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19 2 Desenvolvimento e mobilidade sustentáveis Lucilene Moreira Pedro Marcelino Aurélio Vieira da Silva Licinio da Silva Portugal Resumo O processo de urbanização acelerado e desordenado, característico das cidades brasi- leiras, principalmente nas de maior porte, contribuiu para aumentar a complexidade que envolve o atendimento das necessidades de deslocamento da população. Em tal contexto, a preocupação com a sustentabilidade torna-se uma referência no planejamen- to dos transportes integrado ao desenvolvimento urbano. Nesse sentido, este capítulo tem o objetivo de apresentar alguns dos principais conceitos sobre desenvolvimento e mobilidade sustentáveis, fundamentais para a realização de um planejamento urbano sintonizado com os princípios da sustentabilidade. Esse tema possui relevância no âmbito nacional, pela Lei de Mobilidade Urbana de 2012, e internacional, com medidas frequentes da ONU e União Europeia, por meio de reuniões e publicações de guias e legislações a fi m de promover a mobilidade sustentável. Palavras-chave : desenvolvimento , mobilidade , sustentabilidade , desenvolvimento sustentável , mobilidade sustentável , transporte , acessibilidade. 2.1 . Considerações iniciais Globalmente, mais pessoas vivem em áreas urbanas (54% da população mundial) do que nas áreas rurais ( ONU, 2014; World Bank, 2016a ). Em 1950, eram 30% da população vivendo em meio urbano e, para 2050, a projeção é de 66% ( ONU, 2014 ). Entre as regiões mais urbanizadas estão a América do Norte (82%), a América Latina e o Caribe (80%) e a Europa (73%). Em contraste, entre as regiões menos urbanizadas estão África e Ásia, com apenas 40% e 48%, respectivamente. O aumento da urbanização é esperado em todas as regiões nas próximas décadas. No Brasil, a expectativa é de que as cidades tenham, nos próximos 30 anos, cerca de 30 milhões de habitantes a mais ( Silva e Romero, 2015 ). A rapidez da urbanização traz desafi os em relação à moradia, sistema de transporte e outras infraestruturas e serviços básicos. Segundo o Banco Mundial, mais de 80% do PIB global está nas cidades. Elas consomem cerca de 2/3 da energia mundial e emitem mais de 70% de gases poluentes. Nesse contexto, são necessárias políticas integradas para melhorar a vida da população ( ONU, 2014; World Bank, 2016a ). C0010.indd 19C0010.indd 19 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 20 Desse modo, a construção de cidades – que trabalhem de forma inclusiva, segura, resiliente e sustentável – requer uma coordenação política intensiva, além de processos de decisão transparentes, participativos e respaldados tecnicamente a fi m de garantir um adequado uso dos recursos públicos. Assim, a urbanização estará alinhada com a qualidade de vida nas cidades ( World Bank, 2016a ), com objetivos coletivos que ex- pressem o interesse da sociedade, mensurados de forma multidimensional, considerando temas como saúde, estabilidade econômica, habitabilidade e bem-estar social ( Higgins e Campanera, 2011 ). Portanto, viver em uma cidade sem poluição, sem congestionamento e com possibilidade de se deslocar de forma fácil, realizada em tempo adequado, segura e acessível a toda a população, faz parte da qualidade de vida que uma cidade pode oferecer aos seus cidadãos. O resultado da Conferência Rio +20, “O futuro que queremos”, reconheceu que as cidades podem caminhar na direção econômica, social e ambientalmente sustentável, mas para isso, é necessária uma abordagem holística no planejamento e na gestão urbana, com vistas a melhoria dos padrões de vida das populações urbanas e rurais. A urbanização sustentável requer que as cidades gerenciem melhores oportunidades de renda e de emprego, expansão da infraestrutura para água e saneamento, energia, transporte, informação e comunicações; assegurem a igualdade de acesso aos serviços; reduzam o número de pessoas vivendo em favelas; e preservem os recursos naturais dentro e nos arredores da cidade. Em relação à infraestrutura de transportes, considera-se que a expansão da indústria automobilística, nos países em desenvolvimento, trouxe como consequência o aumento de veículos privados em circulação na via urbana. Por isso, são necessárias políticas de incentivo ao transporte público, bem como do controle do uso do solo, a fi m de que haja a utilização racional do espaço urbano, além de alternativas para transportes sus- tentáveis como o não motorizado ( Jones, 2014 ). Portanto, os governos devem formular e implementar políticas, com a fi nalidade de assegurar que os benefícios do crescimento urbano sejam compartilhados de forma democrática, equitativa e sustentável ( ONU, 2014 ). Deste modo, devem atender a necessidade de deslocamentos da população, fornecendo condições de acessibilidade que valorizem a integração entre transportes e uso do solo, promovendo a mobilidade e o desenvolvimento urbano sustentáveis ( Banister, 2008 ). Nesse contexto, é fundamental entender alguns dos principais conceitos sobre esta temática, a serem abordados nos próximos itens. 2.2 . Desenvolvimento sustentável Segundo Soares Jr. e Quintella (2008) , o conceito de desenvolvimento já era utilizado nas civilizações antigas. As sociedades greco-romanas, no século XIX, o usavam como um construto genérico que designa os mais variados aspectos relacionados com o bem-estar da humanidade. No entanto, a partir do século XX, com o processo de C0010.indd 20C0010.indd 20 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Desenvolvimento e mobilidade sustentáveis 21 internacionalização de comércio, a questão do desenvolvimento assumiu novas formas, culminando com a criação da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desen- volvimento (UNCTAD), em dezembro de 1964, a partir das preocupações crescentes dos países em desenvolvimento sobre o comércio internacional. O termo “desenvolvimento” está relacionado a signifi cados como aumento, cres- cimento, progresso e ampliação, envolvendo por um lado a escassez de recursos a serem consumidos e, por outro, as múltiplas e tipicamente confl itantes demandas a serem atendidas. Em tais condições, o desenvolvimento tende a ser abordado sob diferentes perspectivas, dentre as quais as de natureza econômica, humana, ambiental, social, política e cultural ( Greenfi eld, 2016 ). Além disso, observa-se uma evolução do conceito de desenvolvimento ao longo do tempo de acordo com as preocupações e necessidades da humanidade, bem como com a capacidade de compreender e mo- delar os componentes e relações intervenientes. Se o desenvolvimento já esteve mais vinculado aos aspectos econômicos, outras dimensões, como a social e a ambiental, têm sido incorporadas e também valorizadas de forma articulada sob o prisma da sustentabilidade. Nesse sentido, segundo Bresser-Pereira (2008) , o desenvolvimento econômico está relacionado com a acumulação de capital, somando-se à incorporação de progresso técnico ao trabalho e ao capital, levando ao aumento da produtividade, dos salários, e do padrão médio de vida da população. O acréscimo da renda por habitante é considerado a medida desse desenvolvimento. Por isso, existe uma identifi cação entre desenvolvimento econômico e crescimento econômico. Entretanto, crescimento eco- nômico signifi ca o simples aumento de renda, enquanto o desenvolvimento econômico signifi ca outros progressos, como aumentos nos investimentos no país. Portanto, o desenvolvimento econômico é caracterizado por mudanças estruturais na sociedade e na economia de um país ou de uma cidade, com efeitos na distribuição de renda e na qualidade de vida das pessoas. O conceito de desenvolvimento econômico apresentou alguns marcos no que tange aos impactos na vida das populações. Em 1972, houve o início de um movimento relacionado à preocupação com a sustentabilidade, culminado coma Declaração de Estocolmo. Nesse documento, foram defi nidos 26 princípios para a preservação e melhoria do meio ambiente. O princípio 2° afi rma que “a proteção e o melhoramento do meio ambiente é uma questão fundamental que afeta o bem-estar dos povos e o desenvolvimento econômico do mundo inteiro, um desejo urgente de todos os povos de todo o mundo e um dever de todos os governos”. No ano de 1987, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento ( World Commission on Environment and Development – WCED, promovido pela ONU) publicou um relatório intitulado Nosso Futuro Comum ( Our Common Future – também conhecido como Relatório Brundtland) com a defi nição de que o desenvol- vimento sustentável é o que contenta as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades. C0010.indd 21C0010.indd 21 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 22 Portanto, espera-se que com o “desenvolvimento sustentável”, a prosperidade econômica não comprometa a qualidade de vida das populações futuras, o que exige contemplar outras dimensões. É convencionado, a partir do Relatório Brundtland, que a sustentabilidade possui três dimensões – econômica, social e ambiental, as quais devem estar equilibradas ( World Bank, 2016b ) e inter-relacionadas. A Tabela 2.1 apresenta algumas caracterís- ticas dessas dimensões: A sustentabilidade, como já citado, enfatiza a integração das três dimensões, neces- sitando de planejamento coordenado entre diferentes setores, grupos e jurisdições. Isso expande os objetivos, impactos e opções a serem considerados no processo de planejamento. Em consequência, auxilia que a tomada de decisão de curto prazo seja consistente com as metas estratégicas de longo prazo ( Hall, 2006 ; Litman, 2015 ). Explorando essas três dimensões do desenvolvimento sustentável, o World Bank (2016b) acrescenta: • Econômico: considera aspectos econômicos (como produtividade, desenvol- vimento e eficiência) e ações de impacto no sistema que determinam como os recursos podem ser utilizados para melhorar a vida das pessoas, além da distribuição dos mesmos. Um indicador utilizado para mensurar a dimensão econômica é o PIB per capita. • Social: reconhece ações de impacto direto nas pessoas, o que pode ajudar ou difi cultar o processo de melhoria de qualidade de vida, representada pela cultura, segurança e saúde, igualdade e justiça. A dimensão social pode ser indicada pela expectativa de vida. • Ambiental: assume ações de impacto nos recursos naturais, renováveis e não renováveis, que compõem o meio ambiente, ajudam a melhorar a vida das pes- soas e precisam ser preservados e conservados. Um indicador desse aspecto pode ser o acesso à água potável ou emissão de gases poluentes. Litman (2015) e Unesco (2016) acrescentam uma quarta dimensão a ser equilibrada na sustentabilidade, a do aspecto político ou institucional, o qual interage com os outros, criando equilíbrio entre: produção e consumo; ecologia e economia; desenvolvimento e Tabela 2.1 Dimensões de sustentabilidade Econômica Social Ambiental Produtividade econômica Equidade/justiça Prevenção e mitigação da mudança climática Desenvolvimento econômico local Segurança e saúde Prevenção de poluição de ar, água e ruído Efi ciência de recursos Desenvolvimento comunitário Conservação de recursos não renováveis Efi ciência operacional Preservação da herança cultural Proteção da biodiversidade e espaços abertos Fonte: Adaptado de Litman (2015) . C0010.indd 22C0010.indd 22 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Desenvolvimento e mobilidade sustentáveis 23 conservação; cultura e ecologia; e democracia e economia. No entanto, neste trabalho, dar-se-á foco às três dimensões tradicionais (econômica, social e ambiental). Alguns autores como Seabra (2013) e VTDI (2015) dissertam que não há um con- senso sobre a defi nição de sustentabilidade, pois a mesma evolui com o tempo. No entanto, o conceito essencial, contido no Relatório Brundtland, é amplamente aceito e utilizado, sendo, portanto, a defi nição adotada nesse trabalho. Entretanto, mesmo reconhecendo-se a relevância de cada uma das três dimensões para a sustentabilidade, Dempsey et al . (2011) chamam a atenção para um maior destaque dado aos aspectos ambientais e a uma menor consolidação do conceito de sustentabilidade social urbana, que deve ser mais bem explorado. Nesta direção, ressalta-se o princípio da acessibilidade equitativa e da autonomia, que serão valorizados neste livro (Capítulos 4 e 5), inclusive pela situação relativamente mais crítica que envolve a dimensão social em cidades dos países em desenvolvimento, como o Brasil ( Portugal et al ., 2010; Cervero, 2013 ). Além disso, para Hall (2006) , o conceito de sustentabilidade modifi ca a abordagem internacional para o desenvolvimento. Assim, tem-se a noção de desenvolvimento como a incorporação de conceitos relacionados a: 1) paz e segurança; 2) desenvolvimento econômico; 3) desenvolvimento social; e 4) governança nacional que assegura a paz e o desenvolvimento. Estes conceitos formam o que Dernbach (1998) chama de “desen- volvimento convencional”. A Tabela 2.2 mostra como cada conceito é tratado. Portanto, o conceito de desenvolvimento foi evoluindo ao longo dos anos. Na história recente, a partir da Segunda Guerra Mundial, conforme mostra a Tabela 2.2 , onde foram criadas instituições fi nanceiras internacionais a fi m de promover o desenvolvimento econômico, com a ideia de que esse desenvolvimento só poderia acontecer em um ambiente favorável (de paz e segurança). A partir daí, afl ora a consciência de que o desenvolvimento não deveria ser só econômico, mas também, sustentável, levando em conta os direitos humanos, meio ambiente e marco institucional (paz e governança). Tabela 2.2 Os conceitos do modelo de desenvolvimento convencional Conceitos de desenvolvimento Comentários Paz e segurança O reconhecimento internacional da necessidade de paz e segurança teve como marco a formação da Organização das Nações Unidas (ONU), após a Segunda Guerra Mundial, em 1945. Desenvolvimento econômico O desenvolvimento econômico é visto pelos países e comunidade internacional como sendo o componente mais importante do desenvolvimento. Isso foi estabelecido com a formação de várias instituições fi nanceiras após a Segunda Guerra Mundial. Desenvolvimento social O conceito de desenvolvimento social está relacionado aos “direitos humanos”. Por exemplo, promovendo “padrões de vida mais elevados para a população, pleno emprego, condições de progresso e desenvolvimento econômico e social”. Governança nacional que garanta a paz e o desenvolvimento Em 4 de dezembro de 1986, a Assembleia Geral da ONU destacou o importante papel da governança nacional no desenvolvimento; isso foi feito por meio da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Fonte: Adaptado de Hall (2006) . C0010.indd 23C0010.indd 23 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 24 Em relação ao Brasil, entre 1940 a 1980, segundo Maricato (2000) , houve um cres- cimento econômico acelerado sem, contudo, a preocupação com a igualdade social. Consequentemente, nas décadas seguintes (1980 e 1990) houve o declínio econômico, em uma sociedade desigual, aprofundando a exclusão social, com desemprego e violência, refl etida nas cidades. Por isso, Rosseto et al . (2006, p. 809) concluíram que “a acelerada urbanização transforma os espaços naturais e interfere no meio ambiente, apresentando resultados desastrosos tanto nos ecossistemas quanto na qualidade de vida das pessoas”. No entanto, a alta densidade nas cidades pode trazer ganhos de efi ciência e inovação tec- nológica, reduzindo o consumo de recursos não renováveis e de energia. Nesse contexto, a ONU (2015)propôs objetivos para o Desenvolvimento do Milênio. Isso foi determinado com metas para os anos de 2030 e 2040, a fi m de promover o crescimento econômico, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos. Além disso, foi formulado um plano de ação, baseado nos objetivos do Desenvolvimento do Milênio, e denominado como a Agenda 2030, que dá ênfase aos seguintes temas: • Pessoas: acabar com a fome e pobreza para que todos os seres humanos tenham igualdade e dignidade em um meio ambiente saudável. • Planeta: proteger o planeta da degradação, com o consumo e produção sus- tentável, além de medidas urgentes em relação ao clima. • Prosperidade: para que todos os seres humanos possam desfrutar de uma vida próspera, com progressos tecnológicos, sociais e econômicos em harmonia com a natureza. • Paz: para uma sociedade justa, inclusiva e pacífi ca. Livre do medo e da violência. • Parceria: mobilização para uma solidariedade global, com o foco coletivo e com a preocupação maior nas comunidades mais vulneráveis. Assim, para o desenvolvimento sustentável ser atingido, será necessário, por um lado, a promoção de melhor distribuição de renda e redução das desigualdades, compreen- dendo a democratização do conhecimento – acesso à informação e à formação – bem como da tecnologia colocadas à disposição da sociedade. Por outro lado, que as infra- estruturas e serviços urbanos, como os de transportes, sejam vistos como um recurso público e limitado, cujo planejamento deve considerar, na promoção da mobilidade, as três dimensões da sustentabilidade de forma integrada. 2.3 . Mobilidade sustentável Conforme apresentado no Capítulo 1 , o transporte, com suas infraestruturas e serviços, fornece acesso que, junto ao uso do solo, promove as condições de acessibilidade. Estas impõem uma impedância para a realização das viagens, cuja superação depende das carac- terísticas físicas e socioeconômicas das pessoas, determinando a mobilidade das mesmas. Ou seja, a mobilidade resulta da interação entre as características individuais e as condições de acessibilidade, que dependem da integração entre transportes e uso do solo. C0010.indd 24C0010.indd 24 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Desenvolvimento e mobilidade sustentáveis 25 Dessa forma, transporte, acessibilidade e mobilidade estão relacionados e, talvez por isto, seus conceitos são frequentemente usados de forma indiscriminada e confusa ( Handy, 2002 ). No entanto, Magalhães et al . (2014) afi rmam que as confusões e dúvidas nas conceituações de transporte acontecem devido ao desenvolvimento relativamente recente desse campo de estudo (início do século XX). No Capítulo 1 , procurou-se abordar, sucintamente, esses elementos a fi m de propor- cionar um panorama geral sobre os mesmos. O Capítulo 4 destaca a acessibilidade. Neste Capítulo 2, a pretensão é enfatizar os transportes e a mobilidade com foco na sustentabilidade, considerando que transporte e mobilidade, sendo efi cientes, auxiliam a promover o desenvolvimento econômico, como também podem ser planejados e concebidos para contribuir com o desenvolvimento sustentável. Sobre a conceituação de transportes, Magalhães (2010) afi rma que existem vários autores que escrevem sobre este tema, contudo, não o defi nem. A seguir, destacam-se algumas descrições relacionadas aos transportes. Com base na Tabela 2.3 , pode-se considerar que “o transporte proporciona acesso, ao permitir a movimentação de pessoas e mercadorias entre localidades, por meio de suas infraestruturas e serviços das diferentes modalidades destinadas a atender as necessidades de viagens, levando em conta a efi ciência operacional e a viabilidade econômica”. Algumas descrições ressaltam a infl uência dos transportes no uso do solo e no modo de vida da sociedade. Por outro lado, há uma preocupação em caracterizar o transporte sustentável, como indica a Tabela 2.4 , adaptada de VTPI (2016) . Desta maneira, espera-se uma abordagem equilibrada para se determinar o transporte sustentável que, de acordo com VTPI (2015), deve observar alguns aspectos derivados das três dimensões da sustentabilidade, como os apresentados na Tabela 2.5 . No entanto, as intervenções nos transportes com este foco, apesar de muito impor- tantes, não são sufi cientes para que os usuários escolham as modalidades mais sus- tentáveis. Além disso, os impactos não são determinados, apenas, pelas modalidades Tabela 2.3 Descrições relacionadas aos transportes 1 Morlock, 1978 Aplicação da ciência matemática pela qual as propriedades da matéria e das fontes de energia na natureza são utilizadas para movimentar passageiros e mercadorias de forma útil à sociedade. 2 Papacostas e Prevedouros, 1993 As instalações físicas, as entidades de fl uxo e o sistema de controle que permitem às pessoas e mercadorias vencerem a fricção do espaço geográfi co de forma efi ciente, possibilitando participar, tempestivamente, em alguma atividade desejada. 3 ITE, 2009 Proporciona as instalações para a movimentação de pessoas e bens, como também infl uencia no uso do solo e consequentemente na forma como se vive. 4 Magalhães, 2010 Depende de três elementos: o sujeito que possui a necessidade de deslocamento, o objeto a ser deslocado e o meio de transporte que fará o deslocamento do objeto. 5 Litman, 2011 O objetivo do transporte é o acesso, a habilidade de alcançar produtos, serviços e atividades. Fonte : Adaptado de Magalhães (2010) . C0010.indd 25C0010.indd 25 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 26 selecionadas. Existem outras escolhas envolvidas na programação das viagens, como por exemplo, se realiza ou não o deslocamento para desenvolver suas atividades, e, se sim, o destino e o horário. Ou seja, tais escolhas produzem padrões de viagens que determinam os impactos, sendo infl uenciadas pelos transportes, mas também pelo uso do solo, que caracterizam a acessibilidade. Este é um fator fundamental para explicitar os limites do transporte sustentável na promoção da mobilidade sustentável, realçando o papel da acessibilidade (ao incluir uma articulação com o uso do solo) e a necessidade de valorizá-la nesse processo de planejamento, como abordado nos Capítulos 4 e 5. Nesse sentido, o uso do solo e os transportes confi guram a acessibilidade, que quando devidamente concebida, pode proporcionar melhora na mobilidade e na qualidade de vida por meio de acesso ao trabalho, estudo, habitação, lazer, serviços etc., causando movimentos e interações socioespaciais, em condições que minimizem as internalidades e externalidades envolvidas nos deslocamentos. Portanto, para promover uma melhora da mobilidade , deve-se atentar não somente para a melhoria da infraestrutura física nas três dimensões da sustentabilidade, mas também, Tabela 2.4 Defi nições de transporte sustentável Autores Defi nição Conferência de Ministros Europeus de Transporte É aquele que possui custo justo, segurança e é ambientalmente amigável e acessível. Transport Canada Busca garantir que as dimensões ambiental, social e econômica sejam consideradas nas decisões que afetam a atividade de transporte. União Europeia Deve permitir que as necessidades de acesso e desenvolvimento básicos dos indivíduos, das empresas e da sociedade sejam atendidas de forma segura, promovendo a equidade. Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) É aquele que não coloca em perigo a saúde pública ou ecossistemas, e que atenda às necessidades de acesso. Associação de Transportes do Canadá Considera as três dimensões da sustentabilidade, para que haja a promoção de limites de consumo de recursos e emissões de poluentes, promoção da igualdade social e efi ciência econômica. Fonte : Adaptado de VTPI (2015). Tabela 2.5 Aspectos a serem consideradosno planejamento de transporte em relação aos objetivos de sustentabilidade Econômico Social Ambiental Congestionamento Barreiras Acidentes Custo de infraestrutura Tarifa Esgotamento de recursos não renováveis Desigualdade Mobilidade para defi cientes Impactos na saúde Coesão comunitária Habitabilidade Estética Poluição do ar Mudança climática Perdas no meio ambiente Poluição da água Impactos hidrológicos Poluição sonora Fonte : Adaptado de VTPI (2015). C0010.indd 26C0010.indd 26 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Desenvolvimento e mobilidade sustentáveis 27 incentivar que os usuários escolham as alternativas de transporte sustentável , o que envolve a inclusão do uso do solo e das consequentes condições de acessibilidade fornecidas. Quanto à mobilidade urbana, assim como ocorre com transporte, também não há, na literatura, uma defi nição clara para este termo, às vezes sendo usado como sinônimo de transporte, conforme registra Azevedo Filho (2012) . Seguem algumas descrições na Tabela 2.6 . As descrições da mobilidade apresentadas na Tabela 2.6 confi rmam a variedade de aspectos contidos na caracterização deste conceito e a difi culdade de distingui-la com Tabela 2.6 Descrições de mobilidade urbana Fonte Descrição c Hansen, 1959 ; Handy, 1994 É o potencial para o movimento, a capacidade de ir de um lugar para outro. b Morris et al. , 1979 É a capacidade do indivíduo de se locomover de um lugar ao outro e isso depende da disponibilidade de tipos de modos de transporte, inclusive a pé. b Akinyemi e Zuidgeest, 1998 É aquela que relaciona viagens atuais ou viagens feitas, utilizando as seguintes medidas: a) número de quilômetros por viagem por pessoa; b) número de viagens por pessoa por dia; c) número de quilômetros percorridos por pessoa por modo; d) número de viagens por dia por pessoa por modo. c Picket et al. , 2000 É a qualidade ou estado de ser “móvel“ e ”móvel“ é a ”capacidade de se mover ou de ser movido facilmente de um lugar para outro”. c Oxford English Dictionary, 2002 É a capacidade de se mover ou ser movimentado, facilidade de movimento. a ANTP, 2003 É infl uenciada pelas dimensões do espaço urbano, complexidade de atividades. Litman, 2003 ; GTS, 2007 Refere-se ao movimento de pessoas e produtos, sendo usualmente mensurada por número de viagens por dia e por pessoa (viagens/pessoa), mas também pode incluir quilômetros por pessoa (km/pessoa) ou toneladas por quilômetro (ton/km), média de tempo de viagens e custo por pessoa. a Brasil - Ministério das Cidades, 2006 É um atributo associado à cidade, e corresponde à facilidade de deslocamento de pessoas e bens na área urbana. Traduz as relações dos indivíduos com o espaço que habitam, com os objetos e meios empregados para seu deslocamento e com os demais indivíduos que integram a sociedade. a Euroforum, 2007 É a capacidade em participar de diferentes atividades em diferentes lugares. E ainda, a possibilidade de acesso às atividades relacionadas à produção de bens e a sua comercialização, a qual ocorre, frequentemente, em diferentes lugares. a Bertolini et al. , 2008 É o resultado do fl uxo de pessoas e de bens e, tem implicação sobre o ambiente local e global, sobre a qualidade de vida e sobre o desempenho econômico das cidades. Alves e Raia Jr., 2009 Está relacionada com deslocamentos diários (viagens) de pessoas no espaço urbano. Não apenas a ocorrência, mas também, a facilidade e a possibilidade de ocorrência. Machado, 2010 É um conceito vinculado às pessoas ou mercadorias que desejam deslocar-se ou que se deslocam. a Adaptado de Costa, 2008. b Adaptado de Alves e Raia Jr., 2009. c Adaptado de Handy, 2002 . C0010.indd 27C0010.indd 27 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 28 defi nições de termos próximos, mas com signifi cados diferentes - como transportes e acessibilidade. Isto reforça a importância de se buscar delimitar, de forma mais precisa, o domínio de cada um desses elementos. Dentre as descrições da mobilidade, são citadas sentenças como “facilidade de se deslocar” e “capacidade de acesso a atividades” que, de fato, infl uenciam a mobilidade, porém não a expressam. Tais citações estão relacionadas, fundamentalmente, à acessibilidade (facilidade de alcançar atividades, o que envolve transporte e uso do solo) bem como às características físicas e socioeconômicas dos indivíduos (que determinam a capacidade das pessoas em superar a impedância imposta pela acessibilidade e se deslocar para realizar suas atividades). Além disso, há citações que associam, com maior frequência, a mobilidade ao indivíduo, e ainda, pode ser estendida a uma localidade, resultante da soma das mobilidades individuais. Outros termos descritos são associados, predominantemente, ao movimento, aos deslocamentos e viagens. Litman (2003) e GTS (2007), inclusive, sugerem indicadores associados a padrões de viagens para medir a mobilidade. Neste livro, a pretensão é que se atribua à mobilidade “o signifi cado de mo- vimento ou movimentação de pessoas e bens expresso pelos padrões de viagens, individuais ou de uma localidade, em termos de quantidade, mas também qualidade, considerando não só as internalidades (usuários) como as externalidades (socieda- de)”. Um desafi o é o de estabelecer que mobilidade (representada pelos padrões de viagens) contribui para eliminar ou minimizar os impactos que afetam e prejudicam a sustentabilidade. Enfrentar o desafi o da mobilidade urbana exige uma mudança de paradigma no planejamento urbano, promovendo cidades compactas com atividades mais próximas e conectadas, como uma forma de aumentar a acessibilidade das modalidades mais sustentáveis e reduzir a necessidade de transporte motorizado ( ONU-Habitat, 2016 ). No entanto, o viés global tem sido o de incentivar o uso de veículos privados, com a mudança lenta em favor de conceitos de mobilidade mais sustentáveis, tais como as modalidades não motorizadas e os sistemas de transporte público de maior capacidade. Para reduzir a dependência do transporte motorizado privado, as cidades precisam desenvolver sistemas de transportes públicos atraentes e acessíveis geo- gráfi ca e fi nanceiramente para todos os moradores, especialmente para os mais pobres ( ONU-Habitat, 2016 ). Sobre a mobilidade sustentável, Machado (2010) apresenta as seguintes características: • Ambiental: diminui as atividades que causam danos ao meio ambiente e saúde, utiliza recursos renováveis, reutiliza e recicla os componentes. • Social: provê acesso a bens, recursos e serviços a fi m de diminuir a necessidade de viagens, providencia o movimento seguro de pessoas e produtos, promove a equidade e justiça entre sociedades e grupos. • Econômica: possui tarifa acessível, opera efi cientemente, promovendo a compe- titividade econômica. C0010.indd 28C0010.indd 28 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Desenvolvimento e mobilidade sustentáveis 29 A mobilidade sustentável, portanto, está caracterizada pela união dos conceitos de mobilidade urbana com o desenvolvimento sustentável ( Seabra et al ., 2013 ), defi nido em conformidade com o apresentado pelo Relatório Brundtland. No mundo, há várias ações para a promoção da mobilidade urbana, como o Planning and Design for Sustainable Urban Mobility: Global Report on Human Settlements - ONU-Habitat (2013) e A Concept for Sustainable Urban Mobility Plans , da União Europeia (2013). No Brasil, a Lei n° 12.587 de 2012 institui as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana e tem o propósito de contribuir para o acesso universal à cidade. Esta lei obriga a todos os municípios, acima de vinte mil habitantes, que elaborem um Plano de Mobilidade Urbana. Por isso, se tornou um instrumento importante para a criação de projetos de transportes interligadosao uso do solo, visando uma melhora na mobilidade urbana ( Brasil, 2012 ). Ela possui os seguintes objetivos ( Capítulo 7 ): I. reduzir as desigualdades e promover a inclusão social; II. promover o acesso aos serviços básicos e equipamentos sociais; III. proporcionar melhoria nas condições urbanas da população no que se refere à acessibilidade e à mobilidade; IV. promover o desenvolvimento sustentável com a mitigação dos custos ambien- tais e socioeconômicos dos deslocamentos de pessoas e cargas nas cidades; e V. consolidar a gestão democrática como instrumento e garantia da construção contínua do aprimoramento da mobilidade urbana. Pode-se verifi car que os conceitos de desenvolvimento sustentável estão incluídos nesses objetivos, principalmente no que diz respeito ao âmbito social (I, II, III e V). Já em relação a seus nove princípios, a dimensão ambiental aparece em um deles, a econômica em três e a social em sete, ressaltando a preocupação com esta última dimensão do desenvolvimento sustentável, o que é observado em outras instituições internacionais, em particular quanto aos países em desenvolvimento ( ONU-Habi- tat, 2013 ), como já comentado. Os princípios, conforme o Capítulo 5 ° da lei sobre plano de mobilidade urbana, são: I. acessibilidade universal; II. desenvolvimento sustentável das cidades, nas dimensões socioeconômicas e ambientais; III. equidade no acesso dos cidadãos ao transporte público coletivo; IV. efi ciência, efi cácia e efetividade na prestação dos serviços de transporte urbano; V. gestão democrática e controle social do planejamento e avaliação da Política Nacional de Mobilidade Urbana; VI. segurança nos deslocamentos das pessoas; VII. justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do uso dos diferentes modos e serviços; C0010.indd 29C0010.indd 29 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 30 VIII. equidade no uso do espaço público de circulação, vias e logradouros; e IX. efi ciência, efi cácia e efetividade na circulação urbana. 2.4 . Relação entre mobilidade e desenvolvimento urbano Estilos de vida urbanos contemporâneos e práticas de negócios estão cada vez mais dependentes da mobilidade. Ao mesmo tempo, os impactos negativos da mobilidade em ambientes naturais e sociais estão crescendo dramaticamente, por isso há um clamor público para a sua reversão (Bertolini, 2012). Um padrão difuso do desenvolvimento urbano não é adequadamente servido pela infraestrutura de transporte público, fruto de uma distribuição espacial desequilibrada entre moradias e atividades, como as produto- ras de emprego, ensino, serviços e lazer, que torna as viagens mais longas e potencializa o uso de modalidades motorizadas, principalmente os automóveis. Esta é a razão pela qual as análises dos custos sociais, econômicos e ambientais da expansão urbana têm se concentrado na presença do automóvel: a tecnologia capaz de fornecer acesso às funções urbanas cada vez mais dispersas e especializadas ( Camagni et al. , 2002 ). Segundo Bertolini (2012), a mobilidade tornou-se fundamental para o planejamento de cidades. No entanto, o planejamento urbano ainda parece contemplar a mobilidade como apenas uma, entre muitas preocupações específi cas, em vez de ser a perspectiva central estruturante sobre o desenvolvimento das cidades. Por outro lado, as questões de mobilidade parecem ignorar as implicações de longo prazo, a fi m de promover a qualidade de vida urbana. Ainda segundo o autor, a mobilidade tornou-se uma condição essencial para a eman- cipação social e o desenvolvimento econômico. No entanto, os efeitos negativos da mobilidade também estão se tornando cada vez mais evidentes; o consumo de energia, as emissões de gases que provocam o efeito estufa, poluição do ar, poluição sonora, os acidentes, a destruição de paisagens e comunidades são apenas alguns exemplos. No mundo em desenvolvimento, mesmo questões básicas como infraestrutura de transporte adequada, equidade no acesso, congestionamento, poluição do ar, ruído e acidentes não es- tão sendo solucionadas satisfatoriamente. Por isso, há uma tentativa de identifi car formas de mobilidade a fi m de reduzir seus efeitos negativos, isto é, a mobilidade sustentável. Nesse sentido, dado o alto ritmo do crescimento populacional ocorrido no passado recente, as cidades brasileiras não foram capazes de promover o desenvolvimento com qualidade de vida e justiça social. No Brasil, foi conduzida a política de que áreas de menor valorização imobiliária se localizavam em áreas distantes dos centros urbanos, com defi ciência de serviços e infraestrutura. Isso fez com que a estruturação urbana fosse baseada na dicotomia centro-periferia/rico-pobre ( Ojima et al. , 2015 ). Uma ocupação urbana dispersa em grandes territórios, além de tornar a sua administração mais complexa e custosa, difi culta o atendimento da demanda de viagens por transporte público, o que se acentua em nosso país, caracterizado pela desigualdade espacial, in- clusive na oferta de oportunidades e de transporte público destinada às localidades mais C0010.indd 30C0010.indd 30 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Desenvolvimento e mobilidade sustentáveis 31 carentes do território urbano, caracterizadas por altas taxas de imobilidade ( Portugal et al ., 2010 ). Quanto mais disperso e menos estruturado o desenvolvimento das cidades, menor o seu nível de efi ciência e competitividade e, consequentemente, sua mobilidade. Por outro lado, a sustentabilidade urbana está associada ao uso de energia, água, comida, recursos não renováveis, transporte, moradia e gerenciamento dos recursos naturais. Isso implica mudanças no uso de recursos para garantir a igualdade, proteger o meio ambiente e minimizar o uso de recursos não renováveis, criando vitalidade eco- nômica e diversidade, resiliência da comunidade e qualidade de vida ( Ernst et al. , 2016 ). De acordo com Rodrigues da Silva et al. (2010) , os problemas de mobilidade po- dem variar de país para país e de cidade para cidade, além de produzirem algumas mudanças na forma como as cidades e os seus sistemas de circulação são planejados. Como resultado, a abordagem tradicional de planejamento de transporte, baseada es- sencialmente em “previsão e provisão”, é uma opção que vem sendo questionada. Novas alternativas estão sendo construídas no tratamento da mobilidade. Estas abordagens têm compreendido que a mobilidade transcende um olhar intrasetorial em transportes, se estendendo a uma visão urbana e interdisciplinar, articulada ao uso do solo. Tais abordagens têm buscado inserir o tema da mobilidade sustentável, e seu papel, no processo de promoção do desenvolvimento urbano sustentável e, consequentemente, na qualidade de vida da população. Nesse sentido, a Mercer (2016) , por exemplo, apresenta, anualmente, um ranking com 230 cidades do mundo, classifi cando as que possuem uma melhor qualidade de vida. Em primeiro lugar está Viena, seguido de Zurique, Auckland, Munique e Vancouver. Nessa lista, a primeira cidade brasileira, Brasília, ocupa a posição 106. Depois, estão Rio de Janeiro e São Paulo, nas posições 117 e 121, respectivamente. A cidade da América do Sul com melhor pontuação, em 78° lugar, é Montevidéu; seguida de Buenos Aires e Santiago, em 93° e 94° lugar, respectivamente. Para calcular esse ranking, a Mercer utiliza 39 fatores distribuídos nas seguintes categorias: • Ambiente político e social (estabilidade política, crime, aplicação da lei etc.). • Ambiente econômico (regulamentação de câmbio, serviços bancários). • Ambiente sociocultural (disponibilidade de mídia e censura, limitações à liber- dade pessoal). • Considerações médicas e de saúde (fornecimentos e serviços médicos, doenças infecciosas, esgoto,coleta de lixo, poluição do ar etc.). • Escolas e educação (padrão e disponibilidade de escolas internacionais). • Serviços públicos e transporte (eletricidade, água, transporte público, conges- tionamentos etc.). • Recreação (restaurantes, teatros, cinemas, esportes e lazer etc.). • Bens de consumo (disponibilidade de alimentos/consumo diário, carros etc.). • Habitação (moradia, eletrodomésticos, móveis, serviços de manutenção). • Ambiente natural (clima, registro de catástrofes naturais). C0010.indd 31C0010.indd 31 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 32 Em relação a essas categorias, as que afetam as condições de mobilidade são, prin- cipalmente, habitação e serviços públicos e transporte (que também estão relacionados com o uso do solo). Isto porque a localização de serviços e de habitação infl uencia a necessidade de deslocamento, especialmente, em situações de distribuição desigual de oportunidades, trabalho e transportes ( Cervero, 2013 ). Desta maneira, as conhecidas defi ciências de transporte público e planejamento urba- no, especialmente em países em desenvolvimento, revelam condições de acessibilidade não equitativas e que impõem um custo elevado para os usuários e a sociedade, que se traduzem por uma mobilidade de má qualidade, repercutindo negativamente nas três dimensões da sustentabilidade. O caso das favelas é um refl exo das condições de aces- sibilidade que induzem os segmentos mais pobres a buscarem lugares de risco em função da proximidade com o mercado e as oportunidades. Enquanto a especulação imobiliária investe em construções residenciais em localidades que não necessariamente dispõem de infraestrutura e serviços, restringindo as condições de acessibilidade e incentivando o uso de automóveis para superá-las. Nesse contexto, Cervero (2013) afi rma que os desafi os de mobilidade dos países em desenvolvimento são diferentes dos desenvolvidos. Esses desafi os estão relacionados à coordenação entre transporte e uso do solo. O rápido crescimento populacional acarreta proliferação de favelas, pobreza e desigualdade de renda, núcleos urbanos superlotados, sistema de transporte não adequado, disparidades espaciais entre moradia e empregos, condição ambiental deteriorada, perda econômica devido ao congestionamento. A rever- são deste quadro requer um planejamento integrado entre transporte e desenvolvimento urbano, determinando condições de acessibilidade que promovam uma mobilidade sustentável e proporcionem uma melhor qualidade de vida para a população. 2.5 . Considerações fi nais As defi nições e caracterizações relacionadas ao transporte, acessibilidade e mobilidade não possuem delimitações claras na literatura. Isso acontece por serem conceitos próximos, fortemente relacionados e por participarem — não isoladamente, mas em conjunto e de forma articulada — de um campo de estudo relativamente mais recente. Desta forma, este capítulo abordou as diferentes características e defi nições de trans- porte e mobilidade, enquanto a acessibilidade é tratada, com maior profundidade, no Capítulo 4 . A fi m de explicitar a relação entre mobilidade e acessibilidade, Silva (2014) acrescenta que a mobilidade, vista como movimentação efetiva ou potencial das pessoas, pode realçar a velocidade bem como a infraestrutura e o veículo a serem contemplados, enquanto a acessibilidade, ao envolver a facilidade de alcançar locais e atividades, tende a ter como foco as pessoas, as suas necessidades e como elas podem ser mais bem atendidas em termos individuais e coletivos. Assim, foi atribuído à mobilidade o signifi cado de movimentação de pessoas, ex- presso pelos padrões de viagens, não só em termos de quantidade, mas incorporando C0010.indd 32C0010.indd 32 03/07/17 10:03 PM03/07/17 10:03 PM Desenvolvimento e mobilidade sustentáveis 33 aspectos qualitativos dos deslocamentos e de suas externalidades. E esta mobilidade pode ser determinada pelas condições de acessibilidade, defi nidas pela integração entre infraestrutura e serviços de transporte com o uso do solo, que aproximarão as atividades das pessoas e infl uenciarão as escolhas dos usuários, de acordo com suas características físicas e socioeconômicas. Portanto, a promoção da mobilidade sustentável resulta do planejamento e da coordenação dessas variáveis nas dimensões econômica, ambiental e social. A mobilidade urbana sustentável é um tema de importância mundial. A ONU, por meio da agência ONU-Habitat e da Comissão Europeia, está realizando esforços a fi m de impulsionar essa matéria. No Brasil, com a Lei de Mobilidade Urbana, em que os municípios com mais de 20 mil habitantes são obrigados a fazer projetos e políticas em sintonia com o assunto, a mobilidade urbana ganhou mais notoriedade. Na lei, não há menção explícita sobre a sustentabilidade. No entanto, percebe-se a preocupação com a questão nos objetivos expostos em relação, principalmente, ao meio ambiente e ao aspecto social, que é relativamente mais crítico em países em desenvolvimento. Nesse sentido, Banister (2008) conclui que a mobilidade sustentável requer ações para reduzir o número de viagens por automóveis, sem prejudicar a realização de atividades, encorajando a mudança de modal, a fi m de diminuir distâncias e aumentar a efi ciência, além de ser um paradigma para fortalecer a integração do uso do solo e transporte, que representa o conceito de acessibilidade. GTS (2007) e Litman (2003) acrescentam que outros fatores podem afetar a mobilidade, incluindo os serviços de telecomunicações como alternativas à necessidade de deslocamentos, substituindo a proximidade física pela conexão em redes sociais ( Herce, 2009 ). Nesse contexto, verifi ca-se que a combinação de soluções de infraestruturas e serviços de transporte somado ao uso do solo determinam o nível de facilidade de locomoção (acessibilidade). A acessibilidade em conjunto com as características dos usuários in- fl uenciam suas escolhas, padrões de viagens e consequente mobilidade, que afetam os impactos econômicos, ambientais e sociais ( Capítulo 4 ). Por isso, é necessário avaliar se esta cadeia relacional está promovendo ou não a mobilidade e o desenvolvimento sus- tentáveis, a fi m de se buscar as estratégias mais indicadas ( Capítulo 5 ), o que requer uma adequada compreensão e modelagem do que representa a mobilidade sustentável, sendo os indicadores e índices ferramentas relevantes para a sua mensuração ( Capítulo 3 ). Referências Akinyemi , E. O. , Zuidgeest , M. ( 1998 ) The use of the sustainability concept in trans- portation engineering: past experiences and future challenges . 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