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RAVI PEIXOTO MANUAL DOS PRECATÓRIOS COMO ENTENDER E TRABALHAR COM ESSE MÉTODO DE PAGAMENTO DAS DÍVIDAS PÚBLICAS Londrina/PR 2023 Diagramação e Capa: Editora Thoth Revisão: Victoria Guimarães Editor chefe: Bruno Fuga Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Índices para catálogo sistemático 1.Direito processual civil: 341.46 Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização. A violação dos Direitos Autorais é crime estabelecido na Lei n. 9.610/98. Todos os direitos desta edição são reservados pela Editora Thoth. A Editora Thoth não se responsabiliza pelas opiniões emitidas nesta obra por seus autores. © Direitos de Publicação Editora Thoth. Londrina/PR. www.editorathoth.com.br contato@editorathoth.com.br Peixoto, Ravi. Manual dos precatórios: como entender e trabalhar com esse método de pagamento das dívidas públicas. / Ravi Peixoto. – Londrina, PR: Thoth, 2023. 198 p. Bibliografias: 193 - 198 ISBN: 978-65-5959-507-5 1. Precatórios. 2. Execução contra a fazenda pública. 3. Administração Pública. I. Título. CDD 341.46 SOBRE O AUTOR RAVI PEIXOTO Doutor em direito processual pela UERJ. Mestre em Direito pela UFPE. Procurador do Município do Recife. Advogado. Membro da ANNEP, do CEAPRO e do IBDP. ravipeixoto@gmail.com À minha mãe, Rejane, por ter me ensinado e me inspirado, através do exemplo, a gostar de ler e escrever. O tema dos precatórios surgiu como interesse desde que tomei posse na procuradoria do Município do Recife. Isso porque ele passou a fazer parte da minha vida profissional e, em vários momentos, era difícil encontrar respostas nas obras disponíveis. O interesse aumentou durante a escrita do livro de diálogos da Fazenda Pública, em que o tema foi enfrentado e, no qual, mais uma vez, surgiam mais perguntas do que respostas. Além disso, tive a oportunidade de falar sobre esse tema em diversas aulas e descobrir ainda mais particularidades desse regime. Também na advocacia, a partir da minha atuação no MMeira advogados, tive contato com outros problemas jurídicos, afinal, o Município do Recife é um raro bom pagador, o que não acontece com muitos outros entes públicos. No meio disso tudo, acabei olhando com mais cuidado para a Resolução CNJ n. 303/2019 e percebi que havia pouquíssimo material doutrinário sobre o assunto, apesar de ela ser praticamente um código dos precatórios. Assim, percebi que faltava uma obra que tentasse sistematizar esse tema partindo, especialmente, da resolução. O leitor vai notar que ela é citada em praticamente todos os itens, justamente porque trata quase todos os problemas relacionados aos precatórios. E, nem sempre, consoante será enfrentado, de forma condizente com a legislação infraconstitucional, decisões do STJ, do STF e com a Constituição. Além disso, as recentes emendas constitucionais, embora não pareça, trazem enormes mudanças na sistemática dos precatórios. A primeira, e mais relevante, consiste no regime especial da União. Outras, aparentemente mais singelas, mas com um potencial de utilização prática enorme, consistem na alteração do art. 100, §9º, da Constituição, que traz o que tenho denominado de super penhora e, especialmente, o aumento da possibilidade de utilização dos créditos de precatórios para inúmeras finalidades. Não por acaso, já houve alteração da Resolução CNJ n. 303/2019 e a edição de diversos atos normativos da União voltados a regular essas múltiplas utilidades do crédito do precatório, publicadas apenas em dezembro de 2022. Por fim, durante a elaboração da obra, pude dialogar com muitos amigos, que me ajudaram a refletir sobre os temas tratados. Agradeço especialmente a Marcos Meira, Antonio Carlos de Souza Jr e Leonardo NOTA DO AUTOR Carneiro da Cunha. Também preciso agradecer a Clehilton, Patricia, Lucas Buril e Carlos Jar, que também foram devidamente interpelados para discutir os temas tratados nesta obra. Muito me honrou o convite do autor de prefaciar seu livro. Ravi Peixoto é um jurista de fôlego. Autor de diversos livros e artigos sobre importantes temas do processo civil, Ravi se dedicou, nesta oportunidade, a publicar um manual voltado à sistematização dos precatórios, a partir do estudo sério e aplicado da disciplina legal conferida ao instituto, das decisões do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça e de aportes teóricos sobre o tema. O objetivo deste trabalho, diz o autor logo na introdução, é preencher, a partir do cotejo de todas as fontes, as lacunas relativas a pontos ainda carentes de sistematização. Nos planos histórico e conceitual, o autor trata, no primeiro capítulo, de temas fundamentais para a adequada compreensão do regime de precatórios. Trata, por exemplo, da evolução e justificativa do regime de precatórios, do arcabouço normativo que rege o instituto, do conceito de Fazenda Pública, dos limites objetivos ao pagamento por precatório, da aplicação de soluções não adversariais nos casos de pagamento por precatório ou requisição de pequeno valor, entre outros temas. O autor provoca o leitor à reflexão crítica sobre o modelo tradicional de administração pública, marcado pelo reforço ao desequilíbrio de poder e pelos privilégios aos entes públicos. Em seu entender, o novo modelo de administração pública, pautado pela consensualidade, caracteriza-se por uma maior participação dos cidadãos, horizontalizando a tomada de decisões por meio do incentivo ao diálogo. Nas palavras do autor: “É inegável que uma maior abertura para a consensualidade também deve estar relacionada com os mecanismos não litigiosos de solução de conflitos. Em especial, para esse item, a mediação e a conciliação. Se a administração pública sempre ficou marcada por um excesso de rigidez no seu relacionamento para com os cidadãos, é o momento de ultrapassar barreiras”. No segundo capítulo, o autor esmiuça o procedimento da requisição de pequeno valor e do precatório. Inicia tratando especificadamente da requisição de pequeno valor, abordando o prazo para pagamento, as regras de direito intertemporal - isto é, a partir de qual momento a lei que altera o valor de RPV passa a ser aplicável -, o fracionamento de valores e o procedimento ao qual a RPV deve se submeter. PREFÁCIO Na sequência, Ravi Peixoto trata das peculiaridades do procedimento dos precatórios, abordando, ainda, o aporte de recursos pelo ente público devedor, a possibilidade de parcelamento dos precatórios, os deveres legais atribuídos ao Presidente do Tribunal e a natureza de sua atuação nesses casos, a ordem de pagamento dos precatórios e as preferências legais, os critérios da Resolução n. 303 do CNJ para as hipóteses de empates nos precatórios e o regime jurídico do cancelamento e da prescrição dos precatórios e da RPV. O autor dedica o terceiro capítulo de seu livro ao tratamento de temas bastante problemáticos do ponto de vista do regime dos precatórios, que consistem nos índices aplicáveis e momentos de incidência dos juros e correção monetária, antes e após a EC 113/2021, nos questionamentos acerca da constitucionalidade da sobrevivência do IPCA após a EC 113/2021 e nas possíveis implicações no plano do direito intertemporal. O autor examina, ainda, as peculiaridades da incidência de juros e correção monetária na RPV. Nesse mesmo capítulo, Ravi Peixoto aborda um tema de absoluta relevância, que é o dos limites incidentes na revisão dos cálculos pelo Conselho Nacional de Justiça, propondo a seguinte sistematização: “1) em geral, ocorrerá durante inspeções por ela realizadas; 2) em princípio, parece não haver limites a essa revisão, abrangendo a competência do juízo da execução e a do Presidente do tribunal, pois determinada até a alteração de indexadores; 3) a decisão do CNJ terá natureza final e não pode ser revisada pelo tribunal”. E conclui o terceiro capítulo analisando o procedimento de pagamento dos precatórios. Realiza essa tarefa desenvolvendo o tema em cincosubtópicos: (i) o pagamento parcial dos precatórios por ausência de verba; (ii) os regimes de retenção; (iii) o regime de retenção do imposto de renda; (iv) o imposto de renda e os juros de mora; e (v) o regime de retenção da contribuição previdenciária. No quarto capítulo, o autor examina as particularidades do regime jurídico dos precatórios. Inicia tratando do art. 100, § 9.º, da CF, alterado pela EC 113/2021, que prevê o direito de a Fazenda Pública requerer ao tribunal que o valor do precatório seja destinado a ações que o credor do requisitório tenha movidas contra si por ente público para cobrança de dívida ativa. É um tema que merece profunda investigação, pois, como bem destaca o autor, “não se tem aqui uma espécie de compensação de créditos. Trata- se de uma super penhora, que não exige identidade entre credor e devedor. Uma questão relevante é a de que esse direito consiste na disponibilização do valor em si. A Fazenda Pública que chegar primeiro poderá usar toda a verba, não havendo uma espécie de concurso de penhoras caso várias façam o mesmo requerimento”. Ravi Peixoto se dedica ao estudo da constitucionalidade da nova redação conferida ao dispositivo legal, a partir dos fundamentos das decisões que deram procedência às Ações Diretas de Inconstitucionalidade n. 4.357 e 4.425, declarando a inconstitucionalidade da disposição em sua redação anterior. Em seguida, o autor aborda diversos temas importantes para a adequada sistematização da matéria, como o sequestro das contas públicas, a intervenção federal ou estadual diante do não pagamento de precatórios, a cobrança de honorários advocatícios tanto no regime de precatórios quanto nas requisições de pequeno valor, as diversas possibilidades de utilização de créditos líquidos e certos em face da Fazenda Pública e a conceituação adequada para essas circunstâncias, a cessão de precatórios, a natureza jurídica e o procedimento da penhora de precatório e, por fim, a vinculação de fundos. No quinto e último capítulo, intitulado “Regimes especiais de pagamento dos precatórios”, Ravi Peixoto trata das diversas peculiaridades do regime criado pela EC n. 94/2016, que sofreu alterações por emendas constitucionais posteriores. Estuda o fenômeno da concentração de pagamentos dos precatórios que ocorre no regime especial, a forma de pagamento dos créditos, os recursos que podem ser utilizados para os precatórios atrasados, os limites constitucionais que incidem sobre o pagamento dos precatórios e as limitações relativas à realização de desapropriações. Examina também o sequestro de precatórios no regime especial e as demais consequências da não liberação de recursos, tais como a retenção de recursos pelo ente com obrigatoriedade constitucional do repasse e a condenação do chefe do Poder Executivo por improbidade administrativa, avaliando os impactos, nesse particular, da recente alteração da Lei de Improbidade Administrativa. Mais adiante, o autor aborda o regime especial de pagamentos dos precatórios da União, discorrendo sobre o teto de gastos com precatórios, as limitações e exclusões do teto - à luz do art. 107-A do ADCT -, a questão da ordem preferencial, a possibilidade de pagamento parcial e a localização do precatório remanescente na ordem de preferência. O autor finaliza o último capítulo colocando em debate a constitucionalidade do regime especial de pagamento da União. E faz uma importante advertência: “Boa parte dos precatórios não serão pagos, refletindo no aumento do estoque de dívidas para os anos subsequentes. Ao mesmo tempo, é improvável que a União consiga sanear suas contas a ponto de suportar toda essa bola de neve gerada até 2026 (fim do regime especial) e, repentinamente, consiga pagar todo esse estoque de dívida no ano subsequente. Novas emendas, com alterações de prazo ou do regime serão necessárias”. Em suas notas conclusivas, reitera sua proposta inicial: “sistematizar os principais problemas que envolvem os precatórios”. Ravi Peixoto cumpriu com absoluta excelência a tarefa a que se propôs! Esta obra, sem dúvida, será de grande valia para comunidade jurídica e se consolidará como estudo de referência sobre o tema. Rio de Janeiro, novembro de 2022. LUIZ RODRIGUES WAMBIER SUMÁRIO SOBRE O AUTOR .......................................................................................................7 NOTA DO AUTOR ...................................................................................................11 PREFÁCIO ..................................................................................................................13 INTRODUÇÃO ..........................................................................................................21 CAPÍTULO 1 PRECATÓRIOS: O QUE É, PARA QUEM E QUANDO? ..............................23 1.1 Evolução e justificativa do regime de precatórios ............................................23 1.2 Fontes normativas do precatório e possíveis conflitos ...................................24 1.2.1 O CNJ e a sua atividade normativa em relação aos precatórios: uma primeira reflexão sobre a Resolução CNJ n. 303/2019 .........................................................24 1.3 Noções iniciais sobre o precatório ......................................................................28 1.4 Quais pessoas jurídicas estão submetidas ao regime dos precatórios? ..........29 1.4.1 Em busca do conceito de Fazenda Pública ....................................................29 1.4.2 As sociedades de economista mista, as empresas públicas .........................30 1.4.3 Os conselhos de fiscalização profissional .......................................................32 1.4.4 Direito intertemporal, regime de pagamento e extinção da pessoa jurídica..33 1.5 Limites objetivos ao pagamento por precatório ...............................................36 1.5.1 Os valores entre a data da impetração e a implementação da ordem concessiva no mandado de segurança .......................................................................36 1.5.2 O descumprimento da ordem mandamental e o pagamento de quantias..37 1.5.3 Restituição de indébito tributário reconhecido em mandado de segurança..38 1.5.4 O sistema multiportas e o pagamento por meio de precatório e RPV.......40 1.5.4.1 Autocomposição pelo poder público e a sistemática de pagamentos por meio de precatório ou requisição de pequeno valor................................................40 1.5.4.1.1 Os limites da exigência do precatório.........................................................43 1.5.4.2 Forma de pagamento da sentença arbitral......................................................45 CAPÍTULO 2 O PROCEDIMENTO DA REQUISIÇÃO DE PEQUENO VALOR E DO PRECATÓRIO ............................................................................................................49 2.1 Requisição de Pequeno Valor ...............................................................................49 2.1.1 O prazo para pagamento da RPV ....................................................................51 2.1.2 Direito intertemporal e a RPV .........................................................................51 2.1.3 O fracionamento de valores ............................................................................53 2.1.3.1 O fracionamento, o litisconsórcio e a sentença coletiva genérica.............54 2.1.3.2 Cumulação de pedidos e fracionamento........................................................55 2.1.3.3 Honorários advocatícios sucumbenciais........................................................56 2.1.4. Procedimento da requisição de pequeno valor .............................................58 2.2 Procedimento dos precatórios .............................................................................60 2.2.1 O ofício precatório enviado pelo juízo da execução .....................................60 2.2.2 O que significa apresentar o precatório e a atuação do presidentedo tribunal...........................................................................................................................63 2.2.3 A possibilidade de bloqueio dos precatórios ..................................................64 2.3 O aporte de recursos pela entidade devedora ...................................................66 2.4 A possibilidade de parcelamento dos precatórios ............................................67 2.5 Atuação do presidente do tribunal e sua natureza administrativa ..................69 2.6 As preferências de pagamento na sistemática dos precatórios .......................72 2.6.1 Créditos alimentares ...........................................................................................73 2.6.2 Créditos superpreferenciais ...............................................................................74 2.6.2.1 O procedimento para o reconhecimento da superpreferência...................79 2.6.2.2 Os honorários contratuais e a superpreferência..........................................79 2.6.3 Créditos alimentares limitados a três vezes o valor da RPV ........................81 2.7 Resolução de empates nos precatórios ...............................................................83 2.8 Cancelamento e prescrição dos precatórios e da RPV: A inconstitucionalidade da Lei n. 13.463/2017 .................................................................................................84 CAPÍTULO 3 PROCEDIMENTO DE PAGAMENTO DOS PRECATÓRIOS: JUROS, CORREÇÃO MONETÁRIA E RETENÇÕES ...................................................85 3.1 Juros e correção monetária nos precatórios ......................................................85 3.1.1 Juros e correção monetária até a EC 113/2021 .............................................85 3.1.1.1 Índices para cálculo da correção monetária e dos juros..............................88 3.1.2 Juros e correção monetária após a EC 113/2021 ..........................................92 3.1.2.1 É constitucional a sobrevivência do IPCA após a EC 113/2021? ..........93 3.1.2.2 Os possíveis problemas de direito intertemporal e a EC 113/2021.........95 3.1.3 Juros e correção monetária na RPV: particularidades ................................ 100 3.2 As impugnações e as revisões dos cálculos .................................................... 100 3.2.1 Limites cognitivos da revisão ......................................................................... 101 3.2.2 Procedimento do pedido de revisão ............................................................ 103 3.2.3 A revisão do precatório pela Corregedoria Nacional de Justiça .............. 105 3.3 O pagamento dos precatórios .......................................................................... 107 3.3.1 O pagamento parcial dos precatórios por ausência de verba .................. 108 3.3.2 Os regimes de retenção .................................................................................. 109 3.3.3 O regime de retenção do imposto de renda ................................................ 109 3.3.4 O imposto de renda e os juros de mora ...................................................... 111 3.3.5 O regime de retenção da contribuição previdenciária ............................... 112 CAPÍTULO 4 PARTICULARIDADES DO REGIME JURÍDICO DOS PRECATÓRIOS..113 4.1 A super penhora ou a nova tentativa de previsão de compensação ........... 113 4.1.1 Sobre a (in)constitucionalidade da super penhora ...................................... 116 4.1.1.1 A antiga redação do art. 100, §9º, da CF e sua declaração de inconstitucionalidade pelo STF................................................................................116 4.1.1.2 A nova redação do art. 100, §9º, da CF: as inconstitucionalidades foram sanadas?.......................................................................................................................118 4.2 Sequestro das contas públicas .......................................................................... 120 4.2.1 Legitimidade para o pedido de sequestro .................................................... 122 4.2.2 Procedimento ................................................................................................... 124 4.3 Intervenção federal ou estadual e não pagamento de precatórios .............. 126 4.4 Honorários advocatícios e o regime de precatórios ...................................... 126 4.2.1 Os honorários nas obrigações de pequeno valor ....................................... 128 4.4.2 Honorários nas execuções individuais de sentenças proferidas em ações coletivas ...................................................................................................................... 130 4.4.3 O percentual de honorários ........................................................................... 131 4.5 As múltiplas possibilidades de utilização dos créditos líquidos e certos devidos pela Fazenda Pública ............................................................................................... 133 4.5.1 O procedimento para utilização dos créditos ............................................. 136 4.5.1.1 O procedimento para reserva e baixa dos valores no Poder Judiciário 137 4.5.1.2 Procedimento para utilização dos créditos no âmbito da União ...........140 4.5.2 A possibilidade de celebração de acordos e a utilização de créditos líquidos e certos e de precatórios .......................................................................................... 144 4.6 Cessão de precatórios ......................................................................................... 145 4.6.1 As formalidades do negócio jurídico da cessão .......................................... 148 4.6.1.1. A cessão de precatórios de natureza previdenciária ............................... 149 4.6.2 A cessão de precatórios e as preferências do crédito ................................. 150 4.7 Penhora de precatórios ...................................................................................... 152 4.7.1 A natureza jurídica da penhora de precatório ............................................ 153 4.7.2 Procedimento da penhora de precatório e suas peculiaridades ................ 154 4.7.3 Penhora de mão própria ou penhora privada ............................................. 156 4.8 Vinculação de fundos e precatórios ................................................................. 157 CAPÍTULO 5 REGIMES ESPECIAIS DE PAGAMENTO DOS PRECATÓRIOS .......... 161 5.1 Regime especial dos entes estaduais e municipais ......................................... 161 5.1.2 Características do regime ................................................................................ 163 5.1.2.1 A concentração do pagamento no regime especial..................................163 5.1.2.2 A forma de pagamento.................................................................................165 5.1.2.3 Verbas que podem ser utilizadas para pagar os precatórios atrasados...167 5.1.2.4 Limites constitucionais aos planos de pagamento dos precatórios .......168 5.1.2.4.1 A ordem de pagamento e as superpreferências entre o regime comum e o especial...................................................................................................................170 5.1.2.4.2 A realização do acordo direto.......................................................................172 5.1.2.5 O regime especial e as limitações à realização de desapropriações ........173 5.1.2.6 O sequestro de precatórios e o regime especial..........................................174 5.1.2.7 Outras consequências da não liberação de recursos................................176 5.1.2.8 A compensação tributária no regime especial..........................................177 5.2 Regime especial de pagamentos dos precatórios da União .......................... 178 5.2.1 Delimitação do teto de gastos com precatórios.......................................... 180 5.2.2 Limitações e exclusõesdo teto de gastos com precatórios ....................... 182 5.2.3 O desafio da distribuição de recursos .......................................................... 184 5.2.4 A ordem preferencial e o problema do precatório remanescente............ 185 5.2.5 Inconstitucionalidade do regime especial de pagamento da União?..........187 5.2.5.1 Regimes especiais anteriores e inconstitucionalidades...............................187 5.2.5.2 O regime especial da União e suas possíveis inconstitucionalidades.....189 CONCLUSÕES ........................................................................................................ 191 REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 193 A história dos precatórios consiste em uma eterna busca pela organização e concessão de maior efetividade para o pagamento das dívidas judiciais do poder público. Desde a Constituição de 1988, inúmeras reformas constitucionais e infraconstitucionais foram realizadas seja para tentar melhorar a forma de pagamentos dos entes públicos, seja para organizar o procedimento. O tema dos precatórios, apesar de ser objeto de inúmeras reformas legislativas e de incontáveis decisões não parece ter a devida atenção da doutrina; felizmente, nos últimos anos, surgiram algumas obras de referência sobre o tema. No entanto, o tema ainda é envolto em inúmeras polêmicas e ausência de sistematização. Na atualidade, além da previsão na Constituição, existem algumas menções ao tema dos precatórios na legislação infraconstitucional. No entanto, as principais fontes de compreensão dos precatórios são originárias das decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Supremo Tribunal Federal (STF), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e, especialmente, da Resolução CNJ n. 303/2019. Embora sem força de lei, essa resolução poderia também ser chamada de código dos precatórios, pois, para além de reproduzir as previsões constitucionais, ela vem incorporando as decisões do STF e indo muito além. Uma vez que a previsão constitucional é limitada em seus aspectos procedimentais, muito do trabalho de procedimentalização e organização dos precatórios tem sido realizado por meio da Resolução n. 303/2019 do CNJ. E, ao fazê-lo, cria-se uma demanda doutrinária, que analisa a resolução de forma crítica, verificando seus limites e possibilidades, no contexto do direito positivo brasileiro. O objetivo desta obra é o de sistematizar o tema dos precatórios, à luz de todas as suas fontes. O primeiro capítulo tem um objetivo definitório. Ele objetiva responder o que é o precatório, quais pessoas jurídicas estão submetidas a esse regime e, talvez, o que possa trazer mais divergências, quais créditos dependem da submissão a esse regime. INTRODUÇÃO MANUAL DOS PRECATÓRIOS22 No segundo capítulo, o foco passa a ser a definição e o procedimento da requisição de pequeno valor, bem como os limites do fracionamento dos precatórios. Afinal, a considerável diferenciação entre o tempo de pagamento da Requisição de Pequeno Valor (RPV) e do precatório é um bom incentivo à criatividade para buscar o meio mais célere de pagamento. Na continuação do capítulo, tem-se o enfrentamento do procedimento de expedição dos precatórios, desde a expedição do ofício, organização das filas e a repartição de competências entre o juízo da execução e o presidente do tribunal. No capítulo seguinte, passa-se a um tema que costuma gerar incontáveis divergências jurisprudenciais, que são os juros de mora, a correção monetária e as diferentes formas de questionar os cálculos dos precatórios. Há ainda, ao final, o enfrentamento do procedimento de pagamento do precatório e os regimes de retenção. Para o quarto capítulo, foram reservadas as demais particularidades do regime jurídico dos precatórios, igualmente importantes, mas que ressentem de uma maior reflexão doutrinária. Aqui, são enfrentadas temáticas, tais como a super penhora do art. 100, §9º, da Constituição Federal (CF), o regime jurídico e o procedimento do sequestro de contas públicas, a possibilidade de intervenção federal ou estadual, a forma de fixação de honorários no cumprimento de sentença, as novas possibilidades de utilização dos créditos de precatórios (e outros), as limitações das cessões de precatórios e ainda o tema da penhora de precatórios. Por fim, no último capítulo, tem-se uma tentativa de sistematização dos regimes especiais de pagamento de precatórios. O regime dos entes estaduais e municipais, que vem sendo modificado desde a EC 94/2016 em busca de efetividade e a recente criação do regime especial da União, que era uma tradicional boa pagadora. Precatórios: o que é, para quem e quando? 1.1 EVOLUÇÃO E JUSTIFICATIVA DO REGIME DE PRECATÓRIOS A história do precatório é a história da busca para resolver um problema não devidamente enfrentado pelo legislador e a má vontade dos administradores públicos em pagar dívidas judiciais. Ao menos desde 1842 já havia previsão da impenhorabilidade dos bens públicos,1 mas esqueceram de um pequeno detalhe: o que fazer nos casos em que o poder público fosse condenado a pagar uma determinada quantia? Não havia uma solução na legislação da época, fosse a Consolidação das Disposições Legislativas e Regulamentares concernentes ao processo civil, de Antonio Joaquim Ribas, fosse o Decreto n. 848, de 11 de outubro de 1890, que organizava a justiça federal. A solução foi criada pela praxe judicial – o precatório – como uma ordem dirigida ao poder público para o pagamento.2 A ordem era expedida e a própria parte teria de ir, no caso da União, ao Ministério da Fazenda para solicitar o pagamento, que ficava na dependência de ato do Ministro ou do Presidente da República. Na verdade, esse ato ainda dependia de solicitação de verba ao Congresso, na qual inexistia qualquer ordem de precedência, fazendo com que, enquanto alguns recebessem de imediato, para outros, demorava de dez a vinte anos.3 Nos moldes atuais, ou seja, com a existência de uma ordem de pagamento a ser feita a partir de critérios delimitados, apenas ocorreu para a União na Constituição de 1934 (art. 183) e para os demais entes na Constituição de 1946 (art. 204). Ressalta Pontes de Miranda, em comentários à Constituição de 1946, que a utilização dos precatórios concorre para a moralização da administração pública brasileira. Isso porque ele impediria uma das formas mais correntes da advocacia administrativa,4 porque a 1. CARVALHO, Vladimir Souza. Iniciação ao estudo do precatório. Revista de Informação Legislativa, n. 76, out./dez.-1982, p. 326. 2. CARVALHO, Vladimir Souza. Iniciação ao estudo do precatório. cit., p. 331. 3. Essa narrativa consta de julgamento no STF: STF, RE 78.612, Rel. Min. Oswaldo Trigueiro, j. 09/08/1974, RTJ 71/575. 4. PONTES DE MIRANDA. Francisco Cavalcanti. Comentários à constituição de 1946. 2ª ed. São CAPÍTULO 1 MANUAL DOS PRECATÓRIOS24 eventual ordem de pagamento por vezes era obstada pelo ente público, que ora simplesmente se recusava a cumprir a decisão, ora decidia examinar os fundamentos da decisão e, se não concordava com eles, negavam o crédito.5 E, em tais situações, exigia-se a atuação da parte ou do seu advogado para convencer o administrador público a realizar o pagamento. É possível também identificar que a criação do regime dos precatórios também atende à impessoalidade, impedindo que um credor seja beneficiado em detrimento de outrem. Igualmente, tem-se a promoção da igualdade, pois todos os credores recebem da mesma forma, com eventual discrímen sendo necessariamente previsto pela Constituição.6 1.2 FONTES NORMATIVAS DO PRECATÓRIO E POSSÍVEIS CONFLITOS A fonte principal dos precatórios é a Constituição, no seu art. 100, bem como as várias emendas constitucionais e o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). Ainda há previsão no Código de Processo Civil (CPC) e na legislação extravagante. Ocorreque esses atos normativos principais são lacunosos e sempre dependentes da interpretação judicial e, em tempos mais recentes, de importante atuação do CNJ. Existem inúmeras decisões no controle concentrado de constitucionalidade, súmulas, recursos repetitivos e decisões oriundas de recursos extraordinários com repercussão geral que conduzem a interpretação e a elaboração das novas emendas constitucionais. Para destacar a importância do tema dos precatórios no contexto dos precedentes, os dois primeiros temas de repetitivos do STJ destinavam-se a resolver alguns dos seus problemas interpretativos. Essas mesmas decisões, por vezes, tornaram-se obsoletas, dada a contínua alteração dos textos normativos por ela interpretados. 1.2.1 O CNJ E A SUA ATIVIDADE NORMATIVA EM RELAÇÃO AOS PRECATÓRIOS: UMA PRIMEIRA REFLEXÃO SOBRE A RESOLUÇÃO CNJ N. 303/2019 Atualmente, embora seja a de menor hierarquia, o que se pode chamar de Código dos precatórios é a Resolução CNJ n. 303, de 18 de dezembro Paulo: Max Limonad, 1953, v. V, p. 305. 5. É o que relata Castro Nunes, a partir de comentários de Carlos Maximiliano: NUNES, Castro. Da fazenda pública em juízo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1960, p. 231. 6. MOREIRA, Egon Bockmann; GRUPENMACHER, Betina Treiger; KANAYAMA, Rodrigo Luís; AGOTTANI, Diogo Zelak. Precatórios: o seu novo regime jurídico. São Paulo: RT, 2017, p. 22. 25RAVI PEIXOTO de 2019. Essa mesma resolução já foi objeto de inúmeras alterações, por meio das Resoluções n. 327, 365, 390, 431, 438, 448 e 482. O seu objetivo é o de permitir um melhor controle da gestão dos precatórios, bem como de tornar mais efetivas as condenações suportadas pela Fazenda Pública, nos termos das normas constitucionais. Ocorre que ela vai muito além disso, dentro de um contexto de melhor gestão desses créditos. Ela atua como uma espécie de consolidação da legislação e da jurisprudência dos tribunais superiores. Por vezes a fundamentação para a elaboração de alterações nas resoluções são originadas de precedentes obrigatórios. Nas alterações mais recentes, um dos desafios enfrentados pela resolução é adiantar possíveis interpretações de alterações constitucionais recentes, o que, como será visto, por vezes leva a textos normativos de duvidosa constitucionalidade/ legalidade. A parte mais importante da resolução é no preenchimento de lacunas no regime de precatórios. Por exemplo, conforme veremos no decorrer desta obra, existem algumas divergências entre as competências do juízo da execução e o presidente do tribunal, que são enfrentadas pela resolução. Também há o enfrentamento do procedimento concreto de pagamento do crédito, bem como da possibilidade de pagamento parcial do crédito, no caso de falta de verbas. A amplitude desse poder normativo do CNJ é fenômeno que começa a despertar a atenção da doutrina. O art. 103-B, §4º, da Constituição prevê como competência do CNJ, o controle da atuação administrativa e financeira do Poder Judiciário e o cumprimento dos deveres funcionais dos juízes, podendo expedir atos regulamentares no âmbito de sua competência. A competência é exercida por meio de resoluções, nos termos do art. 102, §5º, do Regimento Interno do CNJ. O exercício dessa competência faz parte do exercício da função normativa, mas não legislativa do CNJ.7 O ponto de maior complexidade é a edição de regulamentos autônomos, originados da atribuição implícita de exercício normativo a partir do texto constitucional ou decorrente de sua estrutura, nos limites da competência do órgão regulador. Nessa situação, o órgão vai além de especificar um instituto já previsto, criando obrigações de fazer ou deixar de fazer alguma coisa.8 7. DIDIER JR., Fredie; FERNANDEZ, Leandro. O Conselho Nacional de Justiça e o direito processual: administração judiciária, boas práticas e competência normativa. Salvador: Juspodivm, 2022, p. 55. Não especificamente sobre o CNJ, mas apontando para o exercício do poder regulamentar pelo Poder Judiciário como normativo, embora derivado, sendo a função legislativa como um poder originário: GRAU, Eros. O direito posto e o direito pressuposto. 7ª ed. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 248. 8. GRAU, Eros. O direito posto e o direito pressuposto... cit., p. 254. Para uma reflexão mais específicas sobre os limites do poder regulamentar: FERREIRA FILHO, Marcílio da Silva. Poder regulamentar: aspectos controvertidos no contexto da função regulatória. Rio de Janeiro: MANUAL DOS PRECATÓRIOS26 O STF, em diversos julgados,9 tem reconhecido o poder de o CNJ editar regulamentos autônomos, a partir da existência de um núcleo normativo implícito existente no art. 103-B da Constituição. O desafio é identificar os seus limites. Dentre eles, tem-se colocado “a concepção e o controle da atuação administrativa do Poder Judiciário”,10 nos termos do art. 103-B, §4º, da Constituição. O controle da atuação administrativa possui relação direta com a gestão dos precatórios, em especial no que se refere a atuação do presidente do tribunal. Como será aprofundado mais a frente, os tribunais superiores entendem que a atividade do presidente do tribunal após expedição do precatório é administrativa, o que aumentaria a amplitude do exercício do poder regulamentar autônomo. A pressuposição da possibilidade de edição de decretos autônomos é a de que não haja texto normativo constitucional ou infraconstitucional sobre o tema. E, mais do que isso, o regulamento não pode violar nenhuma norma (regra ou princípio) legal ou constitucional.11 Em vários momentos desta obra, o desafio será identificar os limites do poder regulamentar exercido pelo CNJ sobre os precatórios. Por conta das muitas lacunas na regulação legal, o CNJ atua de forma autônoma, mas, em certos momentos, ignora legislações e precedentes aplicáveis ao tema, fazendo com que o regulamento possa ser ilegal e, por vezes, até diretamente inconstitucional, sem que haja qualquer intermediação da lei infraconstitucional. Na última hipótese, dada a sua autonomia, passa a ser possível o aumento do controle judicial das resoluções do CNJ, para além do controle de legalidade no caso concreto. Não havendo mera regulação de lei infraconstitucional, a violação – se existente – é direta em relação à Lumen Juris, 2016. 9. STF, Tribunal Pleno, ADC 12 MC, Rel. Min. Carlos Britto, j. 16/02/2006, DJ 01/09/2006; STF, Tribunal Pleno, ADI 3367, Rel. Min. Carlos Britto, j. 13/04/2005, DJ 22/09/2006. Para um ponto de vista em que os regulamentos do CNJ não podem ser autônomos, atuando apenas de forma a atividade concreta dos juízes, sem criar e nem restringir direitos, sob pena de violação ao Estado Democrático de Direito, cf.: STRECK, Lenio Luiz; SARLET, Ingo Wolfgang; CLÈVE, Clèmerson Merlin. Os Limites Constitucionais das Resoluções do CNJ e do CNMP. O Estado de São Paulo, 05/12/2005, Espaço Aberto, p. A2, Disponível em http:// www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/314073, acessado em 12/10/2022. Com raciocínio semelhante: ROBL FILHO, Ilton Norberto. Conselho Nacional de Justiça: controle (accountability) judicial. In: CLÈVE, Clèmerson Merlin (Coord.). Direito Constitucional Brasileiro – Organização do Estado e dos Poderes. São Paulo: RT, 2014, p. 831. 10. DIDIER JR., Fredie; FERNANDEZ, Leandro. O Conselho Nacional de Justiça e o direito processual... cit., p. 58. 11. ROMANO, Santi. Princípios de direito constitucional geral. Trad. Maria Helena Diniz. São Paulo: RT, 1977, p. 356. 27RAVI PEIXOTO Constituição, autorizando-se o controle concentrado de constitucionalidade no STF.12 De qualquer forma, deve ser ressaltado que as resoluções do CNJ sobre os precatórios são infralegais e, no máximo, autônomas, devendo obedecer diretamente a Constituição. Em nenhum dos casos, elas são imunes a interpretação, estando também submetidas à sistemática dos precedentes. Até porque, mesmo que se parta do pressuposto de que boa parte da atuação por parte dos presidentes dos tribunaistem natureza administrativa, ainda assim, é possível eventual impetração de mandado de segurança. Ou seja, no fim das contas, o tema sempre volta ao Poder Judiciário para a interpretação das resoluções e de suas relações com as leis ordinárias e a Constituição. Havendo possível conflito entre a resolução do CNJ e precedentes obrigatórios do STF ou do STJ, deve prevalecer o entendimento das Cortes. Afinal, a elas compete a definição da interpretação dos textos normativos. Mesmo que a resolução do CNJ seja posterior ao precedente, ela não estaria, em princípio, no mesmo nível normativo. A ideia é a de que ao STJ compete a interpretação da legislação infraconstitucional e ao STF a interpretação da Constituição.13 Se o STJ, por exemplo, interpretou lei ordinária e, posteriormente, o CNJ edita resolução em sentido contrário, a resolução é ilegal. Podem, no entanto, ocorrer situações diversas. Como veremos no item 3.1, STJ e STF debruçaram-se por diversas vezes sobre os índices de correção monetária e juros nos precatórios. A EC 113/2021 alterou todos esses parâmetros, estabelecendo a Selic como taxa única. Alterações das resoluções do CNJ para se adequarem à nova emenda constitucional não estarão em conflito com as decisões do STJ e do STF. Elas serão uma proposta de delimitação das novas bases normativas, que revogaram tanto os textos normativos anteriores, como as interpretações adotadas pelo STJ e pelo STF. Naturalmente, é possível que haja, em certos momentos, ruídos comunicativos relacionados a decisões obrigatórias do STJ e do STF, textos normativos posteriores e as resoluções do CNJ. Por vezes, não será claro que o texto normativo posterior altera o conteúdo dos precedentes obrigatórios e pode ser que a resolução do CNJ tome partido. Nessas situações, havendo divergência jurídica a ser resolvida pelos presidentes dos tribunais, a eles 12. A título exemplificativo, o STF já apreciou a constitucionalidade de artigos da Resolução CNJ n. 303/2019: STF, Tribunal Pleno, ADI 6556 MC-Rcon-Ref, Rel. Min: Rosa Weber, j. 21/02/2022, DJe 31/03/2022. 13. Para a devida análise do tema, com as devidas referências bibliográficas, cf.: PEIXOTO, Ravi. Superação do precedentes e modulação de efeitos. 5ª ed. Salvador: Juspodivm, 2022, p. 400-409. 1128 Ravi Peixoto Precatórios frente Páginas de Google books