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FUNDAMENTOS DE ASTRONOMIA AULA 3 Prof. Daniel Guimarães Tedesco 2 CONVERSA INICIAL Nesta etapa, vamos concentrar nossa atenção em um dos astros mais importantes para a vida como a conhecemos: o Sol. Vamos começar explorando a estrutura do Sol, entendendo suas camadas e discutindo como o Sol gera energia através da fusão nuclear. Em seguida, abordaremos o Diagrama de Hertzsprung-Russell (HR), uma ferramenta essencial na astronomia. Esse diagrama não apenas nos ajuda a entender a classificação das estrelas, mas também revela suas idades, composições e distâncias. Vamos aprender a identificar diferentes tipos de estrelas no diagrama, como anãs brancas, gigantes vermelhas e a sequência principal, e entender o que cada posição no diagrama significa em termos de temperatura, luminosidade e tamanho estelar. Falaremos também da relação entre massa e luminosidade das estrelas. Esta seção irá esclarecer como a massa de uma estrela pode influenciar sua luminosidade, temperatura e cor. Vamos explorar como estrelas maiores tendem a ser mais luminosas, mas têm vidas mais curtas, enquanto estrelas menores, como anãs vermelhas, brilham com menos intensidade, mas podem viver por trilhões de anos. Por fim, discutiremos o tempo de vida das estrelas e como ele está intrinsecamente ligado à sua massa. Exploraremos o ciclo de vida estelar, desde o nascimento em nebulosas até o eventual colapso em anãs brancas, estrelas de nêutrons ou buracos negros. Ao final desta etapa, teremos uma compreensão mais profunda não apenas do Sol, mas também das estrelas que iluminam nosso céu noturno. TEMA 1 – SOL: ESTRUTURA E ENERGIA O Sol, que é a estrela mais próxima de nós e a mais estudada, é essencialmente uma vasta bola de gás brilhante. No seu núcleo, a energia é gerada através de reações termonucleares. O estudo do Sol nos ajuda a entender melhor as outras estrelas, que, devido à sua distância, parecem apenas pequenos pontos de luz para nós. Embora o Sol pareça grande e luminoso1, ele é na verdade uma estrela bem comum. 1 Comparando o brilho do Sol com a estrela mais brilhante, Sírius, notamos uma diferença de cerca de 200 bilhões de vezes maior do que esta. 3 Tabela 1 – Alguns dados solares Massa 𝑴𝑴⨀ = 𝟏𝟏,𝟗𝟗𝟗𝟗𝟗𝟗 × 𝟏𝟏𝟏𝟏𝟑𝟑𝟏𝟏𝒌𝒌𝒌𝒌 Raio 𝑹𝑹⨀ = 𝟔𝟔,𝟗𝟗𝟔𝟔𝟏𝟏 × 𝟏𝟏𝟏𝟏𝟗𝟗𝒌𝒌𝒌𝒌 Densidade média 𝝆𝝆 = 𝟏𝟏𝟏𝟏𝟏𝟏𝟗𝟗 𝒌𝒌𝒌𝒌/𝒎𝒎𝟑𝟑 Densidade central 𝝆𝝆𝒄𝒄 = 𝟏𝟏,𝟔𝟔 × 𝟏𝟏𝟏𝟏𝟓𝟓𝒌𝒌𝒌𝒌/𝒎𝒎𝟑𝟑 Distância 𝟏𝟏𝟏𝟏𝟏𝟏 = 𝟏𝟏,𝟏𝟏𝟗𝟗𝟔𝟔 × 𝟏𝟏𝟏𝟏𝟗𝟗𝒌𝒌𝒎𝒎 Luminosidade 𝑳𝑳⨀ = 𝟑𝟑,𝟗𝟗 × 𝟏𝟏𝟏𝟏𝟑𝟑𝟑𝟑𝒆𝒆𝒆𝒆𝒌𝒌/𝒔𝒔 Temperatura efetiva 𝑻𝑻𝒆𝒆𝒆𝒆 = 𝟓𝟓𝟓𝟓𝟗𝟗𝟓𝟓𝟓𝟓 Temperatura central 𝑻𝑻𝒄𝒄𝒆𝒆𝒄𝒄𝒄𝒄𝒆𝒆𝒄𝒄𝒄𝒄 = 𝟏𝟏,𝟓𝟓 × 𝟏𝟏𝟏𝟏𝟓𝟓𝟓𝟓 Composição química principal • Hidrogênio = 91,2% • Hélio = 8,7% • Oxigênio = 0,078% • Carbono = 0,049% Na Tabela 1, podemos ver alguns dados importantes que servem inclusive para comparação com outros sistemas. A exemplo da massa solar 𝑴𝑴⨀ e do raio solar 𝑹𝑹⨀, que são muito utilizados em comparação com outras estrelas, e a unidade astronômica 𝟏𝟏𝟏𝟏, que é definida como a distância entre a Terra e o Sol. 1.1 Breve sobre tomada de dados astronômicos Talvez você tenha se perguntado: como sabemos desses dados do Sol se nunca conseguimos chegar lá? Antes de você começar a ficar mais duvidoso olhando as falas posteriores sobre a estrutura solar também causaria uma certa estranheza, vamos falar rapidamente sobre os dados e medidas que foram feitas. Alguns dados são fáceis de entender: • A distância do Sol é determinada por meio de ondas de rádio direcionadas a um planeta em uma posição favorável em sua órbita, como Vênus. • O tamanho do Sol é calculado a partir de seu tamanho angular e distância. • A massa do Sol é medida através do movimento orbital da Terra ou de outros planetas, utilizando a Terceira Lei de Kepler. • Com base na massa e no raio do Sol, podemos calcular sua densidade média, o que nos permite inferir sua composição química média. Outras características do Sol são determinadas com modelos fenomenológicos e/ou matemáticos. Um exemplo é a equação de equilíbrio 4 hidrostático, que nos permite determinar a pressão e a temperatura no centro do Sol, as quais devem ser extremamente altas para suportar o peso das camadas externas. 1.1.1 Espectroscopia: emissão e absorção Rapidamente: todo corpo emite e absorve radiação, fenômeno conhecido como radiação térmica. Quando falamos em radiação, estamos nos referindo à energia sendo propagada no espaço, e para estudar os objetos astronômicos é muito utilizada a espectroscopia. Figura 1 – Fenômeno de difração da luz branca Créditos: ALBERT STEPHEN JULIUS/Shutterstock. A espectroscopia é o estudo da interação entre a radiação eletromagnética e a matéria. Ela é realizada decompondo a luz em suas cores constituintes, as quais são chamadas de espectro, sendo possível utilizá-las para determinar informações como a temperatura de um objeto e quais elementos e compostos o constituem, sem a necessidade de uma amostra direta. Logo, é a ferramenta perfeita para a Astronomia, visto que não é viável fazermos experimentos in loco. 5 Figura 2 – Espectroscopia da estrela Altair como exemplo Fonte: NASA/STSCI. Na Figura 2, podemos ver como o espectro se apresenta após passar pelo prisma ou rede de difração e o gráfico usado para verificar os elementos químicos a partir do conhecimento dos padrões espectrais destes. Podemos classificar 3 tipos de espectros: o espectro contínuo, o espectro de emissão e o espectro de absorção. • Espectro contínuo: um espectro contínuo é um espectro que contém todas as cores do arco-íris, sem interrupções. Ele é emitido por objetos que estão aquecidos a uma temperatura uniforme, como estrelas, filamentos de lâmpadas e planetas. • Espectro de absorção: é semelhante ao espectro contínuo, mas com algumas “cores faltando”, que são as chamadas linhas de absorção, que representam os comprimentos de onda “absorvidos” pelo material/composto/objeto. • Espectro de emissão: são as linhas que faltaram no espectro de absorção e que são emitidas. Um espectro de emissão é um padrão de linhas coloridas que é emitido por um átomo ou molécula excitado. As linhas de emissão são causadas pela transição de elétrons entre níveis de energia diferentes. Cada átomo ou molécula tem um padrão de linhas de emissão 6 exclusivo, que pode ser usado para identificá-lo, como um “RG” de um composto. Figura 3 – Tipos de espectros Fonte: NASA/STSCI. 1.1.2 Breve sobre dados de telescópios Precisamos pontuar rapidamente sobre dois equipamentos fundamentais para a tomada de dados que serão aprofundados posteriormente: • Telescópios ópticos: dispositivo que reúne e direciona a luz, especialmente na faixa visível do espectro eletromagnético, com o objetivo de produzir uma imagem ampliada para observação direta, captura fotográfica ou coleta de dados através de sensores eletrônicos de imagem. Desempenha algumas funções primárias: 1. Captura de luz de uma área expandida, possibilitando a análise de fontes com baixa luminosidade. 2. Aprimoramento da resolução e ampliação do diâmetro angular do objeto. 3. Determinação da posição do objeto. • Radiotelescópios: basicamente antenas construídas para receberem os sinais emitidos por estrelas, quasares, galáxias etc. Sabendo que corpos 7 emitem radiação, podemos estudar algumas propriedades dos objetos astronômicos usando os radiotelescópios. Figura 2 – Distribuição de energia eletromagnética emitida pelo Sol Crédito: Imagem cortesia do programa COMET e do Observatório de Alta Altitude do NCAR (Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica). 1.2 Estrutura do Sol Os gases que compõem o interior do Sol,principalmente hidrogênio e hélio, estão quase totalmente ionizados devido às altas temperaturas, pressões e densidades a que estão submetidos. Essas condições se intensificam à medida que nos aprofundamos no Sol. No centro do Sol, essas condições físicas extremas possibilitam as reações termonucleares que transformam o hidrogênio em hélio, liberando grandes quantidades de energia na forma de fótons e movimentos térmicos. 8 Figura 3 – Regiões solares Créditos: VECTORMINE/Shutterstock. Quando olhamos para o Sol, vemos apenas seu contorno claramente definido, que é considerado a superfície solar. Esta superfície, uma camada fina conhecida como fotosfera, tem uma espessura menor do que 0,1% do raio do Sol. No entanto, o Sol é composto por várias camadas internas, cada uma com diferentes condições físicas. Vamos aos elementos: • Núcleo do Sol: a energia é gerada através de reações termonucleares, criando temperaturas extremas no núcleo do Sol. Essas reações ocorrem quando os núcleos dos átomos se combinam sob condições de alta temperatura e pressão, liberando uma grande quantidade de energia. • Fotosfera: se assemelha a um líquido fervente com bolhas chamadas grânulos, fenômeno conhecido como granulação fotosférica. Esses grânulos, com cerca de 1500 km de diâmetro e duração de aproximadamente 10 minutos, representam o topo das colunas convectivas de gás quente originadas na zona convectiva, situada logo abaixo da fotosfera. • Zona radiativa: a energia se move lentamente para fora, levando mais de 170.000 anos para irradiar através desta camada do Sol. Esta é uma região do Sol onde a energia é transportada principalmente por meio de radiação, daí o nome. 9 • Zona de convecção: a energia continua a se mover em direção à superfície através de correntes de convecção do gás aquecido e resfriado. Este é um processo pelo qual o calor é transportado por meio do movimento de um fluido, neste caso, o plasma solar. • Cromosfera: esta camada relativamente fina do Sol é esculpida por linhas de campo magnético que restringem o plasma solar eletricamente carregado. Ocasionalmente, características de plasma maiores, chamadas proeminências, se formam e se estendem muito para a coroa muito tênue e quente, às vezes ejetando material para longe do Sol. • Coroa: os elementos ionizados dentro da coroa (ou atmosfera solar) brilham nos comprimentos de onda de raios-X e ultravioleta extremo. Os instrumentos da NASA podem capturar imagens da coroa do Sol nessas energias mais altas, já que a fotosfera é bastante fraca nesses comprimentos de onda. • Emissões coronais: o plasma que flui para fora da coroa é moldado por linhas de campo magnético em formas afuniladas chamadas emissões coronais, que se estendem milhões de milhas no espaço. • Manchas solares: estão associadas a campos magnéticos muito intensos que seguem um ciclo de 11 anos entre seu valor máximo e mínimo de intensidade de ejeção de massa coronal. Complementando, os ventos solares, que emanam da coroa solar, são compostos por partículas carregadas que se espalham pelo Sistema Solar. O campo magnético da Terra protege a vida na Terra, desviando ou aprisionando essas partículas no Cinturão de Van Allen. As partículas que escapam deste cinturão se dirigem aos polos, formando as auroras (boreal, no Hemisfério Norte, e austral, no Hemisfério Sul) ao colidirem com a atmosfera terrestre. As auroras são intensificadas durante as ejeções de massa coronal, que são grandes liberações de partículas da coroa solar. 10 Figura 4 – Formação das auroras Créditos: VECTORMINE/Shutterstock. 11 1.2 Energia do Sol Para comparar com um objeto do nosso cotidiano, vemos que a radiação solar incidente por unidade de área na superfície terrestre é equivalente à emissão de energia luminosa proveniente de 14 lâmpadas incandescentes de 100 W a cada segundo. O Sol, por sua vez, libera uma quantidade massiva de energia, estimada em 4 trilhões de trilhões dessas lâmpadas a cada segundo. A explicação acerca da origem dessa energia foi fornecida apenas em 1937, quando Hans Bethe (1906-2005) propôs que a fusão de quatro núcleos de hidrogênio H (quatro prótons) conduz à formação de um núcleo de hélio, liberando energia conforme a relação relativística massa-energia 𝑬𝑬 = 𝒎𝒎𝒄𝒄², de Albert Einstein (1879-1955). Esta reação nuclear não ocorre de forma instantânea, mas sim em fases sequenciais, cada uma delas resultando na liberação de energia chamada de cadeia próton-próton. Inicialmente, dois prótons colidem e permanecem unidos devido à ação da força nuclear forte, responsável por ligar prótons e nêutrons no núcleo atômico, formando um núcleo de deutério 𝑯𝑯 𝟐𝟐 (hidrogênio cujo núcleo consiste em um próton e um nêutron). Nesse processo de colisão, um pósitron 𝒆𝒆 + (antimatéria do elétron) e um neutrino do elétron 𝝂𝝂𝒆𝒆 são emitidos, de acordo com a reação nuclear 𝒑𝒑 + 𝒑𝒑 → 𝑯𝑯 𝟐𝟐 + 𝒆𝒆+ + 𝝂𝝂𝒆𝒆 Após, 1 próton colide com 1 deutério e gera um hélio-3 𝑯𝑯𝒆𝒆 𝟑𝟑 e raios gama (fótons de altíssima energia) pela equação 𝒑𝒑 + 𝑯𝑯 𝟐𝟐 → 𝑯𝑯𝒆𝒆 𝟑𝟑 + 𝜸𝜸 A partir daqui, a reação em cadeia pode seguir vários caminhos, mas vai resultar em um núcleo de hélio-4. Um desses caminhos é a terceira reação com os dois núcleos de 𝑯𝑯𝒆𝒆 𝟑𝟑 gerando um hélio-4. 𝑯𝑯𝒆𝒆 𝟑𝟑 + 𝑯𝑯𝒆𝒆 𝟑𝟑 → 𝑯𝑯𝒆𝒆 𝟏𝟏 + 𝒑𝒑 + 𝒑𝒑 Ainda teríamos outro processo que produz neutrinos mais energéticos que usa um núcleo de hélio-4 como catalisador e percorre isótopos de berílio 𝑩𝑩𝒆𝒆, 12 mas já podemos vislumbrar a síntese do hélio-4 por meio de reações nucleares de maneira satisfatória. Figura 5 – Fusão nuclear Créditos: Designua/Shutterstock. TEMA 2 – ESPECTROSCOPIA ESTELAR E DIAGRAMA HR Inicialmente, entre 1813 e 1825, Fraunhofer observou que o Sol e as estrelas tinham espectros semelhantes, mas foi somente em meados do século que Huggins e Secchi foram mais precisos: Huggins, em 1864, obteve o primeiro espectro de uma nebulosa, identificando linhas brilhantes de emissão. Secchi, em 1863, classificou os espectros estelares de acordo com as linhas escuras. 13 De fato, a fotografia ainda não era possível até meados do século XIX, quando a técnica fotográfica foi desenvolvida. Somente em 1872, Henry Draper obteve a primeira foto de um espectro estelar da estrela Vega. A classificação espectral atual foi desenvolvida no Observatório de Harvard no início do século XX. Edward Pickering reconheceu a necessidade de muitos espectros para uma classificação precisa e iniciou a coleta de espectros em fotografias. A classificação dos espectros foi realizada por Williamina Fleming, Antonia Maury e, principalmente, Annie Cannon, que classificou 225.000 estrelas entre 1918 e 1924. O trabalho foi financiado por Anna Palmer Draper em memória de seu marido, Henry Draper. Annie Cannon classificou as estrelas de acordo com as linhas de hidrogênio, estabelecendo classes como A, B, C etc., com base na intensidade das linhas. Logo mais voltaremos com a classificação mais atual das estrelas. 2.1 Diagrama HR O diagrama de Hertzsprung-Russell (HR) é uma ferramenta fundamental para classificar as estrelas com base em suas propriedades físicas e espectrais. Este diagrama classifica as estrelas em algumas categorias, incluindo estrelas da sequência principal, gigantes, supergigantes e anãs brancas, com base em suas magnitudes absolutas ou luminosidades e outras características físicas. Estrelas da sequência principal, como o Sol, são caracterizadas por serem estrelas anãs de classe de luminosidade V. Elas são alinhadas ao longo de uma faixa na diagonal do diagrama, indo de estrelas quentes e muito luminosas no extremo superior esquerdo até estrelas frias e pouco luminosas no extremo inferior direito.A posição de uma estrela na sequência principal é determinada principalmente por sua massa, com estrelas mais massivas sendo mais quentes e mais luminosas. Acima da sequência principal, encontram-se as estrelas gigantes, classificadas nas classes de luminosidade II ou III. Estas estrelas são caracterizadas por serem frias e luminosas. No topo do diagrama estão as supergigantes, com classe de luminosidade I, que são ainda mais luminosas. As anãs brancas são encontradas no canto inferior esquerdo do diagrama, classificadas com a classe de luminosidade D. Apesar do nome, elas cobrem um intervalo de temperatura e cores variado, desde as mais quentes e azuis ou 14 brancas, com temperaturas superficiais de até 200.000 K, até as mais frias, que são vermelhas, com temperaturas superficiais de cerca de 3.500 K. Figura 6 – Diagrama Hertzsprung-Russell (HR) Créditos: gstraub/Shutterstock. Dentro do espectro astronômico, certos astros divergem do trajeto convencional da sequência principal. As estrelas categorizadas nas classes de luminosidade I, II e III, apesar de constituírem uma fração inferior a 1% do total estelar, exibem uma luminosidade excepcionalmente alta. Esta característica coexiste com uma temperatura superficial relativamente baixa. Em contraste, um conjunto distinto de estrelas, que representam aproximadamente 20% do universo estelar, demonstram uma luminosidade significativamente menor. Estas, conhecidas como anãs brancas, possuem temperaturas superficiais elevadas. O Diagrama de Hertzsprung-Russell (HR) é uma ferramenta fundamental na análise da evolução estelar e na compreensão da formação estelar dentro de galáxias. Este diagrama revela que a maioria das estrelas pertencentes a um determinado aglomerado estelar compartilha propriedades similares em termos de luminosidade e temperatura superficial. Considerando-se que as estrelas em um aglomerado específico tendem a ter se formado em um período temporal 15 relativamente compacto, o Diagrama de HR oferece informações sobre a idade das estrelas. Além disso, ele oferece indícios significativos a respeito da distância das estrelas em relação à Terra. TEMA 3 – CLASSIFICAÇÃO DAS ESTRELAS Atualmente, as estrelas são classificadas com base na temperatura utilizando diferentes métodos e sistemas, e a classificação é feita seguindo uma ordem decrescente de temperatura. O sistema de classificação espectral mais comum é o sistema MK (Morgan-Keenan), que classifica as estrelas em tipos espectrais, indo das mais quentes às mais frias. Esses tipos espectrais são indicados pelas letras O, B, A, F, G, K e M, com O representando as estrelas mais quentes e M as mais frias. • Tipo O: estas são as estrelas mais quentes com temperaturas superiores a 30.000 K. Elas exibem linhas de absorção de íons de hélio e linhas de emissão de hidrogênio e íons metálicos. São estrelas luminosas, muitas vezes encontradas em regiões de formação estelar (Walborn et al., 2014). • Tipo B: Com temperaturas entre 10.000 e 30.000 K, as estrelas tipo B têm linhas de hidrogênio proeminentes e linhas de hélio menos intensas. São estrelas brilhantes e azuis, muitas vezes encontradas em aglomerados estelares (Underhill, 1972). • Tipo A: estrelas tipo A têm temperaturas entre 7.500 e 10.000 K e são caracterizadas por fortes linhas de hidrogênio e algumas linhas metálicas. São estrelas brancas, como Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno. • Tipo F: estas estrelas têm temperaturas entre 6.000 e 7.500 K e mostram uma mistura de linhas de hidrogênio e linhas metálicas mais fortes, especialmente de cálcio ionizado. • Tipo G: com temperaturas entre 5.200 e 6.000 K, as estrelas tipo G, como o nosso Sol, exibem linhas de metais ionizados e neutros, bem como algumas linhas de moléculas como o óxido de titânio. • Tipo K: estrelas tipo K têm temperaturas entre 3.700 e 5.200 K e são caracterizadas por linhas de absorção de metais e bandas moleculares. São estrelas laranjas, menores e mais frias do que o Sol. 16 • Tipo M: as mais frias da sequência principal, com temperaturas abaixo de 3.700 K, as estrelas tipo M exibem fortes bandas de absorção molecular, particularmente de óxido de titânio. São estrelas vermelhas e constituem a maior parte das estrelas da nossa galáxia. TEMA 4 – RELAÇÃO MASSA-LUMINOSIDADE A determinação das massas estelares é possível, especialmente no caso de sistemas binários, onde estrelas orbitam mutuamente, com uma medição baseada na aplicação da Terceira Lei de Kepler. As observações astronômicas têm revelado uma correlação ascendente entre a massa das estrelas e sua posição na sequência principal, sugerindo que as estrelas mais massivas estão localizadas nas regiões superiores da sequência. Consequentemente, estabelece-se uma relação entre a massa e a luminosidade das estrelas. Essa relação facilita a estimativa das massas estelares a partir de seu tipo espectral. Em estrelas de massas significativas, superiores a 3 massas solares, observa-se que a luminosidade é diretamente proporcional ao cubo da massa: 𝑴𝑴 ≥ 𝟑𝟑𝑴𝑴⨀ → 𝑳𝑳 ∝ 𝑴𝑴𝟑𝟑 Por outro lado, em estrelas de massas inferiores, especificamente aquelas menores do que 0,5 massa solar, a luminosidade apresenta uma proporcionalidade à massa elevada à potência de 2,5: 𝑴𝑴 ≤ 𝟏𝟏 𝟐𝟐 𝑴𝑴⨀ → 𝑳𝑳 ∝ 𝑴𝑴𝟐𝟐,𝟓𝟓 No intervalo entre esses valores, temos: 𝟑𝟑𝑴𝑴⨀ > 𝑴𝑴 > 𝟏𝟏 𝟐𝟐 𝑴𝑴⨀ → 𝑳𝑳 ∝ 𝑴𝑴𝟏𝟏 As estrelas mais luminosas observadas são azuis, com até 100 massas solares e luminosidade um milhão de vezes maior do que a do Sol. As supergigantes também são muito luminosas e grandes. As menos luminosas são as anãs vermelhas, com um mínimo de 8% da massa solar. 17 TEMA 5 – TEMPO DE VIDA DAS ESTRELAS Durante seu ciclo de vida, as estrelas passam por várias fases, começando sua jornada a partir de nuvens moleculares e evoluindo através de estágios de equilíbrio entre energia gravitacional e reações nucleares. A longevidade de uma estrela é determinada pela relação entre sua reserva de energia e a taxa na qual ela consome essa energia, isto é, sua luminosidade. Como a luminosidade é proporcional2 ao cubo da massa da estrela (𝑳𝑳 ∝ 𝑴𝑴³), estrelas mais massivas gastam sua energia mais rapidamente e, portanto, têm uma vida mais curta. A maior parte da vida de uma estrela ocorre na sequência principal, onde gera energia através de fusões termonucleares. Em estrelas como o Sol, o processo mais importante é a conversão de hidrogênio em hélio, onde há uma perda de massa que se transforma em energia, conforme a equação 𝑬𝑬 = 𝒎𝒎𝒄𝒄². Na reação de fusão nuclear típica, como a que ocorre no Sol, aproximadamente 0,7% da massa reagente é convertida em energia. Esta massa provém principalmente do núcleo da estrela, que representa cerca de 10% da massa total da estrela. Assim, somente esta porção contribui efetivamente para a geração de energia durante a maior parte da vida da estrela, especificamente na fase da sequência principal. A maior parte de sua vida é passada na sequência principal3, onde ocorrem mudanças estáveis em massa e luminosidade devido à queima de hidrogênio em seu núcleo. À medida que envelhecem, a produção de energia se altera, e elas passam para as fases de gigante ou supergigante, apresentando mudanças significativas em tamanho e luminosidade. Finalmente, dependendo de sua massa inicial, elas morrem como anãs brancas ou supernovas. Precisamos destacar também a relação entre a massa de uma estrela e seu tempo de vida como um aspecto fundamental da astrofísica. Estrelas com maior massa têm uma vida mais curta. Isso ocorre porque elas consomem seu combustível nuclear a uma taxa muito mais rápida para compensar a forte força gravitacional que tende a colapsá-las. Como resultado, essas estrelas geram uma quantidade enormede energia para manter o equilíbrio, esgotando rapidamente seu combustível nuclear. 2 Admitimos como uma boa aproximação. 3 Fazendo uso da relação massa-energia, uma estrela fica na sequência principal por 10 bilhões de anos. 18 Figura 7 – Evolução estelar Fonte: . Na Figura 7, podemos destacar a escatologia das estrelas em função da sua massa, ou seja, qual o final destas após todo o processo de “queima” e colapso gravitacional. NA PRÁTICA O assunto é muito extenso e cheio de nuances. Vamos continuar com o último, que é a morte estelar. Faça uma pesquisa usando fontes confiáveis sobre: • Nebulosa planetária; • Supernova; • Estrela de nêutrons; • Estrela Wolf-Rayet; • Buraco negro. 19 Pesquise as definições de cada um desses objetos que foram mencionados na Figura 7, mas que ainda não foram definidos em nosso estudo. Veja como foi a história de cada descoberta, os astrônomos responsáveis e quais os instrumentos foram utilizados. FINALIZANDO Concluindo esta etapa, resumimos os pontos-chave sobre a astronomia estelar com foco no Sol e nas estrelas. Iniciamos discutindo a estrutura solar e os processos de fusão nuclear, fundamentais para entender a geração de energia solar. Em seguida, abordamos o Diagrama de HR, enfatizando sua importância na classificação estelar, o que nos permitiu decifrar as relações entre a temperatura, luminosidade e tamanho das estrelas. Falamos também da correlação entre massa e luminosidade estelar, destacando como esses fatores influenciam tanto as características físicas quanto o ciclo de vida das estrelas. Observamos que estrelas de maior massa possuem maior luminosidade, porém vida mais curta, enquanto estrelas de menor massa, como as anãs vermelhas, têm longevidade estendida. Finalizamos examinando o ciclo de vida das estrelas, desde sua formação até o colapso final, ressaltando a importância da massa estelar nesse processo. 20 REFERÊNCIAS ALARSA, F. et al. Fundamentos de Astronomia. São Paulo: Papirus, 1982. COMINS, N. F.; KAUFMANN III, W. J. Descobrindo o universo. 8. ed. Porto Alegre: Bookman, 2010. KEPLER, S. O.; SARAIVA M. F. O. Astronomia e Astrofísica. Porto Alegre: Ufrgs, 2014. LIMA NETO, G. B. Astronomia de Posição. Notas de aula. São Paulo: USP, 2018. RUSSELL, H. N. et al. The HR diagram: the 100th anniversary of Henry Norris Russell: symposium no. 80 held at the National Academy of Sciences, Washington, D.C., 2-5 nov., 1977. Dordrecht, Holland; Boston: D. Reidel Pub. Co, 1978. CONVERSA INICIAL TEMA 1 – SOL: ESTRUTURA E ENERGIA 1.1 Breve sobre tomada de dados astronômicos 1.1.1 Espectroscopia: emissão e absorção 1.1.2 Breve sobre dados de telescópios 1.2 Estrutura do Sol 1.2 Energia do Sol TEMA 2 – ESPECTROSCOPIA ESTELAR E DIAGRAMA HR 2.1 Diagrama HR TEMA 3 – CLASSIFICAÇÃO DAS ESTRELAS TEMA 4 – RELAÇÃO MASSA-LUMINOSIDADE TEMA 5 – TEMPO DE VIDA DAS ESTRELAS NA PRÁTICA FINALIZANDO REFERÊNCIAS