uma instituição ou seguiam uma linha teórica especí�ca.
Nesse sentido, a formação dos primeiros cientistas sociais do país e a consolidação das correntes de pensamento sociológico
acabaram sendo fortemente in�uenciadas por intelectuais estrangeiros ou docentes brasileiros que vinham de alguma
formação na Europa (Oliveira, 2009).
Nesse cenário destacou-se, em São Paulo, Donald Pierson, que chegou ao Brasil em 1935 para pesquisar sobre relações raciais
– tema de sua pesquisa de doutorado. Pierson tornou-se docente na ELSP em 1939, pouco depois de defender sua tese.
Pierson trouxe consigo para o Brasil toda a in�uência dos métodos e discussões teóricas relacionados a questão urbana
propagadas na Escola de Chicago. Mas, este não foi o único ponto de destaque em sua atuação na ELSP. Tratando-se de um
momento de institucionalização da ciência, ele enfatizava a relevância da pesquisa empírica como a responsável pela
formação dos verdadeiros sociólogos. Além disso, ele atuou diretamente na criação de um dos espaços mais renomados da
Sociologia, a pós-graduação da ELSP em 1941.
O programa ao qual Pierson pertencia promovia a ida de seus alunos ao exterior, para outras universidades, como Chicago. Foi
o caso de Mário Wagner Vieira da Cunha, Juarez Brandão Lopes, Levy Cruz e Oracy Nogueira . Este último se tornaria um de
seus principais discípulos em São Paulo.
1
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
Leitura
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https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0157/aula10.html?brand=estacio
Leia o artigo O legado de Oracy Nogueira ao estudo das relações raciais, de Márcia Lima.
Disponível aqui. Acesso em 15 ago. 2019.
Pierson foi um grande colaborador da Revista Brasileira de Sociologia entre as
décadas de 1940 e 1960. Nesse período, ele foi responsável por uma seção da
revista denominada Notas Sociológicas, cujo objetivo era debater questões
teóricas e metodológicas e divulgar a pós-graduação.
Esse periódico existe até hoje e continua sendo um dos grandes veículos de
promoção das pesquisas realizadas nas Ciências Sociais.
Mendoza (2000) dividiu a contribuição de Pierson em três temáticas principais:
 Fonte: Freepik
relações raciais
 Fonte: Freepik
estudos sobre a cidade
 Fonte: Freepik
pequenas comunidades
Com estas vertentes, Pierson desenvolveu trabalhos muito detalhados sobre
o Brasil, apresentou características de nossas zonas rurais, que até então
eram pouco debatidas pela Sociologia no país.
Os estudos sobre cidade e sobre as zonas rurais foram precursores e con�guram um antecedente direto do campo de
pesquisas urbanas na Sociologia de hoje. Nesse período, é explícita a in�uência da Escola Sociológica de Chicago sobre as
pesquisas brasileiras, principalmente por meio do uso do modelo de zonas concêntricas de E. Burgess, que apresentamos em
aula anterior.
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Exemplo
Como exemplo de pesquisas relacionadas, citamos os trabalhos de L. Hermann, O. Araújo, E. Willems, F. Heller, O. Xidieh e O.
Nogueira, que realizaram estudos detalhados sobre vizinhança, bairros, habitações, operários e/ou ruas, ao longo da década de
1940.
Relações raciais no Brasil
É fundamental chamarmos atenção, mais uma vez,para a problemática de seus estudos sobre relações raciais no Brasil, que
indicavam não haver preconceito racial no país.
Pierson comparou nossa realidade a países com legislações e sistemas de segregação racial, mas não considerou que o fato
de não contar com segregação legal nunca impediu o país de vivenciá-la de diferentes formas. Para isso, era preciso considerar
toda nossa formação histórica, social e política.
Jackson (2009) argumenta que Pierson integrava o rol de intelectuais que não reconhecia as classes sociais no país e utilizava
seus estudos sobre comunidades locais para determinar as relações gerais no Brasil.
Pierson comparou nossa realidade a países com legislações e sistemas de segregação racial, mas não considerou que
o fato de não contar com segregação legal nunca impediu o país de vivenciá-la de diferentes formas. Para isso, era
preciso considerar toda nossa formação histórica, social e política.
Jackson (2009) argumenta que Pierson integrava o rol de intelectuais que não reconhecia as classes sociais no país e
utilizava seus estudos sobre comunidades locais para determinar as relações gerais no Brasil.
Saiba mais
Foi nesse contexto que Gilberto Freyre, no início dos anos de 1930, apresentou obras como Casa Grande e Senzala (1933),
Sobrados e Mucambos (1936) e Nordeste (1937).
Nesse mesmo período, destacam-se as obras de Caio Prado Júnior (1933), Evolução Política do Brasil, e de Sérgio Buarque de
Holanda (1936), Raízes do Brasil.
Mas, essas não foram as únicas críticas às contribuições de Pierson às in�uências da Escola de Chicago na Sociologia
brasileira. Jackson (2009) menciona também a concepção de que, para conferir caráter cientí�co à disciplina e se tornar um
pro�ssional em Sociologia, a Escola de Chicago e seus intelectuais enfatizam como único caminho os estudos em materiais
empíricos.
 Fonte: Pixabay
A problematização a essa concepção está justamente na
rigidez de se considerar um único modelo como válido para
conferir cienti�cidade a uma área que conta com uma gama
de alternativas de estudos.
De toda forma, é importante destacar toda a contribuição
que a inserção da pesquisa qualitativa teve para os estudos
sociológicos em nosso país e que a Escola de Chicago,
através principalmente de Pierson, enriqueceu muito nossos
estudos nesta área.
A Sociologia brasileira e suas temáticas
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 Fonte: Pixabay
Os pioneiros da Sociologia brasileira enfrentaram grandes di�culdades para ministrar a disciplina, pois não havia uma
referência institucional, não contavam com material didático especí�co, tampouco com recursos para pesquisar e divulgar
suas produções.
Contudo, havia uma elite letrada que voltava sua atenção nesse período, meados do século XIX, para questões de identidade e
a con�guração da sociedade nacional, o que abria espaço para o desenvolvimento das Ciências Sociais brasileiras.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
O desenvolvimento das ideias sociológicas nesse primeiro
momento esteve atrelado aos homens brancos,
descendentes diretos de antigos colonizadores e
culturalmente eurocêntricos, pois muitos vinham de uma
formação no exterior.
A atenção de grande parte dessas �guras estava nos
movimentos culturais sociais que surgiam na França,
Inglaterra e Alemanha. Eram essas as nações que
espelhavam os padrões de comportamento e organização
política, mas também de ciência.
 Fonte: Freepik
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Foi nesse contexto que o positivismo passou a permear o
pensamento social brasileiro, in�uenciando posturas anticlericais e a
tendência à secularização.
Instalam-se debates entre diferentes correntes iluministas versus enciclopedistas, positivistas e evolucionistas, agnósticos e
“metafísicos”. Tais debates, travados em sua maioria entre os setores letrados e instituições acadêmicas, �cou conhecido
como bacharelismo .
Ao apresentarmos esse cenário, buscamos mostrar de que forma se desenvolvia a Sociologia brasileira, seus temas de
interesse e como ocorria sua produção e divulgação, nesse momento, ainda muito determinado pela realidade e os debates na
Europa.
2
Urbanismo em foco
Se a Europa experimentava a modernidade, efervescência dos movimentos intelectuais, culturais, artísticos e literários, o Brasil
ainda lidava como um predomínio da vida rural sobre a urbana, com pobreza, desigualdade e analfabetismo em massa, mas
iniciava lentamente pequenas transformações em direção à urbanização, o que movimentou diretamente as teorias
sociológicas e os institutos de pesquisa.
 Fonte: Wikipedia
Com a mudança do cenário social, transforma-se também o
interesse e as temáticas das Ciências Sociais, que passam
a ter como foco a questão do urbanismo.
Essa nova urbanidade trouxe consigo uma modernização
dos hábitos e costumes. Surgiam os “homens
empreendedores” que, com capital estrangeiro,
especialmente inglês, buscavam a modernização do país
em áreas como transporte, aperfeiçoando os serviços
urbanos de iluminação, saneamento e calçamento.
E você pode estar se questionando em que tudo isso impacta na Sociologia?
Esse processo de urbanização conferiu uma nova forma de organização e de
relação nas cidades, que passou a ser tema de interesse das Ciências
Sociais.
https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0157/aula10.html?brand=estacio
https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0157/aula10.html?brand=estacio
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Gilberto Freyre (1985) já dizia isso ao sinalizar que a rua, antes ocupada somente por negros, mascates e moleques, se
aristocratizou. As mudanças foram signi�cativas em muitas áreas, inclusive na educação. Se antes as gerações se educavam
em casa, com o padre ou em escolas confessionais, passaram a frequentar academias e colégios dirigidos por leigos e à frente
de muitas dessas instituições estavam �guras estrangeiras.
Nas décadas que se seguiriam, com o processo de urbanização já a pleno vapor, a Sociologia diversi�cou as temáticas para as
quais suas pesquisas estavam direcionadas. Seus estudos passaram a priorizar temas relacionados às classes trabalhadoras;
assim, pesquisas sobre salário, jornada de trabalho, organizações, condições de trabalho e relações entre empregados e
empregadores passaram a �gurar entre as principais temáticas.
Foco nas questões políticas e sociais
Nas décadas de 1950 e 1960, ocorreu uma nova alteração no quadro de
produção e nas temáticas de interesse prioritário das pesquisas em
Ciências Sociais.
Essa nova etapa da Sociologia trouxe consigo temas
referentes a problemas políticos e sociais, como, por
exemplo, a questão da reforma agrária.
Conforme vimos, este foi um período de grande
efervescência paras as teorias sociológicas, o que
contribuiu para o avanço destas vertentes e abordagens.
 Fonte: Unsplash
A instabilidade trazida pelo regime civil-empresarial-militar para a institucionalização das Ciências Sociais, tanto por conta das
perseguições políticas, quanto pela retirada da disciplina das escolas de educação básica, impactaram o desenvolvimento das
pesquisas e dos principais interesses da área.
Destacaram-se neste período, além da preocupação com os problemas sociais do país, análises sobre o modelo político
autoritário versus democracia, sobre os movimentos sociais urbanos e rurais, também sobre o novo movimento sindical e a
participação política. Ainda foi nesse contexto que se desenvolveu a Teoria da Dependência.
Leitura
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Para conhecer um pouco mais sobre a Teoria da Dependência, leia os artigos:
40 anos da Teoria da dependência, publicado pela Carta Capital.
A teoria da dependência: balanços e perspectivas, por Theotônio dos Santos.
Caminhos para uma redemocratização
O cenário político e intelectual no Brasil dos anos 1960 e 1970 foi, portanto, de duras críticas ao imperialismo norte-americano
e de rejeição às Ciências Sociais produzidas nos Estados Unidos, atingindo as in�uências trazidas pela Escola de Chicago.Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
Passava a prevalecer as abordagens da linha marxista, que trabalhavam
com análises de temas macrossociológicos, como classes sociais e Estado.
 Fonte: Wikipedia
Essa foi uma mudança signi�cativa que representou um deslocamento temático
importante nas Ciências Sociais.
Além disso, passou-se da ênfase em estudos relativos à dependência para
temáticas ligadas à sociedade civil, aos movimentos sociais e à redemocratização
no �nal da década de 1970.
Olhar para as identidades sociais
Ainda no contexto da redemocratização, a temática dos movimentos sociais foi cedendo lugar à pesquisa acerca das
identidades sociais e representações sociais.
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Desta forma, a Sociologia brasileira passou dos anos 1970 para os anos 1990 de análises macrossociológicas e de
críticas a um modelo social excludente para estudos microssociológicos.
 Fonte: Freepik
As Ciências Sociais passam a privilegiar e a se dedicar às pesquisas sobre
movimentos urbanos e rurais, movimentos sindicais, movimentos feministas
e LGBTQI, movimentos negros e movimentos ecológicos.
Na última etapa de desenvolvimento da Sociologia brasileira destaca-se a in�uência de autores como Bourdieu, Foucault,
Judith Butler, Giddens, Elias e Habermas. Com eles, surgem áreas que se destacam nas Ciências Sociais do país como a
Sociologia da Educação e o debate das oportunidades educacionais desiguais e a construção/socialização do indivíduo.
Mais recentemente, têm sobressaído também no cenário das pesquisas sociológicas do país os temas referentes ao
multiculturalismo e à globalização, conectados com outros elementos como religião, gênero, meio ambiente.
Atividades
1) Segundo Oracy Nogueira, o preconceito racial pode ser distinguido em preconceito racial de marca e preconceito racial de
origem. O autor identi�ca diversas diferenças entre ambos. A diferenciação está correta em:
a) a) Onde o preconceito é de origem, a ideologia é, ao mesmo tempo, assimilacionista e miscigenacionista; onde é de marca, ela é
segregacionista e racista.
b) b) O preconceito de marca determina uma exclusão incondicional dos membros do grupo atingido; o preconceito de origem determina
uma preterição.
c) c) Onde o preconceito é de origem, ele tende a ser mais intelectivo e estético; onde ele é de marca, tende a ser mais emocional e mais
integral no que tange à atribuição de inferioridade aos membros do grupo discriminado.
d) d) Onde o preconceito é de origem, a consciência da discriminação tende a ser intermitente; onde é de marca, tende a ser contínua.
e) e) Onde o preconceito é de marca, a reação tende a ser individual; onde é de origem, a reação tende a ser coletiva, pelo reforço da
solidariedade grupal.
2) Maria da Vila Matilde
(Porque, se a da Penha é brava, imagine a da Vila Matilde!)
Cadê meu celular?
Eu vou ligar prum oito zero
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar (...)
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E quando o samango chegar
Eu mostro o roxo no meu braço
Entrego teu baralho
Teu bloco de pule
Teu dado chumbado
Ponho água no bule
Passo e ofereço um cafezim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim (...)
Mão, cheia de dedo
Dedo, cheio de unha suja
E pra cima de mim? Pra cima de muá? Jamé, mané!
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim.
(Samba-de-breque com arranjo distorcido gravado por Elza Soares [A Mulher do Fim do Mundo, 2015])
Após o estudo do tema gênero, discorra sobre o problema da violência doméstica no Brasil hoje, a partir da análise da música
“Maria da Vila Matilde”, da leitura e compreensão da legislação brasileira recente que trata da violência doméstica e da
construção coletiva de uma campanha contra a violência doméstica. Construa um pequeno texto que aborde como a
Sociologia hoje trata das questões de gênero e como esta temática passou a ser central nos estudos sociológicos brasileiros.
Notas
Oracy Nogueira1
Sociólogo e antropólogo brasileiro de destaque no �nal dos anos 1940 e décadas seguintes, Oracy Nogueira teve Pierson e a
Escola de Chicago entre suas in�uências teóricas. Nogueira estudou na Universidade de Chicago entre 1945 e 1947, época em
que a terceira geração, como Herbert Blumer e Everett Hughes, lecionava nessa universidade. Nogueira se destacou no Brasil
com os estudos sobre a questão racial e defendeu a tese de que o preconceito pode ser dividido entre aquele que é de marca e
aquele que é origem, ou seja, que tem caráter individual e o que é de origem coletiva, o que foi uma grande revolução para os
debates raciais à época.
Bacharelismo2
As discussões bacharelistas foram marcadas pelo uso excessivo de citações e a supervalorização de questões de forma. Tais
modelos eram quase sempre importados dos centros europeus. A Sociologia brasileira pode ser considerada fruto de um
bacharelismo, pois a discussão entre Tobias Barreto e Sylvio Romero sobre cienti�cidade da Sociologia, que marca a origem
deste campo de estudo, foi um duelo tipicamente bacharelista.
Referências
FREYRE, G. Entrevista. Ciência Hoje, Rio de Janeiro, v. 3, n. 18, p.83-7, maio/jun. 1985.
JACKSON, Luiz Carlos. Divergências teóricas, divergências políticas: a crítica da USP aos “estudos de comunidades”. Cadernos
de Campo, São Paulo, v. 18, n. 18, 2009.
MENDOZA, Edgar S. G. Sociologia da Antropología urbana no Brasil: a década de 70. Tese (Doutorado em Ciências Sociais).
Instituto de Filoso�a e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, Campinas, 2000, 325 p.
OLIVEIRA, Isabela. Os estudos urbanos de Donald Pierson na Escola Livre de Sociologia e Política. Anais do XIV Congresso
Brasileiro de Sociologia, GT 15. Pensamento Social no Brasil. Rio de Janeiro, 2009.
Próxima aula
Explore mais
Leia os textos:
Estudos de gênero: uma Sociologia feminista?, de Lucila Scavone.
Estudos de gênero no Brasil, de Maria Luiza Heilborn e Bila Sorj In: MICELI, Sérgio (org.) O que ler na ciência social
brasileira (1970-1995), ANPOCS/CAPES.
TEORIAS DA INTERAÇÃO SOCIAL ­ DGT0912
TEORIAS DA INTERAÇÃO SOCIAL
Contextualização
Esta disciplina quer auxiliar na compreensão do pensamento de determinados sociólogos e pensadores
que contribuíram para a construção do saber racional, que compõe a Sociologia ou determinadas áreas
do conhecimento que lhes são afins.
Permitirá ao aluno não somente aproximar­se do conhecimento sociológico como também confrontá­lo
com sua realidade sócio­político­educacional.
Ementa
O conceito de interacionismo simbólico. O diálogo entre Becker e Goffman com a Escola de Chicago. A
noção de desvio. O conceito de estigma. A influência destas teorias na sociologia brasileira.
Objetivos Gerais
Reconhecer a importância do conceito de interacionismo simbólico, bem como a influência da Escola de
Chicago para o desenvolvimento da sociologia identificando as várias teorias sociológicas e suas
contribuições para a sociologia brasileira.
Objetivos Específicos
Constatar conceito de interacionismo simbólico como uma abordagem sociológicaOriginada na Escola de
Chicago como de suma importânciadas relações humanas.
Identificar o diálogo entre Becker e Goffman com a Escola de Chicago e a importância para a o
desenvolvimento da Sociologia.
Distinguir a noção de desvio do crime para a Sociologia compreendendo a aplicação nas diferentes
sociedades.
Estabelecer relações entre o conceito de estigma ao longo da história e sua atuação compreensão
comoestigma social que está relacionado com a categorização do status social.
Destacar a influência das várias teorias sociológicas na sociologia brasileira e sua história de constituição
como disciplina acadêmica e ciência essencial à análise da vida em sociedade.
Conteúdos
UNIDADE I: O conceito de interacionismo simbólico.
Etimologia e aplicação do conceito de interacionismo simbólico
interacionismo simbólico e sua relação com a microssociologiaepsicologia social.
Os métodos de pesquisa qualitativae as contribuições da Sociologia.
UNIDADE II: O diálogo entre Becker e Goffman com a Escola de Chicago.
História da Escola de Chicago e a prática da sociologia
Goffman e Becker: trabalho intelectual e da vida acadêmica
Influência de Goffman e Becker na Sociologia Brasileira
UNIDADE III. A noção de desvio para a Sociologia e sua aplicação nas diferentes sociedades
Conceitos de Sociologia do desvio e Sociologia do crime
Teoria Funcionalista e Teoria Interacionista
Teoria do Conflito e Teoria do Controle Social
UNIDADE IV: O conceito de estigma social
O conceito de estigma aplicado ao longo da história
Estigma e Identidade Social
Estigma e Preconceitos: identidade deteriorada
UNIDADE V: A influência das teorias sociológicas na sociologia brasileira.
História da Sociologia brasileira
As várias correntes sociológicas: teorias e teóricos
Augusto Comte e o Positivismo no Brasil
Procedimentos de Avaliação
Nesta disciplina, o aluno será avaliado pelo seu desempenho nas avaliações (AV ou AVS), sendo a cada
uma delas atribuído o grau de 0,0 (zero) a 10,0 (dez). O discente conta ainda com uma atividade sob a
forma de simulado, que busca aprofundar seus conhecimentos acerca dos conteúdos apreendidos,
realizada online, na qual é atribuído grau de 0,0 (zero) a 2,0 (dois). Esta nota poderá ser somada à nota
de AV e/ou AVS, caso o aluno obtenha nestas avaliações nota mínima igual ou maior do que 4,0 (quatro).
Os instrumentos para avaliação da aprendizagem constituem­se em diferentes níveis de complexidade e
cognição, efetuando­se a partir de questões que compõem o banco da disciplina. O aluno realiza uma
prova (AV), com todo o conteúdo estudado e discutido nos diversos materiais que compõem a disciplina.
Será considerado aprovado o aluno que obtiver nota igual ou superior a 6,0 (seis). Caso o aluno não
alcance o grau 6,0 na AV, ele poderá fazer uma nova avaliação (AVS), que abrangerá todo o conteúdo e
cuja nota mínima necessária deverá ser 6,0 (seis). As avaliações serão realizadas de acordo com o
calendário acadêmico institucional.
Bibliografia Básica
MALINOWSKY, B. Crime e costume na sociedade selvagem. Petrópolis: Vozes, 2015.
NAURONSKI, E. Teorias sociológicas e temas sociais contemporâneos. Curitiba: InterSaberes, 2018.
RODRIGUES, L. & NEVES, F. A sociologia de Niclas Luhmann. Petrópolis: Vozes, 2017.
Bibliografia Complementar
CHICARINO, T. Antropologia Social e Cultural. São Paulo: Pearson, 2014.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1985.
GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro:
LTC, 1988.
MARCON, K. Sociologia contemporânea. São Paulo: Pearson, 2014.
STEINER, P. A sociologia de Durkheim. Petrópolis: Vozes, 2016.
Outras Informações
TEORIAS DA INTERAÇÃO SOCIAL ­ DGT0912
TEORIAS DA INTERAÇÃO SOCIAL
Contextualização
Esta disciplina quer auxiliar na compreensão do pensamento de determinados sociólogos e pensadores
que contribuíram para a construção do saber racional, que compõe a Sociologia ou determinadas áreas
do conhecimento que lhes são afins.
Permitirá ao aluno não somente aproximar­se do conhecimento sociológico como também confrontá­lo
com sua realidade sócio­político­educacional.
Ementa
O conceito de interacionismo simbólico. O diálogo entre Becker e Goffman com a Escola de Chicago. A
noção de desvio. O conceito de estigma. A influência destas teorias na sociologia brasileira.
Objetivos Gerais
Reconhecer a importância do conceito de interacionismo simbólico, bem como a influência da Escola de
Chicago para o desenvolvimento da sociologia identificando as várias teorias sociológicas e suas
contribuições para a sociologia brasileira.
Objetivos Específicos
Constatar conceito de interacionismo simbólico como uma abordagem sociológicaOriginada na Escola de
Chicago como de suma importânciadas relações humanas.
Identificar o diálogo entre Becker e Goffman com a Escola de Chicago e a importância para a o
desenvolvimento da Sociologia.
Distinguir a noção de desvio do crime para a Sociologia compreendendo a aplicação nas diferentes
sociedades.
Estabelecer relações entre o conceito de estigma ao longo da história e sua atuação compreensão
comoestigma social que está relacionado com a categorização do status social.
Destacar a influência das várias teorias sociológicas na sociologia brasileira e sua história de constituição
como disciplina acadêmica e ciência essencial à análise da vida em sociedade.
Conteúdos
UNIDADE I: O conceito de interacionismo simbólico.
Etimologia e aplicação do conceito de interacionismo simbólico
interacionismo simbólico e sua relação com a microssociologiae psicologia social.
Os métodos de pesquisa qualitativae as contribuições da Sociologia.
UNIDADE II: O diálogo entre Becker e Goffman com a Escola de Chicago.
História da Escola de Chicago e a prática da sociologia
Goffman e Becker: trabalho intelectual e da vida acadêmica
Influência de Goffman e Becker na Sociologia Brasileira
UNIDADE III. A noção de desvio para a Sociologia e sua aplicação nas diferentes sociedades
Conceitos de Sociologia do desvio e Sociologia do crime
Teoria Funcionalista e Teoria Interacionista
Teoria do Conflito e Teoria do Controle Social
UNIDADE IV: O conceito de estigma social
O conceito de estigma aplicado ao longo da história
Estigma e Identidade Social
Estigma e Preconceitos: identidade deteriorada
UNIDADE V: A influência das teorias sociológicas na sociologia brasileira.
História da Sociologia brasileira
As várias correntes sociológicas: teorias e teóricos
Augusto Comte e o Positivismo no Brasil
Procedimentos de Avaliação
Nesta disciplina, o aluno será avaliado pelo seu desempenho nas avaliações (AV ou AVS), sendo a cada
uma delas atribuído o grau de 0,0 (zero) a 10,0 (dez). O discente conta ainda com uma atividade sob a
forma de simulado, que busca aprofundar seus conhecimentos acerca dos conteúdos apreendidos,
realizada online, na qual é atribuído grau de 0,0 (zero) a 2,0 (dois). Esta nota poderá ser somada à nota
de AV e/ou AVS, caso o aluno obtenha nestas avaliações nota mínima igual ou maior do que 4,0 (quatro).
Os instrumentos para avaliação da aprendizagem constituem­se em diferentes níveis de complexidade e
cognição, efetuando­se a partir de questões que compõem o banco da disciplina. O aluno realiza uma
prova (AV), com todo o conteúdo estudado e discutido nos diversos materiais que compõem a disciplina.
Será considerado aprovado o aluno que obtiver nota igual ou superior a 6,0 (seis). Caso o aluno não
alcance o grau 6,0 na AV, ele poderá fazer uma nova avaliação (AVS), que abrangerá todo o conteúdo e
cuja nota mínima necessária deverá ser 6,0 (seis). As avaliações serão realizadas de acordo com o
calendário acadêmico institucional.
Bibliografia Básica
MALINOWSKY, B. Crime e costume na sociedade selvagem. Petrópolis: Vozes, 2015.
NAURONSKI, E. Teorias sociológicas e temas sociais contemporâneos. Curitiba: InterSaberes, 2018.
RODRIGUES, L. & NEVES, F. A sociologia de Niclas Luhmann. Petrópolis: Vozes, 2017.
Bibliografia Complementar
CHICARINO, T. Antropologia Social e Cultural. São Paulo: Pearson, 2014.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1985.
GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro:
LTC, 1988.
MARCON, K. Sociologia contemporânea. São Paulo: Pearson, 2014.
STEINER, P. A sociologia de Durkheim. Petrópolis: Vozes, 2016.
Outras Informações
TEORIAS DA INTERAÇÃO SOCIAL ­ DGT0912
TEORIAS DA INTERAÇÃO SOCIAL
Contextualização
Esta disciplina quer auxiliar na compreensão do pensamento de determinados sociólogos e pensadores
que contribuíram para a construção do saber racional, que compõe a Sociologia ou determinadas áreas
do conhecimento que lhes são afins.
Permitirá ao aluno não somente aproximar­se do conhecimento sociológico como também confrontá­lo
com sua realidade sócio­político­educacional.do “Eu”, certa imprevisibilidade no
comportamento, para os principais pensadores de Iowa o comportamento tanto do indivíduo quanto as interações com os
outros seguem padrões e são relativamente estáveis e previsíveis (HAGUETTE, 1995).
O contraste entre estas duas Escolas, aqui enfatizado, é relevante para a história do interacionismo simbólico e seus
argumentos iniciais, mas não representa mais as posições, interpretações e produções interacionistas contemporâneas da
Sociologia. A apresentação destas duas posições extremas – Chicago e Iowa –, entretanto, nos ajuda ainda hoje a
compreender e debater método e pesquisa nas Ciências Sociais.
Estudos organizacionais: aplicabilidade da perspectiva
interacionista
As aplicabilidades dos pressupostos interacionistas simbólicos, especialmente ligados ao campo dos estudos organizacionais,
são muito relevantes nos estudos sociológicos. Mas chamamos atenção para outro ponto de extrema importância sobre esta
abordagem, que são os aspectos metodológicos de tais estudos. Desta forma, abordaremos a relação entre estes estudos
conduzidos sob a perspectiva interacionista simbólica e as possibilidades metodológicas.
Nesse sentido, chamamos atenção para as múltiplas possibilidades de abordagem metodológica, sinalizando mais uma vez
que a ideia de que interacionismo simbólico é sinônimo de pesquisa exclusivamente qualitativa é uma armadilha. Contudo, de
fato, a perspectiva interacionista contribui sobremaneira para o campo das ciências sociais no que tange aos métodos
qualitativos de investigação. Novos métodos de pesquisa, instrumentos e até mesmo o papel do pesquisador emergiram com
os interacionistas.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
Importante destacar que, com estas novas abordagens, os dados e as
análises qualitativas, além de propiciarem informações densas, também
asseguram o entendimento de contextos que podem facilitar a elaboração
de teorias.
Em especial quando falamos de determinados aspectos da vida social, há uma di�culdade maior em acessá-los através de
questionários estruturados ou outras formas de coletas quantitativas. Em contraposição, os dados qualitativos estão em
desvantagem quando o objetivo é testar a generalidade de um argumento teórico. Também não permitem, em geral, amostras
mais representativas e modelos multivariados.
Assim, é muito comum a integração de metodologias qualitativas e quantitativas, principalmente nos estudos organizacionais
realizados sob a perspectiva interacionista (BENZIES; ALLEN, 2001). Esse é um processo complexo, que exige o
desenvolvimento de teorias, das proposições, a constituição dos esquemas teóricos e os testes empíricos. Segundo Stryker e
Vryan (2006), desenhos de pesquisa, dentro da perspectiva interacionista simbólica, que utilizam métodos diversi�cados,
possibilitam ao pesquisador tanto formular quanto validar teorias.
Embora tenhamos destacado esta possibilidade de se associar diferentes estratégias metodológicas na operacionalização dos
pressupostos interacionistas, é de suma importância pontuar que são inúmeros os desa�os da adoção de múltiplos métodos.
Há que se considerar elementos como o tempo e as técnicas requeridas para a aplicação de ambas as estratégias. Também é
importante pensar sobre o objeto em estudo e suas especi�cidades. Contudo, nossa proposta foi apresentar a aplicabilidade
da perspectiva interacionista no campo das ciências sociais, com destaque para os estudos da psicologia social e da
organização social.
Contribuições do interacionismo simbólico para as pesquisas em
Ciências Sociais
O interacionismo simbólico contribuiu com as ciências sociais de diversas formas:
Os métodos de pesquisa, que passaram, dentre outras
coisas, a privilegiar o ponto de vista do indivíduo.
As noções e teorias sobre interação e cultura.
Nosso objetivo, ao abordamos os aspectos fundamentais acerca das teorias da Interação social e seus principais pensadores,
foi auxiliar na compreensão do pensamento de determinados sociólogos e na contribuição que seus trabalhos tiveram para a
construção do saber racional.
Assim, nessa breve retrospectiva histórica, através do conceito de interacionismo simbólico e da Escola de Chicago,
conhecemos que a Escola de Chicago prioriza o desenvolvimento da pesquisa a partir do problema a ser estudado. Para isso,
orienta seus esforços na busca por métodos que contribuam com o entendimento das questões que estão sendo analisadas.
Na Escola, há espaço para a chamada abordagem funcionalista estrutural, ou seja, surveys / questionários. Contudo, privilegia-
se o método descritivo, buscando-se histórias de vida, sejam estas coletivas ou individuais.
Ao trazermos a referência de alguns dos interacionistas de Chicago buscamos reforçar o papel que esta Escola teve no
desenvolvimento desta perspectiva teórica e desta nova abordagem, que privilegia o signi�cado como um dos elementos mais
importantes na análise da conduta do indivíduo, de suas interações e dos processos.
Atenção
Lembramos que este breve resgate sobre a Escola de Chicago não proporciona o contato com todas as contribuições teóricas
que cooperaram para a constituição do interacionismo simbólico. Nesse sentido, lembramos que a Escola de Iowa também foi de
extrema relevância para o desenvolvimento dessa nova abordagem interacionista. Iowa dava preferência, em suas pesquisas, ao
uso de dados estatísticos e questionários, enquanto a Escola de Chicago privilegiava outros métodos, como grupos focais e
observação participante.
Portanto, vimos que estas Escolas de pensamento adotavam linhas metodológicas distintas. A primeira ainda presa aos
recursos tradicionais e Chicago sendo responsável naquele momento por inovar na metodologia. Mas elas não divergiam
apenas nos métodos empregados. Também tinham percepções diferentes sobre o �o condutor do interacionismo simbólico:
Escola de Chicago
Para essa escola, o comportamento humano é
imprevisível, ou seja, eles acreditavam em uma
certa espontaneidade do “Eu”. 
Pensadores de Iowa
Defendiam uma padronização do
comportamento dos indivíduos e também de
suas interações, o que os tornaria previsíveis.
Porém, apesar das divergências, e independentemente do tratamento distinto em muitos aspectos, as Escolas convergiam em
um ponto fulcral:
O de que o elemento singular do comportamento humano é sua
capacidade de interagir frente a símbolos.
Destacamos que os debates e os argumentos apresentados por estas duas Escolas de pensamento formam parte importante
da história das ciências sociais. Contudo, grande parte dessas interpretações e posições não constituem mais o bojo dos
trabalhos interacionistas. Mas conhecer a história e os pensamentos que serviram de alicerce para estas Escolas nos ajuda a
compreender hoje a questão do método e da pesquisa nas Ciências Sociais.
Desde o seu surgimento, o interacionismo simbólico se fortaleceu enquanto uma alternativa de abordagem que permite
trabalhar com aspectos da estruturação social e com a construção das individualidades. Permeado por críticas, o caminho
traçado pelos interacionistas, especialmente pela suposta exclusão do papel da estrutura social, passou a abranger o cultural e
o singular, buscando na atualidade re�exões sobre os fenômenos sociopsicológicos, sem ignorar seu caráter histórico.
Em geral, permanece a noção de que, para os interacionistas, a pesquisa exige um comprometimento com metodologias
qualitativas. Contudo, é importante registrar que a pesquisa interacionista pode ser realizada com uma gama maior de
métodos nas ciências sociais. Assim, o interacionismo simbólico, que desenvolveu uma extensa tradição no estudo da
organização social e dos processos sociais ao longo do século XX, continua ofertando possibilidades de contribuição em
diferentes vertentes de estudo dentro das ciências sociais.
Por �m, a despeito de toda relevância e destaque que o interacionismo simbólico teve para a metodologia qualitativa, com o
desenvolvimento deEmenta
O conceito de interacionismo simbólico. O diálogo entre Becker e Goffman com a Escola de Chicago. A
noção de desvio. O conceito de estigma. A influência destas teorias na sociologia brasileira.
Objetivos Gerais
Reconhecer a importância do conceito de interacionismo simbólico, bem como a influência da Escola de
Chicago para o desenvolvimento da sociologia identificando as várias teorias sociológicas e suas
contribuições para a sociologia brasileira.
Objetivos Específicos
Constatar conceito de interacionismo simbólico como uma abordagem sociológicaOriginada na Escola de
Chicago como de suma importânciadas relações humanas.
Identificar o diálogo entre Becker e Goffman com a Escola de Chicago e a importância para a o
desenvolvimento da Sociologia.
Distinguir a noção de desvio do crime para a Sociologia compreendendo a aplicação nas diferentes
sociedades.
Estabelecer relações entre o conceito de estigma ao longo da história e sua atuação compreensão
comoestigma social que está relacionado com a categorização do status social.
Destacar a influência das várias teorias sociológicas na sociologia brasileira e sua história de constituição
como disciplina acadêmica e ciência essencial à análise da vida em sociedade.
Conteúdos
UNIDADE I: O conceito de interacionismo simbólico.
Etimologia e aplicação do conceito de interacionismo simbólico
interacionismo simbólico e sua relação com a microssociologiae psicologia social.
Os métodos de pesquisa qualitativae as contribuições da Sociologia.
UNIDADE II: O diálogo entre Becker e Goffman com a Escola de Chicago.
História da Escola de Chicago e a prática da sociologia
Goffman e Becker: trabalho intelectual e da vida acadêmica
Influência de Goffman e Becker na Sociologia Brasileira
UNIDADE III. A noção de desvio para a Sociologia e sua aplicação nas diferentes sociedades
Conceitos de Sociologia do desvio e Sociologia do crime
Teoria Funcionalista e Teoria Interacionista
Teoria do Conflito e Teoria do Controle Social
UNIDADE IV: O conceito de estigma social
O conceito de estigma aplicado ao longo da história
Estigma e Identidade Social
Estigma e Preconceitos: identidade deteriorada
UNIDADE V: A influência das teorias sociológicas na sociologia brasileira.
História da Sociologia brasileira
As várias correntes sociológicas: teorias e teóricos
Augusto Comte e o Positivismo no Brasil
Procedimentos de Avaliação
Nesta disciplina, o aluno será avaliado pelo seu desempenho nas avaliações (AV ou AVS), sendo a cada
uma delas atribuído o grau de 0,0 (zero) a 10,0 (dez). O discente conta ainda com uma atividade sob a
forma de simulado, que busca aprofundar seus conhecimentos acerca dos conteúdos apreendidos,
realizada online, na qual é atribuído grau de 0,0 (zero) a 2,0 (dois). Esta nota poderá ser somada à nota
de AV e/ou AVS, caso o aluno obtenha nestas avaliações nota mínima igual ou maior do que 4,0 (quatro).
Os instrumentos para avaliação da aprendizagem constituem­se em diferentes níveis de complexidade e
cognição, efetuando­se a partir de questões que compõem o banco da disciplina. O aluno realiza uma
prova (AV), com todo o conteúdo estudado e discutido nos diversos materiais que compõem a disciplina.
Será considerado aprovado o aluno que obtiver nota igual ou superior a 6,0 (seis). Caso o aluno não
alcance o grau 6,0 na AV, ele poderá fazer uma nova avaliação (AVS), que abrangerá todo o conteúdo e
cuja nota mínima necessária deverá ser 6,0 (seis). As avaliações serão realizadas de acordo com o
calendário acadêmico institucional.
Bibliografia Básica
MALINOWSKY, B. Crime e costume na sociedade selvagem. Petrópolis: Vozes, 2015.
NAURONSKI, E. Teorias sociológicas e temas sociais contemporâneos. Curitiba: InterSaberes, 2018.
RODRIGUES, L. & NEVES, F. A sociologia de Niclas Luhmann. Petrópolis: Vozes, 2017.
Bibliografia Complementar
CHICARINO, T. Antropologia Social e Cultural. São Paulo: Pearson, 2014.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1985.
GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro:
LTC, 1988.
MARCON, K. Sociologia contemporânea. São Paulo: Pearson, 2014.
STEINER, P. A sociologia de Durkheim. Petrópolis: Vozes, 2016.
Outras Informaçõesnovos recursos, ferramentas e estratégias, enfatizamos que não há exclusividade em nenhum caminho
metodológico.
Saiba mais
Para saber mais sobre os assuntos estudados nesta aula, assista ao �lme O show de Truman  (The Truman show). Direção: Peter
Weir. Estados Unidos: Paramount Pictures, 1998. 103 min, son., color.
Este �lme mostra a vida de Truman Burbank, um homem que vive, sem saber, em uma realidade simulada por um programa da
televisão, transmitido 24 horas por dia para bilhões de pessoas ao redor do mundo.
 Por meio da estética do Reality Show, o �lme problematiza aspectos decisivos da vida moderna, como a mecanização das
relações, a manipulação das vontades e a invasão da privacidade pela tecnologia.
A partir desse enredo, o �lme discute o status da realidade no mundo contemporâneo e até que ponto o convívio com a
imitação/representação afeta a vida cotidiana das pessoas. O �lme também possibilita debater a importância da publicidade nas
relações e a questão do controle da sociedade a partir dela.
Em determinada cena de uma propaganda de chocolate em pó, percebemos que a personagem muda o modo de falar. Aqui, �ca
explícita a manipulação da percepção do indivíduo para construir e desconstruir a realidade e seus signi�cados.
 Atividade
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1 - Analise a imagem a seguir:
A partir da imagem retratada produza um texto que dialogue sobre o uso das redes sociais, conexão e comunicação entre os
indivíduos na contemporaneidade e os processos de interação social. A proposta é relacionar a questão dos símbolos na
conduta humana e o conceito de interacionismo simbólico.
 Fonte: https://www.corindesign.co.uk
2 - (UFPR) Durante muitos anos a Sociologia teve um certo desprezo pelo estudo da subjetividade, recusando-se a tomá-la
como objeto de análise. Hoje, muitos sociólogos incorporam a subjetividade em suas análises. É correto a�rmar que o estudo
da subjetividade conquistou seu lugar na Sociologia porque:
a) Os sociólogos começaram a estudar mais antropologia e psicologia.
b) O socialismo e a teoria das classes provaram sua ineficácia histórica.
c) A sociedade contemporânea é mais individualista.
d) A sociedade contemporânea considera o indivíduo acima de tudo.
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e) A Sociologia contemporânea introduziu em seu corpus teórico-metodológico a importância do sujeito e suas diversas formas de
manifestação.
3 - (CESGRANRIO, 2011) Herbert Blumer resgatou e deu continuidade às ideias de George Herbert Mead. Assim, num artigo de
1937, intitulado “Man and Society” (Homem e Sociedade), Blumer deu nome e fundamentou o interacionismo simbólico com
base em três premissas derivadas do pensamento de Mead. Observe as premissas abaixo.
I. As relações e ações sociais são derivadas, unicamente, das normas e regras sociais preestabelecidas. 
II. O modo como um indivíduo interpreta os fatos e age perante outros indivíduos e coisas depende do signi�cado (ou
signi�cados) que ele atribui a esses outros indivíduos ou coisas.
III. O signi�cado é resultado dos processos de interação social, ou a partir deles construído.
IV. Os signi�cados podem sofrer mudanças ao longo do tempo.
V. As descrições dos fatos pelos atores sociais são por demais vagas e muito ambíguas para serem usadas de modo cientí�co.
As premissas derivadas do pensamento de Mead são apenas as apresentadas em:
a) I, II e III
b) I, III e IV
c) I, IV e V
d) II, III e IV
e) II, IV e V
Referências
ALVARO, J. L.; GARRIDO, A. Psicologia social: Perspectivas psicológicas e sociológicas. São Paulo: McGraw-Hill, 2007.
BENZIES, K. M.. ALLEN, M. N. Symbolic interactionism as a theoretical perspective for multiple method research. Journal of
Advanced Nursing, 2001.
BLANCO, Amalio Cinco tradiciones en la psicología social. Madrid: Ediciones Morata, 1998.
BORGES, L. O.; ALBUQUERQUE, F. J. B. Socialização Organizacional. In: ZANELLI, J. C. et al. (Orgs.). Psicologia, Organizações e
Trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2004.
COSSETTE, P. The study of language in organizations: a symbolic interactionist stance. Human Relations 51, 11, 1355-1377.
Disponível em: https://doi.org/10.1023/A:1016998316635 Acesso em 21 julho 2019.
COULON, Alain. A Escola de Chicago. Tradução: Tomaz R. Bueno. Campinas, SP: Papirus, 1995.
DENNIS, A.; MARTIN, P. J. Symbolic interactionism and the concept of power. The British journal of sociology, 56, 191-213. 2005.
FARR, R. M. As raízes da psicologia social moderna. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.
HAGUETTE, T. M. F. Metodologias qualitativas na Sociologia. 4a ed. Petrópolis, RJ: Vozes, (1995).
JOAS, H. Interacionismo simbólico. In: A. GIDDENS e J. TURNER (eds.). Teoria social hoje. São Paulo: Editoria da UNESP, 1999.
MEAD, G. H. (1982). Espiritu, persona y sociedad: desde el punto de vista del condutismo social. Barcelona: Paidos (Trabalho
original publicado em 1934).
MORGAN, G. Imagens da organização. São Paulo: Atlas, 1996.
SAUDER, M. Symbols and contexts: an interactionist approach to the study of social status. The sociological quarterly, 46, 279-
298. 2005.
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SILVA, C.L. Interacionismo Simbólico: história, pressupostos e relação professor e aluno; suas implicações. Revista Educação
por Escrito – PUCRS, v.3, n.2, dez. 2012.
STRYKER, S.; VRYAN, K. D. (2006). The symbolic interactionist frame. In J. Delamater (Org.), Handbook of social psychology. (pp.
283-308). New York: Springer.
Próxima aula
Teorias da interação social e sua contribuição para o campo das Ciências Sociais;
Abordagem do interacionismo simbólico;
Distinção entre a perspectiva teórico-metodológica da Escola de Chicago e das demais Escolas de pensamento
sociológico.
Explore mais
Leia o textos:
Interacionismo simbólico: origens, pressupostos e contribuições aos estudos em Psicologia Social;
A Escola de Chicago.
Assista aos vídeos:
Interacionismo simbólico I;
Interacionismo simbólico II;
Escola de Chicago - Interacionismo simbólico II;
Trailer do �lme Being there (Muito além do jardim).
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Teorias da Interação Social
Aula 2: A Escola de Chicago
Apresentação
Nesta aula, apresentaremos de que forma a famosa Escola de Chicago, constituída por meio de doação do milionário
estadunidense John D. Rockefeller no �nal do século XIX, relaciona-se com o campo do interacionismo simbólico e da
Psicologia social. Na aula anterior ,vimos que esta Universidade, em virtude de um contexto local de grande
desenvolvimento industrial e demográ�co, foi impulsionada a desenvolver estudos na área da Sociologia urbana. Nesse
sentido, o recém-criado departamento de Antropologia e Sociologia teve como foco de suas investigações a questão da
relação com a cidade. 
Pensaremos sobre a atuação da primeira geração de pesquisadores da Escola de Chicago e o quanto suas produções
in�uenciaram, por exemplo, a Sociologia brasileira. Para isso, apresentaremos o trabalho de Donald Pierson, que estudou
as relações raciais afro-brasileiras in loco no Brasil, nas cidades de Salvador e São Paulo, orientando e trabalhando ao lado
de diversos pesquisadores e em contato direto com pesquisas e estudos brasileiros. A esse respeito, problematizamos o
caráter colonial que sua pesquisa à época representou, uma vez que o olhar de um homem branco, estadunidense,
pesquisando as relações raciais no Brasil, o fez assimilar uma democracia racial no país que de fato nunca existiu, outro
elemento que pontuamos e também problematizamos nesta aula. Assim, também temos como objetivo discutir o papel
da Escola de Chicago na “inauguração” de uma nova metodologia, no diálogo direto com o interacionismo simbólico, mas
também apresentar sua relação com o campo da Sociologia.
Bons estudos!
Objetivos
Examinar o percurso histórico da Escola de Chicago;
Discutir a atuação da Escola de Chicago no âmbito da Sociologia.
 Escola de Chicago
A história da Escola de Chicago se parece com um �lmerepleto de protagonistas, que se entrelaçam em várias histórias e, vez
ou outra, utilizam o �ashback como recurso narrativo.
Podemos escolher, como um marco arbitrário, para iniciar a
nossa história, a doação milionária de John Rockefeller,
empresário do ramo do petróleo, que destinou um milhão de
dólares para fundar a Universidade de Chicago, que iniciou
suas atividades em 1892 (Martins, 2013). Logo, Willian
Harper, o presidente da Universidade recém-criada, convidou
Albion Small para iniciar o Departamento de Sociologia
tendo a pesquisa como viés fundamental.
Albion Small permaneceu na che�a do Departamento de
Sociologia da Universidade de Chicago até 1925, e, nessa
década, considerada a mais frutífera da Escola de Chicago
(entre 1920 e 1930), o departamento foi composto pelos
seguintes professores: Albion Small, Robert Park, Ernest
Burgess, Ellsworth Faris, Charles Henderson, Graham Taylor,
Charles Zueblin, George Vincent, William Thomas, Robert
McKenzie, Nels Anderson, Frederic Thrasher, Robert
Red�eld, Ruth Shonle Cavan, contando ainda com a
presença de outros importantes docentes provindos de
departamentos diferentes da Universidade de Chicago,
como John Dewey e George Herbert Mead (Martins, 2013). 
 John Rockefeller | Fonte: Wikipedia
Foi ainda em 1895, logo na formação do Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago, e sob a edição de Albion
Small, iniciada a revista cientí�ca American Journal of Sociology – que até hoje permanece com renomada produção bimestral.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
Saiba mais
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É uma prática comum até os dias de hoje que os grandes milionários nos Estados Unidos façam vultosas doações para as
Universidades daquele país, muitas vezes para as Universidades onde estudaram. Uma parte considerável dos recursos das
Universidades estadunidenses são provindos desta forma de �nanciamento. Além da intenção de contribuir com o ensino e a
pesquisa, tal prática se justi�ca naquele país, já que parte do imposto de renda devido pelos cidadãos pode ser revertido em
doações para Universidades, Museus, ONGs, entre outros.
Uma característica sempre ressaltada da Escola de Chicago é que, desde a sua primeira formação, ela possui um viés crítico e
reformador. Isso perpassa os métodos de pesquisa voltados para o pragmatismo, múltiplos em seus instrumentos e originais
em suas concepções, mas sempre em busca da compreensão ampla do objeto pesquisado, ainda que isso demande o uso
diversi�cado dos métodos: é comum o uso de diários de campo, observação participante, questionários/surveys, entrevistas,
entre outros.
Becker assim se refere à construção metodológica de Robert Park que, como veremos, será um dos primeiros formadores da
Escola de Chicago:
"Uma das características do pensamento de Park - e isso se aplica à Escola de Chicago
como um todo - era não ser puramente qualitativo ou quantitativo. Park era muito
eclético em termos de método. Se achasse que era possível mensurar alguma coisa,
ótimo, se não o fosse, ótimo também. Havia ainda outras maneiras de fazer essa
pesquisa."
- Becker, 1996, p. 182
O viés crítico e reformador perpassa também a escolha pelos objetos pesquisados, que inclinam-se para as questões sociais,
os con�itos e desorganizações urbanas, as migrações em suas mais diversas problemáticas (Martins, 2013). Como exemplo,
podemos citar a pesquisa empírica sobre a imigração polonesa nos Estados Unidos, denominada The Polish Peasant in Europe
and America de FlorianZnaniecki e Willian I. Thomas.
Comentário
Martins (2013, p. 223) a�rma, a respeito da Escola de Chicago:
Mantendo uma inclinação política reformista aliada a uma �loso�a pragmática, os sociólogos de Chicago procuraram transformar
a Sociologia numa ciência empírica, concentrando a atenção em determinados problemas sociais da vida urbana na qual estavam
inseridos e em processos sociais, tais como organização e desorganização social, con�ito e acomodação, movimentos sociais e
mudanças culturais, buscando interligar a investigação dessas questões com a disposição de impulsionar reformas sociais no
contexto de uma sociedade liberal-democrática.
Como já foi dito, a Escola de Chicago possui muitos protagonistas, todos com participações importantes, tanto para o
desenvolvimento da Escola, como para a própria Sociologia. Assim é que Howard Becker (1996) – um dos grandes nomes
ligados à Escola após a década de 1950 – a diferenciou enquanto uma Escola de Atividade em contraponto a uma Escola de
Pensamento . Isso porque, apesar de trabalharem em conjunto, dialogarem e produzirem acerca da Sociologia, Ecologia
humana e dos estudos da cidade, os diversos protagonistas da Escola de Chicago, muitas vezes, possuíam perspectivas,
referenciais teóricos e epistemológicos diferentes. 
O que é, portanto, a Escola de Chicago? Segundo Christian Topalov (2007, p. 2):
1
"A Escola de Chicago é um conjunto de professores e alunos, temas e conceitos,
pesquisas e publicações, relacionadas à idade de ouro do Departamento de Sociologia
da Universidade de Chicago (se adotada a cronologia de Faris, 1920-1932)."
Foi com esse intuito que Willian I. Thomas convidou Robert Park para integrar o Departamento de Sociologia da Universidade
de Chicago (Becker, 1996). Apesar de Parker já ter trabalhado por um ano na Faculdade de Harward, ele estava trabalhando
como jornalista e escritor antes de receber o convite para compor o corpo docente da Universidade de Chicago. Direcionava
suas atividades jornalísticas principalmente para as questões sociais, migratórias e raciais das grandes cidades, fato que
impressionou Thomas e que o inclinou a fazer o convite para compor o grupo de professores/pesquisadores da Universidade
de Chicago. 
A partir de então, a Escola de Chicago direcionou grande parte de suas atividades para os estudos da Sociologia urbana, em
especial, estudos voltados para a cidade de Chicago, considerada um “laboratório vivo” (Park, 1967). A cidade de Chicago,
portanto, também pode ser considerada um personagem importante desta história. Vamos, então, falar um pouco sobre ela.
 A cidade de Chicago
"Um dos resultados de todo esse movimento é que Chicago passou a ser a cidade mais
pesquisada do mundo e provavelmente o será sempre."
- Becker, 1996, p. 183
https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0157/aula2.html?brand=estacio
https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0157/aula2.html?brand=estacio
https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0157/aula2.html?brand=estacio
Chicago é a terceira cidade mais populosa dos Estados Unidos, segundo o censo desse país em 2010. É ainda uma das três
cidades estadunidenses, entre Nova York e Filadél�a, que passou de forma mais intensa pela urbanização desenfreada.
Chicago foi ainda a cidade que mais recebeu imigrantes, tanto estrangeiros quanto provindos do sul do país.
A cidade se caracteriza por ser um vasto centro comercial e industrial (Freitas, 2002). É interessante pontuar a grande
transformação sofrida pela cidade, no contexto do que �cou conhecido como Grande Incêndio de Chicago, que em 1871 foi
responsável pela morte de 300 pessoas e por ter deixado 91 mil pessoas desabrigadas. Com a cidade devastada pelo incêndio,
foi necessário reconstruí-la. Este fato transformou rapidamente a cidade, que recebeu investimentos dos mais diversos
estados, e passou por um estudo de planejamento urbano. Uma cidade que podia ser considerada um caldeirão que envolvia:
desenvolvimento e mudança estrutural acelerada; alto índice populacional, com grande parte formada por imigrantes;
desemprego, miséria e criminalidade urbana; isso fez deste “laboratório vivo” um in�ndável âmbito de pesquisas para a recém
formada Escola de Chicago.
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Como já comentamos na aula anterior, o processo de urbanização e as suas consequências observáveis despertaram o
interesse dos pesquisadores, mas também tornaram necessáriasnovas abordagens metodológicas, como as experimentadas
pela Escola de Chicago.
A cidade passava a ser, em contraposição à Sociologia europeia, utilizada como uma inspiração para uma nova abordagem,
que considerasse a experiência do sujeito com o meio. E, assim, a Escola de Chicago inaugurava um novo olhar metodológico.
Para isso, ela orienta seus esforços de pesquisa na busca por métodos que contribuam com o entendimento das questões que
estão sendo analisadas. Na Escola se constituem, então, espaços para a chamada abordagem funcionalista estrutural, ou seja,
surveys/questionários. Contudo, privilegia-se o método descritivo, buscando-se histórias de vida, sejam estas coletivas ou
individuais. E diversas �guras ilustres do campo das Ciências Sociais foram de extrema relevância para este processo,
conforme veremos nesta aula.
A observação da cidade fez com que fosse possível a construção de
conceitos como Ecologia Humana, de Robert Park, que partia do
princípio de que o espaço físico espelhava o espaço social, e que o
comportamento de certos agrupamentos humanos poderia ser
explicado a partir das relações veri�cadas na natureza botânica e
vegetal.
Assim, de acordo com a Ecologia Humana de Park, diferentes grupos sociais ocupam parcelas diferenciadas do espaço físico.
Neste ponto, as grandes cidades como Chicago, por reunirem grupos radicalmente heterogêneos, tornam a visualização deste
fenômeno mais clara. Assim é que se percebeu a permanência de um processo de disputa, por vezes con�ituoso, em que um
grupo se sobrepõe ao outro de forma constante, não ocorrendo uma simples assimilação do grupo considerado mais fraco ou
um processo de aculturamento. A Ecologia Humana se utiliza de termos como simbiose, invasão, dominação e sucessão,
muitos deles provindos da Biologia, para explicar os fenômenos urbanos.
Neste mesmo sentido é a proposta de Ernest Burgess, também da Escola de Chicago, que cria, a partir da Ecologia Humana, o
conceito de Zonas Concêntricas. Nesta proposta, Burgess divide a cidade de Chicago em cinco zonas concêntricas que se
irradiam a partir do Centro; ou seja, as sociedades se distribuem concentricamente em anéis a partir de um círculo central.
Portanto, uma organização espacial de segregação que era desenvolvida da seguinte forma:
Clique nos botões para ver as informações.
Zona comercial central, onde ocorrem as transações comerciais da cidade, onde há uma intensa circulação de pessoas e
de transporte urbano durante o dia. Não é um local preponderantemente destinado a moradia.
Zona 1 (Central) 
Zona de transição que se deteriorou por conta de fenômenos urbanos como pobreza, segregação, desemprego,
discriminação racial e xenofobia em face dos imigrantes; criminalidade. Muitos trabalhadores que se aproximavam da
zona 1, em busca infrutífera de emprego, acabavam permanecendo na zona 2 sem condições dignas de vida,
consequência da industrialização urbana e capitalista.
Zona 2 
Zona residencial dos trabalhadores urbanos. Zona de residências pequenas, simples e funcionais.
Zona 3 
Zona residencial da classe média urbana e, portanto, com um nível maior de conforto e alguma ostentação.
Zona 4 
Zona da alta elite social, dos donos dos meios de produção, grandes industriais e magnatas. Zona de ostentação e
privilégios.
Zona 5 
Segundo o que os estudos de Burgess demonstraram, a cidade é um espaço segregado, e o atravessamento entre essas faixas
de zonas concêntricas nem sempre é seguro, sendo ainda as zonas periféricas intransitáveis para pessoas provindas da Zona
2, por exemplo. 
Os estudos sobre a criminalidade urbana apontaram a zona 2 como a de maior índice de con�itos sociais e criminalidade.
A Ecologia Humana é uma criação da primeira geração da Escola de Chicago, que pode ser contextualizada entre os anos 1915-
1940. É uma criação conceitual de Robert Park, o qual propõe que, assim como o meio natural in�ui sobre a espécie humana
(Ecologia Darwinista), o meio social também in�ui sobre o comportamento social humano – Ecologia Humana. Howard Becker
assim se refere a Park:
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
"Em certo momento, ele defendeu a ideia de que o espaço físico espelhava o espaço
social, de modo que se se pudesse medir a distância física entre populações, se saberia
algo sobre a distância social entre elas. É uma metáfora interessante, que levou ao
desenvolvimento de uma área chamada Ecologia, não no sentido que usamos hoje, de
preservação do meio ambiente, mas a noção de Ecologia na forma usada pela Biologia
vegetal daquela época, e que se referia à competição pelo espaço."
- BECKER, 1996, p. 182
Ainda na primeira geração de pesquisadores da Escola de Chicago, temos que nos referir a um nome importante em virtude do
contato direto com o âmbito de pesquisas da Sociologia Brasileira. Aluno de Robert Park, Donald Pierson estudou as relações
raciais afro-brasileiras in loco no Brasil, pois trabalhou diretamente nas cidades de Salvador e São Paulo. Em Salvador
desenvolveu a pesquisa que depois foi publicada com o nome “Brancos e Pretos no Brasil”; em São Paulo, colaborou na
inauguração da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (Barcelar, 1997), orientando e trabalhando ao lado de
diversos pesquisadores e em contato direto com pesquisas e estudos brasileiros.
Comentário
Apesar de o contato de Pierson com a Sociologia Urbana brasileira ser historicamente relevante, cabe-nos fazer uma crítica
descolonial, uma vez que o olhar de um homem branco, estadunidense, pesquisando as relações raciais no Brasil o fez assimilar
uma democracia racial no país que de fato nunca existiu. Não podemos, por exemplo, concordar com comentários feitos por ele
nesse estudo realizado na Bahia, que a�rmam existir apenas um problema de classe no Brasil e não de raça ou, em sua palavras,
ele diz que o problema dos negros no Brasil “é – um problema econômico e educacional e, de nenhum modo um problema racial”
(Pierson, 1971, p. 53). Imediatamente rebatível é a supracitada conclusão do professor de Chicago, uma vez que apenas
necessitamos re�etir em que medida “as questões de classe” afetam desde 1500 os povos afrodescendentes e permanecem
agudamente em nossos dias.
Sobre a primeira geração da Escola de Chicago, por �m, devemos falar sobre Everett Hughes, que empreendeu estudos
empíricos sobre as pro�ssões na cidade, especialmente em Chicago. Com base nos estudos de Park, postulava que qualquer
atividade desenvolvida nas grandes cidades tendia a um nível de organização afeito ao que denominaríamos de pro�ssões.
Hughes é quem fará a ligação com os pesquisadores da segunda fase da Escola de Chicago, conforme veremos na próxima
aula.
 Atividade
1 - Apresente brevemente Donald Pierson, formado na Escola Sociológica de Chicago, e seu papel na pesquisa urbana no Brasil
nos anos 40 e 50, tanto na Sociologia quanto na Antropologia.
2 - Comente a frase: Um dos resultados de todo esse movimento é que Chicago passou a ser a cidade mais pesquisada do
mundo e provavelmente o será sempre. (Becker, 1996, p. 183)
Notas
Escola de Atividade em contraponto a uma Escola de Pensamento 1
Escola de Pensamento, na terminologia de Guillemard, segundo Becker (1996, p. 179), trata-se de “um grupo de pessoas que
têm em comum o fato de que outras pessoas consideram seu pensamento semelhante; é possível que nunca tenham se
encontrado”; enquanto uma Escola de Atividade pode ser entendida como um grupo de pessoas que trabalham em conjunto,
ainda que estas pessoas não compartilhem seus referenciais teóricos e suas pesquisas.
Referências
ALMEIDA, Lucélia Oliveira. A In�uência dos Pressupostos da Teoria da Ecologia Criminal da Escola de Chicago para a
Elaboração das Ações de Segurança Pública para o Centro Histórico de Salvador. 34f. Dissertação (Mestrado) Faculdade de
Direito, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2013. Burgess
BACELAR, Jeferson. Donald Pierson e os Brancos e Pretos na Bahia. Horizontes Antropológicos,Porto Alegre, ano 3, n. 7, p.
129-143, nov. 1997.
BAGATELLA, Wagner. Análise Espacial dos Condicionantes da Criminalidade Violenta no Estado de Minas Gerais – 2005:
contribuições da geografía do crime. Dissertação (Mestrado em Geogra�a). PUC/MG – Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais, MG, 2008.
BECKER, Howard. A Escola de Chicago. MANA 2(2):177-188, 1996
BECKER, Howard. Outsiders: estudos de Sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
BLUMER, Herbert. Symbolic Interacionism: Perspective and Method. University of California Press, 1986.
BURGESS, Ernest W. O crescimento da cidade: introdução a um projeto de pesquisa. In: PIERSON, Donald (org.) Estudos de
Ecologia Humana. Tomo I, São Paulo: Martins, 1948.
CARVALHO, Cesar. Contracultura, Drogas e Mídia. Disponível em
//www.portcom.intercom.org.br/pdfs/f75aa3f62327c31c6bc938641a222837.pdf Acesso em 22 jul. 2019.
DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
FARIS, Robert. Chicago Sociology (1920-1932). Chicago: University of Chicago Press, 1967. 
FREITAS, Wagner Cinelli de Paula. Espaço urbano e criminalidade: lições da Escola de Chicago. São Paulo: IBCCRIM, 2002.
HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
MARTINS, Carlos Benedito Campos. O Legado do Departamento de Sociologia de Chicago (1920-1930) na Constituição do
Interacionismo Símbólico. Revista Sociedade e Estado - Volume 28, Número 2, 2013.
MARTINS, Carlos Benedito Campos. A contemporaneidade de Erving Goffman no contexto das Ciências Sociais. Revista
Brasileira de Ciências Sociais, vol. 26 n. 77 São Paulo Oct. 2011.
MENDONZA, Edgar S. G. Donald Pierson e a Escola Sociológica de Chicago no Brasil: os estudos urbanos na cidade de São
Paulo (1935-1950). Porto Alegre: Sociologias, ano 7, n. 14, p. 440-470, 2005.
PARK, Robert Ezra. A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano. O fenômeno humano. Trad. de Sérgio
Magalhães Santeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.
PIERSON, Donald. Brancos e Pretos no Brasil: estudo de contato racial. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1945.
ROCHA, Lilian Hahn Mariano. Padrões Locacionais da Estrutura Social: segregação social nas cidades latino-americanas,
algumas considerações. Disponível em:
//observatoriogeogra�coamericalatina.org.mx/egal12/Geogra�asocioeconomica/Geogra�aurbana/224.pdf Acesso em 22 jul.
2019.
TOPALOV, Christian. Para um historicismo re�exivo na história das ciências: o caso da “Escola de Chicago” na Sociologia.
Urbana: Revista Eletrônica do Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a Cidade, Campinas, v. 2, n. 2, p. 1-10, 2007.
Próxima aula
A contribuição teórica e o diálogo de Erving Goffman e Howard Becker a partir da Escola de Chicago.
A importância de Erving Goffman e Howard Becker para a Sociologia Brasileira.
Explore mais
Para compreendermos os modelos das cidades dentro de uma leitura latino-americana, que nos traz diferenças em face do
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modelo estadunidense, leia o texto: Padrões Locacionais da Estrutura Social: segregação social nas cidades latino-americanas,
algumas considerações.
Para pensarmos a questão racial com um olhar descolonial, leia os livros:
Mulheres, raça e classe, de Angela Davis, 2016.
Da Diáspora: Identidades e mediações culturais, de Stuart Hall, 2003.
Assista ao �lme:
PUMP – HISTÓRIAS DO PETRÓLEO. Dir.: Josh Tickell e Rebecca Harrel Tickel, 2014. 88 min. Gênero: Documentário.
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Teorias da Interação Social
Aula 3: A Escola de Chicago e a Sociologia brasileira
Apresentação
O interacionismo simbólico ocupa uma posição de destaque no contexto teórico-metodológico e no processo de
investigação de diversas Ciências Sociais contemporâneas, destacadamente da Sociologia, Antropologia e Psicologia
Social. Nesta aula, apresentaremos determinados elementos históricos e intelectuais que estiveram presentes no longo
processo de formação do interacionismo, na Escola de Chicago.
Para isso, examinaremos também o posterior desenvolvimento do interacionismo simbólico, destacando a interface e
diálogo que gradativamente passou a manter com outras vertentes teóricas contemporâneas do campo das Ciências
Sociais, objetivando o contato com �guras como Erving Goffman e Howard Becker e sua contribuição para a formação do
campo sociológico e antropológico da Escola.
A partir da década de 1970, houve uma expansão do interacionismo simbólico no contexto da Sociologia norte-americana
e, simultaneamente, uma projeção de sua presença no cenário internacional das Ciências Sociais. Apresentaremos de que
forma esse diálogo e essa interação ocorreram no Brasil; quem foram as principais �guras e as obras que in�uenciaram a
Sociologia e a Antropologia brasileira nesse momento e o re�exo na produção acadêmica e nas pesquisas produzidas em
nosso país. Daremos destaque aos estudos de Michel Foucault, acerca das relações de poder como relações
intersubjetivas, e como esses estudos ensejaram a disseminação, no Brasil, do interacionismo de Goffman e da Escola de
Chicago.
Bons estudos!
Objetivos
Enunciar a contribuição teórica e o diálogo de Erving Goffman e Howard Becker a partir da Escola de Chicago;
Identi�car a importância de Erving Goffman e Howard Becker para a Sociologia brasileira.
Os teóricos
Nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, produziu-se uma segunda fase de pesquisadores da Escola de Chicago. Entre
eles citaremos os nomes:
Howard Becker Erving Goffman O antropólogo Lloyde
Warner
Warner, junto aos seus alunos pesquisadores, estudou antropologicamente pequenas comunidades, como Newbodyport,
localizada ao lado de Boston, ou Natchez, no Mississipi. Esses estudos levaram em conta, de forma crítica, as relações raciais
nos Estados Unidos.
Agora vamos nos deter com maior atenção à Howard Becker e Irving Goffman em suas relações com a Escola de Chicago.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
Howard Becker
"Uma das ideias mais importantes era a de que a organização social consiste apenas em
pessoas que fazem as mesmas coisas juntas, de maneira muito semelhante, durante
muito tempo. "
- Becker, 1996, p. 186
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Um pouco da história de Howard Becker
Howard Becker é um dos professores provindos da escola de Chicago na geração após a segunda guerra mundial.
Nesse momento, a Escola de Chicago não se encontra mais territorializada em Chicago, professores como Becker e
Goffman saíram de Chicago para outras Universidades nos Estados Unidos e no mundo. Ou, nas palavras de Becker
(1996), a Escola de Chicago hoje seria “um modo de pensar, uma maneira de abordar problemas de pesquisa que
estão muito vivos e presentes em boa parte do trabalho feito hoje em dia”.
Howard S. Becker nasceu em 18 de abril de 1928 na própria cidade de Chicago provindo de uma família de imigrantes
judeus da Lituânia (VELHO, 2002). Desde os 15 anos trabalhou como pianista pro�ssional nos bares da cidade, fato
que in�uenciou posteriormente na escolha dos seus objetos de pesquisa. Formou-se na Universidade de Chicago em
1946. Sobre a sua obra escrita podemos citar os livros traduzidos para o português pela editora Zahar: Segredos e
Truques da Pesquisa de 2007, Outsiders: estudos da sociologia do desvio, de 2008, Falando da sociedade, de 2009 e
Truques da Escrita, de 2015. Além de nos brindar com trabalhos importantes e críticos na área de Sociologia e
Antropologia, Becker também possuía um contato estreito com a Sociologia brasileira, o que, conforme veremos
adiante, nos rendeu bons frutos.
Becker foi orientado por Everett Hughes, e, segundo o próprio Becker, a sua linhagem acadêmica segue da seguinte forma:
Simmel, Park, Hughes, Becker (BECKER, 1996, p. 188).
Georg Simmel (1858-1918) foi um �lósofo alemão, muito estudado pela Escola de Chicago, pois fez importantes estudos
pioneiros no contexto das cidades e das interaçõessociais.
Becker sempre prezou pela linguagem clara em seus textos, recusando o recurso a termos abstratos, complexos ou
herméticos. Ele reputa esse fato à in�uência e aprendizado direto com seu orientador Hughes que sempre lhe pontuou a
necessidade da clareza na escrita e a superação da escrita cientí�ca hermética (BECKER, 2008).
Qual a proposta que Becker formula?
Uma proposta que Becker formula e dialoga com a Escola de Chicago já a partir da sua formação, desde que se pensava o
interacionismo social, é a ideia de que o que cria as instituições ou organizações sociais é o fato de várias pessoas, em um
determinado contexto, repetirem o mesmo padrão de comportamento por um tempo. As pessoas agem de uma determinada
forma, seguindo determinadas normas a ponto de naturalizá-las, ou seja, a ponto de compreendê-las como parte da “natureza
humana”; são, portanto, as interações repetitivas das pessoas que mantêm as instituições.
Disso decorre que um sistema de parentesco é formado pelas ações de pessoas que fazem as coisas que se supõe que
parentes devam fazer, e que, enquanto o �zerem, teremos um sistema de parentesco. Quando não o �zerem mais, o sistema de
parentesco se torna outra coisa. (BECKER, 1996, 186)
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
Assim é que Becker nos aponta a importância de estudar e pesquisar não apenas os comportamentos padrões repetitivos, mas
também o desvio que traz a possibilidade das mudanças. Becker desenvolveu parte de suas pesquisas antropológicas e
qualitativas dentro de comunidades consideradas desviantes, como o famoso estudo que o autor fez de comunidades de
músicos de jazz e de usuários de maconha.
Erving Goffman
Assim como Becker, Goffman atinge muito prestígio em sua carreira acadêmica, em que pesem as di�culdades passadas.
Orientado também por Hughes, Goffman é canadense e �lho de imigrantes judeus ucranianos, nasceu em 11 de junho de 1922
e faleceu em 20 de novembro de 1982. Foi colega de Becker quando eram estudantes na Escola de Chicago em 1950 e, ainda
que tivessem tomado rumos diferentes, sempre mantiveram contato (VELHO, 2002).
 Um pouco da história de Erving Goffman
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Um pouco da história de Erving Goffman
A tese de doutorado de Goffman na Universidade de Chicago, denominada A Representação do Eu na Vida Cotidiana,
foi premiada e publicada como livro em 1959, e é considerada a obra de fundação do pensamento do autor. Logo em
seguida, em 1961, ele publicou o estudo denominado Manicômio, Prisões e Conventos, obra de grande importância
para diversas áreas do conhecimento, uma vez que trata das relações sociais e subjetividade nas Instituições Totais.
Escreveu, ainda, o livro Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada.
Diversas também foram as passagens de Goffman por Universidades nos Estados Unidos, das quais podemos citar
(Wikipédia, 2019):
• Universidade de Chicago como professor assistente (1952-1953) e professor associado (1953-1954);
• National Institute of Mental Health, como pesquisador visitante (1954-1957);
• Universidade da Califórnia como professor assistente (1957-1959) e professor de Sociologia (1959-1968);
• Universidade da Pensilvânia como professor titular da cadeira Benjamin Franklin de Sociologia e Antropologia, de
1969 a 1982.
Goffman esteve desde o princípio de suas análises interessado em pensar a dinâmica interacional, tema que pode ser
compreendido como um eixo temático em sua produção. Mantém ainda a sintonia com a Escola de Chicago no que se refere à
diversidade e criatividade dos métodos de pesquisa: realizou pesquisas de campo, observação direta, buscou fontes de dados
diversas, até mesmo literárias para atingir a análise pretendida. (MARTINS, 2011).
A perspectiva analítica utilizada por Goffman foi denominada de processo interacional baseado em relações face a face e
possui uma “posição relevante na agenda da teoria social contemporânea, tais como a questão da performance pessoal, a
temática do reconhecimento, a construção de identidade, a emergência de um novo individualismo”, entre outros (MARTINS,
2011, p. 232).
Podemos dizer, portanto, que a atuação temática de Goffman passou pela subjetividade e suas relações intersubjetivas, em
análises voltadas para o Eu e suas representações no cotidiano; pensou ainda nas relações em Instituições Totais que
rechaçam e degradam qualquer tipo de subjetividade, além dos estudos sobre os Estigmas Sociais em sua relação direta
também com a degradação da subjetividade.
A In�uência de Goffman e Becker na Sociologia Brasileira
Segundo Gilberto Velho (2002), os trabalhos de Goffman só começaram a ser conhecidos no Brasil em meados da década de
1960; em virtude do momento histórico em que vivíamos no país naquele momento, a obra encontrou alguma resistência, uma
vez que os pensadores estadunidenses eram identi�cados com o imperialismo e muitas vezes com o Regime Militar iniciado
em 1964. Prevaleciam no Brasil as análises macropolíticas, estruturalistas e marxistas.
Entretanto, a chamada contracultura da década de 1960 trouxe à atenção o aspecto micropolítico, cotidiano e subjetivo das
relações sociais, se aproximando, assim, do interacionismo no qual Goffman e Becker possuíam raízes.
Foi a disseminação no Brasil dos trabalhos de Michel Foucault, com estudos
acerca das relações de poder como relações intersubjetivas, que abriram
caminho para o interacionismo de Goffman (VELHO, 2002).
A aproximação da área da Psicologia no Brasil com os estudos de Goffman, principalmente com o livro Manicômio, Prisões e
Conventos, foi muito importante para a recepção da obra do autor no país a partir de 1970. Entretanto, não foram apenas os
estudos da Psicologia e da subjetividade que se abriram para a produção dos interacionistas da Escola de Chicago – Becker e
Goffman. A Sociologia brasileira também o fez na década de 1970, principalmente apoiada na disseminação dos trabalhos pelo
professor Gilberto Velho.
Velho foi aluno especial em 1971 no Departamento de
Antropologia na Universidade do Texas em Austin onde teve
contato profundo com as obras de Goffman e os estudos de
Becker sobre a teoria do desvio e do etiquetamento, que
posteriormente seriam tão importantes para o seu trabalho.
Ao voltar para o Brasil, o professor tratou de divulgar as
obras dos interacionistas sociais (VELHO, 2002), e em 1974
ele editou e publicou a coletânea Desvio e Divergência: uma
crítica da patologia social, com artigos dele e de outros
pesquisadores, inclusive de alguns de seus alunos, tendo
como referência central o trabalho dos dois norte-
americanos aqui analisados.
 Gilberto Velho | Fonte: https://www.travessa.com.br
Foi a partir desse livro que o contato pessoal entre Gilberto Velho e Howard Becker se estreitou. Velho (2002) nos conta que
Richard Krasno, que trabalhava na Fundação Ford à época, elogiara o livro Desvio e Divergência e pediu para remetê-lo ao seu
amigo Becker, o que foi feito. Segundo Gilberto Velho nos conta, Becker conhecia a língua espanhola e se esforçou em aprender
o português para ler o livro. Desde então, são diversos os elogios públicos que Becker tece ao trabalho do professor brasileiro e
sempre ressalta a importância do viés dado por Gilberto Velho à sua teoria do Desvio. Velho voltou a análise do desvio para a
acusação e introduziu o questionamento “quem acusa?” e, em última, instância, quem etiqueta o sujeito?
Em 1976, Gilberto Velho, a convite de Becker, permanece por um mês como visitante especial no Departamento de Sociologia
da Northwestern University onde Becker lecionava. No segundo semestre daquele mesmo ano é a vez de Becker vir ao Brasil
como professor visitante no Museu Nacional. Becker retornou ao Brasil em 1978 e 1990, mas manteve sempre o contato com o
amigo brasileiro, recebendo ainda estudantes de doutorado em sua Universidade. Ele também traduziu textos do sociólogo
brasileiro Antônio Candido de Mello e Souza, entre outras trocas transatlânticas.A visita de Becker em 1978 foi acompanhada por Irving Goffman quando ambos vieram para o I Simpósio Internacional de
Psicanálise, Grupos e Instituições.
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Assim é que a importância desses professores cujas raízes encontramos na Escola de Chicago é inegável para a Sociologia
brasileira. Para �nalizar, citamos Gilberto Velho (2002, p. 14):
"Becker e Goffman são hoje autores fundamentais dentro da antropologia que se faz no
Brasil, particularmente nos trabalhos voltados para os estudos urbanos e para a temática
ampla de indivíduo e sociedade. No entanto, são citados em trabalhos das mais variadas
naturezas que, de algum modo, se aproximam ou dialogam com o interacionismo e,
mais particularmente, que se refere à singularidade da contribuição de cada um deles.
Em se tratando de trabalho de campo, as pesquisas de Becker com músicos do jazz e
com usuários de maconha, e a de Goffman num hospital psiquiátrico, com as suas
reflexões sobre instituições totais, são referências constantes."
A contracultura foi um movimento social contextualizado na década de 1960, mais intensamente localizado nos Estados
Unidos e em alguns países da Europa como a França. Através da utilização dos novos meios de comunicação e mídia de
massa, difundia a contestação de valores sociais arraigados nas gerações anteriores àquela década. É um movimento a�m à
juventude da época, e que teve repercussões políticas, como o apoio ao �m da guerra contra o Vietnã, ao movimento pelos
Direitos Civis, ou o conhecido como Maio de 68 na França.
Agora que você já conheceu e estudou os principais caminhos seguidos pelos pesquisadores da Escola de Chicago, assim
como a diversidade metodológica de suas pesquisas urbanas, propomos a seguinte atividade: faça uma re�exão sobre a
cidade onde vive e formule um problema de pesquisa utilizando os mais diversos métodos de pesquisa empírica e
interdisciplinar com vistas a compreender melhor algum aspecto da sua cidade.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
 Atividade
1 - A Escola de Chicago se caracterizou por:
a) Basear-se fortemente em trabalhos quantitativos.
b) Desenvolver predominantemente uma sociologia rural.
c) Criar teorias dedutivas sobre os fenômenos sociais.
d) Rejeitar dimensões subjetivas dos indivíduos em suas análises.
e) Investigar temas relacionados à imigração e relações étnicas.
2 - O surgimento da Escola de Chicago está diretamente ligado ao processo de desenvolvimento da cidade de Chicago no início
do século XX. Como consequência, a Escola de Chicago:
a) Inaugurou um novo campo de pesquisa sociológica, centrado nos fenômenos urbanos.
b) Desconsiderou a importância do uso sistemático dos métodos empíricos em suas pesquisas.
c) Levou à constituição da chamada sociologia indigenista como ramo de estudos especializados.
d) Tinha como principais objetos de estudo as relações sociais, o marxismo e a produção cultural.
e) Propunha um conceito de sociedade formado por instâncias autônomas e interdependentes.
3 - Pesquise sobre o principal conceito de Goffman – Estigma. 
Referências
ALMEIDA, Lucélia Oliveira. A in�uência dos pressupostos da teoria da ecologia criminal da Escola de Chicago para a elaboração
das ações de segurança pública para o centro histórico de Salvador. 34f. 2013. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Direito,
Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2013.
BAGATELLA, Wagner. Análise espacial dos condicionantes da criminalidade violenta no estado de Minas Gerais – 2005:
contribuições da geogra�a do crime. Dissertação (Mestrado em Geogra�a). PUC/MG – Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais, MG, 2008.
BARCELAR, Jeferson. Donald Pierson e os Brancos e Pretos na Bahia. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 3, n. 7, p.
129-143, nov. 1997.
BECKER, Howard. A Escola de Chicago. MANA 2(2):177-188, 1996.
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FREITAS, Wagner Cinelli de Paula. Espaço urbano e criminalidade: lições da Escola de Chicago. São Paulo: IBCCRIM, 2002.
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HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
MARTINS, Carlos Benedito Campos. O legado do departamento de sociologia de Chicago (1920-1930) na constituição do
interacionismo simbólico. Revista Sociedade e Estado - Volume 28, Número 2, 2013.
MARTINS, Carlos Benedito Campos. A contemporaneidade de Erving Goffman no contexto das ciências sociais. Revista
Brasileira de Ciências Sociais, vol. 26 n.77, São Paulo Oct. 2011.
MENDONZA, Edgar S. G. Donald Pierson e a escola sociológica de Chicago no Brasil: os estudos urbanos na cidade de São
Paulo (1935-1950). Porto Alegre: sociologias, ano 7, n. 14, p. 440-470, 2005.
PARK, Robert Ezra. A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano. O fenômeno humano. Trad. de Sérgio
Magalhães Santeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.
PIERSON, Donald. Brancos e Pretos no Brasil: estudo de contato racial. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1945.
ROCHA, Lilian Hahn Mariano da. Padrões locacionais da estrutura social: segregação residencial nas cidades latino-americanas
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- algumas considerações. Disponível em:
//observatoriogeogra�coamericalatina.org.mx/egal12/Geogra�asocioeconomica/Geogra�aurbana/224.pdf. Acesso em 25 jul.
2019.
VELHO, Gilberto. Becker, Goffman e a antropologia no Brasil. Florianópolis, v.4, n.1, julho de 2002.
Wikipédia. Chicago. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Chicago. Acesso em 25 julho 2019.
Próxima aula
As correntes sociológicas brasileiras e seus principais teóricos.
Explore mais
Para compreender um pouco mais a relação entre a mídia, as drogas e a contracultura da década de 1960, sugerimos a leitura
da comunicação de César Carvalho: Contracultura, Drogas e Mídia.
Para saber mais sobre o processo de formação do interacionismo e o posterior desenvolvimento do interacionismo simbólico,
destacando o diálogo com outras vertentes teóricas contemporâneas do campo das ciências sociais, leia a “Apresentação”, de
Carlos Benedito Campos Martins, ao Dossiê Sociedade e Estado, publicação do Departamento de Sociologia da Universidade
de Brasília, Soc. estado. vol.28 no.2 Brasília May/Aug. 2013.
Para ter acesso aos bastidores da participação de Goffman e Becker no “I Simpósio Internacional de Psicanálise, Grupos e
Instituições”, realizado no Brasil em 1978, sugerimos a leitura de VELHO, Gilberto. Becker, Goffman e a Antropologia no Brasil.
Florianópolis, v.4, n.1, julho de 2002.
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Teorias da Interação Social
Aula 4: A Sociologia do Desvio
Apresentação
Nesta aula, abordaremos a chamada Sociologia do desvio, por meio da abordagem que privilegia as interações humanas e
seus efeitos nas instituições sociais.
Para isso, recorreremos às obras de duas importantes �guras da Escola de Chicago, os sociólogos Howard Becker e Irving
Goffman. Demonstraremos de que forma a Sociologia analisa o comportamento denominado desviante, trazendo os
principais teóricos e pesquisadores do campo da Sociologia que contribuíram com esses estudos e sua relação com o
interacionismo simbólico.
Objetivos
Identi�car a noção de Desvio para a Sociologia;