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ALTAS HABILIDADES OU MÔNICA CONDESSA FRANKE SUPERDOTAÇÃO ISBN 978-65-5821-320-8 9 786558 213208 M ô nica C o nd e ssa Fra nke A lta s ha b ilid a d es o u sup erd ota çã o Código Logístico I001125 Altas habilidades ou superdotação Mônica Condessa Franke IESDE BRASIL 2023 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2023 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Alast0r/shutterstock - kotoffei/shutterstock 23-84685 CDD: 371.95 CDU: 376-056.45 CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ F913a Franke, Mônica Condessa Altas habilidades ou superdotação / Mônica Condessa Franke. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2023. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-320-8 1. Crianças superdotadas - Educação. 2. Educação especial. 3. Inclusão escolar. I. Título. Gabriela Faray Ferreira Lopes - Bibliotecária - CRB-7/6643 23/06/2023 29/06/2023 Mônica Condessa Franke Mestra em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Especialista em Neuropsicopedagogia e em Psicopedagogia pela Faculdade Metropolitana (FAMEESP). Graduada em Pedagogia pela UFPR. Neuropsicopedagoga e psicopedagoga com foco em crianças e adolescentes com altas habilidades ou superdotação (AH/SD). Palestrante e consultora em escolas sobre AH/SD. Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO 1 Conhecendo as altas habilidades ou superdotação 9 1.1 Contexto histórico 10 1.2 Características e mitos 14 1.3 Legislação 21 2 Aspectos biológicos, psicológicos e sociais 26 2.1 Escala de identificação 26 2.2 Aspectos biológicos, psicológicos e suas vertentes 31 2.3 Características sociais 37 3 Aspectos cognitivos e emocionais 42 3.1 Aspectos cognitivos e emocionais 42 3.2 Identificação dos alunos com AH/SD 49 4 Superdotação e escola 60 4.1 Rendimento escolar dos superdotados 61 4.2 Orientações aos pais e responsáveis 64 4.3 Práticas pedagógicas 69 5 Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 78 5.1 Atendimento dentro e fora da sala de aula 79 5.2 Adaptações curriculares 83 5.3 Enriquecimento curricular 90 Resolução das atividades 98 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! É com grande entusiasmo que apresentamos esta obra, composta de cinco capítulos cuidadosamente elaborados, que têm como objetivo proporcionar uma compreensão aprofundada das altas habilidades ou superdotação (AH/SD). Abordamos estratégias eficazes para lidar com alunos com essas características tanto em família quanto dentro do ambiente escolar, propiciando a eles acolhimento e condições para desenvolverem o seu potencial ao máximo. Para começarmos essa trajetória da melhor maneira, o primeiro capítulo é um convite para adentrar o mundo das AH/SD, explorando a trajetória histórica dessas questões e a relação da sociedade com indivíduos com AH/SD. Você terá a oportunidade de compreender as características mais comuns dessas pessoas, desmistificar crenças equivocadas e entender a legislação que abrange a temática. Feita essa apresentação, o segundo capítulo oferece um aprofundamento das AH/SD, explorando os diferentes níveis e perfis dessas pessoas. Além disso, investigamos o funcionamento do cérebro dos indivíduos com AH/SD, compreendendo como eles aprendem e quais os aspectos biológicos e psicológicos que influenciam seu processo de aprendizagem e suas interações sociais. No terceiro capítulo mergulhamos nos aspectos cognitivos da aprendizagem, analisando como ela difere entre alunos com altas habilidades ou superdotação e aqueles com inteligência dentro da média. Além disso, abordamos os aspectos emocionais pertinentes a esses indivíduos e sua relação com o cotidiano. Também exploramos as diferentes abordagens de identificação de alunos com AH/SD, tanto dentro quanto fora do ambiente escolar, e comparamos as inteligências múltiplas presentes em todas as pessoas. O quarto capítulo nos conduz ao tema da aceleração escolar como uma estratégia para promover o melhor desenvolvimento das potencialidades e talentos dos APRESENTAÇÃOVídeo 8 Altas habilidades ou superdotação indivíduos com AH/SD. Discutimos os principais desafios enfrentados nesse processo, além do papel fundamental da família no acompanhamento e envolvimento desses alunos. Também abordamos a criação de ambientes enriquecedores e equitativos tanto na família quanto na escola, implementando estratégias eficazes para lidar com a diversidade de perfis de indivíduos com AH/SD. O quinto e último capítulo explora abordagens já consolidadas, como o modelo da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) de Vygotsky, para enriquecer o currículo e proporcionar uma aprendizagem mais efetiva e significativa a todos os alunos, independentemente de terem ou não AH/SD. São apresentadas técnicas de enriquecimento curricular que valorizam a singularidade de cada aluno, promovendo inclusão e estimulando um caminho mais promissor e envolvente. Ao finalizar a leitura desta obra, você estará apto a compreender o contexto histórico das AH/DS, identificar suas características, diferenciar seus aspectos cognitivos e emocionais, explorar as estratégias de aceleração escolar, bem como enriquecer o currículo para atender às necessidades de todos os alunos. Desejamos uma jornada enriquecedora por esse universo encantador das AH/SD. Que este livro seja uma fonte valiosa de conhecimento e reflexão para os pais dessas pessoas incríveis, para os educadores desses alunos inspiradores, para os profissionais que compartilham momentos encantadores, para os próprios indivíduos com AH/SD – crianças, adolescentes e adultos maravilhosos – e para todos aqueles que estão interessados em compreender e apoiar o desenvolvimento pleno das pessoas com AH/SD. Bons estudos! Conhecendo as altas habilidades ou superdotação 9 1 Conhecendo as altas habilidades ou superdotação Iniciar uma nova disciplina pode deixar qualquer aluno curioso sobre o tema, mas se no momento você não tiver curiosidade sobre altas habilidades ou superdotação, iremos pelo menos deixá-lo encantado com o assunto. De modo geral, as pessoas com altas habilidades ou superdotação (AH/SD) são in- divíduos com inteligência acima da média, quando comparados aos demais, o que requer diferentes abordagens e estratégias para lidar com esses alunos na sala de aula. Mas, o que significa ter AH/SD? Como reconhecer essas pessoas? Quais são as intervenções necessárias para atender às necessidades desses alunos? Eles existem mesmo? Eles são gênios? Iremos responder a esses e muitos outros questionamentos ao longo deste capítulo, e ao concluir esta dis- ciplina, você irá saber muito mais sobre esse mundo encantador. Convidamos você a se aproximar desse assunto e a conhecer um pou- co mais sua trajetória dentro de um contexto histórico, especificamente como foi a relação da sociedade com as pessoascomo filosofia de vida compreender e defender os amigos. Eles se importam em ser aceitos e ficam desolados quando isso não acontece, pois fazem o seu melhor para conseguir isso. Sob outro prisma, os relacionamentos podem avançar com a fal- ta de compreensão ou intolerância, com a inflexibilidade de am- bas as partes na tentativa de comunicação e o desentendimento 38 Altas habilidades ou superdotação também por parte dos colegas que os qualificam como diferentes, algumas vezes sendo criticados por diferirem dos assuntos usuais para aquele grupo ou faixa etária. No que diz respeito ao relacionamento professor/aluno, pode- mos perceber que, por vezes, os professores sentem um pouco de dificuldade em se vincular aos alunos com AH/SD, pois como são a minoria em sala, eles necessitam muitas vezes de um olhar diferenciado e de certo entendimento das características para al- cançá-los. Algumas vezes o professor fica com certa insegurança e se sente frustrado pela dificuldade compreender e respeitar as in- dividualidades de cada estudante. Circunstâncias como essas, tan- to dos colegas como dos professores, podem resultar na rejeição, no isolamento, e como desfecho, a exclusão do grupo social no qual eles estão inseridos. Em contrapartida, alguns professores se sentem muito confortáveis entre os indivíduos com AH/SD em sala de aula, pois esses alunos se destacam em seus conhecimentos e ainda colaboraram para o melhor andamento das aulas com exce- lentes contribuições. Autocrítica e crítica aos demais Outra característica marcante é sua autocrítica e sua capacidade de criticar as outras pessoas à sua volta, isso ocorre porque indivíduos com AH/SD idealizam situações e acreditam que as pessoas com quem estão se relacionando – seja no trabalho ou socialmente – tenham o mesmo nível de raciocínio. Isso faz com que os indivíduos com AH/SD demonstrem certa impaciência quando não são entendidos e, por ve- zes, resistem a se relacionar socialmente, dando preferência aos pares ou pessoas com o mesmo interesse. Quanto à sua capacidade de ser autocrítico e crítico com os de- mais, a sua autocrítica traz consigo uma autoexigência, eleva seu nível de qualidade, faz buscar a precisão. Em constante autoavaliação, a pessoa com AH/SD analisa seus atos e consequências, pensamentos e discursos, por vezes se excedendo nos processos de julgar a si pró- prio. Sempre com uma expectativa muito alta, idealiza o seu melhor sem ao menos refletir sobre a possibilidade de não alcançar o imagi- nado. Decepciona-se, entrando em outra via, que é o autojulgamento, Aspectos biológicos, psicológicos e sociais 39 e não se permite errar; isso afeta significativamente sua autoestima e sua produtividade. Fica evidente que as pessoas com AH/SD, de autocrítica rigorosa, tendem a criticar os outros da mesma maneira, elas também exigem muito dos outros e expectam que as outras pessoas tenham a mesma compreensão e o mesmo entendimento que elas. Quando percebem que seu nível de raciocínio difere dos demais, tendem a ficar impacien- tes, não compreendendo como os demais não seguem a mesma linha de raciocínio que a delas. Preferência por amizade com crianças mais velhas ou com adultos Uma das maiores dificuldades para uma criança com AH/SD é conviver com outras da mesma faixa etária. No ambiente escolar, por exemplo, as crianças com AH/SD têm preferência por se relacio- nar com crianças mais novas, mais velhas ou com adultos. Seus inte- resses nos relacionamentos têm um propósito: ao interagirem com crianças mais novas, sua intenção é o cuidado especial, são empatas e gostam de proteger; com esse intuito, acreditam fazer a diferença naquele momento, defendendo os menores dos mais velhos, aju- dando-os em situações de perigo. Quando sua preferência pela convivência e afinidade se dão com crian- ças mais velhas, elegem-nos para brincar, se relacionar e conversar. Quan- do se trata da convivência de crianças da mesma faixa etária, tendem a não compartilhar do mesmo assunto/interesse da mesma maneira que as crianças mais velhas conseguem acompanhar nos diversos temas. Ainda destacamos a preferência por estarem próximos dos adul- tos quando percebem uma certa afinidade com os assuntos. Entre- tanto, os adultos, por sua vez, também gostam de conversar com as crianças com AH/SD, pela diversidade e curiosidade delas. Para exemplificar essa situação, vejamos a seguinte situação: em uma festa de aniversário dos seus colegas de sala, as crianças – ao invés de brincarem e interagirem com seus colegas da mesma idade – pre- ferem conversar com os adultos do evento, gerando certa estranhe- za nos demais convidados. Por mais que essa série não cite em nenhum mo- mento que se trata de uma jovem com AH/SD, é perceptível que a prota- gonista de Anne com um E se encaixa na maioria das características que citamos em nossa obra. Na série, que acompanha a jornada da jovem órfã Anne na Ilha do Príncipe Eduardo, somos surpreendidos com seu raciocínio rápido, sua memória fantástica, ao mesmo tempo que ela demonstra a necessidade de orientação quanto ao autoconhecimento e a ne- cessidade de ser incluída. Direção: Niki Caro. Canadá: Northwood Entertainment, 2017. Série 40 Altas habilidades ou superdotação CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, abordamos a interação entre aspectos biológicos, psi- cológicos e sociais no processo de identificação e caracterização do indi- víduo com altas habilidades ou superdotação. Ressaltamos que, embora esse indivíduo tenha características singulares, é importante reconhecer- mos o contexto amplo no qual se insere a identificação de uma pessoa com altas habilidades ou superdotação. Os aspectos biológicos, quando analisados concomitantemente com os aspectos externos, em especial, os estímulos do ambiente, influenciam tanto no nível de aprendizagem quanto no comportamento de indivíduos com altas habilidades ou super- dotação, o que tem reflexos, portanto, nos aspectos psicológicos e nas relações sociais estabelecidas por eles. Portanto, é essencial ressaltarmos que, apesar de segmentarmos o con- teúdo para uma melhor compreensão das características dos indivíduos com altas habilidades ou superdotação, fica evidente que o sujeito é um todo e deve ser compreendido como tal, apesar da maneira fragmentada com que o abordamos como recurso pedagógico na concepção desta obra. ATIVIDADES Atividade 1 Por que os alunos com perfil acadêmico são mais facilmente iden- tificados como com altas habilidades ou superdotação? Atividade 2 O que são sinapses? Atividade 3 Por que crianças com altas habilidades ou superdotação preferem estabelecer relacionamentos com crianças mais novas, mais velhas ou com adultos, e não com crianças da sua própria faixa etária? Aspectos biológicos, psicológicos e sociais 41 REFERÊNCIAS KONKIEWITZ, E. C. Neurobiologia da inteligência, um desafio às neurociências. In: VIRGOLIM, A. M. R.; KONKIEWITZ, E. C. (org.). Altas habilidades/superdotação, inteligência e criatividade: uma visão multidisciplinar. Campinas: Papirus, 2014. p. 65-98. RENZULLI, J. S. The three-ring conception of giftedness: a developmental model for promoting creative productivity. In: STERNBERG, R. J.; DAVIDSON, J. E. (org.). Conceptions of giftedness. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1986. p. 246-279. RENZULLI, J. S. Emerging conceptions of giftedness: building a bridge to the new century. Exceptionality, v. 10, n. 2, p. 67-75, jun. 2002. RENZULLI, J. S. O que é esta coisa chamada de superdotação, e como a desenvolvemos? Uma retrospectiva de vinte e cinco anos. Educação, v. 52, n. 1, p. 75-131, abr. 2004. STEIN, M. I. Stimulating creativity. Cambridge, Massachusetts: Academic Press, 1974. 42 Altas habilidades ou superdotação 3 Aspectos cognitivos e emocionais O que você acha de compreender os aspectos cognitivos da apren- dizagem e desvendar como esse processo acontece? Será que a apren- dizagem do aluno com altas habilidades ou superdotação(AH/SD) difere dos alunos com uma inteligência dentro da média? Esses são alguns dos questionamentos mais comuns que cercam essa área de estudos, e que farão parte do tema abordado neste capítulo. Além disso, compararemos os aspectos emocionais com as caracterís- ticas cotidianas, de modo a relacioná-las, assim como identificaremos os alunos com AH/SD dentro e fora da escola, fazendo um comparativo com o adulto no seu ambiente de trabalho, reconhecendo-os não só dentro do contexto escolar, mas fora também. Para encerrar, vamos também enten- dê-los dentro do seu potencial comparando as inteligências múltiplas de todas as pessoas, inclusive as pessoas com AH/SD. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • compreender a diferença dos aspectos cognitivos dos indivíduos com altas habilidades ou superdotação; • diferenciar os aspectos emocionais dos indivíduos com altas habi- lidades ou superdotação; • entender os diferentes meios de identificação dos alunos altas ha- bilidades ou superdotação; • identificar os alunos com altas habilidades ou superdotação den- tro e fora da escola. Objetivos de aprendizagem 3.1 Aspectos cognitivos e emocionais Vídeo Para tratar do processo cognitivo dos indivíduos com altas habilida- des ou superdotação (AH/SD), é preciso reiniciarmos nossa caminhada com a discussão de um conceito fundamental, a aprendizagem. No en- tanto, não podemos falar de cognição, aprendizagem e desenvolvimen- Aspectos cognitivos e emocionais 43 to sem tratar do teórico que é uma das principais referências da área, o suíço Jean Piaget, que difundiu suas teorias sobre aquisição de apren- dizagem e contribuiu para o conhecimento sobre desenvolvimento infantil e a aprendizagem das crianças. Mas, mesmo conhecendo as teorias e os referenciais, um questionamento ainda é presente: quando exatamente a aprendizagem acontece? De modo geral, a aprendizagem acontece por meio de uma moti- vação intrínseca, o aluno sente-se instigado a aprender, o cérebro é incentivado a criar as conexões necessárias para que o aluno retenha o conhecimento, e então o conhecimento é construído. O processo de aprendizagem é como uma espiral em que os acontecimentos são in- terligados, e o conhecimento é vinculado a um saber anterior, fazendo nascer as conexões, que efetivamente criam o conhecimento (FERNAN- DEZ, 2001). Resumidamente, as noções de aquisição da aprendizagem são todas ligadas à chamada estrutura cognitiva, sendo que cada uma de- las exerce uma “função” específica: o esquema refere-se à estrutura mental em que todo conhecimento adquirido é organizado, estrutu- ra essa que é capaz de reconhecer, assimilar, interpretar e classificar uma nova informação; a assimilação, por sua vez, nada mais é do que a capacidade de um indivíduo de incorporar novos objetos da cognição à estrutura cognitiva; e, por fim, a acomodação é o ajuste que ocorre na estrutura cognitiva para que um novo objeto seja in- corporado. O equilíbrio entre a assimilação e a acomodação recebe o nome de equilibração. Quanto ao processo de aprendizagem e a influência dessas no- ções nele, é pela assimilação que o sujeito transforma a realidade para integrá-la a seus esquemas de ação e, em seguida, utilizando-se da acomodação, transforma e coordena seus próprios esquemas para adequar-se à realidade do objeto a conhecer (FERNANDEZ, 2001). Com isso, é gerada a chamada adaptação, que é definida como o equilíbrio entre a assimilação e a acomodação. Para os alunos com AH/SD, esse processo e a relação das noções ocorre da mesma forma, a diferença principal é a intensidade em que eles ocorrem. A motivação intrínseca dos alunos com altas habilidades ou su- perdotação é o grande impulso do processo de aprendizagem, e se relaciona diretamente com a característica mais notável desses in- Jean William Fritz Piaget (1896-1980) – psicólogo, biólogo e filósofo – obteve reconhecimento mundial por seu trabalho sobre a inteligência e o desen- volvimento infantil, e é ainda hoje uma grande referência nos estudos de psicologia e pedagogia. Sua carreira foi pautada no desenvolvimento infantil, interagindo com crianças, observando e estudando os processos de desenvol- vimento na infância. Piaget denominou a sua teoria cognitiva de epistemologia genética, teoria fundamen- tal para o surgimento da corrente construtivista. Biografia 44 Altas habilidades ou superdotação divíduos: o alto nível de curiosidade. Essa característica faz com que as pessoas com AH/SD se aprofundem mais intensamente nas infor- mações e na disposição em aprender coisas novas, destacando-as dos demais nesse quesito e tornando diferenciado o seu processo de aprendizagem. Sobre a aquisição de um novo conhecimento, segundo Piaget, só se aprende o que tem sentido, o que é praze- roso (LAGO, 2008). É por meio da troca do sujeito com o meio que a inteligência e o cognitivo se desenvolvem, assim como na interação do indivíduo com o meio em que ele está inserido. Sternberg (2008), quando conceitua o que é a inteligência, ressal- ta que essa é a capacidade de aprender a partir da experiência e do ato de se adaptar ao ambiente. Falando sobre essas capacidades de forma específica, adaptar-se ao ambiente resulta nas conquistas dos objetivos propostos na satisfação das necessidades, modificando o comportamento para atender às exigências do meio e de adaptação ao mundo real. Poderíamos mencionar vários conceitos de inteligência e cada qual abordando aspectos diferenciados, mas optamos por trazer o conceito de Howard Gardner, pesquisador que desenvolveu a teoria das inteligências múltiplas, tratando da inteligência como a capaci- dade de identificar e resolver problemas e criar produtos de valor na própria cultura. Considerando que a capacidade de resolver problemas envolve a compreensão da natureza do problema e a escolha do conjunto de ha- bilidades para resolvê-lo, nós podemos dividir esse processo em duas vertentes: a primeira parte é a compreensão, o acionamento de um sistema conceitual que permite uma representação interna do proble- ma ou da situação; seguida pela segunda vertente: a execução, que consiste em efetivamente atuar acerca da prévia compreensão da situação-problema. Aspectos cognitivos e emocionais 45 Tanto a compreensão da natureza do problema quanto a execu- ção dele podem ter diversos graus de originalidade, seja nas relações que o indivíduo mantém com o seu mundo interno ou com o externo, ou ainda a manifestação dessas relações por meio da sua própria ex- periência. A escolha inadequada da resolução (pela compreensão er- rônea) pode resultar em um encaminhamento ineficaz (problema na execução). A mesma situação pode apresentar exigências diferentes de processamento de informação, dependendo da situação ou do contex- to em que se realiza a tarefa. Exemplificando com uma situação prática: como podemos traçar um paralelo entre a capacidade de resolver problemas do aluno com AH/SD que gosta de desafios, de capacidade de aprendizagem rápida e eficiente, com uma queixa de um professor de que esse mesmo aluno não se interessa em aprender? Nesse caso, quando existe um questionamento por parte dos pro- fessores sobre a falta de interesse em assuntos do currículo ou ainda um certo descaso com algo que se tornou repetitivo, esses alunos com uma inteligência acima da média demonstram a necessidade de envol- vimento com o conhecimento com uma certa frequência para que o processo de aprendizagem ocorra. Isso ocorre porque a velocidade da aprendizagem se caracteriza no processo de assimilação do conhecimento. Pelo fato de a velocidade da aprendizagem ser mais rápida e também mais intensa, as habili- dades cognitivas de associação são aceleradas, assim, mais e mais as- sociações no processo todo são criadas, formando uma grande rede de aprendizagem, pois quanto mais associações são feitas, mais a aprendizagem acontece. Não é somente na quantidade, mas também na qualidade e na velocidade quese diferencia o aluno com AH/SD da grande maioria dos demais. É nesse processamento cognitivo que ele se destaca, seja de forma acadêmica, seja nas expressões de suas ha- bilidades artísticas. 3.1.1 Aprendizagem e afetividade Sem afetividade não há aprendizagem. Essa é uma frase muito co- nhecida entre os que estudam os processos de aprendizagem e que Henri Paul Hyacinthe Wallon (1879-1962) foi psi- cólogo, filósofo, médico e político francês; tornou-se conhecido por seu traba- lho científico da psicologia do desenvolvimento. Em seus estudos, Wallon estabeleceu que a criança passa por cinco estágios de desenvolvimento, cada um com suas característi- cas próprias, e em todos os estágios, explica Wallon, a criança expressa sua afe- tividade para que aconteça a aprendizagem. Biografia deixa clara a relação entre esses dois fatores, já que para efetivamente se aprender algo, é preciso antes gostar e se interessar pelo assun- to e ainda ter algum vínculo com o professor, que é o mediador do conteúdo a ser trabalhado. Sobre isso, Henry Wallon concluiu que o desenvolvimento da pessoa como um ser completo não ocorre de ma- neira linear e contínua, mas apresenta movimentos de alternância, que ocorrem de acordo com seus interesses (DENIS, 2019). Relacionando afetividade e cognição ao longo do desenvolvimen- to, percebemos que a afetividade influencia o meio social e sensibili- za o cognitivo. A necessidade de envolver afetivamente e o cognitivo em todo o contexto da aprendizagem do aluno com AH/SD é essencial, pois esse aluno acumula todas essas necessidades no seu processo de aprendizado. Para Mahoney (2005), essa relação entre os compo- nentes afetivos e a aprendizagem são bem próximos, e inclusive estão interligados. No que diz respeito ao desenvolvimento motor, afetivo, cognitivo e pessoal, embora cada uma dessas dimensões tenha uma identidade estrutural e funcional distinta, estão intrinsecamente interconectadas, e cada uma é parte essencial dos demais. Sua distinção é necessária apenas para fins descritivos do processo, e uma das consequências dessa compreensão é que qualquer atividade humana sempre afeta todos esses aspectos. Qualquer atividade motora tem ressonâncias afetivas e cogniti- vas; toda disposição afetiva tem ressonâncias motoras e cogniti- vas; toda operação mental tem ressonâncias afetivas e motoras. E todas essas ressonâncias têm um impacto no quarto conjunto: a pessoa, que, ao mesmo tempo em que garante essa integra- ção, é resultado dela. (MAHONEY, 2000, p. 15) Dito de outra forma, o ser humano é um ser integral, nós podemos fragmentar as características e habilidades, mas cada pessoa é um ser único, completo e integral. É comprovado que todos os alunos necessi- tam de um envolvimento afetivo para que o processo de aprendizagem ocorra, independentemente de seu nível de inteligência. Mas além da necessidade de estar envolvido afetivamente para que a aprendizagem aconteça, existe outra característica bastante marcante em consonân- cia com o indivíduo com altas habilidades ou superdotação e que com- plementa o processo da aprendizagem: a seletividade. 4646 Altas habilidades ou superdotaçãoAltas habilidades ou superdotação Ili ke /S hu tte rs to ck Ili ke /S hu tte rs to ck A seletividade é uma característica muito presente no aluno com AH/SD, e ocorre quando o indivíduo demonstra escolher o que quer aprender e limita seu processo de aprendizagem, algo que em deter- minadas situações pode ser prejudicial para o aluno. Para resolvermos isso, uma das alternativas é transformar algo que não seja prazero- so – como um assunto em que o aluno não tem interesse – em algo desafiador e envolvente, com muita afetividade. O que anteriormente era excluído do processo de aprendizagem passa a fazer parte dele, tornando o conhecimento significativo e cativante. 3.1.2 Aspectos emocionais Os aspectos emocionais são o tema desta seção; logo, temos que nos recordar de algumas das características das pessoas com AH/SD: elas são curiosas, sensíveis, intensas e perspicazes; em con- trapartida, esses indivíduos também apresentam incomplacência à frustração e, por vezes, ansiedade, por isso podem ser intolerantes às injustiças e desenvolver o sentimento de falta de pertencimen- to ao ambiente em que estão inseridos, sentimento esse que está presente tanto na infância quanto na idade adulta. Essas sensações cercam a pessoa com altas habilidades ou superdotação, o que a faz ter outras sensações secundárias, como a ânsia em suprir essa falta de pertencimento. Desde muito cedo a pessoa com AH/SD busca esconder suas parti- cularidades, justamente para que não a vejam como alguém diferente, o que gera um desconforto colossal. Portanto, para muitas crian- ças, é mais suportável conviver “camuflando” suas habilidades a ser rejeitada ou excluída por seus colegas da escola. Quando adulto, a sensação de não pertencimento é poten- cializada, já que com o passar do tempo e a exposição a diversas situações, o indivíduo com AH/SD aprendeu com um histórico social repleto de desafios que a melhor alternativa é o distan- ciamento dos grandes grupos, uma escolha que dificulta muito o relacionamento, tornando o ambiente de trabalho um grande desafio. Nesse espaço que passa a ser obrigatório no decorrer da vida adulta, as pessoas com AH/SD apresen- Aspectos cognitivos e emocionaisAspectos cognitivos e emocionais 4747 48 Altas habilidades ou superdotação tam diversas reações quando são expostas a situações que fogem de seu controle, como a não aceitação de injustiças ou a não compreen- são das atitudes das pessoas ao seu redor. Por vezes, os ideais e objetivos dos colegas de trabalho não são compatíveis com os pensamentos e valores dos indivíduos com AH/SD – seja no contexto profissional ou pessoal –, com isso, algumas pessoas com dificuldade em se posicionar frente aos seus colegas preferem se- guir o fluxo no trabalho ao invés de expor suas ideias e ideais, evitando, assim, o confronto. Outro exemplo de situações que podem ocorrer no cotidiano do profissional com AH/SD: na ânsia de fazer justiça, indivíduos com AH/ SD declaram guerra aos colegas, impondo suas vontades e lutando por suas convicções, o que – em ambos os casos – gera muito desconforto no ambiente de trabalho. Outra situação, percebida em um grupo mui- to menor de pessoas, é a caracterização delas como mais ponderadas e resolvidas, conseguindo – com equilíbrio – se posicionar e colher o melhor das situações. Esses indivíduos conseguem criar e se desen- volver no seu trabalho com criatividade e competência, o que os leva a alcançar o sucesso, que, infelizmente, só se encontra quando o de- senvolvimento do indivíduo com AH/SD está em equilíbrio com o seu processo de autoconhecimento. Todas essas sensações e situações que explicamos estão inter- ligadas, mas também é perceptível que ter AH/SD no ambiente de trabalho não é sinônimo de sucesso e nem mesmo de fracasso. Mais importante do que tentar se encaixar em situações e contextos que não favorecem a pessoa, é preciso que tanto o adulto com AH/SD como o professor de alunos assim identificados saibam notar os chamados gatilhos que fazem os sentimentos e sensações prejudi- ciais surgirem, e, dessa maneira, a pessoa pode se desenvolver de modo mais benéfico. Pensando na formação do ser humano de maneira integral, a primeira necessidade é o autoconhecimento, pois é por meio dele que o indivíduo identifica seus potenciais e suas emoções e, com as informações sobre essas características, pode utilizá-las como ferramentas para se tornar uma pessoa melhor. Mas, o que pode gerar frustração nos indivíduos com AH/SD, além da dificuldade de O Jogo da imitação conta a história de como Alan Turing e sua equipe conseguiram “quebrar” o código da máquina Enigma, principal meio de comunicação codificada utilizada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. A obra ressalta a necessidade de que, independentementeda sua habilidade fora do comum para resolver questões diversas, uma pessoa com AH/SD tem a necessidade de ser compreendida e acolhida dentro do seu aspecto emocional para alcançar o sucesso de forma integral. Direção: Morten Tyldum. EUA: Black Bear Studios, 2014. Filme Aspectos cognitivos e emocionais 49 relacionamento social de que falamos anteriormente? Vamos falar um pouco da dificuldade em realizar tarefas que são repetitivas, por vezes mecânicas e rotineiras, ou até mesmo atividades que não lhes causam satisfação ou sobre as quais não veem motivos para que sejam executadas. Todos esses aspectos lhes geram frustração, mas como resolver tanto as situações como a frustração que certas atividades lhes cau- sam? Perceber a sua própria capacidade de ampla compreensão dos fatos e das situações são percepções imprescindíveis, pois com isso é possível anteceder com facilidade o posicionamento e a execução dos mais diversos acontecimentos. 3.2 Identificação dos alunos com AH/SD Vídeo Além de todas as características que já conhecemos, ainda pode- mos identificar outros atributos do indivíduo com AH/SD conforme a teoria pluralística da inteligência de Howard Gardner, denominada teo- ria das inteligências múltiplas. Essa teoria argumenta que qualquer indivíduo tem habilidades ou inteligências diferenciadas que possibilitam a interação com os ob- jetos de conhecimento de forma variada. Gardner sinaliza como por meio das diversas habilidades podemos observar a manifestação da inteligência nos seres humanos, que apresentam graus diferentes de afinidade com um tipo específico de habilidade. Resumidamente, a teoria das inteligências múltiplas nos diz que cada pessoa tem uma afinidade maior com um tipo específico de inteligência – matemá- tica, linguística, esportes etc. – e utiliza as particularidades dessas inteligências para resolver qualquer tipo de problema ou situação (GARDNER, 2000). No entanto, é importante notar que, apesar de serem independen- tes – até um certo ponto –, as inteligências raramente funcionam isola- damente, pois muitas vezes é preciso utilizar a característica de outro tipo de inteligência para se chegar à resolução do problema. Assim, Gardner (2000) classificou as inteligências múltiplas em oito tipos, que podemos ver na Figura 1. Howard Gardner (1943-), psicólogo e professor da Universidade de Harvard, tem conduzido por muitos anos uma pesquisa sobre o desenvolvimento das capacidades cognitivas humanas. Autor de mais de 30 livros e dezenas de artigos publicados, Gard- ner é conhecido na área educacional principalmen- te pelo desenvolvimento da sua teoria sobre as inteligências múltiplas. Biografia 50 Altas habilidades ou superdotação Figura 1 Tipos de inteligência Linguístico-verbal 2 Naturalista Intrapessoal Interpessoal Espacial Corporal– –cinestésica Musical 1 Lógico-matemática 1- m ag lyv i/S hu tte rs to ck 2 - si m pl yv ec to rs /S hu tte rs to ck A inteligência linguística-verbal envolve sensibilidade e aptidão para a língua falada e escrita, a habilidade e a facilidade na aprendi- zagem de outros idiomas, com expressiva capacidade para utilizar e estruturar significados tanto da linguagem oral como da escrita. Tam- bém se destaca no aspecto persuasivo da linguagem, a capacidade de convencer as outras pessoas de uma determinada ação e ainda a habilidade de usar as palavras para memorizar utilizando do discurso da linguagem para explicar conceitos e para refletir sobre a própria linguagem. Esse tipo de inteligência inspira o gosto pela leitura e pelo conhecimento, favorecendo argumentações e debates. Quanto à inteligência lógico-matemática, ela envolve uma capaci- dade e uma afinidade com números, abrange um bom raciocínio ma- temático, com capacidade para reconhecer e analisar os problemas com lógica e investigar questões cientificamente. Também se refere à habilidade de analisar as situações de maneira abstrata com base em Aspectos cognitivos e emocionais 51 sua própria lógica. Essa inteligência se expressa no indivíduo que tem facilidade em lidar com cálculos e propõe soluções inusitadas frente aos desafios, e assim como a linguística-verbal, é também a inteligência utilizada para o cálculo do quociente de inteligência (QI). No caso da inteligência musical, ela se manifesta na habilidade de apreciar, reproduzir e compor músicas, e inclusive na habilidade de dis- criminar sons e ritmos de forma mais fácil. O que é muito importante ressaltar é que Gardner (2000) desmistifica que a estrutura da inteli- gência musical é paralela à inteligência linguística e que ambas teriam o mesmo valor. Não faz, portanto, sentido discriminar a inteligência linguística-verbal da musical apenas como questão de talento, como normalmente acontece. Chamamos erroneamente de talentosas as pessoas que se destacam nas áreas artística e musical, mas não reco- nhecemos isso como uma parte da inteligência. A inteligência musical envolve suas próprias regras e estruturas de pensamento não necessa- riamente vinculadas a outros tipos de inteligência. Nesse tipo de inteli- gência, a pessoa se destaca em habilidade ao tocar um instrumento, ao cantar, com ritmos e conhecimento musical em geral. A Inteligência corporal-cinestésica é atribuída à habilidade de re- solver problemas ou realizar criações utilizando o corpo ou parte dele. Esse tipo de inteligência é caracterizado pela presença dos aspectos cognitivos no uso do corpo, como na coordenação grossa ou fina em esportes, na manipulação de objetos com destreza e na capacidade de usá-los na expressão da emoção, seja em uma dança, disputa de jogos ou em esportes no geral. A inteligência espacial é relativa à capacidade que um indivíduo tem de perceber o mundo visual e espacial de modo muito mais pre- ciso, imaginando, modificando objetos – mentalmente – e pensando de modo tridimensional. Na criança, essa inteligência é mais visível na facilidade que ela apresenta em lidar com jogos de resolução de pro- blemas espaciais e quebra-cabeças. A inteligência interpessoal é baseada na capacidade do indivíduo de perceber distinções entre as pessoas, interagindo de maneira ade- quada e eficaz com elas, conseguindo se relacionar em diversos meios e contextos. Alguns outros exemplos de manifestações dessa inteligên- cia são a habilidade de falar em público por meio do chamado dom da oratória, e o desenvolvimento de um bom relacionamento no mundo corporativo, além do social e acadêmico. 52 Altas habilidades ou superdotação Já a inteligência intrapessoal é a habilidade de acessar os próprios sentimentos e emoções. Refere-se à capacidade de construir uma per- cepção acurada de si mesmo, desvendando seus próprios sentimentos, emoções, desejos e aptidões. Por ser a mais pessoal das inteligências, ela é mais manifestada por meio das outras inteligências, com manifes- tações linguísticas musicais, cinestésicas e interpessoais. Por fim, a inteligência naturalista é uma habilidade valorizada por muitas culturas, que é a capacidade de compreender e desenvolver experiências com o mundo natural, identificando, classificando e com- preendendo os sistemas naturais. Está relacionada com a capacidade de lidar com a natureza e seus componentes. Com muita sensibilidade, indivíduos que têm esse tipo de inteligência mais desenvolvido se sen- tem mais próximos da natureza e necessitam dela para viver, identifi- cam fenômenos naturais, fauna, flora e formações naturais. 3.2.1 Inteligências múltiplas e AH/SD Quando relacionamos inteligências múltiplas, AH/SD e escola, da- mos um passo enorme para o desenvolvimento de potencial, pois temos um melhor aproveitamento das inteligências. Gardner (2000) su- gere que a escola promova oportunidades para o desenvolvimento do potencial nos diferentes tipos de inteligência, utilizando diversos meios para aprimoramento das inteligências em questão. Devemos nos questionar: como identificar e relacionar asAH/SD com cada uma dessas inteligências? Para cada uma delas há uma abor- dagem específica, que deve ser levada em consideração para o melhor aproveitamento das facilidades do aluno. Alguns exemplos práticos dessas abordagens são apresentados na sequência. Linguístico-verbal O indivíduo com AH/SD que tem uma afinidade maior com esse tipo de inteligência apresenta maior destaque e expressa uma habilida- de surpreendente na escrita e na comunicação; apresenta qualidade superior em suas produções, utilizando o dom do argumento, do vo- cabulário e do discurso; destaca-se, assim, do grupo acadêmico ou cor- porativo com muita facilidade. Na família, esse indivíduo manifesta o dom da oratória, por vezes deixando seus pais com pouco argumento, já que eles permanentemente se surpreendem com várias habilidades. Aspectos cognitivos e emocionais 53 Destaca-se também no aprendizado de novos idiomas, dominando-os como se fosse sua língua materna. Exemplos de atividades para o aprimoramento da habilidade linguís- tico-verbal do aluno com altas habilidades ou superdotação podem ser: • debate ou condução de discussão em sala de aula sobre algum tema estudado; • escrita de poema, mito, lenda, peça teatral ou notícia; • criação de um programa de entrevistas de rádio sobre o tema da aula; • gravação de entrevistas para podcast; • criação de slogans para campanhas atuais; • narração de um conto ou romance; • elaboração de regras de um jogo de estratégia. Lógico-matemática A pessoa com AH/SD que se destaca nessa inteligência tem um per- fil de raciocinar logicamente em várias situações, apresentando uma capacidade de resolver os problemas matemáticos dentro da sala de aula de uma maneira extraordinária, e diferentemente das pessoas com uma inteligência média, é perceptível a rapidez e a utilização de estratégias metacognitivas próprias. Entretanto, essa pessoa tende a descartar a hipótese de utilizar as estratégias predefinidas pelo professor, o que pode causar des- conforto, pois o docente espera que as estratégias utilizadas na re- solução dos problemas propostos sejam as que ele definiu, alguns também exigem o cálculo e o registro completo, e isso pode dificul- tar, e muito, o desenrolar do raciocínio lógico diferenciado. Ou seja, o potencial do aluno com AH/SD que tem afinidade maior com esse tipo de inteligência somente é desenvolvido quando orientado den- tro da sua competência. Exemplos de atividades para o aprimoramento da inteligência ló- gico-matemática do aluno com altas habilidades ou superdotação po- dem incluir: • criação de uma linha do tempo; • elaboração de um jogo de estratégia; • criação de situações-problema; 54 Altas habilidades ou superdotação • formulação de hipótese ou explicação para um problema; • interpretação de dados de um problema; • extração das conclusões da interpretação dos dados de um problema; • agrupamento de raciocínios matemáticos diferentes, mas igual- mente eficientes. Musical Inteligência musical não é apenas um talento, mas uma inteligência com o mesmo peso das demais. Quando um indivíduo com AH/SD se destaca na área musical, sua maestria, às vezes com ouvido absoluto, é verificada em conjunto com habilidades extraordinárias para a execu- ção de instrumentos, composição e aptidão para canto. Em sua grande maioria, os habilidosos musicais são autodidatas, conseguindo sucesso sem a educação formal, mas com muita dedicação, pois são apaixona- dos pela arte. Exemplos de atividades para o aprimoramento da inteligência musi- cal do aluno com altas habilidades ou superdotação podem ser: • apresentação com acompanhamento musical adequado; • composição de letra e música de um conteúdo a ser trabalhado; • interpretação da letra de uma música relacionada com o assunto a ser trabalhado; • uso propriamente dito de um instrumento musical; • atividades com utilização da música para melhorar a aprendizagem; • interpretação de música para desenvolver habilidades nos diver- sos conteúdos; • criação de um novo final para uma música. Espacial As pessoas com AH/SD que se destacam nessa inteligência domi- nam orientação espacial de maneira bastante abstrata, percebem si- tuações, localizam-se em ambientes com rapidez bem acima da média, Aspectos cognitivos e emocionais 55 utilizando-se de sua aguçada orientação espacial. Quando utilizada em conjunto com a inteligência corporal-cinestésica e a musical, elas têm um excelente destaque na dança, no teatro e nas artes. Dentro da área das AH/SD, a inteligência visuoespacial inclui uma série de habilidades relacionadas como: discriminação e reconheci- mento visual, projeção de imagens mentais, raciocínio espacial e ma- nipulação de imagens. Exemplos de atividades para o aprimoramento da inteligência vi- suoespacial do aluno com altas habilidades ou superdotação podem incluir: • criação de tabelas, mapas, gráficos para a ilustração do conteúdo a ser trabalhado; • criação de cartaz, quadro de aviso ou mural; • criação de trabalhos artísticos que envolvam os conteúdos; • criação de anúncios; • invenção de um jogo de tabuleiro e de estratégia; • criação de propaganda para marketing; • ilustração, desenho, pintura, escultura e outras atividades ma- nuais relacionadas. Corporal-cinestésica A inteligência corporal-cinestésica, como falamos anteriormente, é associada a pessoas habilidosas com o corpo e que, com excelente per- cepção da constituição física, dominam as mais diversas artes – como dança, teatro, esportes etc. Se unirem habilidade e disciplina com o emocional equilibrado, essas pessoas tendem a se destacar no campo das competições e apresentações. As atividades físicas concentram a atenção do aluno na sala de aula e auxiliam a memória, o que contribui na codificação da aprendizagem por meio da neuromusculatura do corpo. Todos nós temos uma me- mória muscular que pode ser efetivamente aplicada à aprendizagem de disciplinas escolares, assim podemos estimular a habilidade corpo- ral cinestésica do aluno com altas habilidades ou superdotação a favor do processo de aprendizagem formal. 56 Altas habilidades ou superdotação Exemplos de atividades para o aprimoramento da inteligência cor- poral cinestésica do aluno com altas habilidades ou superdotação po- dem ser: • criação de uma sequência de movimentos para explicar o conteú- do a ser estudado; • coreografia de uma dança com foco no conteúdo a ser estudado; • brincadeira de caça ao tesouro para desenvolver o conteúdo a ser trabalhado; • construção de jogo que utilize o chão como tabuleiro; 1 • planejamento de uma pesquisa de campo; • elaboração de projetos de aula que envolvam desenhos, constru- ções de materiais diversos, ensaios fotográficos, vídeos e perfor- mances em geral; • reprodução de obras de arte famosas, mapas e outros recursos visuais. Interpessoal e intrapessoal Inteligências interpessoal e intrapessoal fazem parte do processo de autoconhecimento. Quando a pessoa com AH/SD se destaca nessas inteligências, consegue desfrutar da vida com mais facilidade. A pessoa habilidosa na relação interpessoal consegue vencer muitos desafios em relacionamentos acadêmicos e corporativos, conquista trabalhos de liderança e, na escola, também é reconhecida como uma líder. Os indivíduos com AH/SD nessa área possui grande capacidade de influenciar pessoas, tendendo a utilizar esse potencial como profissão. Habilidosos em se conhecer, as pessoas que se destacam na inteligên- cia intrapessoal são incansáveis na busca do autoconhecimento, em compreender suas emoções e saber lidar com elas. Acreditam que cada um é responsável pelo seu crescimento sem culpar o outro e são capazes de perceber seus pensamentos e os monitoram, para seu me- lhor desenvolvimento. Exemplos de atividades para o aprimoramento da inteligência inter- pessoal do aluno com altas habilidades ou superdotação podem incluir: • organização ou participação em um grupo para discussão do con-teúdo a ser trabalhado; Como cartões de tarefa ou um quebra-cabeças gigante. 1 Aspectos cognitivos e emocionais 57 • atividades que promovam o uso intencional das habilidades so- ciais a serem trabalhadas; • participação em um novo projeto social; • elaboração, em um pequeno grupo e de forma cooperativa, de regras ou procedimentos para a realização da atividade; • utilização das capacidades dos alunos para assumirem um papel de posicionamento em um grande grupo; • debate para discutir o assunto a ser trabalhado; • gravação de um podcast. Já para a inteligência intrapessoal, alguns exemplos são: • descrição de suas próprias qualidades e de que forma elas po- dem ajudar a realizar com sucesso a tarefa; • estabelecimento e execução de um objetivo para o desenvolvi- mento pessoal do aluno; • atividades que estimulem os alunos a explicar sua filosofia pes- soal e valores; • desenvolvimento de um projeto pessoal; • promoção de momentos de autoconhecimento; • incentivo à ajuda a outros colegas em trabalhos individuais; • promoção de momentos de escuta para todos os alunos de ma- neira individual e coletiva. Naturalista Quando essa inteligência se destaca em uma pessoa com AH/SD, ela se dedica à sua conexão com a natureza, gosta e faz muito pelo desen- volvimento do ecossistema. Normalmente com objetivos mais profun- dos, defende e luta por causas que podem transformar uma sociedade e o planeta. Exemplos de atividades para o aprimoramento da inteligência natu- ralista do aluno com altas habilidades ou superdotação incluem: • atividades de estímulo a comparações entre os fenômenos climáticos; • categorização de aspectos relacionados a fauna e flora; • análise das semelhanças entre as espécies animal e vegetal; Jobs destaca momentos decisivos na vida de Steve Jobs, captando a essência do famoso empresário, desde sua personalidade intensa e obstinada até seu carisma magnético. O filme ressalta como os aspectos cognitivos, emocionais e as inteligências múltiplas estavam presentes na vida desse grande gênio, com especial destaque para a paixão e a determinação de Jobs em transformar o mundo por meio da tecnologia, destacando seu legado duradouro. Direção: Joshua Michael Stern. EUA: Open Road Films, 2013. Filme 58 Altas habilidades ou superdotação • utilização de instrumentos como binóculos, microscópios, lentes e telescópio para uma melhor aprendizagem; • análise do desenvolvimento das plantas e dos animais; • passeios ao ar livre; • desenvovimento de podcast sobre o desenvolvimento ecológico. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, falamos sobre o processo de aprendizagem e de como indivíduos com altas habilidades ou superdotação possuem um processo de assimilação do conhecimento mais rápido e intenso que as demais pessoas, criando uma vasta rede de aprendizagem caracterizada pela as- sociação de informações com velocidade e qualidade. Destacamos ainda como a afetividade é fundamental no processo de aprendizagem dos indivíduos com AH/SD, já que eles necessitam, para aprender, cultivar interesse e paixão por seu objeto de estudo. Além dis- so, abordamos a correlação entre essa paixão e a necessária criação de vínculos para que o aprimoramento do processo de aprendizagem. Por fim, discutimos no capítulo de que maneira os indivíduos com AH/ SD podem ser analisados como detentores de inteligências diversas. Des- tacamos como a teoria das inteligências múltiplas, proposta por Howard Gardner, nos leva a reconhecer como signos de inteligência e altas habili- dades uma diversidade de talentos e dons não necessariamente relacio- nados à inteligência tida como tradicional. Assim, cada pessoa deve ser analisada em sua singularidade, com o objetivo de destacar sua atuação potencial em áreas diversas. Apresentamos também, nesta discussão, como a sociedade e o sis- tema educacional são fundamentais não só no reconhecimento dessas múltiplas inteligências, mas também na atuação como catalisadores e es- timuladores do potencial extraordinário apresentado por indivíduos com AH/SD dentro do universo das inteligências múltiplas, sem limitá-los a um modelo rígido e restrito em sua atuação acadêmica e profissional. Enfim, precisamos criar um mundo mais justo e igualitário para essas pessoas, fomentando debates e possibilitando a inclusão e o desenvolvi- mento de todas as inteligências, de modo a permitir que indivíduos com AH/SD alcancem o máximo potencial possível e possam contribuir, de ma- neira significativa e real, para a transformação do mundo. Aspectos cognitivos e emocionais 59 ATIVIDADES Atividade 1 Diferencie os conceitos: esquemas, assimilação e acomodação. Atividade 2 Destaque alguns aspectos emocionais da pessoa com altas habili- dade ou superdotação. Atividade 3 Como algumas das múltiplas inteligências de Gardner se relacio- nam com as altas habilidades ou superdotação? REFERÊNCIAS BECKER, F. Abstração pseudo-empírica e reflexionante: significado epistemológico e educacional. Schème: revista eletrônica da psicologia e epistemologia genéticas, v. 6, edição especial, p. 104-128, nov. 2014. DENIS, L. Henri Wallon e a prática psicopedagógica. São Paulo: FiloCzar, 2019. FERNANDEZ, A. O saber em jogo: a psicopedagogia propiciando autorias de pensamento. Porto Alegre: Penso, 2001. GARDNER, H. Inteligência: um conceito reformulado. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. MAHONEY, A. A.; ALMEIDA, L. R. Afetividade e processo ensino-aprendizagem: contribuições de Henri Wallon. Psicologia da Educação, v. 20, p. 11-30, jul. 2005. MAHONEY, A. A. et al. Henri Wallon: psicologia e educação. 11. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2000. LAGO, S. R. (org.). Aos mestres com carinho – phrase book educacional: 1000 pensamentos sobre educação. Curitiba: Nossa Cultura, 2008. STERNBERG, R. J. Psicologia cognitiva. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. WALLON, H. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007. WALLON, H. Do ato ao pensamento: ensaio de psicologia comparada. Petrópolis: Vozes, 2008. 60 Altas habilidades ou superdotação 4 Superdotação e escola Este capítulo irá abordar como a aceleração escolar de indivíduos com altas habilidades ou superdotação (AH/SD) pode contribuir para um me- lhor desenvolvimento de suas potencialidades e talentos, além de discutir sobre os principais desafios enfrentados no processo crucial de entendi- mento e intervenção nesses indivíduos. Também será apresentada a discussão teórica que, em consonância com a prática, permite conceituar como o processo de aceleração escolar pode atender a necessidade de desafio permanente das pessoas com AH/SD, bem como oferecer oportunidades para que elas estejam conec- tadas de maneira emocional aos seus novos pares, mais adequados ao seu desenvolvimento mental. Além disso, será explorada a importância do envolvimento das famílias no processo de aceleração e inclusão, entendendo que elas desempe- nham um papel fundamental para o sucesso de qualquer iniciativa rela- cionada aos indivíduos com AH/SD. Por fim, será discutido o acompanhamento visando à criação de um ambiente familiar e escolar que seja enriquecedor e equitativo para o de- senvolvimento dos indivíduos com AH/SD, assim como a necessidade de acompanhamento para a implementação, nesses ambientes, de estraté- gias eficazes para lidar com a diversidade de perfis dessas pessoas. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • relacionar os possíveis problemas dos alunos com altas habilida- des ou superdotação com suas características próprias e interven- ção adequada; • orientar pais e responsáveis quanto às necessidades dos filhos; • identificar as diversas práticas que atendam as necessidades dos alunos com altas habilidades ou superdotação; • distinguir as práticas ideais para esses alunos das tradicionalmen- te praticadas. Objetivos de aprendizagem Superdotação e escola 61 4.1 Rendimento escolar dos superdotados Vídeo Percebemos até agora que oaluno com altas habilidades ou super- dotação tem um índice variado de rendimento e aproveitamento no universo acadêmico, sendo que suas notas podem tanto ser excelen- tes, quando ele domina o conteúdo proposto, como ser baixas, reve- lando dificuldades para demonstrar seu conhecimento. Partindo dessa premissa, o que fazer quando o aluno que aprende muito rápido está emocionalmente equilibrado, e ainda domina grande parte dos conteú- dos que são propostos no ano acadêmico em que frequenta? Para cada caso específico há um tipo de intervenção mais adequada, e a ação co- nhecida como aceleração dos estudos – sobre a qual iremos discorrer mais adiante – é a mais indicada. A área das AH/SD está amparada pela legislação brasileira – mais especificamente, pelos artigos 24 e 59 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) – e é auxiliada pelos diversos serviços oferecidos a esses alunos. De modo geral, o grande objetivo da inserção dos alu- nos com AH/SD no ensino é desenvolvê-los da melhor forma possí- vel, utilizando para isso todas as ferramentas que estiverem ao nosso alcance, e a aceleração dos estudos é a mais utilizada para alcançar esse objetivo. Virgolim (2007) explica que a aceleração dos estudos consiste em uma compactação do currículo que possibilita aos alunos com altas ha- bilidades ou superdotação prosseguirem de maneira mais rápida com o conteúdo já dominado, eliminando a necessidade de exercícios repe- titivos. Ou seja, o processo de aceleração de estudos permite reduzir o tempo de permanência dos alunos no sistema escolar normal, valo- rizando suas necessidades educativas. A referida autora ressalta ainda que dois procedimentos são essenciais para a aceleração de estudos: o primeiro é um cauteloso diagnóstico da situação e o segundo uma vasta investigação do conhecimento sobre o conteúdo. O professor deve identificar a área do currículo que o aluno já do- mina e em qual ele se destaca, algo mais perceptível quando o aluno termina rapidamente uma tarefa e comete pouco ou nenhum erro; quando demonstra constante insatisfação ou desânimo na sala de aula; ou ainda, quando não consegue ficar quieto e demonstra desca- so, atrapalhando os colegas na sala de aula. 62 Altas habilidades ou superdotação A aceleração dos estudos envolve métodos e procedimentos diver- sificados para o ajustamento do currículo com respaldo nas caracterís- ticas e necessidades educativas específicas do aluno que foi submetido à aceleração. Assim, prevê que sejam abreviados – ou até removidos – conteúdos que o aluno já domina com o intuito de criar um ambiente de aprendizagem desafiador. O processo de compactação de currículo envolve oito etapas, que podemos ver elencadas na Figura 1. Figura 1 Etapas da compactação de currículo 1 5 3 7 2 6 4 8 Selecionar os objetivos relevantes para a área acadêmica selecionada. Reduzir atividades, repetições curriculares não essenciais ou tempo instrucional para os alunos que demonstrarem domínio do conteúdo. Identificar os alunos que poderão ser beneficiados com essa compactação do currículo, para então pré-testá-los. Desenvolver atividades de enriquecimento ou procedimento de aceleração para os alunos que tiveram seus currículos compactados. Selecionar ou desenvolver instrumentos e/ ou procedimentos utilizados para a avaliação prévia dos objetivos de aprendizagem. Realizar uma instrução reduzida dos objetivos de aprendizagem para os alunos que, apesar de ainda não os dominarem totalmente, já são capazes de fazê-lo de modo mais rápido que os demais alunos. Avaliar os alunos identificados com relação ao nível de domínio dos objetivos de aprendizagem selecionados. Registrar como ocorreu o processo de compactação e as opções instrucionais de cada aluno que passou por esse processo. Fonte: Elaborada pela autora com base em Alencar; Fleith, 2001. Ph ai gr ap hi c/ Sh ut te rs to ck Superdotação e escola 63 O procedimento de aceleração dos estudos vem sendo estuda- do há muitos anos, e durante todo esse tempo foram observados inúmeros resultados positivos, já que na maioria dos casos analisa- dos os alunos mostraram-se mais satisfeitos, enxergando vantagens da aceleração e se ajustando bem às novas condições. Entretanto, para os alunos que se recusaram a realizar essa compactação – ou em que simplesmente houve uma negativa da escola de executar tal procedimento –, alguns pontos foram observados: muitos estu- dantes perceberam que as tarefas propostas pelos professores no ensino regular eram muito fáceis, fazendo com que desenvolvessem hábitos de estudo ruins e inadequados. Justamente pelo grande número de alterações que a aceleração acar- reta, muitas pessoas ainda são contra a compactação, as quais justificam essa rejeição por fatores como: imaturidade do aluno, fragmentação dos conteúdos e desajuste emocional. Mesmo assim, observamos que a ace- leração dos estudos entre alunos com altas habilidades ou superdotação – se bem planejada, executada e assistida – pode trazer grandes benefícios, sobretudo em situações não tão favoráveis, como no caso de alunos que não estão prontos para isso, o que pode acarretar algumas perdas. A aceleração dos estudos está dentro de uma reclassificação curricular prevista em lei, que além de oportunizar a esse grupo de alunos completar sua educação formal, valoriza seu ritmo mais rá- pido de aprendizagem conforme suas necessidades educativas es- peciais. A aceleração também permite que os alunos aprendam ao fim do processo habilidades muito necessárias ao desenvolvimento integral. Os benefícios incluem aprender a estudar, enfrentar obs- táculos, fortalecimento das antigas amizades e disponibilidade em fazer novas, entre tantos outros que possam vir a surgir. Todas as precauções são essenciais nesse tipo de intervenção, pois, caso con- trário – como bem explica Landau (2002) –, podemos atravancar o desenvolvimento do aluno. Se a intervenção for encaminhada ade- quadamente, o aluno será beneficiado, tornando-se mais produtivo e feliz, além de ter mais equilíbrio, assim como a família e a escola. Não podemos esquecer que existe a necessidade de acompanhar e orientar os pais tanto sobre as características do filho – processo em 64 Altas habilidades ou superdotação que se realiza a análise e a discussão dos talentos dos filhos com altas habilidades ou superdotação – como sobre as estratégias utilizadas em todo o processo. Essa mesma orientação deve também ser oferecida aos professores do aluno submetido à aceleração, visando proporcio- nar ferramentas para conduzir o aluno no processo de desenvolvimen- to da própria criatividade e o fortalecimento de sua potencialidade. Segundo o parecer do Ministério da Educação sobre o atendimento de alunos com AH/SD (BRASIL, 2022) – que direciona e orienta sobre as informações necessárias às altas habilidades ou superdotação –, os procedimentos de aceleração embasados na Legislação Brasileira de- vem ser organizados mediante a avaliação do aprendizado sempre que o estudante demonstrar competências, habilidades e conhecimentos em níveis de desenvolvimento, além do evidenciado pelos seus pares de mesmo nível escolar. Os procedimentos e resultados devem ser registrados em atas, relatórios e outros documentos administrativos escolares, e esse registro precisa constar nos documentos de transfe- rência de escola do estudante e de reclassificação de ano escolar. 4.2 Orientações aos pais e responsáveis Vídeo Quando os pais descobrem que seu filho tem altas habilidades ou superdotação, as reações podem se mostrar de maneira diversa, em especial porque ainda há muito desconhecimento das pessoas em re- lação às AH/SD. Algumas famílias iniciam uma espécie de investigação para saber mais sobre o que aflige a criança, mas com apenas uma cer- teza: de que seu filho tem uma particularidade, embora sem saberem ao certo que particularidade é essa. Outra situação é a de os pais sabe- rem que seu filho tem uma inteligênciaacima da média, algo perceptí- vel quando fazem comparações com crianças da mesma faixa etária, e buscarem ajuda para confirmação e orientações. Ainda temos outras possibilidades, como a escola perceber que o aluno se destaca na sala de aula com um nível de conhecimento dife- renciado e comunicar aos pais sobre a possibilidade de uma investi- gação criteriosa para confirmar ou não essa hipótese. Em uma outra situação, a escola pode solicitar uma investigação com profissionais da área de saúde, pois o aluno não se encaixa nos padrões de normalida- Superdotação e escola 65 de, solicitando, além do laudo, um encaminhamento acerca dos proce- dimentos mais adequados ao aluno. Todas essas situações demonstram que os pais precisam de orien- tação e ajuda, pois o caminho para identificação do aluno com AH/SD é, às vezes, moroso e conturbado, sendo que muitas vezes essa iden- tificação nem chega a ocorrer. Nesse sentido, as orientações são ne- cessárias para darem continuidade a uma abordagem que atenda as reais demandas da criança ou do adolescente com AH/SD, cabendo aos profissionais da área da educação e saúde orientá-los. Essas orientações são fundamentais, pois podem ajudar a família a ter um ambiente propício para que a criança possa encontrar a pró- pria identidade por meio do autoconhecimento, auxiliando também no processo de descoberta de seus interesses e potencialidades. Pais que transmitem apoio e segurança respeitam seus filhos e seus sentimen- tos, guiam-lhes com base em valores, orientam quanto à necessidade de rotinas, desenvolvem seus filhos como um ser humano integral, e isso se mostra verdadeiro tanto com relação aos filhos que têm altas habilidades ou superdotação como também com relação a todas as crianças e adolescentes. Os pais têm um importante papel na vida de seus filhos, inclusive dos filhos com AH/SD, pois é de extrema importância a compreensão de suas características e peculiaridades. Mas, é ainda mais importante destacar as funções da família, independentemente de sua condição intelectual. A família, como destaca Stoltz (2012), tem as seguintes funções: ga- rantir a integridade física e psíquica de seus filhos; contribuir para a socialização em relação aos valores instituídos na sociedade; e oferecer suporte aos seus filhos na superação das dificuldades. Além dessas, a família também deve educar quanto às noções básicas em termos de atitude, uso de instrumentos e estratégias para aprender. Lu ba V eg a/ Sh ut te rs to ckAprofundando... Podemos atribuir às famílias mais algumas funções, que vão des- de proporcionar apoio para que as crianças busquem seu equilíbrio e sejam capazes de estabelecer vínculos saudáveis com os outros, bem como propiciar novas vivências e autoconhecimento. A melhor manei- 66 Altas habilidades ou superdotação ra de fazer com que todas essas funções possam se desenvolver de maneira mais efetiva consiste em incentivar que as famílias participem desse processo, educando a criança pelo exemplo. Algumas crianças com AH/SD podem apresentar comportamentos de imposição, argumentação excessiva e até falta de respeito pelos pais, condutas essas que devem ser observadas e mediadas, pois não é adequado que as crianças e os adolescentes que apresentam poten- ciais bastante significativos quanto à aprendizagem não mantenham um relacionamento respeitoso com a família e amigos. Sob a perspectiva da teoria e dos anos de atuação na área das al- tas habilidades ou superdotação, observamos que muitas famílias são surpreendidas pela precocidade dos seus filhos em suas habilidades para leitura, escrita, cálculo matemático e conhecimentos gerais, e al- guns pais se sentem inferiorizados e/ou intimidados pelos argumentos de seus filhos, sentindo-se inseguros ao exercer sua função de pai na orientação das funções básicas de atitudes. Em algumas situações, é importante que a família, os pais e res- ponsáveis estabeleçam regras básicas e as deixem compreensíveis, es- tabelecendo combinados para que sejam cumpridos dentro de casa, algo que pode ser resumido com a seguinte frase: combinados cum- pridos dentro, cumpridos fora também. Com isso, as crianças com AH/ SD aprendem primeiramente dentro de casa, para depois aprenderem fora do ambiente familiar. Outra questão relatada pelos pais como dificuldade de compor- tamento é a falta de condições dos filhos para lidar com as perdas e as frustrações. Os pais, neste caso, também exercem um papel fundamental para o desenvolvimento do autocontrole e devem ser orientados para que possam favorecer a aprendizagem relacionada às perdas e frustrações, já que alguns indivíduos com AH/SD têm uma certa dificuldade em aceitar situações, pessoas e regras coletivas que divergem de suas regras individuais, ou seja, normas que diferem do que estão acostumados. Freeman e Guenther (2000) observam que os pais podem agir no sentido de potencializar as habilidades de seu filho com algu- mas estratégias. Superdotação e escola 67 Figura 2 Estratégias de potencialização Fi re of he ar t/ Sh ut te rs to ck 1 4 2 5 3 6 Prover um ambiente de segurança para o crescimento da criança. Fornecer materiais pedagógicos, proporcionando um ambiente para a produção criativa. Oferecer oportunidades para a aprendizagem. Proporcionar liberdade emocional e materiais para jogar e experimentar. Favorecer a vivência de novas experiências. Estimular o pensamento criativo. Fonte: Elaborada pela autora. Com base nas orientações listadas na Figura 2, podemos ainda pontuar que a relação familiar é essencial para um bom desenvolvi- mento da criança com altas habilidades ou superdotação. Nesse sentido, há a necessidade de a família se conscientizar acerca do seu papel nesse processo educativo, de maneira a conhe- cer as percepções e os sentimentos que a criança tem com relação ao pertencimento a um grupo das altas habilidades ou superdota- ção, bem como conduzi-la nos momentos de ansiedade com o in- tuito de buscar experiências positivas relativas ao tema, já que a família é o primeiro ambiente em que a criança estabelece relações fundamentais para o seu desenvolvimento. Afinal, ao mesmo tem- po que as AH/SD podem constituir um impulso ao desenvolvimento saudável das relações familiares, elas podem ocasionar dúvidas e angústias, pois as famílias passam a lidar com um novo contexto. Existe uma probabilidade maior de um indivíduo com AH/SD se desenvolver melhor quando se sente seguro e confiante. Assim, a in- fluência dos pais no aprendizado é muito importante por possibilitar que um ambiente familiar saudável e orientado faça com que os in- divíduos com AH/SD compreendam e valorizem a tarefa a ser apren- dida, ou ainda, superem as dificuldades que possam vir a encontrar durante o processo de identificação das AH/SD e da formação de uma personalidade autônoma e confiante. 68 Altas habilidades ou superdotação Quanto ao andamento da rotina do lar, é importante que os filhos tenham algumas responsabilidades na casa. Essa incumbência tem por objetivo demonstrar às crianças que todos temos responsabilidades, e elas acontecem em várias situações na vida, e não só na escola, mas também em casa. Tarefas como arrumar sua própria cama, alimentar seu animal de estimação, entre outras, são alguns exemplos de ativida- des importantes dentro de casa. Algumas atividades indicadas para a criança cumprir deverão ter como intuito a colaboração entre os demais integrantes da família, como retirar da mesa, após as refeições, tudo o que foi utilizado pelos familiares, não somente o que a criança utilizou. Dessa forma a criança aprenderá a necessidade da contribuição e da importância em cooperar com o próximo. O resultado na escola, seja na relação estabelecida com os colegas ou no comprometimento com as obri- gações escolares, passa a ser consequência do seu comportamento em casa. A rotina dentro de casa é importante para a criança perce- ber que tanto em casacomo fora dela, é necessário cumprir horá- rios, compromissos e atividades. É recomendável aos pais que orientem seus filhos quanto aos horá- rios das tarefas, do uso do computador, do videogame, da televisão, da higiene e do horário para dormir, regras essas que podem ser elabora- das junto com a criança, para que ambos as respeitem. A ideia principal aqui é que, ao aprender a respeitar as regras dentro de sua casa, a criança também leve esse respeito à escola e às suas relações sociais, tornando-se, assim, um indivíduo mais seguro e feliz. 4.2.1 Comportamento do superdotado em sala de aula Quanto mais nos familiarizamos com o tema, mais fácil torna-se lidar com todas as questões tratadas até aqui. Portanto, agora é a vez de en- tendermos o comportamento desse aluno em sala de aula para que pos- samos orientar os profissionais da escola de maneira eficaz. Com relação à orientação à escola, a principal ação é esclarecer para os professores e dirigentes as características dos alunos com altas habilidades ou superdo- tação, bem como apresentar suas dificuldades e suas necessidades, para que eles possam ser incluídos dentro da sala de aula. Superdotação e escola 69 Mesmo assim, surge um questionamento: como fazer com que a escola e os profissionais que a constituem possam atender as neces- sidades diversas desses alunos e fazer com que a escola se torne mais atrativa? A proposta, se executada com sucesso, contemplaria tanto os alunos com AH/SD como também a todos os demais alunos, já que carrega consigo a ideia de uma ressignificação da escola, em que se substitui métodos tradicionais de ensino e relacionamento por práticas pedagógicas que atendam as reais necessidades de todo o corpo dis- cente – aqui estimulado por uma aprendizagem realmente significativa, na qual a satisfação é encontrada no aprendizado por prazer, não sim- plesmente por uma obrigação. E o que é aprendizagem significativa? A aprendizagem significativa acontece quando novas informações se relacionam com os conhecimentos preexistentes em uma situação bastante interessante e relevante para o aluno e proposta pelo pro- fessor. Nesse momento, o aluno amplia e atualiza as informações anteriores, atribuindo novos significados a seus conhecimentos. As cir- cunstâncias para que ocorram a aprendizagem significativa envolvem a utilização de materiais e estratégias potencialmente criativas, por parte do docente, e a predisposição para aprender, por parte do aluno. Segundo o filósofo John Dewey, todos os grandes avan- ços da ciência nasceram de uma nova audácia da imagi- nação (LAGO, 2008). is to ck wo rld /S hu tte rs to ck Para o aluno, tanto os conhecimentos prévios como o significado do tema trabalhado dependem das motivações intrínsecas e das interações sociais. Logo, um tema é relevante para o aluno quando sua abordagem faz referência aos conhecimentos prévios, ao seu desejo interno de apren- der, ou ainda, quando são relevantes as suas interações sociais. O ideal é que o processo seja envolto de reflexão, conexões e significados. 4.3 Práticas pedagógicas Vídeo Falando agora de práticas pedagógicas, vamos neste tópico des- mistificar o senso comum sobre esse tema. A primeira reflexão a ser feita é a de que não podemos considerar que uma prática docente é uma prática pedagógica, pois quando a prática tem como objetivo 70 Altas habilidades ou superdotação passar as lições e quantificar as provas dos alunos, o docente tem como foco “vencer” os conteúdos, e não construir o conhecimento. Mas, afinal, o que é uma prática pedagógica? Franco (2016) apre- senta de maneira bem clara um conceito que nos auxilia a entender essa prática. As práticas pedagógicas são ações conscientes e participativas que visam atender às expectativas educacionais de uma determinada comunidade. Elas servem para organizar, potencializar e interpretar as intencionalidades de um projeto educativo. Lu ba V eg a/ Sh ut te rs to ckAprofundando... Portanto, de modo geral, o objetivo das práticas pedagógicas é pro- piciar e oportunizar a aprendizagem dos alunos por meio do constante aprimoramento dos docentes, com análise e conhecimento das reais necessidades dos estudantes, dentro de um contexto sociocultural próprio, com diversas técnicas e metodologias de ensino diferenciadas, atendendo às peculiaridades de cada ser humano. Agora que esclarecemos o que são práticas pedagógicas e sua di- ferenciação das práticas docentes, vamos compreender como trans- formamos práticas docentes em pedagógicas, mais especificamente dentro da área das AH/SD, que é o nosso foco. Para compreendermos como acontece esse processo de trans- formação e adequação que ocorre quando temos um aluno com AH/SD dentro da sala de aula, temos alguns marcos que podem nos auxiliar nesse processo. Entretanto, é necessário ficar atento a todos eles e perceber qual se enquadra nos momentos de reco- nhecer um aluno com AH/SD e como o professor deverá lidar com as situações em sala: O primeiro deles é reconhecer esse aluno pelo potencial que apresenta em sala de aula, seu comportamento, suas curiosidades e conhecimentos, mes- mo antes de uma avaliação psicopedagógica, psicológica ou neurológica que o diagnostique como um indivíduo com AH/SD. 1 O segundo é o de reconhecer esse aluno depois que o professor tem em mãos um laudo fornecido pelos profissionais que o avaliaram. Imediatamente ao ter acesso ao laudo, a continuidade é interpretar o documento e utilizá-lo para desenvolver a melhor intervenção possível para que o aluno aproveite seu potencial. (Continua) 2 Superdotação e escola 71 O terceiro acontece quando existe uma queixa por parte dos pais, relatando diversas situações cognitivas ou emocionais que desencadeiam instabilida- de. Com isso, o professor detentor do conhecimento e das características dos indivíduos com AH/SD orienta os pais quanto às suas particularidades e os encaminha da melhor forma. 3 O quarto marco é quando o professor percebe um aluno com grande destaque no seu desempenho acadêmico e identifica na sequência um desinteresse alterando seu rendimento com queda de produtividade ou até mesmo oscila- ção. Após a observação, é o momento de atuar intervindo com uma adapta- ção curricular que acenda novamente a chama de interesse e o rendimento do aluno volte a progredir. As sinalizações acontecem com frequência quando estamos atentos, por isso não podemos deixar de fazer o processo de media- ção com eficácia e cuidado. 4 Quando falamos do aluno com AH/SD e a sua necessária inclusão, o tema principal é a adoção de práticas pedagógicas inclusivas, que são essenciais para proporcionar a aprendizagem de todos os alunos, atendendo suas reais necessidades e oferecendo diferentes oportuni- dades de aprendizagem, com o objetivo de assegurar que o processo de aprendizado aconteça de maneira eficaz. A seguir, trataremos de quatro situações específicas referentes a queixas comuns dos professores sobre seus alunos com AH/SD falando sobre as possíveis causas e estratégias de intervenção, com o objetivo de auxiliar docentes que passam por situações similares. 4.3.1 Exemplos práticos Este primeiro exemplo é uma situação muito comum, quando te- mos alunos com AH/SD na classe: um aluno que tem dificuldade em registrar o processo completo dos cálculos e estratégias utilizados, as- sim como o procedimento das resoluções dos problemas matemáticos. Situação em sala de aula Intervenção O aluno não consegue registrar todo o processo da resolução do problema ma- temático e tem preferência por registrar somente o resultado. Não existe a necessidade do registro completo para a resolução dos proble- mas propostos, se a estratégia utilizada for o cálculo mental. Sabemos que a es- tratégia ensinada pelo professor tem o intuito de auxiliar no processo, mas caso o aluno utilize uma estratégia própria, fica sem fundamento a obrigatoriedade da utilização da estratégia do professor. 72 Altas habilidadesou superdotação Com relação ao cálculo mental, Domenico (1988) explica que cada criança cria sua própria estratégia considerando o que é mais fácil para ela, sendo que as possibilidades surgem espontaneamente du- rante a repetição, que tende a ocorrer em níveis de complexidade va- riáveis – a depender do tipo de problema apresentado –, provocando evolução no raciocínio lógico da criança. Alguns professores aceitam que o aluno não faça o registro, desde que ele explique todo o seu raciocínio e como ele chegou a esse resultado. Também não existe a necessidade dessa intervenção, pois o aluno com a inteligência lógico-matemática bem acima da média tem um pensamen- to rápido e, na maioria das vezes, não consegue compreender tampouco explicar o seu próprio raciocínio. Os alunos com AH/SD apresentam so- luções diferentes nas resoluções das situações-problema, resolvendo-as com muita habilidade, e ainda de maneira original. Antes de mencionarmos a intervenção seguinte, faremos um aden- do significativo e muito importante quanto à legislação para respaldar o exemplo a seguir. O artigo 32 da LDB – mais precisamente no inciso III – traz como objetivo do Ensino Fundamental “o desenvolvimento da ca- pacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimen- tos e habilidades e a formação de atitudes e valores” (BRASIL, 1996). Se a legislação estabelece que uma das funções da escola é a aqui- sição de conhecimentos, logo, respaldados na legislação, orientamos a seguinte intervenção. Situação em sala de aula Intervenção O aluno está em uma turma que irá ter suas primeiras aulas de alfabetização e letramen- to, no entanto esse aluno já é alfabetizado. Quando o aluno domina a leitura e a es- crita rapidamente, temos um caminho incontestável, pois uma das funções da escola é possibilitar a aquisição de novos conhecimentos. Esse aluno necessita de uma adaptação no conteúdo, ou seja, após uma investigação detalhada dos seus conhecimentos, o professor prepara um conteúdo que o aluno não domina e passa a ministrá-lo como uma forma de enrique- cimento, sem sair do contexto da aula, de modo a fazer com que o aluno se desen- volva cognitivamente sem perder seu tem- po e aproveitando o que a escola tem de melhor para oferecer. Superdotação e escola 73 A presença de alunos que já dominam um conteúdo a ser ensinado para a turma é uma situação bastante habitual, pois, na maioria das ve- zes, as crianças com AH/SD têm interesses precoces no que diz respeito às palavras, à leitura e aos números, aprendendo a ler antes mesmo de iniciar sua trajetória acadêmica. Muitas vezes as famílias são surpreendidas pela precocidade da expressão e do pleno domínio de habilidades de leitura, escrita ou cálculo matemático, esperadas apenas para o período em que a criança já estivesse matriculada na escola e vivenciado experiên- cias pedagógicas. Leitura, escrita, cálculos, domínio e interesse por conteúdos diversos, expressão de diferentes tipos de operações mentais, pensamento rápido, capacidade de julgamento crítico, in- dependência de pensamento, memória notável, capacidade para resolver e/ou lidar com problemas são algumas das habilidades apresentadas por esta criança. (DELOU, 2007, p. 52) Alguns indivíduos com AH/SD não têm muita facilidade em se rela- cionar quando adolescentes e se sentem desconfortáveis quando pre- cisam se socializar, seja na escola ou no meio social. Sabemos como é importante esse processo de pertencimento e o quanto os professores podem mediar intervenções em que o aluno se sinta mais tranquilo ao longo de seu desenvolvimento. A seguir, uma situação e uma sugestão de intervenção para contex- tualizar esse processo. Situação em sala de aula Intervenção Quando o aluno com AH/SD está isolado e não consegue se relacionar com os outros alunos, se sentindo sozinho e excluído. Planejar atividades em dupla ou em pe- quenos grupos divididos de acordo com as afinidades, seja de interesses, poten- cial ou assunto. Nesse contexto, quando o professor proporciona esse tipo de prá- tica pedagógica, permite aos colegas que troquem conversas, conhecimentos, sen- timentos e emoções. Quando os demais têm habilidades semelhantes, o aluno com AH/SD se sente acolhido e desenvol- ve o sentimento de pertencimento, o que torna sua vida acadêmica mais acessível. Com esse tipo de prática, além de um olhar cuidadoso sobre o aluno com AH/SD, o professor passa a observar com mais atenção to- dos os demais alunos, buscando perceber quais são aqueles que se O MEC disponibiliza, de for- ma gratuita e em formato digital, quatro volumes de livros didático-pedagógicos que contêm informações que auxiliam nas práticas de atendimento ao aluno com altas habilidades ou superdotação, além de orientações para o profes- sor e à família. Disponível em: http://portal.mec.gov. br/escola-de-gestores-da-educacao- basica/192-secretarias-112877938/ seesp-esducacao-especial- 2091755988/12679-a-construcao-de- praticas-educacionais-para-Alunas- com-altas-habilidadessuperdotacao. Acesso em: 7 jun. 2023. Dica http://portal.mec.gov.br/escola-de-gestores-da-educacao-basica/192-secretarias-112877938/seesp-esducacao-especial-2091755988/12679-a-construcao-de-praticas-educacionais-para-Alunas-com-altas-habilidadessuperdotacao http://portal.mec.gov.br/escola-de-gestores-da-educacao-basica/192-secretarias-112877938/seesp-esducacao-especial-2091755988/12679-a-construcao-de-praticas-educacionais-para-Alunas-com-altas-habilidadessuperdotacao http://portal.mec.gov.br/escola-de-gestores-da-educacao-basica/192-secretarias-112877938/seesp-esducacao-especial-2091755988/12679-a-construcao-de-praticas-educacionais-para-Alunas-com-altas-habilidadessuperdotacao http://portal.mec.gov.br/escola-de-gestores-da-educacao-basica/192-secretarias-112877938/seesp-esducacao-especial-2091755988/12679-a-construcao-de-praticas-educacionais-para-Alunas-com-altas-habilidadessuperdotacao http://portal.mec.gov.br/escola-de-gestores-da-educacao-basica/192-secretarias-112877938/seesp-esducacao-especial-2091755988/12679-a-construcao-de-praticas-educacionais-para-Alunas-com-altas-habilidadessuperdotacao http://portal.mec.gov.br/escola-de-gestores-da-educacao-basica/192-secretarias-112877938/seesp-esducacao-especial-2091755988/12679-a-construcao-de-praticas-educacionais-para-Alunas-com-altas-habilidadessuperdotacao http://portal.mec.gov.br/escola-de-gestores-da-educacao-basica/192-secretarias-112877938/seesp-esducacao-especial-2091755988/12679-a-construcao-de-praticas-educacionais-para-Alunas-com-altas-habilidadessuperdotacao 74 Altas habilidades ou superdotação interessam pelos mesmos assuntos e que têm habilidades similares, compactuando dos mesmos sentimentos. Assim o professor trabalha a inclusão dos alunos com altas habilidades ou superdotação. Pela facilidade e pela rapidez no processo de aprendizagem, o aluno com AH/SD consegue dominar os conteúdos antes mesmo dos colegas de classe e sem necessitar de repetição. Por um lado, isso é ótimo, pois quem não gostaria de ter alunos que aprendem muito rápido o conteú- do e não necessitam que o professor intervenha várias vezes para que a aprendizagem aconteça. Por outro, às vezes, esse mesmo aluno, que é um sonho de qualquer professor, se sente super desconfortável em ficar na sala de aula, onde todos os outros colegas estão aprendendo coisas novas, e ele está somente no processo de repetição dos conteúdos. A seguir, a sugestão de intervenção diante de uma situação similar a essa descrita. Situação em sala de aula Intervenção O aluno argumenta questionando as ati- vidades a serem desenvolvidas em sala, pois já domina o conteúdo. O ideal é que o professor faça uma avalia- ção diagnóstica 1 desse aluno, para me- lhor intervir sobre a queixa. Caso o aluno já domine o conteúdo, ele pode demons- trar insatisfação e questionar o motivo de fazer a atividade, pois o aluno com AH/ SD tem preferência por desafios, e tudo o que se tornar repetitivo irá desencadearcom AH/SD ao longo dos séculos. Também iremos tratar das características das pessoas com altas habilidades ou superdotação e compreender que o senso comum, por vezes, traz informações que não são verdadeiras sobre esses indivíduos. Além disso, iremos abordar não só a legislação que contempla essas pes- soas, mas seu histórico e sua evolução ao longo dos anos no Brasil. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • saber mais sobre o contexto histórico das altas habilidades ou su- perdotação na sociedade; • identificar as características mais comuns das pessoas com altas habilidades ou superdotação; • entender e distinguir os mitos que envolvem as altas habilidades ou superdotação; • interpretar as leis que abrangem as altas habilidades ou superdotação. Objetivos de aprendizagem 10 Altas habilidades ou superdotação 1.1 Contexto histórico Vídeo Sobre o contexto histórico, iremos dividir nossa explanação em dois momentos: em um primeiro momento, vamos tratar da evolução da re- lação da sociedade com as pessoas ditas “acima da média” nas diversas civilizações ao longo da história. Em seguida, vamos explicar, de forma mais próxima da nossa realidade, a evolução do tratamento dado às pes- soas com altas habilidades ou superdotação no Brasil. Sabemos que, no período da Grécia Antiga, a inteligência era um atri- buto muito valorizado, especialmente entre os filósofos e pensadores da época, dos quais Sócrates (469 a.C.-399 a.C.) era talvez o mais conheci- do entre eles e que inspirou dezenas de outros pensadores que o viam como mestre. Esses pensadores não só reconheciam os indivíduos inte- ligentes, como também depositavam grandes esperanças no seu desen- volvimento e nas mudanças que eles causariam na sociedade. Sócrates foi um filósofo grego muito conhecido por sua genialidade; dentre suas citações, nos premiou com esta: “Como pode uma sociedade ser salva, ou ser forte, a não ser que seja liderada por seus homens mais sábios?” (DURANT, 2000). ls nm rc h/ Sh ut te rs to ck Por volta de 387 a.C., Platão (428 a.C.-348 a.C.) – um dos alunos de Sócrates – fundou a chamada Academia, uma escola com o propósito de produzir investigação científica e filosófica, com enfoque no encaminha- mento do potencial. Platão acreditava que desenvolver o potencial de uma pessoa era algo que exigia muito cuidado, pois para ele as pessoas não deveriam ser treinadas para aprender por meio da força ou da rigidez, era preciso que elas fossem orientadas para uma aprendizagem que divertis- se suas mentes, uma vez que só assim o indivíduo seria capaz de descobrir com precisão a verdadeira inclinação peculiar do seu gênio (GAMA, 2006). Com o objetivo claro de desenvolver ao máximo as potencialidades de cada pessoa, o ensino da Academia era moldado para separar os que se destacavam, que passavam por um programa educacional es- pecial, dos considerados medianos. Esse programa de ensino especial consistia em estudos mais aprofundados de ciências, filosofia e meta- Conhecendo as altas habilidades ou superdotação 11 física, e aqueles que se sobressaíssem teriam oportunidades de serem os futuros líderes da sociedade. Porém, não eram somente os gregos que davam tanta importância para a inteligência, outras sociedades também perceberam que selecionar e desenvolver a inteligência de indivíduos específicos era muito benéfico. No século XVI, de acordo com Novaes (1979), o Império Otomano tinha como prática buscar e selecionar os mais inteligentes e fortes para instruir e formar artistas, sábios e chefes de guerra que serviriam ao império. O Japão é outro exemplo desse processo de selecionar e educar de for- ma mais adequada os considerados na época “mais inteligentes”. Durante o chamado Período Tokugawa (1603-1868), os filhos dos samurais recebiam uma educação diferenciada, que incluía ensinamentos de Confúcio, artes marciais, história, composição, caligrafia, moral e etiqueta (GAMA, 2006). Voltando para o continente europeu, foi com Nicolas de Condorcet – também conhecido como Marquês de Condorcet (1743-1794) – que surgiram as primeiras iniciativas da elaboração de um ensino voltado ao desenvolvi- mento de talentos individuais. Aproveitando-se do período pelo qual seu país passava, no caso, a Revolução Francesa, Condorcet dedicou-se a estu- dar os talentos intelectuais responsáveis pelas políticas públicas francesas. Com isso, idealizou na França uma escolarização para talentosos e a inser- ção de programas específicos na educação pública (SILVA, 2008). No continente americano, mais especificamente nos Estados Uni- dos, em 1862, pessoas identificadas como potencialmente mais inteli- gentes que as demais tinham um atendimento pedagógico diferenciado e eram autorizadas a promoções individuais a cada seis meses, para que completassem seus cursos em menor tempo (NOVAES, 1979). Toda essa conceituação até o momento nos leva ao seguinte pen- samento: não foi apenas na contemporaneidade que as pessoas ditas “acima da média” foram identificadas e recebiam uma educação dife- rente. Entretanto, foi somente no final do século XIX que se iniciaram as primeiras investigações científicas propriamente ditas, com o pesqui- sador inglês Francis Galton (1822-1911). De acordo com Alencar (2001), os estudos de Galton foram muito influenciados pela teoria da evolu- ção de Charles Darwin, sugerindo a existência de diferenças individuais herdadas entre membros de uma determinada espécie com repercus- são para a própria sobrevivência, e em 1869 – com a publicação de sua 12 Altas habilidades ou superdotação obra Hereditary genius –, o inglês propôs a teoria de que a capacidade humana decorre da hereditariedade, e não da formação educacional. Esse estudo de Galton era baseado em pesquisas realizadas nas fa- mílias de pessoas que se destacavam em diversas esferas da vida social, buscando pais e filhos com altas capacidades intelectuais, para demons- trar sua tese sobre a herança da inteligência. Os resultados demonstra- ram que havia uma correspondência entre o rendimento escolar dos sujeitos e seus familiares analisados. Com o passar do tempo, Galton ampliou seus estudos, acreditando que a inteligência poderia ser avalia- da diretamente, e nessa mesma linha de pensamento, desenvolveu as ideias sobre inteligência herdada com base em testes mentais. O objetivo era medir a capacidade intelectual e comprovar a sua hereditariedade. Avançando para o século XX, mais especificamente no ano de 1905, o governo francês solicitou aos psicólogos Alfred Binet e Theophile Simon a elaboração de um instrumento capaz de distinguir das demais crian- ças os alunos, na época, considerados problemáticos – os considerados menos capazes, aqueles com dificuldades de aprendizagem e os com de- ficiências intelectuais –, para que esses dois grupos não frequentassem a mesma sala. Esse instrumento de separação dos alunos foi um teste – originalmente desenvolvido por Binet – que teve uma grande aceita- ção em vários países, como nos Estados Unidos, onde inúmeras revisões foram feitas, acrescentando-se novos itens e o ampliando para idades mais avançadas, e utilizando-se do quociente de inteligência (QI) para se referir ao resultado de um determinado sujeito (OLIVEIRA, 2007). O estadunidense Lewis Terman intensificou ainda mais esses estu- dos sobre as denominadas habilidades superiores e, em 1920, apresen- tou seu primeiro estudo de crianças com inteligência acima da média. Assim, junto com Binet, Terman desenvolveu o Teste de Stanford-Binet (Teste de QI). O objetivo desse estudo era contestar a crença já existen- te de que as crianças superdotadas sofriam de distúrbios e tinha como hipótese comprovar que os potenciais intelectuais que os sujeitos ti- nham na infância poderiam se sustentar ou até mesmo se potencializar ao atingir a vida adulta. De lá para cá, inúmeros estudos, pesquisas, livros e intervenções desen- cadearam uma expressiva crescente na área, despertando curiosidade e a necessidadeuma desestabilidade. O ideal é que o professor disponibilize um enriquecimento curricular para que o aluno consiga aproveitar o seu tempo não com atividades extras, mas com conteú- dos diferenciados e ricos, e assim o pro- cesso de aprendizagem ocorra, e o aluno se sinta bem e confortável. Alguns professores quando se veem dentro desse tipo de situa- ção, interferem com os meios de que dispõem, como solicitar que esse aluno ajude os colegas que ainda não dominam o conteúdo a ser trabalhado, o que é uma estratégia válida. Entretanto, ao mes- mo tempo que é boa, essa estratégia também pode levar a outros problemas, pois é injusto que um aluno tenha a responsabilidade de ajudar o outro todas as vezes, sendo que ambos estão na escola para aprender, e nesse caso, somente um cumprindo seu verdadeiro pa- pel. Outra situação bastante comum é o professor, quando percebe Instrumento que examina as informações sobre os conhecimentos dos con- teúdos dos estudantes no início do processo de aprendizagem, avaliando também suas habilida- des e competências no processo educacional. Essa avaliação não tem o intuito de quantificar o aluno por notas, mas sim traçar um conjunto de estratégias e organizar melhor o conteúdo a ser trabalhado, podendo avaliar o que o aluno já sabe ou não. 1 Superdotação e escola 75 que o aluno também domina o conteúdo, entregar atividades extras que não agregam nenhum novo conhecimento, apenas para que o estudante fique ocupado e não incomode o grupo no “seu” processo de aprendizagem. É importante notarmos que as duas intervenções são injustas para o aluno com AH/SD, pois em nenhuma situação houve aprendizagem, e a escola falhou na sua proposta, que inclusive tem respaldo legal na LDB, que determina em um de seus artigos que o Ensino Fundamen- tal tem por objetivo promover “o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habili- dades e a formação de atitudes e valores” (BRASIL, 1996). CONSIDERAÇÕES FINAIS Indivíduos com altas habilidades ou superdotação devem ser tratados na medida das suas potencialidades e dificuldades. Este capítulo tratou de intervenções necessárias tanto nas famílias quanto nos ambientes es- colares, a fim de possibilitar a esses indivíduos acolhimento, inclusão e maximização ao longo de seu desenvolvimento, por meio da criação de espaços propícios para o seu pleno crescimento. Também abordou a identificação da necessidade ou não de ace- leração escolar. Ficou esclarecido que esse processo implica reco- nhecer as características individuais de cada pessoa com AH/SD e, assim, oferecer-lhe oportunidades que estejam em consonância com a sua capacidade. É dessa maneira que se evita que essa pessoa se sinta desestimulada pela falta de desafios em sua trajetória educacio- nal, afastando do cenário o tédio e a estagnação do seu processo de autoconhecimento. Além disso, este capítulo discutiu a importância do acolhimento no ambiente familiar e no ambiente educacional, acolhimento esse que passa pelo acompanhamento – tanto das famílias quanto das institui- ções de ensino – de uma equipe multidisciplinar de profissionais, de modo a tratar dos aspectos fisiológicos, emocionais e pedagógicos que afetam os indivíduos com AH/SD, permitindo o oferecimento de apoio adequado a eles. A identificação precoce e o acompanhamento contí- nuo, feito por meio de processos de orientação e intervenção, são fun- damentais para que essas pessoas possam atingir o desenvolvimento pleno de sua formação. 76 Altas habilidades ou superdotação Finalmente, foi abordada a diferenciação entre práticas docentes e práticas pedagógicas, considerando que essas últimas são mais efe- tivas para a promoção do tratamento equitativo dos indivíduos com AH/SD, estimulando e valorizando suas habilidades, em vez de tentar adequá-las à média dos demais alunos. Assim, uma boa prática pe- dagógica caracterizada pela adoção de recursos e meios criativos e inovadores de ensino e aprendizagem (entendendo que inovador aqui é diferente do simples uso dos recursos tecnológicos mais atuais) faz com que a escola se torne mais atrativa não só para os indivíduos com AH/SD, mas também para todos os outros alunos, na medida em que tem o potencial de maximizar o aproveitamento de todos, independen- temente de suas habilidades, preferências ou talentos, promovendo uma sociedade mais justa e inclusiva. ATIVIDADES Atividade 1 Quais são os principais desafios enfrentados na implementação de intervenções adequadas para acelerar indivíduos com altas habilidades ou superdotação? Atividade 2 De que forma as famílias podem contribuir para o desenvolvimen- to pleno de indivíduos com altas habilidades ou superdotação, além do apoio emocional? Atividade 3 A aceleração de indivíduos com altas habilidades ou superdotação tem benefícios a longo ou somente a curto prazo? Superdotação e escola 77 REFERÊNCIAS ALENCAR, E. M. L. S.; FLEITH, D. S. Superdotados: determinantes, educação e ajustamento. São Paulo: EPU, 2001. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394. htm. Acesso em: 24 maio 2023. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CP 2022. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2022. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index. php?option=com_docman&view=download&alias=242301-diretriz-altas-habilidades-ou- superdotacao-1&category_slug=novembro-2022-pdf-1&Itemid=30192. Acesso em: 7 jun. 2023. DELOU, C. M. C. Educação do aluno com altas habilidades/superdotação: legislação e políticas educacionais para a inclusão. In: FLEITH, D. S. (org.). A construção de práticas educacionais para alunos com altas habilidades/superdotação: volume 1 – orientação a professores. 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Acesso em: 24 maio 2023. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=242301-diretriz-altas-habilidades-ou-superdotacao-1&category_slug=novembro-2022-pdf-1&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=242301-diretriz-altas-habilidades-ou-superdotacao-1&category_slug=novembro-2022-pdf-1&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=242301-diretriz-altas-habilidades-ou-superdotacao-1&category_slug=novembro-2022-pdf-1&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/altashab2.pdf http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/altashab2.pdf http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/altashab3.pdf 78 Altashabilidades ou superdotação 5 Adaptações curriculares e enriquecimento curricular Os alunos – independentemente da modalidade de ensino ou institui- ção que frequentem – têm necessidades diversas que devem ser aten- didas tanto pelo ambiente escolar quanto pelos profissionais de ensino responsáveis pela mediação do conteúdo oferecido pelo currículo peda- gógico. Assim, nos propomos aqui a explorar abordagens já amplamente utilizadas como modelos para o enriquecimento curricular, oferecendo a perfis diversos de estudante uma aprendizagem mais efetiva e significativa. Abordaremos a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) de Vygotsky e como a sua adoção pode propiciar um melhor desenvolvimento e a individualização da relação entre as habilidades já existentes e as neces- sárias para a aquisição de um novo conhecimento e/ou habilidade capaz de propiciar aos alunos (com ou sem altas habilidades ou superdotação – AH/SD) um melhor aproveitamento de seu potencial e talentos. A adoção das técnicas de enriquecimento curricular que serão expos- tas ao longo das próximas páginas tem como intuito valorizar a singula- ridade de cada aluno. O objetivo é maximizar não só o seu envolvimento com o processo de aprendizagem, mas também promover a inclusão e propiciar um caminho mais promissor e estimulante a todos os alunos. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • distinguir os diversos tipos de atendimento dentro da escola; • identificar qual é o atendimento ideal para os alunos com AH/SD; • empregar adequadamente o atendimento especializado visando às necessidades dos alunos com AH/SD; • entender as diversas adaptações curriculares existentes; • compreender o enriquecimento curricular e suas teorias; • diferenciar os conceitos de adaptação curricular e enriquecimento curricular e aplicá-los em sala de aula. Objetivos de aprendizagem Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 79 5.1 Atendimento dentro e fora da sala de aula Vídeo Refletiremos aqui sobre a inclusão escolar, pois somente quando entendemos e contextualizamos a educação inclusiva nas nossas vidas é que podemos intervir e prover as condições necessárias para um real processo inclusivo dentro da educação. No entanto, o que é a inclusão escolar e a educação inclusiva na visão do Ministério da Educação e Cultura (MEC)? Considerando a perspectiva da educação inclusiva, a Educação Es- pecial tem o objetivo de: assegurar a inclusão escolar de alunos com deficiência, trans- tornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/super- dotação nas turmas comuns do ensino regular, orientando os sistemas de ensino para garantir o acesso ao ensino comum, a participação, aprendizagem e continuidade nos níveis mais ele- vados de ensino; a transversalidade da educação especial desde a educação infantil até a educação superior; a oferta do aten- dimento educacional especializado; a formação de professores para o atendimento educacional especializado aos demais pro- fissionais da educação, para a inclusão; a participação da família e da comunidade; a acessibilidade arquitetônica, nos transpor- tes, nos mobiliários, nas comunicações e informações; e a arti- culação intersetorial na implementação das políticas públicas. (BRASIL, 2008a, p. 64) Esses objetivos são ainda complementados pelo Decreto n. 6.571/2008, que define o chamado atendimento educacional especializado (AEE) como um conjunto de atividades, recursos de acessibilidade e pedagógicos vol- tados para o ensino de pessoas com deficiência, transtorno do espectro autista, AH/SD ou outros estudantes público-alvo da Educação Especial. O AEE tem como objetivo principal complementar a formação desses alunos no Ensino Regular, focando as suas potencialidades e dificulda- des com atividades e práticas específicas (BRASIL, 2008b). Antes de tratarmos do atendimento dentro e fora da sala de aula em si, é importante lembrarmos de que, qualquer que seja o atendimento ao aluno com AH/SD, não pode se resumir ao atendimento realizado em sala de aula, pois os indivíduos são seres integrais e que atuam além do ambiente escolar, tendo o seu potencial presente em qualquer situação do cotidiano e em qualquer ambiente a que pertencem. 80 Altas habilidades ou superdotação Mas quais são os encaminhamentos para as diversas alternativas de atendimento? De modo geral, esses atendimentos na escola devem acon- tecer: em um sistema organizado por séries, em que normalmente não existe um trabalho interdisciplinar e sim disciplinas isoladas; em um tempo previamente estabelecido; dentro de uma grade com conteúdo já estipu- lado; e com professores detentores do conhecimento específico de cada disciplina. É normalmente nesse cenário real que o professor pode fazer a diferença e atuar com esses alunos para que sejam realmente atendidos. O MEC determina que o atendimento aos alunos com AH/SD deve ocorrer por meio de agrupamentos, que muitas vezes são a alternati- va mais escolhida pelas instituições por não envolver maiores custos. De modo geral, esses agrupamentos ocorrem de três formas (BRASIL, 2022): em centros específicos; em aulas específicas nas escolas regu- lares; e parcial/temporal e flexível. O agrupamento realizado em centros específicos tem o objeti- vo de disponibilizar aos alunos o espaço onde possam desenvolver seus potenciais. Já o agrupamento em aulas específicas nas escolas regulares ocorre de modo que o aluno possa desenvolver sua criati- vidade e conhecimento por meio de projetos e experiências diferen- ciadas, ricas em informações e curiosidades. Esse atendimento tem a intenção de atender às necessidades dos alunos com AH/SD e não so- mente oferecer currículo preestabelecido, mas sim disponibilizando tempo flexível para que ocorra uma aprendizagem significativa com mediação do professor. Por fim, o agrupamento parcial/temporal e flexível ocorre nos momentos em que o professor proporciona ao aluno uma ampliação no conhecimento, flexibilizando o tempo com o objetivo de atender às necessidades educacionais do aluno com AH/ SD. Sobre a inserção do aluno com AH/SD nesses espaços específicos, a seguir veremos algumas sugestões de atendimento que podem ser utilizadas pelos docentes nas práticas. Flexibilização e aceleração Essas duas estratégias, que têm conceitos similares, podem ser aplicadas em conjunto, com a flexibilização atuando para tornar o Os agrupamentos ocorrem quando, após serem identificados, os alunos com AH/SD são se- lecionados a encaminha- dos a espaços específicos em que são ofertadas atividades pedagógicas exclusivas, de modo a po- tencializar e engajar esses alunos (BRASIL, 2022). Saiba mais Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 81 método/planejamento menos rígido e mais “aberto” a mudanças. No caso de aceleração, ela ocorre de modo a compactar o tempo de es- tudo regular, potencializando o conhecimento e proporcionando de- safios aos alunos com AH/SD. Programa de estudos acelerado e flexível A aceleração e a flexibilidade podem ocorrer tanto no ritmo da aula em si quanto nas tarefas aplicadas ou áreas de conhecimento aborda- das nas aulas. No geral, esse atendimento tem o objetivo de propor- cionar aos alunos com AH/SD um programa de estudos em um nível apropriado ao conhecimento e compatível com seu ritmo de apren- dizagem, de modo a valorizar as áreas de domínio do conhecimento, compactando as tarefas para que não sejam repetitivas. Sobre essa compactação de tarefas, também é possível utilizá-la nas atividades que podem causar desencantamento com a aprendiza- gem – algo que deve ser previamente identificado pelo docente –, pois, quando o conhecimento já está dominado, as tarefas com o intuito de fixação de conteúdo ficam totalmente dispensáveis. Enriquecimento dos conteúdos curriculares Como o próprio nome sugere, o enriquecimento ocorre com a inserção de novos conteúdos e áreas de conhecimento ao planejamento/currículo que será ofertado ao aluno com AH/SD. Entre-tanto, para que esse enriquecimento seja feito de maneira adequada, é necessária uma avaliação bem assertiva dos conteúdos dominados por esse aluno, para que os assuntos abordados não fiquem ou mui- to avançados, de modo que ele não se sinta confortável a participar das aulas, ou pouco avançados, de modo que ele não sinta interesse algum pelas práticas. Enriquecimento do contexto de aprendizagem Esse atendimento tem a intenção de desvendar a curiosidade e am- pliar os conhecimentos dos alunos com AH/SD sobre o conteúdo den- tro do próprio contexto de aprendizagem. Por vezes o aluno quer saber 82 Altas habilidades ou superdotação um pouco mais sobre o conteúdo trabalhado e o professor o desenco- raja, alegando que o conteúdo solicitado naquele momento não condiz com a série em que o aluno se encontra, sugerindo que ele aguarde os anos posteriores para sanar sua dúvida. Esse é um tipo de intervenção inadequada, mas infelizmente é bem comum no Ensino Regular. Outra forma mais adequada é o professor responder às perguntas da maneira mais completa possível para encorajar esse aluno na busca de novos conhecimentos. Enriquecimento extracurricular É uma alternativa na qual o professor atua como mediador, orientando seu aluno em um processo extracurricular de busca de conhecimento, ocorrendo sem método específico ou tempo prede- terminado. Essa orientação tem o objetivo de mostrar ao aluno com AH/SD onde e como ele pode ter contato com esse assunto em es- pecífico para saber mais. Adaptações e ampliações curriculares Essas adaptações e/ou ampliações curriculares – que podem ocorrer de modo tanto vertical quanto horizontal – são metodologias diferenciadas que se adequam às necessidades específicas dos alunos com AH/SD. Existem vários procedimentos, mas a escolha de cada um dependerá do objetivo a ser alcançado. A ampliação curricular de maneira vertical ocorre com o aprofun- damento em uma área específica de conhecimento, enquanto a adap- tação curricular com o foco nas ampliações curriculares de maneira horizontal se refere ao aprofundamento em várias disciplinas e em vários conteúdos nos quais o aluno tem interesse em se aprofundar e aprender mais. Monitorias As monitorias ou mentorias têm o objetivo de expandir o co- nhecimento do aluno e as informações com foco na curiosidade e nos interesses. Um exemplo disso ocorre quando um aluno com AH/SD busca o auxílio de um professor de sala de aula regular – ou até mesmo outro docente que tenha formação em uma área Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 83 específica – para aprofundar-se em temas específicos, de modo a receber orientação nas possíveis pesquisas, experiências e proje- tos realizados. Programas de desenvolvimento pessoal Além de conteúdo e conhecimento acadêmico, o professor pode atuar como um orientador na formação integral do aluno com AH/SD, valorizando os anseios e objetivos do aluno e o ajudando a trilhar esse caminho. Esse auxílio prestado pelo professor é relacionado a ques- tões ligadas aos processos tanto de desenvolvimento pessoal quanto de desenvolvimento vocacional, esse último ocorrendo principalmente no período da adolescência, em que muitas dúvidas surgem sobre a carreira profissional a ser seguida no futuro. 5.2 Adaptações curriculares Vídeo Para que uma adaptação curricular seja feita com excelência preci- samos recorrer a alguns conceitos clássicos acerca dos processos de aprendizagem, começando pelo conceito conhecido como ZDP, que nos auxilia a compreender qual é o melhor momento para tomar a de- cisão de fazer adaptação e enriquecimento curricular. Esse conceito foi formulado por Lev Semionovitch Vygotsky (1896-1934), que viveu em uma época em que a sociedade via as crianças de modo bem diferente do que vemos hoje. Quando foi formulado nas primeiras décadas do século XX, o con- ceito de ZDP de Vygotsky foi pioneiro, pois propunha um olhar dife- renciado para a Educação Infantil, abordando a mediação, linguagem e aprendizagem, bem como a valorização das relações sociais. Tam- bém propunha que é possível aprender pela experiência do outro. A compilação de todas as teorias formuladas por Vygotsky deu origem à corrente filosófica do pensamento pedagógico denominada socio- construtivismo, com amplo e importante destaque dentro da pedagogia (DER VEER; VALSINER, 1996). O ponto mais importante do conceito de aprendizagem em Vygotsky é que, para ter êxito, temos que ter em mente que o meio social é determinante para o desenvolvimento humano e que o fator que nos diferencia do restante dos seres vivos do planeta é a nossa capacidade de fomentar esse desenvolvimento pela aprendizagem e Vygotsky foi um pensador importante em sua época e pioneiro no conceito de que o desenvolvimento in- telectual das crianças acon- tece com as interações sociais e sua condição de vida. Pesquisador de várias áreas, buscou entender o funcionamento psicológico do ser humano de modo a identificar as mudanças qualitativas do compor- tamento que ocorrem ao longo do desenvolvimento humano e sua relação com o contexto social. Vygotsky fez a união perfeita entre desenvolvimento e contex- to social para a explicação de como a intervenção e a mediação do professor podem ser bem-sucedidas, bem como alcançar o objetivo de uma adaptação curricular adequada. Biografia 84 Altas habilidades ou superdotação pelo domínio da linguagem, em um processo caracterizado, primor- dialmente, pela capacidade de imitação das crianças em relação aos adultos e pela absorção das experiências oferecidas pelo ambiente que as cerca. Para Vygotsky, o aprendizado da criança também acontece com a exploração do ambiente, logo estar inserida em um ambiente social facilita seu processo de aprendizagem. De acordo com Der Veer e Valsiner (1996), em Vygotsky o conhecimento que não provém da experiência não é realmente conhecimento. Feita essa apresentação preliminar de Vygotsky, voltaremos a nossa atenção ao conceito de ZDP. Trata-se de um conceito sociocultural pre- sente no arcabouço teórico desenvolvido por Vygotsky que – se bem compreendido – auxilia no processo de perceber o momento ideal para dar início à adaptação e ao enriquecimento curricular. Na figura a se- guir vemos uma representação mais ilustrativa da ZDP. Figura 1 Representação da ZDP Situação 1 Situação 2 Situação 3 Zona proximal Zona proximal Zona proximal R e a l R e a l R e a l P o t e n c i a l P o t e n c i a l P o t e n c i a l Fonte: Elaborada pela autora. Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 85 Mas o que é a ZDP em si e como ela atua? No geral e de modo sim- ples, ela representa a distância entre o nível de desenvolvimento real (o nível em que o aprendizado está) e o nível de desenvolvimento poten- cial (o nível que esse aprendizado poderá alcançar). Entretanto, a ZDP altera-se conforme as ações de aprendizado têm êxito, ou seja, quando a ZDP diminui – indicando uma evolução no aprendizado do aluno –, o potencial é aumentado, e as ações para que o real também aumen- te devem continuar a partir dessa nova meta estipulada, um processo que se repete sucessivamente. A ZDP atua como elemento de intervenção e orienta o momento ideal para que seja realizada a intervenção curricular, seja a adaptação, seja o enriquecimento. O papel do professor nesse processo de ensino e aprendizagem é muito importante, pois o profissional atua direta- mente com o aluno, provocando avanços que não aconteceriam se não fosse a sua intervenção. Ressalta-se, portanto, que uma intervenção adequada dos professores no processo de desenvolvimento do aluno com AH/SD é imprescindível. O professor entende que a intervenção é necessária quando – se- guindo o conteúdo do seu planejamento e na interação com todos os alunos – percebe que os alunos com AH/SD já dominam o conteúdo a ser trabalhado (real). Assim, é necessário elaborar outras estratégias de ensino paraalcançar o potencial (o conteúdo que o aluno ainda não domina) e utilizar uma adaptação curricular ou enriquecimento na sua própria aula. Dessa forma, empregando as técnicas descritas na ZDP, entende-se o potencial do aluno e direciona-o para onde ele pode che- gar. Nesse processo, alcança-se o potencial, que se torna real e gera, de maneira sucessiva, um novo potencial. Vamos ilustrar isso por meio de um exemplo bem prático: diga- mos que um professor de uma turma de alfabetização – por meio de uma avaliação diagnóstica – identificou os alunos que dominam e os que ainda não dominam o conteúdo programático a ser traba- lhado, sendo esses últimos a maioria na turma. Com isso, o profes- sor estabeleceu o objetivo a ser trabalhado: reconhecer as letras do alfabeto. A função principal da avaliação diagnóstica é verificar se os estudan- tes têm as habilidades necessárias para alcançar os objetivos do conteúdo a ser estudado, avaliando seu nível de domínio prévio e classificando-os de acordo com as opções de ensino. Quando reali- zada durante a instrução, também pode identificar as causas subjacentes das repetidas dificuldades de aprendizagem. Com base nesse diagnóstico, os pro- fessores podem ajustar os programas de ensino para garantir a superação das dificuldades identificadas (BLOOM; HASTINGS; MADAUS, 1983). Saiba mais 86 Altas habilidades ou superdotação O primeiro passo foi feito, identificou-se o nível “real” de cada aluno e houve a separação em três grupos. Em posse do potencial, fica mais fácil identificar a ZDP desse exemplo, que podemos ver representada na figura a seguir. Figura 2 Representação da ZDP REAL REAL REAL POTENCIAL 1 POTENCIAL POTENCIAL G ru po 1 G ru po 2 G ru po 3 Zona proximal Zona proximal Zona proximal Não identifica as letras do alfabeto. Conhece e identifica as letras do alfabeto. Conhece e identifica as letras do alfabeto, escreve palavras e lê textos. Identifica as letras do alfabeto. Lê e escreve palavras. Lê, interpreta e escreve textos. Fonte: Elaborada pela autora. Com o auxílio da avaliação diagnóstica o professor identifica quais conteúdos cada aluno domina e, com a ajuda da ZDP, consegue es- tabelecer o potencial que quer atingir. Ele empregará a adaptação curricular para enriquecer o currículo e potencializar o processo de aprendizagem de quem já domina a escrita (no caso do exemplo que vimos), não deixando o aluno perder tempo na repetição de ativida- des que já conhece, tornando o ensino dinâmico e desafiador. A mediação do professor é de extrema importância para o sucesso do processo de ensino, pois a interação dele com o aluno torna o proces- so de aprendizagem proativo, estimulante, envolvente e significativo. O termo potencial aqui não se refere ao poten- cial cognitivo do aluno e sim ao seu desenvol- vimento possível no processo de aprendiza- gem, o que ele é capaz de aprender na sequência. 1 Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 87 5.2.1 Plano de ensino individualizado (PEI) O PEI é uma ferramenta de promoção da efetiva inclusão do aluno, na medida em que propõe adaptações, diferenciações e flexibilizações do currículo para os estudantes, respeitando suas características, a identificação de seus potenciais, os desafios a su- perar e as condições que concorrem para sua aprendizagem. Isso inclui o desenvolvimento e a inclusão na escola e na sociedade, em um ambiente em que todos os estudantes participam do processo de ensino-aprendizagem (BRASIL, 2022). É necessário que o PEI contenha estratégias curriculares e meto- dológicas que levem em consideração o perfil e as características da turma. Portanto, para preencher esse plano é preciso levar em consi- deração alguns passos. No primeiro passo ocorrem duas descrições: a de como o plano de ensino individualizado será desenvolvido – em que circunstância e com que frequência ou temporalidade –, evitando qualquer tipo de ambigui- dade ou omissão acerca do processo de ensino; e a das áreas e níveis identificados no comportamento da superdotação do aluno em suas áreas de conhecimento. No segundo passo apresentamos os aspectos facilitadores e de- safiadores da aprendizagem do aluno, descrevendo seus estilos de aprendizagem. O terceiro passo consiste em indicar as estratégias de ensino e de gestão da aprendizagem que serão adotadas para a diferenciação de currículo e sua sistematização (por exemplo, com- pactação de currículo; estudos independentes; agrupamento flexível; desenvolvimento de projetos, centros/grupos de interesses e/ou ace- leração de conteúdo). No quarto e quinto passo – respectivamente – ocorrem duas ex- posições: a de conteúdos, métodos e estratégias de ensino realizadas e a descrição dos resultados obtidos; e a das estratégias adotadas no suporte emocional do estudante, de modo a sinalizar possíveis redirecionamentos. 88 Altas habilidades ou superdotação Considerando que o desenvolvimento do PEI é um processo in- dividualizado e que envolve respeito à singularidade do estudante, suas ações devem ser estruturadas considerando algumas questões propostas pelo MEC (BRASIL, 2022): realizar o planejamento conjunto com os professores dos diferentes componentes curriculares, apoia- dos pelo professor especialista; identificar interesses e vias de acesso do estudante, como estratégias para qualificar a mediação entre ele e os professores; e desenvolver metodologias, recursos pedagógicos, flexibilização/adaptações e estratégias que favoreçam o processo de ensino-aprendizagem. Também é preciso flexibilizar objetivos conceituais, utilizando di- ferentes procedimentos de avaliação, adaptando-os aos diferentes estilos de aprendizagem e especificidades do estudante, assim como favorecer o desenvolvimento das habilidades de aprendiz. Além disso, é preciso estimular a troca de saberes e experiências nas diversas ativi- dades realizadas em sala de aula, qualificando, dessa forma, o proces- so de inclusão. É importante também compartilhar e colaborar nas avaliações indi- vidualizadas propostas e realizadas pelos professores com o estudan- te; envolver os estudantes em práticas pedagógicas e socioafetivas que levem ao exercício da solidariedade, alteridade, respeito e ações cola- borativas na turma, qualificando a interação e inclusão do estudante em diferentes contextos e espaços escolares; e auxiliar nas interven- ções pontuais sempre que necessário (pedagógicas, sociais, emocio- nais, entre outras). Possibilitar situações de ensino-aprendizagem também é uma questão importante a ser considerada no desenvolvimento do PEI, claro que tendo como parâmetro as interações com os de- mais estudantes da turma. Também é necessário promover ações que valorizem o reconhecimento de suas potencialidades e capa- cidades, e não suas limitações. Por fim, é preciso orientar e enga- jar a família quanto ao processo pedagógico e acompanhamento do estudante na escola. Na figura a seguir vemos o modelo de um PEI de acordo com a dire- trizes específicas para o atendimento de estudantes com AH/SD. Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 89 Figura 3 Modelo de PEI em AH/SD 1. Dados do estudante: Nome: Data de Nascimento: Instituição Escolar: Ano escolar: Professor / Professores: Equipe Pedagógica: Período de execução: CAAHS: 1. ÁREAS DE IDENTIFICAÇÃO: (descrever as áreas e níveis identificados no comportamento da superdotação do aluno) 2. CARACTERÍSTICAS E ESTILOS DE APRENDIZAGEM DO ESTUDANTE: (apresentar os aspectos facilitadores e desafiadores da aprendizagem do aluno) 3. ESTRATÉGIAS DE ENSINO E DE GESTÃO DA APRENDIZAGEM UTILIZADAS PARA A DIFERENCIAÇÃO: ( ) Compactação de Currículo ( ) Estudos Independentes ( ) Agrupamento Flexível ( ) Desenvolvimento de Projetos ( ) Centros / Grupos de interesse ( ) Aceleração de Conteúdo ( ) Centros de Aprendizagens ( ) Aceleração de ano escolar ( ) Mentoria ( ) Aprofundamento Outros: 4. EVIDÊNCIAS DA IMPLEMENTAÇÃO E EFICÁCIA: (apresentaros conteúdos, métodos e estratégias de ensino realizadas e a descrição dos resultados obtidos). 5. TRILHAS SÓCIO-EMOCIONAIS ADOTADAS: (apresentar as estratégias adotadas no suporte emocional do estudante e sinalizar possíveis redirecionamentos) Data: Assinatura do Professor: Assinatura da Coordenação Pedagógica: Assinatura do Gestor/Diretor: Idade: Ano Escolar: Área de Estudo: Fonte: Brasil, 2022, p. 31 O preenchimento do PEI de maneira correta auxilia no processo de adaptação curricular e deixa mais fácil a sua execução nas práti- cas em sala de aula. Sh m iz la /S hu tte rs to ck 90 Altas habilidades ou superdotação 5.3 Enriquecimento curricular Vídeo Uma das alternativas de adaptação do currículo é o enriquecimen- to curricular, que deve ser feito atendendo às necessidades do aluno, sendo esse enriquecimento uma das opções de atendimento ao in- divíduo com altas habilidades ou superdotação, uma prática educa- cional ofertada não só no Brasil, mas também em países nos quais os alunos com AH/SD têm prioridade no atendimento educacional. Renzulli (1986) propôs um modelo para orientar os profissionais no processo de adaptação curricular, tornando essa uma intervenção rica, desafiadora e envolvente. Dessa forma, elaborou um roteiro para que os professores saibam como proceder diante da tarefa de desafiar adequadamente esses alunos. Denominado pelo autor modelo de enriquecimento escolar, esse é, possivelmente, o mais completo modelo de enriquecimento apre- sentado na área das AH/SD, abrangendo a identificação dos alunos nessa condição, o aprimoramento dos profissionais da educação que estão envolvidos no processo e o atendimento que é proporcio- nado a esses alunos. Com o objetivo de desenvolver habilidades dos alunos no processo da adaptação curricular e ainda estimular a produção de conhecimento dos mais diversos níveis, o autor elaborou três tipos de enriquecimento. O Enriquecimento Tipo I tem como característica a aplicação do enriquecimento curricular em sala de aula do ensino comum e regu- lar, tendo como público-alvo todos os alunos da escola, não somente os alunos com AH/SD ou ainda com inteligência acima da média. Esse procedimento conta com três objetivos: • Oportunizar a todos os alunos uma experiência de enriquecimento cur- ricular, não somente para quem tem uma inteligência acima da média, mas para todos os alunos, de modo que possam experimentar ativida- des diferenciadas e ricas para o desenvolvimento cognitivo. • Promover um enriquecimento curricular por meio de experiências inco- muns e diferentes, sobressaindo em variadas vivências uma diferencia- ção do currículo escolar. (Continua) Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 91 • Estimular os diversos interesses dos alunos e incentivá-los a um apro- fundamento dos conhecimentos gerais em atividades criativas e produti- vas, englobando tanto a teoria quanto a prática do conhecimento. Quando planejamos um conteúdo a ser trabalhado, é preciso levar em consideração os seguintes parâmetros: Conhecer nosso público-alvo: alguns alunos têm interesses diferencia- dos e maior necessidade de aprofundamento, pois são curiosos. Dominar o tema a ser trabalhado: o tema é apenas o início, o enriqueci- mento se amplia para mais temas e desperta a curiosidade para outros temas. Detalhar o conteúdo: o conteúdo – assim como o tema – não tem li- mites para suprir a necessidade de conhecimento do aluno, nesse caso fica evidente que qualquer aluno pode ter curiosidade. Definir quais habilidades queremos desenvolver nos alunos: as ha- bilidades a serem desenvolvidas nesse processo de enriquecimento são envolvimento, paciência, foco, atenção e concentração, planeja- mento e persistência. Estabelecer o objetivo a ser alcançado: além do objetivo a ser alcan- çado com o conteúdo programático, é preciso definir o objetivo de en- riquecimento, com o aprofundamento dos conteúdos e das habilidades a serem trabalhadas. Estipular a duração da aula: a aula pode ter a mesma duração ou se estender de acordo com a necessidade e a disponibilidade do professor e da escola. Selecionar os recursos didáticos: para suprir a necessidade do enri- quecimento, o ideal é que se amplie o uso de recursos didáticos, com informações provenientes de tecnologias, livros, materiais extras e re- cursos humanos, como palestras e informações adicionais. Definir a metodologia a ser utilizada: normalmente quando temos mais materiais e recursos empregados para o enriquecimento curricular dificilmente conseguimos utilizar a metodologia de aula expositiva, pois existe um envolvimento maior dos alunos. Assim, com a adoção de uma aula mais dinâmica, perde-se o espaço da aula tradicional expositiva. Escolher a maneira mais conveniente de fazer o processo avaliativo: a avaliação dentro do processo de enriquecimento pode ser qualitativa, que valoriza o processo todo de enriquecimento, em vez da quantitativa, que valoriza somente o conteúdo trabalhado. 92 Altas habilidades ou superdotação O Enriquecimento Tipo II é mais aprofundado que o primeiro, poden- do ser aplicado no Ensino Regular, contando com os seguintes objetivos: • Desenvolver nos alunos o pensamento crítico, aumentando a sua capaci- dade de resolver problemas e fomentando o pensamento criativo. • Desenvolver os processos afetivos, sociais e morais. • Desenvolver habilidades específicas para a execução das atividades. • Desenvolver habilidades mais avançadas para produção de resumos, ca- tálogos, registros, guias, programas de computador, entre outros. • Desenvolver as habilidades de comunicação escrita, oral e visual. Considerando esses objetivos, o seguinte questionamento surge: como podemos desenvolver o Enriquecimento Tipo II de maneira prática? De modo geral, o principal caminho para o sucesso desse enriquecimento é expandir oportunidades, recursos e apoio para que a aprendizagem seja in- teressante e prazerosa, desenvolvendo habilidades de pensamento crítico e criando em um ambiente que valorize e pratique o processo investigativo. Para desenvolver os cinco objetivos é preciso, sobretudo, planejar as atividades nas quais o professor tenha a intenção de desenvolver o pen- samento crítico e a capacidade de resolução de problemas. É necessário considerar hipóteses e explicações como opções de abordagem e desen- volvimento de um trabalho focado na produção e interpretação de argu- mentos, orientando a busca de informações e conceitos para que se possa transformar as informações em um conhecimento significativo e eficiente. Outra opção é criar uma proposta de trabalho na qual há a aplicação do conhecimento adquirido anteriormente e utilizar estratégias focadas na solução criativa de problemas, propiciando ascensão de novas ideias voltadas ao desenvolvimento de processos afetivos, sociais e morais. Uma ideia prática para a execução dos objetivos do Tipo II é trabalhar em um projeto em que estejam envolvidas capacidades de fomentar habilida- des com planejamento e busca de informações, com o objetivo de utilizá-las em benefício da comunidade local ou da escola. Ao executar esses projetos, habilidades como paciência, empenho, envolvimento e planejamento são desenvolvidas, bem como aprimoramento da capacidade de trabalho em grupo, relacionamento e aceitação, entre outras habilidades sociais. Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 93 Os enriquecimentos do Tipo I e II são facilmente trabalhados com to- dos, não necessariamente com foco em alunos com AH/SD, mas em todos que queiram aprender e estejam envolvidos com o processo de apren- dizagem. Em contrapartida, professores engajados, envolvidos e que se sentem atraídos por novidades e desafios no processo de ensino tam- bém estão aptos a participar de atividades diferenciadas e envolvidas. Reunindo alunos e professores envolvidos nesse processo de ensino e aprendizagem fomentamos o caminho para formar cidadãos igualmente envolvidos e atuantes em suas comunidades.Já as atividades do Enriquecimento Tipo III são bem mais específicas e indicadas para os alunos com AH/SD, podendo ser estendidas a outros alunos que manifestem interesse em – por meio desses projetos – apro- fundar seu conhecimento em uma área específica. Normalmente, um tipo de enriquecimento curricular é composto de projetos executados fora da sala de aula regular, comumente realizados em um momento es- pecífico e com planejamento e lugares singulares apropriados para isso. Têm como meta o aprimoramento das capacidades focadas em interes- ses mais aprofundados, bem como uma abordagem mais personalista, levando em consideração os diversos estilos de aprendizagem inerentes a cada indivíduo. Os alunos recebidos nesses programas necessitam de- dicar parte do seu tempo à aquisição e ao aprimoramento de conteúdos mais avançados. Em algumas situações, os projetos iniciam-se no Tipo I, continuam no Tipo II e se aperfeiçoam no Tipo III. Qualquer que seja o tipo de enriquecimento, o professor ou mediador tem uma função extremamente importante – especialmente nos projetos que compõe a abordagem de Tipo III – contando com atribuições específi- cas e devendo atuar para orientar o aluno a localizar, compreender e utilizar recursos metodológicos. O enriquecimento do Tipo III tem como objetivos: • Aplicar seus interesses, conhecimentos, ideias criativas em uma área de estudo da sua escolha. • Adquirir um conhecimento aprofundado do conteúdo específico. • Desenvolver produtos inéditos, bem como habilidades de planejamento, or- ganização, administração de tempo, tomada de decisões e autoavaliação. • Desenvolver o envolvimento com a tarefa e a autoconfiança. 94 Altas habilidades ou superdotação Uma das finalidades do Enriquecimento Tipo III é a aprendizagem significativa, pois esse tipo de aprendizagem é significativamente mais prazeroso, tendo em vista o conteúdo ou conhecimento escolhi- do como meta de estudo, que visa aumentar as habilidades de pen- samento e focar os métodos de investigação para a resolução de um problema real e atual. Deve então dar atenção às oportunidades de personalização da escolha do aluno na seleção do problema, à relevância do problema para os indivíduos ou grupos e às estratégias para ajudar os alunos a personalizar os problemas que estes po- derão escolher para estudar. Pode ser utilizado algum tipo de instrução formal no Enriquecimento do Tipo III, mas a princi- pal meta desta abordagem é melhorar o desenvolvimento de estratégias investigativas pelos alunos e o seu gosto por elas. (RENZULLI, 2004, p. 100) Renzulli (2004) ainda ressalta que a efetividade da aprendizagem aumenta quando os alunos estão de fato fazendo o que lhes é ensi- nado, logo as experiências do Enriquecimento Tipo III devem levar em consideração – na elaboração e avaliação – tanto a experiência do aluno quanto as metas de crescimento cognitivo. Isso porque, ainda segundo o autor, a meta final – tanto das características-chave subjacentes quanto do Enriquecimento Tipo III – é substituir a dependência e a aprendizagem passiva por uma independência e aprendizagem mais engajada. Com isso podemos concluir que oferecer experiências desafiadoras de aprendizagem para os alunos com AH/SD amplia as oportunidades para o desenvolvimento de mentes brilhantes que, desafiadas com alto nível cognitivo, atendem às necessidades individuais dos alunos com AH/SD, propiciando a eles que tenham seu talento destacado e possam aprimorar cada vez mais o seu potencial. 5.3.1 Enriquecimento teórico na legislação Depois de abordar enriquecimento teórico especializado para a área das AH/SD, vamos compreender como a Secretaria de Educação Especial refere-se ao tema e orienta-o. No geral, os programas de enri- quecimento consistem na oferta de experiências variadas de estimula- ção, objetivando maior desenvolvimento das habilidades e do interesse dos alunos com AH/SD (BRASIL, 1995). Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 95 Temos três alternativas propostas nesse tipo de atendimento: 1. Na própria sala de aula, com a utilização de técnicas de trabalho diversificado aplicado pelo professor de turma, orientado por um professor especialista, itinerante ou não. 2. Em grupos especiais submetidos a um programa de enriquecimento paralelo ao das atividades comuns, atendidos por um professor especialista ou pelo próprio professor de turma, orientado por especialista. 3. Em grupos especiais com programa diferente – em alguns aspectos – ao da turma que frequentam, realizado por um professor especialista, na área em foco (BRASIL, 1995). Os programas de enriquecimento têm por objetivo aumentar e aprofundar os conhecimentos e despertar o interesse do aluno. Para isso podemos nos utilizar das chamadas atividades de enriquecimento, compostas de atividades suplementares, aprofundamento em deter- minadas matérias e realização de atividades em laboratório. Também é possível realizar o ensino em equipes de pequenos grupos, com temas referentes a diversas áreas, conferências e demonstrações práticas de conteúdo, atividades feitas em conjunto com profissionais da área e treino em situações de liderança (BRASIL, 1995). CONSIDERAÇÕES FINAIS Destacamos neste capítulo o tema do enriquecimento curricular, em especial focado na necessidade de mediação dos professores para o ofe- recimento de conteúdos que vão além dos disponíveis no currículo tra- dicional. Enfatizamos como esse enriquecimento pode contribuir com o desenvolvimento de habilidades diversas em diversos perfis de alunos. O enriquecimento curricular consiste em uma série de atividades e abordagens projetadas e planejadas para ampliar nos alunos – com ou sem AH/SD – oportunidades de aprendizado focadas na resolução de proble- mas e na superação de situações desafiadoras. O objetivo é oferecer aos estudantes a chance de explorar áreas de interesse diversas, estimular o desenvolvimento de habilidades específicas e fomentar a sua criatividade. Para que esse processo tenha sucesso é comumente utilizada a teoria de Vygotsky, a ZPD, no contexto do enriquecimento curricular. Ela se refere à diferença entre o nível de desenvolvimento atual de um aluno e o potencial de desenvolvimento que ele pode alcançar ao dis- por de apoio e orientação adequados. 96 Altas habilidades ou superdotação É importante ressaltar que o enriquecimento curricular deve ser em- pregado de modo concomitante ao currículo regular, sendo encarado como um bônus, não como um substituto. Ao empregá-lo, os professores e as instituições de ensino conseguem promover um maior engajamento dos alunos no processo de aprendizagem, bem como colaborar com o de- senvolvimento de suas habilidades socioemocionais, do seu pensamento crítico e da sua capacidade de lidar com temas complexos com resiliência, paciência e trabalho colaborativo, quaisquer que sejam os perfis dos alu- nos atingidos por esse enriquecimento. É papel da escola e dos profissionais da educação oferecer ao alu- no um ambiente educacional desafiador e profícuo para o despertar da criatividade e curiosidade e capaz de oferecer respostas adequadas aos diversos estágios de desenvolvimento de cada aluno. Assim, a ZDP de Vygotsky, quando adequadamente empregada, possibilita a compreensão e o estabelecimento de padrões de abordagem individualizados, propor- cionando um melhor aproveitamento, envolvimento e inclusão de todos os alunos no processo de aprendizagem. ATIVIDADES Atividade 1 Quais são os principais tipos de enriquecimento curricular? Atividade 2 Qual a importância da ZDP de Vygotsky no contexto do enriqueci- mento curricular? Atividade 3 Como o enriquecimento curricular pode contribuir para um me- lhor desenvolvimento dos alunos independentemente de serem alunos com AH/SD? Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 97 REFERÊNCIAS BLOOM, B. S.; HASTINGS, J. T.; MADAUS, G. F. Manual de avaliação formativa e somativa do aprendizado escolar. Rio de Janeiro:Biblioteca Pioneira de Ciências Sociais, 1983. BRASIL. Conferência Nacional da Educação Básica: documento final. Brasília, DF: Ministério da Educação; Secretaria Executiva Adjunta; Comissão Organizadora da Conferência Nacional da Educação Básica, 2008a. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/ conferencia/documentos/doc_final.pdf. Acesso em: 22 jun. 2023. BRASIL. Decreto n. 6.571, de 17 de setembro de 2008. Diário Oficial da União, Poder Executivo, 18 set. 2008b. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/ decret/2008/decreto-6571-17-setembro-2008-580775-publicacaooriginal-103645-pe.html. Acesso em: 22 jun. 2023. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CP 2022. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2022. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index. php?option=com_docman&view=download&alias=242301-diretriz-altas-habilidades-ou- superdotacao-1&category_slug=novembro-2022-pdf-1&Itemid=30192. Acesso em: 22 jun. 2023. BRASIL. Subsídios para organização e funcionamento de serviços de educação especial: área de altas habilidades. Brasília, DF: Ministério da Educação, 1995. DER VEER, R. V.; VALSINER, J. Vygotsky: uma síntese. 7. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996. RENZULLI, J. S. O que é esta coisa chamada de superdotação, e como a desenvolvemos? Uma retrospectiva de vinte e cinco anos. Educação, v. 52, n. 1, p. 75-131, abr. 2004. RENZULLI, J. S. The three-ring conception of giftedness: a developmental model for promoting creative productivity. In: STERNBERG, R. J.; DAVIDSON, J. E. (org.). Conceptions of Giftedness. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1986. http://portal.mec.gov.br/arquivos/conferencia/documentos/doc_final.pdf http://portal.mec.gov.br/arquivos/conferencia/documentos/doc_final.pdf https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/2008/decreto-6571-17-setembro-2008-580775-publicacaooriginal-103645-pe.html https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/2008/decreto-6571-17-setembro-2008-580775-publicacaooriginal-103645-pe.html http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=242301-diretriz-altas-habilidades-ou-superdotacao-1&category_slug=novembro-2022-pdf-1&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=242301-diretriz-altas-habilidades-ou-superdotacao-1&category_slug=novembro-2022-pdf-1&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=242301-diretriz-altas-habilidades-ou-superdotacao-1&category_slug=novembro-2022-pdf-1&Itemid=30192 Resolução das atividades 1 Conhecendo as altas habilidades ou superdotação 1. Qual é a lei mais importante e atual da educação brasileira que abrange as AH/SD? A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que abrange o Ensino Especial de uma maneira muito mais significativa, garantiu que a educação especial fosse ouvida, respaldada e atendida. É a LDB que fez a diferença e faz até hoje, reconhecendo as necessidades educacionais especiais, o atendimento educacional especializado e a aceleração de estudos para que o aluno com AH/SD possa concluir em menor tempo sua escolaridade básica e superior. 2. Para as pessoas com AH/SD, a repetição do conteúdo escolar é necessária? Devido à sua atividade cerebral intensa, o indivíduo com AH/SD aprende muito rápido – normalmente, logo na primeira explicação do professor –, o que leva a uma desatenção nas explicações sequenciais. Se analisarmos bem, isso acontece com todas as pessoas, pois perdemos o interesse quando as aulas se tornam repetitivas ou os assuntos não nos interessam tanto. O que diferencia uma situação corriqueira do que acontece com alunos com AH/S é que, em geral, esse desinteresse acontece quando o aluno percebe que já aprendeu o conteúdo, fazendo com que ele se disperse das demais explicações ou atrapalhe os demais alunos da turma. 3. Todos os alunos com AH/SD conseguem excelentes notas nas avaliações escolares? Não é uma condição para ter AH/SD, pois as notas não são o instrumento ideal de medir o potencial de um aluno, uma vez que são apenas uma formalidade requerida dos professores e dos alunos. 2 Aspectos biológicos, psicológicos e sociais 1. Por que os alunos com perfil acadêmico são mais facilmente identificados como com altas habilidades ou superdotação? Porque alunos com altas habilidades ou superdotação, de perfil acadêmico, costumam ter traços clássicos de inteligência, como reter 98 Altas habilidades ou superdotação bem o conteúdo apresentado, destacar-se nas discussões e ter notas maiores que a média da sala. 2. O que são sinapses? As sinapses são estruturas que conectam a extremidade de um neurônio à membrana de outro neurônio, permitindo a propagação do impulso nervoso ao longo da rede neuronal. Essas conexões utilizam neurotransmissores, que nada mais são do que substâncias químicas mediadoras que transmitem o impulso nervoso de um neurônio para outro, ou mesmo para uma célula muscular ou glandular. 3. Por que crianças com altas habilidades ou superdotação preferem estabelecer relacionamentos com crianças mais novas, mais velhas ou com adultos, e não com crianças da sua própria faixa etária? Elas escolhem as crianças mais novas, porque sentem a necessidade de orientá-las e protegê-las dos mais velhos, enquanto manifestam preferência por crianças mais velhas ou adultos pela possibilidade de brincar, conversar e discutir abordando questões de forma mais complexa e elaborada. 3 Aspectos cognitivos e emocionais 1. Diferencie os conceitos: esquemas, assimilação e acomodação. Os esquemas são estruturas mentais que se referem à organização do cognitivo, dito de outra forma, é a estrutura cognitiva capaz de reconhecer, assimilar, interpretar e classificar um conhecimento adquirido. A assimilação corresponde à capacidade de um indivíduo de incorporar objetos da cognição à sua estrutura cognitiva. Por fim, a acomodação se refere ao processo de reajustamento que acontece na estrutura, de modo que um novo objeto possa ser incorporado. 2. Destaque alguns aspectos emocionais da pessoa com altas habilidades ou superdotação. Incomplacência à frustração, ansiedade, intolerância às injustiças e um sentimento constante de falta de pertencimento, seja na infância ou na fase adulta. 3. Como algumas das múltiplas inteligências de Gardner se relacionam com as altas habilidades ou superdotação? As múltiplas inteligências de Gardner nos mostram que a inteligência pode se manifestar de formas diversas, destacando em cada indivíduo a capacidade de potencialidades únicas. Resolução das atividades 99 4 Superdotação e escola 1. Quais são os principais desafios enfrentados na implementação de intervenções adequadas para acelerar indivíduos com altas habilidades ou superdotação? Os principais desafios enfrentados na implementação de intervenções adequadas para aceleração de indivíduos com altas habilidades ou superdotação envolvem a identificação precoce dessa necessidade, a orientação e o acompanhamento do processo – tanto no âmbito familiar quanto escolar – e a superação dos estigmas relacionados às altas habilidades ou superdotação. 2. De que forma as famílias podem contribuir para o desenvolvimento pleno de indivíduos com altas habilidades ou superdotação, além do apoio emocional? As famílias são chamadas a contribuir de diversas formas para o desenvolvimento pleno dos indivíduos com AH/SD, oferecendo apoio emocional e um ambiente estimulante e ordenado, a fim de que esses indivíduos possam se sentir livres e seguros para lidar tanto com suas habilidades e talentos quanto com suas frustrações e perdas, em processos que associam que o sucesso e o fracasso dependem também da interação e das relações desenvolvidas não só para o seu benefício individual, mas também da sua atuação em prol de toda a sua comunidade, seja no plano familiar, seja em geral. 3. A aceleração de indivíduos com altas habilidades ou superdotação tem benefícios a longoou somente a curto prazo? A aceleração de indivíduos com altas habilidades ou superdotação traz benefícios a longo prazo, pois proporciona um ambiente de aprendizado desafiador, possibilitando a esses indivíduos o desenvolvimento de características relacionadas a engajamento, autoconfiança e autoconhecimento, fundamentais para que esse indivíduo tenha chances de desenvolver de forma plena o seu máximo potencial. 5 Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 1. Quais são os principais tipos de enriquecimento curricular? Existem três tipos de enriquecimento curricular. O Tipo I tem como característica sua aplicação em sala de aula do ensino comum e regular. Seu público-alvo são todos os alunos da escola, não 100 Altas habilidades ou superdotação somente os com AH/SD ou ainda com inteligência acima da média. É a primeira abordagem, favorecendo a complementação do conteúdo tradicional por meio de atividades criativas e produtivas, de modo a oferecer uma nova abordagem que seja complementar ao previsto no planejamento pedagógico. O Tipo II é muito parecido com o Tipo I, mas consiste em uma abordagem que, embora também possa ser oferecida a todos os alunos, tem como objetivo principal fomentar o desenvolvimento do pensamento crítico por meio da ênfase na resolução de problemas com o uso de argumentos, hipóteses e abordagens mais aprofundados de temas de interesse e conhecimento diverso. O Tipo III é caracterizado por ser formado por projetos normalmente executados fora da sala de aula regular, com um momento específico para essa proposta em lugares apropriados. Tem como meta o aprimoramento das capacidades, interesses mais aprofundados e abordagem nos diversos estilos de aprendizagem de cada indivíduo. Os alunos recebidos nesses programas necessitam dedicar parte do seu tempo na aquisição e no aprimoramento de conteúdos mais avançados. 2. Qual a importância da ZDP de Vygotsky no contexto do enriquecimento curricular? A ZDP de Vygotsky é essencial ao enriquecimento curricular, pois é utilizada como instrumento para compreensão da diferença entre o nível de desenvolvimento atual de um aluno e o potencial que ele deve atingir ao dispor de atenção e apoio adequados. Reconhecer a ZPD de cada aluno é fundamental para individualizar e maximizar os diversos estágios de desenvolvimento, possibilitando um maior sucesso no processo de aprendizagem e no desenvolvimento de conhecimentos e habilidades. 3. Como o enriquecimento curricular pode contribuir para um melhor desenvolvimento dos alunos independentemente de serem alunos com AH/SD? O enriquecimento curricular oferece aos alunos a possibilidade de explorar e desenvolver experiências e conhecimentos além dos previstos no currículo regular, fomentando suas habilidades e sua capacidade de resolver, de maneira criativa e original, problemas diversos de acordo com o seu estágio de desenvolvimento. Permite abordagens mais desafiadoras e abrangentes, estimulando o engajamento, a motivação e o desenvolvimento integral dos alunos para o sucesso do processo de aprendizagem. Resolução das atividades 101 ALTAS HABILIDADES OU MÔNICA CONDESSA FRANKE SUPERDOTAÇÃO ISBN 978-65-5821-320-8 9 786558 213208 M ô nica C o nd e ssa Fra nke A lta s ha b ilid a d es o u sup erd ota çã o Código Logístico I001125de atuar significativamente com os alunos em sala de aula. Conhecendo as altas habilidades ou superdotação 13 1.1.1 Contexto brasileiro Em nosso país, os estudos sobre as pessoas com AH/SD iniciaram em 1929, com a chegada da educadora russa Helena Antipoff – es- pecialista e pioneira na área da educação especial –, que iniciou a produção literária envolvendo as altas habilidades ou superdotação depois de ter contato com pesquisas sobre a inteligência na Suíça e na França (ANTIPOFF, 1992). Durante as décadas de 1930 e 1940, inúmeras pesquisas e estudos chamaram atenção sobre a necessidade de uma identificação precoce de indivíduos com AH/SD, foi então que Antipoff criou o termo bem- -dotado – classificação escolhida na época para se referir a esses indi- víduos – e impulsionou o desenvolvimento de atividades educacionais dedicadas especialmente para o atendimento de alunos que se desta- cavam por alguma habilidade ou pelos talentos. Era na sede do Instituto Pestalozzi, em 1945, que a especialista russa reunia pequenos grupos de alunos com um potencial superior para aprofundamento dos conhecimentos por meio de pesquisas, abordando áreas como literatura, teatro e música, processo que con- tinuou até a década de 1960, em Minas Gerais. Em 1973, já seguido da promulgação da lei que contemplava e orien- tava o chamado tratamento especial, foi criado – vinculado ao Ministério da Educação – o Centro Nacional de Educação Especial (Cenesp). O ór- gão tinha o objetivo de incentivar, impulsionar e orientar ações educa- cionais voltadas às pessoas com deficiência e às pessoas com AH/SD, promovendo e patrocinando encontros e seminários com o intuito de reunir ideias e experiências que abrangessem a identificação, o diag- nóstico e atendimento aos alunos com AH/SD (NOVAES, 1979). Esses avanços foram importantes, mas ainda não eram ideais, pois as políticas públicas destinadas a esses indivíduos não eram comple- tamente formuladas dentro da temática da educação de alunos com deficiência e com AH/SD, eram apenas “políticas especiais”, e ainda não se discutia um atendimento especializado que considerasse as indivi- dualidades da aprendizagem desses alunos (BRASIL, 2008). Em 1978, é fundada a Associação Brasileira para Superdotados (ABSD) – já com seis seccionais estaduais, além da sede nacional no Rio de Janeiro – com o intuito de fazer um atendimento especializado, seguido de orien- 14 Altas habilidades ou superdotação tações e encaminhamentos. Avançando mais rapidamente no tempo, em 2001, é aprovada a Lei n. 10.172, que abrange também as AH/SD no Plano Nacional de Educação (PNE), e em 2003, é fundado o Conselho Brasileiro para Superdotação (ConBraSD), que substitui a antiga ABSD. Em 2005, a Secretaria de Educação Especial (SEESP) – em parceria com a Unesco e com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – implantou os chamados Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH- /S), centros de referência para o atendimento educacional especializado aos alunos com AH/SD e que, por meio de políticas públicas, têm por obje- tivo o incentivo e a identificação dos talentos, estimulando a criatividade e aprimorando o desenvolvimento do potencial dos seus alunos. 1.2 Características e mitos Vídeo Você conhece as características das pessoas com altas habilidades ou superdotação? Será que alguém próximo de nós tem algumas des- sas características? E se nós nos identificarmos com elas? E quanto aos mitos, será que nós ainda os confundimos com a realidade? Tratando especificamente das características das pessoas com AH/ SD, falaremos a seguir das quinze principais ligadas a traços de perso- nalidade e hábitos desses indivíduos. Entretanto, é importante notar que nem todas as pessoas com altas habilidades ou superdotação têm exatamente todas essas características, pois elas podem se apresentar isoladas ou combinadas. Apresentam extenso e rico vocabulário Cube29/Shutterstock Para aqueles que convivem diariamente com esses indivíduos, é perceptível que eles têm um vocabulário muito vasto e complexo, e até mesmo quando estão em idade escolar, têm facilidade em se apropriar de palavras não usuais do seu cotidiano e as utilizarem de forma correta sem muita dificuldade. Outro aspecto notável é a ca- pacidade de elaborar seus pensamentos de maneira muito refinada, o que faz com que uma criança com AH/SD se destaque das demais em seu convívio. Conhecendo as altas habilidades ou superdotação 15 Gostam de fazer perguntas Vadim Sazhniev/Shutterstock Por serem extremamente curiosos, esses indivíduos elaboram inú- meras perguntas que não são comuns à sua idade, mas não aceitam respostas simples e rasas, pois têm um grande poder de argumenta- ção e tendem a questionar as respostas que não os agradam. É muito comum que pais de crianças com altas habilidades ou superdotação comentem que a chamada fase dos porquês é infinita, pois seus filhos questionam a tudo e todos, muitas vezes com a intenção de “testar” os conhecimentos dos adultos que os cercam. Devido a esse excesso de questionamentos, muitos pais e professo- res se sentem desconfortáveis por saberem menos que a criança, mas, nessas situações, o mais apropriado é reconhecer que não dominam e nem são obrigados a saber, e com humildade e paciência, auxiliar as crianças na busca dessa informação. Necessitam de pouca repetição do conteúdo escolar Cube29/Shutterstock Devido à sua atividade cerebral intensa, o indivíduo com AH/SD aprende muito rápido, normalmente na primeira explicação do profes- sor, o que leva a uma desatenção nas explicações sequenciais. Entre- tanto, se analisarmos bem, isso acontece com todas as pessoas, elas perdem o interesse quando as aulas se tornam repetitivas ou os assun- tos não lhes interessam, mas o que diferencia uma situação corriquei- ra dos alunos com altas habilidades ou superdotação é que, em geral, esse desinteresse acontece quando o aluno percebe que já aprendeu o conteúdo e considera que nada mais irá agregar em seu conhecimento sobre o assunto, fazendo com que ele se disperse da aula, ou até mes- mo atrapalhe os demais colegas. Apresentam longos ou curtos períodos de concentração Cube29/Shutterstock Atenção é diferente de concentração. O aluno com AH/SD pode apresentar uma excelente atenção sem estar concentrado no que o professor está explicando. Esses alunos tendem a ter uma concentra- 16 Altas habilidades ou superdotação ção seletiva e focam somente no que lhes interessa, ou apenas apa- rentam estar atentos com o conteúdo, o que confunde a percepção do professor. Isso acontece devido à seletividade e à intensidade de interesses; quando esses indivíduos têm interesse no assunto apresen- tado, despendem longos períodos de concentração, mas quando não têm, permanecem atentos por um curtíssimo tempo. Têm boa memória Cube29/Shutterstock Essa característica, assim como a anterior, também é seletiva, pois pes- soas com altas habilidades ou superdotação tendem a lembrar somente do que é de seu interesse, por exemplo: se, quando criança ou adolescen- te, não tiverem interesse em escovar os dentes e tomar banho, eles não irão se lembrar. Essa é uma máxima verídica, pois muitos pais associam a inteligência acima da média de seus filhos à facilidade em lembrar de fazer essas atividades cotidianas e repetitivas, fazendo com que seja comum os pais exclamarem a seguinte frase: “Ele é tão inteligente, mas todo dia eu preciso lembrá-lo de escovar os dentes”. Já na escola, crianças com AH/SD lembram de fatos que lhes desper- taram interesse e curiosidade, e normalmente são fatos curiosos, dife- rentes, não usuais e que, por vezes, causam estranheza nos demais. São perseverantes Cube29/Shutterstock Uma característica muito interessante é a perseverança, isso porque os indivíduos com AH/SD persistem em algo que acreditam e conse- guem, de maneira sensata e utilizando argumentos plausíveis, insistindo no que querem. No entanto, esses indivíduosos gênios são os grandes realizadores da humanidade, cujo conhecimento e capacidades nos parecem sem limite; são pessoas incri- velmente excepcionais e únicas. Porém, são raras as pessoas que atingem patamares excepcionais, entre os quais estão Leonardo da Vinci, Gandhi, Heitor Villa-Lobos, Stephen Hawking e Edson Arantes do Nascimento (Pelé), cada um em seus campos específicos de conhecimento. O segundo mito é um dos mais comuns e está associado ao fato de as pessoas acreditarem que aqueles com AH/SD não precisam de nada, pois já nasceram prontas e sabem de tudo. Isso, obviamente, não é verdade, todos necessitam de ajuda em seu desenvolvimento, sendo que para os indivíduos com AH/SD, a família tem um papel gigantesco de formação, educação, orientação do potencial e emocional, com a Você sabe citar mais alguns gênios e dizer em que áreas eles se destacaram? Desafio Conhecendo as altas habilidades ou superdotação 21 escola atuando na formação acadêmica, atendendo às necessidades dos alunos para o amplo desenvolvimento. O terceiro mito, por sua vez, também está relacionado à inteligên- cia, pois muitos acreditam que simplesmente ter excelentes notas é um critério determinante para diagnosticar alguém com AH/SD. Isso também não é verdade, pois, por vezes, as notas não estão associadas ao real potencial de um aluno, e como muitos professores já sabem, avaliações e provas nem sempre são a melhor forma de mensurar o conhecimento de um aluno na matéria. O quarto mito está associado à identificação das pessoas com al- tas habilidades ou superdotação, pois muitos acreditam que, devido ao seu grande potencial de inteligência, essas pessoas não precisam ser identificadas ou receberem uma atenção maior. Essa identifica- ção é um dos requisitos mais importantes para o pleno desenvolvi- mento desses indivíduos, pois só assim poderemos fazer o trabalho de autoconhecimento, imprescindível no processo de desenvolvi- mento, atendimento e intervenção. Sem uma identificação, nós não os reconheceríamos e não teríamos políticas públicas voltadas para essa realidade. Por fim, o quinto e último mito trata da questão da mensuração da inteligência dos indivíduos com AH/SD, já que muitos acreditam que somente o QI alto é uma característica comum das pessoas diagnos- ticadas. É preciso enfatizar que não podemos utilizar somente testes formais para afirmar que uma pessoa tem AH/SD, até porque os cha- mados testes de QI dão importância maior para somente dois tipos de inteligência – lógico-matemática e linguística-verbal –, enquanto é de conhecimento comum que existem vários tipos de inteligência, como a corporal-cinestésica, a musical, a intrapessoal e a interpessoal, natura- lista e visuoespacial. 1.3 Legislação Vídeo Sobre os aspectos legislativos ligados às pessoas com altas habilida- des ou superdotação no Brasil, o trabalho de Helena Antipoff e de sua equipe – com suas pesquisas e atuação em defesa dos alunos com inte- ligência acima da média – foi o pontapé inicial para as políticas públicas brasileiras. Toda essa dedicação gerou frutos, e em 1961 – com a pro- 22 Altas habilidades ou superdotação mulgação da Lei n. 4.024 –, as AH/SD foram contempladas na legislação pela primeira vez, ainda sob a alcunha de educação para excepcionais, que era o termo utilizado na época para se referir a esse público. De modo geral, a lei instituía que a educação para esse público deveria ser integrada ao sistema de educação básico, para integrá-los na comu- nidade escolar. Além disso, também foi incentivada a participação da iniciativa privada, decretando que “tôda iniciativa privada considerada eficiente pelos conselhos estaduais de educação, e relativa à educação de excepcionais, receberá dos poderes públicos tratamento especial mediante bôlsas de estudo, empréstimos e subvenções” (BRASIL, 1961). Dez anos mais tarde, em 1971, foi decretada a Lei n. 5.692, que instituiu a Reforma do 1º e do 2º graus no ensino básico do Brasil. Essa reforma também cobria as pessoas com altas habilidades ou superdotação – já chamados de superdotados na época – e com deficiência, determinando que esse público deveria receber um tratamento especial conforme o que foi acordado nos conselhos de educação de cada estado (BRASIL, 1971). Anos mais tarde, em 1986, foi promulgada a portaria CENESP/MEC n. 69/1986 da Educação Especial, que definiu normas para o atendimen- to educacional especializado para diferentes especificidades e o apoio fi- nanceiro à Educação Especial nos sistemas de ensino público e particular (MARINS, 2009). A Política Nacional de Educação Especial de 1994 apre- sentou pela primeira vez o conceito de altas habilidades ou superdotação, e logo após a sua publicação, o Brasil se tornou signatário da Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994), que incluía os alunos superdotados entre o público a ser beneficiado pelas políticas públicas da educação inclusiva. Finalmente, em 1996, com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), a Educação Especial foi contemplada de modo muito mais significativo. A LDB garantiu que a Educação Especial fosse ou- vida, respaldada e atendida, de modo a fazer a diferença e até hoje reco- nhece as necessidades educacionais especiais, o atendimento educacional especializado e a aceleração de estudos para que o aluno com AH/SD possa concluir em menor tempo sua escolaridade básica e superior. Com a promulgação da LDB, e com suas atualizações em 2013, 2015 e 2018, inicia-se um novo ciclo muito mais completo. Essa nova legisla- ção tem um capítulo inteiramente dedicado à Educação Especial, respal- dando não somente indivíduos com altas habilidades ou superdotação, como também educandos com deficiências ou com transtorno do es- Conhecendo as altas habilidades ou superdotação 23 pectro autista, assegurando – quando necessário – serviços de apoio especializado na escola regular para atender às particularidades desse grupo de Educação Especial. O primeiro artigo do quinto capítulo da LDB, que trata justamente da Educação Especial, também deixa claro qual o objetivo desse atendimento educacional e sua condição especí- fica, informando que os serviços especializados podem ser feitos em classes ou escolas, iniciando na Educação Infantil e continuando ao lon- go do processo educacional do indivíduo (BRASIL, 1996). O artigo seguinte da LDB define que os mesmos educandos citados anteriormente têm direito a currículos, métodos, técnicas e recursos educativos que atendam às suas necessidades. Eles ainda têm o direito à terminalidade específica, ou seja, podem acelerar seus estudos com a finalidade de concluir em menor tempo o programa escolar. O artigo ainda afirma que os professores deverão ser capacitados para contem- plar as necessidades específicas desses alunos. A lei também ressalta a necessidade do cadastro nacional dos alunos com altas habilidades ou superdotação com o objetivo de fomentar a execução de políticas públicas. Para finalizar, a LDB ressalta que o poder público adotará a ampliação do atendimento aos educandos na própria rede pública re- gular de ensino (BRASIL, 1996). Em 2011, o Decreto n. 7.611, que dispõe sobre a Educação Especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências, as- segurou que é dever do Estado a garantia de um sistema educacional inclusivo em todos os níveis, do aprendizado ao longo de toda a vida, das adaptações razoáveis de acordo com as necessidades individuais, e do apoio necessário, com o objetivo de uma educação eficiente. Ainda ressaltou a necessidade do apoio especializado, caso seja necessária a suplementação à formação dos alunos, em comum acordo com as políticas públicas (BRASIL, 2011). Ainda conforme o decreto (BRASIL, 2011), o Estado deverá prestar apoio técnico e financeiro aos sistemas públicos de ensino dos estados, municípios e Distrito Federal, e às instituições comunitárias, confessionais ou filantrópicas sem fins lucrativos, coma finalidade de ampliar a oferta do atendimento educacional especializado aos estudantes com altas habi- lidades ou superdotação, matriculados na rede pública de Ensino Regular, caso seja necessário o apoio técnico e financeiro, com implantação de sa- las de recursos multifuncionais ao atendimento educacional especializado. O filme Um laço de amor traz a história de Mary, uma menina muito inteligente, e de seu tio Frank, que a cria sozinha. As habilidades matemá- ticas de Mary começam a fazer com que ela se destaque na escola, o que desperta a atenção de sua avó Evelyn, que planeja separá-la do tio. Direção: Mar Webb. Reino Unido: Dayday films, 2017. Filme 24 Altas habilidades ou superdotação Em 2022, o Parecer CNE/CP n. 2022, do Conselho Nacional de Educação, traz uma diretriz específica para o atendimento de estudantes com altas habilidades ou superdotação, no intuito de informar profissionais e fami- liares no processo de identificação, reconhecimento, atendimento, além de questões referentes às peculiaridades e políticas públicas referentes aos indivíduos com altas habilidades ou superdotação. Segundo o Parecer (MEC, 2022), os estudantes com altas habilidades ou superdotação têm o direito de ser reconhecidos visando à orientação para as políticas públicas que garantem a provisão de educação especializada de acordo com suas características e interesses individuais. Esses alunos também têm direito a ter professores com formação acadêmica inicial e contínua apropriada, capacitados para oferecer uma educação diferenciada. CONSIDERAÇÕES FINAIS Esperamos que este capítulo tenha despertado ainda mais a curiosi- dade em conhecer com profundidade essa área das altas habilidades ou superdotação. Esse é apenas o início da jornada, já que conhecer as ca- racterísticas, distinguir os mitos da realidade e se apropriar da legislação irá deixá-los mais próximos e mais envolvidos com os temas de que trata- remos em nossa obra. Mas, não vamos parar por aqui, é importante con- tinuarmos, pois temos muito mais para aprender e se encantar com esse tema que fascina cada vez mais quem o estuda. ATIVIDADES Atividade 1 Qual é a lei mais importante e atual da educação brasileira que abrange as AH/SD? Atividade 2 Para as pessoas com AH/SD, a repetição do conteúdo escolar é necessária? Conhecendo as altas habilidades ou superdotação 25 Atividade 3 Todos os alunos com AH/SD conseguem excelentes notas nas avaliações escolares? REFERÊNCIAS ALENCAR, E. S. Criatividade e educação de superdotados. Petrópolis: Vozes, 2001. ANTIPOFF, H. A educação do bem-dotado. Rio de Janeiro: SENAI/DN/DPEA, 1992. BRASIL. Decreto n. 7.611, de 17 de novembro de 2011. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 18 nov. 2011. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm. Acesso em: 16 maio 2023. BRASIL. Lei n. 4.024, de 20 de dezembro de 1961. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 27 dez. 1961. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ L4024compilado.htm. Acesso em: 25 abr. 2023. BRASIL. Lei n. 5.692, de 11 de agosto de 1971. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 12 ago. 1971. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5692. htm. Acesso em: 25 abr. 2023. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394. htm. Acesso em: 25 abr. 2023. BRASIL. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2008. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ politicaeducespecial.pdf. Acesso em: 16 maio 2023. DURANT, W. A história da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 2000. GAMA, M. C. S. S. Educação de superdotados: teoria e prática. São Paulo: E.P.U, 2006. MARINS, A. Federação Nacional das Apaes. Brasília, DF: CONADE, 2009. MEC – Ministério da Educação. Parecer CNE/CP 2022. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2022. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&vie w=download&alias=242301-diretriz-altas-habilidades-ou-superdotacao-1&category_ slug=novembro-2022-pdf-1&Itemid=30192. Acesso em: 29 jun. 2023. NOVAES, M. H. Desenvolvimento psicológico do superdotado. São Paulo: Atlas, 1979. OLIVEIRA, E. P. L. Alunos superdotados: a aceleração escolar como resposta educativa. 2007. Tese (Doutorado em Psicologia) – Especialização em Psicologia da Educação, Universidade do Minho, Braga, Portugal. SILVA, F. B. Autonomia e racionalidade: os fundamentos da filosofia e do pensamento pedagógico de Condorcet (1743-1794). 2008. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo. UNESCO. Declaração de Salamanca: sobre princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas especiais, 1994. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/ arquivos/pdf/salamanca.pdf. Acesso em: 16 maio 2023. VIRGOLIM, A. M. R. Altas habilidades/superdotação: encorajando potenciais. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2007. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/ pdf/altashab1.pdf. 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Vamos iniciar com o reconhecimento e a compreensão dos níveis e perfis das pessoas que se encaixam nesse grupo. Na sequência, vamos mostrar a você o que acontece no cérebro das pessoas com AH/SD, entendendo o modo como eles aprendem nos aspectos biológicos e psicológicos que influenciam no processo de aprendizagem e nas relações com as demais pessoas. Por fim, vamos reconhecer juntos as peculiaridades desses indiví- duos e saber como podemos auxiliá-los em seu desenvolvimento so- cial e cognitivo. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • entender os níveis das altas habilidades ou superdotação; • distinguir e compreender os aspectos biológicos e psicológicos das altas habilidades ou superdotação; • identificar as características sociais dos indivíduos com altas habi- lidades ou superdotação. Objetivos de aprendizagem 2.1 Escala de identificação Vídeo Os processos de identificação e de aprendizagem de uma pessoa, com altas habilidades ou superdotação envolvem características e mi- tos associados a essa identificação, o que atrai a atenção de muitos teóricos da área, que realizam diversos estudos visando respaldar o Aspectosbiológicos, psicológicos e sociais 27 reconhecimento desse perfil de pessoa. Dentre os teóricos, o ameri- cano Joseph Renzulli é um dos que mais se destaca, justamente devi- do aos seus estudos e trabalhos que contribuíram para a identificação mais completa das AH/SD, trazendo um olhar qualitativo aos diagnós- ticos. Além disso, os estudos de Renzulli tornaram-se referência nessa área por serem os pioneiros em indicar a identificação dos quadros de altas habilidades ou superdotação sem a supervalorização do quo- ciente de inteligência (QI). Renzulli não apenas criou conceitos teóricos, mas também os aplicou e idealizou instrumentos, procedimentos, estratégias de desenvolvimen- to de equipe e materiais instrucionais, aperfeiçoando-os frequentemen- te. Entre os conceitos mais importantes desenvolvidos pelo psicólogo americano está a distinção entre os perfis dos alunos com altas habili- dades ou superdotação: o perfil acadêmico e o perfil produtivo-criativo. O perfil acadêmico é aquele aluno que é mais facilmente reconhe- cido na escola, pois normalmente apresenta excelentes notas, aprende com facilidade os conteúdos, têm vocabulário mais complexo que os colegas da turma e não somente responde rápido às perguntas, mas também cria questionamentos excepcionais sobre o conteúdo. Uma outra característica marcante do aluno com esse tipo de perfil é o de sentir prazer em aprender, apresentando longos períodos de concen- tração, e adorar ler (RENZULLI, 2004). O perfil produtivo-criativo diz respeito àquele aluno que, como o próprio nome diz, é caracterizado por ser altamente criativo e produ- tivo, mas que não necessariamente se sobressai na escola com altas notas. É comum pessoas desse perfil com AH/SD terem uma facilida- de maior em outras áreas de conhecimento que não a lógico-mate- mática e a linguística-verbal – que são as mais valorizadas no sistema de ensino atual –, característica essa que é associada a muitos artis- tas, cientistas, escritores, inventores e diversos outros profissionais que atuam em áreas não tão convencionais. Outras características associadas a pessoas com esse perfil são o QI superior, o fato de não gostarem de rotinas, de gostarem de fantasiar e utilizar bastante a imaginação, terem senso de humor aguçado e serem muito sensíveis e detalhistas. 28 Altas habilidades ou superdotação Na Figura 1, é possível vermos um resumo das características dos dois perfis. Figura 1 Perfis de pessoas com AH/SD • Apresenta boas notas na escola, grande vocabulário e excelente raciocínio verbal e/ou numérico. • Gosta de fazer perguntas. • Necessita de pouca repetição do conteúdo escolar e aprende com rapidez. • Apresenta longos períodos de concentração. • Tem boa memória e é um consumidor de conhecimento. • É perseverante. • Lê por prazer e gosta de livros técnicos/ profissionais. • Tende a gostar do ambiente escolar. • Demonstra perseverança nas atividades motivadoras a ele. • Apresenta grande necessidade de estimulação mental. • Tem paixão por aprender. • Não necessariamente apresenta QI superior ou muito superior. • Pensa por analogias, é criativo e original. • Usa o humor e a ironia. • Demonstra diversidade de interesses. • Gosta de fantasiar. • Gosta de brincar com as ideias. • É inventivo e constrói novas estruturas. • É sensível a detalhes. • Procura novas formas de fazer as coisas. • Não gosta da rotina. AcadêmicoProdutivo-criativo Perfil AH/SD Fonte: Elaborada pela autora. Porém, diante dos fatos apresentados e de tantas características di- versas e algumas até contraditórias, como a escola deve proceder para contribuir no desenvolvimento e no potencial desses alunos? Quando o aluno com AH/SD é do perfil acadêmico, fica mais visível para a escola, mas e quando ele é produtivo-criativo? Partindo desse primeiro questionamento referente ao papel da escola, de modo geral, ela irá desenvolver o aluno integralmente, não apenas valorizando conteúdos e as melhores notas, mas estimulando o desenvolvimento do talento criador e da inteligência em todos os seus alunos. A melhor maneira de tornar isso viável é a criação de um currí- culo flexível que estimule todos os alunos que apresentem potenciais acima da média, diversificando alternativas para atender as necessida- des de todos os alunos. Entretanto, Renzulli foi além de questões relacionadas ao currícu- lo e acabou desenvolvendo e detalhando uma teoria que denominou Aspectos biológicos, psicológicos e sociais 29 de ingredientes da superdotação, segundo a qual, resumidamente, as AH/SD são manifestadas por uma tríade de elementos que forma a chamada teoria dos três anéis. Figura 2 Teoria dos três anéis HABILIDADES ACIMA DA MÉDIA COMPROMETIMENTO COM A TAREFA CRIATIVIDADE Fonte: Renzulli, 1986, p. 67. Na Figura 2, é possível vermos representados os três anéis que re- tratam as características das altas habilidades ou superdotação; a in- tersecção entre eles, que representa os comportamentos associados aos indivíduos; e o fundo da imagem, que simboliza a ideia de movi- mento – de algo acontecendo simultaneamente em várias situações –, demostrando que esses comportamentos não estão estagnados, e sim interligados como um grande holograma. Em se tratando das características de maneira mais específica, a ha- bilidade acima da média divide-se em duas: habilidade geral e habili- dade específica. A habilidade geral refere-se ao ato de efetivamente desenvolver e aplicar um novo conhecimento de maneira clara e coerente, processo que se inicia no processamento da informação e ao quão rapidamente isso acontece. Essas novas informações são integradas às experiências já vivenciadas, gerando adaptações às novas situações às quais o indi- víduo será exposto. 30 Altas habilidades ou superdotação A habilidade específica, por sua vez, ocorre de maneira similar à habilidade geral, a diferença é que os conhecimentos ou competên- cias são adquiridos de maneira a se especializar em uma área especí- fica (RENZULLI, 2002). Essas habilidades específicas são encontradas mais facilmente em pessoas com perfil acadêmico aguçado, pois se destacam academicamente por desenvolver essa habilidade com muita velocidade. O outro anel, o de envolvimento com a tarefa, tem como ca- racterística a motivação do indivíduo com AH/SD ao realizar uma tarefa, algo que é ainda mais observado em alunos com perfil produ- tivo-criativo. Aqui percebe-se a necessidade do envolvimento, e não só ser “beneficiado” com uma inteligência acima da média. A per- severança, a resistência, dedicação, autoconfiança e a convicção na habilidade pessoal junto com a conclusão do trabalho proposto são componentes para o produto e a conclusão do trabalho no compro- metimento com a tarefa. Isso porque o comprometimento, além das habilidades, é também responsável pelo sucesso (RENZULLI, 1986). O envolvimento com a tarefa é de extrema importância não só para concluir projetos de indivíduos com altas habilidades ou super- dotação, mas com qualquer nível de inteligência. Comprometimento e/ou dedicação na execução de atividades são ferramentas essen- ciais para a conquista do sucesso. Paralelamente, percebemos com uma certa frequência que, como as pessoas com inteligência signi- ficativamente acima da média tendem a se envolver pouco quando não se sentem atraídas pela atividade – devido justamente à tendên- cia à seletividade –, elas não se empenham em concluí-las. O terceiro anel é o da criatividade, que envolve a originalidade de pensamento, fluência de ideias, flexibilidade, curiosidade e o talento para projetar e realizar projetos originais (RENZULLI, 2004). É um traço que ganha maior destaque em indivíduos com perfil produtivo-criativo do que em indivíduos acadêmicos, pois essas pessoas têm grande tendência a serem pensadores flexíveis, se uti- lizam de alternativas variadas e abordagens diferentes para a so- lução de problemas. São originais, incomuns e não convencionais; mesmodiante de uma situação básica, têm uma ideia inusitada e, normalmente, têm consciência da sua própria sensibilidade emo- cional, visual e estética. Mas o que é criatividade? A criatividade nada mais é do que o processo que resulta em um produto novo e útil para uma dada sociedade, em um dado momento (STEIN, 1974) Para refletir Aspectos biológicos, psicológicos e sociais 31 2.2 Aspectos biológicos, psicológicos e suas vertentes Vídeo Nesta seção, aprofundaremo-nos nos aspectos biológicos e psicológicos dos indivíduos com altas habilidades ou superdotação, um tópico muito in- teressante para o estudo da área, pois além de essas características serem influenciadas umas pelas outras, com elas é possível termos uma visão mais geral do desenvolvimento do indivíduo com AH/SD. 2.2.1 Aspectos biológicos A biologia é uma parte fundamental para que possamos compreen- der os indivíduos com AH/SD, já que ela é produto direto de aspectos presentes no sistema nervoso central dessas pessoas. Além da biologia, a neurociência também contribui para a compreensão e exteriorização das diferenças presentes nos já referidos indivíduos, já que possibilita a compreensão dos seus processos mentais. Nos humanos e outros vertebrados, o sistema nervoso pode ser di- vidido em duas seções: sistema nervoso central (SNC), formado pelo cérebro e pela medula espinhal, responsável por analisar as informações às quais somos expostos; e sistema nervoso periférico (SNP), formado pelos neurônios sensoriais, que realizam a comunicação com o SNC, e pelos neurônios motores, que levam os sinais do SNC para os músculos. Falando um pouco sobre os neurônios: trata-se de células especia- lizadas em processar informações e propagar impulsos nervosos pelas chamadas sinapses, que realizam a comunicação entre o sistema ner- voso – composto pelos neurônios e pelas células gliais – e o restante do corpo, conduzindo respostas a determinados estímulos. De modo geral, os neurônios têm três funções: a primeira delas é receber sinais ou informações; a segunda é integrar sinais de entrada, ou seja, de- terminar se essa informação deve ser repassada ou não; e a terceira, fazer a comunicação dos sinais para as células-alvo, que são também outros neurônios, músculo ou glândulas. A sinapse é certamente a fun- ção mais desempenhada pelos neurônios e, de modo geral, são as co- nexões que propagam o impulso nervoso entre neurônios, por meio de neurotransmissores – utilizados como mediadores químicos – e que alcançam células musculares ou glandulares. células gliais: são os vários tipos de células presentes no sistema nervoso, responsáveis por isolar, apoiar e nutrir os neurônios, além de diver- sas outras funções. Glossário 32 Altas habilidades ou superdotação Existem diferenças nas conexões cerebrais entre indivíduos sem altas habilidades e indivíduos com altas habilidades, isso porque essas conexões são formadas pelos neurônios e a “força” delas – chamada de força sináptica – é modificada pela experiência, o que garante a flexibilidade do sistema cerebral e a capacidade de aprendizado. Em 2014, os estudos de Elisabete C. Konkiewitz utilizaram ressonância magnética nuclear funcional para detectar as alterações no fluxo sanguíneo e na oxigenação dos tecidos cerebrais durante a ati- vação neuronal. Nesse estudo, foram comparados adolescentes com AH/SD e aqueles com inteligência mediana. De modo geral, o padrão de ativação de um circuito dependerá da força de conexão entre suas unidades, que no cérebro se traduziria na força sináptica, ou seja, o quanto de atividade um neurônio é capaz de transmitir para outro. Essa força, por sua vez, é modificada pela ex- periência, garantindo a flexibilidade do sistema, que então é capaz de aprender (KONKIEWITZ, 2014). Durante tarefas de raciocínio, ambos os grupos apresentaram ativa- ção bilateral de áreas específicas do cérebro envolvidas na interpretação e transmissão de informações. No entanto, o grupo com AH/SD demons- trou uma maior ativação bilateral no córtex parietal em comparação com o grupo com inteligência mediana. Essa diferença sugere que as conexões cerebrais nesse grupo de indivíduos podem ser mais fortes ou mais eficientes no processamento de informações e raciocínio. No cérebro, existe de fato uma estrutura básica geneticamente deter- minada que diferencia as funções de áreas específicas, criando predis- posições inatas (que não se referem necessariamente a conhecimentos inatos), moldáveis pelas experiências do ambiente. Além disso, a existên- cia de circuitos neurais, responsáveis pelo processamento paralelo de informações entre diferentes áreas com a sua conectividade neural e mo- dulação sináptica, favorece o modelo conexionista, embora as evidências disso não sejam compatíveis com a ideia de que os circuitos formam redes aleatórias, pelo contrário, respaldam o fato de haver neles características inatas que delimitam seus padrões de conectividade e de ativação. Por fim, argumenta-se que os processos mentais podem ser ao mes- mo tempo compreendidos como um conjunto de redes neurais no nível mais elementar com capacidade de realizar o processamento de símbolos O córtex parietal é responsável pela percep- ção de sensações – como o toque, a temperatura, dor – e pela percepção avançada de informações auditivas e visuais, como orientação espacial, coor- denação visual, cognição, fala, leitura, entre outros. Saiba mais Alex Mit/Shutterstock Aspectos biológicos, psicológicos e sociais 33 em um nível mais complexo. No entanto, o debate ainda persiste e a com- preensão de como a mente opera continua sendo um desafio distante. 2.2.2 Aspectos psicológicos Quanto aos aspectos psicológicos dos indivíduos com AH/SD, po- demos enfatizar que nem todas as pessoas apresentam as mesmas características e as mesmas aptidões aqui relacionadas, que podem surgir de maneira única ou em conjunto. A seguir, descreveremos as principais características associadas aos aspectos psicológicos dos in- divíduos com altas habilidades ou superdotação. Hipersensibilidade emocional É uma característica muito marcante nas pessoas com AH/SD, tan- to nas crianças quanto nos jovens e adultos. Em algumas situações cotidianas no enfrentamento dos variados cenários, as crianças po- dem vir a se desestabilizar de maneira rápida e intensa, demostrando não compreender o que acontece no seu “eu” interior. Algumas vezes nem os adultos percebem o que desencadeou tal atitude, por ignora- rem a evolução do desequilíbrio, não conseguem intervir e acabam fracassando no processo da mediação, o que torna a situação ain- da mais descomedida. A necessidade de conhecimento fica cada vez mais compreensível, pois quanto mais entendemos as características, mais ajudamos e melhor convivemos com elas. Mas, o que acontece com as crianças com AH/SD quando elas se desestabilizam emocio- nalmente? E como fazer uma intervenção adequada? Indivíduos com AH/SD são conhecidos por terem uma atividade cerebral intensa, algo que não influencia somente na aprendizagem, mas também nas demais atitudes; eles têm uma capacidade incrível de perceberem o seu entorno, antecipam os acontecimentos e ten- dem a se frustrar de maneira rápida e intensa. Como tudo acontece muito rápido, o adulto, quando o vê desestabilizado, não entende o que o levou a tal atitude. Isso gera, por parte do adulto, uma reação de desapontamento, além do sentimento de frustração, ao não con- seguir dar conta da situação. Vamos a um exemplo para ilustrar: uma criança tem o costume de tomar banho com um brinquedo, o que acaba tornando essa ati- 34 Altas habilidades ou superdotação vidade, que muitas vezes não é a preferida de muitas crianças, em diversão e cria uma rotina para essa criança, que sempre antes de tomar banho busca esse brinquedo específico. No entanto, em um determinado dia, ela não conseguiu encontrar esse brinquedo, e com o horário do banho se aproximando, a criança se desestabilizou,apresentando um comportamento incontrolável, ficou muito agitada e brava, pois percebeu que sua rotina não seria mais a mesma. A criança não soube lidar com a situação de não ter o brinquedo à sua disposição e acabou manifestando comportamentos inadequa- dos de falta de controle; não conseguiu lidar com a frustração e apresentou atitudes desmedidas. Nesse caso, os pais perceberam so- mente o agito inexplicável, mas conseguiram perceber o gatilho que levou a criança a tal comportamento. No entanto, eles também rea- giram de maneira desmedida e não conseguiram reverter a situação, que ficou fora de controle. Nesse momento, a atitude ideal dos pais para construir um adulto equilibrado é perguntar qual o sentimento da criança em relação à situação apresentada. Quando existe um pro- cesso de olhar para a frustração do filho e, em seguida, um processo de escuta da criança, percebe-se o cuidado com a situação e o acolhi- mento, o que, consequentemente, converte um momento de estresse em um outro de percepção, conversa e acolhimento. O adulto tem mais condição de resolver uma situação “simples” do que a criança, que ainda está no seu processo de descobrimento de suas emoções, sentimentos e atitudes. Reações emocionais intensas Esse tópico vem completar o que falamos sobre a hipersensibilidade emocional, em que indivíduos podem acabar tendo reações e atitudes desmedidas quando algo foge do controle. Quando somos expostos a situações desse tipo, surge a seguinte dúvida: como podemos prevenir esse comportamento? De modo geral, a estratégia mais indicada de prevenção é o conhe- cimento por parte dos pais e o autoconhecimento por parte da pessoa com AH/SD, para que situações como a do exemplo dado, de pouca habilidade em lidar com as frustrações, sejam mais fáceis de se lidar, fazendo com que a necessidade do autocontrole se torne parte do pro- cesso de desenvolvimento. Aspectos biológicos, psicológicos e sociais 35 Outro ponto que deve ser levado em consideração é a rotina, que é de extrema importância para as pessoas com altas habilidades ou superdo- tação, pois ela tem como principal benefício o planejamento e a seguran- ça. Na maioria das situações, a rotina auxilia no processo de organização tanto interna quanto externa; ela permite uma melhor gestão do tempo, otimizando o aproveitamento das prioridades. Contudo, também é impor- tante a quebra dessa rotina para o enfrentamento da frustração de algo que estava planejado e que não aconteceu exatamente como previsto; esse é um fator importante a ser desenvolvido. Essa quebra tem como benefício o desenvolvimento da criatividade, da individualidade e o desen- volvimento de uma reorganização de planejamento e de uma nova rotina. Baixa tolerância à frustração A baixa tolerância à frustração também é ligada à hipersensibi- lidade emocional, pois pode ocorrer em vários cenários, como em casa, na escola ou ainda nos relacionamentos sociais. Neste tópico, exemplificaremos com uma ocorrência tipicamente acadêmica. Uma situação bastante comum na escola que desencadeia a frus- tração é a exigência dos professores pelo registro das atividades em sala de aula. A maioria das crianças com AH/SD não têm, necessa- riamente, habilidades motoras surpreendentes, a coordenação vi- somotora tende a não acompanhar seu raciocínio rápido, gerando lentidão na cópia das atividades ou morosidade na execução das tarefas. O que temos é um cenário em que alguns profissionais com- preendem e auxiliam essas crianças no seu desenvolvimento, sem cobrança desnecessária, desenvolvendo as habilidades cognitivas necessárias para o fomento da segurança e da autoestima. Entre- tanto, em outro cenário, no qual os profissionais desconhecem essa discrepância entre o desenvolvimento intelectual e o motor dos alu- nos com AH/SD, pode haver uma cobrança maior. Essa discrepância entre o desenvolvimento motor e o cognitivo desses alunos ocorre porque o cognitivo supera sua idade cronoló- gica, apresentando um potencial além do esperado para a maioria das crianças e, paralelo a isso, temos uma coordenação motora mui- to próxima à sua idade cronológica (real), que gera essa dificuldade com a escrita e dificulta os registros solicitados pelos professores. 36 Altas habilidades ou superdotação Tudo isso pode levar ao desconforto, à ansiedade e à frustração, pois sua coordenação motora não acompanha a velocidade do ra- ciocínio, resultando muitas vezes na não finalização das atividades, tanto na sala de aula como nas tarefas de casa. Tédio e inquietação Para finalizar esse tópico que contempla os aspectos psicológicos dos alunos com AH/SD, vamos abordar uma queixa comum dos pais e das crianças: o tédio e a inquietação que surgem em algumas ativida- des ou na falta delas. Proporcionar excessivas atribuições e ocupações às crianças não é a fórmula do sucesso; a motivação para a realização é o caminho que deve ser seguido nesses casos. O incentivo para que a criança seja ins- tigada a desenvolver as atividades com empenho e comprometimento proporciona o desenvolvimento das suas habilidades cognitivas, emo- cionais, motoras ou sociais, por exemplo: com frequência, alunos com AH/SD finalizam as atividades ou as provas antes dos seus colegas, si- tuação em que muitos professores solicitam que esses alunos cruzem os braços e aguardem os demais terminarem. No entanto, isso acarre- ta um tempo ocioso, desencadeando, por vezes, agitação, inquietação ou tédio nos alunos com AH/SD. Esse tempo ocioso não contribui para o desenvolvimento cog- nitivo dos alunos, pois além de ser uma queixa recorrente deles – que muitas vezes têm como única alternativa ficar “olhando para as paredes” –, ainda os desestimula e desencoraja a terminar suas atividades antes dos colegas. Assim, o que seria uma característica positiva, isto é, terminar antes, pode virar uma situação negativa de desconforto e desânimo. É evidente que as crianças dão preferência a se dedicar às atividades nas quais têm interesse, atividades essas que lhes causam bem-estar, mas o que explicamos aqui é diferente, não podendo ser confundido com a criança somente fazer o que deseja. Esse tédio nas atividades ocorre, na maioria das vezes, quando os alunos já dominam o conteú- do trabalhado, o que torna todas as explicações do professor repeti- tivas e desanimadoras. Aspectos biológicos, psicológicos e sociais 37 Um exemplo mais claro disso ocorre entre alunos com AH/SD que já são alfabetizados, mas estão matriculados em turmas do primeiro ano do Ensino Fundamental, estágio em que a maioria dos alunos ainda estão aprendendo os conceitos básicos de alfabetização e le- tramento. Nesse cenário, o aluno já alfabetizado irá se entediar, pois os conteúdos tratados em sala de aula não irão despertar interesse, uma vez que ele já domina a arte da leitura e não precisa de um re- forço no processo de alfabetização e letramento. 2.3 Características sociais Vídeo Vivemos em sociedade, seja participando de grupos desde a mais tenra idade, iniciando no núcleo familiar e dando continuidade no am- biente acadêmico e, depois, no mundo corporativo, e paralelo a isso, temos as relações sociais, no lazer, no esporte, entre outros. Essa par- ticipação nos mais diversos grupos sociais ocorre com todas as pes- soas, mas nesta seção trataremos das questões sociais ligadas a AH/ SD, com a intenção de compreender esse perfil de pessoa como ser humano integral e conhecer as características peculiares e estratégias de interação. Capacidade de se relacionar A capacidade de se relacionar também é atribuída a uma habi- lidade interpessoal nos vínculos que mantemos com outras pes- soas. Essa capacidade pode se manifestar de maneira construtiva, favorecendo as boas relações, como também pode se apresentar em circunstâncias desafiadoras, ocasionando relações interpes- soais complexas e aflitivas. No caso de uma relação interpessoal positiva, os indivíduos com AH/SD tendem a ser amáveis e ajudar o próximo, tendoou somente a curto prazo? A aceleração de indivíduos com altas habilidades ou superdotação traz benefícios a longo prazo, pois proporciona um ambiente de aprendizado desafiador, possibilitando a esses indivíduos o desenvolvimento de características relacionadas a engajamento, autoconfiança e autoconhecimento, fundamentais para que esse indivíduo tenha chances de desenvolver de forma plena o seu máximo potencial. 5 Adaptações curriculares e enriquecimento curricular 1. Quais são os principais tipos de enriquecimento curricular? Existem três tipos de enriquecimento curricular. O Tipo I tem como característica sua aplicação em sala de aula do ensino comum e regular. Seu público-alvo são todos os alunos da escola, não 100 Altas habilidades ou superdotação somente os com AH/SD ou ainda com inteligência acima da média. É a primeira abordagem, favorecendo a complementação do conteúdo tradicional por meio de atividades criativas e produtivas, de modo a oferecer uma nova abordagem que seja complementar ao previsto no planejamento pedagógico. O Tipo II é muito parecido com o Tipo I, mas consiste em uma abordagem que, embora também possa ser oferecida a todos os alunos, tem como objetivo principal fomentar o desenvolvimento do pensamento crítico por meio da ênfase na resolução de problemas com o uso de argumentos, hipóteses e abordagens mais aprofundados de temas de interesse e conhecimento diverso. O Tipo III é caracterizado por ser formado por projetos normalmente executados fora da sala de aula regular, com um momento específico para essa proposta em lugares apropriados. Tem como meta o aprimoramento das capacidades, interesses mais aprofundados e abordagem nos diversos estilos de aprendizagem de cada indivíduo. Os alunos recebidos nesses programas necessitam dedicar parte do seu tempo na aquisição e no aprimoramento de conteúdos mais avançados. 2. Qual a importância da ZDP de Vygotsky no contexto do enriquecimento curricular? A ZDP de Vygotsky é essencial ao enriquecimento curricular, pois é utilizada como instrumento para compreensão da diferença entre o nível de desenvolvimento atual de um aluno e o potencial que ele deve atingir ao dispor de atenção e apoio adequados. Reconhecer a ZPD de cada aluno é fundamental para individualizar e maximizar os diversos estágios de desenvolvimento, possibilitando um maior sucesso no processo de aprendizagem e no desenvolvimento de conhecimentos e habilidades. 3. Como o enriquecimento curricular pode contribuir para um melhor desenvolvimento dos alunos independentemente de serem alunos com AH/SD? O enriquecimento curricular oferece aos alunos a possibilidade de explorar e desenvolver experiências e conhecimentos além dos previstos no currículo regular, fomentando suas habilidades e sua capacidade de resolver, de maneira criativa e original, problemas diversos de acordo com o seu estágio de desenvolvimento. Permite abordagens mais desafiadoras e abrangentes, estimulando o engajamento, a motivação e o desenvolvimento integral dos alunos para o sucesso do processo de aprendizagem. Resolução das atividades 101 ALTAS HABILIDADES OU MÔNICA CONDESSA FRANKE SUPERDOTAÇÃO ISBN 978-65-5821-320-8 9 786558 213208 M ô nica C o nd e ssa Fra nke A lta s ha b ilid a d es o u sup erd ota çã o Código Logístico I001125