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MEMÓRIA E APRENDIZAGEM Mariê Moreira de Oliveira1 Raquel Messi Falcoski2 Mariana Ribeiro Maniglia³ 1Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia, Departamento de Psicologia, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. 2Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia, Departamento de Psicologia, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. 3Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia, Departamento de Psicologia, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. 1. Conceitos Básicos de Memória Memória é um dos processos cognitivos fundamentais, sem ela não seríamos mais do que apenas reflexos e comportamentos estereotipados. A memória é primordial não apenas para a continuidade da identidade individual como também para a transmissão dos saberes culturais ao longo das gerações. A expansão cultural, que se trata de uma forma não biológica de adaptação, atua em paralelo com o desenvolvimento biológico, como uma possibilidade de transmitir conhecimento do passado e comportamento adaptativo por meio dos descendentes. Dessa forma, todos os seres humanos são o produto de memórias partilhadas e acumuladas ao longo dos séculos (Kandel, 2007). Os componentes de fundamentação da memória são complexos, por isso, nós dividimos o conceito de memória em vários tipos. Vamos explicar cada um deles! O termo memória de longo prazo é utilizado para especificar os conteúdos que são retidos de forma definitiva e são ilimitados, por exemplo, nossa memória autobiográfica ou sabermos o conceito de mesa (Figura 1). A memória de longo prazo é classificada em memória explícita ou declarativa e memória implícita ou não declarativa (Squire, 1992). A memória explícita ou declarativa é acessível à nossa consciência e pode ser dividida em memória episódica e memória semântica. A memória episódica refere-se a situações de eventos específicos, essa memória faz uso de tempo e espaço. Por exemplo, se lembrar do que você comeu no café da manhã de ontem. Já a memória semântica compõe o nosso conhecimento conceitual do mundo, essa memória não depende de tempo e espaço. Por exemplo, saber qual é a capital da França (Tulving, 1972). Por outro lado, a memória implícita refere-se à nossa capacidade de adquirir habilidades através da exposição a um estímulo ou atividade. Ou seja, a exposição frequente ao estímulo leva a automatização daquela habilidade. Um exemplo é a nossa capacidade de dirigir um carro. Inicialmente, o processo de dirigir não é automático, ou seja, nós precisamos muito da atenção e da memória para lembrar de cada tarefa que é necessária ser concluída durante a condução. Posteriormente, o ato de dirigir torna-se automatizado (Tulving, 2002). A memória de curto prazo refere-se à retenção temporária de pequenas quantidades de informações. Quando você estaciona o carro no shopping e depois precisa se lembrar onde o carro estava, você fez uso da memória de curto prazo. Entretanto, é muito improvável que você se lembre dos locais que estacionou o carro todas as vezes que foi ao shopping. Isso mostra que a memória de curto prazo é facilmente descartada. Figura 1. Componentes da memória de longo prazo Fonte: Elaborada pelas autoras. As informações retidas na memória de curto e longo prazo podem ser manipuladas na memória de trabalho. O conceito de memória de trabalho, proposto por Baddeley e Hitch (1974) descreve esse sistema como responsável pelo armazenamento temporário e pelo processamento das informações necessárias para a realização das tarefas cognitivas, das mais simples às mais complexas, da compreensão de uma instrução verbal à solução de problemas e habilidades acadêmicas (Baddeley, Hitch & Allen, 2019). A memória de trabalho funciona como um espaço operacional mental, oferecendo uma base para operações mentais. Geralmente, supõe-se que ela esteja ligada à atenção e que seja capaz de recorrer a outros recursos dentro da memória de curta e de longa duração (Baddeley, Hitch & Allen, 2019). A estrutura atual do modelo de memória de trabalho (Figura 2) envolve quatro componentes: executivo central, laço fonológico, rascunho visuoespacial e o buffer episódico. O executivo central é responsável pelo controle atencional, planejamento e monitoramento das tarefas em andamento, e pelo controle dos outros três subsistemas de armazenamento. O laço fonológico armazena e manipula informações verbais ou auditivas e o rascunho visuoespacial é responsável pela manutenção e manipulação de informações visuais e espaciais, e desempenha um papel chave na produção e manutenção de imagem mental. O buffer episódico é encarregado pela integração das informações em representações complexas, ou seja, das informações presentes nos outros subsistemas (visuoespaciais e fonológicas), além de relacioná-las a inputs de memória de longo prazo e também à percepção (Baddeley, 2000). Os componentes da memória estão diretamente envolvidos nos processos de aprendizagem, seja ela de atividades do dia a dia ou na aprendizagem acadêmica. Figura 2. Modelo da Memória de trabalho Fonte: Estrutura atual do modelo de memória de trabalho, elaborada pelas autoras, baseado em Baddeley (2000). 2. Aprendizagem Um dos aspectos mais extraordinários do comportamento animal é a capacidade de modificar sua ação através da aprendizagem, uma aptidão que atinge seu ápice nos seres humanos, uma vez que somos capazes de aprender de forma intencional e sistemática (Paz & Calafate, 2021). O processo de aprendizagem pode ser analisado sob diversas perspectivas de acordo com o aspecto teórico abordado. De modo geral, a aprendizagem pode ser definida como um processo de aquisição de conhecimentos, competências, habilidades e atitudes, cujo resultado é a modificação do comportamento. Esse processo envolve, portanto, conceitos, generalização, análise, síntese, raciocínio teórico, pensamento lógico e desenvolvimento cognitivo, afetivo, subjetivo e social. Esse fenômeno pode ocorrer por meio de experiências, observação, estudo e raciocínio. Dentre os diversos modelos de processos de aprendizagem existentes, todos eles convergem para três principais domínios: psicomotor, cognitivo e afetivo (Franco, 2009). O domínio psicomotor, está relacionado com a utilização coordenada dos músculos e caracteriza-se pelo indivíduo adquirir conhecimento e desenvolver habilidades com relação ao uso dos movimentos básicos e primordiais para a vida. O domínio cognitivo, que possui relação com a intelectualidade e as capacitações, abrange a aquisição de informações através do uso da memorização, da análise, da avaliação, da compreensão e síntese. Por fim, temos o domínio afetivo, relacionado às emoções, sentimentos e gostos que auxiliam a desenvolver as habilidades de aceitação, valorização, receptividade, entre outros (Ferraz & Belhot, 2010). A memória é essencial para que ocorra a aprendizagem. Esse processo se dá através de uma sequência: codificação, armazenamento e recuperação da memória (Figura 3). Figura 3. Processos da memória Fonte: Elaborada pelas autoras. A codificação é a primeira etapa e requer a atenção do indivíduo, ou seja, ela é ativa e seletiva. A forma como nós codificamos uma informação está diretamente relacionada à forma como ela será armazenada. Sem codificação, não há armazenamento e consequentemente não há consolidação de memória (Baddeley, Eysenck & Anderson, 2014). Por isso, a atenção tem um papel essencial para a percepção, linguagem e memória. Diversos estudos no campo da investigação sobre a atenção identificaram diferentes regiões encefálicas envolvidas, como o lobo parietal, a amígdala e o giro cingulado. A estreita relação entre córtex cerebral, estruturas encefálicas subcorticais, aferências sensoriais e funções cognitivas (entrada, processamento de estímulos internos e externos e resposta) é primordial parao processo de aprendizagem (Paz & Calafate, 2021; Nunes, 2018). De modo geral, a atenção pode ser definida como voluntária e involuntária. A involuntária é de origem biológica, atraída fortemente por estímulos externos, produto de uma tendência natural da atividade psicológica para as demandas sensoriais e sensitivas sem a intervenção da consciência. A atenção voluntária é aquela que exige um certo empenho no sentido de orientar a atividade psicológica para determinado fim, no entanto, o grau de concentração da atenção sobre determinado objeto não depende apenas do interesse, mas também do estado psicológico do indivíduo (Nunes, 2018). O segundo passo é o armazenamento, podemos utilizar o armazenador de longo prazo ou de curto prazo. O que irá determinar para qual armazenador a informação vai é o quanto essa informação é necessária para a nossa sobrevivência. Por exemplo, armazenar o local onde o carro está estacionado é necessário somente a curto prazo, não enviamos essa informação para a memória de longo prazo. Já um acontecimento emocionalmente marcante, geralmente é armazenado na memória de longo prazo. O processo de escolha do armazenador pode ou não ser consciente (Baddeley, Eysenck & Anderson, 2014). Finalmente, a recuperação da memória está relacionada ao como nós trazemos para a consciência uma informação que estava armazenada. A recuperação pode ser evocada livremente, como ao perguntarmos: o que você almoçou hoje? Você irá evocar livremente tudo o que tinha no almoço. Alternativamente, a recuperação pode ser por reconhecimento. Por exemplo, sua resposta será sim ou não ao questionarem: você almoçou arroz hoje? Nesse último exemplo, você somente reconheceu se havia ou não o elemento "arroz". A recuperação através do reconhecimento é mais simples do que a evocação livre. Esse processo é bem conhecido pelos estudantes! Em uma prova de múltipla escolha, o estudante evoca uma informação através do reconhecimento. Já uma prova aberta exige que o estudante estruture sua resposta e evoque-a livremente dos conhecimentos adquiridos (Baddeley, Eysenck & Anderson, 2014). Sendo assim, a consolidação de uma aprendizagem se dá através das etapas de codificação, armazenamento e recuperação de uma informação. O encontro entre novas informações relacionadas com um conhecimento prévio pode desencadear a integração de informações, por meio da qual acontece uma atualização das memórias estabelecidas e são incorporados novos conteúdos (Paz & Calafate, 2021). O registro permanente, ou seja, a consolidação de uma memória de longo prazo, envolve diferentes níveis de processamento e podem ocorrer a partir da repetição e associação. Na consolidação, que se trata dessa permanência do registro, ocorrem alterações neurobiológicas como, por exemplo, o fortalecimento de sinapses. Para a aprendizagem, portanto, quanto mais diversificada for a experiência, proporcionando situações de aprendizagem ricas em estímulos e fomentando atividades intelectuais, melhor essa será assimilada e consolidada, se fixando, portanto, na memória de longo prazo (Mapurunga & Carvalho, 2018). 3. Papel das emoções na aprendizagem As emoções são um fator preponderante e recentemente descobertos para a aprendizagem e estão diretamente relacionadas aos estados psicológicos do indivíduo, portanto, guiam e suportam as funções atencionais, e estas guiam as funções cognitivas de processamento perceptivo, simbólico e lógico, assim como as funções executivas de resolução de problemas. Além disso, as emoções alteram a fisiologia do organismo visando aproximação, confronto ou afastamento e frequentemente costumam determinar a escolha das ações que se seguirão, sendo assim, um importante sinalizador interno, que além de nos mobilizar às ações, é um eficiente mecanismo de comunicação intragrupal, uma vez que podemos reconhecer as emoções uns dos outros (Cosenza & Guerra, 2011). As emoções capturam a atenção e ajudam a memória, tornando-as mais relevantes e claras. A ativação da emoção desencadeia vínculos que fortalecem as funções cognitivas, o que pode facilitar a aprendizagem. No entanto, o estresse possui efeito contrário (Carvalho, Junior & Souza, 2019). Por esse motivo, podemos afirmar que em um ambiente de segurança afetiva, o cérebro humano funciona em toda sua capacidade, e as emoções abrem caminho às cognições. Por outro lado, em um ambiente de ameaça, opressão, humilhação ou desvalorização, o sistema límbico bloqueia o funcionamento das funções cognitivas que possibilitam o acesso às aprendizagens simbólicas e à resolução de problemas complexos exclusivos da espécie humana (Fonseca, 2016). 4. Estratégias de Aprendizagem As estratégias de aprendizagem são amplamente abordadas nos sistemas de ensino de modo geral, porém sua neurobiologia é pouco compreendida. Essas estratégias tratam-se de técnicas ou métodos que as pessoas utilizam para adquirir informação. No contexto dos professores, as estratégias de aprendizagem podem ser consideradas como sequências de procedimentos ou atividades que são planejadas com o intuito de facilitar a aquisição, o armazenamento e/ou a utilização da informação pelos estudantes. Em estudos relacionados ao tema se considera que as sinapses poderiam mediar a aprendizagem de duas formas: habituação e sensibilização. Na habituação a aprendizagem estaria enfraquecida com a estimulação repetida, uma vez que menos neurotransmissores seriam liberados quando um potencial de ação é propagado. Por outro lado, na sensibilização, a resposta ao aprendizado seria mais forte, com maior liberação de neurotransmissores como a acetilcolina e a dopamina (Mapurunga & Carvalho, 2018). Alguns autores diferenciam as estratégias de aprendizagem em três grupos: estratégias cognitivas (estratégias de ensaio, elaboração e organização); estratégias metacognitivas (estratégias de planejamento, monitoramento e regulação), e estratégias de administração de recursos (administração de tempo, organização dos ambientes de estudo, administração do esforço e busca de apoio a terceiros). As diferentes estratégias de aprendizagem se utilizam de diferentes competências e quanto mais diversificada for essa experiência, melhor será assimilada e consolidada (Dembo, 1994). Em função dessas descobertas, as metodologias ativas de ensino-aprendizagem estão ganhando cada vez mais espaço no cenário educacional e podem ser compreendidas como um conjunto de ações educacionais organizadas e planejadas pelo professor, na qual o estudante percebe uma relação horizontal, uma alternativa de mudar o foco do ensinar (centrado no professor) para o aprender (foco no estudante). Também são baseadas em alguns princípios, como a personalização da aprendizagem e contribuem no sentido de incentivar os alunos para que aprendam de forma autônoma e participativa, a partir de problemas e situações reais, provocando assim, uma maior sensibilização em relação ao conhecimento, ao contrário da exposição massiva e passiva de conteúdo como ocorre no modelo tradicional de ensino, relacionado a mediação da aprendizagem ao conceito de habituação (Versuti et al., 2021). Considerações finais A contribuição das neurociências, ao aproximar as emoções do processo ensino-aprendizagem, apresenta inúmeros subsídios para pôr em prática estratégias e experiências de interação emocionalmente significativas que melhoram, não apenas o ensino, mas também a aprendizagem nas escolas. Muitos alunos não aprendem em sala de aula exatamente porque os conteúdos escolares ou acadêmicos deixam de ser emocionalmente significativos para eles. Além disso, a compreensão do funcionamento cognitivo pode permitir aos professores criarem estratégias que facilitem o processo de aprendizagem do aluno. Referências Baddeley, A. (2000). The episodic buffer: a new component of working memory? Trends in Cognitive Sciences, 4, 419-423. Baddeley, A., Eysenck, M. W., & Anderson, M. C. (2014). Memory (2nd edn). Hoboken:Taylor and Francis. Baddeley, A. D. & Hitch, G. J. (1974). Working Memory. In G. Bower (Org.), The psychology of learning and motivation, Vol. 8. New York: Academic Press. 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