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AULA 5 ELEMENTOS FUNDAMENTAIS PARA O ENSINO DE MÚSICA Prof.ª Rossana Meirelles Cavallini 2 INTRODUÇÃO Formas musicais A disciplina “Elementos fundamentais para o ensino de música” tem como principais objetivos: fornecer aos profissionais de outras áreas um conjunto de informações básicas para a compreensão dos elementos da música; fornecer aos profissionais da área de música um possível caminho para o ensino de seus elementos básicos, tanto em sala de aula quanto em cursos e oficinas de formação continuada para profissionais de outras áreas. Nesta aula, você vai descobrir o que é forma musical e conhecer algumas formas musicais simples. Estas, além de presentes em vários gêneros musicais, devem integrar programas de educação musical de crianças, jovens e adultos. TEMA 1 – INTRODUÇÃO À FORMA MUSICAL É comum pessoas relatarem que escutaram recentemente uma música já bastante conhecida e que ouviram elementos nunca antes percebidos. Você já parou para pensar por que isso acontece? Saberia dizer como ouve música? O seu entendimento sobre música é determinante em sua relação com essa arte. E como podemos entendê-la melhor? “Se você quiser entender música melhor, não há coisa mais importante a fazer do que ouvir música” (Copland, 1974, p. 19). Quando ouvimos música, há vários elementos a serem percebidos e compreendidos, e a percepção da forma musical é um deles. Em resumo, a forma musical nos auxilia a entender música melhor. Nesse caso, a primeira atitude a ser tomada é a de se tornar (caso ainda não seja) um apreciador rotineiro de música. É importante ampliar o repertório: escutar diferentes obras, de variados compositores, distintos gêneros musicais, culturas e épocas. Escutar várias vezes uma mesma obra e fazê-lo de modo atento e dirigido. A cada nova apreciação, novos aspectos serão percebidos. Veja o que Copland (1974, p. 22) nos diz acerca de escuta musical: A maneira mais simples de ouvir música é entregar-se totalmente ao próprio prazer do som. Esse é o plano sensível. É o plano em que nós ouvimos música sem pensar, sem tomar muita consciência disso. Ligamos o rádio enquanto fazemos outra coisa e tomamos um banho de 3 som. A mera percepção do som já é capaz de produzir um estado mental que não é menos atraente por ser desprovido de ideias. O autor alerta para o fato de que o plano sensível se revela muito importante na música, mas é apenas uma parte da história. Uma melhor compreensão sobre música envolve a mudança da forma de apreciação para além do plano sensível, pois a escuta por si só não melhora a compreensão musical. O principal objetivo desta aula é, por meio do estudo das formas musicais mais simples, iniciar o processo de desenvolvimento do que Copland (1974) chama de apreciação inteligente da música. Você conhece o termo forma musical? Sabe o que isso significa? No verbete forma, do Dicionário Oxford de Música, consta: “é a estrutura e desenho de uma composição” (Kennedy, 1994, p. 262). Já Bennet (1986, p. 9) define “a forma de uma peça musical como sendo a estrutura total da peça. Mas o compositor tem que preencher essa estrutura básica com materiais interessantes e para esse fim utiliza uma variedade de materiais musicais”. Essa estrutura literalmente dá forma à peça musical. Quando falamos em formas, logo pensamos no âmbito visual – quadrado, triângulo, círculo etc. Mas acredite: música também tem forma! E como música é uma arte que acontece no tempo, é no tempo que se desvelam suas formas. E como perceber esse desenho, essa estrutura? TEMA 2 – PARA PERCEBER AS FORMAS MUSICAIS 2.1 Repetição e contraste Para perceber a forma das obras musicais ocidentais de modo geral, uma das palavras-chave é repetição. Você já reparou que na imensa maioria das obras musicais há presença de uma ou mais repetições? O refrão se repete numa canção; temas se repetem em obras instrumentais. Isso não é por acaso. A repetição é comumente parte da estrutura de uma obra musical. Repetição é algo fácil de se compreender, nas formas simples, por terem partes curtas. Quando um trecho musical se repete, logo percebemos; nosso cérebro registra como: “já ouvi isso antes”. Quando o compositor quer deixar evidente que uma nova parte se iniciou em sua peça musical, nada mais eficaz do que esta ser diferente da anterior. Quando ele quer marcar, frisar essa diferença, utiliza o que denominamos de 4 contraste. Nesse momento, nosso cérebro ‘diz’: “opa, novidade!”. O contraste é um modo comum e eficaz de comunicar mudança, em música, e pode acontecer de várias formas: mudança no andamento, na harmonia, na instrumentação e outras. No jogo entre repetição e mudança (com mais ou menos contraste), estruturam-se muitas obras musicais. 2.2 Sinais de repetição e de finalização Como acabamos de ver, a repetição é parte integrante do universo musical. Há várias formas de indicá-la em uma composição musical. É interessante conhecer os sinais mais utilizados na escrita musical para apontar repetição de pequenos, médios e grandes trechos da uma peça. Quando a repetição é de um trecho curto, de cerca de um a quatro compassos, por exemplo, utiliza-se o sinal de repetição de compasso, que se grafa assim: Crédito: Infografx/Shutterstock. Quando o trecho é mais longo, utiliza-se o ritornello, símbolo mais empregado para solicitar repetição de um trecho musical na partitura. Ele altera a barra de compasso com o acréscimo de dois pontos, indicando o trecho que deve ser repetido. Veja como os ritornellos aparecem na partitura musical, conforme ilustrado na Figura 1. Figura 1 – Ritornello à esquerda e à direita 5 Alguns termos são também utilizados: quando, ao final da seção ou da peça, o compositor deseja que ela seja inteiramente repetida, escreve no final da partitura D.C. al fine, que significa da capo al fine – em português, “do começo ao fim”. Após o final da última apresentação do tema principal de uma peça, pode aparecer um fragmento dele, com a finalidade de reafirmar a finalização da peça. Esse trecho é chamado de Coda, palavra italiana que significa “cauda”. 2.3 Elementos da música e forma musical A música possui quatro elementos essenciais, que são a matéria-prima do compositor e seus materiais de trabalho: ritmo, melodia, harmonia e timbre. Para o ouvinte leigo, eles não têm importância isoladamente; o que lhe interessa é como são combinados, criando o chamado tecido sonoro. É desejável, porém, que o ouvinte tenha um nível mínimo de consciência sobre cada um deles. O ritmo, por exemplo, é sentido em forma de movimento corporal. Quando o tema de uma peça é marcado por esse elemento, é comum batucarmos junto com ela ou mesmo nos mexermos. Da mesma forma que o ritmo está ligado a movimento físico, a melodia é um elemento que associamos à emoção. Todos nós temos na memória melodias que nos emocionam ao ser ouvidas e/ou cantadas. Já vimos, anteriormente, que a melodia se constrói sobre as escalas musicais. Ela é também fundamental para o entendimento da forma musical. Para a compreensão do desenvolvimento de uma obra musical, você deve ser capaz de reconhecer uma melodia quando ela é tocada, mesmo que depois de um intervalo de alguns minutos. Copland (1974, p. 21) explica o porquê: Os "acontecimentos" musicais têm uma natureza mais abstrata, de modo que o ato de os reunir novamente na imaginação não é tão fácil como na leitura de um romance. É por isso que você deve ser capaz de reconhecer uma melodia. Pois a coisa que ocupa, na música, o lugar da história é, geralmente, a melodia. A melodia, via de regra, é o significado da peça. A harmonia, se comparada ao ritmo e à melodia, “é o mais sofisticado desses três elementos” (Copland, 1974, p. 54). Se ritmo e melodia pertencem naturalmente ao homem e estão presentes na música desde o seu começo, sobrea harmonia não se pode afirmar o mesmo, é uma invenção “recente”: até o século IX, “a música de que se tem notícia consistia de uma só linha melódica” (Copland, 6 1974, p. 54). A harmonia nasceu quando outra (ou mais de uma) linha melódica foi acrescentada às composições musicais. A partir desse momento, dois sons simultâneos passaram a acontecer, e a relação entre eles se tornou objeto de estudo. É por isso que a harmonia trata da simultaneidade dos sons (como acontece nos acordes), da maneira pela qual eles podem ser combinados, qual nota pode aparecer no mesmo acorde com quais outras, e assim por diante. As implicações para a forma musical estão relacionadas à função que cada acorde tem dentro da música, em especial na música tonal (que serve de base aos gêneros da música popular). Determinados acordes têm função de continuidade, outros de conclusão de um tema ou secção. Que tal um exemplo? Aprecie a primeira seção da composição instrumental “Romance da bela infanta” (tema popular renascentista adaptado por Antônio Madureira e gravado pelo Quinteto Armorial), disponível no seguinte link: . Se imaginarmos a seção A como uma grande sentença, a primeira parte dessa “sentença” (0’00 a 0’08) acaba com uma nota (ou acorde) que deixa a sensação de suspensão (tocado pela rabeca), de que haverá uma continuação. Já a segunda parte (0’09 a 0’27), que funciona como uma resposta à primeira, é finalizada com um acorde que nos faz perceber que houve a conclusão de uma ideia musical. O timbre, numa composição musical, é o elemento que está relacionado à instrumentação. Conforme ensina Copland (1974, p. 64), “o timbre, na música, é análogo à cor na pintura. É um elemento fascinante, não só devido aos vastos recursos que já foram explorados como às suas ilimitadas possibilidades futuras”. O compositor não escolhe por acaso quais instrumentos farão parte do tema principal de sua peça, mas opta por aqueles que melhor o expressam. O timbre também pode estar associado à percepção de forma. Nas obras instrumentais, por exemplo, as mudanças de secção podem vir acompanhadas de mudanças na instrumentação. Observe, na apreciação da peça instrumental “Romance da bela infanta” (Quinteto Armorial) – sugerida novamente como exemplo de forma binária – a presença de contraste as seções A e B, observado pela mudança de timbre/instrumentação, de andamento. Por fim, há um aspecto das composições musicais que merece ser destacado: a textura. A seu respeito, Copland (1974, p. 77) comenta: “Para entender melhor o que está ouvindo em música, o leigo deveria, de uma maneira geral, ser capaz de distinguir três tipos diferentes de textura musical. Há três 7 espécies de textura: monofônica, homofônica e polifônica”. A textura monofônica (um som), como o nome já diz, é quando a música é composta apenas de uma linha melódica; é a mais simples de se ouvir. Por exemplo: uma pessoa cantando sem acompanhamento. A textura homofônica é a mais importante para os ouvintes porque é constantemente utilizada na música. Consiste de uma melodia principal e de um acompanhamento em acordes. Ela não existia até o início do século XVII e, mesmo de lá para cá, sofreu mudanças substanciais. É a forma textural utilizada no rock, no pop, na MPB e em outros gêneros. E mesmo na chamada música erudita, é amplamente empregada: por exemplo, em uma peça para voz e piano, a voz canta a melodia principal, e o piano toca o acompanhamento, numa textura homofônica. Por fim, a terceira textura – polifônica – é mais complexa para o ouvinte: exige maior atenção porque nela existem melodias separadas e independentes que, ao se cruzarem, formam harmonias. Nós estamos habituados a perceber harmonia como acordes, sons simultâneos dependentes, e não várias melodias acontecendo juntas e de forma independente. Mas vale a pena investir na apreciação de obras polifônicas, as quais levarão o ouvinte para um novo patamar de apreciador de música. Para quem é iniciante, é desejável começar ouvindo peças a duas vozes, pois quanto mais vozes, mais difícil será a percepção de cada uma delas em separado. Um exemplo de polifonia a duas vozes são as Invenções a duas vozes, conjunto de peças de Johan Sebastian Bach para instrumentos de teclado. Numa composição musical, é comum haver mudanças de textura dentro de uma mesma parte ou de uma secção para outra. Apreciação musical Quer conhecer alguns exemplos de texturas musicais? Confira abaixo: (Sofia Ceccato): Textura monofônica: Camargo Guarnieri, “Improviso n. 1 para flauta solo” (Sofia Ceccato): . Textura homofônica: Ernesto Nazareth, “Coração que sente” (Eudóxia de Barros): . Textura polifônica: J. S. Bach, “Invenções a duas vozes”: . 8 TEMA 3 – FORMAS SECCIONADAS Existem inúmeras formas musicais, das mais simples às mais extensas e complexas. Entre as utilizadas na música ocidental, temos estrófica, binária, ternária, canção, rondó, minueto e trio, fuga, variação, sonata, suíte, concerto, livre e outras. Nesta aula, serão apresentadas as formas musicais simples ou seccionadas. As seccionadas são aquelas compostas por secções claramente definidas. 3.1 Forma binária A forma binária, a mais simples das formas seccionadas, é composta por duas secções (ou partes) distintas. Comumente, atribuem-se nomes de letras às diferentes seções de uma peça musical, quando se analisa sua forma – no caso da binária, nomina-se como forma A B. A forma binária surgiu há bastante tempo – foi amplamente utilizada entre 1650 e 1750 –, mas é pouco usada atualmente (Copland, 1974). As secções podem se repetir, e a repetição pode ter mais de um formato: quando a primeira parte se repete antes de a segunda ser apresentada, a estrutura da peça é representada assim: AABB. Na escrita do desenho, da estrutura de uma peça, também é comum usar a barra de repetição (ou ritornelllo); nesse caso, a grafia é A:II B:II. Ainda na forma binária, a repetição pode acontecer depois de ambas as partes serem apresentadas uma primeira vez, ou seja, a peça ou canção é executada duas vezes do começo ao fim. Em situações como essa, a forma pode ser representada como A B A B ou AB:II. Apreciação musical Conheça algumas composições que possuem a forma binária. Veja a seguir: “Sonata em si menor K. 27”, Domenico Scarlatti: . “Romance da bela infanta”: . 9 3.2 Forma ternária A forma ternária é uma extensão da forma binária e também possui uma parte A, e outra, contrastante, a B. A diferença é que a música termina com um retorno à parte A. Esse retorno pode ser literal ou com uma pequena variação (denomina-se este retorno de A’). A terceira parte pode ser diferente das duas anteriores também (denominada de C). Sendo assim, a forma ternária pode ser A B A, A B A’ ou A B C. Nesse caso, podemos citar dois exemplos: “A paz” (Gilberto Gil), disponível em , e “Garota de Ipanema” (Vinícius de Moraes e Tom Jobim), disponível em . Escute a gravação de “Garota de Ipanema” uma vez do início ao fim e tente identificar onde estão as três seções. Na segunda escuta, observe de forma mais precisa onde começa cada parte e forme uma opinião quanto à terceira parte, se é diferente das duas primeiras, se é igual a A esta ou se é o A alterado, voltando como A’. Feito isso, escreva a forma da canção (ABA, ABA’ ou ABC). Encontre a resposta na videoaula. 3.3 Forma rondó O rondó é uma forma de composição musical seccionada, ou seja, estruturada com um tema principal e vários temas secundários (normalmente dois ou três), sempre intercalados pela repetição do tema principal. A secção A éo tema principal, que vai se alternando com os secundários, (B, C, D etc.), também chamados de episódios. Quando apresenta dois episódios, o rondó é representado com a forma A B A C A; se tem três, é A B A C A D A; e assim por diante. Cada episódio diferente é representado com uma nova letra. Essa forma é geralmente instrumental e leva esse nome por ter formato circular, pois a palavra rondó vem de ronda, que significa roda. O nome Rondeau também é utilizado. Um exemplo de forma rondó é “Prelúdio”, da Ópera Carmen (Georges Bizet), que você pode escutar em . É possível observar que há uma divisão bem clara entre o tema principal e os episódios. Durante a apreciação, preste atenção à forma musical. Sugerimos uma primeira apreciação e, em seguida, outra, anotando a estrutura da peça com as letras http://pt.wikipedia.org/wiki/Composi%C3%A7%C3%A3o_musical 10 referentes a cada seção, conforme forem aparecendo. Confira a forma desse rondó na videoaula. Saiba mais Deseja outras sugestões de rondós para apreciação? Veja abaixo: “Tanz” (Carmina Burana), Carl Orff: . “Für Elise”, Ludwig van Beethoven: . “Rondo Alla Turca”, W. A. Mozart: . TEMA 4 – OUTRAS FORMAS MUSICAIS SIMPLES 4.1 Forma estrófica ou unária A forma unária ou estrófica é a mais simples que um conteúdo musical pode ter. É uma forma vocal é composta de apenas uma parte, que se repete várias vezes. Nela, o tema "A" é o primeiro verso apresentado, e a cada nova estrofe o tema melódico se repete. Foi aqui incluída porque é uma forma comum em canções do folclore infantil brasileiro (cantigas de roda, canções de ninar) – como “Ciranda cirandinha” –, nas quais somente a letra se altera de uma estrofe para a outra, daí o nome estrófica. A música se mantém, não há partes diferentes, é representada com A A A A. Quando há pequenas variações, pode ser representada com A A’ A”. Essa forma é também comum em hinos, como é o caso do “Hino Nacional Brasileiro”. Repare que a letra muda de uma estrofe para a outra, porém a música (estrutura melódica, rítmica e harmônica) não se altera. 4.2 Forma canção A forma canção é também uma forma vocal, cujo surgimento remonta às canções populares (folclóricas) da Idade Média, na Europa. Nesse período, desenvolveu-se na França (chanson) e em Portugal (canção); mais tarde, foi a vez da Itália (canzone), e na Alemanha ganhou força e popularidade no período romântico (século XIX) com nome lied. Continua bastante popular até os dias atuais, sendo a base de diversos gêneros musicais como pop, rock, MPB, blues e outros. Sua estrutura varia de um local para outro, de um compositor para outro e em diferentes épocas. As canções podem ser em forma estrófica, A B A B, A A 11 B A (na qual B é o refrão). Os lieder alemães eram em forma A A B A (ou A A B C). Apreciação musical Confira algumas sugestões de apreciação de forma canção: “Velha infância” (Tribalistas): . “Força estranha” (Caetano Veloso): . “Samba de uma nota só” (Tom Jobim): . Você pode conhecer também formas canção com estribilho e refrão. Veja abaixo: “Mamãe eu quero” (Jararaca e Vicente Paiva): . “Quem te viu, quem te vê” (Chico Buarque): . “Nada sei” (Kid Abelha): . “Sambalelê” (domínio público): . TEMA 5 – APRECIAÇÃO MUSICAL NA EDUCAÇÃO Sabe-se que, desde o período gestacional (por volta do quinto mês de gestação), os bebês já são capazes de ouvir, que nascem com memórias dos sons escutados nesse período e que, antes mesmo de dar os primeiros passos, já reagem à música com movimentos corporais (Ilari, 2002, 2009). As crianças pequenas, em casa ou no ambiente escolar, têm grande prazer e curiosidade em ouvir tudo o que está à sua volta. Sendo assim, é muito importante oferecer desde cedo oportunidades significativas de contato com o mundo musical (e sonoro). Igualmente relevante é aprender a escutar, bem como desenvolver o respeito ao silêncio, para que haja equilíbrio entre esses dois polos complementares: som e silêncio. Nesse sentido, a educação musical tem muito a contribuir. Assim explica Brito (2003, p. 187): “Escutar é perceber e entender os sons por meio do sentido da audição, detalhando e tomando consciência do fato sonoro. Mais que ouvir (um processo puramente fisiológico), escutar implica detalhar [...]”. Aprender a escutar com concentração e disponibilidade faz parte da formação de pessoas sensíveis. Cabe aos pais e professores alimentar as crianças com um universo sonoro rico e interessante. Para tal, é primordial que 12 elas entendam que o comum “som ambiente” das salas de aula – em geral, quando o aparelho de som fica ligado com “algo” tocando enquanto fazem “outra” atividade – nada tem a ver com “escuta”. O ideal seria, na verdade, que esse tipo de uso da música – como “som ambiente” – fosse evitado no contexto escolar. Em sua formação, as crianças devem ter a oportunidade de escutar diferentes repertórios – os diversos gêneros e estilos musicais, de diferentes épocas e culturas –, sem se limitar àquele dito “infantil”. Devem se envolver também com o ambiente sonoro que as cerca, sempre de forma atenta e sensível. Quanto à forma, as atividades de apreciação devem ser adequadamente dirigidas, pois é de se imaginar que uma criança de 2 anos não seja capaz de sentar-se por mais de um minuto para escutar passivamente uma obra musical. Essa capacidade vai sendo conquistada com o tempo e com oportunidades de relacionar-se com música de forma consciente e prazerosa. Quando pequenas (de 1 a 4 anos), as crianças estabelecem uma relação direta entre escuta musical e movimento. O movimento deve, então, fazer parte das atividades de escuta, conhecidas como escuta ativa (Wuytack; Palheiros, 1995). Nelas, as crianças se envolvem com a obra musical numa dinâmica de escuta com ações corporais específicas: expressão, no corpo, do que está ouvindo, movimento corporal com dança, desenho do som no ar (primeiras atividades de grafia sonora com o corpo) e de outras formas. Tudo é conduzido pelo som, que pode ser uma peça instrumental, uma narração feita pelo professor, uma sequência de sons da natureza ou outros estímulos sonoros que despertem a sensibilidade delas ao som. As atividades de escuta podem ser conduzidas dessa forma e também pela mera escuta de peças curtas, durante toda a educação infantil e no ensino fundamental I. É também importante envolver os alunos desde pequenos em atividades e brincadeiras nas quais a percepção da forma musical é parte do jogo. Na educação infantil, as atividades de percepção da forma devem acontecer envolvendo o corpo, seja com movimento, seja com execução musical (tocando). A partir do 1º ano do ensino fundamental, “é interessante incorporar ao trabalho de escuta a criação de gráficos de registro da forma de uma composição ouvida, assim como é possível registrar graficamente a composição das crianças” (Brito, 2003, p. 186). O uso de figuras, formas e cores no registro das diferentes formas de uma composição é bem-vindo. Confira na Figura 2 um exemplo. 13 Figura 2 – Uso de figuras geométricas para ilustrar a forma musical ABA A B A = Os registros espontâneos das crianças também são importantes. Com o tempo e as experiências, registros mais detalhados vão surgir, conforme ilustrado na Figura 3. Figura 3 – Gráfico de registro da forma de uma composição musical feito por uma criança (Ensino Fundamental 1)Fonte: Brito, 2003, p. 186. Por fim, deve-se dar atenção especial à escolha do repertório, que precisa ser feita com critérios claros, observando-se a adequação às diferentes faixas etárias e os objetivos que se pretende alcançar com a apreciação de determinada obra musical. A apreciação é um dos pilares da educação musical. Como acabamos de ver, ao contrário do que se pode imaginar, as atividades de escuta podem integrar a rotina de atividades musicais desde cedo e ser conduzidas de inúmeras formas, não se limitando ao formato tradicional de escuta passiva. 14 REFERÊNCIAS A PAZ. YouTube, 21 set. 2016. Disponível em: . Acesso em: 04 jan. 2020. ASSUMPÇÃO, S. E. M. de. Ascendência retórica sobre as formas musicais. 141 f. Dissertação (Mestrado em Música) – Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. BENNET, R. Forma e estrutura na música. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986. (Cadernos de Música da Universidade de Cambridge). BRITO, T. A. de. Música na Educação Infantil. São Paulo: Peirópolis, 2003. CARMEN. YouTube, 21 jul. 2009. Disponível em: . Acesso em: 04 jan. 2020. CARMINA Burana. YouTube, 5 mar. 2016. Disponível em: . Acesso em: 04 jan. 2020. COPLAND, A. Como ouvir e entender música. Rio de Janeiro: Artenova, 1974. CORAÇÃO que sente. YouTube, 14 mar. 2012. 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